A eleição e os limites da checagem de fatos

Não deu nem para saída e a sequência acima, do twitter de uma mais das mais respeitadas checadoras do país (inclusive por mim), se não é um jogar de toalha, é demonstração de impotência diante dos estreitos limites do “fact checking” que ficaram patentes nesta eleição. Já ficou claro que mesmo com iniciativas como a do Facebook – no qual a checadora acima está inserida – e do Projeto Comprova, a checagem de fatos tem ainda um longo caminho a percorrer para ser útil – se realmente isso for possível.

Além do fato de não ter acesso às fontes das “fake news”, que são múltiplas, espalhadas e mutantes, a checagem de dados enfrenta dois obstáculos, um de ordem filosófica, outro oriundo da evolução. Como próprio nome da atividade diz, o trabalho se concentra em verificar se as informações que circulam por aí, principalmente nas redes sociais, são verazes e, em caso positivo, se o são completamente ou não. Dessa forma, a abordagem dá como certo que os seres humanos tomam decisões com base em fatos, de maneira racional. Como sabe qualquer humano que já tenha lidado com outro humano, não há nada de mais falso.

Vamos fazer umas continhas (pensou que tinha escapado, hein?). Como a gente define civilização? Há um consenso de que foi quando o homem aprendeu a plantar e, gradativamente, se fixou nos lugares mais férteis e criou as cidades (cidades, civitas em latim, civilização… Ahn? Ahn?). Há uma enorme disputa para saber qual a cidade mais antiga, que, no momento, vem sendo ganha por Jericó, localizada em Israel, que teria cerca de 10 mil anos. Guarde isso.

Agora, quando surgiu o conceito de que devemos racionalmente olhar a natureza? Outro ponto de discórdia, mas, aqui no Ocidente, costumamos pôr o ponto inicial nos filósofos pré-socráticos, que passaram a procurar explicações racionais para os fenômenos (Tales de Mileto, considerado o primeiro, morreu há uns 2.600 anos). Eles, no entanto, não pretendiam provar algo recorrendo a provas físicas, mas em termos mentais, filosóficos (daí também serem conhecidos como “filósofos naturais ou da Natureza”). Ou seja, não procuravam explicações físicas para os fenômenos, não os checavam. Quando isso passou a ocorrer? Como não podia deixar de ser, há discordância nesse ponto também. De minha parte, voto em Galileo Galilei, o primeiro sujeito a teorizar sobre um fenômeno e depois ir lá checar na realidade se a sua teoria fazia sentido – e não fazendo, mudava a teoria (Ok, Leo da Vinci veio antes, mas era disperso demais para ser considerado cientista, era mesmo inventor). Galileo começou a publicar em fins do Século XVI e se tornou realmente famoso no início do XVII (foi processado pela Igreja em 1610).

Então temos que a civilização começou há uns 10 mil anos e a ciência como a conhecemos hoje, que tem como um pilar a checagem, há uns 500. Assim, a ideia de que fatos devem guiar nossas decisões existe há 0,5% do tempo da vida civilizada. Note que estou restringindo muito o período, pois só estou falando do surgimento das cidades para cá, esquecendo os outros milhares de anos durante os quais o “homo sapiens” habita a terceira pedra a partir do Sol (segundo a última contagem, 300 mil). Esse é o obstáculo evolutivo.

Obviamente, cinco séculos é muito pouco tempo para se mudar crenças arraigadas por 9.500 anos antes (no mínimo). Quer ver? Semana passada, na mesa de aniversário de uma amiga, presenciei uma mulher muito inteligente explicando, com o uso de definições com nomes bacanas, por que inferno astral não existe, sendo uma jabuticaba brasileira. Era uma astróloga. Astrologia…Uma “ciência” que afirma que uma pessoa nascida entre 23 de outubro e 21 de novembro é do signo de Escorpião e, por isso, tem sua personalidade determinada pela influência de uma constelação cuja estrela principal, Antares, está a 619,7 anos-luz da Terra. Prova empírica, passível de checagem? Nenhuma. Mas centenas de milhares (talvez dezenas de milhões) de pessoas em todo o mundo acreditam.

Esse é o limite da checagem de fatos, mais do que ter ou não acesso aos algoritmos de criptografia do What’s up (único modo de combater de verdade as “fake news” em aplicativo de mensagem instantânea é esse, para saber a fonte do boato, o que implicaria acabar com o produto, que tem como um de seus pontos de atração a suposta inviolabilidade das conversas enviadas por seu intermédio). As pessoas acreditam em algo não porque haja fatos a corroborá-los, mas por que têm experiências e preconceitos que a fazem escolher os fatos nos quais acreditar (e receber a aprovação do grupo, como você deve ter lido no link sobre o obstáculo evolutivo). Há assuntos (e mentes) em que os fatos pesam mais do que outros, claro, mas política certamente não é um deles.

Quero dizer que a checagem de dados deve acabar? Nada disso. Não só deve continuar como ser ampliada, passando a checar também empresas, associações de classe e ONGs, por exemplo, além de políticos. O que não pode, a meu ver, é mostrar-se como panaceia para evitar “fake news” e árbitro da verdade. Essa pretensão não passa pelo mais frágil processo de checagem.

A volta das numeralhas: o Digital News Report – 2018

Um monte bem abrangente de dados

Depois de um booom tempo, eis que volto às minhas numeralha com a análise da edição 2018 do Digital News Report do Reuters Institute, divulgado em junho. Antes, porém, um toque para a montoeira de gente que assinou o blog nas últimas semanas: os números são o feijão-com-arroz daqui – às vezes, passo meses analisando um relatório ou um levantamento que eu mesmo tenha feito. Assim, entenderei perfeitamente quem quiser cair fora.
Continua aí? Então, vamos lá.

Houve algum estranhamento quando o Facebook fez saber, por canais oficiais, que a eleição presidencial no Brasil era uma das prioridades da empresa e, não ficando apenas nas palavras, implementou programas visando “proteger” o pleito das chamadas “false news” (é o termo usado pela companhia). A explicação para este interesse todo pode ser inferido do DNR-2018. Nele, observa-se que, embora se mantenha como rede social dominante para propósitos gerais em 12 mercados importantes, com 65% de utilização na semana de realização da pesquisa -entre fins de janeiro e início de fevereiro -, mas sem crescimento, em termos de uso para obtenção apenas de notícias o “face” caiu de 42% para 36%, no mesmo período, em relação a 2016 (no Brasil também houve queda de 5 pontos percentuais, mas ainda está em 52%, 16 pp acima da média dos 12 mercados selecionados: Reino Unido, EUA, Alemanha, França, Espanha, Itália, Irlanda, Dinamarca, Finlândia, Japão, Austrália e Brasil).

Como se vê no gráfico, o zap cresceu na média dos mercados selecionados, assim como o Instagram. Ambos são do grupo de Mark Zuckerberg, mas têm menos penetração, em termos mundiais, e menor capacidade de gerar grana. Assim, apesar da queda do Facebook como fonte de notícias ter sido causada pela própria plataforma ao mudar os parâmetros de seu algoritmo – em meados de julho de 2017 e novamente em janeiro deste ano – a fim de reduzir o alcance das notícias e aumentar os conteúdos gerados pelos usuários, o tombo parece ter surpreendido Zuck, que resolveu tomar providências para elevar a confiança dos usuários no que é lido em sua plataforma líder.

A preocupação dos usuários com as chamadas “fake news” foi um dos pontos que ganharam força nesta edição do DNR: 54%, na média dos 74 mil respondentes dos 37 mercados abrangidos pelo estudo, se mostraram preocupados com a questão. No Brasil, porém, ela atinge o pico extraordinário de 85%, 14 pontos percentuais acima do segundo colocado – Portugal, ora pois -, obviamente devido à aproximação das eleições.

Só que há uma questão muito séria aí: as pessoas não sabem definir bem o que são “fake news”. Elas identificam como falsas não apenas as informações mentirosas ou torcidas, mas também o jornalismo ruim (erros na apuração, títulos que não condizem com as matérias etc) e a tal “publicidade nativa” (aqueles anúncios que parecem matérias jornalísticas). No gráfico abaixo, o “jornalismo ruim” foi o mais facilmente identificado por aqueles que se preocupam com a qualidade das notícias (42% entre 55%).

E é justamente aí que sobra para os “publishers”, as empresas que publicam as notícias: 75% dos respondentes do DNR disseram que a culpa pelas “fake news” ou pelo mau jornalismo são delas, acima até das empesas de tecnologia (71%). Infelizmente, não há uma pesquisa específica por país para esta questão e, assim, não sabemos o que os brasileiros pensam sobre o tema.

Com a desconfiança na mídia tradicional avançando, um espaço significativo se abre para sites e blogs politicamente orientados. O DNR-2018 investigou a questão em 10 países europeus, mais os EUA (mas não o Brasil, também infelizmente), e observou que há atenção sobre eles (muito mais nos EUA, Suécia, República Tcheca e Espanha do que no Reino Unido e na Alemanha), mas seu alcance real é bem menor, conforme os gráficos abaixo, sugerindo que seu alcance tem sido superestimado por parte da mídia tradicional. Esses sites utilizam largamente o Facebook para distribuição de seus conteúdos e por isso devem ser muito prejudicados pelas mudanças realizadas pela plataforma no início deste ano.

Estas observações enfocam apenas uma parte do DNR-2018. O estudo é muito mais vasto (tem 144 páginas) e você pode – deve na verdade – destrinchá-lo, caso se interesse pelo tema mídia digital. O arquivo completo você pode baixar aqui e, se quiser, dar uma olhada no vídeo que descreve as descobertas chaves. Na próxima coluna, falarei especificamente sobre o Brasil.

Finalmente! Chegou a hora de votar na primeira seletiva para o King of the Kings – 2018!

 

Demorei, e você já devia estar roendo os dedos de aflição, mas aqui está finalmente: a primeira seletiva para o King of the Kings, o único prêmio a reconhecer o árduo trabalho dos coleguinhas em prol da avacalhação do jornalismo brasileiro. Levei mais tempo esse ano para iniciar o processo seletivo por dois motivos: apertei ainda mais os critérios de escolha para apresentar uma concorrente – só cascatas muito grandes estão na lista, vocês verão – e também, de maneira mais estratégica, resolvi dar prioridade ao bom jornalismo que ainda restou no #SudãodoOeste, enfocado no Prêmio Marcos de Castro.

Isto posto, vamos às regras para a votação da primeira seletiva do KofK-2018:

1. Você pode votar em até seis concorrentes. Recomendo usar todos os votos, pois não será fácil escolher devido ao alto (ou baixo) nível das postulantes. As seis não escolhidas terão uma nova chance na segunda seletiva.

2. Haverá bastante tempo para conhecer (ou recordar) as cascatas – o pleito se estende até o dia 2 de setembro.

Mais um ponto antes apresentar a lista de concorrentes: caso você veja uma cascata que acredite estar apta a concorrer ao King of the Kings, não hesite em me enviar para avaliação.

Bem, agora, finalmente, fique com a concorrentes ao King of the Kings – 2018!

Fecomércio-RJ pagou R$ 68 milhões a escritório que defende Lula – Valor

PGR investiga senadora por entrevista à Al Jazeera – Estado de São Paulo

Veja descreve dia a dia de Lula sem nunca ter entrado na prisão – Veja

PF tenta livrar a cara de ter assassinado o reitor Cancellier – Rede Globo

Mídia comercial publica como independente estudo sobre cigarro de fundação bancada pela Phillip Morris – Vários

JN tenta provar que economia vai bem porque inflação é baixa – Rede Globo

Míriam Leitão tece loas a Pedro Parente 10 dias antes de começar a greve dos caminhoneiros.

Agência Lupa diz que visitante de Lula não tinha levado terço abençoado por Francisco I, acusa sites de esquerda de “fake news” e é desmentida pelo Vatican News

Jornalistas dão show de machismo na entrevista de Manoela D’Ávila no Roda-Viva – TV Cultura.

Folha “denuncia” que Dr. Bumbum trabalhou 15 dias no Palácio do Planalto durante o governo Lula

Míriam Leitão é usada como boneca de ventríloquo para rebater lembrança de Bolsonaro de que a Globo apoiou a ditadura

Folha publica matéria sobre PM lésbica e negra executada insinuando que ela era promíscua

Os deuses das “fakes news”

“Fake news” são os outros

A pouco mais de dois meses das eleições presidenciais que podem definir o futuro do Sudão do Oeste (ou seu sepultamento definitivo), os principais veículos de comunicação tradicionais iniciam um avanço para retomar o “monopólio da fala” por meio um ataque maciço, tipo “blitzkrieg”, contra a incipiente e confusa democratização da comunicação que poderia ser propiciada pela internet. Três movimentos realizados nos últimos meses – o lançamento do projeto Comprova, a divulgação das diretrizes de comportamento dos jornalistas do Grupo Globo nas redes sociais e ampliação do “É ou Não É” do G1 para o “Fato ou Fake”, que engloba todos os veículos do grupo – são, em minha visão, mais convergentes do que divergentes e, muito possivelmente, complementares.

Primeiro, o Comprova. Lançado em 28 de junho, e iniciando sua atividade oficialmente amanhã (6 de agosto), o projeto é financiado pelo Google News Iniciative e o Facebook’s Journalism Project, idealizado pela First Draft – projeto do Shorenstein Center on Media, Politics and Public Policy da John F. Kennedy School of Government da Universidade de Harvard, financiado, entre outros, pela Open Society, de George Soros, que parece estar em todos os projetos que envolvam comunicação -, com apoio da Abraji e do Projor. A ideia anunciada é de combater a “desinformação” que campeia nas redes sociais.

Objetivo dos mais meritórios, mas que, de saída, esbarra em alguns problemas, que já enumerei na página da Coleguinhas no Facebook, além de outros apontados por gente bem mais esperta do que eu (sem contar, claro, a presença de George Soros). Na verdade, o projeto já começa com um erro de checagem – afirma que são 24 veículos que o compõem. Mais ou menos: são 24 veículos, mas que pertencem a 16 grupos e empresas, pois o Grupo Band está representado por quatro (Band TV, Rádio Bandeirantes, Band News e Band News FM), o Grupo Folha por dois (Folha e Uol), e a Abril por dois (Exame e Veja).

Outra questão é a concentração geográfica dessas empresas e grupos. Treze ficam de São Paulo para baixo: nove têm sede em São Paulo (Band, Folha, Estado, Metro, Piauí, Nexo, Abril, UOL e SBT), dois no Rio Grande do Sul (Correio do Povo e GaúchaZH), um é do Paraná (Gazeta do Povo) e um de Santa Catarina (NSC Comunicação), ficando fora do eixo SP-Sul apenas Espírito Santo (Gazeta On Line), Brasília (Poder360), Pernambuco (Jornal do Comércio) e Ceará (O Povo). O problema é que esse desequilíbrio regional tende a criar um viés de cobertura, especialmente porque o projeto encoraja o compartilhamento de sua checagens por veículos que não fazem parte dele.

Esse viés de cobertura já seria ruim, mas há um pior. Considere o mapa abaixo, do resultado final do segundo turno das eleições presidenciais de 2014:

Agora compare os estados em que o candidato do PSDB foi mais votado com os estados em que se encontram os veículos participantes do Projeto Comprova. Pois é: 22 dos 24 têm sua sede nos estados em que os tucanos venceram. E não se diga que não tem nada a ver – no próprio site está dito que a operação foi marcada para começar em 6 de agosto, exatamente por ser a segunda-feira posterior ao prazo final para a indicação das chapas que disputarão a Presidência da República: “O foco inicial do Comprova é a eleição presidencial no Brasil, cuja campanha começa oficialmente em agosto.”

Antes de todos esses senões do Projeto Comprova, um outro chamara minha atenção, como estava no ponto um do post da página da Coleguinhas: a ausência do Grupo Globo. Como o maior grupo de comunicação do país não estava presente num projeto destinado a atacar a disseminação de notícias falsas na internet? A primeira parte da resposta veio logo depois com a inacreditável cartilha que determina como os jornalistas do Grupo Globo devem comportar-se nas mídias sociais, que você pode ler abaixo, junto com as justificativa para a sua edição, assinada por João Roberto Marinho:

A cartilha do Grupo Globo, ao tornar, na prática, seus jornalistas cidadãos de segunda classe por cassar-lhes o direito à livre expressão, fecha ainda mais o cerco à dissidências democráticas na internet brasileira, que começara com o projeto do Facebook envolvendo três agências de checagem brasileiras e que já disse ao que veio.

No entanto, o cerco ainda não estava completo, pois o GG não participa do Projeto Comprova. Agora está. No dia 30 passado, o Grupo dos Marinho lançou a sua versão do Comprova – o “Fato ou Fake”. É praticamente igual ao irmão um tanto mais velho, com um aperfeiçoamento – um robô que espalhará as checagens do Grupo Globo que fazem parte da iniciativa (CBN, Época, Extra, G1, Rede Globo, Globonews, O Globo e Valor). O Comprova não tem essa funcionalidade, mas o também recém-lançado robô Fátima, cria da parceria do quase onipresente e onisciente Facebook com a agência de checagem Aos Fatos, pode bem suprir essa carência por vias transversas, já que a empresa de Mike Zuckerberg dá suporte a ambas.

Como, pelo que os próprios criadores dos projetos deixam a entender, apenas os posts das redes sociais são as criadoras e disseminadoras de notícias falsas, segue-se que as notícias publicadas por qualquer um dos veículos componentes das duas iniciativas – Comprova e “Fato ou Fake” – não serão checadas. Parte-se do pressuposto que esses veículos, ligados a grupos hegemônicos de comunicação do país, sempre dizem a verdade e/ou trabalham com fatos. Não estão e nunca estarão sob suspeita, ao contrário de qualquer outro que não faça parte desse restrito clube. Dessa forma, não há opção: será “fake news” o que os 24 veículos do Comprova e os oito do Grupo Globo disserem que é. E fim de papo.

O dia em que tomei “caneta” de uma garota

Manu na cova das hienas

Num post na página da Coleguinhas no Facebook, coloquei em dúvida a sabedoria de Manuela D’Ávila em ir a um covil como é o Roda-Viva, programa que um dia já teve relevância por suas boas entrevistas, mas que, desde 2013, quando começou a ser ancorado por Augusto Nunes, não pratica jornalismo e, por este motivo, deixou de ter audiência (houve uma exceção que diz muito sobre essa fase). Assim, ninguém vai ao Roda-Viva em busca de apresentar projetos para a população ou responder perguntas “neutras, imparciais e objetivas”, segundo o cânone ideológico do jornalismo. Vai para ser bajulado ou tomar porrada. Manu e seus marqueteiros sabem bem disso – então por que ela foi lá?

A resposta ao singelo comentário foi surpreendente. Com um nível de agressividade que jamais tinha visto, pessoas que se diziam de esquerda – ecoando muito de perto aquelas de direita – responderam, com presteza dignas de “ciborgues”, aqueles humanos que controlam contas robôs nas redes sociais (desconfio que alguns são mesmo, dado os perfis que fui verificar). O fato acendeu a luz amarela e resolvi pensar melhor na questão e fuçar um pouco.

Manu e seus assessores podem ser muita coisa, inclusive defensores do estalinismo (o PCdoB ainda defende a linha albanesa de Enver Hoxha?), mas burros não são. Assim, como escrevi acima, eles sabiam o que ia acontecer no Roda-Vida. É impensável, por exemplo, que a Manu não tivesse conhecimento de que haveria um “bolsominion” de alto escalão entre os entrevistadores porque a primeira pergunta de qualquer assessor recém-saído da faculdade, quando recebe demanda para um debate, é: “Quem vai estar lá?”. E só leva o convite ao cliente depois que checar cada nome em profundidade – e, no dia, certificar-se que o “line-up” foi mantido. Dessa forma, Manu não foi surpreendida com nada do que sofreu ali, nem mesmo com “manterrupting”.

“Ok, então mas por que foi?”, perguntará você. Exatamente para sofrer o bullying que sofreu, respondo.

Pelo levantamento semanal da Factual Informação e Análise e da AJA Media Solutions, o discurso feminista é que tem mantido Manu entre os candidatos mais relevantes no twitter (o levantamento não abrange o facebook), mesmo ela tendo apenas 1% das intenções de voto, um feito e tanto de marketing viral. Perdeu essa posição na semana de 8 a 15 de junho, recuperou-se na semana seguinte, mas tinha um problema – estava previsto que, no dia 26, Lula seria julgado pela segunda turma do STF, podendo ser solto. O julgamento não aconteceu devido a uma manobra de Verme Fachin, mas foi pensando nele, e na exposição que Lula novamente teria, que Manu aceitou ir para aquela arena como cristãos iam para o Coliseu. Como a sorte ajuda os competentes, Lula não foi julgado e a jogada que a candidata e seus marqueteiros montaram saiu melhor do que a encomenda – ela reinou sozinha no campo da esquerda como a vítima esquerdista (e feminista, não esqueça) da semana.

Confesso que tenho um fraco por gente competente (desculpe, professora Marilena Chauí) e por isso fiquei encantado com a jogada brilhante de Manu. Ela me enganou direitinho. Na gíria do futebol, “caneta” é a bola entre as pernas, o drible mais desmoralizante do jogo (mais do que o lençol). Pois é. Levei “caneta” de uma garota e estou aqui para aplaudir.

Agressões a jonalistas: os coleguinhas e a ‘guerra híbrida”

Já chegamos à fase das pedradas…

“Também havia bons sujeitos no exército alemão.”
(Nílson Lage, jornalista e professor aposentado, ex-UFSC, UFF e UFRJ)

As agressões a jornalistas por parte de cidadãos têm se multiplicado nos últimos tempos, sejam eles de grandes grupos de mídia ou de organizações alternativas. Tais ataques são sempre repudiados tomando por base a liberdade de imprensa e a defesa da democracia – embora tais repúdios normalmente ocorram apenas quando as agressões e intimidações atingem profissionais da mídia “mainstream” atacados por pessoas identificadas como de esquerda e raramente, quase nunca, quando os agressores são de direita e os alvos, jornalistas da mídia alternativa.

Esse tipo de agressão não é exatamente uma novidade na história da imprensa, especialmente no Brasil. No entanto, sua crescente disseminação tem sido atribuída à “polarização” da sociedade, que faz com que os jornalistas fiquem mais expostos. Não chega a ser uma explicação errada, mas parece incompleta por não levar em conta o papel da própria mídia nesta situação “polarizada”. Uma abordagem que se pretenda mais completa deveria levar, em minha visão, em consideração um quadro maior, não restrito às fronteiras do Brasil, observando a questão sob um ângulo mundial. Partindo dessa premissa, creio que uma explicação mais abrangente deveria abarcar o conceito de “guerra híbrida.

“O consenso internacional sobre ‘guerra híbrida’ é claro: ninguém a entende, mas todos, incluindo a OTAN e União Europeia, concordam que é um problema”. Assim começa o estudo, datado de janeiro de 2017 e assinado por Patrick J.Cullen e Erik Reichborn-Kjennerud, do Instituto Norueguês de Estudos Internacionais, elaborado com colaboração de especialistas de outros 11 países-membros da OTAN (incluindo os EUA) e da União Europeia, que compõem o Multinational Capability Development Campaing (MCDC), no âmbito do Projeto de Contenção da Guerra Híbrida.

O problema de definir o que é “guerra híbrida” é que ela se caracteriza por não ser apenas levada a cabo com armas – embora o recurso a elas esteja longe de ser descartado -, mas lançando mão de uma série de ações sincronizadas “de múltiplos instrumentos de poder” usando “elementos criativos, ambíguos, não-lineares e cognitivos da guerra”. Para piorar, por apelar fortemente para elementos não-bélicos, a “guerra híbrida” pode ser travada não apenas por estados, mas “por qualquer ator que seja capaz de utilizar instrumentos de poder para explorar vulnerabilidades específicas através de toda a estrutura de uma sociedade visando atingir efeitos sinérgicos” – esta é a definição do estudo do MCDC para “guerra híbrida”, em tradução livre.

Na “guerra híbrida”, cada espaço de batalha é único e, portanto, a estratégia pensada para cada caso, desenhada de forma a aproveitar – e intensificar – as vulnerabilidades da sociedade alvo. Estas vulnerabilidades podem ser encontradas em cinco instituições de uma dada sociedade: militar, econômica, política, cívica e informacional (MPECI, na sigla em inglês). Os estrategistas de uma “guerra híbrida” devem usar quaisquer meios para, explorando fraquezas nessas dimensões, atingir um determinado fim em detrimento do estado atacado.

O MCDC em seu estudo enfoca dois casos concretos: a ação do Estado Islâmico na Síria, ente 2012 e 2014, e o da Rússia na Ucrânia, no período 2013/2015. Obviamente, não menciona os casos em que seus associados usaram a guerra híbrida contra outros estados. Assim, não fala dos ataques a Honduras (2009), ao Paraguai (2012) e aos que estão ocorrendo na Venezuela e no Brasil, todos perpetrados pelos EUA, sem mencionar as chamadas “primaveras árabes”.

O que nos interessa aqui, claro, é o nosso caso, que começou, com tem se tornado cada vez mais evidente, com as chamadas “Jornadas de Junho”, em 2013. Quem tem memória melhor pouquinha coisa há de recordar que, num primeiro momento, comentaristas do Grupo Globo atacaram as manifestações, mudando rapidamente de opinião a partir do momento em que a organização empresarial da Família Marinho passou a pautar os protestos, num roteiro que seguiu pelos anos seguintes, atingindo seu auge em 2015 e 2016, culminando com o impeachement de Dilma Rousseff, em 17 de abril de 2016, e ainda não terminado.

Aqui abro parênteses. Há a percepção, entre os que perceberam a mão da inteligência dos EUA guiando os protestos, de que eles foram montados desde o início. Embora possa ter sido realmente assim, não creio, pois os protestos contra aumentos de passagens liderados por jovens têm tradição na história urbana do Brasil do Século XX (1930, 1947, 1959, 1987). Entre os predicados exigidos por estrategistas e operadores na “guerra híbrida” está a capacidade de avaliar bem as oportunidades que se apresentam para explorar as vulnerabilidades da sociedade inimiga, e a velocidade e flexibilidade para explorá-las. Assim, o mais provável é que os operadores tenham visto nos protestos do MPL uma boa oportunidade para desfechar um ataque. Essa hipótese explicaria a súbita virada de 180 graus nas opiniões dos jornalistas do Grupo Globo sobre os conflitos. Fecha parênteses.

Os estrategistas estadunidenses, então, por meio de seus acólitos nacionais, exploraram algumas das imensas vulnerabilidades da nossa sociedade:

Militar: Os militares brasileiros possuem notória má formação intelectual que os fazem ser facilmente manipuláveis quando se agitam bandeiras como “fim da corrupção” e “perigo comunista”, esta principalmente quando empunhada pelos norte-americanos, com quem as Forças, especialmente o Exército, possuem tradição de cooperação que remonta à Segunda Guerra Mundial.
Política: O sistema político brasileiro é largamente disfuncional há muito tempo, tendo construído uma classe política que se põe distante das reais necessidades daqueles que dizem representar.
Econômica: A dependência das commodities, sejam agrícolas, sejam minerais, são um calcanhar-de-aquiles histórico da economia brasileira.
Civil: A sociedade civil brasileira, construída em torno da escravidão que durou quase 400 anos, tem fraquíssima coesão interna, sendo manipulada com facilidade, especialmente os estratos médios, do qual fazem parte os militares, considerados por seus pares como reservas morais da sociedade, e o Judiciário.
Informacional: O Brasil tem a característica de apresentar concentração midiática em mãos de apenas um conglomerado privado, o Grupo Globo. Esse poder é avassalador, pois o Grupo tem a capacidade de estar em contato diário com praticamente toda a população do país, em especial por intermédio de sua rede de televisão, o meio mais abrangente do país.

Como esta não é uma análise ampla de caso sobre a “guerra híbrida” aberta contra o Brasil, mas apenas a consequência de uma de suas facetas, vamos ficar nesta, no caso a Informacional.

A população brasileira é historicamente pouco afeita a procurar informações, preferindo recebê-las já “embaladas” e, se possível “mastigadas”. Esta característica faz dos meios eletrônicos – sejam os tradicionais rádio e TV, seja a nova internet – a fonte privilegiada por onde recebe informação, a qual consome de forma passiva (tendo uma face ativa recente na internet por meio do compartilhamento acrítico, via redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas).

O poder avassalador do Grupo Globo apontado acima, como não poderia deixar de ser, é observado também na área de jornalismo, como se pode observar abaixo, em dados do período de 16 de abril a 20 de maio, obtidos do Kantar Ibope Media:

Assim, no caso específico da sociedade brasileira, não havia arma mais poderosa do que a Rede Globo para ser usada na “guerra híbrida” contra o Brasil. E era uma arma ao alcance das mãos estadunidenses há muito tempo – afinal, o acordo com a Time-Life, dos EUA, nos anos 60, que propiciou a estruturação da empresa não poderia ser esquecido. Assim, não foi complicado para os estrategistas da “guerra” conseguirem fazer funcionar sua arma de destruição em massa mais poderosa, uma espécie de “Estrela da Morte” informacional.

Por si só, o poder quase monopolístico da Globo já traria os outros veículos para o lado dos EUA, mas havia um outro motivo. Como qualquer companhia privada de algum peso econômico no Brasil, as empresas de comunicação (incluindo o Grupo Globo) têm a maior parte de seus ganhos advindos não de sua atividade-fim, mas de aplicações financeiras . Ora, o mercado financeiro é, juntamente com as empresas de petróleo, os maiores financiadores da “guerra híbrida” levada a cabo pelos governos do Ocidente (China e Rússia têm outros tipos de financiamento, estatal). Sob a dupla pressão do monopólio da Globo e dos seus próprios interesses financeiros, os outros veículos entraram de cabeça na defesa do impeachment de Dilma Roussef.

Com tomada ostensiva de posição em favor da derrubada de Dilma, a Rede Globo (e todos os veículos que a acompanharam) romperam com o sacrossanto acordo social de que o jornalismo é o meio entre a sociedade e o poder, agindo de modo “isento, imparcial e objetivo”. Por mais que esse modo de ação seja apenas uma ilusão ideológica, ainda assim é sobre ele que se apoia a credibilidade do veículo e o respeito do cidadão aos profissionais que o representam. Quando a Globo e os outros grandes veículos quebraram esse acordo, os dois pontos se perderam.

Só isso já seria muito ruim, mas houve mais. Dilma Roussef foi identificada como a causa de todos os males econômicos e sociais que o país atravessava. Não se passou muito tempo para que a trapaça dos veículos caísse por terra – a situação, que não era boa, tornou-se trágica. Para piorar, os veículos do Grupo Globo por meio de seus profissionais mais proeminentes, como Míriam Leitão, Carlos Alberto Sardemberg, Merval Pereira, William Bonner e mais alguns, insistiram por muito tempo em defender os atos do governo de Michel Temer, mesmo aqueles que claramente mais dificultavam a vida e destruíam os direitos da população, em especial a mais pobre, como a PEC dos Gastos, a Reforma Trabalhista e Reforma da Previdência (que não passou).

Dessa forma, a frustração e a raiva cada vez maior contra um governo ilegítimo e antipopular acabou sendo carreada para aqueles que, fora dele, mais o defendiam de público – os jornalistas, em especial, claro, os do Grupo Globo e, dentro deste, os de TV. Assim, não chega a ser nenhuma surpresa que as agressões a jornalistas, em especial de TV, com maior foco ainda nos profissionais da Rede Globo, tenham se multiplicado. Mesmo sem possuir uma visão abrangente da questão, os cidadãos brasileiros, principalmente os mais politicamente engajados, mas não apenas eles, sentem que os jornalistas fazem parte de um “exército inimigo” que estão atacando seus direitos mais elementares. Pode ser que a esmagadora maioria dos profissionais não mereça esse julgamento, mas, como diz o personagem de Clint Eastwood, no faroeste os “Os imperdoáveis”, antes de fuzilar o de Gene Hackman, “merecer não tem nada a ver com isso”.

Portanto, o mais provável é que, nos próximos tempos, as agressões e intimidações contra profissionais de jornalismo durante o exercício de seu trabalho se multipliquem. E não adiantará falar de respeito à liberdade de expressão e/ou de imprensa e lembrar que é apenas um trabalhador ou mesmo que defende pessoalmente as mesmas posições do agressor, pois não é nada pessoal – apenas guerra é guerra.

Agência Sportlight e Ponte emplacam duas matérias cada na final do Prêmio Marcos de Castro e lideram Troféu Elaine Rodrigues

Um brinde à Sportlight e à Ponte

 

A Agência Sportlight fez barba e cabelo na primeira seletiva do Prêmio Marcos de Castro de Jornalismo na Internet ao emplacar as suas duas representantes entre as seis classificadas para a final da premiação. Com isso, a agência-de-um-homem-só – Lúcio de Castro, filho do homenageado – assumiu a liderança do Troféu Elaine Rodrigues, que reconhece a redação que emplacou o maior número de matérias na final, mas não sozinha: a Ponte Jornalismo também pôs duas matérias na finalíssima e divide a primeira colocação.

O resultado da primeira seletiva foi o seguinte:

  1. Eletrobras contrata, sem licitação, agência de comunicação para falar mal de si mesma. (Agência Sporlight) – 15 votos (23%).
  2. Operador de Aécio em Furnas abriu empresa em paraíso fiscal mesmo com Lava-Jato em andamento (Agência Sportlight) – 8 (12%)
  3. Alunos negros enfrentam racismo de colegas e até professores em sala de aula (Ponte Jornalismo) – 8 (12%).
  4. Salgueiro: cidade do Sertão de Pernambuco é o espelho de destruição de economia do país pelo golpe de 2016 (Marco Zero) – 8 (12%).
    /
  5. Governo de Pernambuco desmonta programa de sucesso contra violência e mortes crescem 75% em cinco anos (Ponte Jornalismo) – 7 (11%)
  6. Como os planos de saúde, recordistas em reclamação, se tornaram tão poderosos (Agência Pública) 7 (11%).

 

As três matérias que não se classificaram e voltam na próxima seletiva para a repescagem são:

Elza Berquo, a pioneira na pesquisa demográfica no Brasil (Revista da Fapesp).

PM de Minas persegue e tortura jovem apenas por que pode (Agência Pública)

Moça do asfalto sobre a Rocinha e aprende como é a vida em meio aos tiroteios. (Colabora)