O dia em que tomei “caneta” de uma garota

Manu na cova das hienas

Num post na página da Coleguinhas no Facebook, coloquei em dúvida a sabedoria de Manuela D’Ávila em ir a um covil como é o Roda-Viva, programa que um dia já teve relevância por suas boas entrevistas, mas que, desde 2013, quando começou a ser ancorado por Augusto Nunes, não pratica jornalismo e, por este motivo, deixou de ter audiência (houve uma exceção que diz muito sobre essa fase). Assim, ninguém vai ao Roda-Viva em busca de apresentar projetos para a população ou responder perguntas “neutras, imparciais e objetivas”, segundo o cânone ideológico do jornalismo. Vai para ser bajulado ou tomar porrada. Manu e seus marqueteiros sabem bem disso – então por que ela foi lá?

A resposta ao singelo comentário foi surpreendente. Com um nível de agressividade que jamais tinha visto, pessoas que se diziam de esquerda – ecoando muito de perto aquelas de direita – responderam, com presteza dignas de “ciborgues”, aqueles humanos que controlam contas robôs nas redes sociais (desconfio que alguns são mesmo, dado os perfis que fui verificar). O fato acendeu a luz amarela e resolvi pensar melhor na questão e fuçar um pouco.

Manu e seus assessores podem ser muita coisa, inclusive defensores do estalinismo (o PCdoB ainda defende a linha albanesa de Enver Hoxha?), mas burros não são. Assim, como escrevi acima, eles sabiam o que ia acontecer no Roda-Vida. É impensável, por exemplo, que a Manu não tivesse conhecimento de que haveria um “bolsominion” de alto escalão entre os entrevistadores porque a primeira pergunta de qualquer assessor recém-saído da faculdade, quando recebe demanda para um debate, é: “Quem vai estar lá?”. E só leva o convite ao cliente depois que checar cada nome em profundidade – e, no dia, certificar-se que o “line-up” foi mantido. Dessa forma, Manu não foi surpreendida com nada do que sofreu ali, nem mesmo com “manterrupting”.

“Ok, então mas por que foi?”, perguntará você. Exatamente para sofrer o bullying que sofreu, respondo.

Pelo levantamento semanal da Factual Informação e Análise e da AJA Media Solutions, o discurso feminista é que tem mantido Manu entre os candidatos mais relevantes no twitter (o levantamento não abrange o facebook), mesmo ela tendo apenas 1% das intenções de voto, um feito e tanto de marketing viral. Perdeu essa posição na semana de 8 a 15 de junho, recuperou-se na semana seguinte, mas tinha um problema – estava previsto que, no dia 26, Lula seria julgado pela segunda turma do STF, podendo ser solto. O julgamento não aconteceu devido a uma manobra de Verme Fachin, mas foi pensando nele, e na exposição que Lula novamente teria, que Manu aceitou ir para aquela arena como cristãos iam para o Coliseu. Como a sorte ajuda os competentes, Lula não foi julgado e a jogada que a candidata e seus marqueteiros montaram saiu melhor do que a encomenda – ela reinou sozinha no campo da esquerda como a vítima esquerdista (e feminista, não esqueça) da semana.

Confesso que tenho um fraco por gente competente (desculpe, professora Marilena Chauí) e por isso fiquei encantado com a jogada brilhante de Manu. Ela me enganou direitinho. Na gíria do futebol, “caneta” é a bola entre as pernas, o drible mais desmoralizante do jogo (mais do que o lençol). Pois é. Levei “caneta” de uma garota e estou aqui para aplaudir.

Agressões a jonalistas: os coleguinhas e a ‘guerra híbrida”

Já chegamos à fase das pedradas…

“Também havia bons sujeitos no exército alemão.”
(Nílson Lage, jornalista e professor aposentado, ex-UFSC, UFF e UFRJ)

As agressões a jornalistas por parte de cidadãos têm se multiplicado nos últimos tempos, sejam eles de grandes grupos de mídia ou de organizações alternativas. Tais ataques são sempre repudiados tomando por base a liberdade de imprensa e a defesa da democracia – embora tais repúdios normalmente ocorram apenas quando as agressões e intimidações atingem profissionais da mídia “mainstream” atacados por pessoas identificadas como de esquerda e raramente, quase nunca, quando os agressores são de direita e os alvos, jornalistas da mídia alternativa.

Esse tipo de agressão não é exatamente uma novidade na história da imprensa, especialmente no Brasil. No entanto, sua crescente disseminação tem sido atribuída à “polarização” da sociedade, que faz com que os jornalistas fiquem mais expostos. Não chega a ser uma explicação errada, mas parece incompleta por não levar em conta o papel da própria mídia nesta situação “polarizada”. Uma abordagem que se pretenda mais completa deveria levar, em minha visão, em consideração um quadro maior, não restrito às fronteiras do Brasil, observando a questão sob um ângulo mundial. Partindo dessa premissa, creio que uma explicação mais abrangente deveria abarcar o conceito de “guerra híbrida.

“O consenso internacional sobre ‘guerra híbrida’ é claro: ninguém a entende, mas todos, incluindo a OTAN e União Europeia, concordam que é um problema”. Assim começa o estudo, datado de janeiro de 2017 e assinado por Patrick J.Cullen e Erik Reichborn-Kjennerud, do Instituto Norueguês de Estudos Internacionais, elaborado com colaboração de especialistas de outros 11 países-membros da OTAN (incluindo os EUA) e da União Europeia, que compõem o Multinational Capability Development Campaing (MCDC), no âmbito do Projeto de Contenção da Guerra Híbrida.

O problema de definir o que é “guerra híbrida” é que ela se caracteriza por não ser apenas levada a cabo com armas – embora o recurso a elas esteja longe de ser descartado -, mas lançando mão de uma série de ações sincronizadas “de múltiplos instrumentos de poder” usando “elementos criativos, ambíguos, não-lineares e cognitivos da guerra”. Para piorar, por apelar fortemente para elementos não-bélicos, a “guerra híbrida” pode ser travada não apenas por estados, mas “por qualquer ator que seja capaz de utilizar instrumentos de poder para explorar vulnerabilidades específicas através de toda a estrutura de uma sociedade visando atingir efeitos sinérgicos” – esta é a definição do estudo do MCDC para “guerra híbrida”, em tradução livre.

Na “guerra híbrida”, cada espaço de batalha é único e, portanto, a estratégia pensada para cada caso, desenhada de forma a aproveitar – e intensificar – as vulnerabilidades da sociedade alvo. Estas vulnerabilidades podem ser encontradas em cinco instituições de uma dada sociedade: militar, econômica, política, cívica e informacional (MPECI, na sigla em inglês). Os estrategistas de uma “guerra híbrida” devem usar quaisquer meios para, explorando fraquezas nessas dimensões, atingir um determinado fim em detrimento do estado atacado.

O MCDC em seu estudo enfoca dois casos concretos: a ação do Estado Islâmico na Síria, ente 2012 e 2014, e o da Rússia na Ucrânia, no período 2013/2015. Obviamente, não menciona os casos em que seus associados usaram a guerra híbrida contra outros estados. Assim, não fala dos ataques a Honduras (2009), ao Paraguai (2012) e aos que estão ocorrendo na Venezuela e no Brasil, todos perpetrados pelos EUA, sem mencionar as chamadas “primaveras árabes”.

O que nos interessa aqui, claro, é o nosso caso, que começou, com tem se tornado cada vez mais evidente, com as chamadas “Jornadas de Junho”, em 2013. Quem tem memória melhor pouquinha coisa há de recordar que, num primeiro momento, comentaristas do Grupo Globo atacaram as manifestações, mudando rapidamente de opinião a partir do momento em que a organização empresarial da Família Marinho passou a pautar os protestos, num roteiro que seguiu pelos anos seguintes, atingindo seu auge em 2015 e 2016, culminando com o impeachement de Dilma Rousseff, em 17 de abril de 2016, e ainda não terminado.

Aqui abro parênteses. Há a percepção, entre os que perceberam a mão da inteligência dos EUA guiando os protestos, de que eles foram montados desde o início. Embora possa ter sido realmente assim, não creio, pois os protestos contra aumentos de passagens liderados por jovens têm tradição na história urbana do Brasil do Século XX (1930, 1947, 1959, 1987). Entre os predicados exigidos por estrategistas e operadores na “guerra híbrida” é a capacidade de avaliar bem as oportunidades que se apresentam para explorar as vulnerabilidades da sociedade inimiga, e a velocidade e flexibilidade para explorá-las. Assim, o mais provável é que os operadores tenham visto nos protestos do MPL uma boa oportunidade para desfechar um ataque. Essa hipótese explicaria a súbita virada de 180 graus nas opiniões dos jornalistas do Grupo Globo sobre os conflitos. Fecha parênteses.

Os estrategistas estadunidenses, então, por meio de seus acólitos nacionais, exploraram algumas das imensas vulnerabilidades da nossa sociedade:

Militar: Os militares brasileiros possuem notória má formação intelectual que os fazem ser facilmente manipuláveis quando se agitam bandeiras como “fim da corrupção” e “perigo comunista”, esta principalmente quando empunhada pelos norte-americanos, com quem as Forças, especialmente o Exército, possuem tradição de cooperação que remonta à Segunda Guerra Mundial.
Política: O sistema político brasileiro é largamente disfuncional há muito tempo, tendo construído uma classe política que se põe distante das reais necessidades daqueles que dizem representar.
Econômica: A dependência das commodities, sejam agrícolas, sejam minerais, são um calcanhar-de-aquiles histórico da economia brasileira.
Civil: A sociedade civil brasileira, construída em torno da escravidão que durou quase 400 anos, tem fraquíssima coesão interna, sendo manipulada com facilidade, especialmente os estratos médios, do qual fazem parte os militares, considerados por seus pares como reservas morais da sociedade, e o Judiciário.
Informacional: O Brasil tem a característica de apresentar concentração midiática em mãos de apenas um conglomerado privado, o Grupo Globo. Esse poder é avassalador, pois o Grupo tem a capacidade de estar em contato diário com praticamente toda a população do país, em especial por intermédio de sua rede de televisão, o meio mais abrangente do país.

Como esta não é uma análise ampla de caso sobre a “guerra híbrida” aberta contra o Brasil, mas apenas a consequência de uma de suas facetas, vamos ficar nesta, no caso a Informacional.

A população brasileira é historicamente pouco afeita a procurar informações, preferindo recebê-las já “embaladas” e, se possível “mastigadas”. Esta característica faz dos meios eletrônicos – sejam os tradicionais rádio e TV, seja a nova internet – a fonte privilegiada por onde recebe informação, a qual consome de forma passiva (tendo uma face ativa recente na internet por meio do compartilhamento acrítico, via redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas).

O poder avassalador do Grupo Globo apontado acima, como não poderia deixar de ser, é observado também na área de jornalismo, como se pode observar abaixo, em dados do período de 16 de abril a 20 de maio, obtidos do Kantar Ibope Media:

Assim, no caso específico da sociedade brasileira, não havia arma mais poderosa do que a Rede Globo para ser usada na “guerra híbrida” contra o Brasil. E era uma arma ao alcance das mãos estadunidenses há muito tempo – afinal, o acordo com a Time-Life, dos EUA, nos anos 60, que propiciou a estruturação da empresa não poderia ser esquecido. Assim, não foi complicado para os estrategistas da “guerra” conseguirem fazer funcionar sua arma de destruição em massa mais poderosa, uma espécie de “Estrela da Morte” informacional.

Por si só, o poder quase monopolístico da Globo já traria os outros veículos para o lado dos EUA, mas havia um outro motivo. Como qualquer companhia privada de algum peso econômico no Brasil, as empresas de comunicação (incluindo o Grupo Globo) têm a maior parte de seus ganhos advindos não de sua atividade-fim, mas de aplicações financeiras . Ora, o mercado financeiro é, juntamente com as empresas de petróleo, os maiores financiadores da “guerra híbrida” levada a cabo pelos governos do Ocidente (China e Rússia têm outros tipos de financiamento, estatal). Sob a dupla pressão do monopólio da Globo e dos seus próprios interesses financeiros, os outros veículos entraram de cabeça na defesa do impeachment de Dilma Roussef.

Com tomada ostensiva de posição em favor da derrubada de Dilma, a Rede Globo (e todos os veículos que a acompanharam) romperam com o sacrossanto acordo social de que o jornalismo é o meio entre a sociedade e o poder, agindo de modo “isento, imparcial e objetivo”. Por mais que esse modo de ação seja apenas uma ilusão ideológica, ainda assim é sobre ele que se apoia a credibilidade do veículo e o respeito do cidadão aos profissionais que o representam. Quando a Globo e os outros grandes veículos quebraram esse acordo, os dois pontos se perderam.

Só isso já seria muito ruim, mas houve mais. Dilma Roussef foi identificada como a causa de todos os males econômicos e sociais que o país atravessava. Não se passou muito tempo para que a trapaça dos veículos caísse por terra – a situação, que não era boa, tornou-se trágica. Para piorar, os veículos do Grupo Globo por meio de seus profissionais mais proeminentes, como Míriam Leitão, Carlos Alberto Sardemberg, Merval Pereira, William Bonner e mais alguns, insistiram por muito tempo em defender os atos do governo de Michel Temer, mesmo aqueles que claramente mais dificultavam a vida e destruíam os direitos da população, em especial a mais pobre, como a PEC dos Gastos, a Reforma Trabalhista e Reforma da Previdência (que não passou).

Dessa forma, a frustração e a raiva cada vez maior contra um governo ilegítimo e antipopular acabou sendo carreada para aqueles que, fora dele, mais o defendiam de público – os jornalistas, em especial, claro, os do Grupo Globo e, dentro deste, os de TV. Assim, não chega a ser nenhuma surpresa que as agressões a jornalistas, em especial de TV, com maior foco ainda nos profissionais da Rede Globo, tenham se multiplicado. Mesmo sem possuir uma visão abrangente da questão, os cidadãos brasileiros, principalmente os mais politicamente engajados, mas não apenas eles, sentem que os jornalistas fazem parte de um “exército inimigo” que estão atacando seus direitos mais elementares. Pode ser que a esmagadora maioria dos profissionais não mereça esse julgamento, mas, como diz o personagem de Clint Eastwood, no faroeste os “Os imperdoáveis”, antes de fuzilar o de Gene Hackman, “merecer não tem nada a ver com isso”.

Portanto, o mais provável é que, nos próximos tempos, as agressões e intimidações contra profissionais de jornalismo durante o exercício de seu trabalho se multipliquem. E não adiantará falar de respeito à liberdade de expressão e/ou de imprensa e lembrar que é apenas um trabalhador ou mesmo que defende pessoalmente as mesmas posições do agressor, pois não é nada pessoal – apenas guerra é guerra.

Pesquisa Brasileira de Mídia 2016 (V): rádio, meio abrangente, com credibilidade e em mutação

 

“O brasileiro não vive sem rádio” era antigo bordão que se ouvia na Rádio Globo, no início das transmissões esportivas e encerrava uma verdade da época (há uns 30 anos): o meio era fundamental para a informação e o lazer daqueles dentre nós que não tinham acesso total à TV. Essa realidade mudou muito – com a aumento exponencial da venda de TVs (hoje almoçar ou jantar num restaurante comum sem ter pelo menos um aparelho sobre nossas cabeças é quase impossível) e a chegada da internet (principalmente após a explosão dos dispositivos móveis), o rádio ficou para trás. Ainda assim, como se vê na nossa já familiar tabela abaixo, o meio ainda é relevante no acesso à informação por parte dos brasileiros (aqui aquele ponto também já tradicional – a amostra é de 9.880 entre as 15.050 ouvidas pela PBM-2016):

 

 

Essa relevância fica ainda mais evidente quando se observa que, em termos de credibilidade (“confia” e “confia quase sempre”), o rádio supera em quase quatro vezes a internet (57% a 15%) e até mesmo a TV – mas dentro da margem de erro – por 57% a 54%:

 

A tabela abaixo traz uma novidade extremamente interessante. Algo surpreendentemente, os celulares já superam os tradicionais aparelhos embarcados nos carros como aqueles em que se mais ouve rádio. Não dá para saber não só porque a pergunta não foi feita, mas também por falta de comparação histórica, mas é bem possível que os celulares tenham vindo substituir o venerável radinho de pilha, que não é visto mais nem nos ouvidos dos torcedores, onde eram onipresentes a ponto de as vinhetas das emissoras ecoarem pelos estádios.

 

Como seria de se esperar, ouve-se mais rádio nos dias de semana, mas observe-se que a vantagem dos que ouvem com mais frequência nos fins de semana sobre aqueles que são fiéis ao meio e o ouvem igualmente todos os dias, está dentro da margem de erro, mostrando a fidelidade de seu público.

Se houve mudanças em algumas características do meio, uma delas permanece: a extrema pulverização da audiência, como mostra a tabela, que reúne as cinco mais ouvidas, segundo a PBM-2016:

 

ANÁLISE

1. Comete erro aqueles que não anunciam em rádio. O veículo ainda é muito relevante para os brasileiros e apresenta alto grau de credibilidade.

2. As rádios FMs dominam completamente o mercado, como demonstram as cinco primeiras colocadas no ranking das mais ouvidas.

3. A tendência é que o acesso por celulares aumente no futuro, já que o acesso à internet por meio de dispositivos móveis tem crescido exponencialmente e ainda apresenta espaço para aumentar.

4. A aceleração do uso de celulares para acessar programas de rádio é previsível também pela crescente audiência dos podcasts no país. Embora o ritmo desse crescimento seja mais lento do que em outros mercados – EUA, por exemplo –, é perceptível e tende a aumentar.

5. Caso os ouvintes jovens continuem a fazer aumentar a audiência dos podcasts – e o mercado publicitário se volte para eles -, as rádios tradicionais, que já sofrem com a dispersão característica do meio, sofrerão um golpe duríssimo e, em alguns casos, fatais.

Pesquisa Brasileira de Mídia 2016 (IV): revista, um meio com pouca penetração e credibilidade

Revistas: os bons tempos vão longe

As revistas semanais de informação costumavam provocar grande repercussão com suas matérias de capa. De uns anos para cá, devido à internet, elas foram perdendo leitores a ponto de simplesmente acabarem com as suas versões impressas, como aconteceu com a Newsweek nos EUA, que até voltou a ser impressa, mas não é nem sombra do que foi. No Brasil, esse processo foi mais intenso devido ao comportamento parcial das revistas no processo que culminou com golpe parlamentar de 2016, que fez com sua credibilidade fosse jogada num fosso, embora esse comportamento não tenha sido o único fator.

Esse processo de desgaste é flagrado nos números da Pesquisa Brasileira de Mídia-2016, como se vê abaixo: é de 0% a percentagem dos 15.050 entrevistados que têm o meio como seu principal canal de informação. Mesmo como canal secundário, as revistas não passam de 1%.

A situação de descrença mesmo daqueles que leem suas matérias pode ser vista claramente na tabela abaixo. Em termos de confiança, o meio supera apenas a internet (40% de “confia/confia quase sempre” contra 15%) , ficando bem abaixo dos outros meios tradicionais:

 

 

Como nos jornais, os leitores continuam a preferir as versões impressas às digitais, numa proporção de dois em cada três (lamentavelmente, também como nos jornais, o levantamento não indica os aparelhos de acesso, se computador ou móveis):

 

O leitor de revista impressa gosta muito de filar o exemplar de outros – quase um em cada três leem um exemplar que não comprou:

 

Em termos de leitura, a Veja continua disparado na frente, com 25% da preferência entre os que leem revista, muito à frente de suas concorrentes:

 

Análise

Basicamente, o meio revista está morto e enterrado no Brasil. A repercussão que ainda obtém vem da exposição que outros veículos de maior penetração – ou seja, todos os outros – lhe dão – deixadas à própria sorte, não fariam a cabeça de ninguém. Até porque a credibilidade do meio é muito baixa em relação aos seus concorrentes tradicionais.

É tentador atribuir este déficit de credibilidade à cobertura política parcial das revistas semanais. No entanto, há que se observar que, entre os cinco títulos mais vendidos, estão incluídos as três semanais de maior projeção. Assim, apesar de certamente a parcialidade das semanais influírem na descrença do público com o meio, há que se ver que este público pode/deve estar colocando no mesmo saco o “jornalismo de celebridades”, que, por definição, é pouco crível.

A Veja é, de longe, o veículo mais lido, mas o fato de que praticamente um terço dos leitores acessarem as revistas por meio de exemplares que não foram comprados relativizam essa fidelidade – uma em cada três consumidores folheiam exemplares que estão à mão em salas de espera de consultórios e escritórios. Este fato é também uma má notícia para as editoras, pois quem fila um exemplar não o compra.

Ainda assim, em meio a essa devastação, os Civita ainda reinam, pois, além de seu principal título ser o líder disparado no meio, o segundo e o quinto lugares pertencem à Editora Caras na qual a família possui participação pessoal, mas não se sabe em que percentual, a Editora Caras é uma empresa de capital fechado.

Numeralha: Pesquisa Brasileira de Mídia 2016 (III) – Jornal

 

Depois de uma parada, volto à numeralha da Pesquisa Brasileira de Mídia – 2016 para revolta de alguns/algumas. Mas isso é importante, juro. É a forma de ver como a informação chega ao distinto público em geral e não apenas a nossa bolhinha. Considere o caso do meio jornal. Em princípio, todo mundo leva a sério este meio, mas será ele tão fundamental assim? Pelos dados tabulados na PBM, nem tanto, se considerarmos quantitativamente.

Antes de começar, uma informação metodológica: a base de respondentes é de 4.665 pessoas, aquelas que leem jornais entre o total de 15.050 entrevistados.

Agora, vamos às tabelas e gráficos, começando por recordar a que mostra por quais meios a população chega às informações:

 

Como dá para notar, o jornal é o quarto meio em importância em termos de consumo de informação, sendo a fonte principal de apenas 3 em cada 100 pessoas, menos da metade do terceiro colocado, o rádio, proporção que se mantém mesmo quando consideramos ambos como fonte secundária (12% contra 30%).

A força do meio jornal é a confiança que inspira em seu público. Como se vê na tabela abaixo, os leitores de jornal são os que mais confiam nos veículos de sua preferência, com 59% (“confia” somada a “confia quase sempre”) contra 54% da TV e 57% do rádio.

 

 

Entre os leitores de jornal, a edição impressa é ainda amplamente dominante, com dois terços dos leitores. Infelizmente, o levantamento Secom/Ibope não desce ao detalhe de dividir os acessos digitais por aparelho, juntando dispositivos móveis (celular e tablet) com computador.

 

Em termos de local de compra dos exemplares, metade dos leitores da versão impressa o faz em bancas de jornais, cabendo às assinaturas cerca de 16%, perdendo até para os que filam as gazetas de outros para ler (20%). No entanto, este resultado, bem como em parte o da venda em banca, deve estar influenciado pelos jornais populares, que vendem muito mais e sempre em banca, e são os mais filados também.

 

Análise

Como acontece em outros mercados, o meio jornal vem perdendo leitores a cada ano. Ainda assim, em termos do que em mídias sociais se chamaria engajamento, o meio apresenta um desempenho admirável no Brasil, com 59% confiando na maior parte das vezes nas notícias que lê. Infelizmente, o levantamento Secom/Ibope não faz um recorte dessa confiança em termos de faixa etária e de renda e região do país.

Este tipo de recorte – especialmente o por faixa etária – seria fundamental para saber até que ponto o predomínio da edição impressa permanecerá, pois, em outros mercados, há até a previsão que ela deixe de existir em uma década. De qualquer forma, a redução absoluta no número de leitores já afeta as bancas, apesar de elas ainda serem os locais prediletos para a compra de jornais – elas passaram a ser pequenas lojas de conveniência que vendem diversos tipos de produtos, não apenas as gazetas (algumas, inclusive, sequer as comercializam).

Também seria bom que, nas próximas edições, viesse uma questão, pelo menos, sobre o compartilhamento de notícias por meio dos leitores do meio jornal (e dos outros meios também), como o próprio Ibope faz em seus levantamentos sobre TV. O compartilhamento não seria apenas por mei0 digital (redes sociais, por exemplo), mas também naquela na copa, no almoços de domingo, no churrasco etc.

 

Ilusão de jornalista

Escrevi este post, inicialmente, para a página da Coleguinhas no Facebook. Ela ganhou grande repercussão, então postei no Blog do Iv, no Medium. Aí pensei: “pô, o blog da Coleguinhas, o veículo mais antigo (completa 22 anos mês que vem), não pode deixar de ter esse texto também”. Então, aí vai ele, com foto e tudo:

 

Dentre as auto-ilusões dos coleguinhas, uma das que considero mais estranhas é achar que representa algo individualmente. Jamais entendi isso. Creio que 99,99% não compreende (ou finge não compreender) que, diante do Outro (qualquer Outro, seja militante político, analista financeiro, empresário, jogador de futebol, político…), representamos apenas os veículos (e os patrões) que nos pagam. Quem trabalhou em jornal pequeno e depois num grande, percebe claramente a diferença de tratamento e o que ela diz.

História para exemplificar. Em 88, o Exército (quem mais?) matou três metalúrgicos que faziam piquete na frente da CSN, em Volta Redonda. Foi o estopim de uma batalha. Num determinado momento, um carro da Rede Globo foi cercado pelos trabalhadores, que queriam virá-lo e linchar quem estava dentro. A equipe de O Dia – na época um jornal popular decente e onde eu trabalhava -, comandada por uma amiga de faculdade, conseguiu interpor o carro entre a turba e os colegas. A amiga – que, sem exagero, tem 1,50m – saltou e encarou os trabalhadores. “Nós somos trabalhadores que nem vocês!”, gritou. Os caras pararam. O líder respondeu. “Eles são não. São da Globo. Mas você é do Dia. Tira eles daqui”.

Portanto, caro colega, esqueça essa coisa de passado militante, liberdade de imprensa e tal. Você representa nada disso. Representa o seu patrão e tudo no que ele acredita. Como dizia A.J. Liebling, da New Yorker: ‘Freedom of the press is guaranteed only to those who own one.’ “

O JB voltou às bancas. E agora?

Ói eu aqui traveiz!

O Jornal do Brasil voltou a circular em bancas, algo que não acontecia desde 2010. Notícia que aquece o coração de muita gente (inclusive o meu), sensação que, porém, vem com uma pergunta: “vai dar certo?”.

Bem, depende do que se chama “dar certo”. Se assim se considerar, por exemplo, fazer concorrência a O Globo, não. A começar do fato de que é impresso nas oficinas e distribuído pelos caminhões do Infoglobo, observa-se, com clareza, que o “novo” Jornal do Brasil fará ainda menos sombra à folha dos Marinho do que aquele que deixou de circular há oito anos. Outro ponto é que Omar Resende Peres – o sublicenciado da marca, pois o licenciado continua sendo Nelson Tanure -, embora se apresente como “brizolista”, possui ótimas relações com os Marinho, tendo até sido concessionário da afiliada da Globo em Juiz de Fora.

Em termos de pluralidade, há possibilidade razoável de que haja maior diversidade de opiniões do que no Globo (algo que, vamos admitir, não é muito difícil), embora dentro de um espectro ideológico que poderíamos definir como de centro liberal, bem longe de qualquer radicalidade, concebendo-se este termo como combate sem tréguas a evidentes males do Brasil, como a desigualdade de renda e oportunidades. O fato de Resende Peres ter, além daquele bom trânsito com os Marinho, relações ao que parece mais do que cordiais com Nélson Tanure também concorre para que haja dúvidas a respeito da disposição do JB de ser um jornal realmente “independente de setores da economia” como afirma o editorial da sua edição de retorno.

Uma questão que tem chamado a atenção é a decisão de Omar Resende Peres de investir na venda em bancas, desdenhando até das assinaturas. É um plano de negócios estranho, mesmo partindo da ideia de que a gráfica e a distribuição são terceirizadas por um valor pequeno – afinal, deverá aproveitar a grande capacidade ociosa do Globo, que cometeu o incrível erro de fazer um enorme parque gráfico quando já estava claro que jornal impresso é coisa do passado, com sobrevida de não mais do que 15 anos. É certo que outro custo importante – o de mão de obra – também não será muito alto pela opção de investir em um grupo pequeno de veteranos há anos fora das redações. O salário de um profissional com este perfil tende a não ser tão alto quanto de um experiente, mas no auge de sua capacidade produtiva, embora mais elevado do que de um novato. Ainda assim, apoiar-se apenas na venda em banca, especialmente no momento econômico deprimido pelo que passa o Brasil e, mais ainda o Rio, é muito arriscado.

A idade média alta do grupo de jornalistas da nova redação também prejudica a perspectiva de que o jornal avance de forma consistente em plataformas digitais, algo fundamental para que se projete no futuro. Desse lado, o que me parece mais promissor é a JB-TV, que Omar Resende Peres menciona em sua entrevista à coluna “Mercado Aberto”, da Folha, citada no parágrafo acima. Tocada por jovens, a iniciativa pode ser a base para o futuro da marca, mas, infelizmente, segundo o próprio empresário, “não tem nada a ver com o jornal impresso”.

Enfim, embora saudando o retorno do JB às bancas, não tenho lá grandes esperanças de que o jornalismo a ser praticado pelo redivivo “diário da Condessa”, embora de bom nível, sirva para mais do que matar a nostalgia de gente já entrada em anos como eu.