Agressões a jonalistas: os coleguinhas e a ‘guerra híbrida”

Já chegamos à fase das pedradas…

“Também havia bons sujeitos no exército alemão.”
(Nílson Lage, jornalista e professor aposentado, ex-UFSC, UFF e UFRJ)

As agressões a jornalistas por parte de cidadãos têm se multiplicado nos últimos tempos, sejam eles de grandes grupos de mídia ou de organizações alternativas. Tais ataques são sempre repudiados tomando por base a liberdade de imprensa e a defesa da democracia – embora tais repúdios normalmente ocorram apenas quando as agressões e intimidações atingem profissionais da mídia “mainstream” atacados por pessoas identificadas como de esquerda e raramente, quase nunca, quando os agressores são de direita e os alvos, jornalistas da mídia alternativa.

Esse tipo de agressão não é exatamente uma novidade na história da imprensa, especialmente no Brasil. No entanto, sua crescente disseminação tem sido atribuída à “polarização” da sociedade, que faz com que os jornalistas fiquem mais expostos. Não chega a ser uma explicação errada, mas parece incompleta por não levar em conta o papel da própria mídia nesta situação “polarizada”. Uma abordagem que se pretenda mais completa deveria levar, em minha visão, em consideração um quadro maior, não restrito às fronteiras do Brasil, observando a questão sob um ângulo mundial. Partindo dessa premissa, creio que uma explicação mais abrangente deveria abarcar o conceito de “guerra híbrida.

“O consenso internacional sobre ‘guerra híbrida’ é claro: ninguém a entende, mas todos, incluindo a OTAN e União Europeia, concordam que é um problema”. Assim começa o estudo, datado de janeiro de 2017 e assinado por Patrick J.Cullen e Erik Reichborn-Kjennerud, do Instituto Norueguês de Estudos Internacionais, elaborado com colaboração de especialistas de outros 11 países-membros da OTAN (incluindo os EUA) e da União Europeia, que compõem o Multinational Capability Development Campaing (MCDC), no âmbito do Projeto de Contenção da Guerra Híbrida.

O problema de definir o que é “guerra híbrida” é que ela se caracteriza por não ser apenas levada a cabo com armas – embora o recurso a elas esteja longe de ser descartado -, mas lançando mão de uma série de ações sincronizadas “de múltiplos instrumentos de poder” usando “elementos criativos, ambíguos, não-lineares e cognitivos da guerra”. Para piorar, por apelar fortemente para elementos não-bélicos, a “guerra híbrida” pode ser travada não apenas por estados, mas “por qualquer ator que seja capaz de utilizar instrumentos de poder para explorar vulnerabilidades específicas através de toda a estrutura de uma sociedade visando atingir efeitos sinérgicos” – esta é a definição do estudo do MCDC para “guerra híbrida”, em tradução livre.

Na “guerra híbrida”, cada espaço de batalha é único e, portanto, a estratégia pensada para cada caso, desenhada de forma a aproveitar – e intensificar – as vulnerabilidades da sociedade alvo. Estas vulnerabilidades podem ser encontradas em cinco instituições de uma dada sociedade: militar, econômica, política, cívica e informacional (MPECI, na sigla em inglês). Os estrategistas de uma “guerra híbrida” devem usar quaisquer meios para, explorando fraquezas nessas dimensões, atingir um determinado fim em detrimento do estado atacado.

O MCDC em seu estudo enfoca dois casos concretos: a ação do Estado Islâmico na Síria, ente 2012 e 2014, e o da Rússia na Ucrânia, no período 2013/2015. Obviamente, não menciona os casos em que seus associados usaram a guerra híbrida contra outros estados. Assim, não fala dos ataques a Honduras (2009), ao Paraguai (2012) e aos que estão ocorrendo na Venezuela e no Brasil, todos perpetrados pelos EUA, sem mencionar as chamadas “primaveras árabes”.

O que nos interessa aqui, claro, é o nosso caso, que começou, com tem se tornado cada vez mais evidente, com as chamadas “Jornadas de Junho”, em 2013. Quem tem memória melhor pouquinha coisa há de recordar que, num primeiro momento, comentaristas do Grupo Globo atacaram as manifestações, mudando rapidamente de opinião a partir do momento em que a organização empresarial da Família Marinho passou a pautar os protestos, num roteiro que seguiu pelos anos seguintes, atingindo seu auge em 2015 e 2016, culminando com o impeachement de Dilma Rousseff, em 17 de abril de 2016, e ainda não terminado.

Aqui abro parênteses. Há a percepção, entre os que perceberam a mão da inteligência dos EUA guiando os protestos, de que eles foram montados desde o início. Embora possa ter sido realmente assim, não creio, pois os protestos contra aumentos de passagens liderados por jovens têm tradição na história urbana do Brasil do Século XX (1930, 1947, 1959, 1987). Entre os predicados exigidos por estrategistas e operadores na “guerra híbrida” é a capacidade de avaliar bem as oportunidades que se apresentam para explorar as vulnerabilidades da sociedade inimiga, e a velocidade e flexibilidade para explorá-las. Assim, o mais provável é que os operadores tenham visto nos protestos do MPL uma boa oportunidade para desfechar um ataque. Essa hipótese explicaria a súbita virada de 180 graus nas opiniões dos jornalistas do Grupo Globo sobre os conflitos. Fecha parênteses.

Os estrategistas estadunidenses, então, por meio de seus acólitos nacionais, exploraram algumas das imensas vulnerabilidades da nossa sociedade:

Militar: Os militares brasileiros possuem notória má formação intelectual que os fazem ser facilmente manipuláveis quando se agitam bandeiras como “fim da corrupção” e “perigo comunista”, esta principalmente quando empunhada pelos norte-americanos, com quem as Forças, especialmente o Exército, possuem tradição de cooperação que remonta à Segunda Guerra Mundial.
Política: O sistema político brasileiro é largamente disfuncional há muito tempo, tendo construído uma classe política que se põe distante das reais necessidades daqueles que dizem representar.
Econômica: A dependência das commodities, sejam agrícolas, sejam minerais, são um calcanhar-de-aquiles histórico da economia brasileira.
Civil: A sociedade civil brasileira, construída em torno da escravidão que durou quase 400 anos, tem fraquíssima coesão interna, sendo manipulada com facilidade, especialmente os estratos médios, do qual fazem parte os militares, considerados por seus pares como reservas morais da sociedade, e o Judiciário.
Informacional: O Brasil tem a característica de apresentar concentração midiática em mãos de apenas um conglomerado privado, o Grupo Globo. Esse poder é avassalador, pois o Grupo tem a capacidade de estar em contato diário com praticamente toda a população do país, em especial por intermédio de sua rede de televisão, o meio mais abrangente do país.

Como esta não é uma análise ampla de caso sobre a “guerra híbrida” aberta contra o Brasil, mas apenas a consequência de uma de suas facetas, vamos ficar nesta, no caso a Informacional.

A população brasileira é historicamente pouco afeita a procurar informações, preferindo recebê-las já “embaladas” e, se possível “mastigadas”. Esta característica faz dos meios eletrônicos – sejam os tradicionais rádio e TV, seja a nova internet – a fonte privilegiada por onde recebe informação, a qual consome de forma passiva (tendo uma face ativa recente na internet por meio do compartilhamento acrítico, via redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas).

O poder avassalador do Grupo Globo apontado acima, como não poderia deixar de ser, é observado também na área de jornalismo, como se pode observar abaixo, em dados do período de 16 de abril a 20 de maio, obtidos do Kantar Ibope Media:

Assim, no caso específico da sociedade brasileira, não havia arma mais poderosa do que a Rede Globo para ser usada na “guerra híbrida” contra o Brasil. E era uma arma ao alcance das mãos estadunidenses há muito tempo – afinal, o acordo com a Time-Life, dos EUA, nos anos 60, que propiciou a estruturação da empresa não poderia ser esquecido. Assim, não foi complicado para os estrategistas da “guerra” conseguirem fazer funcionar sua arma de destruição em massa mais poderosa, uma espécie de “Estrela da Morte” informacional.

Por si só, o poder quase monopolístico da Globo já traria os outros veículos para o lado dos EUA, mas havia um outro motivo. Como qualquer companhia privada de algum peso econômico no Brasil, as empresas de comunicação (incluindo o Grupo Globo) têm a maior parte de seus ganhos advindos não de sua atividade-fim, mas de aplicações financeiras . Ora, o mercado financeiro é, juntamente com as empresas de petróleo, os maiores financiadores da “guerra híbrida” levada a cabo pelos governos do Ocidente (China e Rússia têm outros tipos de financiamento, estatal). Sob a dupla pressão do monopólio da Globo e dos seus próprios interesses financeiros, os outros veículos entraram de cabeça na defesa do impeachment de Dilma Roussef.

Com tomada ostensiva de posição em favor da derrubada de Dilma, a Rede Globo (e todos os veículos que a acompanharam) romperam com o sacrossanto acordo social de que o jornalismo é o meio entre a sociedade e o poder, agindo de modo “isento, imparcial e objetivo”. Por mais que esse modo de ação seja apenas uma ilusão ideológica, ainda assim é sobre ele que se apoia a credibilidade do veículo e o respeito do cidadão aos profissionais que o representam. Quando a Globo e os outros grandes veículos quebraram esse acordo, os dois pontos se perderam.

Só isso já seria muito ruim, mas houve mais. Dilma Roussef foi identificada como a causa de todos os males econômicos e sociais que o país atravessava. Não se passou muito tempo para que a trapaça dos veículos caísse por terra – a situação, que não era boa, tornou-se trágica. Para piorar, os veículos do Grupo Globo por meio de seus profissionais mais proeminentes, como Míriam Leitão, Carlos Alberto Sardemberg, Merval Pereira, William Bonner e mais alguns, insistiram por muito tempo em defender os atos do governo de Michel Temer, mesmo aqueles que claramente mais dificultavam a vida e destruíam os direitos da população, em especial a mais pobre, como a PEC dos Gastos, a Reforma Trabalhista e Reforma da Previdência (que não passou).

Dessa forma, a frustração e a raiva cada vez maior contra um governo ilegítimo e antipopular acabou sendo carreada para aqueles que, fora dele, mais o defendiam de público – os jornalistas, em especial, claro, os do Grupo Globo e, dentro deste, os de TV. Assim, não chega a ser nenhuma surpresa que as agressões a jornalistas, em especial de TV, com maior foco ainda nos profissionais da Rede Globo, tenham se multiplicado. Mesmo sem possuir uma visão abrangente da questão, os cidadãos brasileiros, principalmente os mais politicamente engajados, mas não apenas eles, sentem que os jornalistas fazem parte de um “exército inimigo” que estão atacando seus direitos mais elementares. Pode ser que a esmagadora maioria dos profissionais não mereça esse julgamento, mas, como diz o personagem de Clint Eastwood, no faroeste os “Os imperdoáveis”, antes de fuzilar o de Gene Hackman, “merecer não tem nada a ver com isso”.

Portanto, o mais provável é que, nos próximos tempos, as agressões e intimidações contra profissionais de jornalismo durante o exercício de seu trabalho se multipliquem. E não adiantará falar de respeito à liberdade de expressão e/ou de imprensa e lembrar que é apenas um trabalhador ou mesmo que defende pessoalmente as mesmas posições do agressor, pois não é nada pessoal – apenas guerra é guerra.

Pesquisa Brasileira de Mídia 2016 (VI): internet, crescimento e falta de credibilidade

Não chega a ser uma surpresa a constatação da Pesquisa Brasileira de Mídia – 2016 de que a internet é o segundo meio mais usado para acesso à informação pelos brasileiros. Este fato não quer dizer que a Grande Rede faça a cabeça dos nossos conterrâneos. Apesar de acessá-la muito, não confiamos nas informações que trafegam por elas. Estas e outras informações estão nesta última numeralha proveniente da PBM-2016.

(Antes de começar, uma notinha metodológica: o número de entrevistas levadas em conta quando se trata apenas de internet é 9307 entre 15.050 entrevistados).

Existindo há relativamente pouco tempo – lembremos que o acesso público começou no país há apenas 23 anos – a internet tornou-se o segundo meio de acesso à informação dos brasileiros, sendo o principal para um em cada quatro e “pièce de resistance” de quase metade.

Sob o ângulo da confiança depositada nas informações que circulam no meio, porém, a internet dificilmente poderia estar em pior situação. Conforme se vê na tabela abaixo, menos de duas pessoas em cada 10 acreditam (“confia” e “confia quase sempre”) no que leem, veem ou ouvem na Rede.

 

Como a internet é composta de diferentes tipos de apresentação das informações, a PBM-2016 dividiu em três principais tipos a maneira como elas aparecem aos internautas: em sites noticiosos, blogs e redes sociais. Os primeiros são os que mais têm a confiança, com dois em cada 10 dos que confiam na internet como fonte de informação (como vimos que apenas 15% acreditam no meio, temos que apenas 3% das pessoas do total geral creem nas informações que leem em sites).

 

Os brasileiros costumam, em esmagadora maioria, acessar informação pela internet de casa.

 

Mesmo em casa, porém, o acesso principal é realizado por celulares – e, se contarmos os tablets, três em cada quatro brasileiros que acessam informação pela internet o fazem por meio de aparelhos móveis.

 

ANÁLISE

1. O problema básico da internet como mídia é sua baixíssima credibilidade. Sem ela, fica complicado firmar marcas e, consequentemente, acessar o mercado publicitário ou mesmo diretamente o consumidor de informação, via financiamento direto, que, aliás, só funciona (mais ou menos) para pequenas operações, não para as grandes, como as dos veículos de mídia tradicional.

2. Um ponto que vai contra a credibilidade da internet como meio pode ser a mistura de informação sobre “assuntos sérios” (economia, política) e de “frivolidades” (celebridades, gastronomia, moda). Uma pesquisa procurando enfocar esse aspecto seria bem-vinda.

3. Obviamente, o enfoque, às vezes excessivo, dado às “informações falsas” (“fake news”) espalhadas pela Rede também não ajuda a aumentar a credibilidade dela como meio informativo. Em compensação, essa mesma falta de credibilidade acaba por relativizar muito o alarme em torno das “fake news” e mesmo do poder influenciador da internet.

4. No bloco “redes sociais”, não há especificação de que tipo de redes se fala. Para uma melhor especificação, seria importante saber se são tipo “um para muitos” (Facebook e Twitter por exemplo), “um para um” (Whats up, Telegram), motor de buscas (Google) ou imagens (Instagram, Snapchat, Vero…). Essa questão é importante pois existem pesquisas detectando que as aplicações de informação instantânea estão ganhando força como meio difusor de informações.

5. Não deixa de ser surpreendente o predomínio esmagador do acesso em casa, em relação ao trabalho. Esse resultado pode estar impactado pelo entendimento, por parte das pessoas, que serviços de mensagem instantânea, como Whats up, não são rede social. Daí a importância da especificação falado no item acima.

6. O que não surpreendeu foi o domínio total do acesso por veículos móveis, especialmente celulares – estes aparelhos são responsáveis por 94% do acesso à internet, número semelhante àquele sobre os brasileiros que acessam informação por celulares, segundo a PBM-2016 (93%), o que deve ter resultado no avanço dos apps de mensagem instantânea como fonte de informação.

Numeralha: Pesquisa Brasileira de Mídia 2016 – II (Televisão)

20180325_Jornal Nacional

Como a Pesquisa Brasileira de Mídia (PBM) de 2016, realizada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom-PR), mudou sua metodologia, também modificarei a sua apresentação aqui. Ela será apresentada um meio por vez, reunindo sob esse guarda-chuva os dados que foram separados no ano passado. Assim, o primeiro meio a ser enfocado é aquele de maior audiência, a TV. Como a Pesquisa Brasileira de Mídia (PBM) de 2016 mudou sua metodologia, também modificarei a sua apresentação aqui. Ela será apresentada um meio por vez, reunindo sob esse guarda-chuva os dados que foram separados no ano passado. Assim, o primeiro meio a ser enfocado é aquele de maior audiência, a TV.

Como vimos semana passada, a TV é o meio pelo qual aos brasileiros, em sua esmagadora maioria recebe informação – 63% tem o meio como fonte primária e mais 26% como fonte secundária. E quais as emissoras mais vistas? Não há surpresa, claro, como você pode ver abaixo:

20180325_gráfico_TV_audiência-por-emissora

No entanto, segundo o levantamento do Kantar Ibope Mídia – o braço de pesquisa de audiência do Ibope, cujo braço de inteligência foi o responsável pela PBM-2016 -, o Jornal Nacional apresenta uma média de 31,4% de audiência domiciliar, não passando de 14% na audiência individual, na média dos 15 maiores mercados do país. A grande força do JN, porém, é que o seu alcance acumulado – ou seja as pessoas que foram impactadas, mesmo que não diretamente (como ouvindo comentário de alguém que assistiu ao programa) – que atinge 48,9%, na média dos 15 mercados.

Voltando ao meio como um todo, o tempo de exposição das pessoas à TV, segundo a PBM-2016, são os seguintes:
a. Por número de dias da semana.

20180325_tabela_TV_numero-de-dias-por-semana

b. Por número de horas por dia.

20180325_tabela_TV_numero-de-horas-por-dia

 

Já no que se refere á confiança nas notícias veiculadas pelo meio, o resultado obtido pela PBM-2016 foi este:

20180325_tabela_TV_confiança

ANÁLISE
Que a TV é o meio pelo qual os brasileiros se informam não é novidade alguma. O mais interessante, ao meu ver, é que a informação propriamente jornalística direta não é tão relevante como se poderia esperar. Aparecer no JN não é mais garantia de que o coração e a mente do público serão atingidos. Há um “contágio” muito grande – cerca de 20 pontos percentuais -, mas, ainda assim, com efeito em apenas metade de uma população que admite informar-se em sua enorme maioria (quase 90%) pelo meio (de passagem, esse dado mostra que a população tem uma visão ampla do que seja informação). Esse dado é ainda mais significativo quando se observa que os brasileiros veem TV todos os dias da semana (77%), entre uma e quatro horas por dia (57%).

No que se refere à confiança, a maioria dos brasileiros confia no que vê na TV, mas uma maioria pouco confortável de 54% contra 46% não confiam. Cortes por idade, região e renda, como foi feito em 2014 e 2015, mas não este ano, é essencial.

Dos dados, pode-se inferir que, se a função informativa/formativa da TV no Brasil perdeu pouco de sua penetração em relação a décadas anteriores, o telejornalismo em si já viu melhores dias.

A volta das numeralhas: Pesquisa Brasileira de Mídia-2016 – I

TV vai bem, obrigado. Já os impressos…

 

 

Pode confessar, não é feio: estava com saudade das tabelas e gráficos, né? Pois sua ansiedade acabou, as numeralhas de 2018 começam nesta semana com a primeira da série de análises sobre a versão 2016 da Pesquisa Brasileira de Mídia (PBM-2016). Esse tradicional levantamento, realizado pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom), sofreu modificações metodológicas importantes, levadas a cabo pelo Ibope Inteligência, a empresa responsável por ela este ano. Assim, não é possível fazer comparações com a de 2015 na maior parte das vezes. Sempre que for possível, porém, eu farei, ok?
Falando em metodologia, aqui vão as principais variáveis da amostra da pesquisa:

1. O desenho da amostra tomou por base os dados do Censo de 2010 e a PNAD de 2014.
2. Foram ouvidas 15.050 pessoas de 16 anos ou mais das cinco regiões, com a seguinte distribuição:

 

3. A divisão percentual por gênero, faixa etária, instrução e ramo de atividade foi:

Beleza. Agora, vamos à tabela e ao gráfico relativos à pesquisa em si, iniciando pela audiência geral, comparação entre os diversos meios.

 

ANÁLISE

A tabela mostra a razão numérica para algo que já estamos meio cansados de saber – algo só acontece de verdade se a televisão mostrar que aconteceu: quase dois terços da população têm no meio sua primeira opção de informação – e 90% informa-se por ela, mesmo que apresente outro meio como principal fonte de informação.

A internet se firmou de vez como segunda opção de meio de informação, sendo o primeiro para 1 em cada 4 brasileiros, e metade deles informa-se por ele, percentual importante quando observa-se que 61% da população do país acessa a rede – assim, 80% de quem acessa a internet no Brasil informa-se por ela (na TV, esse percentual chega a 93%, já que 97% dos lares brasileiros possuem aparelhos).

Os números mostram claramente que os meios impressos caminham para ser um produto de nicho no Brasil – na melhor das hipóteses – como prevê Mark Thompson, CEO do NYT, para ao mercado norte-americano. Apenas 3 em cada 100 pessoas têm nos jornais seu principal meio de informação, passando para 12 em cada 100 aqueles que se informam por eles. A situação é ainda pior para o meio revista: ninguém, termos percentuais, informa-se primariamente por ele e apenas 1% o faz.

O sempre esquecido rádio é que tem uma boa performance. Mesmo que apenas 7% tenha no meio o caminho primário de obtenção de informações, 30% o têm como meio complementar.

Digital News Report – 2017 (III): Brasil

A última coluna da série sobre o Digital News Report-2017 enfoca a análise do Brasil, de autoria do jornalista Rodrigo Carro. Ela mostra que as redes sociais perderam participação no que se refere ao seu uso como canal de consumo de notícias, mas, ainda assim, o consumo on line de notícias supera a TV. Constatação: dessa disputa para saber qual o meio pelo qual os brasileiros mais acessam notícias, jornais e revistas estão definitivamente alijados.

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O motivo para que, mesmo com a redução da participação das redes sociais no acesso às notícias (já mencionada em outra coluna que abordou o DNR-2017), os brasileiros continuem a saber delas mais pela internet do que por meio da TV – que está em 97% dos domicílios do país, contra 63% da internet – é que o número de casas com pelo menos uma pessoa com celular chegou a 92,1% e este aparelho passou a ser o mais usado para saber do que vai pelo mundo.

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Paralelamente, o what’s up tornou-se muito importante na vida das pessoas, incluindo aí no ato de consumir notícias, principalmente depois que as operadoras – atropelando o Marco Civil da Internet – passaram a usar o “zero rating”, ou seja a franquia total de dados, para o mensageiro. Dessa forma, o consumo de notícias por meio do zap cresceu 7 pontos percentuais em um ano, contra queda de 12 p.p. do Facebook.

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Agora a boa notícia para os meios tradicionais: os brasileiros ainda confiam neles. Nada menos do que 60% acreditam nas notícias que leem, ouvem ou veem, percentual igual ao dos que acreditam nos veículos pelos quais acessam as novas.

20171210_DNR_2017_Brasil_confiança

Por fim, o DNR-2017 confirmou a característica maior do ecossistema midiático no Brasil: a concentração nas mãos do Grupo Globo. O gráfico mostra que o grupo dos Marinho lidera com folga entre os meios tradicionais, com a TV (aberta mais paga) e fica com o segundo e o terceiro lugares nos on line.

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CONCLUSÕES
A maior novidade do DNR-2017 em relação ao 2016 a liderança do celular como meio on line de acesso às notícias, superando o desktop/notebook. Estre fato manteve o modo on line na liderança sobre a TV,  mesmo com a queda do acesso via redes sociais. De resto, nenhuma novidade n o que se refere à credulidade dos brasileiros em se tratando de mídia e no domínio acachapante do Grupo Globo no setor. E também uma constatação que explica a fonte imensa do poder dos Marinho: as pessoas acreditam nas notícias que leem, veem ou ouvem dos veículos que acessam normalmente.

Digital News Report – 2017 (II): “Fake news” e confiança no consumo de notícias

Na segunda coluna sobre o Digital News Report-2017, o papo reto é sobre “notícias falsas”, as tristemente famosas fake news. Uma fama que vem embrulhada numa série de entendimentos pouco claros – afinal, o que são fake news? A esta pergunta direta, o DNR-2017 encontrou três respostas bem diferentes:

1. Matérias que não são reais, simplesmente inventadas com o objetivo de dar boa exposição a alguém ou alguma ideia, bem como, de outro lado, prejudicar uns e outras, em geral em troca de dinheiro;

2. Matérias que são reais, mas que são “editadas” de modo a apoiar pessoas ou ideias, podendo também ser ou não ser em troca de dinheiro;

3. Matérias que simplesmente discordam do que o leitor/telespectador/ouvinte discordam.

A pesquisa do Reuters Institute mostra que poucas pessoas são capazes de discernir com facilidade uma notícia falsa de uma verdadeira (com exceção dos EUA), mas demonstrando grande sensibilidade no que apontam como um viés da cobertura dos meios tradicionais. Assim, a pesquisa mostra que as pessoas procuram as notícias nesses meios e, portanto, o problema das fake news tem mais a ver com a desconfiança sobre a neutralidade dos meios do que as falsas notícias espalhadas pelas redes sociais.]

Numa visão por país, vemos que o brasileiro é o segundo povo que mais acredita na mídia tradicional, com 60% de confiança, atrás apenas da Finlândia (62%), superando por larga margem países como Alemanha (50%), Reino Unido (43%) e França (30%).

Isso pode ser explicado pela concentração da mídia em poucas mãos (do que falaremos na terceira coluna da série). Há que se observar também que este nível de confiança tem caído com o passar o tempo – há 12 anos, numa pesquisa nacional (certamente com metodologia diferente), a confiança era de 66%.

Boa parte da confiança que o público ainda destina aos meios tradicionais vem da percepção de que estes, apesar de suas possíveis falhas no quesito neutralidade, ainda são bem superiores às mídias sociais no que se refere ao trabalho de separar o que é fato do que é ficção.

A má notícia aí é que pouco mais de dois terços das 3 mil pessoas entrevistadas para outro estudo do Reuters Institute lembram por meio do que rede social ou máquina de busca encontraram determinada notícia, mas não de qual jornal, rádio ou TV que veiculou a matéria.

CONCLUSÕES

Os meios tradicionais estão perdendo credibilidade com o fenômeno das  fake news muito mais por seu suposto (ou não) viés político nas coberturas do que pelas falhas das redes sociais, das quais os leitores desconfiam quando se trata de se informar. A crença de que os meios tradicionais ainda são mais confiáveis, no entanto, não tem revertido para as suas marcas individuais. A reversão destes dois problemas – a percepção de que há vieses políticos nas coberturas e do aproveitamento, por meio das redes sociais, da confiança remanescente do público na qualidade de seu trabalho – são fundamentais para que os meios tradicionais consigam sobreviver ao terremoto provocado pela mudança nas formas de consumo da informação.

Mesmo com atraso, vamos ao Digital News Report-2017 – I

Para começar, peço desculpas pelo atraso nos comentários sobre o Digital News Report-2017, publicado pelo Reuters Institute, da Universidade de Oxford em junho. Estava entretido com os dados sobre os investimentos em publicidade da Petrobras e deixei passar. Foi mal, mas tentarei dar uma recuperada, ok? No entanto, é bom frisar que nem de perto consigo fazer um resumo do relatório inteiro – afinal, são 136 páginas, pelas quais estão distribuídos levantamentos realizados em 36 países, ouvindo 70 mil pessoas, em pesquisas quantitativas e qualitativas.

Vou começar com os itens mais gerais que me chamaram a atenção, o que deve rolar por mais uma ou duas semanas. A fim de facilitar para nós dois, usarei itens. Vamos lá então:

• O que me impactou mais foi a descoberta de que os apps de mensagem – zap à frente no Brasil – passaram ter proeminência no acesso às notícias, com 23% das pessoas em todo o mundo. Ou seja, estamos recebendo mais informações, por meio de compartilhamento de amigos, pessoalmente ou por grupos, que passam a fazer as vezes de “gatekeepers”, função que, em passado nem tão distante assim, estava concentrada nas mãos de editores de veículos de comunicação.

A situação mundial é essa:

• Dá para observar também que o crescimento do uso dos mensageiros para consumo de notícias deu uma brecada no avanço das redes sociais para o mesmo fim. Notáveis exceções foram os EUA e o Reino Unido, muito provavelmente devido à eleição presidencial no primeiro caso, e o plebiscito sobre o Brexit, no segundo.

• O Brasil foi na onda geral do crescimento dos mensageiros em cima das redes sociais. Menos 6 pontos percentuais, ficando ainda assim em 66%.

• No Brasil, o app mensageiro mais utilizado para consumo de informações é o zap, com 46% das pessoas os usando para saber das novidades (para uso geral, chega a 78%). No geral, ele fica em segundo para a rede social irmã (as duas pertencem ao Zuck, lembre), mas cresceu 7 p.p., enquanto o Face caiu 12 p.p. A situação é essa:

• Em termos de mundo, o Brasil é o segundo mercado que mais usa o zap para consumo de notícias, perdendo apenas para a Malásia (51%).

• Mas nem só de redes sociais e mensageiros vive o consumo de notícias no mundo. Como ficar pulando de um site e rede social para outro não é lá muito eficiente, os agregadores de notícias, apps como o Flipboard e o Google News, vêm crescendo, especialmente este último, como se pode ver.

• No entanto, não se engane: as mídias tradicionais têm ainda um lugar importante no consumo de notícias, especialmente entre os mais velhos, com destaque para a TV. Olha aí:

 

Conclusão:

É óbvia e já um tanto antiga: está havendo uma mudança na forma com o consumimos notícia, passando das mídias tradicionais para as mais novas, uma derivação que deve acelerar-se à medida que aqueles que hoje têm ente 18 e 34 anos forem ficando mais velhos e os mais idosos (como este que vos digita) passarem dessa para melhor.

No entanto, mesmo dentro das novas mídias, há mudanças, com os mensageiros tipo zap crescendo em cima das redes sociais (aqui, uma homenagem à visão de Mr. Zuckerberg, que comprou o zap em 2014 para se prevenir sobre isso e ajudar no processo, se fosse necessário). Isso se deve, segundo o DNR-2017, ao fato de as pessoas se sentirem mais confortáveis e seguras de compartilhar conteúdos em grupos mais homogêneos, sem tanto risco de serem alvo dos “haters” que vagam pelas redes sociais. É a formação da bolha dentro a bolha e escapando dos radares dos que pesquisam a formação de opinião.

Ainda assim, as mídias tradicionais são as fontes principais de informação, especialmente entre os mais velhos, mas que vem sendo muito atingidas pelo fenômeno das “notícias falas” (“fake news”), um dos assuntos da próxima coluna.