O Estadão e suas escolhas

Fernão Lara Mesquita já não tinha dúvida alguma em 22 de outubro de 2014

Vamos lá: quando se fala no Estadão e Ditadura Militar de 1964, o que lhe vem à mente? Aposto que são as receitas de bolo e as poesias de Camões no lugar das matérias censuradas, certo? E isso aconteceu mesmo. No entanto, outro fato não é lá muito mencionado: o de que o Estadão apoiou incondicionalmente, de maneira aberta e entusiástica, o golpe militar. De tal entusiasmado que um fato bem menos conhecido ainda ocorreu logo depois do golpe. Segundo o insuspeito Elio Gaspari, o inspirador do Ato Institucional Nº 1, e que era para ser o único, foi, nada mais, nada menos, do que o dono do Estadão, Júlio de Mesquita Filho. Em sua sugestão, acolhida pelos milicos, o Congresso e as assembleias legislativas seriam fechados, os governadores, cassados, e o habeas corpus, suspenso.

Pouco depois, porém, os Mesquita romperam com os militares. O motivo é que os donos do Estadão tolamente acreditaram que os milicos iriam apenas fazer o trabalho sujo de eliminar os esquerdistas do cenário político, fosse de que forma fosse, e, em dois anos, convocariam eleições gerais nas quais apenas concorreriam representantes das classes dominantes. Só que os fardados jamais tiveram intenção de largar o osso, como bem o sabia Roberto Marinho e outros mais sagazes do que o Dr. Julinho, cuja intenção era eleger Lacerda – foi inclusive a cassação deste que provocou o rompimento definitivo com os novos donos do poder, num processo que levou à explosão da bomba em 20 de abril de 1968 e às receitas e poemas.

O mais interessante é que esta não foi a primeira vez em que os Mesquita apoiavam a ascensão de grupos que pariram ditadores, o que levou ao rompimento deste apoio. Acontecera o mesmo com Vargas. Claro, você vai lembrar que os Mesquita apoiaram a chamada Revolução Constitucionalista em 32, mas o que não é contado é que, pouco depois de 1930, o Estadão passou a dar força ao Governo Provisório, por este ter aceitado intervir na economia e ajudar os cafeicultores paulistas queimando café (sim, o liberalismo dos Mesquita é muito flexível também em termos econômicos). E já em 1935, menos de três anos após Revolução de 32, o Estadão estava de volta aos braços de Vargas, defendendo a Lei de Segurança Nacional. “Doutor Julinho” a achou branda demais e, por isso, apoiou o golpe do Estado Novo, em 37, para, três anos depois, romper com Vargas e perder o jornal, o qual recuperaria em 1945.

Você já deve ter notado que o editorial que colocava no mesmo patamar Fernando Haddad e um defensor explícito da ditadura, não foi um erro de avaliação -afinal, ela foi a mesma realizada por duas vezes, em 1937 e 1964. Apoiar ditaduras e depois romper com ela em nome de um suposto liberalismo não foi um acidente que ocorreu em 2018. É um padrão para os Mesquita. É por isso que a solidariedade aos profissionais do Estadão agredidos pelos bandidos bolsonaristas não pode se estender ao jornal, aos seus donos e aos jornalistas, como Vera Magalhães, que são seus porta-vozes. Para eles, a escolha nunca será realmente difícil.

P.S.: Para aprofundar-se no tema da relações dos jornais paulistas com a ditadura de 1964 – e, no caso do Estadão, das anteriores – um bom início é por aqui.

Valeu, Argeu!

Muito tricolor

Lutero Soares, editor de Nacional e Política do Globo, resolveu dar cargo de redator ao rapaz de 26 anos, em substituição ao mais respeitado redator da imprensa do Rio, Marcos de Castro. Sabia que estava fazendo besteira, mas não aguentava mais a pressão que Luiz Mário Gazzaneo, João Rath e Cristina Konder faziam para contratar o simpático e esforçado, conquanto pouco talentoso, jovem morador da Ilha do Governador.

Para disfarçar e não perder a fama de durão, o gaúcho resolveu interrogar o cara.

– Em que escolas vocês estudou?

– UFF, ENCE, do IBGE, Pedro II…

– Quais foram seus professores de Português no Pedro II?

– Ah, Osmar Pereira Leite, Magacho, Serafim…

– Serafim Silva?

– É

Virando-se em direção ao aquário que ficava atrás da editoria, o Cabeça de Lata (tinha uma placa de alumínio na tempora esquerda) gritou:

– Argeu! Ele estudou com o Serafim!

Argeu Afonso, que fazia a coluna “Há 50 anos no Globo”, coordenava o Estandarte de Ouro e habitava o aquário, botou a cabeça do lado de fora:

– Deve ter aprendido nem que tenha sido por osmose, respondeu e voltou para o aquário.

Não acabou.

Após 15 dias, durante os quais Marcos de Castro tentou inutilmente me ensinar a escrever pelo menos direito, comecei oficialmente no cargo. Nem meia hora depois de instalado, Argeu encostou na mesa de Maria Helena Pereira, que ficava na minha frente.

– Não quero te pressionar, não, mas você é o mais redator mais novo da história do Globo.

Dito isto, passou por mim e se dirigiu à cantina. Até hoje juro que estava sorrindo.

Vai em paz, nobre tricolor!

A CNN e o Brasil

Guerra de videogame

O pessoal que lamenta a saída da Gabriela Prioli da CNN Brasil por algo além da diversão que ela proporcionava ao demolir bolsonarista ao vivo está negligenciado um fato relativamente conhecido há mais ou menos uma década: a CNN, em suas versões internacionais, são um braço do Departamento de Estado. Para entender essa verdade, há que se voltar 30 anos, para a I Guerra do Golfo.

Quem viveu e lembra daquela guerra, há de recordar da atuação de Peter Arnett nas primeiras horas de combate em Bagdad. Entrincheirado num hotel, ele – junto com Bernard Shaw e John Holliman – transmitiu ao vivo a invasão, ao som de bombas e sirenes, fazendo um contraponto surreal com o “videogame” dos ataques noturnos. O impacto dessa cobertura na opinião pública (e o passado de Arnett na cobertura da Guerra do Vietnã, que lhe deu um Pulitzer) fez com que o “establishment” militar tomasse a decisão de só permitir jornalistas na linha de frente da II Guerra do Golfo se fosse acompanhando as tropas (o que fez com que os jornalistas mais cínicos chamassem a cobertura de “Operação Focinheira no Deserto”, trocadilho com “Operação Tempestade no Deserto”, da I Guerra do Golfo).

Esse momento mudou de vez a CNN, que, de uma empresa jornalística mais ou menos no padrão norte-americano (tinha acordos com o “establishment”, mas, em geral, ditava as regras em cada caso), tornou-se um braço do Departamento de Estado, no que se refere à cobertura no exterior. Pelo acordo, a CNN continua operando normalmente (como acima) em território dos EUA e de aliados confiáveis da Europa, da Oceania e no Japão, mas se compromete a atuar em conjunto com o DoS em lugares como o Oriente Médio, o Sudeste da Ásia e América Latina. Esse acordo – obviamente informal – pôde ser visto claramente nas recentes coberturas do golpe na Bolívia e nos conflitos no Chile, quando ela foi totalmente parcial em favor dos interesses norte-americanos (na cobertura da Venezuela, então, nem precisa falar). O acordo acabou, em reação, ensejando a criação de redes regionais para combatê-la, como a Al-Jazeera, no Dubai, e a Telesur, por aqui, mas isso é outra história.

É dentro deste quadro que se insere a criação e operação da CNN Brasil. Para Atlanta (sede da CNN), pouco interessa que os sócios do empreendimento sejam Douglas Tavolaro, sobrinho e biógrafo de Edir Macedo, e Rubens Menin, dono da MRV Engenharia, patrocinador do filme-exaltação de Edir, baseado no livro de Tavolaro. O importante é que eles atuarão conforme os interesses do DoS, não atrapalhando o acordo. Afinal, o pequenino mercado de TV fechada all-news do Brasil é uma gota no oceano do total global. Queimar a marca aqui não tem a menor importância.

Esses fatos e análises são relativamente conhecidos de quem atua e estuda jornalismo no Brasil e duvido muito de que fossem desconhecidos de Gabriela Prioli, quando ela aceitou o convite da CNN. O motivo de tê-lo feito só ela pode responder.

O jornalismo brasileiro não é mais o que era (e não voltará a ser) – III

O presidente desta triste República disse que os jornalistas são uma raça em extinção. Que ele diga isso, expressando sua conhecida alma tirânica, não chega a surpreender. Também não me causou comoção os comentários a respeito dos dois posts anteriores (aqui e aqui), a maior parte de leigos em jornalismo, que não compreendem suas especificidades, objetivos e limites. Para estes, o jornalismo – e, por conseguinte, os jornalistas – já acabaram no país, se é que um dia existiram. Desagradável mesmo foi ver jornalistas profissionais, até acadêmicos, achando a mesma coisa, tomando por base apenas as posições das empresas jornalísticas – cujas motivações foram o objeto dos posts citados – e as ações do próprio indigitado presidente, que se diverte em xingar os profissionais que o abordam na porta do Palácio do Planalto.

Todos esses – presidente protofascista, leigos que acham que entendem de jornalismo e colegas e acadêmicos que entendem, mas estão tendo ataques de amnésia – confundem, por querer ou não, jornalismo com aquilo que é praticado desde sempre por aqui por empresas jornalísticas. Só que uma coisa não tem necessariamente a ver com a outra no sentido positivo, de reforço. Pelo contrário, se formos olhar a história dos veículos de comunicação no país, a relação, quando há, é mais no sentido negativo – de impedimento – do que positivo, do ponto de vista da sociedade.

Pois esse é o ponto. Jornalismo é bom quando é feito em benefício da sociedade, na defesa dos que são mais fracos e vulneráveis, e, necessariamente, contra o poder Lembra da frase do Millôr? “Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. Pois é. E, partindo desse ponto de vista, o jornalismo no Brasil está vivo e chutando.

Duvida? Então, por clique aqui e veja uma lista de 58 veículos feitos por jornalistas brasileiros independentes que praticam a profissão segundo a premissa acima – há ainda a versão em português de oito veículos internacionais de diversas vertentes (e aqui tem outra lista, mais antiga). Há de quase tudo – dos que abordam infraestrutura até promoção da cultura da paz, passando por jornalismo de dados, política e justiça. Pode-se até não gostar da linha de um ou outro, mas é bem difícil arranjar argumentos sólidos para discordar de que eles não trabalham visando uma sociedade brasileira mais justa.

“O jornalismo pátrio, então, está forte e pujante?”, perguntará você. Bem, eu não disse isso.
Não disse isso por que, para ser forte e pujante, o jornalismo, como qualquer atividade no capitalismo, precisa ser seguro financeiramente, o que está longe de ser verdade para aqueles 58 veículos independentes acima e, por consequência, para os profissionais que nele trabalham. Chegar ao fim do mês, pagar as contas da empresa e ainda sobrar para os produtores das matérias pagarem as despesas com supermercado, aluguel, escola das crianças e demais boletos é um desafio permanente. Vulneráveis estão também, mesmo em escala menor, é bom que se diga, os jornalistas de veículos grandes, como mostram os dados da Conta dos Passaralhos, do VoltData, mesmo que os dados estejam defasados desde agosto de 2018 (e houve centenas de demissões de lá para cá).

Como o jornalismo independente pode tornar-se autossustentável financeiramente? Pois essa é a pergunta de 1 milhão de dólares. Não tenho respostas (se tivesse teria o milhão de verdinhas, ora!), mas há algumas ideias básicas que podem ser seguidas, ao mesmo tempo, pois não são mutuamente excludentes:

  1. Financiamento coletivo: O famoso “crowdfunding” é muito usado para apoio de projetos específicos ou para manutenção mesmo. Há possibilidade de aportes anuais ou mensais, via assinatura por meio de plataformas como Apoia.se, Benfeitoria, Catarse, Kickante, Vaquinha ou sistemas próprios…O problema é que há projetos muito bons e nós, ao apoiadores, ficamos perdidos na hora de dar aquela força (eu, por exemplo, estou há tempos para fazer uma planilha a fim de saber certinho quem estou apoiando, com quanto e em que periodicidade). Esse fracionamento faz com que a arrecadação regular não seja a desejável, mesmo na forma de assinatura, que tem sido a preferida dos sites.
  2. Dividir as contas: Outro caminho para a sustentabilidade é dividir espaços e contas para que esses custos fixos se diluam e fiquem mais leves para todos. Um espaço de coworking para veículos e jornalistas independentes me parece uma boa ideia, até para melhorar o trabalho em parceria em pautas que unam habilidades de vários jornalistas, viabilizando mais e melhores pautas.
  3. Agregar de notícias (e valor): Se seria bom dividir espaço físico por que não um agregador de notícias, aqueles apps que funcionam como revistas ou jornais personalizados, como Flipboard, Anews, Feedly (o meu), Google News e outros? Estar em alguns deles também é uma boa opção, mas seria ainda melhor se fosse criado uma apenas para mídia alternativa, não?
  4. Administração: Levar sério a administração devia até ser o item 1. Ter um bom profissional de finanças e planejamento é fundamental para que o veículo seja autossustentável. No caso de haver o tal coworking, esse seria gerido por uma pessoa à parte ou por um conselho formado pelos administradores dos veículos participantes.

Como escrevi acima, essas são as ideias básicas, apenas pontos de partida para a estruturação de um jornalismo independente mais estruturado no país. Essa diretriz é fundamental se ainda quisermos que o jornalismo, e seus profissionais, contribuam para a manutenção da democracia no Brasil, transformando-o num país mais justo.

Sobe e desce: mídia no Brasil, 2007-2017

Este é um pequeno estudo sobre a variação do número de empresas ligadas à informação, com 20 ou mais pessoas ocupadas, nos últimos 11 anos e é fruto de minha primeira exploração do manancial de dados do Sistema IBGE de Recuperação Automática (Sidra). Engloba rádios, TVs (aberta e fechada), agências de notícias, editoras de livros, jornais e revistas – neste último caso, a lista estatística do IBGE não faz uma desagregação, apesar da lista da Classificação Nacional de Análises Econômicas (CNAE) do próprio IBGE fazer essa diferenciação no Grupo 58.1, da Divisão 58, da Seção J (Informação e Comunicação).

Os gráficos e a tabela, montados com base nas tabelas da Pesquisa Anual de Serviços, são estes e as observações vão embaixo.

  1. Os “anos incríveis” para a mídia brasileira foram de 2012 a 2014, com o pico em 2013, quando o número de empresas que empregavam 20 ou mais pessoas chegou a 1.100, um aumento de 31,9% em relação a 2007.
  2. Neste subperíodo, o maior salto percentual aconteceu entre agências de notícias/outros – o que engloba os sites: 74 para 124, um salto de 67,6% desde 2011, subperíodo em que a participação do setor subiu de 7% para 12% do total.
  3. Em termos absolutos, o rádio teve o maior crescimento, com 35 empresas abertas até 2013, mas sua participação oscilou 1 ponto percentual para baixo no subperíodo.
  4. A queda do número de empresas de rádio, porém, foi abrupto. Se em 2013, contavam-se 507, um ano depois não passavam de 461, menos 9,1%, o que fez a participação do setor no total cair 3 p.p. No final do período inteiro, a queda foi de 11 p.p. (50%, em 2007, para 39%, onze anos depois).
  5. Em termos de participação no total, o desempenho das editoras, no subperíodo 2007-2014, foi significativo, saindo 15%, em 2007, para 21%, em 2014, permanecendo no patamar até 2017.
  6. Também observando-se o período inteiro (2007-2017), houve um crescimento geral de 11,7%, (834 para 932), com destaque para agências de notícias e outros, que mais do que dobraram seu número – 53 para 126, 137,7% a mais, o que aumentou a participação do setor no total em 8 p.p. (de 6% para 14%).
  7. O número de editoras – que, como vimos, engloba livros, jornais e revistas – também teve crescimento significativo no período (54,8%), com a elevação na participação total de 6 p.p.
  8. O meio TV apresentou comportamentos diferentes. Enquanto a TV por Assinatura mantinha participação constante de 2%, com o aumento de apenas 5 empresas no período todo, a TV Aberta caiu 6 p.p. no subperíodo 2007-2013 – de 27% para 21% -, recuperando-se gradativamente até atingir 24%, em 2017, retornando ao patamar de 2008.
  9. A provável causa para o crescimento do total de empresas no subperíodo 2007-2014 foi a Copa do Mundo. O indicativo mais forte da correção dessa hipótese é que o processo se inicia em 2008, um ano após o país ter sido escolhido pela Fifa (30/10/2007).
  10. O primeiro setor a reagir foi o de publicações impressas, cuja participação subiu 4 p.p. (15% para 19%) entre 2007 e 2009, tendo elevação incremental a partir daí, até atingir 21%, em 2016 e 2017.
  11. Agências de notícias/outros demoraram mais para avançar no mesmo ritmo, só o fazendo de 2011/2015, passando de 7% de participação para 12%. Este crescimento deveu-se, fundamentalmente à ampliação do acesso à internet, ocorrido no período, como mostra esta tabela.
  12. A redução de 28,8% no número de rádios no país, acabou por ser a maior responsável pela queda de 15,3% no total de empresas de mídia, do pico de 2013 até 2017, mas não foi a única. Todos os setores apresentaram redução, causada, muito provavelmente, pela crise econômica.

O jornalismo brasileiro não é mais o que era (e não voltará a ser) – II

Seu Jair da casa 58 e o jornal que ele ama odiar

Quando Jair Bolsonaro afirmou que mandara cancelar as assinaturas da Folha de São Paulo pelos órgãos da Administração federal (voltou atrás logo), houve duas reações básicas por parte dos jornalistas: um grupo indignou-se com a ameaça à liberdade de imprensa, outro disse “bem-feito” lembrando que a Folha faz questão de igualar Bolsonaro a Lula, chegando mesmo a não reconhecer que o presidente do país é de extrema-direita, fato evidente e reconhecido em todo o mundo, exceto aqui.

Ambas as reações são fruto do mesmo erro cometido pelos que se escandalizaram com a comemoração uniformizada do editor de Esportes do Globo, Márvio dos Anjos, após o gol que deu o título da Libertadores da América ao Flamengo, que analisei semana passada : os coleguinhas não veem – por não conseguirem ou não quererem – que o jornalismo praticado nas chamadas grandes redações não é mais um serviço de interesse público, como se praticava – ao menos se tentava – em outro tempo no país.

O caso da Folha é bem mais complexo do que o do Grupo Globo. Este, bem ou mal, ainda é um conglomerado de mídia puro, algo que o Grupo Folha não é desde 2006 quando criou o PagSeguro. O fato de ter entrado no mercado financeiro por meio de um sistema de pagamentos fez com que as relações entre o jornal que conhecemos e a sua fonte de financiamento mais importante se tornassem bem mais distantes do que as tradicionais publicidade e assinaturas. Hoje, a Folha precisa ser mantida pelo braço financeiro dos Frias e esse fato deixou o veículo ainda mais frágil do que seus concorrentes em muitos aspectos.

Essa fragilidade tornou-se pública no início deste ano, não por coincidência logo no início do governo Bolsonaro, com a disputa pelo controle do jornal que pôs de um lado Maria Cristina Frias e de outro seu irmão Luiz e a cunhada Fernanda Diamant, viúva de Otávio, o irmão mais velho, falecido em 2018. O pano de fundo da briga foi a exigência de Maria Cristina de que Luiz repassasse os dividendos a que o jornal teria direito por deter 33,23% das ações da Folhapar, empresa que controla o PagSeguro e o UOL. Os dividendos viriam das duas ofertas de ações realizadas pelo UOL, que renderam, no total algo em torno de US$ 1,7 bilhão (cerca de R$ 7 bilhões em cotação de hoje). Luiz se recusou e pôde fazer isso por ser o dono de 66,27% do capital da Folhapar.

Por que ele teria feito isso? O mercado especula que Luiz estaria determinado a tornar-se um banqueiro e a compra da carta-patente de um “tamborete” ( banco pequeno, no jargão do mercado), o BBN, seria mostra desse objetivo. No entanto, especula-se que ele quer mais, um banco maior, já com carteira de cliente. Para isso, teria que obter uma nova carta-patente, transação que precisaria ser aprovada pelo Banco Central.

Vejo o alvorecer do entendimento assomar aos seus olhos…

Pois é. Se há algo que Luiz Frias não quer neste momento é provocar a ira do patrão do cara que pode lhe permitir dar a grande tacada de sua vida. Daí ter tirado Maria Cristina do comando da redação da Folha – a história de ela ter caído por não querer cortes não faz sentido, já que um acordo poderia ser facilmente obtido, pois a briga pública não ajudaria ninguém – e ter permitido apenas uma campanha de marketing canhestra, falando em nome da democracia, e a um ou dois editoriais indignados, mesmo com o jornal sob ataque direto de Bolsonaro.

A Folha pode sair dessa? Pode, como diz essa matéria, que complementa a lincada dois parágrafos acima. Há rumores de que Maria Cristina estaria tentando reunir investidores dispostos a financiá-la na compra da parte de Luiz na Folha Participações (não confundir com a Folhapar), a controladora do jornal. Seria muito bom para ele, pois livraria de vez do encargo de monitorar de perto a redação para que, ao mesmo tempo que não provoque a ira do governo – deste e dos outros, pois o BC tem poderes para tornar a vida de um banco um inferno, no mínimo -, não perca de vez a credibilidade, o que levaria a mais prejuízos e à desvalorização do ativo. Resta saber quem estaria disposto a investir num veículo que teria o expresso ódio de um autoritário sempre candidato a ditador.

O jornalismo brasileiro não é mais o que era (e não voltará a ser) – I

Mengoooo!!!!

A demissão de Adalberto Neto, do Jornal de Bairros do Globo, por ter divulgado um vídeo que fez do editor de esportes do jornal, Márvio dos Anjos, correndo pela redação com a camisa do Flamengo, que depois tirou, comemorando o gol que deu o título da Libertadores da América ao rubro-negro, e a resposta tíbia da Folha ao ataque de Jair Bolsonaro, que mandou cancelar as assinaturas da Folha no âmbito do Executivo federal – no que voltou atrás rapidamente – e ameaçou os anunciantes do jornal, deixaram muitos jornalistas, principalmente da velha guarda, perplexos e zangados.

As reações dos colegas são explicáveis na medida em que partem de premissa não exatamente errada, mas, vamos dizer, fora do tempo, démodé (assim como a palavra démodé). Esses jornalistas ainda creem que a atividade profissional que hoje se exerce na chamada mídia corporativa (ou “mídia hegemônica”, ou “grande mídia”, ou “mídia mainstream”, ou algum outro termo que lhe agrade mais) é jornalismo como eles entendiam – e ainda é compreendida em outros lugares do mundo, que, no entanto, vem se reduzido drasticamente nos últimos anos. Esse entendimento é o de que o jornalismo é uma atividade de interesse público, no sentido de que tem por objetivo servir à sociedade em que os veículos e os profissionais estão inseridos.

Infelizmente não é mais assim (se é que um dia foi aqui no Brasil, mas isso é outra discussão). Os veículos de comunicação, hoje, fazem parte de imensos conglomerados de mídia, cujos interesses, em muitos casos, extrapolam esse setor, avançando por outros, até distantes do setor de origem. Vou usar os exemplos do primeiro parágrafo para tentar explicar essa questão e, temo, será uma explicação bem extensa e, por isso, dividirei em duas para que o texto não fique quilométrico

Vou começar com o “affair Márvio dos Anjos”.

Não seria justo O Globo desqualificar, e demitir, o seu editor de Esportes porque ele foi escolhido para o cargo exatamente por portar-se daquele jeito. A devoção de Márvio ao Flamengo é inversamente proporcional ao seu discernimento e acuidade intelectual, e essas características faziam parte do job description informal para o cargo.

Márvio está perfeitamente alinhado – como se diz no jargão corporativo – ao objetivo do Grupo Globo de transformar o Flamengo numa marca internacional, senão em nível mundial – embora esse seja o sonho dourado – pelo menos em nível de Américas. Essa intenção tem a ver com dois movimentos independentes, um corporativo, outro demográfico. O primeiro é a cada vez maior presença de plataformas de streaming que disputam a nossa atenção, um dos ativos mais valiosos do mundo digital, uma tendência que o Grupo Globo vem procurando seguir e que está na base também do projeto “Uma só Globo”, que está rodando há um ano. No momento, ele não abrange o Infoglobo, mas, dada a convergência digital, fatalmente o atingirá.

Um dos ativos mais significativos, ao lado da teledramaturgia e da produção cinematográfica, do Grupo Globo é exatamente o futebol. Ter um clube brasileiro entre os maiores do mundo é fundamental para o conglomerado, numa emulação do que foi, ironicamente, a política dos “campeões nacionais” do PT para o setor industrial. Não que a Globo acredite que o Flamengo, ou qualquer outro clube de um país da periferia do mundo (e cada mais afundado nela) possa competir, em termos financeiros ou de inserção na cadeia da indústria cultural global com Real, Barcelona, os grandes da Premier League, Bayern ou outro de países centrais, mas há espaço para conseguir um lugarzinho ao sol aproveitando o segundo movimento que mencionei no parágrafo anterior: a diáspora brasileira.

Aos poucos, mas seguramente, o Brasil tornou-se uma nação da qual se quer ir embora rapidamente se for possível e para a qual não se deseja voltar se der para evitar. As razões são mais do que evidentes, não precisam ser explicadas aqui. Essa diáspora, que só tende a aumentar nos próximos anos quanto mais o país se afundar na lama em que jogou em 2016, criou um mercado para o Grupo Globo. São os brasileiros que, com banzo da terrinha, se apegarão às boas recordações do que deixaram para trás e uma delas, claro, é o futebol.

Ter um clube brasileiro entre os mais conhecidos do mundo é a ponta de lança para que o produto futebol seja vendido a essa crescente comunidade de expatriados – e, em sua esteira, outros. Claro que seria melhor não haver apenas um clube e por isso, no plano original, a outra perna do projeto era o Corinthians. Infelizmente (para o Grupo Globo), o clube paulista apostou no cavalo errado no páreo político (o PT), enquanto o Flamengo comprou pules da extrema-direita e levou o prêmio. É da vida, jogo jogado. Além disso, o Timão bem pode ser substituído pelo Palmeiras, que também mantém excelentes relações com a extrema-direita desde os tempos do Integralismo (o verde do uniforme – usado depois que o azul, identificado com a Itália, durante os anos 20 e 30 passou a sê-lo com o Fascismo – está longe de ser acaso).

Esta é a maneira como o Grupo Globo pensa em se inserir nas cadeias de valor do capitalismo internacional e reflete a maneira como os Marinho vêm a própria inserção do país – não mais que um fornecedor de matéria-prima, que, se tudo der certo, se torna uma potência regional caudatária dos EUA e, em alguns casos, da União Europeia. Para levar esse projeto adiante, pessoas como Márvio dos Anjos, que pensam na mesma linha – ou não pensam de forma alguma – são necessárias. Tê-lo, um rubro-negro fanático, na editoria do principal jornal do Grupo, faz sentido, mesmo que exagere na sua adesão ao programa, correndo o risco de levantar a ponta dessa cortina, que deve ser mantida bem cerrada.

No próximo texto, veremos como o Grupo Folha vai pelo mesmo caminho, mas partindo de outro ponto, que leva a uma inserção ainda mais profunda nas correntes do capitalismo internacional.

A “economia da treta”

Tretar é um bom negócio

A “economia da atenção” (ainda sem esse nome) foi conceituada em 1971 pelo psicólogo Herbert Simon, cerca de dois anos depois da primeira mensagem ter sido enviada pela internet:


“A riqueza de informação cria pobreza de atenção, e com ela a necessidade de alocar a atenção de maneira eficiente em meio à abundância de fontes de informação disponíveis”.

De lá para cá, a atenção passou a ser um item cada vez mais valorizado, chegando à explosão com o advento das redes sociais, até por ser finito – mesmo que não durmamos (e há adolescentes que realmente não o fazem por um bom tempo até surtarem), o dia ainda terá 24 horas. Dessa forma, quem consegue chamar mais atenção – e mantê-la por mais tempo -, leva o prêmio, que, de uma forma ou de outra, termina sendo dinheiro. Isso vale para Netflix e para o Liverpool, ambos enfrentando o jogo Fortnite, febre entre os adolescentes, entre outros games.

De uma forma ou de outra porque nem sempre há uma associação direta. Na política, por exemplo. Veja o caso do bolsonarismo:

  1. Um da famílicia ou de seus ciborgues detona um absurdo;
  2. Outros da família e ciborgues e robôs jogam o absurdo nas redes;
  3. Os atingidos e/ou os sites de esquerda repercutem o absurdo.
  4. O absurdo vira o assunto principal nas redes sociais, obtendo um enorme grau de atenção.
  5. Os bolsonaristas agendam o debate e mantêm sua proeminência no debate.

Os bolsonaristas podem repetir este esquema “ad aertenum” porque sabem que ele também convém ao outro lado, como se pode depreender pelos pontos 3 e 4. Afinal, os sites de esquerda – e esquerdistas de rede social em geral – também ganham atenção de seu campo político ao deblaterar sobre o absurdo. É um esquema “ganha-ganha” – ok, o debate perde, mas quem está interessado em discutir seriamente qualquer coisa no Brasil hoje em dia?

A prova de que essa “economia da treta” funciona é que ela foi abraçada com determinação por Ciro Gomes. Político cujo auge fica a cada dia mais para trás, o cearense entendeu o jogo e, pelo menos um vez por mês, ataca violentamente, o PT e Lula (e tem ampliando o arco de ataque), de modo a provocar treta dos petistas com seus adeptos, ganhando a atenção que não teria caso nada fizesse, um erro cometido por Marina, por exemplo. A “economia da treta” ganhou até uma indireta chancela de especialistas com a discussão, via redes sociais, evidente, mas também pelos jornais, sobre crescimento, teto de gastos, investimentos públicos e outros pontos esotéricos de Economia travada por economistas mais ou menos midiáticos.

Assim, como já demonstrou sua eficácia em obter a atenção do público, você deve se preparar, pois a “economia da treta” está destinada a avançar por um belo e longo caminho futuro a dentro.

A volta da numeralha favorita: o Digital News Report-2019 (I)

Redes sociais e desinformação no foco

Depois de muito preguiçar, finalmente venci a letargia e me debrucei sobre o Digital News Report de 2019, lançado em junho pelo Reuters Institute. É a oitava edição do levantamento, que dessa vez ouviu, por e-mail ou em pessoa, 75 mil pessoas de 38 países, incluindo o Brasil. Antes de falar daqui, vamos às constatações chaves da pesquisa em nível mundial (com alguns toques sobre o que ocorre aqui) – serei curto e grosso porque, falando francamente, ainda estou um tanto sem saco. Mas vamos lá.

  1. O setor de mídia bem que tem tentado, mas a galera continua pouco a fim de pagar por informação no ambiente digital, seja por assinatura, associação ou doação – a média mundial é de 13% de assinantes, com pico na Noruega e Suécia, com 34% e 27% de pagadores, respectivamente. O Brasil até que não está mal na fita, com 22%, percentual superior, por exemplo, aos EUA (16%), Reino Unido (9%), Portugal (7%) e Argentina (8%).
  2. Como a vida a vida não está fácil pra ninguém em lugar nenhum, o pessoal tem preferido usar seu suado dinheirinho separado para o lazer pagando assinaturas de Spotify, Apple Music ou Netflix do que com notícias, consideradas, no geral, um pé-no-saco. Assim, se tivessem que escolher apenas uma assinatura para fazer, 37% dos respondentes ficariam com vídeo on-line (Netlix, Prime Video, HBO Go…), 15% com app de música e apenas 7% com veículos de notícias on line.
  3. Outra má notícia para os meios tradicionais é que o smartphone está se tornando rapidamente o primeiro meio de contato com as notícias no Reino Unido e nos EUA, tendo inclusive passado a TV no primeiro mercado (28% a 27%) e crescido 6 pontos percentuais (17% para 23%) desde 2016, enquanto a TV caía 3 p.p. (36% para 33%) no mesmo período.
  4. Quando se olha apenas para os meios digitais de acesso às notícias (computador, tablet e smartphone), aí o celular é rei – dois terços dos pesquisados acessaram as novas por ele na semana anterior à pesquisa e 49% o têm como meio preferido para saber o que vai por este mundão de Deus.
  5. Como seria de se esperar, com o crescimento do uso do celular para acessar notícias, as redes sociais foram atrás. Na média de 12 mercados, o Facebook tem 36% deste nicho, mas sofreu um leve decréscimo com as mudanças no algoritmo, ocorridas em fevereiro de 2018. O zap vem crescido seguramente, chegando a 16%, contra 10% do Twitter, que está sendo ameaçado pelo Instagram (9%) – se este passar o passarinho azul, Mister Zuck será o czar das notícias via redes sociais, pois será dono dos três principais pontos de acesso neste mercado.
  6. Se você tem impressão de que mais do que 16% usam o zap como fonte de notícias, está certo/a. No Brasil, esse número é mais do que o triplo – 53% dos 2013 entrevistados no país usaram o aplicativo como fonte de notícias na semana anterior à pesquisa (realizada entre fim de janeiro e começo de fevereiro de 2019), com crescimento de 5 p.p. em relação ao ano anterior. É o maior percentual do mundo, superando Malásia (50%) e África do Sul (49%). O face, porém, está no mesmo patamar, com 54%.
  7. O zap é fundamental para obtenção de notícias em países onde o fornecimento de notícias confiáveis são restritos e as instituições públicas, frágeis, o que inclui os três citados e ainda Argentina, Chile, México, Índia, Turquia e Romênia.
  8. Em termos mundiais, 51% dos usuários do Facebook participam de grupos públicos, mas apenas 14% são sobre notícias ou política. No Brasil, porém, o percentual sobe para 22%.
  1. O percentual que discute política e notícias no zap no Brasil é parecido, 18%, mas nada menos do que 58% participam de grupos com pessoas que não conhecem, contra 12% entre os britânicos por exemplo. Obviamente, isso facilita a difusão de notícias falsas.
  2. Um último ponto (neste primeiro texto) verificado pelo DNR-2019: quem usa os grupos do zap e do Facebook por qualquer motivo confia menos na mídia e tende a postar notícias de sites militantes.

Por enquanto é só. Depois, volto com mais descobertas do DNR-2019. Enquanto isso, se quiser explorar a pesquisa, pode acessá-la aqui .

#VazaJato, episódio 8 (e spin-offs)

Pataxó

A forma criada pelo “showrunner” Glenn Greenwald para a #VazaJato – em que a série principal e os spin-offs acontecem ao mesmo tempo, com personagens se cruzando entre elas – tende a ficar mais confusa do que as idas e vindas no tempo dos personagens de “Dark”. Então, vou tentar organizar a cabeça de forma a continuar a seguir as tramas paralelas – que é apenas uma, mas vista de ângulos diferentes – para não me perder nos próximos capítulos e temporadas. Talvez seja útil para você também. Vamos lá.

1. The Intercept Brasil: O Episódio 8 foi aquele fora de esquadro que os roteiristas usam para quebrar a narrativa pesada. Baseou-se na troca de mensagens que expôs a ingenuidade, burrice e cinismo dos procuradores e procuradoras da Lava-Jato de uma maneira que ficou bem divertida para nós que conhecemos o desenrolar da história – Moro assumindo o Ministério da Justiça, a revelação de que ele já tinha armado tudo pelas costas dos manés do MP, usando-os como escada, a maneira como protege o chefe das investigações sobre as ligações com a milícia e, agora, sobre o tráfico de drogas etc.

Mas, além dessa parte engraçada, o episódio detona também a ideia maluca do hackeamento. Ele claramente indica que há um(a) Garganta Profunda na Lava-Jato, que, por um motivo ou outro, resolveu detonar os colegas, mostrando não só os crimes e irregularidades cometidos pela LJ, mas que eles e elas tinham conhecimento de tudo e acobertaram Moro, o chefe do bando.

Em menos de 24 horas, o episódio já deu frutos – um dos procuradores que fazia parte das conversas admitiu ao Correio Braziliense que são verdadeiras por ter reconhecido aquelas dos quais participou, como já haviam feito repórteres da Folha, no primeiro Episódio 1 do spin-off do jornal. A pessoa que confirmou a veracidade das conversas para o Correio entendeu que a vaca já adentrou o brejo e está preparando para saltar do lombo dela. Outro/as devem fazer o mesmo nos próximos episódios.

O EL PAÍS Brasil também deu sua colaboração ao publicar artigo da lava-jateira Jerusa Viecili, publicado dois ou três dias depois de ela ter exposto os mesmos argumentos num post em um dos grupos da LJ.

2. VEJA: No episódio de estreia, o spin-off da semanal já mostrou ao que veio ao atestar de forma arrasadora o principal crime cometido por Moro e seu mais fiel “acepipe”, Dallagnol, a saber, a dica do primeiro para o segundo da existência, por fora dos autos, de uma suposta testemunha contra Lula, e também como chegar a ela. Veja achou os dois homens, conversou com eles e até obteve de um a confirmação de que foi mesmo procurado por um lava-jateiro escalado para seguir a pista fornecida pelo juiz supostamente imparcial. No dia em que o Congresso, o STF ou Conselho de Magistratura tiverem coragem de processar Moro, essas duas testemunhas serão fundamentais (e não tenha dúvida: esse dia ocorrerá, se não agora, em algum momento do futuro).

3. Folha de S.Paulo: O jornal, no segundo episódio de sua série, impresso sábado, mostrou Dallagnol armando para cima de Jacques Wagner, querendo montar uma busca espalhafatosa a fim de constranger o PT na semana do segundo turno da eleição presidencial. O episódio disparou a primeira reação política concreta contra os abusos cometidos pelos lava-jateiros, no caso dos governadores do Nordeste pedindo investigações sobre a conduta deles. Assim, deputados e senadores ganharam pretexto para, pelo menos, iniciar uma coleta de assinaturas para a instalação de uma CPI. Se conseguirem, a CPI não deve sair, mas bota uma pressão a mais em cima dos procuradores.

Já o episódio de hoje foi meio anticlimático, pelo menos para mim, pois já tinha conhecimento de spoiler. Afinal, desde que o Léo Pinheiro mudou seu depoimento, passando a dizer que o triplex foi uma contrapartida da OAS para Lula, já se sabia que ela fora pressionando além do admissível a fim de contar essa história. O capítulo de hoje do spin-off da Folha foi bom mesmo para dar nomes aos bois e traçar a linha do tempo, ligando os posts do vazamento com o que ocorreu no processo.