As fragilidades do Grupo Globo

Não tive acesso completo às demonstrações financeiras do Grupo Globo (Globopar) de 2015, pois, diferente de outros grupos econômicos (como a Abril, por exemplo), não as publicam em português e não permite acesso público, já que não é uma companhia aberta. No entanto, o que escapou por meio de matéria de Samuel Possebon, da newsletter Tela Viva, já demonstra a fragilidade financeira da holding dos Marinho.

Pelo balanço, houve piora nas receitas ( menos 2% em valores nominais no resultado consolidado, ou seja, sem contar a inflação) e no desempenho operacional (menos 16%). Assim, “grosso modo”, entrou menos 2% dinheiro e gastou-se mais 16%. No entanto, o lucro cresceu 30%. A “mágica” foi obtida pela elevação dos ganhos financeiros, especialmente com variação cambial e operações de “hedge”. O que isso quer dizer? Que a disparada do dólar, provocada pela crise política, salvou os Marinho de tomar prejuízo em 2015. Ou seja, eles se beneficiaram financeiramente da instabilidade política instigada pelos veículos do Grupo Globo. Outro componente importante foi a redução no pagamento de impostos, obtida por elisão fiscal (é diferente de evasão, mas não muito): menos 38,7%.

Como paliativo, funcionou ano passado. Este ano, porém, para que os resultados se repitam seria necessário que o dólar continuasse a subir. Esta possibilidade, porém, é remota. Afinal, a crise política precisará ser resolvida e a moeda norte-americana, no mínimo, perderá força em sua subida, podendo mesmo cair. Assim, a recuperação terá que acontecer pelo lado do aumento da receita e/ou da redução da despesa (dando de barato que os advogados e financistas mágicos, comandados, respectivamente por Antônio Cláudio Netto e Sérgio Marques, não conseguirão arranjar outras maneira de escapar dos impostos).

A maior parte da receita do grupo de empresas do grupo, obviamente, vem da publicidade. A Rede Globo, a vaca leiteira, tem uma tremenda vantagem para obter anúncios – é o chamado Bônus por Volume (BV), algo que só existe no Bananão e foi inventado por ela nos anos 60, durante a ditadura militar.

Basicamente, o BV é uma propina legalizada paga às agências de publicidade para direcionarem as verbas que arrancam dos clientes para ela – se, por exemplo, a agência A tem contas no valor total de R$ 100 milhões dos cliente X, Y e Z, a Globo garante a ela receberá um percentual P, que é progressivo dependendo do investimento bruto, se convencer os clientes a anunciarem nela. Para dar argumentos à agência para que esta convença o cliente, a Globo conta com os números de audiência do Ibope, parceiro de décadas. Esses números, porém, começaram a ser postos em dúvida quando a alemã GfK chegou ao Brasil e já há anunciantes bem desconfiados de que estão sendo passados para trás há anos.

Neste quadro, fica fácil entender o quanto a publicidade do governo federal, que sempre foi muito importante, tornou-se caso de sobrevivência para o GG. Uma importância que cresce na medida em que a publicidade, em todos os mercados do mundo, incluindo o do Bananão, está se mudando celeremente para a internet onde a regra do BV não é o investimento bruto, mas o crescimento percentual do total do volume investido pela agência no veículo, em comparação com o ano anterior.

O atual governo não eliminou, mas reduziu drasticamente os valores investidos nos veículos do Grupo Globo, incluindo a TV. Esta é a raiz da campanha do Grupo Globo contra o atual governo, não qualquer preocupação com a corrupção (mesmo porque o próprio Grupo Globo é corrupto). Os Marinho esperam que o governo que suceder atual após o golpe volte a anunciar nos seus veículos, a fim de recuperar a saúde financeira.

No entanto, essa imensa fragilidade econômica levou a uma fragilidade política. Dependente vitalmente do governo golpista, o GG deixa este com a capacidade de também mantê-la em rédea curta. Ora, boa parte deste eventual governo já está comprometida com a corrupção que o GG diz combater (Aécio Neves, Michel Temer e outros). Como o GG dá entender aos que apoiam o golpe que a corrupção acabará no Brasil após a queda do governo do PT e não vai poder entregar o “produto”, será abandonada por boa parte dos ingênuos que nela ainda acreditam – assim, obviamente, em poucos anos, terá sua importância política reduzida a níveis muito menores do que atual, pois contará apenas com os mais fanáticos antiesquerdistas do espectro político, que não são confiáveis, como descobriu o chefe dos Revoltados On Line da pior maneira. Esta perda de importância já pode ser sentida pelos veículos mais frágeis do GG, como o jornal e a revista Época.

Assim, a queda de força política deverá, nos próximos anos, reduzir a margem de manobra dos Marinho pra continuar chantageando os governos. Na verdade, é possível que essa situação se inverta, ainda mais que, também nos próximos anos, a companhia precisará realizar investimentos pesados na digitalização de equipamentos – e em sua constante atualização – e na passagem para o mundo da internet, e a única fonte de dinheiro barato são os bancos estatais, especialmente o BNDES, que já auxiliou os Marinho em outros momentos difíceis.

Um mês só de cascatas: a 5ª seletiva do King of the Kings-2015

A ideia era dar uma parada nas cascatas e voltar aos números da PBM-2015. Só que aí pensei: “já que estou com a mão na massa, por que não promover o ‘mês da cascata´?”. Achei que era mais uma boa forma de homenagear os coleguinhas que tanto têm labutado para transformar 2015 num ano tão pródigo em armações jornalísticas, no intuito claro de desmoralizar, de modo irremediável, o jornalismo brasileiro.

Assim, eis que vamos à quinta seletiva do King of the Kings-2015! Essas são as concorrentes:

17 PMs são presos por se recusarem a bater em professor no PR  (O Estado de São Paulo)

Vazamento em fogão é confundido com “atentado” a PF (Veja)

Estado de São Paulo “acusa” Camargo Corrêa de ter doado R$ 3 milhões ao Instituto Lula

Itamaraty propõe burlar a lei para proteger Lula (O Globo)

Venezuela veta entrada de senadores brasileiros (O Globo)

Lula pede “habeas corpus“ para não ser preso na Operação Lava-Jato (Folha)

Carlos Alberto Sardemberg culpa Lula e Dilma pela crise da Grécia (CBN)

 

Lembrando as regras.
1. Você pode votar em até três (3) concorrentes. Assim, não vale a desculpa de que “são tantas que não dá para escolher”.
2. Além disso, ainda contra essa desculpa tem o fato de que três das não classificadas voltarão para a repescagem na sexta seletiva.
3. A votação termina no domingo que vem.

Então vamos lá! Vamos votar!

 

O jogo de domingo

O nome é bacana – “conflito distributivo” -, mas o popular povo resume um monte de teoria a respeito do fenômeno a uma frase: “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Esse é o verdadeiro embate que está sendo travado na disputa pelo Palácio do Planalto e que definirá o que vai ser do Brasil nos próximos anos – e não apenas quatro não, mas por uma década, pelo menos.

Como você deve recordar, há pouco mais de uma década o Brasil estava na pindaíba. Recém-saído de duas quebras financeiras (97 e 98), quase sem dinheiro em caixa e de tendo passado por um racionamento de energia real, causado pela obsessão dos tucanos em privatizar tudo, até as obrigações inerentes aos governos, o futuro do país não parecia lá muito brilhante. Jogamos esse abacaxi no colo do Nove-Dedos e, para surpresa de um monte de gente (inclusive da boa parte de seus eleitores), ele saiu-se melhor do que a encomenda: não só tirou o país do atoleiro que FHC nos tinha enfiado, como ainda consertou o carro, botou-o numa pista limpa e pisou no acelerador.

A maior parte do mérito é dele, sem dúvida, mas a conjuntura internacional ajudou (também ajudava o FHC, mas esse não tinha a competência do torneiro mecânico). O mundo crescia bem e, parecia, de maneira consistente, especialmente a China. Como sempre acontece no capitalismo, porém, essa boa fase desapareceu de repente (ou nem tanto, pois alguns estudiosos, nenhum deles daquelas suspeitíssimas agências de avaliação de risco, já previam que ela estava acabando), em 2008. N-D e seu pessoal ainda deu um jeito de manter o carro em boa velocidade, mesmo com a estrada mais parecendo a superfície lunar de tanto buraco.

Assim, nessa época, e até 2011, estava todo mundo feliz – os ricos ficando mais ricos e o pobres, menos pobres. De três anos para cá, porém, o carro começou a engasgar. O mundo, ao contrário do que juravam o FMI, os dirigentes políticos do Primeiro Mundo e a The Economist, não melhorou devido à austeridade imposta aos europeus (aos norte-americanos não). Ao contrário, a crise parece ter fincado raízes tão profundas que, além de atingir a China, praticamente garantiu que essa década de 10 do Século XXI será completamente perdida.

O Brasil, obviamente, como não é a “ilha de tranquilidade” que apregoavam os militares na época das crises do petróleo dos anos 70, também sentiu o baque. Só que aqui, ao contrário da Europa, nunca houve “estado do bem-estar” para, mesmo em decadência, garantir uma rede social minimamente decente (saúde, educação, transporte público). O resultado foram as tais Jornadas de Junho, que juntaram os insatisfeitos de todos os matizes e pontos cardeais. As manifestações deram em nada, até porque eram politicamente amorfas, mas deixaram claro que uma parte dos brasileiros sentia os efeitos do sumiço da grana fácil, que vinha por meio do nível de emprego em alta, da elevação dos salários e do incentivo ao consumo. A vida ficava, se não tão difícil quanto era nos anos 80 e 90, menos fácil do fora após 2003, e a galera não gostou disso.

O problema é que, como escrevi mais acima, esse quadro não vai mudar muito nos próximos anos. O dinheiro encurtou e uns bons sete ou oito anos, pelo menos, se passarão até que a situação melhore. Assim, quem ficará com a maior parte desse dinheiro curto? Que grupos sociais vão, como dizem os cientistas políticos e economistas, apropriar-se da riqueza que ainda resta?

Esse é o ponto que está sendo discutido por Dilma e Aécio, por detrás dos xingamentos. A primeira defende que a maior parte da grana seja distribuída entre os mais pobres, por meio dos programas sociais e de investimentos em educação técnica e superior. O segundo deseja que o dimdim fique com o mercado financeiro (daí a defesa do Banco Central independente – do governo, obviamente, não do mercado), as oligarquias (como as que dominam os meios de comunicação) e os estratos da elite brasileira que são capazes de investir alto no mercado financeiro e em imóveis, aqui e lá fora. É o tal “conflito distributivo”.

A definição de quem vai levar a grana acontecerá no dia 26 de outubro. O resto é circo.

A Defenestração d’Escóssia e a Vitória de Pirro

O caso de Xico Sá, que, censurado pela Folha, pediu o boné, não chegou a me abalar. Por ser jornalista de grife Xico tem cacife para fazer ser independente o quanto quiser (Elio Gaspari, por exemplo, deixou o Estadão apontando o mesmo motivo, lá por meados dos anos 90, e logo estava na Folha). Mais surpreendente, para mim, foi a demissão de Fernanda da Escóssia (licença para a editora de País a duas semanas da eleição presidencial mais importante dos últimos 25 anos? Fala sério…).

Fernanda sempre foi conhecida como uma boa soldado, desde quando apareceu na Folha, em 94, vinda do Ceará, onde se graduara pela universidade federal. Por 10 anos, serviu bem aos Frias e, há oito, fazia o mesmo com os Marinho. Nunca foi de discutir ordens e por isso chegou ao cargo que chegou. Se ela tinha jogado a toalha (ou tinham jogado a toalha para ela), é que alguma coisa muito séria ocorrera. Então, eis o que consegui apurar.

Como boa soldado, Fernanda chegava cedo – entre 7h e 8h –, riscava as páginas da editoria de País e ia embora entre 16h e 17h. Nos últimos tempos, porém, o jornal que recebia em casa, em Botafogo, era muito diferente do que aquele que deixara montado. Ele era alterado de maneira substancial pela editora-executiva Silvia Fonseca, sob direção do “aquário”. Obviamente, esse processo corroía irremediavelmente não apenas o seu bom nome profissional, como sua autoridade de editora. Na terça-feira, Fernanda, que já passa por problemas sérios na família (uma de suas irmãs está com câncer), não aguentou e explodiu num bate-boca com Sílvia que, segundo testemunhas, durou, entre idas e vindas, cerca de uma hora. Após o arranca-rabo, o “aquário” decidiu “licenciar” Fernanda por três meses, oficialmente para cuidar da irmã.

O caso de Fernanda – e também o de Xico Sá, por outra vertente – indica que os veículos de comunicação brasileiros já estão derrotados na eleição deste ano, mesmo que Aécio Neves a vença. Expuseram demais suas preferências, acabando de vez com qualquer credibilidade que ainda detinham após anos de distorções. Caso Aécio ganhe, ele ficará devedor dos “barões”, sem dúvida, mas também os terá nas mãos, já que eles passarão a depender ainda mais das verbas publicitárias do governo federal (e do governo paulista, no caso dos veículos paulistas), pois, quem vai comprar jornal ou revista se não acreditar neles? Assim, obrigatoriamente, precisarão esconder os erros e malfeitos tucanos, como fizeram na época de Fernando Henrique Cardoso. A diferença, porém, é que, no século passado, não havia internet para divulgá-los. Esse processo de “esconde-esconde” de notícia será o golpe final por aumentar-lhes o descrédito. Talvez não houvesse outro jeito de lidar com a situação, talvez sim, mas agora é tarde para pensar nisso – é jogo jogado.

“Gansos mancos”

Seja quem for que elejamos em 26 de outubro, tem uma grande probabilidade de ser um “ganso manco”. “Lame duck” (pato manco) é uma expressão dos norte-americanos e descreve o presidente que está no final de seu último período de mandato e, portanto, sem força política para realmente governar – no máximo, toca o dia a dia como pode. No Brasil, os políticos dizem que, nesse período, até o cafezinho é servido frio para a pessoa. Só que, daqui duas semanas, elegeremos um/a presidente/a, que, por motivos diferentes, ficarão numa posição de poder limitado só que por quatro anos. Assim, resolvi chamá-los de “gansos mancos”, já que poderão grasnar alto como os gansos, mas não poderão ser tão agressivos como essas aves – ótimos guardas, como já sabiam os romanos, que os usavam pare defender suas propriedades.

Primeiro, o caso de Dilma. Se ela vencer, terá sido apesar dela própria e graças à militância de esquerda – principalmente no PT, mas não só. No caso do PT, isso quer dizer que foi eleita, mais uma vez, pelo Nove-Dedos. Da primeira vez, tudo bem, era um poste inventado por ele, que teria a obrigação de carregá-la nas costas mesmo. Após quatro anos de poder, porém, era para Dilma ter mostrado um mínimo de competência política para caminhar sozinha. Como não foi o que aconteceu, o PT se viu obrigado a usar o prestígio de N-D e a militância para mantê-la governando, ela ficará devedora do partido, o que quer dizer do N-D. Assim, como diz a Piauí desse mês, caso Dilma seja eleita, o poder sairá do Planalto e tomará assento na Rua Ipiranga, em São Paulo, via onde se localiza o Instituto Lula.

A situação de Aécio é mais complexa. Os partidos aliados dele na eleição conseguiram levar para a Câmara cerca de 190 deputados, ou seja, por volta de 70 a menos do que o mínimo para aprovar leis ordinárias (257) – para mudanças constitucionais, então, ele obteve apenas pouco mais da metade do necessário (342). Assim, para governar, terá que arrumar votos em partidos que não o apoiam agora, especialmente o PMDB e seus 66 votos. Imagine o que vai cu$tar em termos de cargos? Só nisso, o tal papo do “choque de gestão” irá por água abaixo.

E irá rápido, pois, para mal dos pecados aecistas, o partido que tem a maior bancada da Câmara é o PT (70 deputados). Assim, pela tradição, terá direito à presidência da Casa, cuja eleição vai ocorrer em fevereiro, na instalação da nova legislatura. Agora, pense o que é ter um oposicionista com o poder de conceder privilégios aos deputados (salas maiores, designação de viagens internacionais…) e brecar iniciativas do governo, usando o regimento e a ordem na pauta? Para evitar esse pesadelo, Aécio poderá tentar atropelar a Câmara argumentando que blocos parlamentares podem ser considerados partidos e, por isso, teriam direito à presidência da Câmara – aí ele teria maioria, pois PSDB, DEM, PPS, SD e PSB, somados, possuem 95 (sem contar o sempre adesista PSD, que conta 37). Mas, mais uma vez, a conta será enorme para uma tratorada desse nível, ainda mais com cara de crise institucional.

Mas o drama não termina na Câmara. Ele segue no Senado, onde os partidos que apoiam Aécio têm apenas 22 dos 41 votos necessários para aprovar qualquer coisa. A situação parece até pior entre os senadores porque, mesmo negociando com partidos mais adesistas, como PSD, PR e PTB, só vai chegar a 33 senadores – nem negociando o apoio do PP (citado por Paulo Roberto da Costa) , esse número ultrapassaria os 37 votos. Restaria ao mineiro ir pedir, pelo amor a Deus (e aos cargos) ajuda ao PMDB, que, além dessa posição de força, tem outra – como é o maior partido, com 18 senadores, possui o direito de eleger o presidente da Casa, que é também o do Congresso.

Os problemas de Aécio

Aécio está na ascendente, mas tem, ao menos, três problemas de boa monta para resolver em três semanas, dois políticos e um político-matemático:

1. Marina: Obter o apoio de Marina não vai ser tão fácil como pode parecer olhando-se apenas os programas econômicos de ambos, tão parecidos. Se apoiar o mineiro, Osmarina praticamente abdica de qualquer esperança de vitória na corrida presidencial de 2018. É que, com a caneta mão e o apoio maciço do mercado financeiro e dos meios de comunicação, Aécio será um candidato muito difícil de ser batido daqui a quatro anos – o único a fazer-lhe sombra seria o Nove-Dedos. Os “sonháticos”, coitados, não teriam nenhuma chance  em meio a essa polarização.
Para vencer esse problema, o tucano teria que acenar com o compromisso de mandar ao Congresso a proposta de fim da reeleição, com acréscimo de um ano para seu mandato. Assim, Marina poderia ficar mais à vontade de aderir e mesmo participar do governo, pessoalmente ou por meio do seu futuro Rede.

2. PSDB-SP: A proposta de fim da reeleição é também um torrão de açúcar de Aécio para adoçar a boca dos tucanos paulista. No momento, estes não teriam a menor motivação para apoiar o mineiro. Afinal, Alckmin, seria o candidato “pole position” para disputar a Presidência em 2018, caso Aécio perdesse este ano – foi derrotado em casa, de maneira humilhante, e, derrotado também para a Presidência, ficaria sem moral dentro do partido para contrapor-se aos paulistas. Com o fim da reeleição, estes poderiam sentir-se confortáveis para trabalhar por Aécio neste segundo turno, até para solidificar a união.

3. Política+matemática: No momento, Aécio tem de descontar 8,3 milhões de votos. Mantendo-se os níveis de abstenção (19,39%) e brancos e nulos (9,64%), o mineiro teria que receber cerca de 70% dos votos de Marina para virar (contanto que obtivesse também 100% dos votos dados a Pastor Everaldo e Levy Fidelix, e uns 15% dos dirigidos à dupla Luciana Genro/Eduardo Jorge). Não é fácil, mas não é impossível. Para entregar esse resultado, Marina precisará subir em palanque, fazer discurso e demonstrar uma liderança digna de Getúlio Vargas, Brizola e Nove-Dedos, os três caras que, até hoje, conseguiram, comprovadamente, transferir votos no volume necessitado pelo tucano.

Podemos sobreviver à Marina (mas o melhor seria evitar…)

Ante Scriptum: Sabe que não é tão complicado ficar desligado do mundo? Estou em Lauro de Freitas, na região metropolitana de Salvador, e bastou não ver telejornais, não ler jornais e limitar os acessos às rede sociais para que ficasse desconectado. O texto abaixo foi, assim, escrito sem saber o que vai pela campanha eleitoral na útima semana – situação que pretendo preservar na próxima.

 

 

Não há muita dúvida de que Marina Silva, caso eleita, fará um governo desastroso. Sem um partido organizado para dar-lhe suporte, portanto sem base parlamentar, sem habilidade e temperamento para negociá-la e mesmo um programa sobre o qual conversar com outras forças políticas, Marina é uma ótima receita para crises. Essa é a má notícia. A boa é que nós, brasileiros, somos catedráticos em lidar com governos desastrosos, mesmo aqueles que nós elegemos.

Depoimento pessoal. Tenho 54 anos e contava 14 quando Ernesto Geisel assumiu a guarda do Planalto. Diga o que disser o Companheiro Gaspari, foi um governo horroroso. O cara achou que a crise do petróleo iria durar um ano ou dois e determinou que mantivéssemos o pé no acelerador do crescimento, mesmo contra as recomendações do seu próprio ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen. Tinha medo de perder a legitimidade que o “milagre econômico” dava à ditadura. Deu no que deu: o “milagre” foi pro brejo da mesma forma e a ditadura o seguiu, depois de agonizar por um tempo.

Depois de Geisel pegamos pela proa João Batista de Figueiredo, o general que dizia que prenderia e arrebentaria quem se opusesse à abertura política, mesmo aquela “lenta, gradual e segura” preconizada pelo colega de farda que rendera na guarda planaltina, e, no fim, meteu o rabo entre as pernas após o Caso Riocentro e saiu dizendo que o esquecessem – muitos concederam-lhe o pedido. Foi substituído por …. José Sarney! O sujeito que cometeu o maior estelionato eleitoral de todos os tempos, o Plano Cruzado. Foi a época dos “fiscais do Sarney” e de “laçar boi no pasto”, lembra? Não? Então recorde – e você, garoto/garota, saiba – como era a nossa vida nos anos 80, na voz de Rita Lee (a música é de 79, mas  já então  não era difícil saber para onde nossa vaca estava caminhando).

 

 

Ruim? Era, mas nada que não pudesse piorar. E piorou com Fernando Collor de Mello. O “caçador de marajás”, que, apoiado pelas Organizações Globo e todo o resto da mídia, convenceu a maior parte de nós e derrotou o Nove-Dedos dizendo que este confiscaria a poupança de todos – e no seu primeiro ato de governo…confiscou a poupança de todos. Por isso, e, principalmente, por ter ido com disposição demais às burras do empresariado, por meio do finado PC Farias, foi chutado do Planalto, sendo substituído pela figuraça Itamar Franco, presidente fotografado, num camarote da Sapucaí, ao lado de Lilian Ramos, jovem que hoje seria chamada de periguete e nada usava por baixo do vestido curtinho.

 

O que a gente já viu na política brasileira...

O que a gente já viu na política brasileira…

 

Aí veio FHC. O cara gostaria de ser lembrado como o “pai do Real”, mas a maior parte de nós recorda-o mesmo como o presidente que chamou aposentado de vagabundo, vendeu patrimônio público para pagar dívidas do país, mas quebrou-o duas vezes (em 97 e 98), viu o seu presidente do Banco Central sair algemado do Senado e, para encerrar dois períodos de governo com chave de ouro, levou o país a racionar energia por falta de planejamento. Por isso, toda vez que sai a público para apoiar um candidato, este cai nas pesquisas (a vítima da vez é Aécio).

Agora, faça as contas. Foram nada menos de 28 anos seguidos de desastres. E o que aconteceu? Nós estamos aqui! Sobrevivemos! Ora, se vencemos quase três décadas de governos desastrosos e desastrados, o que seriam mais quatro anos de Marina? (Ou mesmo cinco, já que ela prometeu não tentar reeleger-se e propor apenas um lustro de mandato, sem reeleição, na sua proposta de reforma política, se é que não voltou atrás nisso também). Claro que seria muito melhor usar a cabeça, votar direito e não passarmos mais perrengues, mas, diante de nossa enorme – e, repito, vitoriosa – experiência nesse campo, não temo: se tivermos que encarar mais um desastre, vai ser mole pra nós.