Barbosão candidatão

É bom Aécio Neves e Eduardo Campos arrumarem um jeito de eleger-se ano que vem, pois se não conseguirem, em 2018, terão que enfrentar um adversário muito duro por ser egresso de suas próprias fileiras. As últimas atitudes do presidente do STF, Joaquim Barbosa, não deixam dúvidas – ele é candidatíssimo para 2018, com estratégia traçada e tudo.

Eleição de inimigo único (Zé Dirceu, cara ótimo para encarnar papel de vilão), desacato a colegas juízes (demonstração de independência), ataque a jornalista (pareceu escorregada, mas não foi – testou a subserviência dos veículos e dos coleguinhas ao seu projeto e obteve resposta positiva), aparição em lugares públicos para receber aplausos (devidamente registrados e passados às colunas pela assessoria), vazamento de dossiê contra colega do STF para prevenir-se de ataques após sua saída da presidência da Corte…Todos foram jogadas táticas de candidato a candidato.

Esses movimentos se enquadram na construção de uma estratégia já testada e aprovada em outros lugares – a aliança entre o conservadorismo e o lumpesinato (vários autores chamam de ralé essa parte da sociedade desprovida de qualquer consciência política, mas eu não acho legal o termo por saber a preconceito aristocrático). Essa aliança já deu suporte a movimentos políticos como o nazismo (o mais bem sucedido ); o fascismo italiano; aquele levou à condenação de Dreyfuss no fim do século XIX, na França; o imperialismo inglês de Cecil Rhodes e companhia, e até a Revolução Cultural, na China, dura demonstração de que falta de consciência política não é característica dos extratos mais baixos da sociedade burguesa.

Como você pode ter notado pelos exemplos, não é uma aliança de grande duração histórica, mas com uma poderosa capacidade de destruição política e de encaminhamento de desastres. Homem culto, Barbosão deve ter tido oportunidade de ler sobre todos os movimentos citados acima e visto que o Brasil, neste momento, ostenta um bom quadro para o lançamento de um projeto político do tipo consulado bonapartista, mas encabeçado por um magistrado. Depois de (talvez) 16 anos de poder, a esquerda sofrerá de grande – e muito possivelmente irreversível – fadiga de material e o conservadorismo não terá conseguido, nesse tempo todo, adaptar sua agenda ao país do Século XXI, permanecendo, como até agora, preso à mentalidade dos anos 1950/1960.

A bola estará quicando para um homem com as credenciais de Joaquim Barbosa: nascido negro e pobre, chegou aos píncaros de uma carreira de branco (algo como Lula), é intransigente (como Dilma), culto (como FHC) e perseguidor de políticos. Como uma nova derrota para o PT, provavelmente, vai deixar o PSDB ainda mais sem pai, nem mãe do que já está, pelo menos uma legenda forte certamente acorreria para oferecer-se como barriga de aluguel para o projeto barbosista. Uma candidatura assim, com suporte dos estratos superior e inferior da sociedade, não teria dificuldade de engolfar a classe média – que, de resto, já adora o presidente do STF, como demonstra o Facebook – e, portanto, seria favorita em 2018.

Assim, vamos acompanhar atentamente os movimentos de Joaquim Barbosa nos próximos anos e o resultado deles. Afinal, o esquema traçado é muito bom e forte, mas a política, por ser tão humana, é muito imprevisível. Para o bem e para o mal.

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5 comentários sobre “Barbosão candidatão

  1. Caríssimo Ivson,

    Não tenho como discordar da tua análise, a não ser em dois pequenos detalhes, que não se confrontam em nada com a essência do texto, mas sim com as firulas do pensamento que constrói o discurso:

    1. lumpesinato (ou lumpemproletariado) significam exatamente a mesma coisa e têm a mesma tonalidade afetiva, já que estas duas palavras não existiriam se um tradutor de Marx (não sei qual, nem em que momento) não a houvesse cunhado, por, quiçá, ter os mesmos pruridos lingüisticos que tu. A tradução correta seria ralé, pois se origina de “lumpen” (farrapo em alemão), mas o pedantismo intelectual dos primeiros marxistas lusófonos (e também dos atuais) consagrou o termo lumpesinato assim como adotou campesinato para classificar tanto o proletariado rural quanto a pequena burguesia pobre do campo.

    2. Não estou convencido de que o togado Joaquim Barbosa seja culto como FHC, de quem não sou partidário (pelo contrário, nunca me contei entre seus seguidores), mas a quem respeito. O presidente do Supremo tem demonstrado notável erudição. Como dizia minha mãe, de quem sou discípulo, erudição e cultura não são a mesma coisa.

    Com o respeito do colega e admirador,

    Luiz Alberto Sanz

    • Oi! Realmente tirei o termo das leituras marxistas em português, mas estou lendo as Origens do Totalitarismo e nele realmente usa os dois termos, preferindo o primeiro. Me parece mais questão de gosto.
      Quanto à cultura do Barbosão, creio que vc está certo, mas, para efeitos propagandísticos, cultura e erudição se equivalem.

  2. Ivson:

    Creio que o fato do JB ter alçado o ex-assessor do Dantas, Wellington Geraldo Silva, para o cargo depresidente do Conselho Deliberativo do Funpresp-Jud – o fundo de previdência dos servidores do Judiciário – é significativo, né?

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