Investimentos em publicidade da Administração Direta do Governo Federal (2011-2016) – IV (Internet)

Já cansou? Vamos! Está quase chegando ao fim! Nessa semana, o foco vai para o investimento publicitário da Administração Direta do Governo Federal em internet – na próxima, será a vez do rádio, depois do apanhado geral e c‘est fini! Quer dizer…A parte da Administração Direta…Depois haverá os dados da Secom que apareceram miraculosamente após a pentelhação; a Administração Indireta (se os órgãos responderem, o que está longe de ser certo)…Mas não ponhamos a carroça a adiante dos bois, como dizia Vó Sinhá.

Primeiro, os dados sobre a internet, então.

 

Antes da análise, um toque importante: os números englobam as operações na internet atreladas às outras mídias. Por exemplo, no que se refere ao Grupo Globo são dos sites dos Infoglobo e, da Rede Globo (G1 dentro); da Folha, o site do jornal (mas não o UOL) etc.  É meio óbvio, eu sei, mas não custava nada deixar ainda mais claro, né?Então, vamos à análise.

Análise

1. O ano em que a Administração Direta federal “descobriu “ a internet foi 2012. Do ano anterior para este, houve um acréscimo de 99,86%.

2. Nesse duplo carpado, todo mundo se deu bem, mas ninguém como o UOL, que deu suas piruetas para frente e obteve um aumento de 340% (de R$ 316.642,52 para R$ 1.076.403,30 o que pode ser explicado pelo fato de ser o maior portal de língua portuguesa do mundo. Bem também se deram o Terra (+ 108%) e a Folha, que teve um salto percentual de inacreditáveis 545,13%, mas, em termos absolutos, recebeu pouco menos de R$ 64 mil.

3. Na série, o ano de maior investimento foi 2014, ano da Copa do Mundo, com  R$ 9.114.043,62 – 477,18% acima do investido em 2011 e 242,5% mais do que no ano anterior (R$  3.758. 322,15).

4. Neste ano, em termos absolutos, o Grupo Globo foi o maior beneficiado com R$  3.701.147,11 (40,61%), mas, se observarmos que o investimento no GG engloba as operações internet de todos os veículos do grupo, então, proporcionalmente, o mais bem aquinhoado foi o UOL, que, sozinho, abocanhou R$  2.077.539,87 (22,79%) do total.

5. Com o fim da Copa, houve uma queda em 2015 de era de 49,61%, com uma recuperação de 32,56% em 2016, ano de Jogos Olímpicos.

6. No total do período, o Grupo Globo foi o que mais recebeu investimentos em internet do Governo Federal, com um total de R$  10.186.324,07. No entanto, levando-se em consideração o exposto no item 4, o UOL, com 25%, foi o mais beneficiado. O gráfico abaixo mostra a situação geral.

Os deputados e os veículos de comunicação – III (TV)

Assim chegamos à terceira parte da análise da pesquisa da FSB a respeito de como os políticos se informam e qual a influência os meios de comunicação têm sobre eles (as duas primeiras colunas sobre o tema, você pode acessar aqui e aqui). Nesta semana, o foco recai sobre quais os telejornais vistos por suas excelências e os portais que são acessados por eles mais frequentemente.

Antes de começar, aqueles toques metodológicos um tanto chatos:

1.  O universo abrange apenas os deputados federais.
2.  Foram ouvidos 230 parlamentares de 26 partidos, nos dias 8 e 9 de março.
3.  A escolha foi aleatória, mas observou-se a proporcionalidade das bancadas.
4.  Partidos com apenas um representante não fazem parte da amostra por permitirem a identificação dos respondentes.
5.  Por internet, o levantamento abrange mídias sociais, blogs e sites.
6.  Nas perguntas tanto sobre os telejornais quanto sobre os portais foram computadas até três respostas.
7.  Em 2016, as respostas alcançam apenas o primeiro trimestre.

Vamos então ao primeiro gráficos, com a análise em seguida.

relatorio_midia_e_politica_fsb_2016_telejornais

1. No total, os três telejornais nacionais da Globo (Nacional, Globo e Bom dia, Brasil) perderam, em conjunto, 16 pontos percentuais no período considerado. A maior perda de audiência entre os parlamentares foi do JN, com 14 pontos percentuais (de 59% para 45%) e o ganho solitário foi do JG, com 5 p.p (25% para 30%). O Bom Dia, Brasil perdeu 7 p.p. (de 12% para 5%).

2. A Globonews manteve-se quase estável com a perda de apenas 2 p.p. no mesmo período.

3. O maior ganho relativo no período foi do Jornal da Record, que dobrou seu índice, saindo de 5% de audiência para 10%.

4. O Jornal da Band também teve uma queda importante de 4 p.p. (26% para 22%), com o agravante, para o grupo, pela queda concomitante da BandNews de 2% para 1%.

5. O Jornal do SBT também apresentou pequena queda, de 2 p.p. (6% para 4%).

6. A pesquisa aponta um crescimento de 3 p.p. (7% para 10%) em Outros. Não é possível afirmar com certeza, mas, dado os desempenhos dos telejornais nomeados, é possível que boa parte deste ganho seja da RecordNews e do Repórter Brasil, da EBC, este devido à cobertura mais equilibrada do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

7. Dos dados gerais, observa-se a clara perda de importância dos telejornais como foco de consumo de notícias dos deputados federais, pois, com exceção do Jornal da Record e de Outros, houve queda muito significativa nos índices de audiência deste tipo de produto.

 

Sigamos agora para os gráficos (são dois) referentes aos portais e suas análises.

relatorio_midia_e_politica_fsb_2016_portais

1. Apenas dois portais (G1 e UOL) concentram 91% da atenção dos deputados federais.

2. Os dois, porém, estão trilhando, no momento, caminhos diferentes. O G1 é o destaque dos gráficos, por, no decorrer dos nove anos do levantamento, ter crescido nada menos do que 43 pontos percentuais, tendo assumido a liderança e ampliado sua vantagem sobre o segundo colocado (o UOL) de lá para cá.

3. O portal da Folha, ao contrário, depois de crescer 14 p.p. nos anos do levantamento, apresentou uma brusca queda de 12 p.p. nos três primeiros meses de 2016. Há que se observar que esta redução drástica ocorreu no mesmo momento em que o portal passou a apresentar colunistas de extrema-direita como Reinaldo Azevedo e Kim Kataguiri.

4. Diante da vantagem avassaladora dos portais do Grupo Globo e do UOL, sobra pouco para os outros. Mesmo nestes, porém, há uma certa concentração, com o Terra tendo 6% de audiência, contra índices irrisórios dos outros três portais (chegando a zero no caso do iG).

5. Observa-se que o crescimento dos portais vai contra a tendência geral dos veículos que apresentaram queda, com apenas dois apresentando decréscimo nos nove anos de levantamento, sendo que apenas um deles com mais de 5 p.p.

6. Também é notável o mau desempenho dos portais de jornais, especialmente o da Folha de São Paulo, que, nos últimos seis anos perdeu 20 p.p. (22% para 2%) de audiência entre os parlamentares. Lamento a ausência do site Globo.com da pesquisa.
Quem quiser baixar a pesquisa, pode fazê-lo clicando aqui.

Grupo Globo fica com todo o Valor

Comentários rápidos sobre a compra, pelo GG, dos 50% do Valor que pertenciam à Folhapar, com o que se sabe até o momento o momento, o que é quase nada:

1. A Folha vendeu para fazer caixa, já que, obviamente, aquela história de que a economia ia melhorar com a saída da Dilma e depois da aprovação das reformas é conversa para coxinha ficar de olho grelado. Não vai rolar publicidade oficial suficiente para o monte de goela larga que está abrindo a bocarra para o Eliseu Padilha. Existe o UOL, certo, mas este tem seus próprios interesses e problemas (João Alves Queiroz Filho, dono da Hypermarcas e de 30% da empresa, está no meio da Lava-Jato, por exemplo) e não vai ficar bancando um negócio que não tem perspectivas de melhorar.

2. O Grupo Globo também não vai bem das pernas, mas deve ter sido obrigado a fazer o negócio porque, muito provavelmente, há um acordo de acionistas dizendo que se um sócio quiser vender a parte dele, deve oferecer ao outro primeiro, mas se este não se interessar, pode vender para quem quiser. Diante da perspectiva de ter um sócio com interesses não tão afinados com os seus como os Frias, os Marinho meteram a mão no buraco do pano.

3. O negócio, porém, pode vir a ser bom para o Grupo Globo, pois vem ao encontro da ideia do homem forte da Infoglobo, Frederic Kachar, de praticar um plano de sinergia total com os ativos da empresa. Já havia a ideia de juntar as operações da Época com as do Globo e agregar o Valor pode ser bem legal, pois dá mais cacife naquela briga de foice no escuro por verba publicitária do governo golpista mencionada no item 1.

4. E você sabe como é: o que é bom para os Marinho tem uma alta probabilidade de ser ruim para seus empregados. Nesse caso não deve ser diferente. É grande a chance de haver um passaralhinho na área de economia do Globo nos próximos meses – afinal, para quê ter duas pessoas cobrindo o mesmo setor? Podem rolar algumas cabeças nas sucursais do Valor também, mas, pela lógica, a guilhotina deve funcionar mais na redação do Globo.

5. Dizer que o negócio depende de aprovação do Cade é não é só pro-forma como uma piada – o Cade vai lá contrariar interesses de quem comandou o golpe?

A fraude da Folha e o chute no balde

A fraude – desculpe aí, mas Glenn Greenwald e Erick Dau estão certos, não tem outra palavra – que a Folha cometeu ao divulgar pesquisa dizendo que 50% dos brasileiros querem que #foraTemer continue no governo, quando a verdade inteiramente diferente, quase oposta, para mim confirma que os donos dos veículos impressos de comunicação simplesmente chutaram o balde, desistiram do negócio – ou passaram a considerá-lo apenas um acessório de outros, em ramos diferentes. Confirma porque não foi o primeiro desatino editorial cometido nos últimos anos: centenas, talvez milhares, de matérias anteriores insuflaram o golpe de estado ora em andamento, os exemplos são numerosos e os mais significativos podem ser consultados por quem se interessar no Hall da Infâmia do King of the Kings (aí em cima).

Você pode argumentar que não foi o Otavinho que editou a lambança. Poderia ser assim se fosse uma cascata normal, dessas que a Folha edita três ou quatro vezes por semana. Essa não. Mentir deliberadamente para o leitor não está na alçada da direção de redação – arriscado demais, é decisão para dono, para quem manda, para quem toma as decisões estratégicas.

E sabe do que mais? Do ponto de vista de um dono de jornal, de cara que pensa apenas na última linha do balanço, aquela em que se vê se houve lucro ou prejú, a decisão de Otavinho é defensável.

Dê uma olhada nesta dupla tabela/gráfico. Ela foi montada a partir daquela pesquisa realizada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República publicada ano passado, com dados apurados no fim de 2014, que vimos exaustivamente por aqui, e antes, portanto, da “débâcle” da circulação ocorrida ao longo de 2015 e início deste ano e apontada pelos números de IVC, também vistos por aqui (aliás, falaremos sério sobre os dados do IVC semana que vem, ok?).

 

 

Frequência de leitura de jornais por idade
Não precisa nenhum estatístico para ver qual o problema. Três em cada quatro brasileiros simplesmente não leem jornal. Nunca. Muito ruim, mas há mídia em situação pior – as revistas. Veja (com trocadilho, por favor).

 

Frequência de leitura de revistas por idade
O problema dos veículos impressos não se restringe ao Brasil, obviamente, e os dados obtidos pelo Pew Research Center e divulgados há pouco demonstram isso nos Estados Unidos. Esta situação se estende a quase todos os países, nos quais os jornais há muito deixaram de ser fontes primárias de notícias, como se vê nos gráficos abaixo, retirados do Digital News Report, edição 2015, publicado pelo Reuters Institute de Oxford – o primeiro mostra a variação dos meios como fontes primárias de notícias na Alemanha e na Dinamarca; o segundo a distribuição desta mesma variável por 15 países, incluindo o Bananão.

 

Reuters Institute Digital News Report 2015_Variação de fontes de notícias_Alemanha e Dinamarca.png

 

Reuters Institute Digital News Report 2015_Fontes de notícias por país.png
A diferença entre lá fora e aqui é a atitude dos “publishers” no que diz respeito ao declínio inexorável dos veículos impressos. Enquanto potências como New York Times e o grupo Axel Spring, da Alemanha, se viram procurando tornar suas reputações, construídas durante décadas, fontes de receitas por meio de novas ferramentas e produtos, os donos de veículos brasileiros definiram que, já que suas reputações nunca valeram de muito mesmo, vão radicalizar o que sempre fizeram: usar as publicações como armas apontadas para os Executivos visando tomar deles o que puderem em termos de publicidade oficial.

É dentro deste conceito que pode ser vista a fraude perpetrada pela Folha e capturada (haha) pelo The Intercept. Como jamais desenvolveram capacidades gerenciais reais, dedicando-se apenas a aprender as melhores formas de mamar nas tetas governamentais, os “publishers” tupinambás resolveram raspar o tacho – armaram o golpe e, agora, com o governo de #foraTemer no poder, partem com tudo para cima das verbas publicitárias manejadas pelo notório Eliseu Padilha. Se, pela boa, conseguirem emplacar um tucano em 2018 (se não alcançarem a meta de melar as eleições presidenciais até lá, o que seria melhor), terão mais cinco anos (é o novo período de mandato presidencial, lembra?) para saquear o que restar – se sobrar algo.

Se der tudo errado e a esquerda voltar ao poder, então se verá o que fazer. Uma opção para todos seria a “solução Abril”: vender parte minoritária das ações (como os Civita fizeram para o Naspers, em 2006) e/ou ir fundo no “branded content” (matéria ou publicações inteiras que falam de um tema de forma jornalística, mas pagas por anunciante ou grupo de anunciantes – um passo além do publieditorial, pois não há aviso de que é matéria paga em lugar algum). A autorização, por parte de #foraTemer, permitindo que o Grupo Globo repasse indiretamente as suas concessões poderia ser um passo preliminar para a primeira ideia. O Grupo Folha da Manhã, nesse contexto, está numa posição muito boa, pois, hoje, o jornal, além de arma para assaltar os cofres públicos, é pouco mais do que um gerador de tráfego para o UOL, a “rede Globo” dos Frias.

Assim, quando mestre Bob Fernandes pergunta se os donos das empresas de comunicação não sabem que as pessoas estão vendo a hipocrisia deles no processo político pelo qual o país passa atualmente, a resposta é sim. Sabem. Só não se importam.

P.S.: Você seguiu os links, certo?

 

Estudo do Reuters Institute dá uma geral de como anda a mídia no mundo

Eu juro. Juro que ia publicar um textinho leviano (como dizia aquele jogador de futebol) sobre uma coisa bem engraçada que acontece na fan page da Coleguinhas, após cinco semanas de numeralha hard. Só que aí, na mesma semana, o Reuters Institute e o Pew Research Center lançaram, respectivamente, o Digital News Report e o State of the News Media, os dois mais importantes estudos anuais sobre mídia do mundo. Então, o que eu, um fraco, poderia fazer?

É muito número, vou dizer a vocês. Por isso, vou começar me concentrando no estudo da Reuters por ele ser muito mais abrangente – apresenta dados de 26 países, inclusive o Brasil -, enquanto o da Pew é restrito ao mercado dos EUA, e por isso vai ficar pra semana que vem. Bom, então começo com os toques:

1. No Brasil, o DNR abrange apenas as áreas urbanas, ou seja, os números não dizem respeito ao total da população, mas a cerca de 85% dos 203 milhões (segundo a PNAD/2015 do IBGE) – os 172 milhões que vive em áreas urbanas.

2. Outro ponto é que, como o nome indica, o estudo é sobre consumo de notícias com foco na mídia digital, ou seja, só conta quem tem acesso à internet, o que, no Bananão, quer dizer 58% dos tais 172 milhões, o que é igual a 99 milhões.

3. Assim, no que tange ao Brasil, o estudo não é tão abrangente como parece ser no que se refere a países com maior penetração da internet. De qualquer forma, merece atenção e reflexão.

4. Como é uma numeralha do caramba, vou me restringir a dissecar o Brasil, mas passando, lá embaixo, o link para quem quiser se aprofundar no estudo em nível mundial.

5. Os links dão acesso também à parte do Brasil, à base de dados (para quem quiser se divertir fazendo cruzamentos novos) e para o hot site do estudo.

. E para facilitar a minha vida para escrever (também sou filho de Deus, qual é?) e a sua para ler, vou fazer como aí em cima e mandar ver os principais pontos em tópicos.

Então vamos lá.

Brasil

• Os cinco veículos tradicionais (TV, rádio e jornal) mais acessados como fonte de informação durante a semana e como fonte principal (em %):

20160619_tabela_gráfico_veícculos tradicionais

 

• Os cinco veículos on line mais acessados como fonte de informação durante a semana e como fonte principal.

20160619_tabela_gráfico_veículos online

• Como dá para notar, a TV é, individualmente, a maior fonte de notícias (79%), com as redes sociais chegando perto com 72%, mas, se contarmos todas as fontes on line, incluindo as RS, estes passam à frente, com 91%. A má notícia é para os jornais: são consultados como fonte primária de informação por apenas 40% das pessoas.
20160619_fontes de notícias por mídia

 

• O Facebook é a rede social em que maior parte das pessoas busca notícias (69%), com o zapzap, que também pertence ao Mark, ficando em segundo (39%) e o You Tube logo atrás, com 37%.

• O nível de confiança dos respondentes com as recebem atinge 58% (o terceiro maior nível entre os 26% países pesquisados, atrás apenas de Finlândia (65%) e Portugal (60%)).

• Já o nível de confiança da população é um pouco menor no que se refere às organizações de mídia em si (56%), percentagem que se reduz quando se refere aos profissionais (54%)

• Também no que se refere à confiança, 36% dos pesquisados acreditam que os jornalistas não recebem pressões políticas (ou seja, 64% acham que recebem) e 35% creem que eles estão livres de pressões por parte de interesses econômicos (65% acham que sim).

ANÁLISE
Bom, de cara dá para perceber que embora seja verdade que a internet e as redes sociais abriram um campo de disputa contra o oligopólio das empresas de comunicação, especialmente, contra a Globo, esta ainda mantém amplo domínio do consumo de mídia já que nada menos do que 32% dos respondentes da amostra (que, aliás, é de 2001 pessoas) afirma que a TV Globo ou o jornal O Globo são suas fontes principais de informação, sendo que a primeira é consultada como fonte por 53% ao menos uma vez por semana, e o segundo, por 32%.

No campo da internet propriamente dita, o equilíbrio é maior, mas, ainda aqui, o Grupo Globo – por meio dos sites da TV/G1 e do jornal – são fonte de consulta principal por 24% (quase 1 em cada 4 pessoas), embora, individualmente, o UOL lidere com 16%, ficando ainda com o segundo lugar em termos de consulta semanal, com 49%, perdendo por pouquinho para a dupla TV Globo/G1.

As redes sociais avançam avassaladoramente como fonte de informação, tendo subido 25 pontos percentuais em apenas quatro anos, já mordendo os calcanhares da TV. Do outro lado, os jornais perderam 10 p.p. no mesmo período. Neste quadro, vantagem para Mark, que é dono das duas mais consultadas fontes de informação entre as redes sociais.

Por fim, no que se refere à confiança com as notícias recebidas, organizações de mídia e jornalistas, os percentuaisdo levantamento da Reuters são consistentes com os realizados nos últimos por outras instituições nos últimos anos, rodando em torno de 60%. No entanto, interessante é que os jornalistas, como profissionais estão cotados bem abaixo no índice de confiança, pois quase dois terços dos entrevistas acreditam que eles são influenciados por interesses políticos e /ou econômicos. Definitivamente não é uma boa notícia para os profissionais, mas que pode ser atribuída ao momento de polarização política pela qual passamos.

Por fim, vamos aos links:

Relatório sobre o Brasil (assinado pelo coleguinha e analista financeiro Rodrigo Carro)
Relatório internacional
Base de dados

Circulação da Época segue ladeira abaixo

Depois de alguns desvios, eis que volto aos meus queridos números, tabelas e gráficos. O retorno se dá pela Época, a semanal do Grupo Globo, cujo resultado não surpreende: como sua concorrente Veja, a queda na circulação, entre janeiro de 2014 e dezembro de 2015, é notável, como se pode ver no conjunto gráfico- tabela abaixo.

 

20160501_tabela_grafico_epoca_jan-14_dez_15_variacao_total

 

Em termos absolutos, o tombo atingiu 33.765 exemplares no período observado, o equivalente a 8,5% da circulação total. No subperíodo compreendido entre janeiro e dezembro de 2014, a retração total atingiu 4,56%, enquanto no mesmo período do ano seguinte houve uma leve desaceleração da queda, para 4,07%.

Na aproximação em que se dividem as edições impressa e digital, temos o gráfico e a tabela abaixo.

20160501_tabela_grafico_epoca_jan-14_dez_15
Pelo exposto, observa-se que a redução na circulação da edição impressa, no período janeiro-2014 a dezembro de 2015, chegou a 8,45% (33.326 exemplares). O comportamento nos dois subperíodos seguiu o padrão da circulação geral, com a redução sendo maior no período janeiro-2014/dezembro-2015 (4,59%) do que no seguinte (3,97%).

No que tange à edição digital, a queda geral foi bem mais acentuada, chegando, no período todo, a 17,52%. Observa-se, porém, uma leve elevação de 0,52% na circulação nos primeiros 12 meses do período estudado, mais do que compensado pela queda de 19,3% no período entre janeiro e dezembro de 2015. Esta muito significativa queda, porém, afetou pouco o resultado geral, pois do total da circulação da Época, a edição digital contabilizou apenas entre 0,63% (janeiro de 2014) e 0,57% (em dezembro de 2015).
Esta irrelevância da edição digital no total da circulação da semanal do Grupo Globo é o que mais salta aos olhos e causa estranheza. De maneira bem diferente da Abril, a Editora Globo não parece preocupada em migrar leitores da Época do impresso para o digital, não tendo realizado nenhum esforço nem mesmo para vincular uma edição à outra, pois sequer há uma opção de assinatura conjunta (ou, ao menos, não é contabilizada no IVC).

Desta forma, parece que a Época existe apenas para marcar a posição do Grupo Globo no mercado, embora este seja bastante reduzido (a soma da circulação da Veja com a Época não atinge 1,5 milhão de exemplares, que, mesmo somados aos da IstoÉ, não atinge os 2 milhões) e o custo de produção e distribuição de uma semanal seja considerável. Ainda que com o retorno maciço do dinheiro público, por meio da publicidade que deverá retornar num eventual governo Temer, ainda assim a Época deverá dar ainda um considerável prejuízo ao Grupo Globo.

Um outro ponto interessante observado no gráfico de circulação da Época é a queda abrupta ocorrida entre junho e julho de 2015. A redução foi de 2,61% (9.987 exemplares, em números absolutos), expressiva por si só, para o período de apenas um mês, mas que ganha relevo por ter interrompido uma elevação na circulação que a levara novamente a superar os 380 mil exemplares em fevereiro, o que não ocorria desde setembro de 2014. Até onde se pôde averiguar, essa queda se deu quando a revista assumiu uma atitude mais agressiva no processo de desestabilização do governo Dilma Rousseff, que sempre fora mais discreta do que a da Veja.

As fragilidades do Grupo Globo

Não tive acesso completo às demonstrações financeiras do Grupo Globo (Globopar) de 2015, pois, diferente de outros grupos econômicos (como a Abril, por exemplo), não as publicam em português e não permite acesso público, já que não é uma companhia aberta. No entanto, o que escapou por meio de matéria de Samuel Possebon, da newsletter Tela Viva, já demonstra a fragilidade financeira da holding dos Marinho.

Pelo balanço, houve piora nas receitas ( menos 2% em valores nominais no resultado consolidado, ou seja, sem contar a inflação) e no desempenho operacional (menos 16%). Assim, “grosso modo”, entrou menos 2% dinheiro e gastou-se mais 16%. No entanto, o lucro cresceu 30%. A “mágica” foi obtida pela elevação dos ganhos financeiros, especialmente com variação cambial e operações de “hedge”. O que isso quer dizer? Que a disparada do dólar, provocada pela crise política, salvou os Marinho de tomar prejuízo em 2015. Ou seja, eles se beneficiaram financeiramente da instabilidade política instigada pelos veículos do Grupo Globo. Outro componente importante foi a redução no pagamento de impostos, obtida por elisão fiscal (é diferente de evasão, mas não muito): menos 38,7%.

Como paliativo, funcionou ano passado. Este ano, porém, para que os resultados se repitam seria necessário que o dólar continuasse a subir. Esta possibilidade, porém, é remota. Afinal, a crise política precisará ser resolvida e a moeda norte-americana, no mínimo, perderá força em sua subida, podendo mesmo cair. Assim, a recuperação terá que acontecer pelo lado do aumento da receita e/ou da redução da despesa (dando de barato que os advogados e financistas mágicos, comandados, respectivamente por Antônio Cláudio Netto e Sérgio Marques, não conseguirão arranjar outras maneira de escapar dos impostos).

A maior parte da receita do grupo de empresas do grupo, obviamente, vem da publicidade. A Rede Globo, a vaca leiteira, tem uma tremenda vantagem para obter anúncios – é o chamado Bônus por Volume (BV), algo que só existe no Bananão e foi inventado por ela nos anos 60, durante a ditadura militar.

Basicamente, o BV é uma propina legalizada paga às agências de publicidade para direcionarem as verbas que arrancam dos clientes para ela – se, por exemplo, a agência A tem contas no valor total de R$ 100 milhões dos cliente X, Y e Z, a Globo garante a ela receberá um percentual P, que é progressivo dependendo do investimento bruto, se convencer os clientes a anunciarem nela. Para dar argumentos à agência para que esta convença o cliente, a Globo conta com os números de audiência do Ibope, parceiro de décadas. Esses números, porém, começaram a ser postos em dúvida quando a alemã GfK chegou ao Brasil e já há anunciantes bem desconfiados de que estão sendo passados para trás há anos.

Neste quadro, fica fácil entender o quanto a publicidade do governo federal, que sempre foi muito importante, tornou-se caso de sobrevivência para o GG. Uma importância que cresce na medida em que a publicidade, em todos os mercados do mundo, incluindo o do Bananão, está se mudando celeremente para a internet onde a regra do BV não é o investimento bruto, mas o crescimento percentual do total do volume investido pela agência no veículo, em comparação com o ano anterior.

O atual governo não eliminou, mas reduziu drasticamente os valores investidos nos veículos do Grupo Globo, incluindo a TV. Esta é a raiz da campanha do Grupo Globo contra o atual governo, não qualquer preocupação com a corrupção (mesmo porque o próprio Grupo Globo é corrupto). Os Marinho esperam que o governo que suceder atual após o golpe volte a anunciar nos seus veículos, a fim de recuperar a saúde financeira.

No entanto, essa imensa fragilidade econômica levou a uma fragilidade política. Dependente vitalmente do governo golpista, o GG deixa este com a capacidade de também mantê-la em rédea curta. Ora, boa parte deste eventual governo já está comprometida com a corrupção que o GG diz combater (Aécio Neves, Michel Temer e outros). Como o GG dá entender aos que apoiam o golpe que a corrupção acabará no Brasil após a queda do governo do PT e não vai poder entregar o “produto”, será abandonada por boa parte dos ingênuos que nela ainda acreditam – assim, obviamente, em poucos anos, terá sua importância política reduzida a níveis muito menores do que atual, pois contará apenas com os mais fanáticos antiesquerdistas do espectro político, que não são confiáveis, como descobriu o chefe dos Revoltados On Line da pior maneira. Esta perda de importância já pode ser sentida pelos veículos mais frágeis do GG, como o jornal e a revista Época.

Assim, a queda de força política deverá, nos próximos anos, reduzir a margem de manobra dos Marinho pra continuar chantageando os governos. Na verdade, é possível que essa situação se inverta, ainda mais que, também nos próximos anos, a companhia precisará realizar investimentos pesados na digitalização de equipamentos – e em sua constante atualização – e na passagem para o mundo da internet, e a única fonte de dinheiro barato são os bancos estatais, especialmente o BNDES, que já auxiliou os Marinho em outros momentos difíceis.