Empreiteiras e veículos de comunicação, uma longa relação

Hoje vai ser rápido aqui, mas muito mais longo fora. Não sei se mencionei aqui – no facebook tenho certeza de que sim -, estou lendo “Estranhas catedrais: as empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, 1964-1988”, tese de doutorado na UFF de Pedro Henrique Pedreira Campos, professor do Departamento de História e Relações Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, editada pela EdUFF.

A pesquisa trata dos primórdios da relação entre as empreiteiras que hoje estrelam a Lava-Jato e o Estado brasileiro no tempo da ditadura civil-militar de 1964 (aquele tempo em que não havia corrupção no país, segundo alguns). Não vou enganá-lo/a – é leitura difícil mesmo, até por ter havido pouco esforço por parte dos editores para apagar as origens acadêmicas da obra. Estou há dois ou três meses capinando sentado em cima dela e só cheguei a cerca de 60% das 444 páginas (é certo, porém, que fiz leituras paralelas que lhe paralisaram o avanço por uns tempos). No entanto, se você quiser não falar muita besteira sobre a relação de odebrechts, queiroz galvões, andrades gutierrez et caterva com as sucessivas administrações do Brasil, a obra é incontornável.

Para os jornalistas, o capítulo 3 é o mais interessante por enfocar as relações entre a imprensa e as empreiteiras. Nesta parte é que encontramos apanhado sobre como os empreiteiros corrompiam – não há outra palavra – os grandes veículos de comunicação. É este subcapítulo que copiei do livro e disponibilizo em pdf aqui. São umas sete páginas que valem a pena ler.

A volta e a volta do JB

Não sou lá muito esperto e não há muito o que eu possa fazer diante dessa predisposição genética, ainda mais agora que estou idoso. Assim, não cheguei a me surpreender por não ter entendido quando, há mais ou menos um mês, Osmar Resende Peres Filho adquiriu o título o Jornal do Brasil, que pertencia a Nelson Tanure desde 2000, e, no embalo, anunciou que ele voltaria às bancas, deixando de ser apenas digital, como ocorre desde 2010.

A minha incompreensão nem era tanto por Catito, como é conhecido, ir contra a corrente e voltar ao mundo impresso quando, dizem os sábios, o caminho rumo ao digital é inexorável. Afinal, se você organizar a coisa direito, o digital amplia o alcance do impresso, que nem precisa ter uma tiragem enorme para atingir um público grande. O problema era o porquê um cara do ramo de restaurantes (Fiorentina e Bar Lagoa, no Rio, Piantella, em BSB) iria voltar ao jornalismo com uma operação tão arriscada. Sim, voltar porque Resende Peres Filho já foi dono da TV Panorama, afiliada da Globo em Juiz de Fora, onde possuía a rádio do mesmo nome, e ainda tivera uma passagem-relâmpago pelo Jornal do Sports (mas não rápida o suficiente para evitar ser processado na Justiça do Trabalho).

Ainda bem, porém, que há gente realmente esperta nesse mundo. Sobraram até algumas no jornalismo, como é o caso de Consuelo Diegues, da Piauí. Um tempo para você ler a matéria assinada por ela, que nem é extensa, para os padrões da revista do João Moreira Salles. 1, 2, 3…..

Leu? Então sacou, como eu, é que o “revival” do ex-“jornal da Condessa” às bancas é, na verdade, uma volta do Tanure na Anatel, jogada para poder sentar à mesa de controle da Oi. Um lugar bem amplo, pois, diferente do que está na matéria da Consuelo, Tanure não seria mais dono de apenas 7% das ações de tele, mas de algo entre 22% e 25%, contando suas participações em outras fontes, também acionistas da companhia.

“Ok, mas por que raios o Tanure quer tanto ser influente numa empresa que deve R$ 65 bilhões a mais de 60 mil pessoas físicas e jurídicas?”, perguntará você, com toda a razão. A explicação para o aparente contrassenso está no PLC 79/2016, aquele que, dizem muitos, daria de presente R$ 100 bilhões em bens de telecomunicação da União às teles. Estes seriam bens que retornariam à União em 2025, para a realização de novo leilão. Há dúvidas bem razoáveis de que o valor desses bens seja mesmo de R$ 100 bi – as teles dizem que é de algo em torno de R$ 20 bilhões. O projeto de lei já tinha sido aprovado no Congresso e esperava apenas a sanção de #foraTemer quando foi paralisado por um liminar e retornou ao Senado, cujo então presidente, Renan Calheiros, bateu o pé e diz que agora só entraria em pauta quando o STF definir-se sobre o mérito da ação proposta pela oposição contra o PLC, o que não tem data para acontecer.

Enrolado, né? Mas nada que assuste Tanure (ou Catito), gente muito bem relacionada que conhece bem os bastidores da política (Resende Peres Filho foi secretário de Indústria e Comércio na gestão de Itamar Franco em Minas e candidato ao Senado pelo PDT, em 2006). Tanure aposta que, uma hora, a Oi vai dar um tremendo retorno, mesmo sem o PLC – a companhia é peça-chave nas telecomunicações do país, “grande demais para quebrar”, e, assim, mais dia, menos dia, o governo terá que ajudá-la a sair do buraco, o que a valorizaria. Aposta arriscada, claro, mas os ganhos compensam os riscos, na avaliação dos jogadores.

Como se vê, o JB velho de guerra é apenas uma peça, e não tão importante assim, num jogo muito, muito maior, que nada tem a ver com jornalismo.

Mapa do Tesouro 2 – Onde encontrar mais jornalismo de qualidade na internet

Cento de dezessete compartilhamentos, 259 reações, 14.991 pessoas alcançadas. Caramba, sabia que a galera estava sedenta de jornalismo de qualidade, mas só tive ideia de quanto ao publicar, antes de sair de férias, post com uma lista personalíssima de sites que considero fazer um bom trabalho em Bruzundanga-Bananão e ter o retorno citado. Diante da resposta, e também por ter lembrado de um monte de outros sites legais, publico o Mapa do Tesouro 2. Como o primeiro, é muito pessoal, de sites que curto e/ou acho importantes, e por isso não vai ser completo nunca e não agradará a todos. Espero mesmo que você faça a sua lista – e se quiser compartilhar comigo, ficarei feliz e honrado.

Então, vamos lá.
Geledés: Ser negro no Brasil é terrível, mas tem coisa pior: ser mulher negra. Daí a importância do Geledés Instituto da Mulher Negra, entidade que existe fará 29 anos em abril próximo e tem como foco principal (mas não único) as questões que tocam esta parcela da sociedade daqui.

Ponte Jornalismo: É tiro, porrada e bomba. Não podia ser diferente num veículo especializado em cobrir segurança pública, direitos humanos e justiça em Bruzundanga-Bananão. Seu enorme time de jornalistas e colaboradores de diversas áreas produz matérias a respeito de assuntos que a grande imprensa hegemônica (ou grande, ou corporativa, nunca sei como tratar…Mas você entendeu) prefere ignorar – e, quando não o faz, prefere o viés criminalizante. A Ponte tem uma parceria forte com o site da Carta Capital, revista que lhe publica o conteúdo, num modelo que devia ser explicado no site de ambos.

Consultor Jurídico: Em 2010, segundo a OAB, Bruzundanga-Bananão tinha 1.240 cursos de direito contra 1.100 de todos os outros países do mundo somados e embolados. Assim, não é de admirar que haja um monte de sites (sem falar de blogs) sobre Direito. O mais antigo é o veteraníssimo Consultor Jurídico, que a Dublê Editorial mantém na rede desde 1997 (só um ano mais novo que a Coleguinhas, portanto), tendo construído grande credibilidade durante esses 20 anos e também desenvolvido os Anuários de Justiça cujo foco são tribunais superiores (STF, STJ, TST, TSE e STM), na Justiça Federal, Tribunais Regionais do Trabalho e na Justiça Estadual (TJ-SP, TJ-RJ, TJ-MG e TJ-RS).

Jota: Criado por seis jornalistas e um engenheiro de telecomunicações, é o mais diversificado nos serviços que oferece, indo da simples assinatura até cobertura de fusões e análise de riscos.

Justificando: O slogan é “mentes inquietas pensam Direito” e por isso é o único que não usa terno e gravata todo o tempo, apresentando vídeos bem-humorados no “Explica aí” e no “Coisas que você precisa saber”. Tem parceria com a Carta Capital, como a Ponte, com quem forma uma boa dupla para aqueles que pretendem ter uma visão ampla da Justiça em Bruzundanga-Bananão.

Congresso em Foco: Escrevi (no primeiro Mapa do Tesouro) que sites políticos não entravam na lista. Isso queria dizer sites com viés para um lado do espectro político. Não é o caso do Congresso em Foco. Na rede desde fevereiro de 2004, é o mais antigo dos sites que focalizam o dia a dia da política de Bruzundanga-Bananão. É tão conceituado que o prêmio que distribui anualmente como reconhecimento aos parlamentares que honram os votos que receberam é colocado no currículo dos vencedores. Vive de anúncios e de assinaturas, as quais dão direito à revista, em versões impressa e digital, que começou a circular em 2011.

Poder360: Reivindica o título de “operação jornalística nativa digital sobre política e assuntos do poder mais antiga em atividade contínua na internet brasileira”, por ter entrado em rede em 18 de abril de 2000. É uma afirmação discutível, já que era apenas uma página de política escrita pelo megapremiado (e, às vezes, polêmico) Fernando Rodrigues, hoje diretor de redação. Como Poder360 mesmo, não tem nem um ano (passou a ter este nome em novembro passado). A par disso, é um site que procura enfocar mais a análise da política, embora também cubra o dia a dia do Congresso, uma linha que parece ser mais forte ainda no serviço Drive Premium, voltado para empresas. (Aviso: o editor, Tales Faria, é amigo de quase 30 anos).

Os Divergentes: Tales também faz parte deste interessante…hããã…”blog coletivo”?… Bem, seja o que for reúne outros quatro jornalistas com larga quilometragem na cobertura de política – Andrei Meireles, Helena Chagas, Ivanir José Bortot e Orlando Brito. A análise é a força quase exclusiva deste site, cuja apresentação é hilária.

Farol Reportagem: Como a Agência Sportlight, do Lúcio de Castro (citado no Mapa do Tesouro 1), é veículo de um homem só, no caso Lúcio Lambranho, catarinense que trabalhou em Brasília (inclusive no Congresso em Foco), e resolveu voltar pra terrinha. O foco é Santa Catarina, mas, às vezes, espraia para o âmbito nacional. O site foi indicado pela leitora Andréa Lenora, de Floripa. Muito legal isso e dou força para você fazer o mesmo – mande uma sugestão que eu dou uma olhada e se achar que vale, boto numa futura lista. Não tem garantia de aparecer numa, mas que vou lá, vou.

Farol Jornalismo: Seguindo fachos de farol, damos com este aqui. Só que não é site, é uma newsletter semanal editada pelo casal Marcela Donini e Moreno Osório, cujo foco total é especular e analisar os caminhos do jornalismo – até porque Marcela e Moreno são jornalistas intelectuais mesmo, professores e tudo o mais. Sou assinante antigo e cocei o bolso para ajudá-los a manter o bom (e praticamente único por aqui) trabalho.

Objethos: Já que entrei na seara dos jornalistas intelectuais falo deste site, formado exclusivamente por pesquisadores das federais de Santa Catarina (onde surgiu, no departamento de Jornalismo, claro), Paraná e Fluminense (Niterói). O foco absoluto é a ética jornalística e faz parte da Rede Nacional de Observatórios (Renoi), que, para falar a verdade, não tinha a menor ideia que existia e parece mortinha, já que as últimas postagens são de 2013. Aviso: uma das pesquisadoras associadas é Sylvia Moretzohn, amiga de 30 anos.

Observatório da Imprensa: Falar de observatório e jornalismo tem que falar do dinossáurico OI – surgiu em abril de 96, mês e pouco antes da Coleguinhas, tendo ainda uma versão impressa na época. Dirigido pela lenda do jornalismo brasileiro Alberto Dines, tem o apoio do Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo e projeto original do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mas andou malzinho das pernas, tendo que fazer um crowdfunding para se manter (colaborei e até ganhei camiseta). Ao que parece, porém, já está em forma de novo, apesar de, devido à mudança nos ventos políticos, tenha sido banido da EBC, tanto na TV quanto no rádio. Aviso: a chefe de redação do programa de TV era Emília Ferraz, amiga de…Ah! Você já sabe de quanto tempo.

Mapa do tesouro: onde encontrar jornalismo de qualidade na internet

A Infoglobo mandou mais 30 embora na outra semana e passou os jornalistas que sobraram para nova redação, no prédio erguido na Marques de Pombal, fruto de uma operação pra lá de estranha e que deu até em demissão de poderoso. A medida de economia – por que se tratou disso, certo? – foi disfarçada pela desculpa de transformar a cultura do jornal de impresso para o “digital first”, um santo graal que nem jornais mais ricos e com direção bem mais competente, como NYT, Washington Post, The Guardian ou El País, alcançaram.

Como o desenvolvimento previsível da ação é uma queda ainda maior da qualidade do produto, os cidadãos terão que se virar sozinhos para ter acesso a jornalismo de qualidade – não apenas “conteúdo” supostamente do mesmo quilate. Aí bate a perplexidade: onde um jornalismo assim pode ser encontrado? Bom lugar para você começar é este levantamento divulgado em meados do ano passado pela Agência Pública e que continua sendo incrementado com a ajuda dos internautas. Quem quiser ir além, pode consultar este estudo oriundo do México, também de 2016, com indicações de toda a América Latina.

Esses dois estudos já bastam, mas como sou gato-mestre (jornalista sempre é, não tem jeito), ponho aqui uma listinha própria, que comecei a publicar na página da Coleguinhas na plataforma do Zuck. Não é exaustiva e tive como outro critério de escolha, além do que considero qualidade jornalística (que pode ser muito diferente do que você considera), a ausência de militância política explícita. Assim, veículos que admiro, acompanho e com os quais até contribuo, como Conexão Jornalismo, Tijolaço, GGN, Outras Palavras, Diário do Centro do Mundo, Sul21 e outros, ficaram de fora. Ok? Vamos lá:

Agência Pública: É dos poucos que não tem problemas de grana (um de seus financiadores é a Open Society, de George Soros). Mantém gente boa no seu conselho consultivo, como Ricardo Kotscho e Leonardo Sakamoto, mas quase fica de fora da lista pela mania, típica da mídia corporativa, de ouvir só um lado em alguns temas – na série “Amazônia em Disputa” (financiada pela norte-americana Climate and Land Use Alliance, mantida pelas fundações Ford, Packard (HP), Moore (Intel) e Cargill) só foi enfocado quem era contra hidrelétrica, por exemplo. No entanto, do jeito que anda o jornalismo no Brasil, e como eles só vacilam mesmo no tema meio ambiente, botei na listinha.

Agência Sportlight: É a caçula da lista, tendo começado há dois meses, e também um prodígio – a segunda matéria publicada (sobre o estranho crescimento da rede de restaurante Riba) já virou destaque na Veja-Rio. É tocada por Lúcio de Castro, um repórter multipremiado, e filho (aqui vai a primeira de uma série de avisos ao leitores sobre minhas ligações pessoais) do imenso, magnífico, Marcos de Castro. Ele foi um dos mais brilhantes jornalistas com que convivi. Por uns 15 dias, no Globo, tentou me ensinar a ser um bom redator – não conseguiu, evidentemente, mas não por culpa dele – e, anos depois, em protesto contra uma demissão injusta minha pela qual se sentiu responsável (não era), pediu demissão do JB em solidariedade.

Aos Fatos: Tendo como diretora de jornalismo a vascaína fanática Tai Nalon, o AF assume o estilo zagueiro-zagueiro do Odvan: checa as afirmações dos políticos, confrontando-as com dados públicos e atribui-lhes um selo: verdadeira, imprecisa, exagerada, falsa ou insustentável. Sem firula. O AF faz parte do International Fact-Checking Network (IFCN), que, como o nome diz, é uma rede internacional de checadores, aquela que foi chamada pelo Facebook para combater as notícias falsas. Bruzundanga-Bananão é representado no consórcio também pela Agência Lupa e a já citada Agência Pública.

AZMina – Sabe a doçura feminina? Não passou nem no bairro aqui. É a revista eletrônica de um projeto educacional voltado para conscientização, empoderamento (ok, também não gosto da palavra, mas o conceito é meio novo, daqui a pouco a gente acostuma), defesa e auxílio das mulheres. É extremamente focado o que faz a publicação ser muito consistente, apesar da multiplicidade e diversidade das colaboradoras.

Gênero & Número: As questões de gênero e o jornalismo de dados se encontraram, deram aquela mirada, se aproximaram e, de repente, apareceu este bebê. O G&N ainda está engatinhando, mas já virou xodó do Vovô Iv, ao ser tão promissor e necessário por enfocar o universo feminino e de outros gêneros partindo de dados.

Marco Zero Conteúdo – Os conterrâneos não negam a raça – vão direto ao ponto: “Para manter a independência, não recebemos patrocínios de governos, empresas públicas ou privadas. Por isso, precisamos da doação das pessoas que acham importante para a sociedade e para a democracia a existência de um jornalismo que investigue as questões com profundidade, qualidade e independência”. Tem parceria com a Agência Pública no Truco, a checagem de dados de declarações de políticos, mas voltado só para Pernambuco.

Meus Sertões: Mais Nordeste, dessa vez no semiárido. A ideia é “descobrir e contar histórias relacionadas às 1.133 cidades do semiárido brasileiro”, pois a região “apesar de sua diversidade, costuma ser retratada de forma preconceituosa pelos meios de comunicação, com ênfase na seca e tragédia. Nossa proposta é mostrar todos os aspectos da vida sertaneja, debater questões cruciais e promover a cultura da região”. Novo aviso: sou suspeito – o criador do site, Paulo Oliveira, é amigo de mais de 30 anos e um dos jornalistas que mais admiro.

Mulheres 50+ : AzMina é bacana, mas, como elas mesmo apregoam, se dirige às moças até 40 anos (provavelmente porque todas as suas mantenedoras têm menos do que essa idade). Só que, obviamente, a vida das mulheres (e nossa também, embora ninguém tenha me perguntado a respeito) não acaba aos 40 – alguns dizem mesmo que começa exatamente nessa idade, mas aí é exagero. Mulheres 50+ cobre a lacuna com competência e sensibilidade. Outro aviso: sou muito suspeito com esse aqui também – das sete mantenedoras do site, tive a imensa honra de trabalhar com seis, sendo fã de todas.

Nexo: É um dos meninos grandes da vizinhança, junto com a Agência Pública, mas, diferente desta, não especifica de onde vem a grana (desculpe, mas não dá para manter aquela estrutura de pessoal, administração e tecnologia na base do pinga-pinga de assinatura). Apresenta um conteúdo bem acima da média não só dos independentes como até mesmo da maioria dos jornalões, mas me chateia em dois pontos, que são interligados: a arrogância típica dos paulistas da USP e da Poli, na linguagem e abordagem dos temas, e a mania de tacar gráficos cheios de bossa na cara dos leitores sem contextualização, de uma maneira que só gente com alguma base de estatística consegue ler (e com dificuldade, às vezes).

Projeto Colabora: Também sou meio suspeito pra falar desse aqui por ser amigo de metade da direção e conhecer a outra metade, sem falar de um monte de colaboradores (há um monte muito maior). O foco é em sustentabilidade e inclusão social, mas faz incursões por outras áreas bacanas, sempre “com um olhar + criativo, tolerante e generoso”.

Como avisei antes – e dá para notar pelo número de suspeições -, é uma lista bem pessoal. Dou força para que você faça a sua, partindo ou não desta lista ou das publicadas pela Agência Pública e pela mexicana Factual. Com um pouco de paciência, ao fim do processo, você terá acesso a um conteúdo jornalístico de qualidade e sob medida, pelo qual poderá pagar sem se arrepender (Ei! Jornalista tem supermercado e condomínio para pagar também, amigo/a!).

FÉRIAS!
Após quase 21 anos, resolvi dar férias da Coleguinhas para vocês. Ao longo destes anos, sempre arranjei uma maneira de publicar algo aos domingos, estivesse em Londres, Curitiba, Istambul, Recife, Santorini ou São Miguel do Gostoso. Dessa vez, porém, resolvi parar mesmo e só retornar em março, após o Carnaval. Então, fique na paz e até a volta!

Os deputados e os veículos de comunicação – VIII (Redes Sociais-3)

E assim, não mais que de repente, chegamos ao fim da análise da pesquisa da FSB o consumo de mídia dos deputados federais.

Mentira – demorou pacas e você não aguentava mais. Mas, enfim, essa é a última coluna sobre o tema, a terceira falando apenas da interação dos nobres parlamentares com as redes sociais – no caso, se compartilham e/ou postam ou não. Como sempre, comecemos recordando os pontos básicos da metodologia usada pela FSB:

1. O universo abrange apenas os deputados federais.

2. Foram ouvidos 230 parlamentares de 26 partidos, nos dias 8 e 9 de março.

3. A escolha foi aleatória, mas observou-se a proporcionalidade das bancadas.

4. Partidos com apenas um representante não fazem parte da amostra por permitirem a identificação dos respondentes.

5. Para 2016, as respostas alcançam apenas o primeiro trimestre.

6. Só duas redes sociais foram enfocadas – Facebook e Twitter.

Sigamos, então:

Gráfico 1

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Gráfico 2

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Análise

1. No caso das postagens, repete-se, com mais vigor, uma observaação algo surpreendente – os deputados mais jovens (abaixo de 40 anos), escrevem menos vezes nas redes do que seus colegas mais velhos – 50% postam “sempre” (18%) ou “às vezes (32%), contra, por exemplo, 56% dos parlamentares com idades acima de 60 anos (32% “sempre”, 24% “às vezes”). O percentual é abaixo também da média geral de 55% (24% e 31%, respectivamente). Os mais jovens, que viveram a maior parte de suas vidas tendo a internet presente, parecem ser mais retraídos em relação ao meio do que seus colegas mais velhos, talvez por terem acompanhado mais de perto, como usuários, os seus problemas.

2. Note-se-se, porém, que o “nunca” em termos de postagem é bem mais consistente em relação as postagens. Das quatro faixas etárias, somente a penúltima (51-60 anos) fica abaixo da média geral, de 17% (13% para ser exato). Este fato parece indicar que, apesar e duvidarem das redes, os deputados não as desprezam mais do que os colegas mais velhos.

3. Já a resposta “sempre” mostra uma discrepância bem maior, com variações de 6 pontos percentuais abaixo da média de 24% (na faixa até 40 anos) a mais 8 p.p., entre os deputados com mais de 61 anos. Pode bem ser que esta diferença indique um esforço dos parlamentares mais antigos (ou de suas assessorias) de fazê-los parecer “mais modernos” aos olhos dos eleitores e também de estar mais perto deles, contornando os meios mais tradicionais.

4. O escrito sobre as postagens, vale para o tema compartilhamento. Também quando se trata dessa ação, os deputados mais jovens menos assíduos, compartilhando 49% no somatório de “sempre” (16%) com “às vezes” (33%), sendo superados por todas as outras faixas etárias, principalmente pela que lhe é imediatamente superior, na qual o percentual chega a 56% (29% mais 27%). Se neste último caso, o percentual é igual à média geral – apesar da composição diferente (24% e 32%, respectivamente) -, é amplamente inferior à faixa de 41 a 50 anos, 7 p.p.

Das três colunas sobre a relação entre os deputados e as redes sociais, percebe-se que, apesar de estarem atentos a elas, os parlamentares ainda lhes dão um peso menor em comparação aos meios tradicionais, até por confiar muito menos nelas do que neles. Dessa forma, a influência das redes, pelo menos no que diz respeito aos congressistas brasileiros, é pequena. Esses números, porém, mudar dentro em pouco, já que estão previstas novas eleições gerais em 2018 e, ainda, com a surpreendente eleição recente de Donald Trump para a presidência dos EUA, numa campanha que não só apoiou-se quase totalmente nas mídias sociais, como até em confronto direto com as mídias tradicionais.

Os deputados e os veículos de comunicação – VI (Redes Sociais-1)

A análise da pesquisa da FSB sobre o consumo de mídia dos deputados federais, no que se refere às redes sociais, será dividida em três colunas devido à sua extensão. Nesta semana, falo sobre a presença dos políticos nas redes sociais e seu uso como forma de acesso às notícias – na semana que vem, o foco ficará na interação, e, por fim, na influência das redes no comportamento de suas excelências.

Antes de começar, uma palinha sobre a metodologia:

1. O universo abrange apenas os deputados federais.

2. Foram ouvidos 230 parlamentares de 26 partidos, nos dias 8 e 9 de março.

3. A escolha foi aleatória, mas observou-se a proporcionalidade das bancadas.

4.Partidos com apenas um representante não fazem parte da amostra por permitirem a identificação dos respondentes.

5.Para 2016, as respostas alcançam apenas o primeiro trimestre.

6.Só duas redes sociais foram enfocadas – Facebook e Twitter.

 

Então, vamos lá:

 

20161211_relatorio_midia_e_politica_fsb_2016_facebook_wp

20161211_relatorio_midia_e_politica_fsb_2016_twitter_wp

 

Análise

1. O Facebook bate com facilidade o Twitter como fonte de informação entre os deputados – 11 pontos percentuais a mais (55% x 44%).

2. Os deputados também estão muito mais presentes na rede de Zuck no que na do pássaro azul: 7% dos parlamentares não possuem perfis no Twitter contra apenas 3% dos que não os possuem no FB, mas do dobro.

3. A análise por faixa etária é mais informativa e necessitará de uma tabela para ser mais bem visualizada. Lá vai:
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a. Algo surpreendentemente, a faixa etária entre 41 e 50 anos mais as redes como fonte de informação do que a que vai até 40 anos. No Facebook, os mais velhos têm 73% fazem uso da rede para informar-se, contra 47% dos imediatamente mais novos, que, na verdade, são a faixa que menos usa a esta rede social pata o fim. No Twitter, a situação se repete, com exceção que a faixa até 40 anos apresenta 1 ponto percentual de vantagem sobre a mais velha (acima de 61).

b. A mesma constatação pode ser feita quando se olha pelo lado da ausência de perfis. No Facebook, a faixa mais nova do levantamento apresenta 7% de ausência contra 0% das duas faixas imediatamente mais velhas e no nível da mais idosa. No Twitter, a situação é um tanto diferente: as faixas até 40 e entre 41 e 50 possuem um nível de ausência semelhante (embora a mais nova ainda seja a mais ausente), contra 0% da faixa 51-60 e 14% da mais velha.

c. Dessa forma, pelos dados obtidos pela FSB, a faixaque mais busca informações por meio das principais redes sociais é que vai dos 41 aos 50 anos, na qual todos os respondentes possuem contas no Facebook e as usam para obter notícias. Mesmo tendo uma ausência de 9% no Twitter, esta faixa etária ainda apresenta um alto índice de uso, com 63% dos deputados procurando informações por ela.

d. Observa-se também que a faixa de 41 a 50 anos também é a única em que o uso das redes como fonte de informação supera, por ampla margem os 50%, tanto no Facebook quanto no Twitter, sendo que, nesta rede, é a única a fazê-lo.

Os deputados e os veículos de comunicação – V (Confiança e Influência)

Qual o grau de confiança que os deputados federais depositam nos veículos que leem e qual o grau de influência que têm sobre os votos que dão sobre as matérias que lhe são apresentadas? Essas pergunta também foram feitas na pesquisa da FSB a respeito de como os políticos se informam e qual a influência os meios de comunicação têm sobre eles. Os resultados seguem abaixo.

 

CONFIANÇA

Farei uma comparação com os dados obtidos pela Secom na última Pesquisa Brasileira de Mídia com a população em geral, publicada em 2015 com dados referentes a 2014 (o segundo gráfico acima). Na PBM, os dados se referem aos usuários que usam os meios, um pressuposto que, creio, a FSB também seguiu no seu levantamento.

 

20161127_relatorio_midia_e_politica_fsb_2016_confianca-nos-meios

 

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1. Como se observa, nos dois casos os jornais são o meio com maior credibilidade. No entanto, é notável a diferença entre a confiança neles depositada pelos parlamentares (70%) em relação à sociedade em geral (58%).

2. A discrepância é menor em relação tanto à TV quanto ao rádio, embora significativa também. Enquanto a TV, na pesquisa da Secom, conta com a confiança de 54%, na da FSB a porcentagem fica em 60%. Já no que se refere ao rádio, a diferença vai a 8 pontos percentuais (52%, na Secom, e também 60%, na FSB).

3.Extraordinária, para mim, é a diferença de percepção entre parlamentares e a sociedade na confiabilidade da internet.

a. Sites: Na pesquisa da FSB, a credibilidade dos sites é de 51% contra 30% na da Secom, uma enorme diferença de 21 p.p.

b. Menor, mas ainda grande (no nível da que ocorre em rádio e TV), é a diferença na avaliação de confiança no que se refere aos blogs: 34% (parlamentares) contra 25% (público em geral).

c. Os dois resultados acima (e também se tomamos em conta os de jornais, rádios e TVs) torna muito notável a inversão de confiança em relação às redes sociais. Enquanto entre 18% e 19% dos parlamentares confiam no Twitter e no Facebook, este índice é de 26% no geral da sociedade. Esta diferença pode estar agravando a erosão da credibilidade do Parlamento, já que as RS têm um alcance enorme e por sua facilidade de acesso faz com que as mensagens nelas postadas atinjam o público em vários momentos por longo tempo.

4. O único meio sobre o qual se pode dizer que parlamentares e seus eleitores concordam é a respeito das revistas semanais: ambos desconfiam muito delas. Apenas 47% creem no que leem nelas, contra 44% da sociedade em geral.

5. A comparação dos resultados dos dois universos mostra que os parlamentares são bem mais crentes na mídia do que a população em geral, um ponto a mais de discrepância entre quem faz as leis e a maior parte dos que devem cumpri-las. Em teoria, esta questão deveria preocupar as empresas de comunicação porque, mais dia menos dia, se nada for feito, a percepção da minoria tende a se aproximar da maioria, algo que já ocorreu, por exemplo, com as revistas semanais.

INFLUÊNCIA

Sabemos, então, o quanto os deputados federais confirma nos veículos que leem/veem/ouvem, mas sobre o quanto eles influenciam em suas decisões, e nas da Congresso como um todo? A resposta obtida pelo levantamento da FSB vai abaixo.

20161127_relatorio_midia_e_politica_fsb_influencia-da-midia-no-voto
Pelo gráfico, a influência do que leem nos meios apresenta uma influência média nos votos dos deputados, com uma média 5,4% nesta pesquisa, 1,2% p.p. abaixo da que tinha em 2014, uma perda de 33% (um terço do poder influência). Quando são instados a dizer o quanto, em sua opinião, o que leem/veem/ouvem nos meios influenciam os membros do Congresso em suas decisões (incluindo aí, penso, embora a FSB não diga claramente, o Senado), os deputados creem que n]ao há uma influência tão grande – apenas 4,3%, pouco menor do que dois anos antes. Isso pode apontar pelo menos uma das razões:

1. Os senadores são menos influenciados pelos meios de comunicação do que os deputados;

2. Fatores como lobbies (de qualquer tipo, inclusive direta das bases) e decisões não individuais (partidárias, de grupos ou de líderes ou das Mesas da Câmara e do Senado) pesam tanto ou mais do que a dos veículos de comunicação.

Essas duas questões deviam ser objeto de perguntas específicas nas próximas pesquisas da FSB.

METODOLOGIA

1. O universo abrange apenas os deputados federais.
2. Foram ouvidos 230 parlamentares de 26 partidos, nos dias 8 e 9 de março.
3. A escolha foi aleatória, mas observou-se a proporcionalidade das bancadas.
4. Partidos com apenas um representante não fazem parte da amostra por permitirem a identificação dos respondentes.
5. Para 2016, as respostas alcançam apenas o primeiro trimestre.