A fraude da Folha e o chute no balde

A fraude – desculpe aí, mas Glenn Greenwald e Erick Dau estão certos, não tem outra palavra – que a Folha cometeu ao divulgar pesquisa dizendo que 50% dos brasileiros querem que #foraTemer continue no governo, quando a verdade inteiramente diferente, quase oposta, para mim confirma que os donos dos veículos impressos de comunicação simplesmente chutaram o balde, desistiram do negócio – ou passaram a considerá-lo apenas um acessório de outros, em ramos diferentes. Confirma porque não foi o primeiro desatino editorial cometido nos últimos anos: centenas, talvez milhares, de matérias anteriores insuflaram o golpe de estado ora em andamento, os exemplos são numerosos e os mais significativos podem ser consultados por quem se interessar no Hall da Infâmia do King of the Kings (aí em cima).

Você pode argumentar que não foi o Otavinho que editou a lambança. Poderia ser assim se fosse uma cascata normal, dessas que a Folha edita três ou quatro vezes por semana. Essa não. Mentir deliberadamente para o leitor não está na alçada da direção de redação – arriscado demais, é decisão para dono, para quem manda, para quem toma as decisões estratégicas.

E sabe do que mais? Do ponto de vista de um dono de jornal, de cara que pensa apenas na última linha do balanço, aquela em que se vê se houve lucro ou prejú, a decisão de Otavinho é defensável.

Dê uma olhada nesta dupla tabela/gráfico. Ela foi montada a partir daquela pesquisa realizada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República publicada ano passado, com dados apurados no fim de 2014, que vimos exaustivamente por aqui, e antes, portanto, da “débâcle” da circulação ocorrida ao longo de 2015 e início deste ano e apontada pelos números de IVC, também vistos por aqui (aliás, falaremos sério sobre os dados do IVC semana que vem, ok?).

 

 

Frequência de leitura de jornais por idade
Não precisa nenhum estatístico para ver qual o problema. Três em cada quatro brasileiros simplesmente não leem jornal. Nunca. Muito ruim, mas há mídia em situação pior – as revistas. Veja (com trocadilho, por favor).

 

Frequência de leitura de revistas por idade
O problema dos veículos impressos não se restringe ao Brasil, obviamente, e os dados obtidos pelo Pew Research Center e divulgados há pouco demonstram isso nos Estados Unidos. Esta situação se estende a quase todos os países, nos quais os jornais há muito deixaram de ser fontes primárias de notícias, como se vê nos gráficos abaixo, retirados do Digital News Report, edição 2015, publicado pelo Reuters Institute de Oxford – o primeiro mostra a variação dos meios como fontes primárias de notícias na Alemanha e na Dinamarca; o segundo a distribuição desta mesma variável por 15 países, incluindo o Bananão.

 

Reuters Institute Digital News Report 2015_Variação de fontes de notícias_Alemanha e Dinamarca.png

 

Reuters Institute Digital News Report 2015_Fontes de notícias por país.png
A diferença entre lá fora e aqui é a atitude dos “publishers” no que diz respeito ao declínio inexorável dos veículos impressos. Enquanto potências como New York Times e o grupo Axel Spring, da Alemanha, se viram procurando tornar suas reputações, construídas durante décadas, fontes de receitas por meio de novas ferramentas e produtos, os donos de veículos brasileiros definiram que, já que suas reputações nunca valeram de muito mesmo, vão radicalizar o que sempre fizeram: usar as publicações como armas apontadas para os Executivos visando tomar deles o que puderem em termos de publicidade oficial.

É dentro deste conceito que pode ser vista a fraude perpetrada pela Folha e capturada (haha) pelo The Intercept. Como jamais desenvolveram capacidades gerenciais reais, dedicando-se apenas a aprender as melhores formas de mamar nas tetas governamentais, os “publishers” tupinambás resolveram raspar o tacho – armaram o golpe e, agora, com o governo de #foraTemer no poder, partem com tudo para cima das verbas publicitárias manejadas pelo notório Eliseu Padilha. Se, pela boa, conseguirem emplacar um tucano em 2018 (se não alcançarem a meta de melar as eleições presidenciais até lá, o que seria melhor), terão mais cinco anos (é o novo período de mandato presidencial, lembra?) para saquear o que restar – se sobrar algo.

Se der tudo errado e a esquerda voltar ao poder, então se verá o que fazer. Uma opção para todos seria a “solução Abril”: vender parte minoritária das ações (como os Civita fizeram para o Naspers, em 2006) e/ou ir fundo no “branded content” (matéria ou publicações inteiras que falam de um tema de forma jornalística, mas pagas por anunciante ou grupo de anunciantes – um passo além do publieditorial, pois não há aviso de que é matéria paga em lugar algum). A autorização, por parte de #foraTemer, permitindo que o Grupo Globo repasse indiretamente as suas concessões poderia ser um passo preliminar para a primeira ideia. O Grupo Folha da Manhã, nesse contexto, está numa posição muito boa, pois, hoje, o jornal, além de arma para assaltar os cofres públicos, é pouco mais do que um gerador de tráfego para o UOL, a “rede Globo” dos Frias.

Assim, quando mestre Bob Fernandes pergunta se os donos das empresas de comunicação não sabem que as pessoas estão vendo a hipocrisia deles no processo político pelo qual o país passa atualmente, a resposta é sim. Sabem. Só não se importam.

P.S.: Você seguiu os links, certo?

 

A luz sobre o jornalismo do Bananão que vem do cinema

“Personally I’m of the opinion that for the paper to best perform its function it needs to, uh, stand alone.” (Marty Baron, em “Spotlight”)

“(..) esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada” (Maria Judith Brito, presidente da ANJ e executiva da Folha de São Paulo, em 2010)

As falas de Marty Baron, ali pelos 30 minutos de “Spotlight”, e a de Maria Judith Brito, publicada no Globo em 2010 e jamais desmentida, acaba com qualquer veleidade de comparação entre o jornalismo praticado no filme de Tom McCarthy e o que vemos no Brasil. Seria como comparar o basquete da NBA e da NBB – há três árbitros, que apitam sob as mesmas regras básicas, o objetivo é botar uma bola laranja dentro de um aro com redinha furada pendurada num suporte alto…E ponto, acabaram-se as semelhanças. Tecnicamente, são jogos diferentes.

A diferença entre o compromisso ético e profissional com o trabalho jornalístico que guia o time Spotlight e seus chefes e aquele comportamento com que lidamos no dia a dia no Bananão, resulta no que vemos estampado nas páginas de jornais (e assistimos na TV e ouvimos no rádio) daqui. E essa diferença de comprometimento tem como base as duas frases e no contexto em que elas foram ditas.

A fala de Baron é uma resposta ao cardeal Law no primeiro encontro entre os dois – uma tradição sempre que um editor-chefe assumia o Boston Globe – quando este propõe que seja mantida a colaboração entre Igreja e o jornal, igualmente tradicional. Já a de Maria Judith foi proferida quando ela atacava, em nome da ANJ, o Programa Nacional de Direitos Humanos, lançado naquela época pelo governo.

Há um óbvio choque entre as duas versões do papel do jornalismo que, também obviamente, acaba por refletir-se na atuação diária dos jornalistas. Os profissionais do Boston Globe, claro, se guiam pela premissa de seu editor-chefe, enquanto os empregados dos veículos que fazem parte da ANJ tendem a trabalhar segundo o cânone expresso pela presidente da entidade. Claro que há várias exceções à praxe, mas se quisesse garantir o emprego, um jornalista do Boston Globe sabia que estaria mais seguro seguindo a orientação de Baron, enquanto o de jornal membro da ANJ tentará manter-se o mais próximo possível da orientação de Maria Judith que sua consciência permitir. E, como se sabe, a crise está aí…

Outro ponto de diferença marcante nas duas frases está nas entrelinhas (“leia as entrelinhas” é o slogan que está no cartaz brasileiro de “Spotlight”). Se os veículos se engajam na oposição a um governo, quando a oposição se transformar em governo – algo inevitável numa democracia – segue-se que eles vão apoiá-lo, como o cardeal Law desejava que o Boston Globe continuasse a apoiar a Igreja. Essa cobrança de posição política é repetida em outras situações durante o filme e mostra o perigo para o jornalismo quando os veículos (e os jornalistas) se afastam da receita de Baron em direção à pregada por Maria Judith.

Voltando à crise…Em artigo publicado em seu jornal, o patrão de Maria Judith, Otávio Frias Filho, comentando “Spotlight”, falou da crise pelas quais passam os veículos, a qual seria a culpada pelas falhas dos jornais (assim mesmo, no geral) e cita os cortes na redação do próprio Boston Globe como prova das “transformações” que os jornais estão passando.

Bem, também bem no início do filme, Baron encontra “Robby” Robinson, o editor da equipe Spotlight, e trava-se o seguinte diálogo:

“MARTY
Not necessarily. Uh, but from what I understand readership is down, the Internet is cutting into the Classified business and, uh, I think, uh, I’m going to have to take a hard look at things.

ROBBY
So you anticipate more cuts?

MARTY
I would assume so, yes, but what I’m more focused on right now is finding a way to make this paper essential to its readers.

ROBBY
I’d like to think it already is.

MARTY
Fair enough. I just think we can do better”

A ação se passa entre 2000 e 2002, ou seja, há quase um década e meia, os jornais de lá já se preocupavam com a corrosão de sua base de receita causada pela internet e com a queda do número de leitores. A resposta deles aos problemas foi fazer um jornalismo ainda melhor, tornando o produto indispensável aos leitores. Os “publishers” daqui (e as aspas não são apenas porque a palavra é estrangeira) passaram quase o mesmo período tentando nos convencer que estava tudo bem e, quando isso se tornou impossível, a solução foi (está sendo) tentar derrubar um governo eleito legitimamente a fim de voltar a mamar nas verbas da publicidade oficial federal (nas dos outros estratos governamentais nunca deixaram de mamar). Melhorar o produto, tornando-o essencial para seus consumidores, seja em que plataforma for? Elevar o nível da administração para tornar a empresa mais rentável? Ah…Isso dá trabalho, além de transformar em empresa capitalista um órgão que sempre foi uma gazua ou um pé de cabra de seus donos, com os quais eles iam (vão) para cima dos cofres públicos.

Sem contar que, convenhamos, a Spotlight era um equipe de quatro pessoas, trabalhando feito mouras numa sala apertada, com alguns computadores. O que eles gastaram mesmo em quantidades industriais, pelo que se vê no filme, foi sola de sapato, retinas, sinapses, óleo de peroba (ou seu equivalente de lá), papel e tempo, muito tempo. Tudo bem que tempo é dinheiro, mas, ainda assim, o investimento para produzir uma série que abalou o mundo não foi dos maiores, certo? E é mais ou menos o mesmo  que é gasto em qualquer grande reportagem. Nada que uma grande (ou mesmo média) empresa jornalística brasileira não possa despender.

Assim, diante de tudo isso, só resta a nós, distinto público, ir ao cinema e lá, como se fôssemos uma Cecília, heroína de “A Rosa Púrpura do Cairo”, sonhar com o dia em que um jornalismo de qualidade será praticado no Bananão.

Abril despedaçada

Mais uma semana em que não poderei voltar aos números da Pesquisa Brasileira de Mídia-2015 (PBM-2015), da Secom. Não comemore, porém – vai ter numeralha sim, mas sobre um dos assuntos top da semana no nosso setor (junto com o anúncio d’ O Boticário): a nova rodada de cortes da Abril, cuja crise tem se tornado uma habituée  daqui.

Primeiro, a boa notícia. Há uma possibilidade de os Civita terem terminado de passar a faca nos postos de trabalho, ao menos por enquanto. É que a Abril praticamente abriu mão de ter revistas semanais de entretenimento. Com a nova “reestruturação”, a editora ficou apenas com a “Veja” entre os 10 títulos semanais mais vendidas no país em março, o último dado que obtive (em amarelo, os da Editora Caras, incluindo os seis que obteve da Abril nesta última leva) :

01_crise na abril_10 revistas semanais mais vendidas em marco_2015

Não é bolinho. Se você juntar as revistas semanais detonadas pela Abril, verá que elas somavam, em março, a circulação total de 762.698 exemplares (incluindo edições digitais), 20,51% dos 3.719.028 (também incluindo o mundo digital) de semanais que circularam naquele mês. Os Civita passaram, nos últimos meses, para a Editora Caras – da qual também são acionistas (o que você queria?) -, as revistas colocadas entre a segunda e a sexta colocações no ranking das semanais de Entretenimento (“Ana Maria”, “Ttititi”, “Contigo”, “Viva Mais” e “Minha Novela”, respectivamente). Como a Caras já era dona da líder (a publicação com o mesmo nome da editora), tornou-se dominante no segmento.

A Abril, assim, concentrou-se nas revistas mensais, onde nada de braçada:

02_crise na abril_10 revistas mensais mais vendidas em fevereiro de 2015

Por que toda essa prestidigitação com os títulos? Bom, essa é a notícia ruim.

Na página 5 do balanço de 2014, os auditores da PWC fizeram questão de abrir o intertítulo “Ênfase”, no qual destacam que a companhia a Editoria Abril teve prejuízo de R$ 139,2 milhões (contra R$ 166,6 milhões em 2013), apresentando ainda um patrimônio líquido negativo de R$ 265 milhões (ou seja, as dívidas da empresa superam o seu patrimônio nesse valor) e também excesso de passivos sobre o ativo circulante no montante de R$ 386,7 milhões (isso quer dizer que se todos os credores da Abril resolverem cobrar seus créditos durante o ano de 2015, mesmo aqueles que vencem no futuro, haverá um buraco de quase R$ 400 milhões). E há ainda os impostos diferidos (reconhecidos, mas ainda não pagos, como permitido em lei), no valor de R$ 111,7 milhões.

Na mesma nota, os auditores da PWC garantem ter ouvido dos Civita que, caso necessário, eles aportarão capital para sanar 70%, o percentual que lhes pertence do capital da empresa, das dívidas. O resto? Bom, os credores teriam que correr atrás dos sul-africanos do Naspers que compraram 30% da Abril em 2006. Mas quem trabalha na companhia não precisa ficar nervoso – ninguém vai cobrar porque pior do que uma empresa com um buraco de R$ 400 milhões na contabilidade é uma empresa em concordata com um buraco de R$ 400 milhões na contabilidade

Para você ter uma ideia de como a Abril chegou a essa situação, segue um apanhado dos resultados da companhia desde 2011, ano em que foi adotado no Brasil o International Financial Reporting Standards (IFRS), as normas internacionais de contabilidade:

03_crise na abril_resultados 2011_2014

04_crise na Abril_gráfico resultados_2011-2014

Da maneira que vejo a coisa, a manobra dos Civita de passarem os títulos das semanais para a Caras e focarem a Abril nas revistas mensais tem dois alvos:

Estratégico: Vai que a situação piora (o motivo principal para a deterioração seria o que está no último parágrafo) e ter títulos valiosos fora do seu controle (em termos legais, embora não reais) é uma espécie de poupança num HSBC da Suíça, pois os títulos valem uma bela grana.

Operacional: Revistas semanais são, vamos dizer, de “alta intensidade” – precisam de uma produção mais veloz e, portanto, com maior número de profissionais envolvidos (jornalistas, gráficos, administrativos etc) e uma logística mais complicada do que as mensais, cujo prazo de produção menor permite a sua realização por equipes fixas menores. De outro lado, as mensais (pelo menos as que a Abril manteve) possuem um valor maior no mercado publicitário por serem fortemente segmentadas e terem uma vida útil bem maior.

Nesse caso último por que não passar a “Veja” nos cobres também? Por dois motivos básicos:

1. A revista é a joia da coroa e sua venda tenderia a ser considerada o fim da linha da Abril. Aí, aqueles credores lá de cima correriam o mais rápido possível para pegar um bom lugar no cartório de protestos, e os Civita para longe o mais rápido que seus jatinhos o permitissem;

2. A “Veja” é a única arma de grosso calibre que os Civita ainda têm para chegar aos cofres públicos, como já acontece em São Paulo e voltaria a ocorrer caso um tucano vença as eleições presidenciais em 2018, em nível federal.

Se o PSDB amargar a quinta derrota consecutiva para o PT? Bem, aí duvido muito que a Abril sobreviva à terceira década do Século XXI.

O abril mais cruel

Se tivesse que escolher um texto para representar a Primeira Era da Coleguinhas, dentre as centenas que publiquei entre 1996 e 2003, quando a coluna deu uma parada, teria que optar por dois: o da semana seguinte ao assassinato de Sandra Gomide por Pimenta Neves, em agosto de 2000, por ter sido o único que me lembro de já ter escrito com raiva (aqui, numa versão recuperada do C-se, onde também foi publicado); e outro, anterior de um ou dois anos, sobre o que eu acreditava ser um erro estratégico crasso por parte dos “barões” da mídia e que os levaria à derrocada. Este último, hoje perdido devido à minha desorganização, explicaria o que tem ocorrido nos últimos anos com os veículos, e o fim dos postos de trabalho dos jornalistas, especialmente despedaçados nestas semanas de abril.

Vou tentar reconstruir os argumentos principais de memória. Na época, depois de ter colocado o Legislativo de joelhos, com a ajuda inestimável dos parlamentares, os “barões” estavam realizando um ataque ao Judiciário com uma série de matérias detonando juízes, suas decisões e, claro, acusando os tribunais de corrupção (sim, você está revendo essa operação agora, com outras vítimas e apoio do mesmo Judiciário, já devidamente domesticado). A ideia dos “barões” era, depois de ter acabado com a credibilidade de dois poderes, encurralar o Executivo apresentando-se como supremos porta-vozes da Opinião Pública, tornando-se, assim, condestáveis do país.

No texto perdido, avisei que era uma operação de risco altíssimo e que tinha toda a chance de voltar-se contra eles. Havia dois argumentos básicos, um lógico-politico, o outro conjuntural-tecnológico. O primeiro era de que, no processo de destruir a credibilidade do Legislativo e do Judiciário e debilitar a do Executivo, os “barões” criariam uma massa descrente das instituições, que se voltaria contra eles – afinal, se todas as instituições eram inevitavelmente corruptas no Brasil, por que a mídia seria diferente? Usei a imagem de uma torre no meio do deserto, exposta à fúria de uma tempestade de areia, e os comparei ao personagem Jack, do livro “O senhor das moscas”.

O argumento conjuntural-tecnológico vinha da observação que a internet estava dando ao público uma opção de busca e construção de opiniões paralelas. Ainda estava longe (a uns seis ou oito anos) a era das redes sociais, mas já havia milhões de toscas páginas pessoais na internet (a Coleguinhas era uma) e já surgiam no horizonte seus irmãos mais novos, os blogs. Essa nova mídia faria com que o “barões” perdessem o poder absoluto de mediação com a realidade que detinham e passaria parte dele para o público, que teria armas para atacá-los quando ficassem expostos, caso seu plano desse certo.

Não deu, pelo por enquanto, mas não impediu que a tentativa política fosse desmascarada por um fator possível, mas improvável à época – a chegada ao poder do PT e seu sucesso no plano de redistribuir a renda no país. Diante dele, os “barões” se viram na obrigação de acelerar o processo de tentar encurralar o Executivo e, com a incompetência e covardia dos principais membros da oposição constituída, assumir o ônus de comandá-la de cima do palco, e não das coxias como pretendiam, expondo-se completamente sem estar inteiramente no controle da situação. A exposição extemporânea tornou-os muito visíveis na paisagem política (aquela torre no meio do deserto), para uma multidão, que, como a tempestade de areia, começou a fustigá-los de todos os lados.

A situação saiu do controle e as consequências começaram a ser sentidas agora, quando o crescimento do país estagnou e a luta pela riqueza acirrou-se (aqui). Sem a grana fácil e sem o apoio político com que sempre contaram para manter suas empresas, os “barões” começaram a ver sua incompetência administrativa cobrar-lhes a conta. E eles a estão passando para os jornalistas pagarem. A categoria está longe de ser vítima inocente nesse processo – afinal, os patrões podem indicar os caminho e mesmo mandar segui-lo, mas são os jornalistas que vão para a rua trilhá-lo -, mas é ela que vai tendo, agora, que lavar os pratos.

Cascata da Reuters com FHC vence segunda seletiva para o KofK-2015

Com quase o dobro do número de eleitores participantes em relação à primeira, chegou ao fim a segunda seletiva para o King of the King-2015. Com 26% dos 103 votos atribuídos, a vencedora foi uma barbada: o oferecimento da Reuters a FHC para deixar de fora de uma matéria a menção de que a corrupção na Petrobras começou no governo dele e não no do PT, como os tucanos (e os veículos de comunicação) fingem que aconteceu. A segunda colocada ficou com um caso de polícia, o assédio de um “repórter” da Veja a um sobrinho adolescente de Lula. Veja abaixo as seis cascatas que garantiram sua presença na final do KofK-2015 marcada para janeiro de 2016.
1. Reuters pede aprovação de FHC para publicar que a corrupção na Petrobras começou no governo dele. (27 votos – 26%)

2. Repórter assedia adolescente sobrinho de Lula (Veja) (20, 19%)

3. Manchete do Globo de 16 de março (14, 14%)

4. Coleguinhas “esquecem” de ouvir advogada da Odebrecht que encontrou ministro (Todos): (11, 11%)

5. Tinta vermelha de ciclovia mancha carros em São Paulo (TV Globo): (11, 11%) http://vadebike.org/2015/03/tinta-ciclovia-av-paulista-manchou-asfalto/

6. Lula forçou Petrobras a patrocinar escolas de samba do Rio (Valor) (8, 8%)

Das quatro candidatas que não se classificaram, três – “Artistas têm nomes na lista do HSBC” (O Globo e UOL), “Lula desmente manchete do Estado de São Paulo” (Estadão) e “Mãe de Taylor Swift proíbe filha de fazer show no Brasil” ( O Globo) – voltam na próxima seletiva, para a repescagem. Já “Sabesp já tem plano para aplicar racionar água em São Paulo” (Folha) está eliminada por não ter se classificado pela segunda vez. A repescagem foi instituída este ano devido ao grande número – e a qualidade (ou falta de ) – de cascatas dos coleguinhas, o que prejudicava boas cascatas perpetradas no início do ano em detrimento das que eram veiculadas mais para o fim. Um exemplo de que essa foi uma boa ideia é que a sexta colocada da segunda seletiva – “Lula forçou Petrobras a patrocinar escolas de samba do Rio” (Valor) – não se classificou na primeira.

O King of the Kings é o único prêmio do país a reconhecer o esforço dos coleguinhas em prol da avacalhação do jornalismo brasileiro e começou a ser atribuído, de forma mais organizada, em 2008, A lista das cascatas vencedoras está na aba “Hall da infâmia do King of the Kings” lá em cima.

Ah, os liberais brasileiros…

O que aconteceu com Xico Graziano, um dos coordenadores da campanha de Aécio Neves e ex-chefe de gabinete de FHC, quase me faz ter pena dos liberais brasileiros. Xico foi xingado de “petralha”, “esquerdopata” “comunista” e outros epítetos tão em voga nas redes sociais ao publicar em sua página no FB que era contra a campanha de impeachment de Dilma (aqui)

Só que aí me lembro que, durante a campanha, os liberais nunca se mostraram indignados com os ataques e ameaças que esta ralé (no sentido que Hannah Arendt dá em “As origens dos totalitarismo“) fez aos petistas apenas por discordarem deles,  nem mesmo quando esse tipo de gente pregou o racismo contra os negros, a violência contra os gays  e até o extermínio dos nordestinos – aliás, bem ao contrário: deram seu aval de várias formas, desde encerrar posts com a expressão protofascista “estamos de olho” até o estímulo direto de FHC, o maior dos caciques da tribo tucana, dizendo que quem votava no PT era pobre e desinformado.

Esse oportunismo político advém de um fato: os liberais brasileiros, ao mesmo tempo em que se sentem mal com a presença dos pobres – por “enfeiarem” a paisagem, em especial de bairros como Leblon, Ipanema, Jardins, Higienópolis e seus congêneres de todas as capitais do país – não admitem que estes tenham a chance de deixarem de ser pobres graças a programas de inclusão social como Bolsa-Família, Prouni, Pronatec, cotas, Mais Médicos etc. Menos pobres, para os liberais brasileiros, quer dizer mais guetos ou mais execuções, desde que ambOs bem longe de suas vistas. Como não têm coragem nem de pôr o 45 nos vidros de seus elegantes carros de linhas aerodinâmicas, durante a campanha apelam para a ralé, que, além de botar os adesivos naqueles “tanques civis” que são as SUVs, não tem vergonha de defender nas ruas tudo o que é antidemocrático e até criminoso, como se viu no sábado, dia 1º de novembro, na Avenida Paulista.

Para livrarem-se deste dilema – não gostam de ser confundidos com a ralé, mas sem ela não têm chance de vencer eleição -, os liberais brasileiros teriam que fazer o que Nove-Dedos fez em 2002, com o sinal trocado. O candidato deles deveria assinar uma “carta aos brasileiros” não só prometendo não acabar com os programas de inclusão social, como a ampliá-los em extensão, profundidade e fundos. Mas cadê a coragem política para isso? Assim, para ganhar a eleição em 2018, os liberais de Pindorama irão de novo aliar-se ao que de pior e mais monstruoso existe no Brasil. Sem hesitações.

O jogo de domingo

O nome é bacana – “conflito distributivo” -, mas o popular povo resume um monte de teoria a respeito do fenômeno a uma frase: “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Esse é o verdadeiro embate que está sendo travado na disputa pelo Palácio do Planalto e que definirá o que vai ser do Brasil nos próximos anos – e não apenas quatro não, mas por uma década, pelo menos.

Como você deve recordar, há pouco mais de uma década o Brasil estava na pindaíba. Recém-saído de duas quebras financeiras (97 e 98), quase sem dinheiro em caixa e de tendo passado por um racionamento de energia real, causado pela obsessão dos tucanos em privatizar tudo, até as obrigações inerentes aos governos, o futuro do país não parecia lá muito brilhante. Jogamos esse abacaxi no colo do Nove-Dedos e, para surpresa de um monte de gente (inclusive da boa parte de seus eleitores), ele saiu-se melhor do que a encomenda: não só tirou o país do atoleiro que FHC nos tinha enfiado, como ainda consertou o carro, botou-o numa pista limpa e pisou no acelerador.

A maior parte do mérito é dele, sem dúvida, mas a conjuntura internacional ajudou (também ajudava o FHC, mas esse não tinha a competência do torneiro mecânico). O mundo crescia bem e, parecia, de maneira consistente, especialmente a China. Como sempre acontece no capitalismo, porém, essa boa fase desapareceu de repente (ou nem tanto, pois alguns estudiosos, nenhum deles daquelas suspeitíssimas agências de avaliação de risco, já previam que ela estava acabando), em 2008. N-D e seu pessoal ainda deu um jeito de manter o carro em boa velocidade, mesmo com a estrada mais parecendo a superfície lunar de tanto buraco.

Assim, nessa época, e até 2011, estava todo mundo feliz – os ricos ficando mais ricos e o pobres, menos pobres. De três anos para cá, porém, o carro começou a engasgar. O mundo, ao contrário do que juravam o FMI, os dirigentes políticos do Primeiro Mundo e a The Economist, não melhorou devido à austeridade imposta aos europeus (aos norte-americanos não). Ao contrário, a crise parece ter fincado raízes tão profundas que, além de atingir a China, praticamente garantiu que essa década de 10 do Século XXI será completamente perdida.

O Brasil, obviamente, como não é a “ilha de tranquilidade” que apregoavam os militares na época das crises do petróleo dos anos 70, também sentiu o baque. Só que aqui, ao contrário da Europa, nunca houve “estado do bem-estar” para, mesmo em decadência, garantir uma rede social minimamente decente (saúde, educação, transporte público). O resultado foram as tais Jornadas de Junho, que juntaram os insatisfeitos de todos os matizes e pontos cardeais. As manifestações deram em nada, até porque eram politicamente amorfas, mas deixaram claro que uma parte dos brasileiros sentia os efeitos do sumiço da grana fácil, que vinha por meio do nível de emprego em alta, da elevação dos salários e do incentivo ao consumo. A vida ficava, se não tão difícil quanto era nos anos 80 e 90, menos fácil do fora após 2003, e a galera não gostou disso.

O problema é que, como escrevi mais acima, esse quadro não vai mudar muito nos próximos anos. O dinheiro encurtou e uns bons sete ou oito anos, pelo menos, se passarão até que a situação melhore. Assim, quem ficará com a maior parte desse dinheiro curto? Que grupos sociais vão, como dizem os cientistas políticos e economistas, apropriar-se da riqueza que ainda resta?

Esse é o ponto que está sendo discutido por Dilma e Aécio, por detrás dos xingamentos. A primeira defende que a maior parte da grana seja distribuída entre os mais pobres, por meio dos programas sociais e de investimentos em educação técnica e superior. O segundo deseja que o dimdim fique com o mercado financeiro (daí a defesa do Banco Central independente – do governo, obviamente, não do mercado), as oligarquias (como as que dominam os meios de comunicação) e os estratos da elite brasileira que são capazes de investir alto no mercado financeiro e em imóveis, aqui e lá fora. É o tal “conflito distributivo”.

A definição de quem vai levar a grana acontecerá no dia 26 de outubro. O resto é circo.