Coleguinhas, o começo

Andréa era psicóloga, extremamente inteligente, dois fatos que reduziam a um nível próximo a zero a diferença de idade (35 x 23). Como, então, poderia impressioná-la? A resposta poderia estar na forma como nos conhecemos – a internet. Ela era estagiária do RH do Globo, eu, pauteiro do jornal, e nos conhecemos devido à palavra chave com o nome da empresa que pus no sistema Bulletin Board System (BBS) – um sistema de troca de mensagem (fósforo verde sobre tela preta) que existia na era do bit lascado – do provedor CentroIn.

Só que o caminho digital de sedução não seria por meio do primitivo – embora muito eficiente – BBS. Por ele, já tinha feito o possível, por meio de copiosas conversas, de telas e mais telas. Teria que seguir por outra senda e a mais promissora parecia ser a tal World Wide Web, que fora aberta á exploração comercial nove meses antes, em setembro de 1995. Não parecia ser complicado criar uma página, com se chamava o modo de apresentação – a tal linguagem de programação sequer era uma, não passando de uso de marcadores. Bem simples, mesmo para caras um tanto idiotas como eu.

Ok, mas falar do quê na tal página? A primeira ideia foi escrever sobre pintura. Tenho paixão por esse tipo de arte, embora entenda nada dela. Havia um tremendo obstáculo, porém. Não havia, como hoje, uma imensa coleção de obras digitalizadas e, assim, teria que obtê-las de outro modo. Fui a sebos procurar livros sobre o assunto e achei vários. No entanto, bati de frente em outro muro. Para tirar as imagens do papel e passá-las para o computador, teria que comprar um escâner – e os de mesa, naquele tempo, custavam algo em torno de R$ 4 mil. Havia os de mão, mas, além da dificuldade de manuseio, o resultado era mais do que sofrível. Não ia dar para escrever sobre a minha arte plástica favorita.

Então sobre o quê falaria? Não entendia muito de nada (jornalista raramente entende muito sobre qualquer assunto, embora se venda como especialista). E que tal jornalismo? Era do que sacava mais, por já ter, àquela altura, 14 anos de profissão. Ninguém iria se interessar, já que não havia praticamente jornalista acessando a internet? E daí? Não era esse o objetivo, era? A meta era impressionar Andréa, não esqueça.

Foi assim que surgiu a “Coleguinhas, Uni-Vos”, nome que uniu a maneira como os profissionais da confraria se chamavam uns aos outros, pelo menos no Rio, num misto de reconhecimento profissional e (auto)ironia, o fim da famosa convocação marxiana. O primeiro pouso foi num endereço da Geocities, um site de hospedagem de sites assassinado à traição pelo Yahoo, em 2009 (a partir daí, vibro a cada notícia que essa empresa passa por dificuldades): http://www.geocities.com/CapitolHill/4096. Essa foi a localização até 2003, quando transformou-se neste blog hospedado na WordPress, e tinha esta cara uma semana antes do atentado às Torres Gêmeas.

 

 

Caso tenha interesse em saber mais algumas histórias sobre a Coleguinhas, incluindo alguns embates que a fizeram ganhar um monte de seguidores de modo algo imerecido, leia o texto escrito por ocasião dos 18 anos de criação.

Hã? O quê? Se consegui impressionar Andréa? Bem, não sei…Mas ficamos juntos 10 anos.