O jornalismo brasileiro não é mais o que era (e não voltará a ser) – III

O presidente desta triste República disse que os jornalistas são uma raça em extinção. Que ele diga isso, expressando sua conhecida alma tirânica, não chega a surpreender. Também não me causou comoção os comentários a respeito dos dois posts anteriores (aqui e aqui), a maior parte de leigos em jornalismo, que não compreendem suas especificidades, objetivos e limites. Para estes, o jornalismo – e, por conseguinte, os jornalistas – já acabaram no país, se é que um dia existiram. Desagradável mesmo foi ver jornalistas profissionais, até acadêmicos, achando a mesma coisa, tomando por base apenas as posições das empresas jornalísticas – cujas motivações foram o objeto dos posts citados – e as ações do próprio indigitado presidente, que se diverte em xingar os profissionais que o abordam na porta do Palácio do Planalto.

Todos esses – presidente protofascista, leigos que acham que entendem de jornalismo e colegas e acadêmicos que entendem, mas estão tendo ataques de amnésia – confundem, por querer ou não, jornalismo com aquilo que é praticado desde sempre por aqui por empresas jornalísticas. Só que uma coisa não tem necessariamente a ver com a outra no sentido positivo, de reforço. Pelo contrário, se formos olhar a história dos veículos de comunicação no país, a relação, quando há, é mais no sentido negativo – de impedimento – do que positivo, do ponto de vista da sociedade.

Pois esse é o ponto. Jornalismo é bom quando é feito em benefício da sociedade, na defesa dos que são mais fracos e vulneráveis, e, necessariamente, contra o poder Lembra da frase do Millôr? “Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. Pois é. E, partindo desse ponto de vista, o jornalismo no Brasil está vivo e chutando.

Duvida? Então, por clique aqui e veja uma lista de 58 veículos feitos por jornalistas brasileiros independentes que praticam a profissão segundo a premissa acima – há ainda a versão em português de oito veículos internacionais de diversas vertentes (e aqui tem outra lista, mais antiga). Há de quase tudo – dos que abordam infraestrutura até promoção da cultura da paz, passando por jornalismo de dados, política e justiça. Pode-se até não gostar da linha de um ou outro, mas é bem difícil arranjar argumentos sólidos para discordar de que eles não trabalham visando uma sociedade brasileira mais justa.

“O jornalismo pátrio, então, está forte e pujante?”, perguntará você. Bem, eu não disse isso.
Não disse isso por que, para ser forte e pujante, o jornalismo, como qualquer atividade no capitalismo, precisa ser seguro financeiramente, o que está longe de ser verdade para aqueles 58 veículos independentes acima e, por consequência, para os profissionais que nele trabalham. Chegar ao fim do mês, pagar as contas da empresa e ainda sobrar para os produtores das matérias pagarem as despesas com supermercado, aluguel, escola das crianças e demais boletos é um desafio permanente. Vulneráveis estão também, mesmo em escala menor, é bom que se diga, os jornalistas de veículos grandes, como mostram os dados da Conta dos Passaralhos, do VoltData, mesmo que os dados estejam defasados desde agosto de 2018 (e houve centenas de demissões de lá para cá).

Como o jornalismo independente pode tornar-se autossustentável financeiramente? Pois essa é a pergunta de 1 milhão de dólares. Não tenho respostas (se tivesse teria o milhão de verdinhas, ora!), mas há algumas ideias básicas que podem ser seguidas, ao mesmo tempo, pois não são mutuamente excludentes:

  1. Financiamento coletivo: O famoso “crowdfunding” é muito usado para apoio de projetos específicos ou para manutenção mesmo. Há possibilidade de aportes anuais ou mensais, via assinatura por meio de plataformas como Apoia.se, Benfeitoria, Catarse, Kickante, Vaquinha ou sistemas próprios…O problema é que há projetos muito bons e nós, ao apoiadores, ficamos perdidos na hora de dar aquela força (eu, por exemplo, estou há tempos para fazer uma planilha a fim de saber certinho quem estou apoiando, com quanto e em que periodicidade). Esse fracionamento faz com que a arrecadação regular não seja a desejável, mesmo na forma de assinatura, que tem sido a preferida dos sites.
  2. Dividir as contas: Outro caminho para a sustentabilidade é dividir espaços e contas para que esses custos fixos se diluam e fiquem mais leves para todos. Um espaço de coworking para veículos e jornalistas independentes me parece uma boa ideia, até para melhorar o trabalho em parceria em pautas que unam habilidades de vários jornalistas, viabilizando mais e melhores pautas.
  3. Agregar de notícias (e valor): Se seria bom dividir espaço físico por que não um agregador de notícias, aqueles apps que funcionam como revistas ou jornais personalizados, como Flipboard, Anews, Feedly (o meu), Google News e outros? Estar em alguns deles também é uma boa opção, mas seria ainda melhor se fosse criado uma apenas para mídia alternativa, não?
  4. Administração: Levar sério a administração devia até ser o item 1. Ter um bom profissional de finanças e planejamento é fundamental para que o veículo seja autossustentável. No caso de haver o tal coworking, esse seria gerido por uma pessoa à parte ou por um conselho formado pelos administradores dos veículos participantes.

Como escrevi acima, essas são as ideias básicas, apenas pontos de partida para a estruturação de um jornalismo independente mais estruturado no país. Essa diretriz é fundamental se ainda quisermos que o jornalismo, e seus profissionais, contribuam para a manutenção da democracia no Brasil, transformando-o num país mais justo.

O jornalismo brasileiro não é mais o que era (e não voltará a ser) – II

Seu Jair da casa 58 e o jornal que ele ama odiar

Quando Jair Bolsonaro afirmou que mandara cancelar as assinaturas da Folha de São Paulo pelos órgãos da Administração federal (voltou atrás logo), houve duas reações básicas por parte dos jornalistas: um grupo indignou-se com a ameaça à liberdade de imprensa, outro disse “bem-feito” lembrando que a Folha faz questão de igualar Bolsonaro a Lula, chegando mesmo a não reconhecer que o presidente do país é de extrema-direita, fato evidente e reconhecido em todo o mundo, exceto aqui.

Ambas as reações são fruto do mesmo erro cometido pelos que se escandalizaram com a comemoração uniformizada do editor de Esportes do Globo, Márvio dos Anjos, após o gol que deu o título da Libertadores da América ao Flamengo, que analisei semana passada : os coleguinhas não veem – por não conseguirem ou não quererem – que o jornalismo praticado nas chamadas grandes redações não é mais um serviço de interesse público, como se praticava – ao menos se tentava – em outro tempo no país.

O caso da Folha é bem mais complexo do que o do Grupo Globo. Este, bem ou mal, ainda é um conglomerado de mídia puro, algo que o Grupo Folha não é desde 2006 quando criou o PagSeguro. O fato de ter entrado no mercado financeiro por meio de um sistema de pagamentos fez com que as relações entre o jornal que conhecemos e a sua fonte de financiamento mais importante se tornassem bem mais distantes do que as tradicionais publicidade e assinaturas. Hoje, a Folha precisa ser mantida pelo braço financeiro dos Frias e esse fato deixou o veículo ainda mais frágil do que seus concorrentes em muitos aspectos.

Essa fragilidade tornou-se pública no início deste ano, não por coincidência logo no início do governo Bolsonaro, com a disputa pelo controle do jornal que pôs de um lado Maria Cristina Frias e de outro seu irmão Luiz e a cunhada Fernanda Diamant, viúva de Otávio, o irmão mais velho, falecido em 2018. O pano de fundo da briga foi a exigência de Maria Cristina de que Luiz repassasse os dividendos a que o jornal teria direito por deter 33,23% das ações da Folhapar, empresa que controla o PagSeguro e o UOL. Os dividendos viriam das duas ofertas de ações realizadas pelo UOL, que renderam, no total algo em torno de US$ 1,7 bilhão (cerca de R$ 7 bilhões em cotação de hoje). Luiz se recusou e pôde fazer isso por ser o dono de 66,27% do capital da Folhapar.

Por que ele teria feito isso? O mercado especula que Luiz estaria determinado a tornar-se um banqueiro e a compra da carta-patente de um “tamborete” ( banco pequeno, no jargão do mercado), o BBN, seria mostra desse objetivo. No entanto, especula-se que ele quer mais, um banco maior, já com carteira de cliente. Para isso, teria que obter uma nova carta-patente, transação que precisaria ser aprovada pelo Banco Central.

Vejo o alvorecer do entendimento assomar aos seus olhos…

Pois é. Se há algo que Luiz Frias não quer neste momento é provocar a ira do patrão do cara que pode lhe permitir dar a grande tacada de sua vida. Daí ter tirado Maria Cristina do comando da redação da Folha – a história de ela ter caído por não querer cortes não faz sentido, já que um acordo poderia ser facilmente obtido, pois a briga pública não ajudaria ninguém – e ter permitido apenas uma campanha de marketing canhestra, falando em nome da democracia, e a um ou dois editoriais indignados, mesmo com o jornal sob ataque direto de Bolsonaro.

A Folha pode sair dessa? Pode, como diz essa matéria, que complementa a lincada dois parágrafos acima. Há rumores de que Maria Cristina estaria tentando reunir investidores dispostos a financiá-la na compra da parte de Luiz na Folha Participações (não confundir com a Folhapar), a controladora do jornal. Seria muito bom para ele, pois livraria de vez do encargo de monitorar de perto a redação para que, ao mesmo tempo que não provoque a ira do governo – deste e dos outros, pois o BC tem poderes para tornar a vida de um banco um inferno, no mínimo -, não perca de vez a credibilidade, o que levaria a mais prejuízos e à desvalorização do ativo. Resta saber quem estaria disposto a investir num veículo que teria o expresso ódio de um autoritário sempre candidato a ditador.

O jornalismo brasileiro não é mais o que era (e não voltará a ser) – I

Mengoooo!!!!

A demissão de Adalberto Neto, do Jornal de Bairros do Globo, por ter divulgado um vídeo que fez do editor de esportes do jornal, Márvio dos Anjos, correndo pela redação com a camisa do Flamengo, que depois tirou, comemorando o gol que deu o título da Libertadores da América ao rubro-negro, e a resposta tíbia da Folha ao ataque de Jair Bolsonaro, que mandou cancelar as assinaturas da Folha no âmbito do Executivo federal – no que voltou atrás rapidamente – e ameaçou os anunciantes do jornal, deixaram muitos jornalistas, principalmente da velha guarda, perplexos e zangados.

As reações dos colegas são explicáveis na medida em que partem de premissa não exatamente errada, mas, vamos dizer, fora do tempo, démodé (assim como a palavra démodé). Esses jornalistas ainda creem que a atividade profissional que hoje se exerce na chamada mídia corporativa (ou “mídia hegemônica”, ou “grande mídia”, ou “mídia mainstream”, ou algum outro termo que lhe agrade mais) é jornalismo como eles entendiam – e ainda é compreendida em outros lugares do mundo, que, no entanto, vem se reduzido drasticamente nos últimos anos. Esse entendimento é o de que o jornalismo é uma atividade de interesse público, no sentido de que tem por objetivo servir à sociedade em que os veículos e os profissionais estão inseridos.

Infelizmente não é mais assim (se é que um dia foi aqui no Brasil, mas isso é outra discussão). Os veículos de comunicação, hoje, fazem parte de imensos conglomerados de mídia, cujos interesses, em muitos casos, extrapolam esse setor, avançando por outros, até distantes do setor de origem. Vou usar os exemplos do primeiro parágrafo para tentar explicar essa questão e, temo, será uma explicação bem extensa e, por isso, dividirei em duas para que o texto não fique quilométrico

Vou começar com o “affair Márvio dos Anjos”.

Não seria justo O Globo desqualificar, e demitir, o seu editor de Esportes porque ele foi escolhido para o cargo exatamente por portar-se daquele jeito. A devoção de Márvio ao Flamengo é inversamente proporcional ao seu discernimento e acuidade intelectual, e essas características faziam parte do job description informal para o cargo.

Márvio está perfeitamente alinhado – como se diz no jargão corporativo – ao objetivo do Grupo Globo de transformar o Flamengo numa marca internacional, senão em nível mundial – embora esse seja o sonho dourado – pelo menos em nível de Américas. Essa intenção tem a ver com dois movimentos independentes, um corporativo, outro demográfico. O primeiro é a cada vez maior presença de plataformas de streaming que disputam a nossa atenção, um dos ativos mais valiosos do mundo digital, uma tendência que o Grupo Globo vem procurando seguir e que está na base também do projeto “Uma só Globo”, que está rodando há um ano. No momento, ele não abrange o Infoglobo, mas, dada a convergência digital, fatalmente o atingirá.

Um dos ativos mais significativos, ao lado da teledramaturgia e da produção cinematográfica, do Grupo Globo é exatamente o futebol. Ter um clube brasileiro entre os maiores do mundo é fundamental para o conglomerado, numa emulação do que foi, ironicamente, a política dos “campeões nacionais” do PT para o setor industrial. Não que a Globo acredite que o Flamengo, ou qualquer outro clube de um país da periferia do mundo (e cada mais afundado nela) possa competir, em termos financeiros ou de inserção na cadeia da indústria cultural global com Real, Barcelona, os grandes da Premier League, Bayern ou outro de países centrais, mas há espaço para conseguir um lugarzinho ao sol aproveitando o segundo movimento que mencionei no parágrafo anterior: a diáspora brasileira.

Aos poucos, mas seguramente, o Brasil tornou-se uma nação da qual se quer ir embora rapidamente se for possível e para a qual não se deseja voltar se der para evitar. As razões são mais do que evidentes, não precisam ser explicadas aqui. Essa diáspora, que só tende a aumentar nos próximos anos quanto mais o país se afundar na lama em que jogou em 2016, criou um mercado para o Grupo Globo. São os brasileiros que, com banzo da terrinha, se apegarão às boas recordações do que deixaram para trás e uma delas, claro, é o futebol.

Ter um clube brasileiro entre os mais conhecidos do mundo é a ponta de lança para que o produto futebol seja vendido a essa crescente comunidade de expatriados – e, em sua esteira, outros. Claro que seria melhor não haver apenas um clube e por isso, no plano original, a outra perna do projeto era o Corinthians. Infelizmente (para o Grupo Globo), o clube paulista apostou no cavalo errado no páreo político (o PT), enquanto o Flamengo comprou pules da extrema-direita e levou o prêmio. É da vida, jogo jogado. Além disso, o Timão bem pode ser substituído pelo Palmeiras, que também mantém excelentes relações com a extrema-direita desde os tempos do Integralismo (o verde do uniforme – usado depois que o azul, identificado com a Itália, durante os anos 20 e 30 passou a sê-lo com o Fascismo – está longe de ser acaso).

Esta é a maneira como o Grupo Globo pensa em se inserir nas cadeias de valor do capitalismo internacional e reflete a maneira como os Marinho vêm a própria inserção do país – não mais que um fornecedor de matéria-prima, que, se tudo der certo, se torna uma potência regional caudatária dos EUA e, em alguns casos, da União Europeia. Para levar esse projeto adiante, pessoas como Márvio dos Anjos, que pensam na mesma linha – ou não pensam de forma alguma – são necessárias. Tê-lo, um rubro-negro fanático, na editoria do principal jornal do Grupo, faz sentido, mesmo que exagere na sua adesão ao programa, correndo o risco de levantar a ponta dessa cortina, que deve ser mantida bem cerrada.

No próximo texto, veremos como o Grupo Folha vai pelo mesmo caminho, mas partindo de outro ponto, que leva a uma inserção ainda mais profunda nas correntes do capitalismo internacional.

O “conto do JN”

Caiu o bobo na casca do ovo…

Há duas semanas, tinha aqui no blog cerca de 400 assinantes. Na sexta passada, por acidente, dei uma olhada e tomei um susto – eles já passavam de 4.200. Creio que o motivo para este salto triplo carpado para frente com dupla pirueta foi o post dando conta da vitória de Dona Míriam na primeira seletiva do King of the Kings, com a cascata de ter se transformado em boneca de ventríloquo na entrevista do Fascista na Globonews. Promovi o post no perfil da Coleguinhas no Facebook e a foto em que ela era comparada a Chico Xavier deve ter chamado muita atenção. Deu para notar, porém, que a maioria esmagadora dos novos assinantes é de não-jornalistas e é para eles que este post é dirigido, embora os coleguinhas também possam aproveitá-lo, especialmente lá para o fim.

Para quem não é jornalista, pode parecer que os encontros de William Bonner e Renata Vasconcellos com os presidenciáveis foram entrevistas jornalísticas. Só que não: não foram entrevistas e muito menos jornalismo. Meus professores Nilson Lage e João Batista Abreu devem me corrigir se estiver falando bobagem, como naquele tempo, mas na faculdade (ao menos nas boas), ensina-se que, numa entrevista, você faz as perguntas e deixa a pessoa falar, procurando as contradições e os chamados “vazios do discurso” – aquilo que o cara quer esconder em meio às palavras.

Uma vez identificadas essas falhas discursivas, você vai em cima. Pode até interromper se sacar que a pessoa está tentando “roubar” seu tempo, enrolar, mas de forma educada (se der, até com bom humor, mas sem sarcasmo), não só por dever de civilidade, mas como tática: falando com educação, a pessoa sente que foi pega, mas terá dificuldade de reagir agressivamente, pode desequilibrar-se e vacilar ainda mais.

Esse é um tipo de entrevista, a mais agressiva, que eu usava com outros profissionais do discurso como políticos, delegados, advogados, economistas etc. Há outras, mais brandas, mas em todas a ideia é que você se apague durante uma parte do diálogo (é diálogo, sabe? Não monólogo) para que o outro mostre sua verdadeira face por meio do que fala e, principalmente, do que deixa de falar.

O que Bonner & Vasconcellos fizeram assemelhou-se mais um interrogatório de promotores num tribunal de filme americano do que a qualquer entrevista ou tipo de diálogo. Porém, mesmo como interrogatório de filme foi ruim – nestes, o promotor faz as perguntas e deixa a testemunha falar para que ela se enrole e ele caia em cima (sim, parece com a entrevista agressiva que descrevi acima). Ao impedir os presidenciáveis de falar (pelo menos os que não são amigos da casa, como Alckmin e Marina, pouco interrompidos), os apresentadores do JN mostraram que não estavam ali para ajudar os telespectadores/eleitores a conhecerem melhor os programas e as ideias dos presidenciáveis.

Mas para que então as tais “entrevistas”? A tabela abaixo (que abrange apenas os mercados da Grande São Paulo e do Grande Rio), retirada do site do Kantar Ibope Mídia é uma pista:

Como se pode observar a audiência do JN já não é mais aquela de uns 20 anos atrás, nem mesmo de 10 anos. O percentual médio de domicílios que assistem ao telejornal é de 27,5%, com pico no mercado do DF, com 32%, e vale no da vizinha Grande Goiânia, com 19,9%. Já o percentual médio de indivíduos que vê efetivamente o programa é de 12,8% – isso quer dizer que para se ter certeza de que pelo menos uma pessoa assiste o JN é preciso contar oito domicílios dentre aqueles que o estejam assistindo. No entanto, a Covariância Individual (COV individual) – ou seja, o número de pessoas que é impactado pelo programa, mesmo não o tendo visto diretamente (por meios de comentários em redes sociais, na copa do trabalho, na carona, com o vizinho….) é de 47,1%. Ou seja, aquela pessoa que efetivamente assistiu ao telejornal tende a comentar com outras 3,68 o que viu. É claro que, se o que for visto for um bate-boca entre Bonner&Vasconcellos e presidenciável, esse índice será certamente maior.

É isso mesmo que você entendeu, meu caro/minha cara: a “entrevista” do JN não foi para esclarecê-lo/la a fim de que você vote melhor, com mais consciência, mas apenas para “causar” e alavancar a influência do JN, aumentando assim sua capacidade de atrair anunciantes. E você que foi para a sua rede social favorita comentar o bate-boca em tempo real (a chamada “segunda tela”)…Bem, você caiu no conto.

Dona Míriam domina 1ª seletiva do King of the Kings-2018. Globo sai na frente do Troféu Boimate.

Recebendo o Caboclo Dr. Roberto

Não teve para ninguém. Dona Míriam dominou a primeira seletiva do King of the Kings-2018 com sua atuação como boneca de ventríloquo ao tentar rebater o candidato fascista quando este falou a verdade dura de que a Globo apoiou a ditadura. Míriam teve um quarto dos 237 sufrágios (59 votos), mais do que o segundo colocado (JN tentando provar que a economia vai bem) e a terceira colocada (a cascata da Veja descrevendo o dia a dia de Lula sem nunca ter entrado na prisão em que ele está) somadas. O KofK é o único prêmio que reconhece, há 10 anos, o esforço dos jornalistas brasileiros em avacalhar a própria profissão.

As cascatas classificadas para a final, a ser disputada em janeiro de 2019, foram as seguintes:

1. Míriam Leitão é usada como boneca de ventríloquo para rebater lembrança de Bolsonaro de que a Globo apoiou a ditadura (25%, 59 votos).

2. JN tenta provar que economia vai bem porque inflação é baixa (9%, 22 votos).

3. Veja descreve dia a dia de Lula sem nunca ter entrado na prisão (9%, 21 votos).
Agência Lupa diz que visitante de Lula não tinha levado terço abençoado por Francisco I, acusa sites de esquerda de “fake news” e é desmentida pelo Vatican News (9% 21 votos).

4. PGR investiga senadora por entrevista à Al Jazeera – Estado de São Paulo (8%, 18 votos).
Folha “denuncia” que Dr. Bumbum trabalhou 15 dias no Palácio do Planalto durante o governo Lula (8%, 18 votos).

As outras seis cascatas não classificadas voltarão para repescagens, a fim de você poder compará-las também com as cascatas que virão. Essa providência é importante porque, dado o volume de cascatas despejadas pelos coleguinhas sobre os leitores/ouvintes/telespectadores, tendemos a esquecer as mais antigas, valorizando as mais novas.

Troféu Boimate

O Troféu Boimate é o reconhecimento à redação mais cascateira do país. Conquista-o a equipe que consegue pôr mais cascatas na final do King of the Kings. Assim, após a primeira seletiva, a classificação para o Troféu Boimate é a seguinte:

1. Rede Globo: 2.
2. Veja, Estado de São Paulo, Folha de São Paulo e Agência Lupa: 1.

Finalmente! Chegou a hora de votar na primeira seletiva para o King of the Kings – 2018!

 

Demorei, e você já devia estar roendo os dedos de aflição, mas aqui está finalmente: a primeira seletiva para o King of the Kings, o único prêmio a reconhecer o árduo trabalho dos coleguinhas em prol da avacalhação do jornalismo brasileiro. Levei mais tempo esse ano para iniciar o processo seletivo por dois motivos: apertei ainda mais os critérios de escolha para apresentar uma concorrente – só cascatas muito grandes estão na lista, vocês verão – e também, de maneira mais estratégica, resolvi dar prioridade ao bom jornalismo que ainda restou no #SudãodoOeste, enfocado no Prêmio Marcos de Castro.

Isto posto, vamos às regras para a votação da primeira seletiva do KofK-2018:

1. Você pode votar em até seis concorrentes. Recomendo usar todos os votos, pois não será fácil escolher devido ao alto (ou baixo) nível das postulantes. As seis não escolhidas terão uma nova chance na segunda seletiva.

2. Haverá bastante tempo para conhecer (ou recordar) as cascatas – o pleito se estende até o dia 2 de setembro.

Mais um ponto antes apresentar a lista de concorrentes: caso você veja uma cascata que acredite estar apta a concorrer ao King of the Kings, não hesite em me enviar para avaliação.

Bem, agora, finalmente, fique com a concorrentes ao King of the Kings – 2018!

Fecomércio-RJ pagou R$ 68 milhões a escritório que defende Lula – Valor

PGR investiga senadora por entrevista à Al Jazeera – Estado de São Paulo

Veja descreve dia a dia de Lula sem nunca ter entrado na prisão – Veja

PF tenta livrar a cara de ter assassinado o reitor Cancellier – Rede Globo

Mídia comercial publica como independente estudo sobre cigarro de fundação bancada pela Phillip Morris – Vários

JN tenta provar que economia vai bem porque inflação é baixa – Rede Globo

Míriam Leitão tece loas a Pedro Parente 10 dias antes de começar a greve dos caminhoneiros.

Agência Lupa diz que visitante de Lula não tinha levado terço abençoado por Francisco I, acusa sites de esquerda de “fake news” e é desmentida pelo Vatican News

Jornalistas dão show de machismo na entrevista de Manoela D’Ávila no Roda-Viva – TV Cultura.

Folha “denuncia” que Dr. Bumbum trabalhou 15 dias no Palácio do Planalto durante o governo Lula

Míriam Leitão é usada como boneca de ventríloquo para rebater lembrança de Bolsonaro de que a Globo apoiou a ditadura

Folha publica matéria sobre PM lésbica e negra executada insinuando que ela era promíscua

Os deuses das “fakes news”

“Fake news” são os outros

A pouco mais de dois meses das eleições presidenciais que podem definir o futuro do Sudão do Oeste (ou seu sepultamento definitivo), os principais veículos de comunicação tradicionais iniciam um avanço para retomar o “monopólio da fala” por meio um ataque maciço, tipo “blitzkrieg”, contra a incipiente e confusa democratização da comunicação que poderia ser propiciada pela internet. Três movimentos realizados nos últimos meses – o lançamento do projeto Comprova, a divulgação das diretrizes de comportamento dos jornalistas do Grupo Globo nas redes sociais e ampliação do “É ou Não É” do G1 para o “Fato ou Fake”, que engloba todos os veículos do grupo – são, em minha visão, mais convergentes do que divergentes e, muito possivelmente, complementares.

Primeiro, o Comprova. Lançado em 28 de junho, e iniciando sua atividade oficialmente amanhã (6 de agosto), o projeto é financiado pelo Google News Iniciative e o Facebook’s Journalism Project, idealizado pela First Draft – projeto do Shorenstein Center on Media, Politics and Public Policy da John F. Kennedy School of Government da Universidade de Harvard, financiado, entre outros, pela Open Society, de George Soros, que parece estar em todos os projetos que envolvam comunicação -, com apoio da Abraji e do Projor. A ideia anunciada é de combater a “desinformação” que campeia nas redes sociais.

Objetivo dos mais meritórios, mas que, de saída, esbarra em alguns problemas, que já enumerei na página da Coleguinhas no Facebook, além de outros apontados por gente bem mais esperta do que eu (sem contar, claro, a presença de George Soros). Na verdade, o projeto já começa com um erro de checagem – afirma que são 24 veículos que o compõem. Mais ou menos: são 24 veículos, mas que pertencem a 16 grupos e empresas, pois o Grupo Band está representado por quatro (Band TV, Rádio Bandeirantes, Band News e Band News FM), o Grupo Folha por dois (Folha e Uol), e a Abril por dois (Exame e Veja).

Outra questão é a concentração geográfica dessas empresas e grupos. Treze ficam de São Paulo para baixo: nove têm sede em São Paulo (Band, Folha, Estado, Metro, Piauí, Nexo, Abril, UOL e SBT), dois no Rio Grande do Sul (Correio do Povo e GaúchaZH), um é do Paraná (Gazeta do Povo) e um de Santa Catarina (NSC Comunicação), ficando fora do eixo SP-Sul apenas Espírito Santo (Gazeta On Line), Brasília (Poder360), Pernambuco (Jornal do Comércio) e Ceará (O Povo). O problema é que esse desequilíbrio regional tende a criar um viés de cobertura, especialmente porque o projeto encoraja o compartilhamento de sua checagens por veículos que não fazem parte dele.

Esse viés de cobertura já seria ruim, mas há um pior. Considere o mapa abaixo, do resultado final do segundo turno das eleições presidenciais de 2014:

Agora compare os estados em que o candidato do PSDB foi mais votado com os estados em que se encontram os veículos participantes do Projeto Comprova. Pois é: 22 dos 24 têm sua sede nos estados em que os tucanos venceram. E não se diga que não tem nada a ver – no próprio site está dito que a operação foi marcada para começar em 6 de agosto, exatamente por ser a segunda-feira posterior ao prazo final para a indicação das chapas que disputarão a Presidência da República: “O foco inicial do Comprova é a eleição presidencial no Brasil, cuja campanha começa oficialmente em agosto.”

Antes de todos esses senões do Projeto Comprova, um outro chamara minha atenção, como estava no ponto um do post da página da Coleguinhas: a ausência do Grupo Globo. Como o maior grupo de comunicação do país não estava presente num projeto destinado a atacar a disseminação de notícias falsas na internet? A primeira parte da resposta veio logo depois com a inacreditável cartilha que determina como os jornalistas do Grupo Globo devem comportar-se nas mídias sociais, que você pode ler abaixo, junto com as justificativa para a sua edição, assinada por João Roberto Marinho:

A cartilha do Grupo Globo, ao tornar, na prática, seus jornalistas cidadãos de segunda classe por cassar-lhes o direito à livre expressão, fecha ainda mais o cerco à dissidências democráticas na internet brasileira, que começara com o projeto do Facebook envolvendo três agências de checagem brasileiras e que já disse ao que veio.

No entanto, o cerco ainda não estava completo, pois o GG não participa do Projeto Comprova. Agora está. No dia 30 passado, o Grupo dos Marinho lançou a sua versão do Comprova – o “Fato ou Fake”. É praticamente igual ao irmão um tanto mais velho, com um aperfeiçoamento – um robô que espalhará as checagens do Grupo Globo que fazem parte da iniciativa (CBN, Época, Extra, G1, Rede Globo, Globonews, O Globo e Valor). O Comprova não tem essa funcionalidade, mas o também recém-lançado robô Fátima, cria da parceria do quase onipresente e onisciente Facebook com a agência de checagem Aos Fatos, pode bem suprir essa carência por vias transversas, já que a empresa de Mike Zuckerberg dá suporte a ambas.

Como, pelo que os próprios criadores dos projetos deixam a entender, apenas os posts das redes sociais são as criadoras e disseminadoras de notícias falsas, segue-se que as notícias publicadas por qualquer um dos veículos componentes das duas iniciativas – Comprova e “Fato ou Fake” – não serão checadas. Parte-se do pressuposto que esses veículos, ligados a grupos hegemônicos de comunicação do país, sempre dizem a verdade e/ou trabalham com fatos. Não estão e nunca estarão sob suspeita, ao contrário de qualquer outro que não faça parte desse restrito clube. Dessa forma, não há opção: será “fake news” o que os 24 veículos do Comprova e os oito do Grupo Globo disserem que é. E fim de papo.