A eleição e os limites da checagem de fatos

Não deu nem para saída e a sequência acima, do twitter de uma mais das mais respeitadas checadoras do país (inclusive por mim), se não é um jogar de toalha, é demonstração de impotência diante dos estreitos limites do “fact checking” que ficaram patentes nesta eleição. Já ficou claro que mesmo com iniciativas como a do Facebook – no qual a checadora acima está inserida – e do Projeto Comprova, a checagem de fatos tem ainda um longo caminho a percorrer para ser útil – se realmente isso for possível.

Além do fato de não ter acesso às fontes das “fake news”, que são múltiplas, espalhadas e mutantes, a checagem de dados enfrenta dois obstáculos, um de ordem filosófica, outro oriundo da evolução. Como próprio nome da atividade diz, o trabalho se concentra em verificar se as informações que circulam por aí, principalmente nas redes sociais, são verazes e, em caso positivo, se o são completamente ou não. Dessa forma, a abordagem dá como certo que os seres humanos tomam decisões com base em fatos, de maneira racional. Como sabe qualquer humano que já tenha lidado com outro humano, não há nada de mais falso.

Vamos fazer umas continhas (pensou que tinha escapado, hein?). Como a gente define civilização? Há um consenso de que foi quando o homem aprendeu a plantar e, gradativamente, se fixou nos lugares mais férteis e criou as cidades (cidades, civitas em latim, civilização… Ahn? Ahn?). Há uma enorme disputa para saber qual a cidade mais antiga, que, no momento, vem sendo ganha por Jericó, localizada em Israel, que teria cerca de 10 mil anos. Guarde isso.

Agora, quando surgiu o conceito de que devemos racionalmente olhar a natureza? Outro ponto de discórdia, mas, aqui no Ocidente, costumamos pôr o ponto inicial nos filósofos pré-socráticos, que passaram a procurar explicações racionais para os fenômenos (Tales de Mileto, considerado o primeiro, morreu há uns 2.600 anos). Eles, no entanto, não pretendiam provar algo recorrendo a provas físicas, mas em termos mentais, filosóficos (daí também serem conhecidos como “filósofos naturais ou da Natureza”). Ou seja, não procuravam explicações físicas para os fenômenos, não os checavam. Quando isso passou a ocorrer? Como não podia deixar de ser, há discordância nesse ponto também. De minha parte, voto em Galileo Galilei, o primeiro sujeito a teorizar sobre um fenômeno e depois ir lá checar na realidade se a sua teoria fazia sentido – e não fazendo, mudava a teoria (Ok, Leo da Vinci veio antes, mas era disperso demais para ser considerado cientista, era mesmo inventor). Galileo começou a publicar em fins do Século XVI e se tornou realmente famoso no início do XVII (foi processado pela Igreja em 1610).

Então temos que a civilização começou há uns 10 mil anos e a ciência como a conhecemos hoje, que tem como um pilar a checagem, há uns 500. Assim, a ideia de que fatos devem guiar nossas decisões existe há 0,5% do tempo da vida civilizada. Note que estou restringindo muito o período, pois só estou falando do surgimento das cidades para cá, esquecendo os outros milhares de anos durante os quais o “homo sapiens” habita a terceira pedra a partir do Sol (segundo a última contagem, 300 mil). Esse é o obstáculo evolutivo.

Obviamente, cinco séculos é muito pouco tempo para se mudar crenças arraigadas por 9.500 anos antes (no mínimo). Quer ver? Semana passada, na mesa de aniversário de uma amiga, presenciei uma mulher muito inteligente explicando, com o uso de definições com nomes bacanas, por que inferno astral não existe, sendo uma jabuticaba brasileira. Era uma astróloga. Astrologia…Uma “ciência” que afirma que uma pessoa nascida entre 23 de outubro e 21 de novembro é do signo de Escorpião e, por isso, tem sua personalidade determinada pela influência de uma constelação cuja estrela principal, Antares, está a 619,7 anos-luz da Terra. Prova empírica, passível de checagem? Nenhuma. Mas centenas de milhares (talvez dezenas de milhões) de pessoas em todo o mundo acreditam.

Esse é o limite da checagem de fatos, mais do que ter ou não acesso aos algoritmos de criptografia do What’s up (único modo de combater de verdade as “fake news” em aplicativo de mensagem instantânea é esse, para saber a fonte do boato, o que implicaria acabar com o produto, que tem como um de seus pontos de atração a suposta inviolabilidade das conversas enviadas por seu intermédio). As pessoas acreditam em algo não porque haja fatos a corroborá-los, mas por que têm experiências e preconceitos que a fazem escolher os fatos nos quais acreditar (e receber a aprovação do grupo, como você deve ter lido no link sobre o obstáculo evolutivo). Há assuntos (e mentes) em que os fatos pesam mais do que outros, claro, mas política certamente não é um deles.

Quero dizer que a checagem de dados deve acabar? Nada disso. Não só deve continuar como ser ampliada, passando a checar também empresas, associações de classe e ONGs, por exemplo, além de políticos. O que não pode, a meu ver, é mostrar-se como panaceia para evitar “fake news” e árbitro da verdade. Essa pretensão não passa pelo mais frágil processo de checagem.

O “conto do JN”

Caiu o bobo na casca do ovo…

Há duas semanas, tinha aqui no blog cerca de 400 assinantes. Na sexta passada, por acidente, dei uma olhada e tomei um susto – eles já passavam de 4.200. Creio que o motivo para este salto triplo carpado para frente com dupla pirueta foi o post dando conta da vitória de Dona Míriam na primeira seletiva do King of the Kings, com a cascata de ter se transformado em boneca de ventríloquo na entrevista do Fascista na Globonews. Promovi o post no perfil da Coleguinhas no Facebook e a foto em que ela era comparada a Chico Xavier deve ter chamado muita atenção. Deu para notar, porém, que a maioria esmagadora dos novos assinantes é de não-jornalistas e é para eles que este post é dirigido, embora os coleguinhas também possam aproveitá-lo, especialmente lá para o fim.

Para quem não é jornalista, pode parecer que os encontros de William Bonner e Renata Vasconcellos com os presidenciáveis foram entrevistas jornalísticas. Só que não: não foram entrevistas e muito menos jornalismo. Meus professores Nilson Lage e João Batista Abreu devem me corrigir se estiver falando bobagem, como naquele tempo, mas na faculdade (ao menos nas boas), ensina-se que, numa entrevista, você faz as perguntas e deixa a pessoa falar, procurando as contradições e os chamados “vazios do discurso” – aquilo que o cara quer esconder em meio às palavras.

Uma vez identificadas essas falhas discursivas, você vai em cima. Pode até interromper se sacar que a pessoa está tentando “roubar” seu tempo, enrolar, mas de forma educada (se der, até com bom humor, mas sem sarcasmo), não só por dever de civilidade, mas como tática: falando com educação, a pessoa sente que foi pega, mas terá dificuldade de reagir agressivamente, pode desequilibrar-se e vacilar ainda mais.

Esse é um tipo de entrevista, a mais agressiva, que eu usava com outros profissionais do discurso como políticos, delegados, advogados, economistas etc. Há outras, mais brandas, mas em todas a ideia é que você se apague durante uma parte do diálogo (é diálogo, sabe? Não monólogo) para que o outro mostre sua verdadeira face por meio do que fala e, principalmente, do que deixa de falar.

O que Bonner & Vasconcellos fizeram assemelhou-se mais um interrogatório de promotores num tribunal de filme americano do que a qualquer entrevista ou tipo de diálogo. Porém, mesmo como interrogatório de filme foi ruim – nestes, o promotor faz as perguntas e deixa a testemunha falar para que ela se enrole e ele caia em cima (sim, parece com a entrevista agressiva que descrevi acima). Ao impedir os presidenciáveis de falar (pelo menos os que não são amigos da casa, como Alckmin e Marina, pouco interrompidos), os apresentadores do JN mostraram que não estavam ali para ajudar os telespectadores/eleitores a conhecerem melhor os programas e as ideias dos presidenciáveis.

Mas para que então as tais “entrevistas”? A tabela abaixo (que abrange apenas os mercados da Grande São Paulo e do Grande Rio), retirada do site do Kantar Ibope Mídia é uma pista:

Como se pode observar a audiência do JN já não é mais aquela de uns 20 anos atrás, nem mesmo de 10 anos. O percentual médio de domicílios que assistem ao telejornal é de 27,5%, com pico no mercado do DF, com 32%, e vale no da vizinha Grande Goiânia, com 19,9%. Já o percentual médio de indivíduos que vê efetivamente o programa é de 12,8% – isso quer dizer que para se ter certeza de que pelo menos uma pessoa assiste o JN é preciso contar oito domicílios dentre aqueles que o estejam assistindo. No entanto, a Covariância Individual (COV individual) – ou seja, o número de pessoas que é impactado pelo programa, mesmo não o tendo visto diretamente (por meios de comentários em redes sociais, na copa do trabalho, na carona, com o vizinho….) é de 47,1%. Ou seja, aquela pessoa que efetivamente assistiu ao telejornal tende a comentar com outras 3,68 o que viu. É claro que, se o que for visto for um bate-boca entre Bonner&Vasconcellos e presidenciável, esse índice será certamente maior.

É isso mesmo que você entendeu, meu caro/minha cara: a “entrevista” do JN não foi para esclarecê-lo/la a fim de que você vote melhor, com mais consciência, mas apenas para “causar” e alavancar a influência do JN, aumentando assim sua capacidade de atrair anunciantes. E você que foi para a sua rede social favorita comentar o bate-boca em tempo real (a chamada “segunda tela”)…Bem, você caiu no conto.

Os deuses das “fakes news”

“Fake news” são os outros

A pouco mais de dois meses das eleições presidenciais que podem definir o futuro do Sudão do Oeste (ou seu sepultamento definitivo), os principais veículos de comunicação tradicionais iniciam um avanço para retomar o “monopólio da fala” por meio um ataque maciço, tipo “blitzkrieg”, contra a incipiente e confusa democratização da comunicação que poderia ser propiciada pela internet. Três movimentos realizados nos últimos meses – o lançamento do projeto Comprova, a divulgação das diretrizes de comportamento dos jornalistas do Grupo Globo nas redes sociais e ampliação do “É ou Não É” do G1 para o “Fato ou Fake”, que engloba todos os veículos do grupo – são, em minha visão, mais convergentes do que divergentes e, muito possivelmente, complementares.

Primeiro, o Comprova. Lançado em 28 de junho, e iniciando sua atividade oficialmente amanhã (6 de agosto), o projeto é financiado pelo Google News Iniciative e o Facebook’s Journalism Project, idealizado pela First Draft – projeto do Shorenstein Center on Media, Politics and Public Policy da John F. Kennedy School of Government da Universidade de Harvard, financiado, entre outros, pela Open Society, de George Soros, que parece estar em todos os projetos que envolvam comunicação -, com apoio da Abraji e do Projor. A ideia anunciada é de combater a “desinformação” que campeia nas redes sociais.

Objetivo dos mais meritórios, mas que, de saída, esbarra em alguns problemas, que já enumerei na página da Coleguinhas no Facebook, além de outros apontados por gente bem mais esperta do que eu (sem contar, claro, a presença de George Soros). Na verdade, o projeto já começa com um erro de checagem – afirma que são 24 veículos que o compõem. Mais ou menos: são 24 veículos, mas que pertencem a 16 grupos e empresas, pois o Grupo Band está representado por quatro (Band TV, Rádio Bandeirantes, Band News e Band News FM), o Grupo Folha por dois (Folha e Uol), e a Abril por dois (Exame e Veja).

Outra questão é a concentração geográfica dessas empresas e grupos. Treze ficam de São Paulo para baixo: nove têm sede em São Paulo (Band, Folha, Estado, Metro, Piauí, Nexo, Abril, UOL e SBT), dois no Rio Grande do Sul (Correio do Povo e GaúchaZH), um é do Paraná (Gazeta do Povo) e um de Santa Catarina (NSC Comunicação), ficando fora do eixo SP-Sul apenas Espírito Santo (Gazeta On Line), Brasília (Poder360), Pernambuco (Jornal do Comércio) e Ceará (O Povo). O problema é que esse desequilíbrio regional tende a criar um viés de cobertura, especialmente porque o projeto encoraja o compartilhamento de sua checagens por veículos que não fazem parte dele.

Esse viés de cobertura já seria ruim, mas há um pior. Considere o mapa abaixo, do resultado final do segundo turno das eleições presidenciais de 2014:

Agora compare os estados em que o candidato do PSDB foi mais votado com os estados em que se encontram os veículos participantes do Projeto Comprova. Pois é: 22 dos 24 têm sua sede nos estados em que os tucanos venceram. E não se diga que não tem nada a ver – no próprio site está dito que a operação foi marcada para começar em 6 de agosto, exatamente por ser a segunda-feira posterior ao prazo final para a indicação das chapas que disputarão a Presidência da República: “O foco inicial do Comprova é a eleição presidencial no Brasil, cuja campanha começa oficialmente em agosto.”

Antes de todos esses senões do Projeto Comprova, um outro chamara minha atenção, como estava no ponto um do post da página da Coleguinhas: a ausência do Grupo Globo. Como o maior grupo de comunicação do país não estava presente num projeto destinado a atacar a disseminação de notícias falsas na internet? A primeira parte da resposta veio logo depois com a inacreditável cartilha que determina como os jornalistas do Grupo Globo devem comportar-se nas mídias sociais, que você pode ler abaixo, junto com as justificativa para a sua edição, assinada por João Roberto Marinho:

A cartilha do Grupo Globo, ao tornar, na prática, seus jornalistas cidadãos de segunda classe por cassar-lhes o direito à livre expressão, fecha ainda mais o cerco à dissidências democráticas na internet brasileira, que começara com o projeto do Facebook envolvendo três agências de checagem brasileiras e que já disse ao que veio.

No entanto, o cerco ainda não estava completo, pois o GG não participa do Projeto Comprova. Agora está. No dia 30 passado, o Grupo dos Marinho lançou a sua versão do Comprova – o “Fato ou Fake”. É praticamente igual ao irmão um tanto mais velho, com um aperfeiçoamento – um robô que espalhará as checagens do Grupo Globo que fazem parte da iniciativa (CBN, Época, Extra, G1, Rede Globo, Globonews, O Globo e Valor). O Comprova não tem essa funcionalidade, mas o também recém-lançado robô Fátima, cria da parceria do quase onipresente e onisciente Facebook com a agência de checagem Aos Fatos, pode bem suprir essa carência por vias transversas, já que a empresa de Mike Zuckerberg dá suporte a ambas.

Como, pelo que os próprios criadores dos projetos deixam a entender, apenas os posts das redes sociais são as criadoras e disseminadoras de notícias falsas, segue-se que as notícias publicadas por qualquer um dos veículos componentes das duas iniciativas – Comprova e “Fato ou Fake” – não serão checadas. Parte-se do pressuposto que esses veículos, ligados a grupos hegemônicos de comunicação do país, sempre dizem a verdade e/ou trabalham com fatos. Não estão e nunca estarão sob suspeita, ao contrário de qualquer outro que não faça parte desse restrito clube. Dessa forma, não há opção: será “fake news” o que os 24 veículos do Comprova e os oito do Grupo Globo disserem que é. E fim de papo.

O dia em que tomei “caneta” de uma garota

Manu na cova das hienas

Num post na página da Coleguinhas no Facebook, coloquei em dúvida a sabedoria de Manuela D’Ávila em ir a um covil como é o Roda-Viva, programa que um dia já teve relevância por suas boas entrevistas, mas que, desde 2013, quando começou a ser ancorado por Augusto Nunes, não pratica jornalismo e, por este motivo, deixou de ter audiência (houve uma exceção que diz muito sobre essa fase). Assim, ninguém vai ao Roda-Viva em busca de apresentar projetos para a população ou responder perguntas “neutras, imparciais e objetivas”, segundo o cânone ideológico do jornalismo. Vai para ser bajulado ou tomar porrada. Manu e seus marqueteiros sabem bem disso – então por que ela foi lá?

A resposta ao singelo comentário foi surpreendente. Com um nível de agressividade que jamais tinha visto, pessoas que se diziam de esquerda – ecoando muito de perto aquelas de direita – responderam, com presteza dignas de “ciborgues”, aqueles humanos que controlam contas robôs nas redes sociais (desconfio que alguns são mesmo, dado os perfis que fui verificar). O fato acendeu a luz amarela e resolvi pensar melhor na questão e fuçar um pouco.

Manu e seus assessores podem ser muita coisa, inclusive defensores do estalinismo (o PCdoB ainda defende a linha albanesa de Enver Hoxha?), mas burros não são. Assim, como escrevi acima, eles sabiam o que ia acontecer no Roda-Vida. É impensável, por exemplo, que a Manu não tivesse conhecimento de que haveria um “bolsominion” de alto escalão entre os entrevistadores porque a primeira pergunta de qualquer assessor recém-saído da faculdade, quando recebe demanda para um debate, é: “Quem vai estar lá?”. E só leva o convite ao cliente depois que checar cada nome em profundidade – e, no dia, certificar-se que o “line-up” foi mantido. Dessa forma, Manu não foi surpreendida com nada do que sofreu ali, nem mesmo com “manterrupting”.

“Ok, então mas por que foi?”, perguntará você. Exatamente para sofrer o bullying que sofreu, respondo.

Pelo levantamento semanal da Factual Informação e Análise e da AJA Media Solutions, o discurso feminista é que tem mantido Manu entre os candidatos mais relevantes no twitter (o levantamento não abrange o facebook), mesmo ela tendo apenas 1% das intenções de voto, um feito e tanto de marketing viral. Perdeu essa posição na semana de 8 a 15 de junho, recuperou-se na semana seguinte, mas tinha um problema – estava previsto que, no dia 26, Lula seria julgado pela segunda turma do STF, podendo ser solto. O julgamento não aconteceu devido a uma manobra de Verme Fachin, mas foi pensando nele, e na exposição que Lula novamente teria, que Manu aceitou ir para aquela arena como cristãos iam para o Coliseu. Como a sorte ajuda os competentes, Lula não foi julgado e a jogada que a candidata e seus marqueteiros montaram saiu melhor do que a encomenda – ela reinou sozinha no campo da esquerda como a vítima esquerdista (e feminista, não esqueça) da semana.

Confesso que tenho um fraco por gente competente (desculpe, professora Marilena Chauí) e por isso fiquei encantado com a jogada brilhante de Manu. Ela me enganou direitinho. Na gíria do futebol, “caneta” é a bola entre as pernas, o drible mais desmoralizante do jogo (mais do que o lençol). Pois é. Levei “caneta” de uma garota e estou aqui para aplaudir.

Abril despedaçada

Mais uma semana em que não poderei voltar aos números da Pesquisa Brasileira de Mídia-2015 (PBM-2015), da Secom. Não comemore, porém – vai ter numeralha sim, mas sobre um dos assuntos top da semana no nosso setor (junto com o anúncio d’ O Boticário): a nova rodada de cortes da Abril, cuja crise tem se tornado uma habituée  daqui.

Primeiro, a boa notícia. Há uma possibilidade de os Civita terem terminado de passar a faca nos postos de trabalho, ao menos por enquanto. É que a Abril praticamente abriu mão de ter revistas semanais de entretenimento. Com a nova “reestruturação”, a editora ficou apenas com a “Veja” entre os 10 títulos semanais mais vendidas no país em março, o último dado que obtive (em amarelo, os da Editora Caras, incluindo os seis que obteve da Abril nesta última leva) :

01_crise na abril_10 revistas semanais mais vendidas em marco_2015

Não é bolinho. Se você juntar as revistas semanais detonadas pela Abril, verá que elas somavam, em março, a circulação total de 762.698 exemplares (incluindo edições digitais), 20,51% dos 3.719.028 (também incluindo o mundo digital) de semanais que circularam naquele mês. Os Civita passaram, nos últimos meses, para a Editora Caras – da qual também são acionistas (o que você queria?) -, as revistas colocadas entre a segunda e a sexta colocações no ranking das semanais de Entretenimento (“Ana Maria”, “Ttititi”, “Contigo”, “Viva Mais” e “Minha Novela”, respectivamente). Como a Caras já era dona da líder (a publicação com o mesmo nome da editora), tornou-se dominante no segmento.

A Abril, assim, concentrou-se nas revistas mensais, onde nada de braçada:

02_crise na abril_10 revistas mensais mais vendidas em fevereiro de 2015

Por que toda essa prestidigitação com os títulos? Bom, essa é a notícia ruim.

Na página 5 do balanço de 2014, os auditores da PWC fizeram questão de abrir o intertítulo “Ênfase”, no qual destacam que a companhia a Editoria Abril teve prejuízo de R$ 139,2 milhões (contra R$ 166,6 milhões em 2013), apresentando ainda um patrimônio líquido negativo de R$ 265 milhões (ou seja, as dívidas da empresa superam o seu patrimônio nesse valor) e também excesso de passivos sobre o ativo circulante no montante de R$ 386,7 milhões (isso quer dizer que se todos os credores da Abril resolverem cobrar seus créditos durante o ano de 2015, mesmo aqueles que vencem no futuro, haverá um buraco de quase R$ 400 milhões). E há ainda os impostos diferidos (reconhecidos, mas ainda não pagos, como permitido em lei), no valor de R$ 111,7 milhões.

Na mesma nota, os auditores da PWC garantem ter ouvido dos Civita que, caso necessário, eles aportarão capital para sanar 70%, o percentual que lhes pertence do capital da empresa, das dívidas. O resto? Bom, os credores teriam que correr atrás dos sul-africanos do Naspers que compraram 30% da Abril em 2006. Mas quem trabalha na companhia não precisa ficar nervoso – ninguém vai cobrar porque pior do que uma empresa com um buraco de R$ 400 milhões na contabilidade é uma empresa em concordata com um buraco de R$ 400 milhões na contabilidade

Para você ter uma ideia de como a Abril chegou a essa situação, segue um apanhado dos resultados da companhia desde 2011, ano em que foi adotado no Brasil o International Financial Reporting Standards (IFRS), as normas internacionais de contabilidade:

03_crise na abril_resultados 2011_2014

04_crise na Abril_gráfico resultados_2011-2014

Da maneira que vejo a coisa, a manobra dos Civita de passarem os títulos das semanais para a Caras e focarem a Abril nas revistas mensais tem dois alvos:

Estratégico: Vai que a situação piora (o motivo principal para a deterioração seria o que está no último parágrafo) e ter títulos valiosos fora do seu controle (em termos legais, embora não reais) é uma espécie de poupança num HSBC da Suíça, pois os títulos valem uma bela grana.

Operacional: Revistas semanais são, vamos dizer, de “alta intensidade” – precisam de uma produção mais veloz e, portanto, com maior número de profissionais envolvidos (jornalistas, gráficos, administrativos etc) e uma logística mais complicada do que as mensais, cujo prazo de produção menor permite a sua realização por equipes fixas menores. De outro lado, as mensais (pelo menos as que a Abril manteve) possuem um valor maior no mercado publicitário por serem fortemente segmentadas e terem uma vida útil bem maior.

Nesse caso último por que não passar a “Veja” nos cobres também? Por dois motivos básicos:

1. A revista é a joia da coroa e sua venda tenderia a ser considerada o fim da linha da Abril. Aí, aqueles credores lá de cima correriam o mais rápido possível para pegar um bom lugar no cartório de protestos, e os Civita para longe o mais rápido que seus jatinhos o permitissem;

2. A “Veja” é a única arma de grosso calibre que os Civita ainda têm para chegar aos cofres públicos, como já acontece em São Paulo e voltaria a ocorrer caso um tucano vença as eleições presidenciais em 2018, em nível federal.

Se o PSDB amargar a quinta derrota consecutiva para o PT? Bem, aí duvido muito que a Abril sobreviva à terceira década do Século XXI.

O “blackblocômetro” da Folha e o próximo golpe

Você pode achar difícil de acreditar, mas há coleguinhas mais paranoicos do que eu e eles não estão internados. Mesmo casos claramente clínicos, que necessitam ajuda profissional séria, estão nas redações e produzindo boas matérias – até porque, como se diz, “o fato de a pessoa ser paranoica não quer dizer que ela não esteja mesmo sendo seguida”. E esse é o caso agora: reavalio a minha posição e passo a considerar, se não provável, pelo menos possível, a possibilidade de haver uma tentativa de golpe no Brasil.

O ponto de inflexão foi a criação, pela Folha de São Paulo, do “blackblocômetro”. Falei dele na terça passada (aqui), comparando-o ao “lulômetro”, índice criado pelo banco Goldman Sachs para espalhar o terror entre os investidores no país durante a eleição de 2002 e faturar uma grana em cima. No caso da Folha, a ideia é, claramente, é deixar o país mais tenso nos próximos meses, a fim de canalizar os protestos, que fatalmente virão na esteira da Copa, contra o governo Dilma, a fim de facilitar a eleição de um de seus colunistas (Aécio Neves) ou, se não for possível, Eduardo Campos, também comprometido com a agenda conservadora para o país, embora menos do que Aécio.

Mas mesmo se, contra esse fogo todo, Dilmão se reeleger, como é que fica? Não haveria problema, apesar dos 16 anos seguidos de governos petistas, se a derrota de 2018 não fosse mais do que provável, com a candidatura do Nove-Dedos. Essa perspectiva seria desesperadora para os barões da mídia e seus asseclas espalhados pelas camadas mais abastadas da sociedade brasileira tão bem representadas, nos veículos de comunicação, por Rachel Shererazade, Reinaldo Azevedo, Demétrio Magnoli e quejandos. Com essa derrota no horizonte não é improvável que os barões começassem a tramar um golpe de estado para os próximos anos.

Agora, as boas notícias.

Não será fácil os barões montarem um golpe como aquele de que participaram há exatos 50 anos. Os obstáculos seriam muitos:

1. Excesso de experiência: Como está se vendo esse ano, o Golpe de 64 ainda não foi superado, muito pela resistência dos próprios barões e das Forças Armadas em admitirem suas culpas na triste experiência pela qual passaram os brasileiros por 21 anos. É bem pouco provável que, com esse sofrimento ainda fresco na memória, estamentos importantes da sociedade – como a Igreja e a maior parte da sociedade civil – entre nessa canoa furada mais uma vez.

2. Falta de contexto: Em 64, havia o contexto da Guerra Fria e os americanos faziam qualquer negócio para impedir que os vermelhos saíssem de debaixo das camas, especialmente no seu quintal América Latina pós-Cuba. Hoje, eles têm muito mais com que se preocupar com a ascensão da China, a sempre incômoda Rússia e os radicais islâmicos, sem falar na sua clara decadência econômica e social interna, algo que, há 50 anos, nem em seus piores pesadelos eles pensariam enfrentar.

3. Falta de grana: Sem o incentivo ideológico da Guerra Fria e enfrentando desafios complexos em diversas partes do mundo, inclusive em casa, que não existiam há cinco décadas, os americanos não têm motivação para coçar o bolso a fim de financiar uma aventura golpista, mesmo em seu quintal, e, como se sabe, não se constrói um golpe na América Latina sem a grana deles. E não é pouca bufunfa não. É só lembrar que os protagonistas do Golpe sempre disseram que havia dólares a rodo à disposição para derrubar Jango, sem contar a esquadra da Operação Brother Sam.

4. Falta de armas: Entre esses gatos escaldados que citei no item 1, os mais proeminentes talvez sejam os militares. Parece haver, hoje, o consenso entre eles que foram usados como bucha de canhão pelos norte-americanos na Guerra Fria e pelos plutocratas brasileiros (entre eles os barões da mídia) para construírem essa concentração de renda obscena que caracteriza do Brasil. É pouco provável que a alta hierarquia das três Armas adira a um novo golpe e, sem militares, não há golpe de Estado em lugar nenhum do mundo, pois não se organiza um sem armas.

 

Assim, embora agora concorde com os meus amigos (mais) paranoicos de que passará pela cabeça dos barões da mídia a ideia de um golpe – se é que já não está passando, como indica o “blackblocômetro” da Folha -, acho muito difícil sua execução com sucesso. Ainda assim, “pelo sim, pelo não, pelo quem sabe, pelo talvez” (by Odorico Paraguassú) é bom ficar de olho aberto para as próximas iniciativas dos barões da mídia que visem balançar o coreto da democracia que tentamos construir no Brasil.

Propostas concretas para reforma política – II

Aqui vai a meu segundo pitaco sobre a fundamental, essencial, cosmicamente importante reforma política pela qual precisamos enfrentar se quisermos mesmo que o Brasil passe a um nível superior de desenvolvimento, o humano.

Como aconteceu com a proposta de financiamento público, essa proposta, sobre o sistema eleitoral, foi postada na seção de reforma política do e-democracia, canal internet aberto pela Câmara dos Deputados para que depois não se diga que não havia como pelo menos tentar influir no que o Congresso anda fazendo (ou não) a respeito do tema – aliás, na quinta está previsto o início das deliberações na Comissão de Reforma Política. É bom ficar de olho, apesar de os veículos de comunicação não estarem dando atenção ao tema, por motivos óbvios, que podem ser deduzidos pelas posições de tucanos, peemedebistas e alguns petistas sobre o assunto – todos radicalmente contra que se mexa em time que está ganhando, no caso, o deles.

Em minha avaliação, a proposta não está tão bem amarrada quanto a do financiamento de campanha, até por ser bem mais complexo. No entanto, creio é um ponto de partida para a discussão. Dá uma olhada.

DIREITO AO VOTO
– O voto será facultativo. O alistamento eleitoral será obrigatório, mas o exercício do voto não.

SISTEMA ELEITORAL
-A escolha dos representantes na Câmara Federal, das Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais serão realizadas por distritos.

– Para a primeira eleição sob o novo sistema, o número mínimo de eleitores por distrito será definido pela divisão do número total de eleitores alistados para o pleito geral imediatamente anterior pelo número de deputados federais (513). A norma será adaptada à eleição de deputados estaduais e vereadores, obedecendo ao critério de proporcionalidade.

– A cada 10 anos, a partir de 2021, os números de distritos e os eleitores poderão ser atualizados, a critério do TSE, tendo como base os dados do Censo mais recente.

– A delimitação geográfica dos distritos será definido pelo TSE, ouvindo-se especialistas do IBGE e de outras entidades, na áreas de geografia e demografia, em audiências públicas.

– A delimitação dos distrito será revisada, a cada 10 anos, pelo TSE, seguindo o mesmo processo de audiências públicas.
ELEIÇÃO PARA DEPUTADOS FEDERAIS, ESTADUAIS E VEREADORES

– Cada distrito elegerá um candidato, ficando como suplentes o segundo e o terceiro candidatos com mais votos.

– Não serão permitidas coligações.

– Cada partido só poderá indicar um candidato por distrito.

– Os candidatos dos partidos a cada distrito serão indicados por convenção partidária a ser realizada até seis meses antes do pleito.

– Serão permitidas candidaturas avulsas.

– Serão garantidos, no mínimo, três distritos por estado, para Câmara Federal, de modo a garantir, ao menos, três deputados para cada um.

– O deputado ou vereador eleito poderá perder o seu mandato, caso haja uma petição popular que reúna as assinaturas de 2/3 dos eleitores alistados no momento da eleição no distrito pelo qual ele foi eleito. Da petição deverá constar o nome, o CPF e o endereço dos peticionários e ela deverá ser entregue até a data que marque os dois anos de diplomação do eleito. Petições por internet serão válidas, desde que acompanhadas do CPF e do endereço do peticionários e sejam validadas por assinaturas digitais.

– A petição será automaticamente aceita pela Casa a que for dirigida (Câmara Federal, Assembleia Legislativa ou Câmara dos Vereadores), que, imediatamente, marcará nova eleição para a escolha do parlamentar que terminará o mandato, sendo vedada a condução automática de qualquer dos suplentes. Estes, no entanto, poderão concorrer à eleição complementar.

– O deputado ou vereador que perder o mandato por meio de petição popular não poderá participar da eleição complementar e nem de qualquer eleição subsequente, por um período de quatro anos.
ELEIÇÃO PARA O SENADO

– Serão eleitos três senadores por estado, independente do número de eleitores.

– O mandato de Senador será de quatro anos, sendo permitida uma reeleição.

– Não serão permitidas coligações.

– Cada partido da coligação indicará, no máximo, três candidatos ao Senado, que concorrerão de maneira individual, sendo vedada a composição de chapas.

– Serão permitidas as candidaturas avulsas.

– Serão eleitos os candidatos que obtiverem o maior número de votos, ficando na suplência os candidatos mais votados que se seguirem imediatamente aos eleitos.

– O Senador eleito poderá perder o mandato caso haja uma petição popular que reúna as assinaturas de 2/3 dos eleitores alistados no momento da eleição no Estado pelo qual foi eleito. Da petição deverá constar o nome, o CPF e o endereço dos peticionários e deverá ser entregue até a data que marque os dois anos de diplomação do eleito. Petições por internet serão válidas, desde que acompanhadas do CPF e do endereço do peticionários e sejam validadas por assinaturas digitais.

– A petição será automaticamente aceita pela Mesa Diretora do Senado, que, imediatamente, marcará nova eleição para a escolha do parlamentar que terminará o mandato, sendo vedada a condução automática de qualquer dos suplentes. Estes, no entanto, poderão concorrer à eleição complementar.

– O Senador que perder o mandato por meio de petição popular não poderá participar da eleição complementar e nem de qualquer eleição subsequente, por um período de oito anos.
ELEIÇÃO PARA OS EXECUTIVOS (Presidente, Governador e Prefeito)

– O mandato será de cinco anos, sem direito à reeleição.

– Será permitida a coligação de até 3 partidos.

– O tempo de televisão e rádio da coligação será aquele do partido que tiver, individualmente, o maior tempo.

– Os tempos de televisão e rádio que forem descartados pela criação de coligações serão somados e divididos, igualmente, por todos os partidos e coligações que disputem as eleições.