O “conto do JN”

Caiu o bobo na casca do ovo…

Há duas semanas, tinha aqui no blog cerca de 400 assinantes. Na sexta passada, por acidente, dei uma olhada e tomei um susto – eles já passavam de 4.200. Creio que o motivo para este salto triplo carpado para frente com dupla pirueta foi o post dando conta da vitória de Dona Míriam na primeira seletiva do King of the Kings, com a cascata de ter se transformado em boneca de ventríloquo na entrevista do Fascista na Globonews. Promovi o post no perfil da Coleguinhas no Facebook e a foto em que ela era comparada a Chico Xavier deve ter chamado muita atenção. Deu para notar, porém, que a maioria esmagadora dos novos assinantes é de não-jornalistas e é para eles que este post é dirigido, embora os coleguinhas também possam aproveitá-lo, especialmente lá para o fim.

Para quem não é jornalista, pode parecer que os encontros de William Bonner e Renata Vasconcellos com os presidenciáveis foram entrevistas jornalísticas. Só que não: não foram entrevistas e muito menos jornalismo. Meus professores Nilson Lage e João Batista Abreu devem me corrigir se estiver falando bobagem, como naquele tempo, mas na faculdade (ao menos nas boas), ensina-se que, numa entrevista, você faz as perguntas e deixa a pessoa falar, procurando as contradições e os chamados “vazios do discurso” – aquilo que o cara quer esconder em meio às palavras.

Uma vez identificadas essas falhas discursivas, você vai em cima. Pode até interromper se sacar que a pessoa está tentando “roubar” seu tempo, enrolar, mas de forma educada (se der, até com bom humor, mas sem sarcasmo), não só por dever de civilidade, mas como tática: falando com educação, a pessoa sente que foi pega, mas terá dificuldade de reagir agressivamente, pode desequilibrar-se e vacilar ainda mais.

Esse é um tipo de entrevista, a mais agressiva, que eu usava com outros profissionais do discurso como políticos, delegados, advogados, economistas etc. Há outras, mais brandas, mas em todas a ideia é que você se apague durante uma parte do diálogo (é diálogo, sabe? Não monólogo) para que o outro mostre sua verdadeira face por meio do que fala e, principalmente, do que deixa de falar.

O que Bonner & Vasconcellos fizeram assemelhou-se mais um interrogatório de promotores num tribunal de filme americano do que a qualquer entrevista ou tipo de diálogo. Porém, mesmo como interrogatório de filme foi ruim – nestes, o promotor faz as perguntas e deixa a testemunha falar para que ela se enrole e ele caia em cima (sim, parece com a entrevista agressiva que descrevi acima). Ao impedir os presidenciáveis de falar (pelo menos os que não são amigos da casa, como Alckmin e Marina, pouco interrompidos), os apresentadores do JN mostraram que não estavam ali para ajudar os telespectadores/eleitores a conhecerem melhor os programas e as ideias dos presidenciáveis.

Mas para que então as tais “entrevistas”? A tabela abaixo (que abrange apenas os mercados da Grande São Paulo e do Grande Rio), retirada do site do Kantar Ibope Mídia é uma pista:

Como se pode observar a audiência do JN já não é mais aquela de uns 20 anos atrás, nem mesmo de 10 anos. O percentual médio de domicílios que assistem ao telejornal é de 27,5%, com pico no mercado do DF, com 32%, e vale no da vizinha Grande Goiânia, com 19,9%. Já o percentual médio de indivíduos que vê efetivamente o programa é de 12,8% – isso quer dizer que para se ter certeza de que pelo menos uma pessoa assiste o JN é preciso contar oito domicílios dentre aqueles que o estejam assistindo. No entanto, a Covariância Individual (COV individual) – ou seja, o número de pessoas que é impactado pelo programa, mesmo não o tendo visto diretamente (por meios de comentários em redes sociais, na copa do trabalho, na carona, com o vizinho….) é de 47,1%. Ou seja, aquela pessoa que efetivamente assistiu ao telejornal tende a comentar com outras 3,68 o que viu. É claro que, se o que for visto for um bate-boca entre Bonner&Vasconcellos e presidenciável, esse índice será certamente maior.

É isso mesmo que você entendeu, meu caro/minha cara: a “entrevista” do JN não foi para esclarecê-lo/la a fim de que você vote melhor, com mais consciência, mas apenas para “causar” e alavancar a influência do JN, aumentando assim sua capacidade de atrair anunciantes. E você que foi para a sua rede social favorita comentar o bate-boca em tempo real (a chamada “segunda tela”)…Bem, você caiu no conto.

Dona Míriam domina 1ª seletiva do King of the Kings-2018. Globo sai na frente do Troféu Boimate.

Recebendo o Caboclo Dr. Roberto

Não teve para ninguém. Dona Míriam dominou a primeira seletiva do King of the Kings-2018 com sua atuação como boneca de ventríloquo ao tentar rebater o candidato fascista quando este falou a verdade dura de que a Globo apoiou a ditadura. Míriam teve um quarto dos 237 sufrágios (59 votos), mais do que o segundo colocado (JN tentando provar que a economia vai bem) e a terceira colocada (a cascata da Veja descrevendo o dia a dia de Lula sem nunca ter entrado na prisão em que ele está) somadas. O KofK é o único prêmio que reconhece, há 10 anos, o esforço dos jornalistas brasileiros em avacalhar a própria profissão.

As cascatas classificadas para a final, a ser disputada em janeiro de 2019, foram as seguintes:

1. Míriam Leitão é usada como boneca de ventríloquo para rebater lembrança de Bolsonaro de que a Globo apoiou a ditadura (25%, 59 votos).

2. JN tenta provar que economia vai bem porque inflação é baixa (9%, 22 votos).

3. Veja descreve dia a dia de Lula sem nunca ter entrado na prisão (9%, 21 votos).
Agência Lupa diz que visitante de Lula não tinha levado terço abençoado por Francisco I, acusa sites de esquerda de “fake news” e é desmentida pelo Vatican News (9% 21 votos).

4. PGR investiga senadora por entrevista à Al Jazeera – Estado de São Paulo (8%, 18 votos).
Folha “denuncia” que Dr. Bumbum trabalhou 15 dias no Palácio do Planalto durante o governo Lula (8%, 18 votos).

As outras seis cascatas não classificadas voltarão para repescagens, a fim de você poder compará-las também com as cascatas que virão. Essa providência é importante porque, dado o volume de cascatas despejadas pelos coleguinhas sobre os leitores/ouvintes/telespectadores, tendemos a esquecer as mais antigas, valorizando as mais novas.

Troféu Boimate

O Troféu Boimate é o reconhecimento à redação mais cascateira do país. Conquista-o a equipe que consegue pôr mais cascatas na final do King of the Kings. Assim, após a primeira seletiva, a classificação para o Troféu Boimate é a seguinte:

1. Rede Globo: 2.
2. Veja, Estado de São Paulo, Folha de São Paulo e Agência Lupa: 1.

Finalmente! Chegou a hora de votar na primeira seletiva para o King of the Kings – 2018!

 

Demorei, e você já devia estar roendo os dedos de aflição, mas aqui está finalmente: a primeira seletiva para o King of the Kings, o único prêmio a reconhecer o árduo trabalho dos coleguinhas em prol da avacalhação do jornalismo brasileiro. Levei mais tempo esse ano para iniciar o processo seletivo por dois motivos: apertei ainda mais os critérios de escolha para apresentar uma concorrente – só cascatas muito grandes estão na lista, vocês verão – e também, de maneira mais estratégica, resolvi dar prioridade ao bom jornalismo que ainda restou no #SudãodoOeste, enfocado no Prêmio Marcos de Castro.

Isto posto, vamos às regras para a votação da primeira seletiva do KofK-2018:

1. Você pode votar em até seis concorrentes. Recomendo usar todos os votos, pois não será fácil escolher devido ao alto (ou baixo) nível das postulantes. As seis não escolhidas terão uma nova chance na segunda seletiva.

2. Haverá bastante tempo para conhecer (ou recordar) as cascatas – o pleito se estende até o dia 2 de setembro.

Mais um ponto antes apresentar a lista de concorrentes: caso você veja uma cascata que acredite estar apta a concorrer ao King of the Kings, não hesite em me enviar para avaliação.

Bem, agora, finalmente, fique com a concorrentes ao King of the Kings – 2018!

Fecomércio-RJ pagou R$ 68 milhões a escritório que defende Lula – Valor

PGR investiga senadora por entrevista à Al Jazeera – Estado de São Paulo

Veja descreve dia a dia de Lula sem nunca ter entrado na prisão – Veja

PF tenta livrar a cara de ter assassinado o reitor Cancellier – Rede Globo

Mídia comercial publica como independente estudo sobre cigarro de fundação bancada pela Phillip Morris – Vários

JN tenta provar que economia vai bem porque inflação é baixa – Rede Globo

Míriam Leitão tece loas a Pedro Parente 10 dias antes de começar a greve dos caminhoneiros.

Agência Lupa diz que visitante de Lula não tinha levado terço abençoado por Francisco I, acusa sites de esquerda de “fake news” e é desmentida pelo Vatican News

Jornalistas dão show de machismo na entrevista de Manoela D’Ávila no Roda-Viva – TV Cultura.

Folha “denuncia” que Dr. Bumbum trabalhou 15 dias no Palácio do Planalto durante o governo Lula

Míriam Leitão é usada como boneca de ventríloquo para rebater lembrança de Bolsonaro de que a Globo apoiou a ditadura

Folha publica matéria sobre PM lésbica e negra executada insinuando que ela era promíscua

Agressões a jonalistas: os coleguinhas e a ‘guerra híbrida”

Já chegamos à fase das pedradas…

“Também havia bons sujeitos no exército alemão.”
(Nílson Lage, jornalista e professor aposentado, ex-UFSC, UFF e UFRJ)

As agressões a jornalistas por parte de cidadãos têm se multiplicado nos últimos tempos, sejam eles de grandes grupos de mídia ou de organizações alternativas. Tais ataques são sempre repudiados tomando por base a liberdade de imprensa e a defesa da democracia – embora tais repúdios normalmente ocorram apenas quando as agressões e intimidações atingem profissionais da mídia “mainstream” atacados por pessoas identificadas como de esquerda e raramente, quase nunca, quando os agressores são de direita e os alvos, jornalistas da mídia alternativa.

Esse tipo de agressão não é exatamente uma novidade na história da imprensa, especialmente no Brasil. No entanto, sua crescente disseminação tem sido atribuída à “polarização” da sociedade, que faz com que os jornalistas fiquem mais expostos. Não chega a ser uma explicação errada, mas parece incompleta por não levar em conta o papel da própria mídia nesta situação “polarizada”. Uma abordagem que se pretenda mais completa deveria levar, em minha visão, em consideração um quadro maior, não restrito às fronteiras do Brasil, observando a questão sob um ângulo mundial. Partindo dessa premissa, creio que uma explicação mais abrangente deveria abarcar o conceito de “guerra híbrida.

“O consenso internacional sobre ‘guerra híbrida’ é claro: ninguém a entende, mas todos, incluindo a OTAN e União Europeia, concordam que é um problema”. Assim começa o estudo, datado de janeiro de 2017 e assinado por Patrick J.Cullen e Erik Reichborn-Kjennerud, do Instituto Norueguês de Estudos Internacionais, elaborado com colaboração de especialistas de outros 11 países-membros da OTAN (incluindo os EUA) e da União Europeia, que compõem o Multinational Capability Development Campaing (MCDC), no âmbito do Projeto de Contenção da Guerra Híbrida.

O problema de definir o que é “guerra híbrida” é que ela se caracteriza por não ser apenas levada a cabo com armas – embora o recurso a elas esteja longe de ser descartado -, mas lançando mão de uma série de ações sincronizadas “de múltiplos instrumentos de poder” usando “elementos criativos, ambíguos, não-lineares e cognitivos da guerra”. Para piorar, por apelar fortemente para elementos não-bélicos, a “guerra híbrida” pode ser travada não apenas por estados, mas “por qualquer ator que seja capaz de utilizar instrumentos de poder para explorar vulnerabilidades específicas através de toda a estrutura de uma sociedade visando atingir efeitos sinérgicos” – esta é a definição do estudo do MCDC para “guerra híbrida”, em tradução livre.

Na “guerra híbrida”, cada espaço de batalha é único e, portanto, a estratégia pensada para cada caso, desenhada de forma a aproveitar – e intensificar – as vulnerabilidades da sociedade alvo. Estas vulnerabilidades podem ser encontradas em cinco instituições de uma dada sociedade: militar, econômica, política, cívica e informacional (MPECI, na sigla em inglês). Os estrategistas de uma “guerra híbrida” devem usar quaisquer meios para, explorando fraquezas nessas dimensões, atingir um determinado fim em detrimento do estado atacado.

O MCDC em seu estudo enfoca dois casos concretos: a ação do Estado Islâmico na Síria, ente 2012 e 2014, e o da Rússia na Ucrânia, no período 2013/2015. Obviamente, não menciona os casos em que seus associados usaram a guerra híbrida contra outros estados. Assim, não fala dos ataques a Honduras (2009), ao Paraguai (2012) e aos que estão ocorrendo na Venezuela e no Brasil, todos perpetrados pelos EUA, sem mencionar as chamadas “primaveras árabes”.

O que nos interessa aqui, claro, é o nosso caso, que começou, com tem se tornado cada vez mais evidente, com as chamadas “Jornadas de Junho”, em 2013. Quem tem memória melhor pouquinha coisa há de recordar que, num primeiro momento, comentaristas do Grupo Globo atacaram as manifestações, mudando rapidamente de opinião a partir do momento em que a organização empresarial da Família Marinho passou a pautar os protestos, num roteiro que seguiu pelos anos seguintes, atingindo seu auge em 2015 e 2016, culminando com o impeachement de Dilma Rousseff, em 17 de abril de 2016, e ainda não terminado.

Aqui abro parênteses. Há a percepção, entre os que perceberam a mão da inteligência dos EUA guiando os protestos, de que eles foram montados desde o início. Embora possa ter sido realmente assim, não creio, pois os protestos contra aumentos de passagens liderados por jovens têm tradição na história urbana do Brasil do Século XX (1930, 1947, 1959, 1987). Entre os predicados exigidos por estrategistas e operadores na “guerra híbrida” é a capacidade de avaliar bem as oportunidades que se apresentam para explorar as vulnerabilidades da sociedade inimiga, e a velocidade e flexibilidade para explorá-las. Assim, o mais provável é que os operadores tenham visto nos protestos do MPL uma boa oportunidade para desfechar um ataque. Essa hipótese explicaria a súbita virada de 180 graus nas opiniões dos jornalistas do Grupo Globo sobre os conflitos. Fecha parênteses.

Os estrategistas estadunidenses, então, por meio de seus acólitos nacionais, exploraram algumas das imensas vulnerabilidades da nossa sociedade:

Militar: Os militares brasileiros possuem notória má formação intelectual que os fazem ser facilmente manipuláveis quando se agitam bandeiras como “fim da corrupção” e “perigo comunista”, esta principalmente quando empunhada pelos norte-americanos, com quem as Forças, especialmente o Exército, possuem tradição de cooperação que remonta à Segunda Guerra Mundial.
Política: O sistema político brasileiro é largamente disfuncional há muito tempo, tendo construído uma classe política que se põe distante das reais necessidades daqueles que dizem representar.
Econômica: A dependência das commodities, sejam agrícolas, sejam minerais, são um calcanhar-de-aquiles histórico da economia brasileira.
Civil: A sociedade civil brasileira, construída em torno da escravidão que durou quase 400 anos, tem fraquíssima coesão interna, sendo manipulada com facilidade, especialmente os estratos médios, do qual fazem parte os militares, considerados por seus pares como reservas morais da sociedade, e o Judiciário.
Informacional: O Brasil tem a característica de apresentar concentração midiática em mãos de apenas um conglomerado privado, o Grupo Globo. Esse poder é avassalador, pois o Grupo tem a capacidade de estar em contato diário com praticamente toda a população do país, em especial por intermédio de sua rede de televisão, o meio mais abrangente do país.

Como esta não é uma análise ampla de caso sobre a “guerra híbrida” aberta contra o Brasil, mas apenas a consequência de uma de suas facetas, vamos ficar nesta, no caso a Informacional.

A população brasileira é historicamente pouco afeita a procurar informações, preferindo recebê-las já “embaladas” e, se possível “mastigadas”. Esta característica faz dos meios eletrônicos – sejam os tradicionais rádio e TV, seja a nova internet – a fonte privilegiada por onde recebe informação, a qual consome de forma passiva (tendo uma face ativa recente na internet por meio do compartilhamento acrítico, via redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas).

O poder avassalador do Grupo Globo apontado acima, como não poderia deixar de ser, é observado também na área de jornalismo, como se pode observar abaixo, em dados do período de 16 de abril a 20 de maio, obtidos do Kantar Ibope Media:

Assim, no caso específico da sociedade brasileira, não havia arma mais poderosa do que a Rede Globo para ser usada na “guerra híbrida” contra o Brasil. E era uma arma ao alcance das mãos estadunidenses há muito tempo – afinal, o acordo com a Time-Life, dos EUA, nos anos 60, que propiciou a estruturação da empresa não poderia ser esquecido. Assim, não foi complicado para os estrategistas da “guerra” conseguirem fazer funcionar sua arma de destruição em massa mais poderosa, uma espécie de “Estrela da Morte” informacional.

Por si só, o poder quase monopolístico da Globo já traria os outros veículos para o lado dos EUA, mas havia um outro motivo. Como qualquer companhia privada de algum peso econômico no Brasil, as empresas de comunicação (incluindo o Grupo Globo) têm a maior parte de seus ganhos advindos não de sua atividade-fim, mas de aplicações financeiras . Ora, o mercado financeiro é, juntamente com as empresas de petróleo, os maiores financiadores da “guerra híbrida” levada a cabo pelos governos do Ocidente (China e Rússia têm outros tipos de financiamento, estatal). Sob a dupla pressão do monopólio da Globo e dos seus próprios interesses financeiros, os outros veículos entraram de cabeça na defesa do impeachment de Dilma Roussef.

Com tomada ostensiva de posição em favor da derrubada de Dilma, a Rede Globo (e todos os veículos que a acompanharam) romperam com o sacrossanto acordo social de que o jornalismo é o meio entre a sociedade e o poder, agindo de modo “isento, imparcial e objetivo”. Por mais que esse modo de ação seja apenas uma ilusão ideológica, ainda assim é sobre ele que se apoia a credibilidade do veículo e o respeito do cidadão aos profissionais que o representam. Quando a Globo e os outros grandes veículos quebraram esse acordo, os dois pontos se perderam.

Só isso já seria muito ruim, mas houve mais. Dilma Roussef foi identificada como a causa de todos os males econômicos e sociais que o país atravessava. Não se passou muito tempo para que a trapaça dos veículos caísse por terra – a situação, que não era boa, tornou-se trágica. Para piorar, os veículos do Grupo Globo por meio de seus profissionais mais proeminentes, como Míriam Leitão, Carlos Alberto Sardemberg, Merval Pereira, William Bonner e mais alguns, insistiram por muito tempo em defender os atos do governo de Michel Temer, mesmo aqueles que claramente mais dificultavam a vida e destruíam os direitos da população, em especial a mais pobre, como a PEC dos Gastos, a Reforma Trabalhista e Reforma da Previdência (que não passou).

Dessa forma, a frustração e a raiva cada vez maior contra um governo ilegítimo e antipopular acabou sendo carreada para aqueles que, fora dele, mais o defendiam de público – os jornalistas, em especial, claro, os do Grupo Globo e, dentro deste, os de TV. Assim, não chega a ser nenhuma surpresa que as agressões a jornalistas, em especial de TV, com maior foco ainda nos profissionais da Rede Globo, tenham se multiplicado. Mesmo sem possuir uma visão abrangente da questão, os cidadãos brasileiros, principalmente os mais politicamente engajados, mas não apenas eles, sentem que os jornalistas fazem parte de um “exército inimigo” que estão atacando seus direitos mais elementares. Pode ser que a esmagadora maioria dos profissionais não mereça esse julgamento, mas, como diz o personagem de Clint Eastwood, no faroeste os “Os imperdoáveis”, antes de fuzilar o de Gene Hackman, “merecer não tem nada a ver com isso”.

Portanto, o mais provável é que, nos próximos tempos, as agressões e intimidações contra profissionais de jornalismo durante o exercício de seu trabalho se multipliquem. E não adiantará falar de respeito à liberdade de expressão e/ou de imprensa e lembrar que é apenas um trabalhador ou mesmo que defende pessoalmente as mesmas posições do agressor, pois não é nada pessoal – apenas guerra é guerra.

Os jornalistas e sua desconexão do Brasil real

Deu ruim…

Um texto de Carla Jiménez, do El País Brasil, sobre a pesquisa da CNT que apontou a descrença de 90% da população brasileira com o Judiciário levou-me a um desabafo no perfil da Coleguinhas no Facebook. Resumindo para você que tem preguiça de seguir links: pergunto em que país vive a editora-chefe da sucursal brasileira do jornal espanhol para se surpreender com a constatação da pesquisa. Após o desabafo, lembrei-me de que não deveria eu me surpreender com desconexão de Jiménez com a realidade do país em que nasceu (apesar do sobrenome, é brasileira). Há duas décadas tropeço nessa constatação – lembro até quando levei o primeiro encontrão dessa realidade.

O amigão Affonso Nunes parou o arrebentado Chevette no qual me dava carona para o JB – ambos morávamos na Ilha e trabalhávamos lado a lado no copy da editoria de Cidade – no “Rock in Rio”, como chamávamos o estacionamento dos mortais, um descampado de terra que virava um lamaçal quando chovia, lembrando o que ocorria no primeiro RiR, em 1985. Affonso parou ao lado de um Corsa GL. Como não me ligo em carros (nem dirigir sei), notei nada de anormal, mas ele arregalou os olhos. “Olha só!”, falando mais alto do que de costume. Olhei e notei algo interessante – o carro era tão novo que sua placa ainda estava no para-brisa. “É novinho”, disse. “Claro que é! Foi lançado na segunda-feira!”, disso meu amigo, estupefato. Aí prestei atenção – era uma quinta, como aquele carro estava ali? Só se tivesse saído da fábrica antes do lançamento oficial. Se fosse esse o caso, era para estar no estacionamento dos mandachuvas do jornal, o cimentado que ficava no outro lado, não no “Rock in Rio”.

Curiosíssimo, Affonso foi assuntar e trouxe a resposta em 15 minutos. O carro pertencia a uma estagiária da própria editoria de Cidade. Sim, estagiária – uma estagiária tinha um carro recém-saído da fábrica. Mas para nós o mistério estava elucidado: a jovem era filha de um famoso advogado, sócio de banca importante, com amplas possiblidades de obter o mimo para a filha amada sem grandes problemas.

Pouco depois desse episódio, ocorrido em 1996, comecei a Coleguinhas (a página faz 22 anos domingo que vem, dia 27) e nela toquei no caso duas ou três vezes, mas nunca as consequências dele me foram tão claras, levando diretamente ao texto de Carla Jiménez e a meu desabafo. Nele está a explicação do porquê os jornalistas desconectaram-se do resto do país.

Até por volta de meados dos anos 90, o comum nas grandes redações era encontrar gente como Fátima Bernardes – jovem da boa classe média do Méier, que sonhava ser bailarina e acabou estudando jornalismo na UFRJ, para onde se deslocava de ônibus, muitas vezes na companhia de uma amiga com quem partilhava também o curso e o senso de organização dos cadernos, característica que salvou mais de um(a) colega na hora das provas de Nílson Lage. Era até possível encontrar uma hoje famosa colunista do Globo, comentarista da Globonews e condecorada pela ONU, que possuía apenas um tênis e uma sandália para sair quando adolescente em Irajá. Ou este que vos escreve, filho de praça da Marinha, nascido em Recife, morador de Nilópolis, Bonsucesso, Ramos, Estácio, Agostinho do Porto, Pavuna e outros lugares para onde teve que ir por imposição de locadores que exigiam os imóveis alugados dando pouco tempo para a mudança.

Além do subúrbio do Rio (e, no meu caso, Baixada Fluminense), o pessoal do parágrafo anterior, e muitos jornalistas da nossa geração (creio mesmo que a maioria), tínhamos em comum a passagem por escolas públicas, em algum nível (no meu caso, nos três níveis, pois, tirando os três primeiros anos do antigo primário, fui formado no ensino público). E escola pública, de qualquer nível, é uma mistura enorme de classes sociais e gente de vários lugares da cidade, e mesmo do país (quando não do mundo – estudei com uma boliviana e um nigeriano na UFF). Ou seja, se as nossas casas estavam solidamente fincadas no Brasil real, nossas escolas não cortavam esse contato por estarem inseridas no mesmo universo.

Com a destruição do ensino público iniciada pelos militares (esse crime não estará tão explicitado num documento da CIA como o da ordem de Geisel para assassinar opositores à ditadura), os egressos de faculdades privadas de jornalismo começaram a, progressivamente, a tomar as vagas abertas nas redações. Obviamente, há jovens vindos de subúrbios nas faculdades privadas que, vencendo enormes dificuldades, chegam às redações dos grandes veículos, mas não há como negar que são minoria.

A maior parte dos formandos é de gente que, além de poder pagar um curso, tem possibilidade de arranjar um estágio por não precisar trabalhar para pagar o tal curso e mesmo ajudar em casa, podendo assim somar um currículo necessário para iniciar-se profissionalmente – sem contar que os pais têm maior probabilidade de ter contatos certos – o chamado “capital social” – que ajudem os rebentos no  processo. Agregue-se às dificuldades citadas o preconceito que se construiu contra quem vem dos subúrbios, “lugares de pobre”, e chegamos à situação de hoje – de maioria, aqueles que tinham contato diário e de nascença com o Brasil real passaram a ser minoria.

Este fato, na minha pra lá de discutível opinião, está na raiz da surpresa de Carla Jiménez com a avaliação que nós, do Brasil real, temos desde sempre – a Justiça não existe para os poderosos. Carla e outros como ela certamente terão outras surpresas semelhantes se um dia resolverem vir falar conosco, aqui, no Brasil de verdade.

Ilusão de jornalista

Escrevi este post, inicialmente, para a página da Coleguinhas no Facebook. Ela ganhou grande repercussão, então postei no Blog do Iv, no Medium. Aí pensei: “pô, o blog da Coleguinhas, o veículo mais antigo (completa 22 anos mês que vem), não pode deixar de ter esse texto também”. Então, aí vai ele, com foto e tudo:

 

Dentre as auto-ilusões dos coleguinhas, uma das que considero mais estranhas é achar que representa algo individualmente. Jamais entendi isso. Creio que 99,99% não compreende (ou finge não compreender) que, diante do Outro (qualquer Outro, seja militante político, analista financeiro, empresário, jogador de futebol, político…), representamos apenas os veículos (e os patrões) que nos pagam. Quem trabalhou em jornal pequeno e depois num grande, percebe claramente a diferença de tratamento e o que ela diz.

História para exemplificar. Em 88, o Exército (quem mais?) matou três metalúrgicos que faziam piquete na frente da CSN, em Volta Redonda. Foi o estopim de uma batalha. Num determinado momento, um carro da Rede Globo foi cercado pelos trabalhadores, que queriam virá-lo e linchar quem estava dentro. A equipe de O Dia – na época um jornal popular decente e onde eu trabalhava -, comandada por uma amiga de faculdade, conseguiu interpor o carro entre a turba e os colegas. A amiga – que, sem exagero, tem 1,50m – saltou e encarou os trabalhadores. “Nós somos trabalhadores que nem vocês!”, gritou. Os caras pararam. O líder respondeu. “Eles são não. São da Globo. Mas você é do Dia. Tira eles daqui”.

Portanto, caro colega, esqueça essa coisa de passado militante, liberdade de imprensa e tal. Você representa nada disso. Representa o seu patrão e tudo no que ele acredita. Como dizia A.J. Liebling, da New Yorker: ‘Freedom of the press is guaranteed only to those who own one.’ “

É hora dos bons! Escolha as melhores reportagens da internet brasileira em 2017!

Vai votar em quem?

 

Depois premiarmos a melhor da cascata do ano, no Prêmio King of the Kings, é a hora de reconhecermos as reportagens de alto nível publicadas na internet brasileira por sites independentes. A lista de concorrentes ao Prêmio Marcos de Castro-2018 é grande – 30 matérias – e, creio, que você não se dará ao trabalho de ler todos, embora se o fizer terá uma visão da brasileira que jamais verá na Rede Globo, na Folha ou na Veja. Assim, proponho que você leia aquelas matérias cujos títulos lhe chamarem mais a atenção e/ou aquelas cujos temas mais o/a atraiam.

Mas antes vamos às regras, como sempre:

  1. Você pode votar em até 15 (quinze) concorrentes.
  2. A votação termina domingo, 10 de março, para dar tempo bastante você ler o maior número de matérias.

Então, vamos às concorrentes:

  1. Vídeo mostra menino sendo arrastado por empregados do Habib’s antes de ser assassinado (Ponte Jornalismo).
  2. Governo reduz em 20% número de farmácias populares (Aos Fatos).
  3. Como Eduardo Cunha manda no governo Temer (Poder 360).
  4. Segurança privada ajudou Forças Armadas durante a ditadura (Agência Pública).
  5. Rei dos Ônibus ganha recebe benesses durante Jogos Olímpicos do Rio (Agência Sportlight).
  6. Site dá acesso aos processos da Lava-Jato (Jota).
  7. As estranhas condenações dos “terroristas” brasileiros (Agência Pública).
  8. É fácil fugir dos impostos no Brasil: basta fundar uma igreja igreja. (Nacionais.net).
  9. Censo de 1872: o retrato do Brasil da escravidão (Nexo).
  10. PM de SP assassina menor e revolta família (Ponte).
  11. Mato Grosso, a terra da chacina no campo (Nexo).
  12. “Malta files”: 148 brasileiros têm contas no paraíso fiscal do Mediterrâneo (Agência Sportlight).
  13. Dívida ativa de empresas atinge bilhões (Volt).
  14. Banalizada, senzala vira nome de restaurantes e casas de show (Colabora)
  15. Auditoria mostra que são mesmo os empresários de ônibus que mandam no transporte do Rio (Agência Pública)
  16. A origem da mentalidade autoritária da Lava-Jato (Brasil de Fato)
  17. Os sorteios do Supremo (Jornal GGN)
  18. As relações de Gilmar Mendes com o site Consultor Jurídico (Agência Pública)
  19. Domésticas filipinas são escravizadas em São Paulo (Repórter Brasil)
  20. A confraria do vinho que une Aécio a Cabral (Agência Sportlight)
  21. O Caso Rafael Braga (Justificando/Ponte Jornalismo)
  22. Os guarani-kaiowá estão morrendo de fome (Colabora).
  23. A corrupção na Ditadura Militar (Agência Pública)
  24. O martírio do reitor Luis Carlos Cancellier ((Sérgio Giron/Edike Carneiro))
  25. Empresas alemãs colaboraram com a Ditadura Militar (Opera Mundi)
  26. Crimes de ódio religioso são 90% das denúncias no Disque-Denúncia do Rio (Agência Pública)
  27. Prefeito lidera garimpeiros em ataque contra posto do Ibama no Amazonas (Altino Machado) 
  28. PM persegue negros na periferia de São Paulo (Agência Pública)
  29. A situação do consumo de maconha no Uruguai quatro anos após a liberação (Colabora)
  30. Documentário mostra ligação entre religião e territorialidade no Complexo do Alemão (Agência de Notícias das Favelas)