Pesquisa Brasileira de Mídia 2016 (V): rádio, meio abrangente, com credibilidade e em mutação

 

“O brasileiro não vive sem rádio” era antigo bordão que se ouvia na Rádio Globo, no início das transmissões esportivas e encerrava uma verdade da época (há uns 30 anos): o meio era fundamental para a informação e o lazer daqueles dentre nós que não tinham acesso total à TV. Essa realidade mudou muito – com a aumento exponencial da venda de TVs (hoje almoçar ou jantar num restaurante comum sem ter pelo menos um aparelho sobre nossas cabeças é quase impossível) e a chegada da internet (principalmente após a explosão dos dispositivos móveis), o rádio ficou para trás. Ainda assim, como se vê na nossa já familiar tabela abaixo, o meio ainda é relevante no acesso à informação por parte dos brasileiros (aqui aquele ponto também já tradicional – a amostra é de 9.880 entre as 15.050 ouvidas pela PBM-2016):

 

 

Essa relevância fica ainda mais evidente quando se observa que, em termos de credibilidade (“confia” e “confia quase sempre”), o rádio supera em quase quatro vezes a internet (57% a 15%) e até mesmo a TV – mas dentro da margem de erro – por 57% a 54%:

 

A tabela abaixo traz uma novidade extremamente interessante. Algo surpreendentemente, os celulares já superam os tradicionais aparelhos embarcados nos carros como aqueles em que se mais ouve rádio. Não dá para saber não só porque a pergunta não foi feita, mas também por falta de comparação histórica, mas é bem possível que os celulares tenham vindo substituir o venerável radinho de pilha, que não é visto mais nem nos ouvidos dos torcedores, onde eram onipresentes a ponto de as vinhetas das emissoras ecoarem pelos estádios.

 

Como seria de se esperar, ouve-se mais rádio nos dias de semana, mas observe-se que a vantagem dos que ouvem com mais frequência nos fins de semana sobre aqueles que são fiéis ao meio e o ouvem igualmente todos os dias, está dentro da margem de erro, mostrando a fidelidade de seu público.

Se houve mudanças em algumas características do meio, uma delas permanece: a extrema pulverização da audiência, como mostra a tabela, que reúne as cinco mais ouvidas, segundo a PBM-2016:

 

ANÁLISE

1. Comete erro aqueles que não anunciam em rádio. O veículo ainda é muito relevante para os brasileiros e apresenta alto grau de credibilidade.

2. As rádios FMs dominam completamente o mercado, como demonstram as cinco primeiras colocadas no ranking das mais ouvidas.

3. A tendência é que o acesso por celulares aumente no futuro, já que o acesso à internet por meio de dispositivos móveis tem crescido exponencialmente e ainda apresenta espaço para aumentar.

4. A aceleração do uso de celulares para acessar programas de rádio é previsível também pela crescente audiência dos podcasts no país. Embora o ritmo desse crescimento seja mais lento do que em outros mercados – EUA, por exemplo –, é perceptível e tende a aumentar.

5. Caso os ouvintes jovens continuem a fazer aumentar a audiência dos podcasts – e o mercado publicitário se volte para eles -, as rádios tradicionais, que já sofrem com a dispersão característica do meio, sofrerão um golpe duríssimo e, em alguns casos, fatais.

Pesquisa Brasileira de Mídia 2016 (IV): revista, um meio com pouca penetração e credibilidade

Revistas: os bons tempos vão longe

As revistas semanais de informação costumavam provocar grande repercussão com suas matérias de capa. De uns anos para cá, devido à internet, elas foram perdendo leitores a ponto de simplesmente acabarem com as suas versões impressas, como aconteceu com a Newsweek nos EUA, que até voltou a ser impressa, mas não é nem sombra do que foi. No Brasil, esse processo foi mais intenso devido ao comportamento parcial das revistas no processo que culminou com golpe parlamentar de 2016, que fez com sua credibilidade fosse jogada num fosso, embora esse comportamento não tenha sido o único fator.

Esse processo de desgaste é flagrado nos números da Pesquisa Brasileira de Mídia-2016, como se vê abaixo: é de 0% a percentagem dos 15.050 entrevistados que têm o meio como seu principal canal de informação. Mesmo como canal secundário, as revistas não passam de 1%.

A situação de descrença mesmo daqueles que leem suas matérias pode ser vista claramente na tabela abaixo. Em termos de confiança, o meio supera apenas a internet (40% de “confia/confia quase sempre” contra 15%) , ficando bem abaixo dos outros meios tradicionais:

 

 

Como nos jornais, os leitores continuam a preferir as versões impressas às digitais, numa proporção de dois em cada três (lamentavelmente, também como nos jornais, o levantamento não indica os aparelhos de acesso, se computador ou móveis):

 

O leitor de revista impressa gosta muito de filar o exemplar de outros – quase um em cada três leem um exemplar que não comprou:

 

Em termos de leitura, a Veja continua disparado na frente, com 25% da preferência entre os que leem revista, muito à frente de suas concorrentes:

 

Análise

Basicamente, o meio revista está morto e enterrado no Brasil. A repercussão que ainda obtém vem da exposição que outros veículos de maior penetração – ou seja, todos os outros – lhe dão – deixadas à própria sorte, não fariam a cabeça de ninguém. Até porque a credibilidade do meio é muito baixa em relação aos seus concorrentes tradicionais.

É tentador atribuir este déficit de credibilidade à cobertura política parcial das revistas semanais. No entanto, há que se observar que, entre os cinco títulos mais vendidos, estão incluídos as três semanais de maior projeção. Assim, apesar de certamente a parcialidade das semanais influírem na descrença do público com o meio, há que se ver que este público pode/deve estar colocando no mesmo saco o “jornalismo de celebridades”, que, por definição, é pouco crível.

A Veja é, de longe, o veículo mais lido, mas o fato de que praticamente um terço dos leitores acessarem as revistas por meio de exemplares que não foram comprados relativizam essa fidelidade – uma em cada três consumidores folheiam exemplares que estão à mão em salas de espera de consultórios e escritórios. Este fato é também uma má notícia para as editoras, pois quem fila um exemplar não o compra.

Ainda assim, em meio a essa devastação, os Civita ainda reinam, pois, além de seu principal título ser o líder disparado no meio, o segundo e o quinto lugares pertencem à Editora Caras na qual a família possui participação pessoal, mas não se sabe em que percentual, a Editora Caras é uma empresa de capital fechado.

A volta das numeralhas: Pesquisa Brasileira de Mídia-2016 – I

TV vai bem, obrigado. Já os impressos…

 

 

Pode confessar, não é feio: estava com saudade das tabelas e gráficos, né? Pois sua ansiedade acabou, as numeralhas de 2018 começam nesta semana com a primeira da série de análises sobre a versão 2016 da Pesquisa Brasileira de Mídia (PBM-2016). Esse tradicional levantamento, realizado pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom), sofreu modificações metodológicas importantes, levadas a cabo pelo Ibope Inteligência, a empresa responsável por ela este ano. Assim, não é possível fazer comparações com a de 2015 na maior parte das vezes. Sempre que for possível, porém, eu farei, ok?
Falando em metodologia, aqui vão as principais variáveis da amostra da pesquisa:

1. O desenho da amostra tomou por base os dados do Censo de 2010 e a PNAD de 2014.
2. Foram ouvidas 15.050 pessoas de 16 anos ou mais das cinco regiões, com a seguinte distribuição:

 

3. A divisão percentual por gênero, faixa etária, instrução e ramo de atividade foi:

Beleza. Agora, vamos à tabela e ao gráfico relativos à pesquisa em si, iniciando pela audiência geral, comparação entre os diversos meios.

 

ANÁLISE

A tabela mostra a razão numérica para algo que já estamos meio cansados de saber – algo só acontece de verdade se a televisão mostrar que aconteceu: quase dois terços da população têm no meio sua primeira opção de informação – e 90% informa-se por ela, mesmo que apresente outro meio como principal fonte de informação.

A internet se firmou de vez como segunda opção de meio de informação, sendo o primeiro para 1 em cada 4 brasileiros, e metade deles informa-se por ele, percentual importante quando observa-se que 61% da população do país acessa a rede – assim, 80% de quem acessa a internet no Brasil informa-se por ela (na TV, esse percentual chega a 93%, já que 97% dos lares brasileiros possuem aparelhos).

Os números mostram claramente que os meios impressos caminham para ser um produto de nicho no Brasil – na melhor das hipóteses – como prevê Mark Thompson, CEO do NYT, para ao mercado norte-americano. Apenas 3 em cada 100 pessoas têm nos jornais seu principal meio de informação, passando para 12 em cada 100 aqueles que se informam por eles. A situação é ainda pior para o meio revista: ninguém, termos percentuais, informa-se primariamente por ele e apenas 1% o faz.

O sempre esquecido rádio é que tem uma boa performance. Mesmo que apenas 7% tenha no meio o caminho primário de obtenção de informações, 30% o têm como meio complementar.

Grupo Globo muda para enfrentar um novo tempo

No último trimestre do ano, o Grupo Globo fez três movimentos, na sua principal área de negócios, para evitar o caminho rumo ao abismo seguido pela Abril. Esta, como se sabe, executou mais um passaralho, mandando 130 profissionais para a rua, ameaça acabar com títulos (ou torná-los apenas digitais) e vive agora sob ameaça concreta de passar por um processo de recuperação judicial. Os três movimentos globais foram os seguintes:

1. Na área impressa, mais um passo foi dado para unificar as estruturas do jornalismo impresso – a fim de reduzir custos -, com a demissão de Octávio Guedes, a alma do Extra, da direção do jornal, substituído por Humberto Tziolas. A mudança foi dada a conhecer por comunicado interno assinado por Frederic Kachar, diretor geral da Infoglobo, Editora Globo e Valor Econômico, e por Ruth de Aquino, Diretora Editorial O Globo, Extra, Expresso e Época.

2. Em outro movimento, realizado em fins de outubro, criou-se unidade de negócios voltada para a estruturação do produto de OTT (Over The Top),estilo Netflix, HBO GO, Amazon Prime e tal. João Mesquita, conhecido por ser um cara inovador que não tem medo de errar e era o encarregado dos canais Telecine, desenvolverá a plataforma, que iria além dos seus concorrentes estrangeiros, oferecendo, além dos canais Globosat (GNT, Futura, SporTV, Multishow etc), conteúdos de biblioteca (como fazem as pltaformas citadas), da TV aberta e até de conteúdos de terceiros. Ou seja, seria uma espécie de Globo Play com esteroides.

A ideia, parece, é preparar-se para, lá na frente, não enfrentar os grandes concorrentes de fora – afinal, por maior que seja a Globo em termos nacionais, é uma pigmeia em comparação a empresas como Apple, Amazon, Google, Netflix e outras, que, em algum momento, vão desenvolver-se por aqui –, mas associar-se a eles, que teriam interesse em uma parceria com o garoto grande da vizinhança. Ainda mais se esse garoto soubesse como falar com as classes de menor poder aquisitivo, que, mesmo que lentamente, acabarão tendo acesso à internet com velocidade suficiente para acessar conteúdos de streaming.

3. O terceiro movimento foi na alta cúpula. Roberto Irineu Marinho deixou a presidência do Grupo e manteve apenas a presidência do Conselho, onde seus irmãos, João Roberto e José Roberto, também estão. Em seu lugar fica o administrador e engenheiro Jorge Nóbrega, executivo que está há 20 anos na empresa, depois de ter passado por Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento, entre outros postos.

No comunicado em que informou a mudança, Roberto Irineu diz que, aos 70 anos, achou melhor ficar só na presidência do Conselho para permitir à empresa “maior capacidade e agilidade de transformação”.

Nóbrega será a ponte entre a segunda geração do clã Marinho e a terceira, hoje com 40 anos em média. Ele terá a tarefa de unir de vez as áreas de comunicação do Grupo, preparando o advento dos jovens Marinho, que receberiam uma empresa enxuta e, teoricamente, preparada para uma fase da globalização que nem seu imenso poder poderá evitar de chegar ao Brasil

Os três movimentos são parte da estratégia de recuperação de longo prazo da companhia, cuja empresa de participações, a Globopar, teve seu pedido de falência pedido em Nova York, após dar um calote, anunciado no dia 28 de outubro de 2002, não por acaso um dia após a eleição de Lula para a presidência pela primeira vez. Foi uma ameaça direta à TV Globo, avalista de alguns vultosos empréstimos, tomados nos anos 80 e 90 para a realização de investimentos desastrosos, com a compra da Telemontecarlo, nos anos 80, e, principalmente, a estúpida compra de ativos da privatizada Telebrás, em fins dos 90.

Após uma batalha de três anos contra os credores, na qual obteve um ajuda generosa do BNDES, ainda na gestão FHC, a Globo conseguiu se reerguer e entrar numa fase excepcional, muito auxiliada pela euforia econômica da Era Lula. Esses “anos dourados”, porém, começaram a ficar para trás já em 2012 – como mostra este estudo – e tempos mais duros se avizinham. Os Marinho preparam-se para lidar com eles.

O Extra e sua muralha

No primeiro momento, quando o Extra começou sua campanha contra o goleiro Muralha, do Flamengo, em 1º de setembro passado, colocando um “comunicado” na primeira página (abaixo), achei babaca e desrespeitoso, mas não cheguei a prestar muita atenção, pois ações deste tipo nunca foram raras em redações e, atualmente, são decididamente comuns.

Mesmo na semana passada, quando o jornal voltou a jogar nas mãos do atleta a culpa por mais uma derrota do rubro-negro nos pênaltis – algo comum para todos os clubes –, e a consequente perda do título da Copa do Brasil para o Cruzeiro, apenas achei que algum responsável pela primeira do Extra tinha algo de pessoal contra o jogador, já que no caderno de esportes, a culpa foi atirada sobre Diego (como se houvesse culpa em perder uma cobrança numa decisão e não algo perfeitamente esperado na vida de um jogador como Diego, principal atleta do time e cobrador oficial). A contradição pode ser vista abaixo.

No dia seguinte, porém, soube da situação pré-falimentar do Grupo Abril e os ataques do Extra contra Muralha ganharam algum sentido – não tenho como afirmar, já que não possuo mais acesso aos números do Instituto Verificador de Circulação (IVC), mas passei a suspeitar que as capas contra Muralha indicam que o Extra está sofrendo uma séria queda em sua circulação.

Como se sabe – e pode-se ver claramente nas ruas de qualquer grande cidade brasileira – a crise econômica abalou seriamente as classes C, D e E, o público ao qual o jornal se dirige. O fato de ser feito pensando nessas classes de consumo faz com que o Extra seja um “jornal de banca”, ou seja, ele praticamente não possui as assinaturas que mantêm os chamados quality papers voltados para as classes A e B (que também sofrem com a queda de circulação causada pela fuga dos assinantes, mas esse é outro capítulo da história). Dessa forma, o Extra necessita de chamadas fortes, “quentes”, para capturar a atenção de seus potenciais leitores e levá-los a coçar o bolso.

O jornal sempre atuou desse jeito, claro, com manchetes inteligentes e divertidas, mas, diante de uma queda acentuada como a que o jornal tem sofrido, inteligência não tem tanto efeito quanto o bom e velho sensacionalismo. Assim, a publicação partiu para este caminho com esta capa agressiva e politicamente perigosa (publicada duas semanas antes da primeira contra o jogador).

Compreensivelmente, ela provocou uma chuva de críticas, que, embora certamente não provenientes de seu público alvo, devem ter repercutido na redação. Ademais, declarar o Rio em guerra funciona bem para vender jornal, mas também provoca medo e esse sentimento não pode ser usado sempre, já que tende a provocar um “stress” social talvez incontrolável pelo Grupo Globo como um todo. É necessário dar uma aliviada, mas sem perder o foco na provocação de polêmicas sensacionalistas. Assim, a direção de redação do Extra parece ter resolvido apelar para uma velha técnica para cativar o público menos crítico: criou um vilão.

O vilão é o oposto do herói, obviamente, mas é essencial para que este exista e a luta entre ambos é o que faz uma história funcionar. Essa técnica literária é conhecida de qualquer roteirista de novela ou história em quadrinhos. E foi isso que o Extra fez com Muralha –transformou-o num vilão, mesmo sem um herói definido para enfrentá-lo. Funcionou muito bem por fatores intrínsecos à própria pessoa: o goleiro é realmente fraco tecnicamente (mas sempre o foi e o Extra não criticou sua convocação para a seleção brasileira há precisamente um ano), tem um apelido que é bom marketing para os bons momentos, mas péssimo para os maus, e apresenta uma figura fora do modelo idealizado pela sociedade brasileira – é mulato, corta o cabelo à moicano, é barbudo, um perfeito oposto de Diego, aquele que realmente decretou a derrota no Mineirão, mas foi escondido na parte interna do jornal (e ainda apresentado com um elogio enviesado a sua beleza).

Em suma, da maneira como vejo a coisa, Muralha ser esculachado pelo Extra tem pouco a ver com sua capacidade técnica ou mesmo a importância de suas supostas falhas nas derrotas do Flamengo. Estas apenas forneceram a oportunidade para a direção de redação do jornal alavancar as vendas às custas de ridicularizar publicamente um ser humano. A má notícia agora: o viés do Extra não vai mudar porque a muralha econômica que enfrenta é intransponível enquanto a situação econômica não mudar.

Atenção ao silêncio

“O homem é senhor de seu silêncio e escravo de suas palavras”. Ouvi diversas vezes este ditado árabe da boca de executivos que não gostam de falar com a imprensa. É um dito sábio, mas que, hoje, já não tem tanta validade, pois as pessoas não são mais senhoras de seu silêncio – perderam boa parte de sua posse.

A teoria da “espiral do silêncio” não é nenhuma novidade.  Em 2017, faz 40 anos que a socióloga alemã Elisabeth Noelle-Neumann a propôs. No entanto, na era das redes sociais, onde qualquer grupo minoritário pode berrar aos quatro ventos suas ideias, os meios de comunicação perderam uma parte significativa de sua capacidade de silenciar as minorias e mesmo de determinar totalmente a agenda social (“agenda setting”) – no Brasil, devido ao monopólio do Grupo Globo, esse poder ainda se mantém, mas em escala cada vez menor. Com redução da capacidade de dirigir a agenda social por meio do silêncio causada pelas redes, os meios de comunicação tradicionais tratam de atualizar a estratégia e partiram para o que se poderia chamar de “espiral do silêncio seletivo”. Esse tipo de manipulação é apagar alguns aspectos da realidade de modo a ressaltar outros, evitar que sejam mencionados ou levá-los ao esquecimento.

Abaixo dois exemplos do que quero dizer:

“Vento que venta lá, não venta cá” – Criado em 2004, o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia (Proinfa) tinha o objetivo de “promover a diversificação da Matriz Energética Brasileira, buscando alternativas para aumentar a segurança no abastecimento de energia elétrica, além de permitir a valorização das características e potencialidades regionais e locais”. Ou seja, fazer com que o país, aos poucos, deixasse de depender em demasia da energia gerada pela fonte hídrica (após Belo Monte, não haveria mais locais para construir grandes hidrelétricas com custos ambientais e financeiros razoáveis) e diversificar o “mix” de geração, botando na receita também a biomassa e as pequenas centrais hidrelétricas.

Por anos, os jornalistas atacaram o Proinfa acusando-o de atrasos, mesmo diante das explicações que um programa daquela magnitude, que visava também criar do zero uma cadeia produtiva inteira, estava sujeito a atrasos, mas que, em meados dos anos 10, tudo estaria pronto e seria muito importante para o país. O programa daria certo e realmente deu.

Derrotados pela realidade, os jornalistas calaram até que a ex-presidente Dilma Rousseff falou que uma característica única existente no Brasil – a de que os períodos de chuva e seca são perfeitamente complementares com os de menor e maior ventosidade – permitiria “estocar vento”. Queria dizer ela que, no período seco no país (entre abril e novembro), o uso de energia eólica permitiria economizar água nos reservatórios, reduzindo, assim, o perigo de sofrermos racionamento como em 2001, sem precisar elevar tanto as tarifas, o que é inescapável quando se usa térmicas a gás e óleo, combustíveis mais caros que a água. Aproveitando a tirada da então mandatária, os coleguinhas caíram matando, dando vazão aos deboches das redes sociais e ignorando as explicações dadas a eles por técnicos do setor elétrico.

Atualmente, o país passa, novamente, por um período de escassez de chuvas e as usinas eólicas têm dado importante contribuição à manutenção do suprimento de energia. O fato tem sido noticiado, mas não é mencionada, pela grande imprensa, a importância estratégica do Proinfa para que ele existisse, embora o seja, de passagem, pela alternativa.

Um caso superinteressante – Todos (talvez com exceção de alguns norte-coreanos) concordam que Kim Jong-Un é doido, pelo menos o suficiente para desafiar outro maluco, que, por acaso, é presidente dos Estados Unidos. Ok, mas será que só doideira explica o ódio que ele e seus compatriotas nutrem pelos EUA? Esse é o discurso que é vendido pelos estadunidenses, claro, mas não é preciso que outros o comprem, muito menos uma revista que se diz aliada da ciência e que deveria ser, consequentemente, duplamente cética. Infelizmente, não foi o que fez a Superinteressante nesta matéria.

Como você deve ter lido, o texto inteiro procura vender o ditador da Coréia do Norte como um louco que vai levar o mundo à destruição. Em momento nenhum, o coleguinha se pergunta o que teria levado um país inteiro a odiar tanto outro. É uma pergunta justa, a meu ver, tanto que foi feita por veículos insuspeitos de simpatia por Jong Un, mas que primam por um bom jornalismo, no caso da BBC e o Washington Post.

Ambos mostram que o ódio norte-coreano é bem fundamentado e vem da Guerra da Coréia, nos anos 50, quando a capital do Norte, Pyongyang, foi simplesmente destruída – não restou um prédio de pé após ataques nos quais, segundo um oficial de alta patente à época (citado nas duas matérias), os EUA bombardearam “tudo o que se movia na Coréia do Norte, sem deixar um tijolo sobre outro”, matando cerca de 3 milhões de pessoas, 10% da população. Ao não mencionar o motivo de tanto ódio (e também que os norte-coreanos várias vezes, nestes 60 anos, tentaram um acordo), o lado norte-coreano foi silenciado pela Super.

É bem complicado achar que foi por acidente este silenciamento. Primeiro porque seria extremamente fácil checar o “outro lado” e, principalmente, porque a revista não informa o leitor de que o autor do texto é um coleguinha que apresenta uma ligação muito forte com os Estados Unidos, como se pode ver no seu currículo no Linkedin. Esse alerta, a meu ver, é fundamental já que, diferente da BBC e do WaPo por motivos óbvios, o leitor não é informado da possibilidade do autor ter um “parti pris”.

Esses são apenas dois casos com que topei nos últimos 15 dias e que me pegaram por estar ligados a eles (trabalho na Eletrobras e vivi diretamente o primeiro, e sou assinante da Superinteressante, e não deixarei de sê-lo, no segundo), mas teria outros, caso tivesse me dedicado a procurar. O importante é o seguinte: não preste atenção apenas no que foi dito/escrito/mostrado. Fique atento/a ao que não o foi. Se não, você vai ser enrolado/a.

O investimento em publicidade da Petrobras de 2011 a 2016 – III (Jornal)

Nessa semana, vamos nos debruçar sobre a distribuição de verbas da Petrobras aos jornais, no período 2011/2016.  Antes de começar, porém, como de praxe, vamos às notas metodológicas:Nessa semana, vamos nos debruçar sobre a distribuição de verbas da Petrobras aos jornais, no período 2011/2016.  Antes de começar, porém, como de praxe, vamos às notas metodológicas:

1. Há uma cisão temporal. Até 2013 (inclusive), os dados se referem a valores autorizados – empenhados, em burocratês -, não necessariamente realizados. De 2014 para cá, porém, são os valores efetivamente executados.

2. À primeira vista, manter os dois tipos de dados juntos não seria correto. No entanto, a junção não muda a tendência, no caso dos jornais (assim como ocorreu em TV), já que o fato de os valores terem sido previstos demonstra a orientação estratégica, a intenção de se investir neste meio e em determinadas empresas.

3. Como não pedi a relação previsto/realizado no período, não há como se ter uma ideia do percentual médio de execução orçamentária. Ano que vem, solicitarei essa relação.

4. Foquei a análise no G5, grupo dos cinco jornais (ou grupo de jornais) que mais receberam verbas da Petrobras no período estudado.

5. As conclusões não têm o objetivo de esgotar o assunto. Ao contrário, gostaria muito de que outros se debruçassem sobre os dados a fim de extrair deles outras visões. Creio que os que trabalham na Academia poderiam fazer este trabalho com grande proveito para todos.

6. Para facilitar esta tarefa, clique aqui para obter o arquivo zipado com todos os PDFs enviados pela Petrobras com as tabelas de 2011 a 2016.

7. As conclusões políticas – se existirem – ficam por sua conta e risco, certo?

 

Agora, vamos lá:

 

1. Diferente do caso das TVs, no qual as quatro maiores redes sempre concentraram as verbas de publicidade, nos jornais a Petrobras procurou seguir a indicação geral do Governo Federal de pulverizar a compra de espaço, estratégia que sempre contou com forte oposição das grandes organizações. A estratégia começou a ser abandonada em 2014, mas só deixada mesmo de lado em 2016, quando a distribuição assumiu o mesmo perfil da TV. Abaixo a tabela mostra a evolução da distribuição por ano, em termos percentuais:

No entanto, é bom observar que, como dito no item 2 das notas metodológicas, entre 2011 e 2013, os números se referem às autorizações de veiculação. Assim, pode ser que, das verbas autorizadas, um percentual maior tenha sido realmente usado para compra de espaço publicitário nos grandes veículos, aproximando a realização dos percentuais daqueles praticados no subperíodo seguinte. Também observe-se que os Jogos Olímpicos foram realizados no Rio e este fato pode ter contribuído para a concentração, já que dos R$ 9.171.968,82 destinados aos cinco jornais enfocados, R$ 7.823.837,88 (85,3%) foram para os jornais do Infoglobo (O Globo/Extra), Estado de São Paulo e Folha, notadamente os do primeiro grupo, que ficaram com R$ 3.995.443,79 (43,56% da verba destinada aos três e 39,15% do total geral destinado ao meio jornal).

2. O ano de 2014 foi totalmente fora da curva: nada menos do que 37,29% do total da verba publicitária destinada aos jornais no período (R$ 111.491.752,47) foi executada neste ano – R$ 41.578.408,07. O motivo, claro, foi a realização da Copa do Mundo.

 

 

 

Os jornais do Infoglobo foram os mais aquinhoados no período, o que não surpreende dados os fatos de que ambos estão na cidade onde se encontra a sede da Petrobras e que houve a concentração no ano de 2016, apontada no item 2 acima. Interessante observar o cuidado da companhia em equilibrar a distribuição da verba de publicidade no que se refere aos principais jornais de São Paulo.

 

1. Impressionam logo à primeira vista as curvas dos jornais do Infoglobo, do Estado de São Paulo (até fins de 2012, junto com o Jornal da Tarde) e da Folha, representação visual do sobe e desce da destinação das verbas publicitárias a esses veículos por parte da Petrobras. Mesmo levando-se em conta a mudança de metodologia de 2013 para 2014 e da realização da Copa do Mundo neste último ano, o aumento de 883,41%, da verba para a Folha, de 787,81%, referente ao Estado de São Paulo, e de 581,85%, no caso do Infoglobo, foi excessivo. Este fato comprova-se com a queda de 428,19%, no primeiro caso, 456,97%, no segundo, e de 512,04%, no terceiro, na comparação 2014/2015.

2. As curvas do Valor e do Correio Braziliense são mais suaves em relação à distribuição de verbas, mas chamam a atenção por outro fato: de 2015 para 2016 houve uma inversão, com o jornal de Brasília passando a receber uma verba significativamente maior que o jornal de economia, resultante do salto de 548,11% no subperíodo do primeiro, e da queda de 333,58% do segundo. Essa inversão já ocorrera em 2012 (verbas autorizadas, sempre bom lembrar), mas não fora tão flagrante.

3. Na comparação ponta a ponta de 2014/2016 – ou seja, no subperíodo em que as verbas foram efetivamente usadas -, o Valor também foi o jornal que mais saiu perdendo, com uma redução de 1.376,56% na verba de publicidade da estatal, contra 456,89%, do Estadão, 312,20% (Folha), 256,22% (O Globo) e 155,87% (Correio).