O “blackblocômetro” da Folha e o próximo golpe

Você pode achar difícil de acreditar, mas há coleguinhas mais paranoicos do que eu e eles não estão internados. Mesmo casos claramente clínicos, que necessitam ajuda profissional séria, estão nas redações e produzindo boas matérias – até porque, como se diz, “o fato de a pessoa ser paranoica não quer dizer que ela não esteja mesmo sendo seguida”. E esse é o caso agora: reavalio a minha posição e passo a considerar, se não provável, pelo menos possível, a possibilidade de haver uma tentativa de golpe no Brasil.

O ponto de inflexão foi a criação, pela Folha de São Paulo, do “blackblocômetro”. Falei dele na terça passada (aqui), comparando-o ao “lulômetro”, índice criado pelo banco Goldman Sachs para espalhar o terror entre os investidores no país durante a eleição de 2002 e faturar uma grana em cima. No caso da Folha, a ideia é, claramente, é deixar o país mais tenso nos próximos meses, a fim de canalizar os protestos, que fatalmente virão na esteira da Copa, contra o governo Dilma, a fim de facilitar a eleição de um de seus colunistas (Aécio Neves) ou, se não for possível, Eduardo Campos, também comprometido com a agenda conservadora para o país, embora menos do que Aécio.

Mas mesmo se, contra esse fogo todo, Dilmão se reeleger, como é que fica? Não haveria problema, apesar dos 16 anos seguidos de governos petistas, se a derrota de 2018 não fosse mais do que provável, com a candidatura do Nove-Dedos. Essa perspectiva seria desesperadora para os barões da mídia e seus asseclas espalhados pelas camadas mais abastadas da sociedade brasileira tão bem representadas, nos veículos de comunicação, por Rachel Shererazade, Reinaldo Azevedo, Demétrio Magnoli e quejandos. Com essa derrota no horizonte não é improvável que os barões começassem a tramar um golpe de estado para os próximos anos.

Agora, as boas notícias.

Não será fácil os barões montarem um golpe como aquele de que participaram há exatos 50 anos. Os obstáculos seriam muitos:

1. Excesso de experiência: Como está se vendo esse ano, o Golpe de 64 ainda não foi superado, muito pela resistência dos próprios barões e das Forças Armadas em admitirem suas culpas na triste experiência pela qual passaram os brasileiros por 21 anos. É bem pouco provável que, com esse sofrimento ainda fresco na memória, estamentos importantes da sociedade – como a Igreja e a maior parte da sociedade civil – entre nessa canoa furada mais uma vez.

2. Falta de contexto: Em 64, havia o contexto da Guerra Fria e os americanos faziam qualquer negócio para impedir que os vermelhos saíssem de debaixo das camas, especialmente no seu quintal América Latina pós-Cuba. Hoje, eles têm muito mais com que se preocupar com a ascensão da China, a sempre incômoda Rússia e os radicais islâmicos, sem falar na sua clara decadência econômica e social interna, algo que, há 50 anos, nem em seus piores pesadelos eles pensariam enfrentar.

3. Falta de grana: Sem o incentivo ideológico da Guerra Fria e enfrentando desafios complexos em diversas partes do mundo, inclusive em casa, que não existiam há cinco décadas, os americanos não têm motivação para coçar o bolso a fim de financiar uma aventura golpista, mesmo em seu quintal, e, como se sabe, não se constrói um golpe na América Latina sem a grana deles. E não é pouca bufunfa não. É só lembrar que os protagonistas do Golpe sempre disseram que havia dólares a rodo à disposição para derrubar Jango, sem contar a esquadra da Operação Brother Sam.

4. Falta de armas: Entre esses gatos escaldados que citei no item 1, os mais proeminentes talvez sejam os militares. Parece haver, hoje, o consenso entre eles que foram usados como bucha de canhão pelos norte-americanos na Guerra Fria e pelos plutocratas brasileiros (entre eles os barões da mídia) para construírem essa concentração de renda obscena que caracteriza do Brasil. É pouco provável que a alta hierarquia das três Armas adira a um novo golpe e, sem militares, não há golpe de Estado em lugar nenhum do mundo, pois não se organiza um sem armas.

 

Assim, embora agora concorde com os meus amigos (mais) paranoicos de que passará pela cabeça dos barões da mídia a ideia de um golpe – se é que já não está passando, como indica o “blackblocômetro” da Folha -, acho muito difícil sua execução com sucesso. Ainda assim, “pelo sim, pelo não, pelo quem sabe, pelo talvez” (by Odorico Paraguassú) é bom ficar de olho aberto para as próximas iniciativas dos barões da mídia que visem balançar o coreto da democracia que tentamos construir no Brasil.

Anúncios