Investimentos em publicidade da Administração Direta do Governo Federal (2011-2016) – II (Jornal). Ou “é pentelhando que se recebe” .

O que não faz uma pressãozinha exercida por um chato de galochas, né? Você deve lembrar que tenho cortado um dobrado há dois meses para obter os dados sobre a publicidade do Governo Federal fornecidos pela Secom desde o ano 2000. Usando a Lei de Acesso à Informação (LAI), fiz o pedido dos dados e a secretaria disse que só era responsável pela programação da Administração Direta (Presidência e ministérios), me chutando para os demais órgãos se eu quisesse mais informações. Recorri até a CGU, que pediu uns 70 dias para obter as informações. Pois bem. Na terça-feira, tive uma sensação e fui olhar de novo o lugar em moravam as planilhas e…voilá! Lá estavam os dados que a Secom dissera que não era obrigação dela obter. Aliás, tem até mais: o investimento publicitário das empresas que não concorrerem no mercado (ou seja, fora BB, Caixa, Petrobras e Correios, basicamente) e a AD.

No entanto, não vou interromper a numeralha do investimento da Administração Direta do Governo Federal, que comecei semana passada. Os motivos são dois:

1. Gosto de terminar o que começo.
2. Os dados de investimento que estou usando remetem ao que foi concretizado, em termos de anúncios. Já os que agora, após a empentelhação, a Secom disponibilizou, referem-se ao que foi programado para ser gasto – o que, na Administração Pública, chama-se empenho -, mas que pode ou não ter sido realmente efetivado. Esses dados servem para análises mais estratégicas, para saber, por exemplo, se o governo está gastando menos em jornais do que em internet, como se poderia esperar dada a queda de audiência e alcance dos primeiros e o crescimento concomitante da segunda mídia.

Para obter o que equivalente dos números da AD que estou mostrando na Administração Indireta – principalmente empresas estatais -, aproveitei o mole da Secom de ter escrito que devia procurar as empresas, já comecei a pedir dados iguais a elas. Até o momento, BB, Caixa e Petrobras, a primeiras felizardas, não se dignaram a responder, mas eu, claro, continuarei pentelhando.

Dito tudo isso, vamos aos dados de investimento em publicidade da AD federal nos três principais jornais do país, entre 2011 e 2016.

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Análise
1. Salta aos olhos a queda ocorrida de R$ 1.804.228,30 para R$ 718.786,40 entre 2012 e 2013 – cerca de 60%.

2. Esse novo – e muito mais baixo – patamar foi mantido até 2015, apesar da recuperação parcial de R$ 400.092,46, em 2014, que reduziu a perda de publicidade da Folha, Estado de São Paulo e O Globo para 38% do valor de 2012.

3. A recuperação total veio apenas em 2016, quando o valor total até superou o ano-base (2012) – R$ 1.839.431,24 contra R$ 1.804.228,30.

4. O maior dado da série é o de 2011, quando o investimento em publicidade da AD federal nos três maiores jornais do país atingiu R$ 1.919.224,43. Esse montante deve ser superado em 2017, pois, como mostra a tabelinha abaixo – apenas nos primeiros três meses do ano em curso, o montante já atingiu R$ 1.241.470,52, ou seja 64,7% do total de 2011 (e 67,5% do total de 2016).

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5. Tomando-se o ano com o patamar mais alto da série (2011) e comparando-o com o mais baixo (2013), o jornal que mais perdeu, percentualmente, foi O Estado de São Paulo, com 67,1% de redução, seguido pelo Globo (- 65,3%) e Folha, com -54,3%.

6. Já na retomada 2015/2016, o jornal dos Frias foi o mais beneficiado, com uma elevação 227,77%, com o dos Mesquita ficando com 168,33%, enquanto o dos Marinho teve de contentar-se com um crescimento “apenas” na casa de dois dígitos (81,62%).

7. Apesar de ter severas dúvidas sobre uma ligação mecânica entre as verbas publicitárias e os fatos políticos, não há como que os dados sugerem essa ligação de uma maneira mais forte nos jornais do que nas TVs. No período 2013-2015, quando a verba publicitária destinada aos três grandes jornais do país caiu drasticamente, estes elevaram em muito sua agressividade contra o governo federal, ao passo que, na retomada de 2016, ano transcorrido em sua maior parte sob o governo #ForaTemer, Folha, Estado e O Globo foram bem mais suaves em relação ao Governo Federal.

Com saudade? Pois vamos à primeira seletiva do King of the Kings-2017!

Já estamos em abril! Rápido, né? Então, já é hora da primeira seletiva do King of the Kings de 2017! Selecionei dez matérias e sei que você vai reclamar (“mas teve muito mais”) e devo concordar. No entanto, como faço há alguns anos – desde que os coleguinhas de redação perderam de vez a noção e a vergonha e passaram a cascatear como se não houvesse amanhã -, tenho sido muito rígido na escolha das cascatas que chegam à seletiva: elas precisam ser bem escancaradas, cabeludas mesmo, para chegarem ao seu escrutínio.
Como sempre, comecemos pelas regras:

1. Você pode votar em até seis (6) concorrentes entre as dez da lista.
2. Você ainda terá uma nova chance de votar nas quatro não classificadas, pois elas voltarão na próxima seletiva.
3. A votação terminará no próximo domingo, 9 de abril.

Agora, às concorrentes:

1. Estado de São Paulo acusa erradamente juiz do Amazonas de ligação com facção criminosa e ele passa a ser ameaçado por outra.

2. Apresentadora da Record diz que índios deviam ficar sem remédios contra malária para morrerem.

3. Exame usa exemplo de Mick Jaegger para defender reforma da Previdência.

4. Delegado da PF diz que não de precisa de provas para prender Lula, apenas “timing” certo. (Veja)

5. Maluco conhecido diz ter levado mala de dinheiro para Lula e IstoÉ dá capa.

6. Site 247 recebe informação de leitor, não checa e publica que presidente do Bird criticou governo por acabar com programas sociais

7. Procuradores da PGR dão “coletiva em off” para vazar nomes da Lista da Odebrecht. (Vários)

8. PF afirma que carne é enxertada com papelão e vitamina C é cancerígena e veículos publicam sem checar (Vários).

9. Folha usa foto de manifestação de 2016 para mostrar que protesto do MBL de 2017 foi um sucesso.

10. Elio Gaspari defende que Temer deve ficar porque “ruim com ele, pior sem ele”. (Folha e Globo).

 

Empreiteiras e veículos de comunicação, uma longa relação

Hoje vai ser rápido aqui, mas muito mais longo fora. Não sei se mencionei aqui – no facebook tenho certeza de que sim -, estou lendo “Estranhas catedrais: as empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, 1964-1988”, tese de doutorado na UFF de Pedro Henrique Pedreira Campos, professor do Departamento de História e Relações Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, editada pela EdUFF.

A pesquisa trata dos primórdios da relação entre as empreiteiras que hoje estrelam a Lava-Jato e o Estado brasileiro no tempo da ditadura civil-militar de 1964 (aquele tempo em que não havia corrupção no país, segundo alguns). Não vou enganá-lo/a – é leitura difícil mesmo, até por ter havido pouco esforço por parte dos editores para apagar as origens acadêmicas da obra. Estou há dois ou três meses capinando sentado em cima dela e só cheguei a cerca de 60% das 444 páginas (é certo, porém, que fiz leituras paralelas que lhe paralisaram o avanço por uns tempos). No entanto, se você quiser não falar muita besteira sobre a relação de odebrechts, queiroz galvões, andrades gutierrez et caterva com as sucessivas administrações do Brasil, a obra é incontornável.

Para os jornalistas, o capítulo 3 é o mais interessante por enfocar as relações entre a imprensa e as empreiteiras. Nesta parte é que encontramos apanhado sobre como os empreiteiros corrompiam – não há outra palavra – os grandes veículos de comunicação. É este subcapítulo que copiei do livro e disponibilizo em pdf aqui. São umas sete páginas que valem a pena ler.

Acusação de suborno do NYT pelo PT vence o King of the Kings de maior cascata de 2016

A acusação do colunista da Época Guilherme Fiúza de que o New York Times recebeu pagamento do PT para criticar #foraTemer, publicada em junho, foi eleita como maior cascata de 2016 pelos leitores da Coleguinhas. No pleito, que contou com o maior número de sufrágios (2.670) dentre as suas nove edições, a cascata da semanal da Editora Globo susperou por apenas dois votos – 171 a 169 – a segunda colocada, o lero da Veja de que Lula pediria asilo na Itália para escapar da Lava-Jato, chorumelada em março.

Abaixo as Dez Mais das cascatas de 2016, com seus respectivos autores (quando identificados):

 

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Alguns comentários sobre a eleição cascatal de 2016:

1. O título individual foi da Época, mas o melhor desempenho cascatal por equipe foi da redação do Estado de São Paulo, que, por este motivo, conquistou o Troféu Boimate

2. A redação do jornal cinquentecentão de São Paulo também teve o maior número de cascatas entre as Top Ten (3)

3. Metade das Dez Mais foi publicada em revistas semanais, com Época e Veja dividindo a primazia, com duas cascatas cada.

4. Numa divisão por assunto, a tentativa de encobrir o golpe de estado parlamentar e a Lava-Jato diretamente foram objeto de três cascatas cada, ficando ataques pessoais à presidente Dilma e o RP puro e simples para o Golpista, com duas.

Rufem os tambores! Que comece a eleição da maior cascata de 2016!

Não, meu caro/minha cara, 2016 ainda não acabou – sobrou um compromisso importante a ser quitado: a eleição da maior cascata do ano. Esta é a nona vez que o pleito é realizado de maneira seguida (em era anterior da Coleguinhas, era realizado de maneira esporádica). O King of the Kings – desculpe a falta de modéstia – é único no cenário do jornalismo brasileiro por não haver outro que reconheça o esforço e a determinação dos coleguinhas na busca pela completa desmoralização da própria profissão, quebrando aquele contrato tácito de que o jornalista deveria apenas contar a verdade da melhor maneira que pudesse a fim de que o leitor fizesse seu julgamento. Caso você tenha interesse em ver os premiados desde 2008 e a origem do nome do prêmio é só ir em “Hall da Infâmia do King of the kings”, aí na aba superior.
Este ano, são 28 cascatas na disputa e as regras e dicas para a eleição são as seguintes:

1. Você pode votar em até 14 concorrentes. Não é proibido de votar em menos, mas, francamente, creio que você vai é achar o número bem limitado, dada a qualidade das cascatas (e a consequente falta de vergonha na cara das matérias).

2. Como é uma final – o que obriga a uma responsabilidade maior no ato de votar -, o prazo normal de uma semana será estendido para duas, a fim de que você pese com calma antes sufragar suas escolhidas. Assim, a eleição termina em 29 de janeiro.

3. Caso você tenha alguma dúvida sobre uma ou mais cascatas específicas, os links para elas estão aqui do lado direito.

Então, vamos lá! Vote! Premie aqueles que mais tentaram engabelá-lo/a com mentiras, meias-verdades e manipulação.

Os deputados e os veículos de comunicação – VIII (Redes Sociais-3)

E assim, não mais que de repente, chegamos ao fim da análise da pesquisa da FSB o consumo de mídia dos deputados federais.

Mentira – demorou pacas e você não aguentava mais. Mas, enfim, essa é a última coluna sobre o tema, a terceira falando apenas da interação dos nobres parlamentares com as redes sociais – no caso, se compartilham e/ou postam ou não. Como sempre, comecemos recordando os pontos básicos da metodologia usada pela FSB:

1. O universo abrange apenas os deputados federais.

2. Foram ouvidos 230 parlamentares de 26 partidos, nos dias 8 e 9 de março.

3. A escolha foi aleatória, mas observou-se a proporcionalidade das bancadas.

4. Partidos com apenas um representante não fazem parte da amostra por permitirem a identificação dos respondentes.

5. Para 2016, as respostas alcançam apenas o primeiro trimestre.

6. Só duas redes sociais foram enfocadas – Facebook e Twitter.

Sigamos, então:

Gráfico 1

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Gráfico 2

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Análise

1. No caso das postagens, repete-se, com mais vigor, uma observaação algo surpreendente – os deputados mais jovens (abaixo de 40 anos), escrevem menos vezes nas redes do que seus colegas mais velhos – 50% postam “sempre” (18%) ou “às vezes (32%), contra, por exemplo, 56% dos parlamentares com idades acima de 60 anos (32% “sempre”, 24% “às vezes”). O percentual é abaixo também da média geral de 55% (24% e 31%, respectivamente). Os mais jovens, que viveram a maior parte de suas vidas tendo a internet presente, parecem ser mais retraídos em relação ao meio do que seus colegas mais velhos, talvez por terem acompanhado mais de perto, como usuários, os seus problemas.

2. Note-se-se, porém, que o “nunca” em termos de postagem é bem mais consistente em relação as postagens. Das quatro faixas etárias, somente a penúltima (51-60 anos) fica abaixo da média geral, de 17% (13% para ser exato). Este fato parece indicar que, apesar e duvidarem das redes, os deputados não as desprezam mais do que os colegas mais velhos.

3. Já a resposta “sempre” mostra uma discrepância bem maior, com variações de 6 pontos percentuais abaixo da média de 24% (na faixa até 40 anos) a mais 8 p.p., entre os deputados com mais de 61 anos. Pode bem ser que esta diferença indique um esforço dos parlamentares mais antigos (ou de suas assessorias) de fazê-los parecer “mais modernos” aos olhos dos eleitores e também de estar mais perto deles, contornando os meios mais tradicionais.

4. O escrito sobre as postagens, vale para o tema compartilhamento. Também quando se trata dessa ação, os deputados mais jovens menos assíduos, compartilhando 49% no somatório de “sempre” (16%) com “às vezes” (33%), sendo superados por todas as outras faixas etárias, principalmente pela que lhe é imediatamente superior, na qual o percentual chega a 56% (29% mais 27%). Se neste último caso, o percentual é igual à média geral – apesar da composição diferente (24% e 32%, respectivamente) -, é amplamente inferior à faixa de 41 a 50 anos, 7 p.p.

Das três colunas sobre a relação entre os deputados e as redes sociais, percebe-se que, apesar de estarem atentos a elas, os parlamentares ainda lhes dão um peso menor em comparação aos meios tradicionais, até por confiar muito menos nelas do que neles. Dessa forma, a influência das redes, pelo menos no que diz respeito aos congressistas brasileiros, é pequena. Esses números, porém, mudar dentro em pouco, já que estão previstas novas eleições gerais em 2018 e, ainda, com a surpreendente eleição recente de Donald Trump para a presidência dos EUA, numa campanha que não só apoiou-se quase totalmente nas mídias sociais, como até em confronto direto com as mídias tradicionais.

Os deputados e os veículos de comunicação – VII (Redes Sociais-2)

Esta é a segunda parte da análise da pesquisa da FSB sobre o consumo de mídia dos deputados federais no que se refere às redes sociais (ainda haverá mais uma). Nesta semana, o foco recai sobre a importância dada pelos parlamentares à repercussão nas mídias sociais de sua atuação no Congresso e também às menções pessoais, tanto em geral quanto no recorte por idade.

Recordando as notas sobre a metodologia:

1. O universo abrange apenas os deputados federais.
2. Foram ouvidos 230 parlamentares de 26 partidos, nos dias 8 e 9 de março.
3. A escolha foi aleatória, mas observou-se a proporcionalidade das bancadas.
4. Partidos com apenas um representante não fazem parte da amostra por permitirem a identificação dos respondentes.
5. Para 2016, as respostas alcançam apenas o primeiro trimestre.
6. Só duas redes sociais foram enfocadas – Facebook e Twitter.

Vamos lá:

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20161218_relatorio_midia_e_politica_fsb_2016_repercussao_pessoal_wp

20161218_relatorio_midia_e_politica_fsb_2016_repercussao_por_idade_wpAnálise

1. A média da repercussão pela atuação política (gráfico 1) é de 5,3 pontos. No entanto, 41% se encontram acima da média, enquanto 28% estão abaixo dela.

2. Já o gráfico 2 (atuação pessoal), a média é levemente superior (5,6 pontos) e o percentual daqueles que se importam mais sobe para 46%, contra 27% abaixo.

3. O gráfico de idade mostra que a faixa que vai de 41 a 50 anos mostra um preocupação acima da média com a repercussão na mídia social, seja sobre a atuação política (5,7%), seja no que se refere às menções pessoais (6%). Os percentuais são significativamente maiores do que os apresentados na faixa seguinte (51 a 60), que ficam em 5% e 5,3%, respectivamente, em ambos os casos abaixo da média geral.

4. O cruzamento dos três primeiros itens aponta para um crescimento da atenção dos parlamentares no que diz respeito às mídias sociais nos próximos anos. A previsão, porém, pode sofrer variações fortes após as eleições gerais marcadas para 2018, quando é prevista uma renovação maciça no Parlamento.