2ª Seletiva do Prêmio Marcos de Castro de Bom Jornalismo na Internet

Outro dia, fui “acusado” por uma querida e antiga amiga de, com a velhice, ter me tornado um coração mole a ponto de criar um prêmio que reconhece as boas reportagens, o contraponto ao King of the Kings. Ela não deixa de ter razão. Confesso que, em, meio à desoladora paisagem do jornalismo do Sudão do Oeste – a um tempo, causa e consequência do escombro que se tornou o país -, fico tocado pelos bravos e bravas, jovens e veteranos, que tentam manter vida a chama da profissão. Para prestar um modestíssimo reconhecimento que criei a o Prêmio Marcos de Castro, que chega a sua segunda seletiva.

A rodada de número dois do PMC conta com 13 concorrentes, que disputarão vaga na finalíssima, marcada para janeiro de 2018. Antes de apresentar as disputantes, vamos às regras:

1. Você pode votar em até sete (7) concorrentes.

2. Das seis não classificadas, quatro (as classificadas entre o 8º e o 11º lugares) voltarão na terceira seletiva.

3. A votação termina no dia 30 de julho.

Agora, às concorrentes, nas quais espero que você vote com tanto gosto quanto nas más reportagens do King of the Kings.

Luis Nassif entrevista Aldo Arantes sobre Reforma Política (Jornal GGN)

Projeto de lei usa dado errado para defender punição a denúncia infundada de estupro (AosFatos)

Alunos elegem “vadia da semana” e fazem bullying via whatzap (AzMina)

PM de SP assassina menor e revolta família (Ponte)

Dívida ativa de empresas atinge bilhões (Volt)

Mato Grosso, a terra da chacina no campo (Nexo)

As estranhas condenações dos “terroristas” brasileiros (Agência Pública)

• Mulheres avançam lentamente no comando das corporações (Gênero&Número)

• “Malta files”: 148 brasileiros têm contas no paraíso fiscal do Mediterrâneo (Agência Sportlight)

O capitão comunista da PM (Socialista Morena)

Banalizada, senzala vira nome de restaurantes e casas de show (Colabora)

Censo de 1872: o retrato do Brasil da escravidão (Nexo)

É fácil fugir dos impostos no Brasil: basta fundar uma igreja igreja. (Nacionais.net)

E aí, ICIJ?

O Brasil tem cinco jornalistas integrando o ICIJ (International Consortium of Investigative Journalists) – o nome deles aqui – aquele grupo de jornalistas investigativos que publicou a lista dos miliardários que usavam (usam?) o HSBC para desviar dinheiro para a Suíça a fim de livrar-se de impostos – nos casos bons, porque tinha muito corrupto e bandido no rol – em matérias que você pode ler aqui.

Perguntas bestas: os coleguinhas brasileiros têm acesso à lista dos patrícios malandros? Em caso positivo, pretendem publicá-la? Quando? Se não pretendem, por quê? Se não têm a lista, por quê ? São jornalistas investigativos de Segunda Divisão?

Enquanto esperamos as respostas, que tal passar o tempo lendo a matéria do Opera Mundi com Gabriel Zucman, colaborador de Thomas Piketty, e especialista em evasão fiscal? Ele calcula que, a cada ano, cerca de U$ 200 bilhões são desviados para paraísos fiscais. E, como as respostas dos coleguinhas talvez demorem muito, também pode dar tempo de ler as explicações de Peter Oborne sobre os motivos que o levaram a demissão de um belo cargo no Telegraph, cuja cobertura do caso foi influenciada pelo HSBC, um grande anunciante do jornal (a tradução é meio caída, mas ainda assim vale a leitura).

King of the Kings-2015: primeira seletiva

Como tinha avisado aqui, este ano, dado o aumento do jorro de cascatas, as concorrentes do King of the Kings passarão por seletivas para que sejam escolhidas as que irão para a escolha das campeãs no fim do ano. No entanto, esperava que as seletivas ocorressem a cada dois ou três meses. Só que não. Em janeiro, nada menos do que cinco cascatas de bom calibre foram atiradas às fuças dos leitores/telespectadores/ouvintes pelos coleguinhas.

Assim, aqui vão as primeiras concorrentes ao KofK-2015 – você pode votar em três, que serão levadas para a coluna da direita para disputarem o título de maior cascata do ano.  Você também pode sugerir (e votar) em uma outra que ache que mereça estar na lista. Como é uma seletiva, o tempo de votação é menor – semana que vem sai o resultado. Assim, não perca tempo! Vote logo!

1. Petrobras cria empresa de fachada para construir gasodutos (Globo)

2. Lula está com metástase (UOL)

3. Lula forçou Petrobras a patrocinar escolas de samba do Rio (Valor)

4.Sabesp já tem plano para racionar água em São Paulo (Folha)

5. Corrupção desviou R$ 88 bilhões da Petrobras (Folha)

A cédula virtual segue abaixo.

Organizando as coisas

Como o Facebook não lançou ainda o Paper no Brasil – e o Flipboard, vamos encarar os fatos, ninguém leva muito a sério, infelizmente -, vou tentar dar uma organizada na bagunça que se tornaram as encarnações da Coleguinhas aqui no WP e as duas no FB (incluindo meu perfil), de modo que quem me dá a honra de acompanhar as bobagens que escrevo tenha uma visão consolidada dos assuntos que mais têm sido abordados aqui e lá:

1. Série sobre Regulação da mídia

‘Regulamentar mídia pode ser bom para liberdade de expressão’, diz enviado da ONU 

Como funciona a regulação de mídia em outros países?

Como a mídia é regulada na Suécia

2. Série “O melhor do jornalismo brasileiro é feito na Europa”

Entrevista com Jose “Pepe” Mujica

‘Maior desafio é combater preconceito contra o pobre’, diz ministra do Bolsa Família

Por que o ‘New York Times’ quer fim do embargo a Cuba?

“É incrível o que Cuba pode fazer”, diz OMS sobre ajuda contra ebola

Fortuna de super-ricos é ‘incontrolável’, diz pesquisador

Série da BBC sobre o Brasil é reconhecida em premiação internacional

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/11/141106_soccer_cities_aib_rp

‘Brasil precisa taxar ricos para investir no ensino público’, diz Piketty

3. Série “Matérias que você não vê nos veículos de comunicação brasileiros”

Número de negros em universidades brasileiras cresceu 230% na última década; veja outros dados

Brasil aumenta em 29% o número de pessoas tratadas pelo SUS com medicamentos para aids

Brasil e mais 12 países são reconhecidos pela FAO por combate à fome

“Porque eu sou negro”

4. Série do Diário do Centro do Mundo sobre a sonegação da Rede Globo (crowdfunding de que participo):

Como o processo de sonegação da Globo sumiu da Receita e sobreviveu no submundo do crime

EXCLUSIVO: a história da funcionária da Receita que sumiu com o processo de sonegação da Globo

5. Série sobre Jornalismo e Telecomunicações

Radiodifusores x Governo: a hora da volta

Telecomunicações e o jornalismo que bate à porta

 “Ó meu Deus, mais telecomunicações?!”

6. Série “De volta a 64”

Nova direita surgiu após junho, diz filósofo

Brasil vive ressaca eleitoral e não polarização política, avaliam especialistas

7. Série “A vida cruel das redações”

Folha demite Eliane Cantanhêde

Carta enviada por jornalistas do UOL à direção do portal UOL

 

Balancinho da Copa

Agora que acabou, é hora de um balancinho da Copa:

Governo: A patuscada da Seleção deu uma murchada, mas, diante da tunda alemã que os veículos de comunicação anunciaram por anos, até pode ser considerado vencedor por uns 4 a 1. Os aeroportos funcionaram, as cidades não entraram em colapso por falta de transporte, as telecomunicações bateram um bolão, não rolou apagão e as manifestações só apareceram aos 40 do segundo tempo e sem grande força. Houve as vaias a Dilmão, mas isso, como diz a própria, “são ossos do ofício” – sem contar que presidente do Brasil que for aplaudido por gente que paga R$ 1.500 para ir a um evento esportivo deve estar fazendo algo errado.

Veículos de comunicação: Pareceram a Seleção contra a Alemanha – tomaram 5 a 0 com 30 minutos e ficaram desnorteados. No início do segundo tempo, ainda tentaram uma reação (procurando empurrar aquela queda do viaduto para cima do governo federal, mesmo sendo a obra tocada por governos tucano e pessebista), desistiram de vez e caíram numa depressão mal-humorada, que se reflete agora na tentativa de dizer que a Copa não trouxe ganhos definitivos para país e que o massacre alemão vai eleger Aécio ou Dudu Campos. O melhor exemplo dessa linha é o Valor, que hoje é  a matriz do pensamento de direita mais sofisticado (Folha, Globo e Estado só mantêm o tom, de modo mais grosseiro).

Crônica esportiva: Papelão do nível da seleção de Camarões. Até os 20 minutos do jogo de 8 de julho, Felipão era o cara que nasceu para ser técnico da seleção, mesmo sendo seus resultados nos últimos oito anos o encaminhamento do rebaixamento do Palmeiras, um título no Uzbesquistão e a demissão do Chelsea, após apenas seis meses de trabalho. Não houve questionamentos sobre convocações como a de Hulk, Fred e Jô, muito menos sobre a condução tática da equipe. Nem quando Felipão chamou uns jornalistas mais amigos para um bate-papo “privé” ouviram-se protestos. Depois do desastre desenhado, porém, a chave foi virada de vez e tudo isso veio à tona, com críticas ácidas por parte de dezenas de “engenheiros de obra pronta” (neste quesito, motorrádio de pior em campo para o Edinho, que falou mal do goleiraço Ochoa por não ter pego um pênalti batido pelo Huntelaar como ensinado pelos melhores manuais do bom batedor).

Movimentos sociais: Jogaram como a Argentina na final: à espera de um erro do adversário para ver se marcavam. Ao contrário da Alemanha, que deu uns moles, o governo não vacilou na marcação e ganhou de zero.

Oposição: Sem discurso, sumiu. Perdeu por W.O.

Força crescente

A Megabrasil  divulgou pesquisa do Instituto Corda com números sobre o mercado de assessoria de comunicação no Brasil. O ranking das maiores vai abaixo:

 Ranking das assessorias

Apesar de certa fraqueza no universo amostral – só 81 das 225 consultadas (entre as estimadas 600 no país) forneceram o faturamento bruto -, ainda assim dá para fazer algumas observações:

A.  É grande a força da FSB, cujo faturamento bruto é praticamente a soma das segunda e terceira colocadas (CDN e InPress, respectivamente).

B.  Em conjunto, as três primeiras colocadas faturaram 89,68% mais do que a soma das sete outras ranqueadas.

C.  Fora das empresas que aparecem no ranking – e de outras grandes e médias -, que vão bem, obrigado, houve estagnação no setor em geral, já que as pequenas não cresceram o que vinham crescendo, depois de anos de avanço astronômico em todas as faixas (mais aqui ).

D.  A soma dos itens A e B deverá levar a um movimento típico do capitalismo – a concentração, com as grandes abocanhando as médias e estas açambarcando as pequenas.

E.  Essa concentração tenderá a reduzir os postos de trabalho, como também é da norma capitalista.

F. A redução dos postos de trabalho fará com que a concorrência por eles aumente, exigindo maior qualificação profissional dos candidatos.

G. Não está claro, pelo menos para mim, se o item F fará com que aumente ou diminua uma tendência que detecto há anos – a crescente intenção dos formandos nas faculdades de comunicação irem direto para as assessorias sem passar pelas redações.

H. Se essa tendência se mantiver, poderá crescer uma outra – o abismo de capacitação técnica e, principalmente, cultural e intelectual, entre os jornalistas que trabalham em assessoria e em redação, em favor dos primeiros. Esse fator é, como bem disse o Alto Conselheiro que alertou para o ranking, “uma tragédia”, pois faz cair a qualidade do jornalismo praticado nas redações – que deveria servir ao público, pelo menos em teoria – ao mesmo tempo que aumenta a capacidade do jornalismo privado de influir na sociedade.

I. Uma Alta Conselheira muito mais inteligente do que eu, e que também teve acesso ao ranking, anotou um outro ponto muito interessante, que é o combustível do processo acima: a elevada relação faturamento bruto/número de funcionários no segmento. Essa abordagem muda o ranking:

1.Insight: R$ 313,8 mil/funcionário.
2.FSB: R$ 283,4 mil/funcionário.
3.Grupo Máquina: 257,2 mil/funcionário.
4.CDN: R$ 210 mil/funcionário.
5.InPress: 192,1 mil/funcionário.
6.Edelman: R$ 182 mil/funcionário.
7.Jeffrey Group: R$ 176 l mil/funcionário.
8.MSL: R$ 150 mil/funcionário.
9.Comunicação +: R$ 137 mil/funcionário.
10.RMA: R$ 111,2 mil/funcionário.

Observe-se que essa significativa relação se baseia, num elevado número de vezes, na burla à legislação trabalhista, já que é quase norma no segmento que os profissionais tenham seus contratos de assinados como pessoa jurídica. A prática reduz os gastos do patronato e aumenta a já natural mais-valia, permitindo, assim, às assessorias de comunicação acelerarem o item H, não só obtendo os jornalistas mais capacitados quando se formam como recuperando-os, caso eles tenham ido parar em redações.

A marcha (batida) da insensatez

A insensatez brasileira fica exposta a uma luz intensa se apenas passamos dez dias fora do Bananão. Após esse curto período – no qual fiz questão de ficar alheio ao que acontecia aqui, o que não foi difícil já que somos completamente ignorados pela mídia gringa se não houver alguma boa má notícia sobre o país – , fui recepcionado por uma senhora, digna representante de espécimes que habitam a Gávea (a vi pedindo um táxi para esse aprazível bairro). Enquanto esperava o registro do pagamento de duas caixas de uísque e outras compras que fizera no free shop, via as cenas de vandalismo no Leblon, ocorridas semana passada. “Se o Cabral tivesse um mínimo de honra, iria embora. O povo não quer mais ele”, comentou com outra consumidora, do mesmo tipo, que concordou.

Senhoras como essa confundirem democracia com a lei do mais forte – de quem grita mais alto e mais perto das câmeras de TV ou de quem tem as armas mais letais, o passo seguinte – é desagradável, mas não chega a ser surpresa. É muito provável que a avó dela estivesse em alguma Marcha Com Deus pela Liberdade há quase 40 anos. Comecei a coçar a careca, preocupado, depois, quando li dois colegas que respeito e gosto resvalarem na maluquice que parece ter tomado conta da cabeça de muitos nos últimos tempos, especialmente no Facebook:

1. Um colega reclamou das críticas dirigidas à imprensa sobre o desequilíbrio da cobertura entre o tumulto do Leblon e do massacre da Maré, acontecido dias antes. Os críticos dizem que o escândalo feito pelos coleguinhas foi maior no primeiro caso, quando houve depredações e feridos, mas não mortos como no caso da Maré, e que a diferença de tratamento se deveu à diferença das médias das contas bancárias entre os habitantes dos dois bairros. O coleguinha disse que não houvera diferença alguma no tratamento, apenas que havia mais imagens do primeiro caso do que no segundo e, por isso, por um critério jornalístico de escolha de imagens, pareceu que houve um desequilíbrio.

Francamente, não costumo comentar assuntos sérios no FB. Acho tremenda perda de tempo (quem quer discutir algo seriamente não tem como fazê-lo via FB ou twitter), mas dessa vez tive que obtemperar – é um coleguinha com nível tal que podemos obtemperar com ele – em respeito ao escriba. Senti-me obrigado a lembrá-lo de que o caso Leblon x Maré não foi o primeiro – e, tudo indica, não será o último – em que há mais imagens do que acontece no lado rico do Rio do que no lado pobre – quando há imagens do lado pobre. É essa a diferença fundamental que está sendo questionada pelos críticos. Tirando a honrosa exceção de O Dia – que faz um jornalismo regional digno –, para os demais órgãos de comunicação, o Rio termina sob a ponte da linha férrea que dá acesso à estação da Leopoldina.

Deve ter sido um bom argumento, pois o coleguinha, que não costuma fugir a um debate, dessa vez, mesmo sendo mencionado no comentário, não redarguiu (ele tem nível para redarguir).

2. O segundo comentário que me preocupou foi sobre a visita do Papa Francisco ao Rio. Outro coleguinha queixou-se que a vinda do Papa mudou a vida dos cariocas por incompetência do governador e do prefeito. Que ambos são incompetentes, nenhuma dúvida, só que a visita do Vigário de Roma a qualquer cidade do mundo modifica a rotina dos cidadãos que nela vivem. Quando essa visita é motivada por uma Jornada Mundial da Juventude, então o caos é praticamente inevitável. Estive em Madri ano passado e os madrilenhos ainda suspiravam, com um misto de saudade e irritação, em relação aos mais de um milhão de jovens peregrinos que tomaram a cidade de assalto um ano antes. E olha que a capital espanhola é uma cidade europeia, o que quer dizer organização, e não estava em obras para uma Copa do Mundo no ano seguinte e os Jogos Olímpicos três anos depois (estão todos doidos para pegar um desses megaeventos nos próximos anos pelo que eles significam em termos de grana para a cidade).

Minha preocupação vem do fato de que um jornalista normalmente comedido tenha se deixado afogar pelo tsunami de resmungos e chororôs que tomou conta das redes sociais nos últimos tempos. Ele deixou de lado as confiáveis boias da informação precisa e do discernimento num assunto tão simples que apenas o bom-senso teria evitado que ele escrevesse uma bobagem claramente ditada pela paixão politica e não pelos fatos, algo pernicioso para todos e fatal para jornalistas profissionais.