Os deuses das “fakes news”

“Fake news” são os outros

A pouco mais de dois meses das eleições presidenciais que podem definir o futuro do Sudão do Oeste (ou seu sepultamento definitivo), os principais veículos de comunicação tradicionais iniciam um avanço para retomar o “monopólio da fala” por meio um ataque maciço, tipo “blitzkrieg”, contra a incipiente e confusa democratização da comunicação que poderia ser propiciada pela internet. Três movimentos realizados nos últimos meses – o lançamento do projeto Comprova, a divulgação das diretrizes de comportamento dos jornalistas do Grupo Globo nas redes sociais e ampliação do “É ou Não É” do G1 para o “Fato ou Fake”, que engloba todos os veículos do grupo – são, em minha visão, mais convergentes do que divergentes e, muito possivelmente, complementares.

Primeiro, o Comprova. Lançado em 28 de junho, e iniciando sua atividade oficialmente amanhã (6 de agosto), o projeto é financiado pelo Google News Iniciative e o Facebook’s Journalism Project, idealizado pela First Draft – projeto do Shorenstein Center on Media, Politics and Public Policy da John F. Kennedy School of Government da Universidade de Harvard, financiado, entre outros, pela Open Society, de George Soros, que parece estar em todos os projetos que envolvam comunicação -, com apoio da Abraji e do Projor. A ideia anunciada é de combater a “desinformação” que campeia nas redes sociais.

Objetivo dos mais meritórios, mas que, de saída, esbarra em alguns problemas, que já enumerei na página da Coleguinhas no Facebook, além de outros apontados por gente bem mais esperta do que eu (sem contar, claro, a presença de George Soros). Na verdade, o projeto já começa com um erro de checagem – afirma que são 24 veículos que o compõem. Mais ou menos: são 24 veículos, mas que pertencem a 16 grupos e empresas, pois o Grupo Band está representado por quatro (Band TV, Rádio Bandeirantes, Band News e Band News FM), o Grupo Folha por dois (Folha e Uol), e a Abril por dois (Exame e Veja).

Outra questão é a concentração geográfica dessas empresas e grupos. Treze ficam de São Paulo para baixo: nove têm sede em São Paulo (Band, Folha, Estado, Metro, Piauí, Nexo, Abril, UOL e SBT), dois no Rio Grande do Sul (Correio do Povo e GaúchaZH), um é do Paraná (Gazeta do Povo) e um de Santa Catarina (NSC Comunicação), ficando fora do eixo SP-Sul apenas Espírito Santo (Gazeta On Line), Brasília (Poder360), Pernambuco (Jornal do Comércio) e Ceará (O Povo). O problema é que esse desequilíbrio regional tende a criar um viés de cobertura, especialmente porque o projeto encoraja o compartilhamento de sua checagens por veículos que não fazem parte dele.

Esse viés de cobertura já seria ruim, mas há um pior. Considere o mapa abaixo, do resultado final do segundo turno das eleições presidenciais de 2014:

Agora compare os estados em que o candidato do PSDB foi mais votado com os estados em que se encontram os veículos participantes do Projeto Comprova. Pois é: 22 dos 24 têm sua sede nos estados em que os tucanos venceram. E não se diga que não tem nada a ver – no próprio site está dito que a operação foi marcada para começar em 6 de agosto, exatamente por ser a segunda-feira posterior ao prazo final para a indicação das chapas que disputarão a Presidência da República: “O foco inicial do Comprova é a eleição presidencial no Brasil, cuja campanha começa oficialmente em agosto.”

Antes de todos esses senões do Projeto Comprova, um outro chamara minha atenção, como estava no ponto um do post da página da Coleguinhas: a ausência do Grupo Globo. Como o maior grupo de comunicação do país não estava presente num projeto destinado a atacar a disseminação de notícias falsas na internet? A primeira parte da resposta veio logo depois com a inacreditável cartilha que determina como os jornalistas do Grupo Globo devem comportar-se nas mídias sociais, que você pode ler abaixo, junto com as justificativa para a sua edição, assinada por João Roberto Marinho:

A cartilha do Grupo Globo, ao tornar, na prática, seus jornalistas cidadãos de segunda classe por cassar-lhes o direito à livre expressão, fecha ainda mais o cerco à dissidências democráticas na internet brasileira, que começara com o projeto do Facebook envolvendo três agências de checagem brasileiras e que já disse ao que veio.

No entanto, o cerco ainda não estava completo, pois o GG não participa do Projeto Comprova. Agora está. No dia 30 passado, o Grupo dos Marinho lançou a sua versão do Comprova – o “Fato ou Fake”. É praticamente igual ao irmão um tanto mais velho, com um aperfeiçoamento – um robô que espalhará as checagens do Grupo Globo que fazem parte da iniciativa (CBN, Época, Extra, G1, Rede Globo, Globonews, O Globo e Valor). O Comprova não tem essa funcionalidade, mas o também recém-lançado robô Fátima, cria da parceria do quase onipresente e onisciente Facebook com a agência de checagem Aos Fatos, pode bem suprir essa carência por vias transversas, já que a empresa de Mike Zuckerberg dá suporte a ambas.

Como, pelo que os próprios criadores dos projetos deixam a entender, apenas os posts das redes sociais são as criadoras e disseminadoras de notícias falsas, segue-se que as notícias publicadas por qualquer um dos veículos componentes das duas iniciativas – Comprova e “Fato ou Fake” – não serão checadas. Parte-se do pressuposto que esses veículos, ligados a grupos hegemônicos de comunicação do país, sempre dizem a verdade e/ou trabalham com fatos. Não estão e nunca estarão sob suspeita, ao contrário de qualquer outro que não faça parte desse restrito clube. Dessa forma, não há opção: será “fake news” o que os 24 veículos do Comprova e os oito do Grupo Globo disserem que é. E fim de papo.

O investimento em publicidade da Petrobras de 2011 a 2016 – III (Jornal)

Nessa semana, vamos nos debruçar sobre a distribuição de verbas da Petrobras aos jornais, no período 2011/2016.  Antes de começar, porém, como de praxe, vamos às notas metodológicas:Nessa semana, vamos nos debruçar sobre a distribuição de verbas da Petrobras aos jornais, no período 2011/2016.  Antes de começar, porém, como de praxe, vamos às notas metodológicas:

1. Há uma cisão temporal. Até 2013 (inclusive), os dados se referem a valores autorizados – empenhados, em burocratês -, não necessariamente realizados. De 2014 para cá, porém, são os valores efetivamente executados.

2. À primeira vista, manter os dois tipos de dados juntos não seria correto. No entanto, a junção não muda a tendência, no caso dos jornais (assim como ocorreu em TV), já que o fato de os valores terem sido previstos demonstra a orientação estratégica, a intenção de se investir neste meio e em determinadas empresas.

3. Como não pedi a relação previsto/realizado no período, não há como se ter uma ideia do percentual médio de execução orçamentária. Ano que vem, solicitarei essa relação.

4. Foquei a análise no G5, grupo dos cinco jornais (ou grupo de jornais) que mais receberam verbas da Petrobras no período estudado.

5. As conclusões não têm o objetivo de esgotar o assunto. Ao contrário, gostaria muito de que outros se debruçassem sobre os dados a fim de extrair deles outras visões. Creio que os que trabalham na Academia poderiam fazer este trabalho com grande proveito para todos.

6. Para facilitar esta tarefa, clique aqui para obter o arquivo zipado com todos os PDFs enviados pela Petrobras com as tabelas de 2011 a 2016.

7. As conclusões políticas – se existirem – ficam por sua conta e risco, certo?

 

Agora, vamos lá:

 

1. Diferente do caso das TVs, no qual as quatro maiores redes sempre concentraram as verbas de publicidade, nos jornais a Petrobras procurou seguir a indicação geral do Governo Federal de pulverizar a compra de espaço, estratégia que sempre contou com forte oposição das grandes organizações. A estratégia começou a ser abandonada em 2014, mas só deixada mesmo de lado em 2016, quando a distribuição assumiu o mesmo perfil da TV. Abaixo a tabela mostra a evolução da distribuição por ano, em termos percentuais:

No entanto, é bom observar que, como dito no item 2 das notas metodológicas, entre 2011 e 2013, os números se referem às autorizações de veiculação. Assim, pode ser que, das verbas autorizadas, um percentual maior tenha sido realmente usado para compra de espaço publicitário nos grandes veículos, aproximando a realização dos percentuais daqueles praticados no subperíodo seguinte. Também observe-se que os Jogos Olímpicos foram realizados no Rio e este fato pode ter contribuído para a concentração, já que dos R$ 9.171.968,82 destinados aos cinco jornais enfocados, R$ 7.823.837,88 (85,3%) foram para os jornais do Infoglobo (O Globo/Extra), Estado de São Paulo e Folha, notadamente os do primeiro grupo, que ficaram com R$ 3.995.443,79 (43,56% da verba destinada aos três e 39,15% do total geral destinado ao meio jornal).

2. O ano de 2014 foi totalmente fora da curva: nada menos do que 37,29% do total da verba publicitária destinada aos jornais no período (R$ 111.491.752,47) foi executada neste ano – R$ 41.578.408,07. O motivo, claro, foi a realização da Copa do Mundo.

 

 

 

Os jornais do Infoglobo foram os mais aquinhoados no período, o que não surpreende dados os fatos de que ambos estão na cidade onde se encontra a sede da Petrobras e que houve a concentração no ano de 2016, apontada no item 2 acima. Interessante observar o cuidado da companhia em equilibrar a distribuição da verba de publicidade no que se refere aos principais jornais de São Paulo.

 

1. Impressionam logo à primeira vista as curvas dos jornais do Infoglobo, do Estado de São Paulo (até fins de 2012, junto com o Jornal da Tarde) e da Folha, representação visual do sobe e desce da destinação das verbas publicitárias a esses veículos por parte da Petrobras. Mesmo levando-se em conta a mudança de metodologia de 2013 para 2014 e da realização da Copa do Mundo neste último ano, o aumento de 883,41%, da verba para a Folha, de 787,81%, referente ao Estado de São Paulo, e de 581,85%, no caso do Infoglobo, foi excessivo. Este fato comprova-se com a queda de 428,19%, no primeiro caso, 456,97%, no segundo, e de 512,04%, no terceiro, na comparação 2014/2015.

2. As curvas do Valor e do Correio Braziliense são mais suaves em relação à distribuição de verbas, mas chamam a atenção por outro fato: de 2015 para 2016 houve uma inversão, com o jornal de Brasília passando a receber uma verba significativamente maior que o jornal de economia, resultante do salto de 548,11% no subperíodo do primeiro, e da queda de 333,58% do segundo. Essa inversão já ocorrera em 2012 (verbas autorizadas, sempre bom lembrar), mas não fora tão flagrante.

3. Na comparação ponta a ponta de 2014/2016 – ou seja, no subperíodo em que as verbas foram efetivamente usadas -, o Valor também foi o jornal que mais saiu perdendo, com uma redução de 1.376,56% na verba de publicidade da estatal, contra 456,89%, do Estadão, 312,20% (Folha), 256,22% (O Globo) e 155,87% (Correio).

Grupo Globo fica com todo o Valor

Comentários rápidos sobre a compra, pelo GG, dos 50% do Valor que pertenciam à Folhapar, com o que se sabe até o momento o momento, o que é quase nada:

1. A Folha vendeu para fazer caixa, já que, obviamente, aquela história de que a economia ia melhorar com a saída da Dilma e depois da aprovação das reformas é conversa para coxinha ficar de olho grelado. Não vai rolar publicidade oficial suficiente para o monte de goela larga que está abrindo a bocarra para o Eliseu Padilha. Existe o UOL, certo, mas este tem seus próprios interesses e problemas (João Alves Queiroz Filho, dono da Hypermarcas e de 30% da empresa, está no meio da Lava-Jato, por exemplo) e não vai ficar bancando um negócio que não tem perspectivas de melhorar.

2. O Grupo Globo também não vai bem das pernas, mas deve ter sido obrigado a fazer o negócio porque, muito provavelmente, há um acordo de acionistas dizendo que se um sócio quiser vender a parte dele, deve oferecer ao outro primeiro, mas se este não se interessar, pode vender para quem quiser. Diante da perspectiva de ter um sócio com interesses não tão afinados com os seus como os Frias, os Marinho meteram a mão no buraco do pano.

3. O negócio, porém, pode vir a ser bom para o Grupo Globo, pois vem ao encontro da ideia do homem forte da Infoglobo, Frederic Kachar, de praticar um plano de sinergia total com os ativos da empresa. Já havia a ideia de juntar as operações da Época com as do Globo e agregar o Valor pode ser bem legal, pois dá mais cacife naquela briga de foice no escuro por verba publicitária do governo golpista mencionada no item 1.

4. E você sabe como é: o que é bom para os Marinho tem uma alta probabilidade de ser ruim para seus empregados. Nesse caso não deve ser diferente. É grande a chance de haver um passaralhinho na área de economia do Globo nos próximos meses – afinal, para quê ter duas pessoas cobrindo o mesmo setor? Podem rolar algumas cabeças nas sucursais do Valor também, mas, pela lógica, a guilhotina deve funcionar mais na redação do Globo.

5. Dizer que o negócio depende de aprovação do Cade é não é só pro-forma como uma piada – o Cade vai lá contrariar interesses de quem comandou o golpe?

Globo mantém ponta do Troféu Boimate

Com o resultado da sétima seletiva do KofK, o Globo manteve a ponta do Troféu Boimate, que premia a redação que conseguiu classificar mais cascatas para a final do KofK. O jornal dos Marinho já obteve cinco indicações, contra três da Folha, que assumiu o segundo lugar absoluto. A classificação atualizada do Troféu Boimate é a seguinte:

1. Globo: 5
2. Folha: 3
3. TV Globo, Valor, Veja, Época e CBN: 2
4. UOL e Reuters: 1

Vamos à segunda seletiva do King of the Kings-2015!

Estamos chegando a abril apenas e já vamos para a segunda seletiva do King of the Kings-2015, prêmio que reconhece os coleguinhas que, com suas cascatas, dão inestimável contribuição para o avacalhamento do jornalismo brasileiro.

Dessa vez são oito novas concorrentes, mas como organizador, presidente sumo-sacerdote, júri e boy do KofK, resolvi oferecer a chance de repescagem para as duas concorrentes que não se classificaram na primeira seletiva, ocorrida em fevereiro e que classificou as três candidatas à finalíssima que estão aí ao lado. Assim, são 10 as aspirantes, das quais as seis mais votadas qualificam-se para a final de janeiro de 2016. A cédula eleitoral segue abaixo da lista e você pode votar em até seis das concorrentes.

Uma dica: para os que estão chegando agora e quiserem saber o que é o King of the Kings, basta ir na aba “Hall da infâmia do KofK”, na qual está a explicação do nome do prêmio e a lista dos vencedores de 2008 para cá.

Agora, senhoras e senhores, às candidatas!

Coleguinhas esquecem de ouvir advogada da Odebrecht que encontrou ministro (Todos)

Repórter assedia adolescente sobrinho de Lula (Veja)

Mãe de Taylor Swift proíbe filha de fazer show no Brasil (O Globo)

Tinta vermelha de ciclovia mancha carros em São Paulo (TV Globo)

Manchete do Globo de 16 de março

Lei Rouanet aparece na lista do HSBC (O Globo e UOL): Essa merece uma explicação. Segundo Fernando Rodrigues (aqui), a divulgação dos nomes da lista do HSBC obedeceria aos melhores critérios jornalísticos. Se é assim, o que faz a menção à Lei Rouanet nesse texto? Há provas de que o dinheiro da Lei foi desviado pelos artistas para as contas numeradas? Não. Então por que publicar? A conclusão é inelutável: bom jornalismo é o que Fernando Rodrigues diz que é.

Reuters pede aprovação de FHC para publicar que a corrupção na Petrobras começou no governo dele

Lula desmente manchete do Estado de São Paulo (Estado de São Paulo)

Lula forçou Petrobras a patrocinar escolas de samba do Rio (Valor)

Sabesp já tem plano para aplicar racionar água em São Paulo (Folha)

O abutre é ela

Muito já foi escrito sobre “O abutre” (“Nightcrawler’), de Dan Gilroy, filme baseado na vida dos cinegrafistas que circulam por Los Angeles à noite (“nightcrawler” é um verme, espécie de minhoca, de hábitos noturnos, muito usado como isca), ligados nas faixas de rádio da polícia e dos bombeiros, atentos a crimes, acidentes, incêndios e outras tragédias sanguinolentas, as quais filmam para vender aos canais de TV, que os apresentam para serem degustados no “breakfast” pelos americanos, junto com o café, as torradas, os ovos e o bacon.

Os textos centram-se em Lou, personagem de Jack Gyllenhaal, um lúmpen que vive de pequenos golpes, enquanto é recusado por todos os possíveis empregadores, até topar com um “nightcrawler” e encontrar seu caminho pelos subterrâneos do mundo. Sem dúvida a atuação de Gyllenhaal, com sua magreza e olhos fundos e alucinados que não piscam, chama a atenção, mas, para mim, não é o personagem principal – este é Nina, defendida pela exuberante (ainda, aos 60 anos) Rene Russo, esposa do diretor.

A partir daqui, um monte de “spoilers”, esteja avisado/a.

Nina é a diretora da noite da emissora KWLA que compra o primeiro dos achados de Lou, vê nele “um bom olho” para cenas de sangue e acaba por ter com o verme noturno uma relação simbiótica. É nessa simbiose que reside, a meu ver, a força e a importância do personagem de Rene, especialmente se encarado sob o aspecto do jornalismo de hoje. Mais representativo deste tipo de jornalismo do que o de Gyllenhaal, na minha ótica.

Duas cenas mostram essa maior importância, jornalisticamente falando, de Nina sobre Lou. A primeira é o megaesporro que ela dá quando o cinegrafista perde as imagens de um desastre de avião. “Eu quero o que você me prometeu!”, grita ela, descompondo Lou na frente de um operador. Ao assistir a essa cena, juro, vi um editor do Valor berrando com aquele coleguinha que, depois de ter feito matéria com Venina Velosa da Fonseca – na qual esta, preventivamente, tenta livrar a cara da sua participação nas falcatruas da Petrobras atirando lama nos outros -, não conseguiu mais nada de suas fontes. Após o esporro, Lou pira de vez e simplesmente cria suas próprias cenas de sangue – já nosso valoroso coleguinha arruma um cara demitido por justa causa da Petrobras por roubo e o transforma em fonte confiável de uma “denúncia” sem pé nem cabeça.

A segunda cena é bem no fim. Nela, outro chefe, Frank (Kevin Rahm), dono de consciência ética, informa a Nina que a matança que fez de Lou uma estrela não foi um triplo assassinato de uma tranquila família moradora de um afluente subúrbio angelino, mas um acerto de contas entre traficantes (algo ue, aliás, esse veterano repórter de geral e polícia desconfiou na hora). Nina responde como um editor ou colunista-amestrado do Grupo Globo (ou de outro veículo brasileiro) dizendo que a história que interessa ao canal é a cascata e não a verdade.

Essas duas cenas mostram que o verdadeiro abutre é Nina. Lou – embora também manipule as vulnerabilidades de veterana de Nina e a tenha à mercê no fim – é apenas um “nightcrawler”, a minhoca norturna usada para fisgar o peixe que o veículos a que serve quer devorar.

“Copa vai ser um fracasso” vence o King of the Kings de 2014

Confirmando o forte favoritismo, a cascata “Copa vai ser um fracasso” foi a grande vencedora da versão 2014 do King of the Kings, com 20% dos votos, passando a fazer parte do “Hall da Infâmia do KofK”. A segunda colocação, com 17% dos sufrágios, coube a também poderosa competidora “Dilma e Lula sabiam da corrupção na Petrobras”, perpetrada pela Veja, uma espécie de Beija-Flor do KofK por estar sempre disputando o título. Veja o “top 5” do mau jornalismo brasileiro em 2014 e, logo abaixo, alguns comentários sobre a competição.

1º “Copa vai ser um fracasso” (Todos os veículos): 24 votos (20%).

2º “Dilma e Lua sabiam da corrupção na Petrobras” (Veja): 21 (17%)

3º “Governo gasta mais com Copa do que com Educação e Saúde” (Agência Pública): 15 (12%)

4º “País pode passar por racionamento de energia” (Estado de São Paulo e Valor): 12 (10%)

5º “Previsões de fracasso da Copa eram da imprensa estrangeira” (TV Globo): 12 (10%).

O total de votos foi de 123.

Agora, os comentários:

1. Essa é a primeira vez que uma cascata é eleita como sendo de “todos os veículos”. Já houve com vários veículos, mas dessa vez a torcida pelo fracasso da Copa foi tão avassaladora que “vários” não comportava a quase unanimidade.

2. A presença do site Agência Pública na (des)honrosíssima terceira colocação marca a entrada na competição de um tipo de site que, em nome do meritório dever de vigiar a aplicação dos dinheiros públicos, faz mesmo é política partidária. Outro exemplo desse tipo de malandragem escondida sob a capa de bom-mocismo é o site Contas Abertas.

3. Outra presença inusual, até hoje, entre o “Top 5” do KofK é o do outrora sério Valor Econômico. Durante a campanha eleitoral de 2014, o jornal jogou pela amurada a máscara de sobriedade e passou a ser comportar como se fosse uma espécie de Folha de São Paulo versão Bovespa.

4. A cascata do Valor (e do Estado de São Paulo, sempre presente no KofK) foi sobre o racionamento de energia que seria quase inevitável em 2014. Essa cascata também obteve um feito inédito: foi a primeira a estar presente no “Top 5” por dois anos seguidos, já que, em 2013, os coleguinhas também juravam que ficaríamos às escuras.

5. Pela primeira vez também uma cascata foi indicada pelos leitores. “Entrevista de Felipão”, publicada pela Folha (um grande competidor que, este ano, não apresentou nenhuma cascata individual, embora tivesse sido uma das grandes divulgadoras da primeira colocada), foi indicada por um leitor. Em 2015, esse tipo de participação será incentivada, como já avisei aqui.

Assim termina mais uma edição do King of the Kings, mas a de 2015 já está em andamento, como você pode ver ao lado.