Ilusão de jornalista

Escrevi este post, inicialmente, para a página da Coleguinhas no Facebook. Ela ganhou grande repercussão, então postei no Blog do Iv, no Medium. Aí pensei: “pô, o blog da Coleguinhas, o veículo mais antigo (completa 22 anos mês que vem), não pode deixar de ter esse texto também”. Então, aí vai ele, com foto e tudo:

 

Dentre as auto-ilusões dos coleguinhas, uma das que considero mais estranhas é achar que representa algo individualmente. Jamais entendi isso. Creio que 99,99% não compreende (ou finge não compreender) que, diante do Outro (qualquer Outro, seja militante político, analista financeiro, empresário, jogador de futebol, político…), representamos apenas os veículos (e os patrões) que nos pagam. Quem trabalhou em jornal pequeno e depois num grande, percebe claramente a diferença de tratamento e o que ela diz.

História para exemplificar. Em 88, o Exército (quem mais?) matou três metalúrgicos que faziam piquete na frente da CSN, em Volta Redonda. Foi o estopim de uma batalha. Num determinado momento, um carro da Rede Globo foi cercado pelos trabalhadores, que queriam virá-lo e linchar quem estava dentro. A equipe de O Dia – na época um jornal popular decente e onde eu trabalhava -, comandada por uma amiga de faculdade, conseguiu interpor o carro entre a turba e os colegas. A amiga – que, sem exagero, tem 1,50m – saltou e encarou os trabalhadores. “Nós somos trabalhadores que nem vocês!”, gritou. Os caras pararam. O líder respondeu. “Eles são não. São da Globo. Mas você é do Dia. Tira eles daqui”.

Portanto, caro colega, esqueça essa coisa de passado militante, liberdade de imprensa e tal. Você representa nada disso. Representa o seu patrão e tudo no que ele acredita. Como dizia A.J. Liebling, da New Yorker: ‘Freedom of the press is guaranteed only to those who own one.’ “

A volta das numeralhas: Pesquisa Brasileira de Mídia-2016 – I

TV vai bem, obrigado. Já os impressos…

 

 

Pode confessar, não é feio: estava com saudade das tabelas e gráficos, né? Pois sua ansiedade acabou, as numeralhas de 2018 começam nesta semana com a primeira da série de análises sobre a versão 2016 da Pesquisa Brasileira de Mídia (PBM-2016). Esse tradicional levantamento, realizado pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom), sofreu modificações metodológicas importantes, levadas a cabo pelo Ibope Inteligência, a empresa responsável por ela este ano. Assim, não é possível fazer comparações com a de 2015 na maior parte das vezes. Sempre que for possível, porém, eu farei, ok?
Falando em metodologia, aqui vão as principais variáveis da amostra da pesquisa:

1. O desenho da amostra tomou por base os dados do Censo de 2010 e a PNAD de 2014.
2. Foram ouvidas 15.050 pessoas de 16 anos ou mais das cinco regiões, com a seguinte distribuição:

 

3. A divisão percentual por gênero, faixa etária, instrução e ramo de atividade foi:

Beleza. Agora, vamos à tabela e ao gráfico relativos à pesquisa em si, iniciando pela audiência geral, comparação entre os diversos meios.

 

ANÁLISE

A tabela mostra a razão numérica para algo que já estamos meio cansados de saber – algo só acontece de verdade se a televisão mostrar que aconteceu: quase dois terços da população têm no meio sua primeira opção de informação – e 90% informa-se por ela, mesmo que apresente outro meio como principal fonte de informação.

A internet se firmou de vez como segunda opção de meio de informação, sendo o primeiro para 1 em cada 4 brasileiros, e metade deles informa-se por ele, percentual importante quando observa-se que 61% da população do país acessa a rede – assim, 80% de quem acessa a internet no Brasil informa-se por ela (na TV, esse percentual chega a 93%, já que 97% dos lares brasileiros possuem aparelhos).

Os números mostram claramente que os meios impressos caminham para ser um produto de nicho no Brasil – na melhor das hipóteses – como prevê Mark Thompson, CEO do NYT, para ao mercado norte-americano. Apenas 3 em cada 100 pessoas têm nos jornais seu principal meio de informação, passando para 12 em cada 100 aqueles que se informam por eles. A situação é ainda pior para o meio revista: ninguém, termos percentuais, informa-se primariamente por ele e apenas 1% o faz.

O sempre esquecido rádio é que tem uma boa performance. Mesmo que apenas 7% tenha no meio o caminho primário de obtenção de informações, 30% o têm como meio complementar.

Genealogia da Lava-Jato dá 1º Prêmio Marcos de Castro de Melhor Reportagem Independente na Internet a “Brasil de Fato”

 

A história de família dos principais personagens da Lava-Jato e suas profundas raízes no que há de mais reacionário na sociedade brasileira deu o Prêmio Marcos de Castro de Melhor Reportagem Independente da Internet, em sua primeira edição, ao site “Brasil de Fato”. A matéria, assinada por Daniel Giovanaz, obteve 12 dos 174 votos consignados (7%), um a mais do que a da Ponte Jornalismo, que mostra as imagens das câmeras de segurança flagrando seguranças do Habib’s arrastando um menino que logo depois seria encontrado morto.

O Prêmio Marcos de Castro destina-se a reconhecer os sites que, contra todas as dificuldades e sem pertencer a grande redes nacionais ou internacionais, lutam para manter vivo o melhor do jornalismo no país. Abaixo, a lista dos dez mais votados (na verdade, 12 por ter havido quádruplo empate na décima colocação):

1. A origem da mentalidade autoritária da Lava-Jato (Brasil de Fato) (12 votos/7%)

2. Vídeo mostra menino sendo arrastado por empregados do Habib’s antes de ser assassinado (Ponte Jornalismo). (11/6%)

3. Os sorteios do Supremo (Jornal GGN) (10/6%)

4. O martírio do reitor Luis Carlos Cancellier (Sérgio Giron/Edike Carneiro) (10/6%)

5. Documentário mostra ligação entre religião e territorialidade no Complexo do Alemão (Agência de Notícias das Favelas) (10/6%)

6. O Caso Rafael Braga (Justificando/Ponte Jornalismo) (9/5%)

7. É fácil fugir dos impostos no Brasil: basta fundar uma igreja (Nacionais.net) (8/5%)

8. Empresas alemãs colaboraram com a Ditadura Militar (Opera Mundi) (8/5%)

9. Como Eduardo Cunha manda no governo Temer (Poder 360) (7/4%)

10. Segurança privada ajudou Forças Armadas durante a ditadura (Agência Pública) (7/4%)
Auditoria mostra que são mesmo os empresários de ônibus que mandam no transporte do Rio (Agência Pública) (7/4%)
Domésticas filipinas são escravizadas em São Paulo (Repórter Brasil) (7/4%)

CHEGOU A HORA! Escolha a maior cascata de 2017!

 

O grande momento chegou! É hora de votar nas mais caudalosas cascatas publicadas pelos jornais, revistas, TVs e rádios do Brasil varonil, salve, salve no ano que passou. É oportunidade única, pos o King of the Kings é o único prêmio que reconhece os coleguinhas que mais labutaram de sol a sol na faina de esculhambar o jornalismo brasileiro. Você não pode, simplesmente não pode, deixar de prestar sua homenagem a esses e essas coleguinhas.

Antes de apresentar a lista de maiores cascatas de 2017, seguem a regras simples que norteiam esse democrático pleito.

1. Você pode votar em até 11 das 21 concorrentes. É legal você escolher o máximo possível de forma a homenagerar o máximo desses bravos e bravas.

2. A votação segue até dia 18 de fevereiro

Então… (RUFAR DOS TAMBORES!). aqui estão as concorrentes ao kING OF THE kINGS DE 2017!

1. Folha usa foto de manifestação de 2016 para mostrar que protesto do MBL de 2017 foi um sucesso.

2.Maluco conhecido diz ter levado mala de dinheiro para Lula e IstoÉ dá capa.

3. Exame usa exemplo de Mick Jagger para defender reforma da Previdência.

4. Apresentadora da Record diz que índios deviam ficar sem remédios contra malária para morrerem.

5. Delegado da PF diz que não de precisa de provas para prender Lula, apenas “timing” certo. (Veja).

6. PF afirma que carne é enxertada com papelão e vitamina C é cancerígena e veículos publicam sem checar (Vários).

7. Jornalista da GloboNews festeja recessão e desemprego por devolver poder de compra aos brasileiros.

8. Estudante tem a cabeça quebrada por cassetete empunhado por policial e e Folha diz que foi por “homem trajado de PM”

9. Miriam Leitão afirma ter sido agredida por petistas durante voo, mas ninguém vê. (O Globo)

10. Veja acusa Lula de usar Dona Marisa para escapar de Moro.

11. Procuradores da PGR dão “coletiva em off” para vazar nomes da Lista da Odebrecht.  (Vários)

12. Folha usa perito Molina para desqualificar gravações de Joesley Batista que mostram Temer cometendo diversos crimes.

13. O Globo dá foto sobre Malas do Geddel, mas com manchete sobre Lula e Dilma.

14. Estadão afirma que Temer não compra Congresso para fugir das acusações de corrupção.

15. IstoÉ afirma que PT tem célula dentro da PGR e domina Lava-Jato.

16. Míriam Leitão acusa “forças do atraso” que ajudou a pôr no poder pela tentativa de liberação do trabalho escravo. (O Globo)

17. History Channel mente a historiadores para produzir programa que deturpa a História do Brasil.

18. Jornal Nacional torna glamourosa a necessidade de pobres terem de usar lenha para cozinhar (TV Globo)

19. Mídia esconde depoimento de advogado que expõe tráfico de influência na Lava-Jato. (Todos).

20. Veja já tem matéria pronta para condenação de Lula.

21. Mídia apoia reforma da Previdência em troca de anúncios (Todos).

Vamos à 3ª seletiva do King of the Kings-2017!

Redações em plena atividade

 

Você vai ficar um tanto decepcionado/a, mas não há tantas cascatas assim para disputar a terceira seletiva do King of the Kings-2017. Há dois motivos básicos para o fato, creio. O primeiro é que, como já mencionei mais de uma vez, meus critérios cascatológicos, desenvolvidos em mais de duas décadas, são extremamente rígidos. Para entrar na lista de concorrentes ao KofK, a cascata precisa ser de muito baixo nível. O segundo motivo é decorrente do primeiro – o jorro de cascatas de baixo nível caiu muito desde que o Golpe de 2016 desandou e os antigos aliados começaram a ser atacados pelos veículos de comunicação, os quais também, vendo que já não detêm um controle absoluto sobre o golpe que comandaram, começaram a passar um paninho, posando, novamente, de “isentos, imparciais e objetivos”. Quem não os conhece que os compre.

Por estes motivos, são apenas dez as cascatas que estarão na disputa por uma vaga para a final de janeiro de 2018. Antes de nomeá-las, vamos às regras:

1. Você pode votar em até cinco concorrentes.
2. As cinco não classificadas voltam para a última seletiva.
3. O pleito segue até dia 19 de novembro, dando, portanto, duas semanas para você ler e votar com calma.

 

Então, vamos às concorrentes!

1. SporTV chama assassinato de torcedor de “fatalidade”.
2. Veja já tem pronta matéria sobre condenações de Lula.
3. IstoÉ usa investigação para acusar senadora que defende governo da Venezuela.
4. IstoÉ afirma que PT tem célula dentro da PGR e domina Lava-Jato.
5. Superinteressante fala da ameaça da Coréia do Norte aos EUA, mas esquece de falar das razões do ódio dos norte-coreanos.
6. O Globo dá foto sobre Malas do Geddel, mas com manchete sobre Lula e Dilma.
7. Folha demite repórter com medo de seguidores de Danilo Gentilli.
8. Míriam Leitão acusa “forças do atraso” que ajudou a pôr no poder pela tentativa de liberação do trabalho escravo.
9. History Channel mente a historiadores para produzir programa que deturpa a História do Brasil.
10. Estadão afirma que Temer não compra Congresso para fugir das acusações de corrupção.

Agência Pública vence 3ª seletiva do Prêmio Marcos de Castro e assume liderança do Troféu Elaine Rodrigues

 

Após duas semanas e 133 votos, aqui estão as oito novas concorrentes ao Prêmio Marcos de Castro de Jornalismo na Internet.

  1. Auditoria mostra que são mesmo os empresários de ônibus que mandam no transporte do Rio (Agência Pública): 17 votos (13%)
  2. A origem da mentalidade autoritária da Lava-Jato (Brasil de Fato)
  3. Os sorteios do Supremo (Jornal GGN)
  4. As relações de Gilmar Mendes com o site Consultor Jurídico (Agência Pública)
  5. Domésticas filipinas são escravizadas em São Paulo (Repórter Brasil)
  6. A confraria do vinho que une Aécio a Cabral (Agência Sportlight)
  7. O Caso Rafael Braga (Justificando/Ponte Jornalismo)
  8. Os guarani-kaiowá estão morrendo de fome (Colabora)

As três matérias seguintes voltarão para repescagem da última seletiva:

Indígenas denunciam assédio sexual no SUS (AzMina)
Como é produzida a maconha consumida no Brasil (Agência Pública)
Comandante da Guarda Municipal de São Paulo defende jogar bomba em manifestantes (Jornalistas Livres)

O resultado da terceira seletiva do Prêmio Marcos de Castro também pôs a Agência Pública na liderança do Troféu Elaine Rodrigues, com quatro matérias finalistas, uma a mais do que a Agência Sportlight e a Ponte Jornalismo (que teve uma indicação dividida com o Justificando). A colocação está assim:

1. Agência Pública: 4
2. Agência Sportlight e Ponte Jornalismo: 3
3. Nexo e Colabora: 2
4. AosFatos, Justificando, Jota, GGN, Repórter Brasil, Brasil de Fato, Nacionais.Net, Poder360 e Volt: 1

Agora, na semana que vem, vamos ao prêmio oposto ao Marcos de Castro – o tradicional King of the Kings de maior cascata do ano. Até lá.

O Extra e sua muralha

No primeiro momento, quando o Extra começou sua campanha contra o goleiro Muralha, do Flamengo, em 1º de setembro passado, colocando um “comunicado” na primeira página (abaixo), achei babaca e desrespeitoso, mas não cheguei a prestar muita atenção, pois ações deste tipo nunca foram raras em redações e, atualmente, são decididamente comuns.

Mesmo na semana passada, quando o jornal voltou a jogar nas mãos do atleta a culpa por mais uma derrota do rubro-negro nos pênaltis – algo comum para todos os clubes –, e a consequente perda do título da Copa do Brasil para o Cruzeiro, apenas achei que algum responsável pela primeira do Extra tinha algo de pessoal contra o jogador, já que no caderno de esportes, a culpa foi atirada sobre Diego (como se houvesse culpa em perder uma cobrança numa decisão e não algo perfeitamente esperado na vida de um jogador como Diego, principal atleta do time e cobrador oficial). A contradição pode ser vista abaixo.

No dia seguinte, porém, soube da situação pré-falimentar do Grupo Abril e os ataques do Extra contra Muralha ganharam algum sentido – não tenho como afirmar, já que não possuo mais acesso aos números do Instituto Verificador de Circulação (IVC), mas passei a suspeitar que as capas contra Muralha indicam que o Extra está sofrendo uma séria queda em sua circulação.

Como se sabe – e pode-se ver claramente nas ruas de qualquer grande cidade brasileira – a crise econômica abalou seriamente as classes C, D e E, o público ao qual o jornal se dirige. O fato de ser feito pensando nessas classes de consumo faz com que o Extra seja um “jornal de banca”, ou seja, ele praticamente não possui as assinaturas que mantêm os chamados quality papers voltados para as classes A e B (que também sofrem com a queda de circulação causada pela fuga dos assinantes, mas esse é outro capítulo da história). Dessa forma, o Extra necessita de chamadas fortes, “quentes”, para capturar a atenção de seus potenciais leitores e levá-los a coçar o bolso.

O jornal sempre atuou desse jeito, claro, com manchetes inteligentes e divertidas, mas, diante de uma queda acentuada como a que o jornal tem sofrido, inteligência não tem tanto efeito quanto o bom e velho sensacionalismo. Assim, a publicação partiu para este caminho com esta capa agressiva e politicamente perigosa (publicada duas semanas antes da primeira contra o jogador).

Compreensivelmente, ela provocou uma chuva de críticas, que, embora certamente não provenientes de seu público alvo, devem ter repercutido na redação. Ademais, declarar o Rio em guerra funciona bem para vender jornal, mas também provoca medo e esse sentimento não pode ser usado sempre, já que tende a provocar um “stress” social talvez incontrolável pelo Grupo Globo como um todo. É necessário dar uma aliviada, mas sem perder o foco na provocação de polêmicas sensacionalistas. Assim, a direção de redação do Extra parece ter resolvido apelar para uma velha técnica para cativar o público menos crítico: criou um vilão.

O vilão é o oposto do herói, obviamente, mas é essencial para que este exista e a luta entre ambos é o que faz uma história funcionar. Essa técnica literária é conhecida de qualquer roteirista de novela ou história em quadrinhos. E foi isso que o Extra fez com Muralha –transformou-o num vilão, mesmo sem um herói definido para enfrentá-lo. Funcionou muito bem por fatores intrínsecos à própria pessoa: o goleiro é realmente fraco tecnicamente (mas sempre o foi e o Extra não criticou sua convocação para a seleção brasileira há precisamente um ano), tem um apelido que é bom marketing para os bons momentos, mas péssimo para os maus, e apresenta uma figura fora do modelo idealizado pela sociedade brasileira – é mulato, corta o cabelo à moicano, é barbudo, um perfeito oposto de Diego, aquele que realmente decretou a derrota no Mineirão, mas foi escondido na parte interna do jornal (e ainda apresentado com um elogio enviesado a sua beleza).

Em suma, da maneira como vejo a coisa, Muralha ser esculachado pelo Extra tem pouco a ver com sua capacidade técnica ou mesmo a importância de suas supostas falhas nas derrotas do Flamengo. Estas apenas forneceram a oportunidade para a direção de redação do jornal alavancar as vendas às custas de ridicularizar publicamente um ser humano. A má notícia agora: o viés do Extra não vai mudar porque a muralha econômica que enfrenta é intransponível enquanto a situação econômica não mudar.