Digital News Report – 2017 (II): “Fake news” e confiança no consumo de notícias

Na segunda coluna sobre o Digital News Report-2017, o papo reto é sobre “notícias falsas”, as tristemente famosas fake news. Uma fama que vem embrulhada numa série de entendimentos pouco claros – afinal, o que são fake news? A esta pergunta direta, o DNR-2017 encontrou três respostas bem diferentes:

1. Matérias que não são reais, simplesmente inventadas com o objetivo de dar boa exposição a alguém ou alguma ideia, bem como, de outro lado, prejudicar uns e outras, em geral em troca de dinheiro;

2. Matérias que são reais, mas que são “editadas” de modo a apoiar pessoas ou ideias, podendo também ser ou não ser em troca de dinheiro;

3. Matérias que simplesmente discordam do que o leitor/telespectador/ouvinte discordam.

A pesquisa do Reuters Institute mostra que poucas pessoas são capazes de discernir com facilidade uma notícia falsa de uma verdadeira (com exceção dos EUA), mas demonstrando grande sensibilidade no que apontam como um viés da cobertura dos meios tradicionais. Assim, a pesquisa mostra que as pessoas procuram as notícias nesses meios e, portanto, o problema das fake news tem mais a ver com a desconfiança sobre a neutralidade dos meios do que as falsas notícias espalhadas pelas redes sociais.]

Numa visão por país, vemos que o brasileiro é o segundo povo que mais acredita na mídia tradicional, com 60% de confiança, atrás apenas da Finlândia (62%), superando por larga margem países como Alemanha (50%), Reino Unido (43%) e França (30%).

Isso pode ser explicado pela concentração da mídia em poucas mãos (do que falaremos na terceira coluna da série). Há que se observar também que este nível de confiança tem caído com o passar o tempo – há 12 anos, numa pesquisa nacional (certamente com metodologia diferente), a confiança era de 66%.

Boa parte da confiança que o público ainda destina aos meios tradicionais vem da percepção de que estes, apesar de suas possíveis falhas no quesito neutralidade, ainda são bem superiores às mídias sociais no que se refere ao trabalho de separar o que é fato do que é ficção.

A má notícia aí é que pouco mais de dois terços das 3 mil pessoas entrevistadas para outro estudo do Reuters Institute lembram por meio do que rede social ou máquina de busca encontraram determinada notícia, mas não de qual jornal, rádio ou TV que veiculou a matéria.

CONCLUSÕES

Os meios tradicionais estão perdendo credibilidade com o fenômeno das  fake news muito mais por seu suposto (ou não) viés político nas coberturas do que pelas falhas das redes sociais, das quais os leitores desconfiam quando se trata de se informar. A crença de que os meios tradicionais ainda são mais confiáveis, no entanto, não tem revertido para as suas marcas individuais. A reversão destes dois problemas – a percepção de que há vieses políticos nas coberturas e do aproveitamento, por meio das redes sociais, da confiança remanescente do público na qualidade de seu trabalho – são fundamentais para que os meios tradicionais consigam sobreviver ao terremoto provocado pela mudança nas formas de consumo da informação.

Ninja 1 x 0 Folha e o fim do jornalismo. Ou não.

Vou dar uma paradinha nas análises dos dados do IVC sobre a circulação de jornais e revistas (falta só a IstoÉ) para falar rapidamente de dois eventos que, a meu ver estão relacionados: o enésimo passaralho na Folha e o engajamento da página da Mídia Ninja no facebook superando o do jornal dos Frias, do Estado, do Globo e da Veja somados. Como em geral ocorre nos pós-passaralhos, houve choro, ranger de dentes e vaticínios mais ou menos apocalípticos sobre o fim do jornalismo. Discordo. O jornalismo não vai acabar. O que está indo para o espaço não é ele, mas o modelo de negócios em que as empresas jornalísticas se baseavam.

Abaixo vai uma lista de links para os textos (e imagens) que baseiam a minha afirmação (desculpe, mas você vai ter um trabalhinho também…):

“Como o Facebook engoliu o jornalismo” – É parte da palestra ministrada pela fantástica Emily Bell, diretora do Tow Centre for Digital Journalism da Columbia Graduate School of Journalism, no Centre for Research in the Arts, Social Sciences and Humanities da Universidade de Cambridge, onde é professora convidada no período 2015-2016. O texto foi escrito antes de Mark ter mudado de ideia e meio que colocado de lado o projeto de ser o canal de distribuição dos veículos, muito provavelmente por ter visto que não precisa mais deles.

“O jornalismo nunca foi um produto comercial” – E por que Mark pode acreditar que não precisa mais dos veículos? A resposta está nesta entrevista de Robert G. Picard, do Reuters Institute, da Universidade de Oxford, que, como eu, crê que o jornalismo pode sobreviver às empresas que editam jornais, desde que os jornalistas façam o seu trabalho direito (o que, no Brasil, vamos convir, não acontece há anos).

“Todos querem seus dados! O WhatsApp não me deixa mentir” – Neste link vem o aprofundamento do que Picard menciona acima – que os anunciantes podem chegar melhor ao público sem precisar pagar às editoras por isso – e fará com que o valor do trabalho do jornalista caia cada vez mais se os profissionais insistirem em viver num mundo que entrou em colapso (aliás, o veículo em que esta matéria foi publicada é um exemplo de um caminho pelo qual o jornalismo e os jornalistas podem enveredar para sobreviver).

“Quem escolhe o que você lê?” – O mundo novo, porém, traz perigos ainda maiores do que o antigo, conforme explica este vídeo, parte de uma série sobre os riscos que corre a internet (em um veículo que aponta outra vertente para o futuro do par jornalismo/jornalistas).

“Dear Mark. I am writing this to inform you that I shall not comply with your requirement to remove this picture” – Quer um exemplo do perigo mencionado no vídeo? Pois tome este, recentíssimo, da semana passada, que aconteceu na Noruega e não acabou por aí – seguiu com uma recomendação de que, para evitar este tipo de problemas, o Facebook…contratasse jornalistas! Só que Mark não acha uma boa ideia – aliás, pensa exatamente o oposto.

 

Banda de patos

Não sou um grande especialista em telecomunicações como os coleguinhas Samuel Possebon, Miriam Aquino, Lia Ribeiro Dias, Luís Osvaldo Grossmann, Fernando Lauterjung ou Lúcia Berbert, mas acompanho a área, com mais ou menos afinco dependendo da época, desde fins dos anos 90 quando vi que o mestre Nilson Lage estava certo (para variar) e a comunicação (jornalismo dentro) ia ser muito influenciada – em alguns casos, guiada – pela área técnica. Por isso, depois de ler os craques acima citados e pesquisar em outras fontes, vou dar pitaco nesta questão do limite de banda internet fixa para tentar esclarecer outros pobres mortais que, como eu, não entendem tanto assim da questão.

Como se sabe, as empresas de telecomunicações que dominam 95% do mercado decidiram estabelecer a limitação de uso da banda larga nas linhas fixas – a Vivo foi a última, no dia 10, enquanto a Oi e a NET já previam esta limitação em contrato há tempos, mas juram que jamais a puseram em prática. Houve uma revolta geral, todo mundo se meteu – até a um tanto desmoralizada OAB – especialmente depois que o presidente da Anatel, João Rezende, disse que a época da internet ilimitada acabou .

A questão que está por trás desse movimento é a explosão do consumo de vídeo por meio da internet. Segundo estudo da Cisco divulgado ano passado,  80% do tráfego da internet em 2019 será de vídeo. Desse total, 66% do consumo será endereçado a dispositivos móveis (cuja banda já é limitada desde os primórdios). Este crescimento exponencial do vídeo vem dos “millenials”, que praticamente abandonaram a TV e passaram a divertir-se e informar-se por meio do You Tube  e de OTTs como Netflix, Hulu e HBO GO (sem contar que ouvem música também em streaming com Sportify, Deezer, Rdio etc, e trocam mensagens e mandam mensagens de texto, voz e vídeo por zapzap, Messenger, Telegram…).

Este é um movimento mundial, mas aqui no Brasil apresenta duas particularidades, que, juntas, deixam o consumidor brasileiro em palpos de aranha (antiga essa, hein?). A primeira, já apontei acima: há um oligopólio no fornecimento de banda larga fixa. A Anatel, como agência reguladora, em teoria, deveria ter impedido isso – SQN, pelo motivo óbvio de que os seus dirigentes foram ou serão empregados quando deixarem a autarquia, no mínimo como consultores, pelas empresas que devem controlar. Dessa forma, o que Oi, NET e Vivo disserem que é em termos de banda larga fixa é o que provavelmente vai ser.

A segunda é que os três grupos que dominam a infraestrutura de banda larga fixa são também dominantes na prestação de serviço de TV por assinatura, com 68,4% do mercado , no total. Assim, elas são concorrentes de You Tube e Netflix (e também serão da HBO GO, que está para chegar aqui) e, obviamente, têm todo o interesse em prejudicar seus concorrentes, que usam banda, ganham uma fortuna e, segundo as operadoras, não têm as mesmas obrigações tributárias que elas  – incluindo o Condecine, que a Ancine (a agência que regula a área audiovisual) está demorando éons para regular em relação às OTTs de vídeo (leia-se Netflix).

Diante desse quadro, as operadoras resolveram partir para a ignorância em cima de nós, a fim de pressionar o governo a tributar as OTTs (as que podem fazer chamadas de voz, tipo zapzap, estão dentro disso) e pressionar estas a pagar um pedágio maior do que nós, seres humanos, a fim trafegar seus pacotes de dados em seus cabos sob o argumento de que usam mais “espaço” (banda) do que nós.

E, no caso do governo, deu certo parcialmente. O governo diz que vai defender o distinto público ao exigir um “compromisso público” das teles de manterem a banda larga fixa ilimitada. Bacana, né? SQN de novo. Se você não entendeu o que Luís Osvaldo Grossmann explica, vou tentar esclarecer.

Digamos que hoje você paga R$ 200 por seu plano. Com a ideia do governo, as teles podem criar planos inferiores, com franquia, custando menos. Aí, vai acontecer uma dessas três coisas:

1. Aos poucos, que nem sapo sendo cozido em água aquecida devagarzinho, você, ao longo do tempo, pagará mais e mais para manter o seu padrão de consumo de internet e ficar vendo conteúdos pelos serviços de streaming (Netflix, HBO GO, You Tube) e mandando mensagens por zapzap, Messenger etc. Resultado: as teles ganham e você perde.

2. Você deixa de assistir conteúdos de vídeo via streaming e volta para TV por assinatura (a queda de consumidores destas é fato notório e constante há meses). Resultado: as teles ganham e você perde.

3. Serão oferecidos planos com “uso gratuito” de aplicativos, como já se faz na telefonia móvel, pois as OTT integrantes do plano pagarão por você. Resultado: a teles ganham e você perde por ter suas poder de escolha limitado.

De todas as formas, de uma maneira ou de outra, o Marco Civil da Internet, um dos melhores marcos legais de internet do mundo e que levou anos para ser construído por toda a sociedade, iria para as cucuias, especialmente seus artigos 2 (incisos III e V) e 7 .

Abre parênteses. Há uma quarta possibilidade, que pode vir em paralelo às de acima: as OTTs passam a recolher os mesmos tributos das TVs por assinatura e são obrigadas a pagar um pedágio maior para trafegar nos cabos. As OTTs precisarão repassar esse custo, claro. Resultado…Ah, você sabe. Fecha parênteses.

Agora, diante do exposto, você já viu quem vai “pagar o pato”, como diz aquela federação patronal golpista, dessa situação toda, certo?

#aGlobodeveserdestruida

Tiro longo

A defenestração de Eurípedes Alcântara da chefia de redação da Veja, compreensivelmente, chamou a atenção dos coleguinhas na semana que passou. No entanto, a mudança fundamental ocorreu no escalão mais alto do Grupo Abril, com a saída de Giancarlo Civita da presidência da empresa e a contratação do publicitário Walter Longo para o cargo.

Longo é respeitado na área de publicidade, onde se destaca como palestrante. Do público de fora da confraria, ficou um tanto mais conhecido após ser o braço-direito de Roberto Justus no reality “O Aprendiz”, onde suas frases de efeito faziam sucesso entre aspirantes coxinhas a grandes executivos. Não será a primeira vez que Longo trabalhará na Abril – nos anos 90, foi chamado para salvar a TVA (para quem não se lembra ou nem era nascido, a aventura da Abril na área de televisão paga) do naufrágio. Não conseguiu, talvez por ter se dedicado mais à prestidigitação com números a fim de elevar a confiança do mercado publicitário do que em realmente produzir algo.

Dessa vez, a missão de Longo é ainda mais ingrata. Ele tem em mãos um grupo cujo produto principal foi apanhado bem no meio da revolução digital sem muito tempo para se defender – e nem, demonstrou-se ao longo dos anos, capacidade para tal. A situação da Abril é muito ruim, para dizer o mínimo. Revista, como conhecemos hoje, é um produto mantido por aparelhos, virtualmente (com trocadilho) morto num tempo em que o fluxo de informações não se mede mais por dias, mas por horas e até mesmo minutos.

Assim, a missão do publicitário é tocar, em ritmo de marcha forçada, a migração das revistas que sobraram da Editora Abril para o digital. Mas não é só isso (o que já seria complicado, pois a rota para o digital é cheia de abrolhos e redemoinhos ainda não foram mapeados). O meio Revista (assim como o jornal) apresenta todo um caríssimo esquema de apoio nas áreas de impressão e distribuição. São imensos parques gráficos e um sistema de logística especializado em fazer os exemplares chegarem a tempo e a hora nas mãos dos assinantes. O que fazer com todo esse esquema agora que não é necessário mais imprimir nada e a distribuição é feita diretamente no aparelho móvel nas mãos do leitor? Vender? Para quem, se é o meio todo que está indo pelo ralo?

Ruim, né? Mas tem mais.

Walter Longo terá que cumprir sua missão sem dinheiro e sob dois fogos. De um lado, o governo federal, que impôs cerco publicitário depois daquela capa inacreditável da edição da Veja no fim de semana da eleição de 2014. O governo só mudará a estratégia se for completamente tapado. Até por sua deficiência em leituras teóricas, Nove-Dedos achou que os “barões da mídia” eram apenas inimigos políticos com os quais se podia negociar. Não são. Marinhos, Frias, Mesquitas, Sirotskys etc são inimigos de classe, eles realmente têm desprezo por quem está abaixo deles na escala social – o que inclui a parte da classe média que tanto os veem como exemplo -, o qual se transforma em ódio quando membros das “classes perigosas” exigem seus direitos como seres humanos. O atual governo, composto por gente que, pelo menos supostamente, leu ao menos os livros fundamentais, não terá desculpa se cometer o mesmo erro de N-D.

Só que o cerco publicitário nem é o maior problema de Longo. Pior é o “fogo amigo” que poderá vir da pesadíssima artilharia do Naspers.

O Naspers é um grupo sul-africano de mídia, a maior companhia da África (toda, de qualquer setor) e a sétima maior do mundo em internet, que ajudou a criar e, por décadas, apoiou (e cresceu sob) o regime do “apartheid”. Em 2006, o grupo comprou, por R$ 868 milhões (pouco mais de R$ 1,5 bilhão, corrigido pelo IPCA até janeiro deste ano) 30% do capital do Grupo Abril. Por anos, fiéis a sua história, os sul-africanos fingiram que não viram a política dos Civita de atacar os governos que promovem a inclusão social no país.

Só que tem uma coisa que o Naspers detesta mais do que não-brancos – é perder dinheiro. Até 2010, quando as empresas brasileiras foram obrigadas a adotar a International Financial Reporting Standards (IFRS), as normas de contabilidade internacionais, os Civita ainda conseguiram dar uma enrolada nos sul-africanos. No entanto, depois que as normas permitiram a comparação de resultados, viu-se a situação desastrosa e que a Abril se encontrava, o que foi devidamente registrado em 2014 pelos auditores independentes.

O susto dos sul-africanos foi grande e a pressão começou. No fim do ano passado, como previsto no relatório da auditoria, os Civita tiveram que se coçar e bancar 70% das dívidas, o que deu R$ 450 milhões. Ainda assim, sobrou para o Naspers, que, óbvio, não gostou nada e manteve a pressão sobre a família, que, por fim, teve que largar o osso. No caso, nas mãos de Longo, que, agora, terá que apresentar resultados reais. E bem rápido.

O tempo e o coleguinha

Uma das coisas mais divertidas – quando acontece na área dos outros, claro – é ver como os coleguinhas procuram sempre puxar a “realidade real” para o mundo paralelo das redações. Neste mundo, a Terra gira em 60 minutos em torno de si mesma e 24 horas é ano. Esse comportamento maníaco e arrogante provoca situações hilárias como a que aconteceu na semana passada por ocasião da votação das regras do impeachment pelo STF.

O mais gozado, como tem acontecido com frequência, foi o Merval Pereira. O colunista amestrado do Globo foi do endeusamento do Supremo, após o voto de Édson Fachin, num dia, ao estrebucho contra a Corte, na edição seguinte, quando os outros magistrados derrubaram todos os pontos do membro mais novo do colegiado (abaixo, com direito à estranha “quase unanimidade”). Mas não foi só o nosso colunista-bobo da corte favorito que demonstrou não ter noção – o analista-sabe-tudo Paulo Nogueira, do DCM, fez o mesmo, em sentido contrário, e até uma repórter da TV Globo, na edição do jornal Hoje um dia após o fato, falou como se o voto de Fachin definisse a questão.

 

merval stf

 

O imediatismo sempre foi um problema na relação entre os jornalistas e os seres do mundo real, mas que se agravou com as redes sociais e sua histeria. Se antigamente já era complicado trabalhar com o prazo de 24, agora é quase impossível que os coleguinhas entendam que todo mundo – setores, instituições, pessoas – tem agenda e elas são de médio e longo prazo. Assim, Fachin pode ter achado que seu voto que facilitava o golpe o ajudará, lá na frente, a obter com maior facilidade o avanço em temas que estão em sua agenda. Se pensou assim mesmo, só ele pode dizer – e, se pensou, creio, com todas as vênias de estilo, está incorreto -, mas é plausível.

Tenha ou não o ministro Fachin pensado desta forma, não importa aqui. A questão é que os coleguinhas têm obrigação de, sem tirar os olhos deles, pensar adiante dos fatos. Precisam saber, pelo menos, como funcionam as instituições que estão cobrindo para não dar como certo, por exemplo, que um voto de um ministro de tribunal superior, mesmo sendo o relator, é definitivo. Ou que o fato de uma usina hidrelétrica ou térmica em uma determinada região estar fora de ação não significa que vá faltar energia naquela região.

E nem o fato de que as redações estão cada vez menores com os seguidos passaralhos e, portanto, não comporta mais o setorista ou especialista, serve de desculpa. Consultas razoavelmente bem feitas de menos de um minuto ao Google são, em geral, suficientes para a obtenção de informações básicas sobre um tema não muito bem conhecido. Sem contar que, em caso de necessidade de aprofundamento, há quase sempre um especialista ao alcance de um email para esclarecer melhor a questão, servindo ou não de fonte para as matérias.

Há muitos coleguinhas nas redações – e o número tem crescido – acreditando que basta apenas bater no governo e agradar os políticos e empresários amigos da casa para garantir o emprego. Essa estratégia pode funcionar um ano, talvez dois, mas é muito complicado – precisa-se uma personalidade com vocação para capacho rara de encontrar e um tanto difícil de desenvolver – para basear uma carreira inteira nela. Pode parecer conselho de “velho homem de imprensa” (e até é mesmo, admito), mas o mais certo, no médio e longo prazos, é apostar no profissionalismo e na honestidade.

Peneirando a PBM-2015 (XIII) – Confiança, por escolaridade, veículos internet

Parafraseando o hino do Maior Clube de Todos os Universos, “quem insiste, sempre alcança”. Assim, finalmente, depois de sete meses (a primeira postagem foi de 12 de abril), acabei de peneirar a Pesquisa Brasileira de Mídia de 2015 (PBM-2015), realizada pela Secom da Presidência da República e cujos dados brutos você pode ver (e baixar) aqui. A última numeralha refere-se à confiança em sites, blogs e redes sociais, por escolaridade. Mas não espere muita folga de números e tabelas não – já tenho outras engatilhadas, sem contar, claro, que, se houver uma PBM-2016, ela será devidamente escovada ano que vem.

Assim, vamos à escovadela final !

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Entre os meios de internet, os sites são os que apresentam maior credibilidade, mas isso não quer dizer muito – a Média Brasil é de apenas 30%. Há, porém, uma notável diferença em relação a blogs e redes sociais, os outros dois veículos de mídia, no que se trata da escolaridade: entre a faixa que cursou apenas até a 4ª série do Ensino Fundamental, a credibilidade dos sites fica em 27%, 5 pontos percentuais abaixo do aferido entre os que possuem curso superior, a única faixa que supera a média, ainda assim dentro da margem de erro da pesquisa (que varia de 2% a 4%).

Em outro ponto, porém, os sites se igualam a blogs e redes – entre os tem até o 4º Fundamental, 11% não sabem ou não quiseram responder se confiam ou não nas notícias que veem. Constata-se, mais uma vez, que os que possuem escolaridade mais baixa ainda estão avaliando que bicho é esse de internet.

 

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Os blogs estão bem abaixo dos sites em termos de confiança do público (25% x 30% na média), os blogs, porém, contam com maior desconfiança entre o público de maior escolaridade. Enquanto os sites obtêm a confiança de 32% entre os que possuem curso superior, esse percentual desaba para apenas 23% no que se refere aos blogs. Em comparação, a diferença é de 5 pp na faixa logo abaixo (Ensino Médio) – 25% x 30% – e 3 pp na faixa até 4º Fundamental (23% a 27%).

 

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Em termos de confiança, as redes sociais não se diferenciam dos blogs – as RS possuem credibilidade de 26% em média (blogs 25%), com variação de apenas 2 pp entre a primeira e a última faixa (entre os blogs, é ainda menor, 1 pp, sendo maior na faixa mais baixa, ao contrário do que ocorre nas redes).

Peneirando a PBM-2015 (IX) – Confiança (internet)

Calma, que está quase acabando…Esta é a última parte do escovamento da parte da PBM-2015 que fala da confiança nos meios e é sobre a internet. IMHO (quem está na Rede há algum tempo sabe o que significa o acrônimo; quem não é, deve procurar na wikipedia para elevar o nível de ilustração internética) é a parte mais fraca da pesquisa por que ela junta, em apenas três categorias – sites, blogs e redes sociais –, uma miríade de nichos e possibilidades de cruzamentos.

De que tipo de sites estamos falando? De empresas jornalísticas tradicionais? Daquelas nativas da internet (tipo Vox, Gawker, Huff Post, Vice etc)? De sites de portais? E blogs? Daqueles, tipo Coleguinhas, mantidos por um sujeito metido a gato mestre, ou daqueles com grife, de cabeças coroadas do jornalismo e apoio de equipe? Redes Sociais? Mas se elas têm funções e públicos alvos diferentes, tipo Facebook, zap-zap, Instagram, Snapchat, Twitter… Complica fazer análise, né?

Mesmo com todos esses senões, dá para constatar que a internet, como um todo, não goza de muita confiança do distinto. Talvez esse fato fosse de se esperar para um meio tão novo e mutante, mas, creio, ficou exacerbado aqui no Bananão pelo fato de que esta pesquisa foi realizada logo depois do final daquela carnificina midiática que foi o processo eleitoral do ano passado -e que continuou este ano, assim, teremos oportunidade de fazer uma comparação interessante com a PBM de 2016 (se é que ela vai haver, com os cortes do Levy), e não só no meio internet.

Bem, então vamos aos gráficos.

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Os sites são, na média, um pouco mais confiáveis do que os blogs e as redes, muito provavelmente pela inclusão dos sites de empresas jornalísticas, tradicionais ou não. Eles devem ter feito subir para 30% o índice de confiabilidade.

Nos sites aparece um ponto que é ainda mais forte nos resultados de blogs e redes: quanto mais idosa a faixa, mais há não respondentes sobre confiança. Assim, na faixa acima de 65 anos, apenas 86% responderam ao questionário (32% confiam/confiam muito, 56% não confiam/confiam pouco), ou seja 12% deixaram de opinar sobre suas crença (ou falta de) nos sites – para efeito de comparação, sobre o meio jornal houve apenas 2% de não respondentes. O fato parece indicar que as pessoas mais idosas não sabem bem o que pensar desse bicho chamado internet.

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Blogs têm a confiança de apenas 25% na média (mas 29% entre os acima de 65 anos, quase alcançando o índice dos sites). O índice de não respondentes ao questionário é ainda maior do que o encontrado no que se refere aos sites – chegando a 16% na faixa acima de 65 anos.

 

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Sobre as redes sociais, os respondentes da PBM-2015 têm uma opinião mais firme – em todas as faixas o índice de resposta está abaixo de 10% -, mas ela é tão ruim quanto àquela referente aos blogs: apenas 26%, na média, confiam no que leem (e, possivelmente, no que veem) na rede. Também na faixa acima dos 65, a índice de não respondentes atingiu 16%.

 

No geral, pode-se inferir que as más notícias para internet são boas para os meios tradicionais, lhes dando um fôlego a mais na luta pela sobrevivência. Mas só poderíamos ter certeza maior disso com o cruzamento com outras pesquisas do gênero, e, claro, com a melhora da clareza neste campo da PBM-2016, se ela vier mesmo a ocorrer.