O presidente Trump, o jornalismo e nós

Vou continuar devendo o restante da análise dos dados da pesquisa da FSB sobre o consumo de mídia dos deputados federais. Não resisto a dar meu pitaco sobre o cataclismo que foi a eleição de Donald Trump para o cargo de homem mais poderoso do mundo, fato amplamente considerado como o fim do mundo conforme o conhecemos. No caso, meu palpite se junta a um dos subtemas mais amplamente debatidos nestes dias – como a mídia fracassou ridiculamente ao prever a vitória de Hillary Clinton, num novo caso “Dewey derrota Truman”.

 

De novo...

De novo…

Sobrou pra todo mundo e pra todo lado. Margaret Sullivan, ex-“editora pública” (algo com mais peso do que um simples ombudsman) do NYT e hoje colunista do Washington Post, afirmou que os coleguinhas norte-americanos botaram na cabeça que o sujeito não podia ganhar e simplesmente decidiram olhar para o outro lado quando viam uma multidão ululante de seguidores de Trump na sua frente. Segundo ela, os bem-educados, urbanos e liberais (lá isso quer dizer de centro-esquerda), moradores de Nova York, Washington D.C. ou da Costa Leste, não quiseram ouvir o que lhes gritavam os habitantes pobres – e, na maioria, brancos – dos estados do Cinturão de Ferrugem (Rust Belt), aquele grupo de estados que acabou dando a vitória ao bilionário, apesar de ele ter tido menos votos do que a concorrente (vá entender por que eles mantêm um sistema eleitoral do Século XVIII…)

Jim Rutemberg, o analista de mídia (é, tem isso lá) do concorrente New York Times, vai pelo mesmo caminho e chega mais longe ao escrever que “se a mídia falhou em apresentar um cenário político baseado na realidade, então ela falhou na sua missão fundamental”. E aí Rutemberg toca no ponto em que eu queria tratar aqui (supernariz de cera, hein?) ao dizer que “política não são apenas números”. Esse é o problema básico. Nada que envolva seres humanos é.

Para entender meu ponto é realmente necessário que você siga este link, que leva a uma matéria do Nexo, uma jovem publicação da qual gosto tanto que sou assinante. Eu espero você ir lá, rolar a tela, dar uma boa olhada e voltar. Vai que é realmente importante.

“Mas que porra é essa?!”, foi o que perguntei ao meu zíper quando vi essa página pela primeira vez. Pois é. Eu, um cara que gosta de dados, fiquei chocado com uma série de oito chiquérrimos gráficos dos mais diversos tipos completamente desacompanhados de quaisquer tabelas ou explicações, a não ser as legendas que os apresentam. Se você não for um analista de dados do IBGE duvido muito que consiga ler este monte de gráficos e decodificá-los em algo inteligível em tempo menor do que os 10 minutos que levei para entender o que estava ali e notar que: a) se você ler os gráficos na ordem da tela, tem uma grande chance de chegar à conclusão oposta ao que eles realmente mostram – que a PEC do Teto atinge o lugar errado se a ideia é mesmo acabar com o déficit público; e b ) que ainda faltam dois grupos de dados (e respectivos gráficos) fundamentais para uma avaliação precisa da atual Emenda Constitucional 55 (ex-241) – o gasto do governo com o pagamento de juros e a relação desse dispêndio com o total de despesas.

E olha que estou falando do Nexo, uma publicação nova e que se baseia em dados, como Aos Fatos, Lupa, Gênero & Número etc. Não é da mídia corporativa, que essa não apenas ignora a população, como fez a americana na eleição de Trump, como, quando presta atenção nela, é para atacá-la, como tem acontecido, por exemplo, com as ocupações de escolas e universidade públicas pelos estudantes.

Partindo do pressuposto que esses veículos não querem fazer o mesmo da mídia corporativa – ou seja, viver mamando nas tetas do Estado por meio de publicidade e jogando no cassino do mercado financeiro, usando o jornalismo como fachada -, talvez o que tenha movido o editor do Nexo que simplesmente tacou um conjunto de dados na página para o leitor virar-se como pudesse tenha a ver com que Sullivan diagnosticou: os profissionais que trabalham nestes veículos têm quase nada a ver com o resto da população brasileira, pois há pouca diversidade social entre eles. Assim, por mais bem-intencionados que sejam, o jornalismo que produzem tem quase tão pouco a ver com a realidade como o praticado pela mídia corporativa e não vai ajudar a muda-la e/ou esclarecer o cidadão (se é isso que eles desejam, claro). Este é ponto bem exposto por Danah Boyd, da New York University.

Há ainda um outro ponto que joga contra o jornalismo que luta para emergir no Brasil e tem a ver com a mesma bolha em que vivem os jornalistas dos novos veículos: eles são pautados pelos que têm o poder. A falta daqueles dois dados (e gráficos) que citei acima mostra bem este fato – como o governo só fala de despesas primárias, parece não ter ocorrido ao pessoal do Nexo que juros também fazem parte das despesas. Outra demonstração é que os jornalistas que gostam de trabalhar com dados ficam procurando pegar os políticos na mentira. Como a eleição de Trump demonstrou, isso não tem quase nenhuma importância – ele mentia em mais de 90% dos casos e elevou a mentira a uma forma distorcida de arte.

Como resolver esses problemas? Não creio que haja uma resposta única e mágica, mas conversando com uma coleguinha, especialista em trabalhar com jornalistas que usam dados em suas matérias, chegamos a uma conclusão óbvia – os jornalistas precisam não apenas trabalhar com dados, mas fazer com que eles façam sentido com a realidade em volta – e uma outra não tão óbvia, a de que os setores mais organizados da sociedade civil devem eles mesmos aprender a lidar com dados a fim de produzir conteúdos que falem de suas realidades e/ou pautar os veículos da Nova Mídia.

Creio que sem essas duas vertentes trabalhando para convergir, dificilmente o jornalismo sobreviverá, aqui e alhures, como uma atividade relevante num mundo no qual ele já perdeu grande parte do poder de influenciar que possuía há apenas duas décadas para redes sociais as quais, vamos ser francos, não estão nem aí para saber se algo que é publicado em suas plataformas é verdade ou não.

Os deputados e os veículos de comunicação – III (TV)

Assim chegamos à terceira parte da análise da pesquisa da FSB a respeito de como os políticos se informam e qual a influência os meios de comunicação têm sobre eles (as duas primeiras colunas sobre o tema, você pode acessar aqui e aqui). Nesta semana, o foco recai sobre quais os telejornais vistos por suas excelências e os portais que são acessados por eles mais frequentemente.

Antes de começar, aqueles toques metodológicos um tanto chatos:

1.  O universo abrange apenas os deputados federais.
2.  Foram ouvidos 230 parlamentares de 26 partidos, nos dias 8 e 9 de março.
3.  A escolha foi aleatória, mas observou-se a proporcionalidade das bancadas.
4.  Partidos com apenas um representante não fazem parte da amostra por permitirem a identificação dos respondentes.
5.  Por internet, o levantamento abrange mídias sociais, blogs e sites.
6.  Nas perguntas tanto sobre os telejornais quanto sobre os portais foram computadas até três respostas.
7.  Em 2016, as respostas alcançam apenas o primeiro trimestre.

Vamos então ao primeiro gráficos, com a análise em seguida.

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1. No total, os três telejornais nacionais da Globo (Nacional, Globo e Bom dia, Brasil) perderam, em conjunto, 16 pontos percentuais no período considerado. A maior perda de audiência entre os parlamentares foi do JN, com 14 pontos percentuais (de 59% para 45%) e o ganho solitário foi do JG, com 5 p.p (25% para 30%). O Bom Dia, Brasil perdeu 7 p.p. (de 12% para 5%).

2. A Globonews manteve-se quase estável com a perda de apenas 2 p.p. no mesmo período.

3. O maior ganho relativo no período foi do Jornal da Record, que dobrou seu índice, saindo de 5% de audiência para 10%.

4. O Jornal da Band também teve uma queda importante de 4 p.p. (26% para 22%), com o agravante, para o grupo, pela queda concomitante da BandNews de 2% para 1%.

5. O Jornal do SBT também apresentou pequena queda, de 2 p.p. (6% para 4%).

6. A pesquisa aponta um crescimento de 3 p.p. (7% para 10%) em Outros. Não é possível afirmar com certeza, mas, dado os desempenhos dos telejornais nomeados, é possível que boa parte deste ganho seja da RecordNews e do Repórter Brasil, da EBC, este devido à cobertura mais equilibrada do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

7. Dos dados gerais, observa-se a clara perda de importância dos telejornais como foco de consumo de notícias dos deputados federais, pois, com exceção do Jornal da Record e de Outros, houve queda muito significativa nos índices de audiência deste tipo de produto.

 

Sigamos agora para os gráficos (são dois) referentes aos portais e suas análises.

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1. Apenas dois portais (G1 e UOL) concentram 91% da atenção dos deputados federais.

2. Os dois, porém, estão trilhando, no momento, caminhos diferentes. O G1 é o destaque dos gráficos, por, no decorrer dos nove anos do levantamento, ter crescido nada menos do que 43 pontos percentuais, tendo assumido a liderança e ampliado sua vantagem sobre o segundo colocado (o UOL) de lá para cá.

3. O portal da Folha, ao contrário, depois de crescer 14 p.p. nos anos do levantamento, apresentou uma brusca queda de 12 p.p. nos três primeiros meses de 2016. Há que se observar que esta redução drástica ocorreu no mesmo momento em que o portal passou a apresentar colunistas de extrema-direita como Reinaldo Azevedo e Kim Kataguiri.

4. Diante da vantagem avassaladora dos portais do Grupo Globo e do UOL, sobra pouco para os outros. Mesmo nestes, porém, há uma certa concentração, com o Terra tendo 6% de audiência, contra índices irrisórios dos outros três portais (chegando a zero no caso do iG).

5. Observa-se que o crescimento dos portais vai contra a tendência geral dos veículos que apresentaram queda, com apenas dois apresentando decréscimo nos nove anos de levantamento, sendo que apenas um deles com mais de 5 p.p.

6. Também é notável o mau desempenho dos portais de jornais, especialmente o da Folha de São Paulo, que, nos últimos seis anos perdeu 20 p.p. (22% para 2%) de audiência entre os parlamentares. Lamento a ausência do site Globo.com da pesquisa.
Quem quiser baixar a pesquisa, pode fazê-lo clicando aqui.

Ninja 1 x 0 Folha e o fim do jornalismo. Ou não.

Vou dar uma paradinha nas análises dos dados do IVC sobre a circulação de jornais e revistas (falta só a IstoÉ) para falar rapidamente de dois eventos que, a meu ver estão relacionados: o enésimo passaralho na Folha e o engajamento da página da Mídia Ninja no facebook superando o do jornal dos Frias, do Estado, do Globo e da Veja somados. Como em geral ocorre nos pós-passaralhos, houve choro, ranger de dentes e vaticínios mais ou menos apocalípticos sobre o fim do jornalismo. Discordo. O jornalismo não vai acabar. O que está indo para o espaço não é ele, mas o modelo de negócios em que as empresas jornalísticas se baseavam.

Abaixo vai uma lista de links para os textos (e imagens) que baseiam a minha afirmação (desculpe, mas você vai ter um trabalhinho também…):

“Como o Facebook engoliu o jornalismo” – É parte da palestra ministrada pela fantástica Emily Bell, diretora do Tow Centre for Digital Journalism da Columbia Graduate School of Journalism, no Centre for Research in the Arts, Social Sciences and Humanities da Universidade de Cambridge, onde é professora convidada no período 2015-2016. O texto foi escrito antes de Mark ter mudado de ideia e meio que colocado de lado o projeto de ser o canal de distribuição dos veículos, muito provavelmente por ter visto que não precisa mais deles.

“O jornalismo nunca foi um produto comercial” – E por que Mark pode acreditar que não precisa mais dos veículos? A resposta está nesta entrevista de Robert G. Picard, do Reuters Institute, da Universidade de Oxford, que, como eu, crê que o jornalismo pode sobreviver às empresas que editam jornais, desde que os jornalistas façam o seu trabalho direito (o que, no Brasil, vamos convir, não acontece há anos).

“Todos querem seus dados! O WhatsApp não me deixa mentir” – Neste link vem o aprofundamento do que Picard menciona acima – que os anunciantes podem chegar melhor ao público sem precisar pagar às editoras por isso – e fará com que o valor do trabalho do jornalista caia cada vez mais se os profissionais insistirem em viver num mundo que entrou em colapso (aliás, o veículo em que esta matéria foi publicada é um exemplo de um caminho pelo qual o jornalismo e os jornalistas podem enveredar para sobreviver).

“Quem escolhe o que você lê?” – O mundo novo, porém, traz perigos ainda maiores do que o antigo, conforme explica este vídeo, parte de uma série sobre os riscos que corre a internet (em um veículo que aponta outra vertente para o futuro do par jornalismo/jornalistas).

“Dear Mark. I am writing this to inform you that I shall not comply with your requirement to remove this picture” – Quer um exemplo do perigo mencionado no vídeo? Pois tome este, recentíssimo, da semana passada, que aconteceu na Noruega e não acabou por aí – seguiu com uma recomendação de que, para evitar este tipo de problemas, o Facebook…contratasse jornalistas! Só que Mark não acha uma boa ideia – aliás, pensa exatamente o oposto.

 

A circulação da Época e “crowdfunding”

Nesta semana, a análise de circulação será revista semanal do Grupo Globo, a Época, enfocando o primeiro trimestre deste ano, em relação aos primeiro e quarto períodos trimestrais de 2015. Antes, porém, pausa para uma autopromoção. Para manter este serviço, que antes era 0800 graças a uma fonte, preciso pagar. Para recolher fundos, abri uma campanha de “crowdfunding” no Catarse. Se você gostar da que vai ler e achar a manutenção deste serviço importante, é só clicar aqui e contribuir com qualquer quantia até 29 de setembro. Desde já, fico muito grato.

Agora, aos números da Época. O primeiro ponto a ser observado é que a semanal dos Marinho, diferente da Veja, não apresenta assinaturas híbridas (digitais+papel), o que facilita a análise e deixa a nu a irrelevância da circulação digital da revista, que não chega a 2.500 em meio a uma circulação total de mais de 360 mil exemplares. Desta forma, as análises da semanal dos Marinho é bem mais curta do que dos veículos já estudados (que bom, hein?). Por este fato também os pares tabelas/gráficos vão seguidos um do outro e analisados em conjunto.

 

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Circulacao Epoca 1tri_2016-1tri_2015
1. A comparação entre os meses extremos do período de seis meses entre outubro e março (primeiro par tabela-gráfico), aponta uma queda de 1,2% na circulação, indicando estabilidade na circulação geral, o que está em linha com o que aconteceu em todas as publicações impressas, em maior ou menor grau.

2. Já na comparação entre os primeiros trimestres de 2015 e 2016 (segundo par tabela-gráfico), há uma diferença mais notável. Entre janeiro e março do ano passado, a circulação da Época cresceu 1,5%, enquanto apresentou uma pequena queda de 0,3% no mesmo período deste ano.

3. O resultado acima seria melhor se a comparação entre os meses de janeiro não apresentasse uma queda de 4%, indicando uma mudança de patamar (para baixo) da circulação na virada do ano, com uma queda de 5,5% entre dezembro e janeiro.

4. Este fato não é incomum, dado que estes são meses de férias e de pagamento de contas anuais e aquelas contraídas por conta das Festas. O problema mesmo é que a recuperação não chegou com um nível que se poderia esperar, fazendo com que a tendência de queda se mantivesse, embora em níveis menores, mas, ainda assim, invertendo a tendência demonstrada entre janeiro e março de 2015.

5. O grande problema da Época, porém, é mesmo sua fraquíssima inserção digital, que chega a merecer mesmo a qualificação de ridícula. Ela é muito perigosa para a longevidade da publicação, pois ela praticamente não tem presença na mídia digital (internet ou apps) que é para onde caminha o meio revista.
O “CROWDFUNDING”

Gostou da análise? Acha importante a sociedade ter acesso a estes números? Então por favor me ajude a manter o serviço contribuindo na “vaquinha virtual” no Catarse. Vamos lá! Tem recompensa a partir de 20 “real”. É só clicar aqui e colaborar. De novo, agradeço a ajuda desde já.

Facebook “mistura-e-manda” – I

O facebook tem um monte de problemas, mas um dos que mais me irrita é que não posso (ou não sei e aí a irritação fica com minha burrice) encadear links. Não adianta botar hashtags porque elas ficam perdidas da mesma maneira. Assim, resolvi reviver o “mistura-e-manda”, um tipo de post que escrevia em outras era da Coleguinhas, com o objetivo de pôr links que fazem parte de um (ou mais) temas, pelo menos dentro de minha caótica cachola – sempre com o que escrevi no post.

Para começar, aí vão quatro:
O abraço de tamanduá corporativo no jornalismo
O jornalismo brasileiro veiculado pelos grandes meios não se tornou este desastre de uma hora para outra, e nem devido apenas aos interesses dos seus donos em arranjar dinheiro com um governo ilegítimo que eles puseram no Planalto. O processo vem de longe e este ótimo documentário, exibido em 2009 e que levou três anos para ser produzido, demonstra as raízes do que vivemos em 2016. Vale muito ver (de novo se for o caso) e divulgar.

Aquarius só para maiores
Quem produzir cultura no Brasil nos próximos anos, precisará levar muito a sério a possibilidade de só ter a internet como plataforma para divulgar obras contra o “fascismo light” (leve, por enquanto) que vai assolando o país aos poucos. Pelo menos, aquelas que tiverem o objetivo de atingir um público mais abrangente.

“Manual do Perfeito Empreendedor” ou economia para coxinhas
Está desempregado?! Está empregado, mas o seu patrão é um mala-sem-alça-de-papelão-na-chuva?!
Seus problemas acabaram!
É só seguir o “Manual do Perfeito Empreeendedor”, veiculado pela GloboNews! O MPE não apenas permitirá conseguir o emprego dos sonhos, mas, dependendo apenas de sua ambição, talento e determinação, levá-lo-á à riqueza!
(Se você seguir o MPE e não conseguir sucesso é porque “tu é” um idiota irremediável, sua besta!)

Uma entrevista de emprego na redação

 

#aGlobodedveserdestruida

A circulação da Veja e o “crowdfunding”

Na série sobre o desempenho da circulação dos veículos impressos no primeiro trimestre de 2016, chegou a vez das revistas, começando pela de maior circulação, a Veja. Mas antes de ir aos números e gráficos, mais uma vez lembro da campanha de “crowdfunding” que pus no Catarse, visando manter este serviço que minha fonte no IVC se foi. A campanha entra em seu último mês (termina em 29 de setembro) e, não vou lhe enganar, não vai muito bem, precisando ainda de muita força. Se você puder colaborar, com qualquer quantia que seja, vai ser de grande ajuda. Se quiser conhecer mais do projeto e dar uma força, é só clicar aqui.

Bem, agora vamos aos números da revista que é o carro-chefe, tanque de guerra e pé-de-cabra de cofre público dos Civita.

 

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Analisando o primeiro par tabela/gráfico, temos o seguinte (atenção: todos os números se referem à média de circulação das edições de cada mês do período, ou seja, a quatro ou cinco edições mensais e não apenas a uma edição específica):

1. Comparando os meses extremos do período (outubro/2015 com março/2016), temos que houve um decréscimo na circulação total de 3,5%, com uma queda equilibrada nos três tipos de edição (impressa, híbrida e digital): 3,6% (impressa), 3% (híbrida) e 3,5% (digital).

2. Na comparação do primeiro subperíodo de três meses (outubro-dezembro de 2015), a circulação geral caiu bem menos do que no período inteiro, apenas 1,4%, graças a um acréscimo na edição híbrida (de 1,2%) e reduções menores nas edições impressa (-1,8%) e digital (-2,1%).

3. No primeiro trimestre de 2016, no entanto, houve uma reversão forte na edição híbrida, que passou ao campo negativo de maneira muito forte, caindo 3%. Esta reversão impediu os Civita de comemorar uma maior melhoria geral na circulação, que subiu 0,2%, graças à edição impressa que reverteu o resultado, crescendo 0,8% no período, enquanto a digital caía 0,9%, ainda assim em ritmo menor do que no trimestre anterior.

4. Na comparação entre os dois últimos trimestres, pode-se observar que a circulação da Veja vem mostrando uma certa tendência à estabilidade, com o que parece ser uma decisão dos leitores fiéis à quase cinquentenária publicação de definir-se pela edição impressa (em sua maioria) ou pela digital, abrindo mão da possibilidade de ler a revista em dois formatos.

Veja: 1tri-2015_1tri-2016


Passando à comparação de um período maior – 1º trimestre de 2015 com o mesmo período de 2016 -, temos:
1. No confronto entre o subperíodo entre janeiro e março de 2015 e o de janeiro-março de 2016 (já visto no item 3 acima), vemos que houve um crescimento na circulação total de 1% em janeiro-março/2015 (contra um de 0,2% no mesmo período do ano seguinte), com bom desempenho da edição digital (2,6%), acompanhada com mais modestos, na mesma direção, das edições híbrida (1,4%) e impressa (0,9%).

2. Estas boas notícias para os Civita, porém, perderam-se ao longo do ano, como se vê na comparação entre os meses extremos dos dois trimestres. Há uma queda importante, de 5,7%, na circulação geral na comparação entre março de 2015 e o mesmo mês deste ano. Esta redução foi puxada pelo mau desempenho da edição impressa que caiu 7,2% entre os dois meses de março, o que tornou vãos o ótimo desemprenho da edição digital (+ 6,3%) e o bom da edição híbrida (+ 3,1%).

3. Importante observar que a edição impressa da Veja caiu do patamar de 1 milhão de exemplares na passagem de 2015 para 2016. Esta mudança de patamar já acontecera em meados de 2015, mas houver um retorno ao anterior rapidamente, o que não aconteceu em 2016 – no primeiro trimestre do ano, a circulação impressa manteve-se mais de 50 mil exemplares abaixo do milhão de exemplares.
Podemos observar, pelos números acima, que a circulação geral da Veja apresentou uma leve melhora nos primeiros três meses de 2016, num movimento que ainda é necessário observar se é consistente – o que se verá apenas acompanhando mais dois trimestres. Esta ligeira recuperação, porém, ainda está longe de apontar um retorno nem mesmo a 2015, um patamar histórico já baixo para a publicação. Isto ocorre porque o principal motor da circulação, a edição impressa, caiu abaixo de 1 milhão de exemplares e não demonstra força para retomar o antigo desempenho.

O “CROWDFUNDING”

Se você gostou desta análise e quer ver outras, por favor, me ajude a manter o serviço contribuindo na “vaquinha virtual” no Catarse. Vamos lá! Tem recompensa a partir de 20 “real”. É só clicar aqui e colaborar. Agradeço a ajuda desde já.

A circulação do Globo e o “crowdfunding”

Nesta semana analisarei os números de circulação de O Globo. O esquema é o mesmo: comparação entre os dois últimos trimestres e entre os primeiros trimestres de 2015 e 2016. E também se mantém o aviso/pedido: ainda está aberto o “crowdfunding” para que eu consiga manter este serviço. Se você quiser apoiar, clique aqui – qualquer quantia será recebida com muita gratidão.

Agora, aos números.

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1. O primeiro par tabela/gráfico mostra que o jornal dos Marinho teve um desempenho bem melhor que seus concorrentes paulistas nos seis meses compreendidos entre outubro de 2015 e março de 2016. Enquanto a circulação total média, de segunda a domingo, do Estado de São Paulo caiu 5,9% e a da Folha, 3,7%, a do Globo ficou praticamente estável (- 0,3%) – de 295.687 para 294.932.

2. Olhando-se mais de perto, por tipo de edição, a digital foi a que assegurou essa estabilidade – invejável no momento atual da imprensa brasileira -, com um crescimento de 10,4%, entre outubro e março (de 61.095 para 67.458), embora já mostrando desaceleração de um trimestre para o outro (de 8,7% para 5%).

3. A edição impressa, se não apresentou estabilidade total, teve uma queda bem pequena no período de seis meses, de menos 2% (de 186.494 para 182.749), bem abaixo da elevação da Folha (1,7%) e próxima à queda do Estadão no período (3,1%). No entanto, ao contrário da digital, a circulação apresentou pequena aceleração de um semestre para outro – de 0%, entre outubro e dezembro, para mais 1,4%, no trimestre seguinte, o que a faz seguir mais de perto a da Folha, no total do período.

4. As assinaturas híbridas (digital+papel) do diário carioca apresentaram um comportamento errático no período estudado. Depois de elevação de 6,5% no trimestre entre outubro e dezembro de 2015 (de 48.098 para 51.214), este tipo de assinatura amargou uma queda de 13,7% (51.801 para 44.725), levando a variação em seis meses a ser negativa em 7%. O desempenho ficou bem abaixo do crescimento da Folha no período (4,8%), mas ainda bem distante da desastrosa queda de 22,4% do Estadão.

 

Vamos, agora, confrontar o desempenho da circulação do Globo nos primeiros três meses de 2015 com o mesmo período de 2016.

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1. Considerando-se o total da circulação, o jornal carioca apresentou um desempenho bem melhor do que seus concorrentes paulistas, mas, ainda assim, longe de ser confortável. O diário da Irineu Marinho apresentou queda de 8,8% (321.919 para 294.932), na comparação entre março de 2015 e o mesmo mês deste ano, enquanto os números da Folha e do Estado foram, respectivamente, de 15,2% e 16,2%.
2. O problema do jornal dos Marinho é que somente a circulação digital tem aumentado (0,5% no primeiro tri de 2015 e de 4,9% em igual período de 2016), num total de 3,3% de março contra março. Enquanto isso, a circulação impressa caiu de 9,4% (março contra março) e a híbrida, de 17,5%. Assim, a queda, em números absolutos, considerando os dois meses extremos do período foi de 321.919 para 294.932.
3. No comparativo de circulação total de trimestre contra trimestre, no primeiro de 2015, houve uma aceleração de 0,2%, contra uma outra de 0,5% no mesmo período deste ano. Estas duas acelerações combinadas, porém, não foram capazes de inverter a queda geral ocorrida no ano de 2015.

Os dados mostram que, como seus concorrentes paulistas, O Globo alcançou uma estabilidade, nos primeiros meses de 2016, num patamar bem abaixo da circulação de 2015. A edição digital até vem tendo um bom desempenho, mas as reduções nas circulações impressas e, principalmente, híbrida jogam para baixo o total. Assim, a reversão deste quadro só ocorrerá com uma aceleração maior das assinaturas digitais, algo que parece estar um tanto distante.

O “CROWDFUNDING”

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