Matéria sobre menino assassinado na porta do Habib´s vence primeira seletiva do Prêmio Marcos de Castro

A reportagem de Kaike Dalapola, da Ponte Jornalismo, com o vídeo que mostra o menino João Victor de Souza Carvalho sendo arrastado por funcionários da Habib’s pouco antes de ser assassinado ganhou a primeira seletiva do Prêmio Marcos de Castro com 13 votos. A segunda colocação coube à matéria de Sérgio Sapgnuolo, de Aos Fatos, que demonstra que o governo reduziu em 20% o número de farmácias populares. Houve um total de 84 votos.

O Prêmio Marcos de Castro foi criado este ano visando reconhecer o bom trabalho jornalístico realizado por veículo independentes na internet e contrabalançar o King of the Kings, o prêmio que aponta a maior cascata do ano. Além das duas matérias citadas, mais quatro estão na finalíssima, marcada para janeiro de 2018. Veja as classificadas (os links estão na coluna ao lado):

  1. Vídeo mostra seguranças do Habib´s arrastando menino que apareceu morto logo depois (Kaike Dalapola, Ponte Jornalismo) – 13 votos (15% do total).
  2. Sem alarde, governo reduz em 20% rede de farmácias populares no Brasil (Sérgio Spagnuolo, Aos Fatos) – 11 (13%).
  3. Renan Calheiros explica como Eduardo Cunha manda no governo Temer (Tales Faria, Poder360) – 9 (11%).
  4. Agências de vigilância privada ajudaram Forças Armadas na repressão durante a ditadura militar (Ciro Barros e Iuri Barcelos, Agência Pública) – 9 (11%).
  5. O Rei dos Ônibus do Rio recebe benesses do comitê que organizou os Jogos Olímpicos do Rio (Lúcio de Castro, Agência Sportlight) – 8 (10%).
  6. Buscador abre dados de todos os processos da Lava-Jato (Laura Diniz, Márcio Falcão, Livia Scocuglia, Gustavo Gantois, Jota) – 8 (10%)

 

As outras quatro concorrentes que não foram classificadas, voltam na próxima seletiva para uma repescagem. São elas:

  1. Rede Riba abre restaurantes em pontos caros do Rio graças a ajuda de Sérgio Cabral e Eduardo Paes (Lúcio de Castro, Agência Sportlight).
  2. Hábito alemão: todos a sauna, todos nus (Renata Malkes, Projeto Colabora).
  3. O preconceito do mercado de trabalho com as pessoas de mais 50 anos (Cátia Moraes, Projeto Colabora).
  4. Política pública de mobilidade ignora diferenças de gênero e idade (Natália Mazotte, Gênero&Número).
  5. Sarney briga na Justiça por aposentadorias de R$ 73 mil depois de ter sido obrigado a devolver dinheiro (Joelma Pereira e Édson Sardinha, Congresso em Foco).

Rufem os tambores! Que comece a eleição da maior cascata de 2016!

Não, meu caro/minha cara, 2016 ainda não acabou – sobrou um compromisso importante a ser quitado: a eleição da maior cascata do ano. Esta é a nona vez que o pleito é realizado de maneira seguida (em era anterior da Coleguinhas, era realizado de maneira esporádica). O King of the Kings – desculpe a falta de modéstia – é único no cenário do jornalismo brasileiro por não haver outro que reconheça o esforço e a determinação dos coleguinhas na busca pela completa desmoralização da própria profissão, quebrando aquele contrato tácito de que o jornalista deveria apenas contar a verdade da melhor maneira que pudesse a fim de que o leitor fizesse seu julgamento. Caso você tenha interesse em ver os premiados desde 2008 e a origem do nome do prêmio é só ir em “Hall da Infâmia do King of the kings”, aí na aba superior.
Este ano, são 28 cascatas na disputa e as regras e dicas para a eleição são as seguintes:

1. Você pode votar em até 14 concorrentes. Não é proibido de votar em menos, mas, francamente, creio que você vai é achar o número bem limitado, dada a qualidade das cascatas (e a consequente falta de vergonha na cara das matérias).

2. Como é uma final – o que obriga a uma responsabilidade maior no ato de votar -, o prazo normal de uma semana será estendido para duas, a fim de que você pese com calma antes sufragar suas escolhidas. Assim, a eleição termina em 29 de janeiro.

3. Caso você tenha alguma dúvida sobre uma ou mais cascatas específicas, os links para elas estão aqui do lado direito.

Então, vamos lá! Vote! Premie aqueles que mais tentaram engabelá-lo/a com mentiras, meias-verdades e manipulação.

O presidente Trump, o jornalismo e nós

Vou continuar devendo o restante da análise dos dados da pesquisa da FSB sobre o consumo de mídia dos deputados federais. Não resisto a dar meu pitaco sobre o cataclismo que foi a eleição de Donald Trump para o cargo de homem mais poderoso do mundo, fato amplamente considerado como o fim do mundo conforme o conhecemos. No caso, meu palpite se junta a um dos subtemas mais amplamente debatidos nestes dias – como a mídia fracassou ridiculamente ao prever a vitória de Hillary Clinton, num novo caso “Dewey derrota Truman”.

 

De novo...

De novo…

Sobrou pra todo mundo e pra todo lado. Margaret Sullivan, ex-“editora pública” (algo com mais peso do que um simples ombudsman) do NYT e hoje colunista do Washington Post, afirmou que os coleguinhas norte-americanos botaram na cabeça que o sujeito não podia ganhar e simplesmente decidiram olhar para o outro lado quando viam uma multidão ululante de seguidores de Trump na sua frente. Segundo ela, os bem-educados, urbanos e liberais (lá isso quer dizer de centro-esquerda), moradores de Nova York, Washington D.C. ou da Costa Leste, não quiseram ouvir o que lhes gritavam os habitantes pobres – e, na maioria, brancos – dos estados do Cinturão de Ferrugem (Rust Belt), aquele grupo de estados que acabou dando a vitória ao bilionário, apesar de ele ter tido menos votos do que a concorrente (vá entender por que eles mantêm um sistema eleitoral do Século XVIII…)

Jim Rutemberg, o analista de mídia (é, tem isso lá) do concorrente New York Times, vai pelo mesmo caminho e chega mais longe ao escrever que “se a mídia falhou em apresentar um cenário político baseado na realidade, então ela falhou na sua missão fundamental”. E aí Rutemberg toca no ponto em que eu queria tratar aqui (supernariz de cera, hein?) ao dizer que “política não são apenas números”. Esse é o problema básico. Nada que envolva seres humanos é.

Para entender meu ponto é realmente necessário que você siga este link, que leva a uma matéria do Nexo, uma jovem publicação da qual gosto tanto que sou assinante. Eu espero você ir lá, rolar a tela, dar uma boa olhada e voltar. Vai que é realmente importante.

“Mas que porra é essa?!”, foi o que perguntei ao meu zíper quando vi essa página pela primeira vez. Pois é. Eu, um cara que gosta de dados, fiquei chocado com uma série de oito chiquérrimos gráficos dos mais diversos tipos completamente desacompanhados de quaisquer tabelas ou explicações, a não ser as legendas que os apresentam. Se você não for um analista de dados do IBGE duvido muito que consiga ler este monte de gráficos e decodificá-los em algo inteligível em tempo menor do que os 10 minutos que levei para entender o que estava ali e notar que: a) se você ler os gráficos na ordem da tela, tem uma grande chance de chegar à conclusão oposta ao que eles realmente mostram – que a PEC do Teto atinge o lugar errado se a ideia é mesmo acabar com o déficit público; e b ) que ainda faltam dois grupos de dados (e respectivos gráficos) fundamentais para uma avaliação precisa da atual Emenda Constitucional 55 (ex-241) – o gasto do governo com o pagamento de juros e a relação desse dispêndio com o total de despesas.

E olha que estou falando do Nexo, uma publicação nova e que se baseia em dados, como Aos Fatos, Lupa, Gênero & Número etc. Não é da mídia corporativa, que essa não apenas ignora a população, como fez a americana na eleição de Trump, como, quando presta atenção nela, é para atacá-la, como tem acontecido, por exemplo, com as ocupações de escolas e universidade públicas pelos estudantes.

Partindo do pressuposto que esses veículos não querem fazer o mesmo da mídia corporativa – ou seja, viver mamando nas tetas do Estado por meio de publicidade e jogando no cassino do mercado financeiro, usando o jornalismo como fachada -, talvez o que tenha movido o editor do Nexo que simplesmente tacou um conjunto de dados na página para o leitor virar-se como pudesse tenha a ver com que Sullivan diagnosticou: os profissionais que trabalham nestes veículos têm quase nada a ver com o resto da população brasileira, pois há pouca diversidade social entre eles. Assim, por mais bem-intencionados que sejam, o jornalismo que produzem tem quase tão pouco a ver com a realidade como o praticado pela mídia corporativa e não vai ajudar a muda-la e/ou esclarecer o cidadão (se é isso que eles desejam, claro). Este é ponto bem exposto por Danah Boyd, da New York University.

Há ainda um outro ponto que joga contra o jornalismo que luta para emergir no Brasil e tem a ver com a mesma bolha em que vivem os jornalistas dos novos veículos: eles são pautados pelos que têm o poder. A falta daqueles dois dados (e gráficos) que citei acima mostra bem este fato – como o governo só fala de despesas primárias, parece não ter ocorrido ao pessoal do Nexo que juros também fazem parte das despesas. Outra demonstração é que os jornalistas que gostam de trabalhar com dados ficam procurando pegar os políticos na mentira. Como a eleição de Trump demonstrou, isso não tem quase nenhuma importância – ele mentia em mais de 90% dos casos e elevou a mentira a uma forma distorcida de arte.

Como resolver esses problemas? Não creio que haja uma resposta única e mágica, mas conversando com uma coleguinha, especialista em trabalhar com jornalistas que usam dados em suas matérias, chegamos a uma conclusão óbvia – os jornalistas precisam não apenas trabalhar com dados, mas fazer com que eles façam sentido com a realidade em volta – e uma outra não tão óbvia, a de que os setores mais organizados da sociedade civil devem eles mesmos aprender a lidar com dados a fim de produzir conteúdos que falem de suas realidades e/ou pautar os veículos da Nova Mídia.

Creio que sem essas duas vertentes trabalhando para convergir, dificilmente o jornalismo sobreviverá, aqui e alhures, como uma atividade relevante num mundo no qual ele já perdeu grande parte do poder de influenciar que possuía há apenas duas décadas para redes sociais as quais, vamos ser francos, não estão nem aí para saber se algo que é publicado em suas plataformas é verdade ou não.

Vamos falar de financiamento ao bom jornalismo?

Me dá uma mão?

Me dá uma mãozinha?

 

Vou dar uma paradinha na análise dos dados da pesquisa da FSB sobre o consumo de mídia dos deputados federais para falar sobre um assunto que tem me incomodado nas últimas semanas: como financiar o bom jornalismo.

Não creio que haja mais dúvidas sérias de que a chamada mídia corporativa no Brasil chegou a um estado tal que só resta botar os gatos para jogar terra em cima e esquecer. Simplesmente não quer acompanhar o que se passa no país no momento em que ele caminha, decidido, para o brejo. E não quer por ter vendido seu negócio por um punhado de reais a mais do governo golpista, como fez a Folha (mas não só ela). Acabou como fonte confiável para o cidadão. Foi.

Há muita gente boa que acredita que esse fato não é problema delas – “Posso viver sem jornalismo. Não muda nada na minha vida”, pensam. No entanto, a não ser que se resida num atol do Oceano Pacífico, numa escarpa entre o Butão e o Nepal, numa brenha da Amazônia ou em algum ermo semelhante, infelizmente essa independência é impossível (ao menos, indesejável). Habitando em qualquer lugar influenciado diretamente pelo que hoje entendemos por civilização é fundamental – só para ficar em dois exemplos -, ter acesso a matérias como essa para ter uma ideia do que pode acontecer com seu emprego e o que fazer com suas economias para a aposentadoria, ou essa, para estar atento ao que pensa a geração de seus filhos.

Só que é aquela coisa – não há almoço grátis, como dizia o zura do tio Milton. E nem bom jornalismo, acrescento eu. Dessa forma, temos de meter a mão no buraco do pano se quisermos ter alguém apurando matérias que nos façam pensar, ter uma visão multifacetada da realidade e nos ajude a descobrir o sentido possível num mundo cuja normalidade é o caos. Ok, está ruim para todo mundo, estou sabendo. Mas há maneiras de ajudar ainda assim, creio. Sem pretensão de apresentar uma resposta (o que, no meu caso, marrento que sou, é algo incrivelmente raro), dou meu exemplo de como lido com a situação.

Como não sou exatamente um cara que nada em dinheiro, estabeleci um teto anual, para 2016, de R$ 120,00 para minhas contribuições para cada veículo. É pouquinho, 10 “real” por mês para cada um, por que resolvi pulverizar a contribuições (você pode concentrá-las), contando que, além das assinaturas, os veículos arranjem outras formas de se manter (campanhas de crowdfunding especiais, patrocínios, investimentos de agências internacionais e até mesmo publicidade selecionada). Acredito que as contribuições podem dar um suporte mínimo, pagar uns 50% das contas (incluindo salários razoáveis), e não resolver o problema de sustentabilidade por si sós.

Na prática? Bem, a lista dos veículos dos quais sou assinante atualmente: AzMina, #Colabora, GGN, Nexo e Outras Palavras. Participei ainda de projetos de crowdfunding (aí com contribuições bem variáveis) de: Agência Pública, DCM, Farol do Jornalismo (newsletter semanal) e Observatório da Imprensa. Como dá pra ver, não sou o Pierre Omidyar e não vou construir nenhuma First Look Media, tento fazendo um favor a mim mesmo ao procurar manter o que resta de bom jornalismo aqui no Bananão. Humildemente, sugiro que você pense a respeito de fazer o mesmo.

P.S.: Segue os links, tá?

 

S.O.S.: o King of the Kings pede ajuda

Em quase 20 anos de Coleguinhas, sempre fui auxiliado, ocasionalmente, por alguns amigos e amigas, os Conselheiros. Davam (e dão) toques, mandavam (e mandam) colaborações, discutiam (e discutem) temas… No entanto, sempre foi coisa esporádica e, no fim das contas, eu sempre dei conta do recado sozinho sem grandes problemas. Agora, porém, a situação mudou, pelo menos em relação ao King of the Kings – vou mesmo precisar de ajuda.

Joguei a tolha na semana que passou quando, em dias seguidos, vi duas cascatas inacreditáveis, pelas quais passaria batido não fosse os alertas de dois Conselheiros. A primeira o inédito “desmentido de charge” do Zero Hora (15/01, publicação; 18, errata); a segunda, a publicação pela Veja da foto errada de uma senhora por ela estar usando a bolsa de designer homônima de uma denunciada por um delator da Lava-Jato. Diante disso, precisei admitir que não tenho como acompanhar a enxurrada de cascatas que os coleguinhas despejam diariamente sobre nossas cabeças e, por este motivo, peço help, sem vergonha alguma.

Diante da situação inédita, tive que bolar algumas regras para filtrar minimamente esse caudal cascateiro. Assim, antes de se oferecer como voluntário/a, dê uma olhada nelas:

1. Enviar uma sugestão de cascata não quer dizer que ela será acolhida, e a participação no concurso, garantida. Pelo exposto, se assim fosse, ficaria inviável a eleição pelo número excessivo de concorrentes. As sugestões sempre passarão pelo meu crivo e sou bem exigente, aviso. Por exemplo, cascatas “disse-me-disse” como as que pululam na coluna do Ancelmo Góis e também aparecem na de Sônia Racy e outros colunistas, não entram. Claro que um “disse-me-disse” como aquele do Lauro Jardim afirmando que o Lula fora citado pelo Fernando Baiano é mais que uma fofoca – ela teria sido baseada em informação qualificada. Foi mais que uma barriga, uma cascata, e, por isso, entrou na disputa.

2. Colunistas, aliás, sempre foram um problema para o KofK. Eles dão opinião e ter uma opinião não quer dizer que alguém seja, necessariamente, cascateiro. O problema é quando dão opinião em cima de supostas informações absurdas (como Carlos Alberto Sardemberg, campeão de 2015) ou mal apuradas (como o caso do vice, Merval Pereira, e na de Lauro). Colunistas que, basicamente, são propagadores de fé e não jornalistas – como Míriam Leitão, Suely Caldas, Celso Ming, Eliane Brum, Reinaldo Azevedo, Paulo Nogueira e muitos outros (incluindo, agora, Kim Kataguiri) – também não contam para o KofK – são apóstolos e não se espera que apóstolos raciocinem fora de seus dogmas (ou mesmo raciocinem de qualquer modo). Eles não estão nem supostamente informando, estão pregando – acredita quem quer e fé não se discute.

3. Desta forma, peço que você também seja muito criterioso/a na hora de enviar uma cascata. Ela precisa ser muito incrível (como os casos da ZH e da Veja, citados acima), claramente mentirosa (como a terceira colocada de 2015, sobre a “confissão” de Lula a Mujica, ou a quinta, que a tinta da ciclovia de São Paulo sujava os carros) e/ou muito significativa, de um grande interesse para a coletividade, do ponto de vista político e/ou social (como o direcionamento da cobertura da Operação Zelotes ou o acobertamento dos malfeitos de Eduardo Cunha enquanto ele foi útil). Claro que você pode (deve mesmo) mandar o que quiser, mas eu vou sempre olhar sob esses prismas, ok?

4. As colaborações deverão ser enviadas pera o e-mail coleguinhas.kofk@gmail.com, constando do assunto “kofk”(sem as aspas).

5. Seguindo a tradição da Coleguinhas, todas as sugestões serão em off. Se mesmo com essa garantia, jamais quebrada em duas décadas, você não se sentir confortável para enviar sua colaboração (e eu respeito isso – afinal considero a paranoia a oitava virtude do Bushido), há a opção de mandá-la por meio do ColeguinhasMail, um sistema e-mail anônimo com suporte do GuerrillaMail, um dos principais serviços desse tipo da Deep Web (estou na fila do ProtonMail e quando for aceito, informarei sobre essa opção também).

6. Para a cascata proposta ter mais chances de disputar as seletivas, peço que sejam enviadas as seguintes informações para que eu preencha a planilha que estou criando (vou precisar de um controle mais estrito, pelo já exposto):

a. Link, print de tela, vídeo ou áudio da cascata;
b. Veículo em que foi publicada;
c. Data e/ou edição;
d. Motivo de ser considerada uma cascata. Se ela for cabalmente desmentida como aconteceu nos casos de Lauro Jardim na primeira do Globo, e do ZH e da Veja citados acima – e tem sido a praxe do Instituto Lula -, o link ou o print de tela com os desmentidos serão aceitos como motivo.
e. Autor (desejável, mas não fundamental);
f. Tema (o mesmo)
Bem, isso é o básico. Claro que, dentro de um tema de avaliação tão pessoal (e, para muitos, passional), haverá discordâncias, mas poderemos sempre conversar sobre elas e não sou um cara difícil de dobrar, desde que os argumentos sejam baseados em premissas lógicas – seguidas até o fim – e apresentados de modo civilizado.

Desde já, fico muito grato pela ajuda.

A luz sobre o jornalismo do Bananão que vem do cinema

“Personally I’m of the opinion that for the paper to best perform its function it needs to, uh, stand alone.” (Marty Baron, em “Spotlight”)

“(..) esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada” (Maria Judith Brito, presidente da ANJ e executiva da Folha de São Paulo, em 2010)

As falas de Marty Baron, ali pelos 30 minutos de “Spotlight”, e a de Maria Judith Brito, publicada no Globo em 2010 e jamais desmentida, acaba com qualquer veleidade de comparação entre o jornalismo praticado no filme de Tom McCarthy e o que vemos no Brasil. Seria como comparar o basquete da NBA e da NBB – há três árbitros, que apitam sob as mesmas regras básicas, o objetivo é botar uma bola laranja dentro de um aro com redinha furada pendurada num suporte alto…E ponto, acabaram-se as semelhanças. Tecnicamente, são jogos diferentes.

A diferença entre o compromisso ético e profissional com o trabalho jornalístico que guia o time Spotlight e seus chefes e aquele comportamento com que lidamos no dia a dia no Bananão, resulta no que vemos estampado nas páginas de jornais (e assistimos na TV e ouvimos no rádio) daqui. E essa diferença de comprometimento tem como base as duas frases e no contexto em que elas foram ditas.

A fala de Baron é uma resposta ao cardeal Law no primeiro encontro entre os dois – uma tradição sempre que um editor-chefe assumia o Boston Globe – quando este propõe que seja mantida a colaboração entre Igreja e o jornal, igualmente tradicional. Já a de Maria Judith foi proferida quando ela atacava, em nome da ANJ, o Programa Nacional de Direitos Humanos, lançado naquela época pelo governo.

Há um óbvio choque entre as duas versões do papel do jornalismo que, também obviamente, acaba por refletir-se na atuação diária dos jornalistas. Os profissionais do Boston Globe, claro, se guiam pela premissa de seu editor-chefe, enquanto os empregados dos veículos que fazem parte da ANJ tendem a trabalhar segundo o cânone expresso pela presidente da entidade. Claro que há várias exceções à praxe, mas se quisesse garantir o emprego, um jornalista do Boston Globe sabia que estaria mais seguro seguindo a orientação de Baron, enquanto o de jornal membro da ANJ tentará manter-se o mais próximo possível da orientação de Maria Judith que sua consciência permitir. E, como se sabe, a crise está aí…

Outro ponto de diferença marcante nas duas frases está nas entrelinhas (“leia as entrelinhas” é o slogan que está no cartaz brasileiro de “Spotlight”). Se os veículos se engajam na oposição a um governo, quando a oposição se transformar em governo – algo inevitável numa democracia – segue-se que eles vão apoiá-lo, como o cardeal Law desejava que o Boston Globe continuasse a apoiar a Igreja. Essa cobrança de posição política é repetida em outras situações durante o filme e mostra o perigo para o jornalismo quando os veículos (e os jornalistas) se afastam da receita de Baron em direção à pregada por Maria Judith.

Voltando à crise…Em artigo publicado em seu jornal, o patrão de Maria Judith, Otávio Frias Filho, comentando “Spotlight”, falou da crise pelas quais passam os veículos, a qual seria a culpada pelas falhas dos jornais (assim mesmo, no geral) e cita os cortes na redação do próprio Boston Globe como prova das “transformações” que os jornais estão passando.

Bem, também bem no início do filme, Baron encontra “Robby” Robinson, o editor da equipe Spotlight, e trava-se o seguinte diálogo:

“MARTY
Not necessarily. Uh, but from what I understand readership is down, the Internet is cutting into the Classified business and, uh, I think, uh, I’m going to have to take a hard look at things.

ROBBY
So you anticipate more cuts?

MARTY
I would assume so, yes, but what I’m more focused on right now is finding a way to make this paper essential to its readers.

ROBBY
I’d like to think it already is.

MARTY
Fair enough. I just think we can do better”

A ação se passa entre 2000 e 2002, ou seja, há quase um década e meia, os jornais de lá já se preocupavam com a corrosão de sua base de receita causada pela internet e com a queda do número de leitores. A resposta deles aos problemas foi fazer um jornalismo ainda melhor, tornando o produto indispensável aos leitores. Os “publishers” daqui (e as aspas não são apenas porque a palavra é estrangeira) passaram quase o mesmo período tentando nos convencer que estava tudo bem e, quando isso se tornou impossível, a solução foi (está sendo) tentar derrubar um governo eleito legitimamente a fim de voltar a mamar nas verbas da publicidade oficial federal (nas dos outros estratos governamentais nunca deixaram de mamar). Melhorar o produto, tornando-o essencial para seus consumidores, seja em que plataforma for? Elevar o nível da administração para tornar a empresa mais rentável? Ah…Isso dá trabalho, além de transformar em empresa capitalista um órgão que sempre foi uma gazua ou um pé de cabra de seus donos, com os quais eles iam (vão) para cima dos cofres públicos.

Sem contar que, convenhamos, a Spotlight era um equipe de quatro pessoas, trabalhando feito mouras numa sala apertada, com alguns computadores. O que eles gastaram mesmo em quantidades industriais, pelo que se vê no filme, foi sola de sapato, retinas, sinapses, óleo de peroba (ou seu equivalente de lá), papel e tempo, muito tempo. Tudo bem que tempo é dinheiro, mas, ainda assim, o investimento para produzir uma série que abalou o mundo não foi dos maiores, certo? E é mais ou menos o mesmo  que é gasto em qualquer grande reportagem. Nada que uma grande (ou mesmo média) empresa jornalística brasileira não possa despender.

Assim, diante de tudo isso, só resta a nós, distinto público, ir ao cinema e lá, como se fôssemos uma Cecília, heroína de “A Rosa Púrpura do Cairo”, sonhar com o dia em que um jornalismo de qualidade será praticado no Bananão.

Em breve, numa telinha (bem) perto de você

“O futuro não é mais o que era antigamente”. O verso de Renato Russo em “Índios” me veio à cabeça enquanto lia o relatório “TV and Media 2015” do ConsumerLab, o braço de pesquisa da Ericsson, existente há 20 anos e que, nos últimos seis, tem divulgado o estudo, no qual analisa as tendências de curto e médio prazos para a televisão. O estudo é uma sequência de notícias ruins sobre o porvir da chamada “linear TV”, ou seja, essa que gente com minha idade – e até uns 10 mais jovem – cresceu assistindo, e também a TV por assinatura.

Para não assustar muito, vou começar com as notícias boas. De acordo com o relatório do ConsumerLab, a TV linear continua sendo fundamental em boa parte dos lares dos 40 países e 15 megacidades abrangidos pelo estudo. Esse fato ocorre pela capacidade do meio de prover acesso barato a conteúdos “premium” e ao vivo, especialmente esportes, e pelo valor social, por unir as pessoas numa experiência comum (tipo comentar a novela, discutir se houve ou não roubo no gol com a mão validado por aquele ladrão etc).

Hããã…Bem, as notícias boas acabaram. Agora, vamos às más, que, de tantas, vou dividir em tópicos (e serão resumidas porque tenho mais coisas a tratar no tema – há um link para quem quiser aprofundar-se no estudo lá embaixo):

• TV linear é coisa de idoso. Oitenta e dois por cento de quem tem acima de 60 anos vê seus programas diariamente, contra 60% dos chamados “millennials”, como o estudo chama quem nasceu de 1981 até 2000 (ou seja, tem entre 16 e 34 anos).

• Dessa galera, a maioria (53%) prefere ver vídeos em telas de aparelhos móveis (notebooks, tablets e smartphones).

• Mas não só eles – de 2012 para cá, houve um incremento de 71% naqueles que veem vídeos em smartphones, quando se engloba todas as idades. Por isso, a média de horas que dispendidas assistindo vídeos em aparelhos móveis (não apenas smarts) subiu 3 horas de três anos para cá.

• Mais de 50% dos entrevistados (cerca de 100 mil, representando 1,1 bilhão de pessoas) afirmaram que assistem video on-demand pelo menos uma vez ao dia, contra 30% em 2010.

• O motivo básico (e essa é um chute no saco, desculpe o termo, na TV) é que 50% dos que assistem TV linear não encontram nada que lhes agrade para ver pelo menos uma vez ao dia – percentual que sobre 62% entre aqueles com idade entre 25 e 34 anos.

•Assim, as pessoas estimam que gastam cerca de 6 horas por semana vendo séries, filmes e programas sob demanda, contra 2,9 horas em 2011.

•Um hábito que vem crescendo incrementa essa tendência – é o “binge view”, ou seja, assistir vários capítulos de um conteúdo (quando não ele todo) direto. É um hábito dominante entre quem assina serviços de vídeo sob demanda (S-VOD), tipo Netflix (87% o fazem ao menos uma vez por semana), mas também tremendamente significativo entre quem não assina, tipo quem acessa vídeos via You Tube, Vimeo ou pirateia mesmo (74%).

• Por falar no You Tube, ele é o principal incentivador de outra linha de ataque à TV linear. Quarenta e um por cento dos consumidores de vídeo veem UGCs por meio dele ao menos uma vez ao dia, 75% ao menos uma vez por semana (27% e 59%, respectivamente, em 2011). O que é UGC? É “User Generated Content” (Conteúdo Gerado por Usuário). Ainda não ligou o nome à pessoa? São aqueles vídeos que ensinam de um tudo (de dar nó em gravata a consertar motos) e também conteúdos como este ou este outro (cuja autora é uma ex-estagiária hipertímida que, há mais ou menos um ano, tive que chamar às falas para ela cumprir a obrigação de ser repórter em pelo menos dois vídeos para a TV interna da empresa).

• E um consumidor em cada três (crescimento de 9% em um ano) acha que é importante ter acesso aos UGCs direto naquela tela grande que está na sala.

• Aliás, essa tela está cada vez mais conectada à internet – sejam smart TVs puras ou TVs comuns ligadas por meio de aparelhos como Apple TV ou Chromecast . Segundo o relatório do ConsumeLab , 64% dos que não assinam S-VODs (ou seja, na prática vê apenas You Tube, Dailymotion, Vimeo e outros) já tem uma em casa; entre os assinantes, o percentual chega a 86%.

Chega, né? Não, não chega. Tem mais nesse mês de setembro de notícias miseráveis para a TV linear. Vou dividir de novo:

1. Mentions: O Facebook liberou para jornalistas, experts e outros influencers o seu app Mentions, que permite a emissão de vídeo em tempo real (“streaming”) para dentro da plataforma. O app já estava ao alcance de algumas celebridades selecionadas, assim como serão selecionados (não se sabe sob quais critérios) os novos usuários. Essa seleção vip não deve durar muito tempo até porque, no mesmo dia (se você acredita que foi coincidência, você acredita em tudo), o Twitter lançou mais uma versão do seu Periscope, que faz exatamente mesma coisa, só que por lá e é aberto para todo mundo.

Assim, agora os coleguinhas poderão carregar sua própria emissora no bolso – ok, não é “broadcast”, mas já vai dar para alcançar uma audiência global de 1,5 bilhão – cerca de 70 milhões no Brasil (Facebook) – ou 300 milhões (twitter mundo, no Brasil, a rede não diz quantos usuários tem). Vamos combinar que não é nada mau.

2. Apple TV: Como tudo que é ruim sempre pode piorar, como dizia Vó Sinhá, piorou para a TV linear. No evento anual da empresa de Cupertino, como sempre todas as atenções estavam voltadas para as novidades dos iphones e, dessa forma, as mudanças na Apple TV não foram muito comentadas. Uma delas, no entanto, pode detonar de vez a TV linear se for seguida: a “appização” da nossa relação com o conteúdo de vídeo (é a terceira da lista) – e, na boa, por que esse modelo não se tornaria dominante? Como lembra o texto, está funcionando com a música (há dois meses, me disseram que seria legal pagar R$ 15,00/mês para ter acesso à versão premium de um app de “streaming” de música. Achei absurdo – porque eu iria querer um negócio desses se já tinha 5 mil (mesmo) músicas ao alcance das mãos? Pois este texto está sendo escrito ao som de música provida pelo Spotify ).

“E os caras da TV linear estão olhando tudo isso parados, sem reação, que nem jacaré na frente da lanterna?”, perguntará você. Bem, mais ou menos. Lá fora, o debate sobre o fim dos intermediários na relação consumidor-produtor de conteúdo (é disso de que estamos falando agora) começou (e aqui, um comentário sobre o ponto 2 acima). Já aqui, no Bananão, não tenho certeza. Pela experiência que temos com a mídia impressa, é muito provável que não. Mas essa dúvida, nós vamos tirar em breve, muito breve.

Ah, sim! O link para a apresentação do estudo do ConsumerLab que prometi.