Digital News Report – 2017 (III): Brasil

A última coluna da série sobre o Digital News Report-2017 enfoca a análise do Brasil, de autoria do jornalista Rodrigo Carro. Ela mostra que as redes sociais perderam participação no que se refere ao seu uso como canal de consumo de notícias, mas, ainda assim, o consumo on line de notícias supera a TV. Constatação: dessa disputa para saber qual o meio pelo qual os brasileiros mais acessam notícias, jornais e revistas estão definitivamente alijados.

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O motivo para que, mesmo com a redução da participação das redes sociais no acesso às notícias (já mencionada em outra coluna que abordou o DNR-2017), os brasileiros continuem a saber delas mais pela internet do que por meio da TV – que está em 97% dos domicílios do país, contra 63% da internet – é que o número de casas com pelo menos uma pessoa com celular chegou a 92,1% e este aparelho passou a ser o mais usado para saber do que vai pelo mundo.

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Paralelamente, o what’s up tornou-se muito importante na vida das pessoas, incluindo aí no ato de consumir notícias, principalmente depois que as operadoras – atropelando o Marco Civil da Internet – passaram a usar o “zero rating”, ou seja a franquia total de dados, para o mensageiro. Dessa forma, o consumo de notícias por meio do zap cresceu 7 pontos percentuais em um ano, contra queda de 12 p.p. do Facebook.

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Agora a boa notícia para os meios tradicionais: os brasileiros ainda confiam neles. Nada menos do que 60% acreditam nas notícias que leem, ouvem ou veem, percentual igual ao dos que acreditam nos veículos pelos quais acessam as novas.

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Por fim, o DNR-2017 confirmou a característica maior do ecossistema midiático no Brasil: a concentração nas mãos do Grupo Globo. O gráfico mostra que o grupo dos Marinho lidera com folga entre os meios tradicionais, com a TV (aberta mais paga) e fica com o segundo e o terceiro lugares nos on line.

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CONCLUSÕES
A maior novidade do DNR-2017 em relação ao 2016 a liderança do celular como meio on line de acesso às notícias, superando o desktop/notebook. Estre fato manteve o modo on line na liderança sobre a TV,  mesmo com a queda do acesso via redes sociais. De resto, nenhuma novidade n o que se refere à credulidade dos brasileiros em se tratando de mídia e no domínio acachapante do Grupo Globo no setor. E também uma constatação que explica a fonte imensa do poder dos Marinho: as pessoas acreditam nas notícias que leem, veem ou ouvem dos veículos que acessam normalmente.

Digital News Report – 2017 (II): “Fake news” e confiança no consumo de notícias

Na segunda coluna sobre o Digital News Report-2017, o papo reto é sobre “notícias falsas”, as tristemente famosas fake news. Uma fama que vem embrulhada numa série de entendimentos pouco claros – afinal, o que são fake news? A esta pergunta direta, o DNR-2017 encontrou três respostas bem diferentes:

1. Matérias que não são reais, simplesmente inventadas com o objetivo de dar boa exposição a alguém ou alguma ideia, bem como, de outro lado, prejudicar uns e outras, em geral em troca de dinheiro;

2. Matérias que são reais, mas que são “editadas” de modo a apoiar pessoas ou ideias, podendo também ser ou não ser em troca de dinheiro;

3. Matérias que simplesmente discordam do que o leitor/telespectador/ouvinte discordam.

A pesquisa do Reuters Institute mostra que poucas pessoas são capazes de discernir com facilidade uma notícia falsa de uma verdadeira (com exceção dos EUA), mas demonstrando grande sensibilidade no que apontam como um viés da cobertura dos meios tradicionais. Assim, a pesquisa mostra que as pessoas procuram as notícias nesses meios e, portanto, o problema das fake news tem mais a ver com a desconfiança sobre a neutralidade dos meios do que as falsas notícias espalhadas pelas redes sociais.]

Numa visão por país, vemos que o brasileiro é o segundo povo que mais acredita na mídia tradicional, com 60% de confiança, atrás apenas da Finlândia (62%), superando por larga margem países como Alemanha (50%), Reino Unido (43%) e França (30%).

Isso pode ser explicado pela concentração da mídia em poucas mãos (do que falaremos na terceira coluna da série). Há que se observar também que este nível de confiança tem caído com o passar o tempo – há 12 anos, numa pesquisa nacional (certamente com metodologia diferente), a confiança era de 66%.

Boa parte da confiança que o público ainda destina aos meios tradicionais vem da percepção de que estes, apesar de suas possíveis falhas no quesito neutralidade, ainda são bem superiores às mídias sociais no que se refere ao trabalho de separar o que é fato do que é ficção.

A má notícia aí é que pouco mais de dois terços das 3 mil pessoas entrevistadas para outro estudo do Reuters Institute lembram por meio do que rede social ou máquina de busca encontraram determinada notícia, mas não de qual jornal, rádio ou TV que veiculou a matéria.

CONCLUSÕES

Os meios tradicionais estão perdendo credibilidade com o fenômeno das  fake news muito mais por seu suposto (ou não) viés político nas coberturas do que pelas falhas das redes sociais, das quais os leitores desconfiam quando se trata de se informar. A crença de que os meios tradicionais ainda são mais confiáveis, no entanto, não tem revertido para as suas marcas individuais. A reversão destes dois problemas – a percepção de que há vieses políticos nas coberturas e do aproveitamento, por meio das redes sociais, da confiança remanescente do público na qualidade de seu trabalho – são fundamentais para que os meios tradicionais consigam sobreviver ao terremoto provocado pela mudança nas formas de consumo da informação.

Truques da imprensa à portuguesa

Já estava com a Coleguinhas praticamente escrita quando, ontem, Luis Carlos Mansur enviou-me o link para um post do “Truques da imprensa portuguesa”, uma página no Facebook que, conforme diz Mansur, presta relevante serviço público detonando a imprensa do “jardim à beira-mar plantado”. Decidi reproduzir o post aqui por dois motivos:

1. Mostrar que alguns dos males que acometem a imprensa brasileira não são privilégios nossos, embora possam ser mais agudos aqui, e têm origens semelhantes.

2. Como é um “textão”, dificilmente ele seria lido em toda a sua extensão no Facebbok, pois quem acessa esta plataaforma parece ter imensa preguiça (ou mesmo incapacidade)de ler qualquer coisa que ultrapasse três parágrafos e seria uma pena desperdiçar um texto tão bem escrito, um prazer para quem ama a língua portuguesa e toda a sua riqueza vocabular, tão esquecida por aqui.
Boa leitura.

“Cofina: um post longo, mas que é só um começo.

A Cofina é uma empresa portuguesa de comunicação social que conta, entre os seus títulos, com o Correio da Manhã – o jornal mais vendido em Portugal –, o Record – o jornal desportivo mais vendido em Portugal – e a CMTV – o canal por cabo mais visto em Portugal -, para além do Jornal de Negócios, do Destak e da Sábado.

Serve este introito para justificar o seguinte: ao contrário do que dizem muitos dos que nos leem, é muito importante perdermos tempo a falar do trabalho que se faz nestes títulos, uma vez que eles chegam a muita gente e abrangem todos os temas. Têm alcance e com o alcance vem poder.

Têm chegado à nossa caixa vários de mensagens alguns testemunhos desconcertantes de trabalhadores e ex-trabalhadores da Cofina (jornalistas e não só) que nós achamos que merecem a vossa maior atenção.

Os lucros da Cofina estão em queda, o que implica mudanças: o mês passado, o Expresso noticiava que o destino de mais de 50 trabalhadores do grupo era o desemprego.

A Cofina, como muitas outras empresas de comunicação social em Portugal, empregam sobretudo jornalistas mal pagos – mesmo quando têm experiência e reconhecimento público – e “estagiários” não remunerados ou “subsidiados”, i.e., dão-lhes uns trocos para os transportes. É desta mistura de jornalistas experientes insatisfeitos e sub-remunerados e de estagiários inexperientes a custo zero que se faz grande parte do jornalismo em Portugal e a Cofina será, porventura, o pináculo desta estratégia.

Os títulos e as equipas da Cofina não são todas iguais e é preciso distinguir, por exemplo, um Jornal de Negócios – que consideramos um bom jornal – de um Correio da Manhã, que se tornou, para muitos, o porta-estandarte do “jornaleirismo” em Portugal: mentiras, falta de rigor, sensacionalismo, desrespeito pelas pessoas, enfim, o Código Deontológico dos Jornalistas violado, à bruta, por trás, ponto por ponto.

Conta-nos uma pessoa que esteve relacionada com o Correio da Manhã que nesta redação existe uma clara divisão entre diretores e jornalistas. Citamos: “Existe um clima de medo, bastante ditatorial, onde não se levantam quaisquer ondas. Poucos falam, poucos reagem e ninguém tem capacidade para falar com os diretores, uma vez que corre o risco, por qualquer motivo, de ser despedido. O medo dos despedimentos paira na redação. A intimidação é evidente e é quase diária. No Correio da Manhã contrata-se barato e despedem-se os jornalistas mais velhos, que ganham pouco mais. Os diretores, esses, ganham e não é pouco. A Cofina tem lucro. Mas o dinheiro vai todo para o topo da cadeia alimentar.”

Ilustrativo. Mas não fica por aqui.

Citamos outra fonte próxima do Correio da Manhã: “No Correio da Manhã os jornalistas são obrigados a trabalhar mais do que as 8 horas. Chegam a fazer 15 e até 20 horas seguidas. Sempre a um ritmo frenético que conduz, logicamente, ao erro. Todos os trabalhadores devem estar a trabalhar sem parar. Todos estão infelizes, quase todos querem sair. Só não o fazem porque há pouca oferta em jornalismo. Colocam os jornalistas a fazer trabalhos perigosos no meio de adeptos ou no meio de incêndios. São obrigados e pressionados a fazer perguntas desconfortáveis em conferências de imprensa. As ameaças de despedimento são constantes.”

Serve esta página para denunciar truques da imprensa portuguesa. Pois bem, aqui vai um grande, um dos maiores truques da imprensa portuguesa: quando os jornalistas são postos a trabalhar nestas condições, o jornalismo que fazem será, com toda a probabilidade, uma grande merda.

É por isso que aqui visamos, quase sempre, a publicação e não o jornalista. Porque sabemos que eles, que deviam ser o coração do jornalismo, são muitas vezes colocados na posição de meros empregados, a correr para aqui e para ali a mando, a fazer perguntas encomendadas ao chefe, que lhas ordena ao ouvido, sem espaço para investigar, para pensar, para corrigir.

Não serve isto para desculpar sempre os jornalistas quando falham, pois achamos que cada um dele assumiu, individualmente, uma responsabilidade para com o leitor quando aceitou a carteira de jornalista – e que essa responsabilidade deve impor que tomem uma atitude perante ordens que os obrigam a violá-la. Mas serve para enquadrar muitas dessas falhas num sistema que não está montado para nos dar rigor, verdade, transparência e seriedade. Está montado para dar dinheiro aos donos dos jornais e para por os jornalistas em situações onde, muitas vezes, têm de escolher entre o rigor e o emprego.

Os jornais são detidos por empresas que, muito legitimamente, procuram o lucro. Com isso, foram-se tornando, a pouco e pouco, em anti-jornais, em anti-imprensa: são anúncios, são páginas e páginas de publicidade disfarçada de notícias, porque é isso que dá dinheiro. São palha para burros, são sensacionalismo para atrair visitas, são servicinhos aos anunciantes.

Resultou para a Cofina, durante muito tempo, mas os sinais são positivos para o jornalismo: a receita parece estar a esgotar-se. A Cofina entrou no jornalismo e começou a substituí-lo por “tralha”: intrigas, pessoas nuas, histórias de faca e alguidar. Coisas que muita gente gosta e lê com gosto, e quem somos nós para julgar?

Mas há sempre uma altura em que as pessoas pensam: “bom, o que me apetecia agora era mesmo ler um jornal”. Ou em que um anunciante pensa: “bom, eu gostava mesmo era que os meus anúncios não estivessem rodeados de notícias falsas, para terem alguma credibilidade”.

E, quando esse momento chega, quem é se lembra do Correio da Manhã?

Ninguém.

A queda dos lucros no primeiro trimestre deste ano cifrou-se nos 35,4% face ao período homólogo do ano transacto.

A malta está a acordar. Há esperança.
http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/media/detalhe/lucro-da-cofina-cai-354-para-648-mil-euros-ate-marco

http://expresso.sapo.pt/economia/2017-04-11-Despedimento-coletivo-de-mais-de-50-pessoas-na-Cofina

Vem aí o Wikitribune

Um fato muito importante a respeito do jornalismo aconteceu semana passada aconteceu, mas com a barafunda que tomou conta do país, pouca gente prestou atenção: Jimmy Wales, fundador da Wikipedia, lançou a proposta do Wikitribune, um portal de notícias que funcionará nos moldes da plataforma que mandou para rede, em 2001, a fim de “consertar o jornalismo”, como definiu, pouco modestamente. Explica aí, Jimmy:

Não sei se a proposta de Wales foi influenciada pelo estudo “The Plataform Press: how Silicon Valley reengineered journalism” assinado por Emily Bell e Taylor Owen, do Tow Center for Digital Journalism (creio que não, pois este veio à lume há pouco mais de um mês), mas ataca alguns dos principais problemas detectados por ele, principalmente o fato de que as plataformas fizeram o possível para negar que  eram empresas de mídia, mas quando os fatos as colocaram contra a parede, ainda assim tergiversaram e arrumaram uma forma meio doida de combater as notícias falsas , sempre com o intuito de fugir de uma responsabilidade que, para Bell e Owen, está no cerne da atividade jornalística: a missão cívica, política, de informar da melhor forma possível sua audiência.

A ideia de Jimmy Wales vai resolver o problema? Tenho lá minhas dúvidas. Afinal, um portal de notícias acende paixões bem mais intensas do que um de artes ou de filosofia  por envolver a luta pela dominância da visão de mundo (hoje se chama “narrativa”, pois não?). Há muito mais possibilidade de guerras de edições  e discussões intermináveis. A existência de jornalistas profissionais, em tese, ajudaria a, pelo menos, reduzir o problema, mas ainda assim…E há outra questão: o projeto é voltado para língua inglesa, certo? E nos outros países, como funcionaria? Só à base de voluntários? Quem seriam? Os “fact checkers” da “International Fact-Checking Network”?

Apesar de todas essas dúvidas, a proposta do fundados da Wikipedia tem o mérito de trazer o distinto público para dentro da discussão, lhe dando responsabilidade direta na resolução do problema, em vez de ficar olhando, bestificado. Vou realmente torcer para que funcione e até estou disposto a ajudar, dentro de minhas parcas luzes e disponibilidade de tempo.

Seguem o texto original dos pesquisadores do Tow, em mobi (para e-readers, tipo Kindle) e pdf, e uma compilação do resumo realizado pelo pesquisador brasileiro Moreno Osório, que o enviou, em quatro partes, por meio de sua newsletter semanal, o Farol de Jornalismo.

Mapa do Tesouro 2 – Onde encontrar mais jornalismo de qualidade na internet

Cento de dezessete compartilhamentos, 259 reações, 14.991 pessoas alcançadas. Caramba, sabia que a galera estava sedenta de jornalismo de qualidade, mas só tive ideia de quanto ao publicar, antes de sair de férias, post com uma lista personalíssima de sites que considero fazer um bom trabalho em Bruzundanga-Bananão e ter o retorno citado. Diante da resposta, e também por ter lembrado de um monte de outros sites legais, publico o Mapa do Tesouro 2. Como o primeiro, é muito pessoal, de sites que curto e/ou acho importantes, e por isso não vai ser completo nunca e não agradará a todos. Espero mesmo que você faça a sua lista – e se quiser compartilhar comigo, ficarei feliz e honrado.

Então, vamos lá.
Geledés: Ser negro no Brasil é terrível, mas tem coisa pior: ser mulher negra. Daí a importância do Geledés Instituto da Mulher Negra, entidade que existe fará 29 anos em abril próximo e tem como foco principal (mas não único) as questões que tocam esta parcela da sociedade daqui.

Ponte Jornalismo: É tiro, porrada e bomba. Não podia ser diferente num veículo especializado em cobrir segurança pública, direitos humanos e justiça em Bruzundanga-Bananão. Seu enorme time de jornalistas e colaboradores de diversas áreas produz matérias a respeito de assuntos que a grande imprensa hegemônica (ou grande, ou corporativa, nunca sei como tratar…Mas você entendeu) prefere ignorar – e, quando não o faz, prefere o viés criminalizante. A Ponte tem uma parceria forte com o site da Carta Capital, revista que lhe publica o conteúdo, num modelo que devia ser explicado no site de ambos.

Consultor Jurídico: Em 2010, segundo a OAB, Bruzundanga-Bananão tinha 1.240 cursos de direito contra 1.100 de todos os outros países do mundo somados e embolados. Assim, não é de admirar que haja um monte de sites (sem falar de blogs) sobre Direito. O mais antigo é o veteraníssimo Consultor Jurídico, que a Dublê Editorial mantém na rede desde 1997 (só um ano mais novo que a Coleguinhas, portanto), tendo construído grande credibilidade durante esses 20 anos e também desenvolvido os Anuários de Justiça cujo foco são tribunais superiores (STF, STJ, TST, TSE e STM), na Justiça Federal, Tribunais Regionais do Trabalho e na Justiça Estadual (TJ-SP, TJ-RJ, TJ-MG e TJ-RS).

Jota: Criado por seis jornalistas e um engenheiro de telecomunicações, é o mais diversificado nos serviços que oferece, indo da simples assinatura até cobertura de fusões e análise de riscos.

Justificando: O slogan é “mentes inquietas pensam Direito” e por isso é o único que não usa terno e gravata todo o tempo, apresentando vídeos bem-humorados no “Explica aí” e no “Coisas que você precisa saber”. Tem parceria com a Carta Capital, como a Ponte, com quem forma uma boa dupla para aqueles que pretendem ter uma visão ampla da Justiça em Bruzundanga-Bananão.

Congresso em Foco: Escrevi (no primeiro Mapa do Tesouro) que sites políticos não entravam na lista. Isso queria dizer sites com viés para um lado do espectro político. Não é o caso do Congresso em Foco. Na rede desde fevereiro de 2004, é o mais antigo dos sites que focalizam o dia a dia da política de Bruzundanga-Bananão. É tão conceituado que o prêmio que distribui anualmente como reconhecimento aos parlamentares que honram os votos que receberam é colocado no currículo dos vencedores. Vive de anúncios e de assinaturas, as quais dão direito à revista, em versões impressa e digital, que começou a circular em 2011.

Poder360: Reivindica o título de “operação jornalística nativa digital sobre política e assuntos do poder mais antiga em atividade contínua na internet brasileira”, por ter entrado em rede em 18 de abril de 2000. É uma afirmação discutível, já que era apenas uma página de política escrita pelo megapremiado (e, às vezes, polêmico) Fernando Rodrigues, hoje diretor de redação. Como Poder360 mesmo, não tem nem um ano (passou a ter este nome em novembro passado). A par disso, é um site que procura enfocar mais a análise da política, embora também cubra o dia a dia do Congresso, uma linha que parece ser mais forte ainda no serviço Drive Premium, voltado para empresas. (Aviso: o editor, Tales Faria, é amigo de quase 30 anos).

Os Divergentes: Tales também faz parte deste interessante…hããã…”blog coletivo”?… Bem, seja o que for reúne outros quatro jornalistas com larga quilometragem na cobertura de política – Andrei Meireles, Helena Chagas, Ivanir José Bortot e Orlando Brito. A análise é a força quase exclusiva deste site, cuja apresentação é hilária.

Farol Reportagem: Como a Agência Sportlight, do Lúcio de Castro (citado no Mapa do Tesouro 1), é veículo de um homem só, no caso Lúcio Lambranho, catarinense que trabalhou em Brasília (inclusive no Congresso em Foco), e resolveu voltar pra terrinha. O foco é Santa Catarina, mas, às vezes, espraia para o âmbito nacional. O site foi indicado pela leitora Andréa Lenora, de Floripa. Muito legal isso e dou força para você fazer o mesmo – mande uma sugestão que eu dou uma olhada e se achar que vale, boto numa futura lista. Não tem garantia de aparecer numa, mas que vou lá, vou.

Farol Jornalismo: Seguindo fachos de farol, damos com este aqui. Só que não é site, é uma newsletter semanal editada pelo casal Marcela Donini e Moreno Osório, cujo foco total é especular e analisar os caminhos do jornalismo – até porque Marcela e Moreno são jornalistas intelectuais mesmo, professores e tudo o mais. Sou assinante antigo e cocei o bolso para ajudá-los a manter o bom (e praticamente único por aqui) trabalho.

Objethos: Já que entrei na seara dos jornalistas intelectuais falo deste site, formado exclusivamente por pesquisadores das federais de Santa Catarina (onde surgiu, no departamento de Jornalismo, claro), Paraná e Fluminense (Niterói). O foco absoluto é a ética jornalística e faz parte da Rede Nacional de Observatórios (Renoi), que, para falar a verdade, não tinha a menor ideia que existia e parece mortinha, já que as últimas postagens são de 2013. Aviso: uma das pesquisadoras associadas é Sylvia Moretzohn, amiga de 30 anos.

Observatório da Imprensa: Falar de observatório e jornalismo tem que falar do dinossáurico OI – surgiu em abril de 96, mês e pouco antes da Coleguinhas, tendo ainda uma versão impressa na época. Dirigido pela lenda do jornalismo brasileiro Alberto Dines, tem o apoio do Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo e projeto original do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mas andou malzinho das pernas, tendo que fazer um crowdfunding para se manter (colaborei e até ganhei camiseta). Ao que parece, porém, já está em forma de novo, apesar de, devido à mudança nos ventos políticos, tenha sido banido da EBC, tanto na TV quanto no rádio. Aviso: a chefe de redação do programa de TV era Emília Ferraz, amiga de…Ah! Você já sabe de quanto tempo.

Mapa do tesouro: onde encontrar jornalismo de qualidade na internet

A Infoglobo mandou mais 30 embora na outra semana e passou os jornalistas que sobraram para nova redação, no prédio erguido na Marques de Pombal, fruto de uma operação pra lá de estranha e que deu até em demissão de poderoso. A medida de economia – por que se tratou disso, certo? – foi disfarçada pela desculpa de transformar a cultura do jornal de impresso para o “digital first”, um santo graal que nem jornais mais ricos e com direção bem mais competente, como NYT, Washington Post, The Guardian ou El País, alcançaram.

Como o desenvolvimento previsível da ação é uma queda ainda maior da qualidade do produto, os cidadãos terão que se virar sozinhos para ter acesso a jornalismo de qualidade – não apenas “conteúdo” supostamente do mesmo quilate. Aí bate a perplexidade: onde um jornalismo assim pode ser encontrado? Bom lugar para você começar é este levantamento divulgado em meados do ano passado pela Agência Pública e que continua sendo incrementado com a ajuda dos internautas. Quem quiser ir além, pode consultar este estudo oriundo do México, também de 2016, com indicações de toda a América Latina.

Esses dois estudos já bastam, mas como sou gato-mestre (jornalista sempre é, não tem jeito), ponho aqui uma listinha própria, que comecei a publicar na página da Coleguinhas na plataforma do Zuck. Não é exaustiva e tive como outro critério de escolha, além do que considero qualidade jornalística (que pode ser muito diferente do que você considera), a ausência de militância política explícita. Assim, veículos que admiro, acompanho e com os quais até contribuo, como Conexão Jornalismo, Tijolaço, GGN, Outras Palavras, Diário do Centro do Mundo, Sul21 e outros, ficaram de fora. Ok? Vamos lá:

Agência Pública: É dos poucos que não tem problemas de grana (um de seus financiadores é a Open Society, de George Soros). Mantém gente boa no seu conselho consultivo, como Ricardo Kotscho e Leonardo Sakamoto, mas quase fica de fora da lista pela mania, típica da mídia corporativa, de ouvir só um lado em alguns temas – na série “Amazônia em Disputa” (financiada pela norte-americana Climate and Land Use Alliance, mantida pelas fundações Ford, Packard (HP), Moore (Intel) e Cargill) só foi enfocado quem era contra hidrelétrica, por exemplo. No entanto, do jeito que anda o jornalismo no Brasil, e como eles só vacilam mesmo no tema meio ambiente, botei na listinha.

Agência Sportlight: É a caçula da lista, tendo começado há dois meses, e também um prodígio – a segunda matéria publicada (sobre o estranho crescimento da rede de restaurante Riba) já virou destaque na Veja-Rio. É tocada por Lúcio de Castro, um repórter multipremiado, e filho (aqui vai a primeira de uma série de avisos ao leitores sobre minhas ligações pessoais) do imenso, magnífico, Marcos de Castro. Ele foi um dos mais brilhantes jornalistas com que convivi. Por uns 15 dias, no Globo, tentou me ensinar a ser um bom redator – não conseguiu, evidentemente, mas não por culpa dele – e, anos depois, em protesto contra uma demissão injusta minha pela qual se sentiu responsável (não era), pediu demissão do JB em solidariedade.

Aos Fatos: Tendo como diretora de jornalismo a vascaína fanática Tai Nalon, o AF assume o estilo zagueiro-zagueiro do Odvan: checa as afirmações dos políticos, confrontando-as com dados públicos e atribui-lhes um selo: verdadeira, imprecisa, exagerada, falsa ou insustentável. Sem firula. O AF faz parte do International Fact-Checking Network (IFCN), que, como o nome diz, é uma rede internacional de checadores, aquela que foi chamada pelo Facebook para combater as notícias falsas. Bruzundanga-Bananão é representado no consórcio também pela Agência Lupa e a já citada Agência Pública.

AZMina – Sabe a doçura feminina? Não passou nem no bairro aqui. É a revista eletrônica de um projeto educacional voltado para conscientização, empoderamento (ok, também não gosto da palavra, mas o conceito é meio novo, daqui a pouco a gente acostuma), defesa e auxílio das mulheres. É extremamente focado o que faz a publicação ser muito consistente, apesar da multiplicidade e diversidade das colaboradoras.

Gênero & Número: As questões de gênero e o jornalismo de dados se encontraram, deram aquela mirada, se aproximaram e, de repente, apareceu este bebê. O G&N ainda está engatinhando, mas já virou xodó do Vovô Iv, ao ser tão promissor e necessário por enfocar o universo feminino e de outros gêneros partindo de dados.

Marco Zero Conteúdo – Os conterrâneos não negam a raça – vão direto ao ponto: “Para manter a independência, não recebemos patrocínios de governos, empresas públicas ou privadas. Por isso, precisamos da doação das pessoas que acham importante para a sociedade e para a democracia a existência de um jornalismo que investigue as questões com profundidade, qualidade e independência”. Tem parceria com a Agência Pública no Truco, a checagem de dados de declarações de políticos, mas voltado só para Pernambuco.

Meus Sertões: Mais Nordeste, dessa vez no semiárido. A ideia é “descobrir e contar histórias relacionadas às 1.133 cidades do semiárido brasileiro”, pois a região “apesar de sua diversidade, costuma ser retratada de forma preconceituosa pelos meios de comunicação, com ênfase na seca e tragédia. Nossa proposta é mostrar todos os aspectos da vida sertaneja, debater questões cruciais e promover a cultura da região”. Novo aviso: sou suspeito – o criador do site, Paulo Oliveira, é amigo de mais de 30 anos e um dos jornalistas que mais admiro.

Mulheres 50+ : AzMina é bacana, mas, como elas mesmo apregoam, se dirige às moças até 40 anos (provavelmente porque todas as suas mantenedoras têm menos do que essa idade). Só que, obviamente, a vida das mulheres (e nossa também, embora ninguém tenha me perguntado a respeito) não acaba aos 40 – alguns dizem mesmo que começa exatamente nessa idade, mas aí é exagero. Mulheres 50+ cobre a lacuna com competência e sensibilidade. Outro aviso: sou muito suspeito com esse aqui também – das sete mantenedoras do site, tive a imensa honra de trabalhar com seis, sendo fã de todas.

Nexo: É um dos meninos grandes da vizinhança, junto com a Agência Pública, mas, diferente desta, não especifica de onde vem a grana (desculpe, mas não dá para manter aquela estrutura de pessoal, administração e tecnologia na base do pinga-pinga de assinatura). Apresenta um conteúdo bem acima da média não só dos independentes como até mesmo da maioria dos jornalões, mas me chateia em dois pontos, que são interligados: a arrogância típica dos paulistas da USP e da Poli, na linguagem e abordagem dos temas, e a mania de tacar gráficos cheios de bossa na cara dos leitores sem contextualização, de uma maneira que só gente com alguma base de estatística consegue ler (e com dificuldade, às vezes).

Projeto Colabora: Também sou meio suspeito pra falar desse aqui por ser amigo de metade da direção e conhecer a outra metade, sem falar de um monte de colaboradores (há um monte muito maior). O foco é em sustentabilidade e inclusão social, mas faz incursões por outras áreas bacanas, sempre “com um olhar + criativo, tolerante e generoso”.

Como avisei antes – e dá para notar pelo número de suspeições -, é uma lista bem pessoal. Dou força para que você faça a sua, partindo ou não desta lista ou das publicadas pela Agência Pública e pela mexicana Factual. Com um pouco de paciência, ao fim do processo, você terá acesso a um conteúdo jornalístico de qualidade e sob medida, pelo qual poderá pagar sem se arrepender (Ei! Jornalista tem supermercado e condomínio para pagar também, amigo/a!).

FÉRIAS!
Após quase 21 anos, resolvi dar férias da Coleguinhas para vocês. Ao longo destes anos, sempre arranjei uma maneira de publicar algo aos domingos, estivesse em Londres, Curitiba, Istambul, Recife, Santorini ou São Miguel do Gostoso. Dessa vez, porém, resolvi parar mesmo e só retornar em março, após o Carnaval. Então, fique na paz e até a volta!

Os deputados e os veículos de comunicação – IV (Revista e Rádio)

Após duas semanas lidando apenas só com palavras, voltemos aos nossos (pelo menos meus) queridos gráficos, retornando à análise da pesquisa da FSB a respeito de como os políticos se informam e qual a influência os meios de comunicação têm sobre eles (as três primeiras colunas sobre o tema, você pode acessar aqui, aqui e aqui). Na quarta parte, a análise concentra-se nas revistas semanais e nas rádios.

Antes de recomeçar, recordemos as coordenadas metodológicas:

1. O universo abrange apenas os deputados federais.
2. Foram ouvidos 230 parlamentares de 26 partidos, nos dias 8 e 9 de março.
3. A escolha foi aleatória, mas observou-se a proporcionalidade das bancadas.
4. Partidos com apenas um representante não fazem parte da amostra por permitirem a identificação dos respondentes.
5. Para 2016, as respostas alcançam apenas o primeiro trimestre.

Vamos então ao primeiro gráfico, com a análise em seguida.

relatorio_midia_e_politica_fsb_2016_revistas

1. Para começar algo importante: como vimos na primeira coluna sobre o tema, as revistas semanais são a mais baixa forma de vida informativa para suas excelências os deputados federais. Elas foram a principal fonte de informação para apenas 1% deles em 2015, percentual que reduziu-se a 0% no primeiro trimestre de 2016 (ou seja, durante as férias, eles parecem não dado sequer uma olhadinha nelas). Por outro lado, 6% dos nobres parlamentares lê revistas, embora não como principal meio de informação. É bom ter isso em mente ao ler os percentuais acima e a análise que se segue.

2. A revista preferida é a Veja (65%), mas essa preferência caiu de 15 pontos percentuais de 2015 para 2016 (era de 80%), embora tivesse se mantido relativamente estável de 2014 para 2015 (era de 78%).

3. Isto É e Época tiveram variações semelhantes à líder, no período 2015/2016, com quedas, respectivamente de 59% para 44% (IstoÉ) e 60% para 44% (Época). A diferença é que as quedas das duas semanais têm sido mais constantes, ocorrendo desde 2014

4. A Carta Capital também apresentou queda desde 2014 (12 pontos percentuais, de 47% para 35%), mas, diferente das outras três concorrentes, manteve-se estável de 2015 para 2016, demonstrando que seu público, embora bem menor do que as concorrentes, é mais fiel.

5. A penetração da Exame (revista quinzenal) foi incluída na apuração pela primeira vez e atingiu a marca de 26% de leitura, um percentual apreciável, dado que é uma publicação dedicada à economia, tema de atração mais restrita.

 

Muito bem. Agora, passemos aos dados referentes ao meio rádio.

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1. Para começar, lembremos que o rádio é a fonte principal de informação para apenas 6% dos deputados federais, mas que sua importância tem crescido com constância desde 2014, quando era de apenas 1% (2%, em 2015). Há que se ver, porém, que o período da pesquisa (março de 2016) pode ter influenciado este resultado, pois era um momento de volta de férias, quando a tendência é ouvir-se mais rádio para informar-se, já que o meio é portátil e de imenso alcance.

2. Mesmo com esse reparo, a pesquisa mostra que, mesmo que não seja a fonte principal, o rádio integra de maneira consistente a dieta informativa dos deputados federais – 77% deles dizem usar o meio para informar-se.

3. A CBN é a mais ouvida, com 62% de audiência nos três primeiros meses de 2016 (era de 70% nos 12 meses de 2015), seguida pela Band News, com 23% (24% em 2015).

4. Note-se a boa aceitação das emissoras institucionais do parlamento, as rádios Câmara e Senado, com 19% e 13%, em 2016, respectivamente (11% e 1%, em 2015). Talvez este fosse um resultado esperado, mas, ainda assim, é bem interessante, já que a diferença da rádio Câmara não é muito grande em relação à Band News, mas o é em relação à Jovem Pan (quinta colocada na preferência).

5. No mesmo campo, importante também o avanço acentuado da rádio Senado em 2016, de 1% de audiência em 2015, para 13%. Deve-se esperar se este resultado excepcional manter-se-á (também sei usar mesóclise, viu?) durante o ano todo, já que se refere apenas aos primeiros três meses deste ano.