O “conto do JN”

Caiu o bobo na casca do ovo…

Há duas semanas, tinha aqui no blog cerca de 400 assinantes. Na sexta passada, por acidente, dei uma olhada e tomei um susto – eles já passavam de 4.200. Creio que o motivo para este salto triplo carpado para frente com dupla pirueta foi o post dando conta da vitória de Dona Míriam na primeira seletiva do King of the Kings, com a cascata de ter se transformado em boneca de ventríloquo na entrevista do Fascista na Globonews. Promovi o post no perfil da Coleguinhas no Facebook e a foto em que ela era comparada a Chico Xavier deve ter chamado muita atenção. Deu para notar, porém, que a maioria esmagadora dos novos assinantes é de não-jornalistas e é para eles que este post é dirigido, embora os coleguinhas também possam aproveitá-lo, especialmente lá para o fim.

Para quem não é jornalista, pode parecer que os encontros de William Bonner e Renata Vasconcellos com os presidenciáveis foram entrevistas jornalísticas. Só que não: não foram entrevistas e muito menos jornalismo. Meus professores Nilson Lage e João Batista Abreu devem me corrigir se estiver falando bobagem, como naquele tempo, mas na faculdade (ao menos nas boas), ensina-se que, numa entrevista, você faz as perguntas e deixa a pessoa falar, procurando as contradições e os chamados “vazios do discurso” – aquilo que o cara quer esconder em meio às palavras.

Uma vez identificadas essas falhas discursivas, você vai em cima. Pode até interromper se sacar que a pessoa está tentando “roubar” seu tempo, enrolar, mas de forma educada (se der, até com bom humor, mas sem sarcasmo), não só por dever de civilidade, mas como tática: falando com educação, a pessoa sente que foi pega, mas terá dificuldade de reagir agressivamente, pode desequilibrar-se e vacilar ainda mais.

Esse é um tipo de entrevista, a mais agressiva, que eu usava com outros profissionais do discurso como políticos, delegados, advogados, economistas etc. Há outras, mais brandas, mas em todas a ideia é que você se apague durante uma parte do diálogo (é diálogo, sabe? Não monólogo) para que o outro mostre sua verdadeira face por meio do que fala e, principalmente, do que deixa de falar.

O que Bonner & Vasconcellos fizeram assemelhou-se mais um interrogatório de promotores num tribunal de filme americano do que a qualquer entrevista ou tipo de diálogo. Porém, mesmo como interrogatório de filme foi ruim – nestes, o promotor faz as perguntas e deixa a testemunha falar para que ela se enrole e ele caia em cima (sim, parece com a entrevista agressiva que descrevi acima). Ao impedir os presidenciáveis de falar (pelo menos os que não são amigos da casa, como Alckmin e Marina, pouco interrompidos), os apresentadores do JN mostraram que não estavam ali para ajudar os telespectadores/eleitores a conhecerem melhor os programas e as ideias dos presidenciáveis.

Mas para que então as tais “entrevistas”? A tabela abaixo (que abrange apenas os mercados da Grande São Paulo e do Grande Rio), retirada do site do Kantar Ibope Mídia é uma pista:

Como se pode observar a audiência do JN já não é mais aquela de uns 20 anos atrás, nem mesmo de 10 anos. O percentual médio de domicílios que assistem ao telejornal é de 27,5%, com pico no mercado do DF, com 32%, e vale no da vizinha Grande Goiânia, com 19,9%. Já o percentual médio de indivíduos que vê efetivamente o programa é de 12,8% – isso quer dizer que para se ter certeza de que pelo menos uma pessoa assiste o JN é preciso contar oito domicílios dentre aqueles que o estejam assistindo. No entanto, a Covariância Individual (COV individual) – ou seja, o número de pessoas que é impactado pelo programa, mesmo não o tendo visto diretamente (por meios de comentários em redes sociais, na copa do trabalho, na carona, com o vizinho….) é de 47,1%. Ou seja, aquela pessoa que efetivamente assistiu ao telejornal tende a comentar com outras 3,68 o que viu. É claro que, se o que for visto for um bate-boca entre Bonner&Vasconcellos e presidenciável, esse índice será certamente maior.

É isso mesmo que você entendeu, meu caro/minha cara: a “entrevista” do JN não foi para esclarecê-lo/la a fim de que você vote melhor, com mais consciência, mas apenas para “causar” e alavancar a influência do JN, aumentando assim sua capacidade de atrair anunciantes. E você que foi para a sua rede social favorita comentar o bate-boca em tempo real (a chamada “segunda tela”)…Bem, você caiu no conto.

Veja vence primeira seletiva do King of the Kings-2016; Estadão lidera Troféu Boimate

Neste momento de transe da nacionalidade, eis que chegamos ao resultado da primeira seletiva do King of the Kings, único prêmio do país a reconhecer os jornalistas que, dia a dia, de sol a sol, empregam todo o seu esforço em prol de avacalhar a própria profissão. São sete os classificados nesta seletiva para a final de janeiro de 2017 – as outras sete cascatas compõem, desde já, a lista da segunda seletiva. A vencedora foi a cascata “Veja anuncia que Lula vai pedir asilo na Itália e é desmentida pela embaixada do país”, com 97 votos, 13% do total de 720 sufrágios.

Além do Kofk para as cascatas individuais, há ainda o Troféu Boimate para o veículo mais cascateiro – pelo regulamento, a Veja está excluída por ser “hors concurs”, assim, ela não é contada mesmo tendo vencido a seletiva individual. Neste prêmio, o Estado de São Paulo disparou, com três cascatas.
Dito isto, vamos às listas:

King of the Kings (classificadas na primeira seletiva):

1. Veja anuncia que Lula vai pedir asilo na Itália e é desmentida pela embaixada do país – 97 votos (13%). Autoria: desconhecida.

2. Istoé afirma que presidenta está a um passo da loucura – 88 (12%). Autoria: Sérgio Pardellas e Débora Bergamasco.

3. Rede Globo divulga grampo realizado ilegalmente a mando de Sérgio Moro envolvendo a presidente da República – 85 (12%). Autoria: William Bonner.

4. Estado de São Paulo divulga lista de apoio a Sérgio Moro com nome de 500 juízes federais, mas assinaturas eram apenas 200, nem todas de juízes federais e algumas nem eram juízes – 78 (11%). Autoria: Fausto Macedo e Julia Affonso.

5. Estado de São Paulo publica como afirmação de Lula o que era uma corrente no What´s up – 65 (9%). Autoria: Vera Rosa e Adriano Ceolin.

6. Zero Hora troca FHC por Lula em charge sobre os R$ 100 milhões em propinas – 64 (9%). Autoria: Marco Aurélio.

7. Estado de São Paulo acusa Lula mencionando relatório da PF que não fala do ex-presidente – 53 (7%). Autoria: Ricardo Brandt, Andreza Matais, Fausto Macedo e Julia Affonso.

Troféu Boimate (colocação após a primeira seletiva *):

1. Estado de São Paulo: 3
2. Zero Hora, Rede Globo e IstoÉ – 1

* Pelo regulamento do prêmio, a Veja é “hours concours”