A volta do Mapa do Tesouro do bom jornalismo na internet

Não tem como errar.

Tirando os diretamente empregados nela, creio que poucos discordam que a grande mídia brasileira atualmente é de gato jogar terra em cima. Então como nos manter razoavelmente bem informados do que vai pelo país e pelo mundo? Há uns meses, fiz uma lista bem pessoal de diversos veículos que fornecem olhares diferentes sobre o mundo. As listas – foram duas – eram acompanhadas de comentários de três ou quatro linhas sobre assunto principal e a maneira como o trabalhava o site Dessa vez, não haverá comentários maiores, apenas uma indicação do tema principal. Mais uma coisa: se você conhecer algum veículo que considere bacana, envie-me, que vou dar uma olhada e, se gostar (sim, é discricionário mesmo), ponho na lista, ok?

Vamos lá então.

Feminismo

AZMina

Geledés: Com o viés de raça.

Gênero & Número: Com base em jornalismo de dados.

Mulheres 50+ : Dedicado às mulheres de mais de 50 anos.

Geral

Agência Pública: Jornalismo investigativo, com uma parte dedicada a meio ambiente e outra à checagem de dados, o Truco.

Agência Sportlight: Jornalismo investigativo.

Aos Fatos: Checagem de dados.

Farol Reportagem: Jornalismo voltado para Santa Catarina.

Marco Zero Conteúdo – Jornalismo voltado para Pernambuco, tem parceria com a Agência Pública no Truco, a parte de checagem de dados.

Meus Sertões: Foco na região semiárida do Nordeste, com concentração na Bahia.

My News: Canal no YouTube.

Nexo: Inclui jornalismo de dados, colunistas, podcast e clipping qualitativo enviado por e-mail.

Opera Mundi: Foco em notícias internacionais e sua análise.

TV dos Trabalhadores (TVT): Notícias e análise, com sinal aberto em São Paulo, por parabólica para todo o país e canal no YouTube.

Volt Data Lab: Jornalismo de dados.

 

Mídia

Farol do Jornalismo: Tendências e análise por e-mail semanal.

Observatório da Imprensa: Análise.

Objethos: Análise e teoria.

 

Política

Conexão Jornalismo: Notícias e análise.

Congresso em Foco: Notícias e análise.

Diário do Centro do Mundo: Clipping e análise.

Fórum – Notícias e análise.

GGN – Análise.

Os Divergentes: Análise.

Poder360: Notícias e análise.

Tijolaço: Análise.

 

Segurança Pública e Justiça

Consultor Jurídico: Notícias e análise.

Jota: Notícias e análise.

Justificando: Notícias e análise, com canal no YouTube.

Ponte Jornalismo: Notícias sobre segurança pública e direitos humanos.

 

Sustentabilidade

Projeto Colabora: Notícias e análise, com envio de clipping diário qualitativo sobre estes assuntos enviado por e-mail.

A volta das numeralhas: Pesquisa Brasileira de Mídia-2016 – I

TV vai bem, obrigado. Já os impressos…

 

 

Pode confessar, não é feio: estava com saudade das tabelas e gráficos, né? Pois sua ansiedade acabou, as numeralhas de 2018 começam nesta semana com a primeira da série de análises sobre a versão 2016 da Pesquisa Brasileira de Mídia (PBM-2016). Esse tradicional levantamento, realizado pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom), sofreu modificações metodológicas importantes, levadas a cabo pelo Ibope Inteligência, a empresa responsável por ela este ano. Assim, não é possível fazer comparações com a de 2015 na maior parte das vezes. Sempre que for possível, porém, eu farei, ok?
Falando em metodologia, aqui vão as principais variáveis da amostra da pesquisa:

1. O desenho da amostra tomou por base os dados do Censo de 2010 e a PNAD de 2014.
2. Foram ouvidas 15.050 pessoas de 16 anos ou mais das cinco regiões, com a seguinte distribuição:

 

3. A divisão percentual por gênero, faixa etária, instrução e ramo de atividade foi:

Beleza. Agora, vamos à tabela e ao gráfico relativos à pesquisa em si, iniciando pela audiência geral, comparação entre os diversos meios.

 

ANÁLISE

A tabela mostra a razão numérica para algo que já estamos meio cansados de saber – algo só acontece de verdade se a televisão mostrar que aconteceu: quase dois terços da população têm no meio sua primeira opção de informação – e 90% informa-se por ela, mesmo que apresente outro meio como principal fonte de informação.

A internet se firmou de vez como segunda opção de meio de informação, sendo o primeiro para 1 em cada 4 brasileiros, e metade deles informa-se por ele, percentual importante quando observa-se que 61% da população do país acessa a rede – assim, 80% de quem acessa a internet no Brasil informa-se por ela (na TV, esse percentual chega a 93%, já que 97% dos lares brasileiros possuem aparelhos).

Os números mostram claramente que os meios impressos caminham para ser um produto de nicho no Brasil – na melhor das hipóteses – como prevê Mark Thompson, CEO do NYT, para ao mercado norte-americano. Apenas 3 em cada 100 pessoas têm nos jornais seu principal meio de informação, passando para 12 em cada 100 aqueles que se informam por eles. A situação é ainda pior para o meio revista: ninguém, termos percentuais, informa-se primariamente por ele e apenas 1% o faz.

O sempre esquecido rádio é que tem uma boa performance. Mesmo que apenas 7% tenha no meio o caminho primário de obtenção de informações, 30% o têm como meio complementar.

Genealogia da Lava-Jato dá 1º Prêmio Marcos de Castro de Melhor Reportagem Independente na Internet a “Brasil de Fato”

 

A história de família dos principais personagens da Lava-Jato e suas profundas raízes no que há de mais reacionário na sociedade brasileira deu o Prêmio Marcos de Castro de Melhor Reportagem Independente da Internet, em sua primeira edição, ao site “Brasil de Fato”. A matéria, assinada por Daniel Giovanaz, obteve 12 dos 174 votos consignados (7%), um a mais do que a da Ponte Jornalismo, que mostra as imagens das câmeras de segurança flagrando seguranças do Habib’s arrastando um menino que logo depois seria encontrado morto.

O Prêmio Marcos de Castro destina-se a reconhecer os sites que, contra todas as dificuldades e sem pertencer a grande redes nacionais ou internacionais, lutam para manter vivo o melhor do jornalismo no país. Abaixo, a lista dos dez mais votados (na verdade, 12 por ter havido quádruplo empate na décima colocação):

1. A origem da mentalidade autoritária da Lava-Jato (Brasil de Fato) (12 votos/7%)

2. Vídeo mostra menino sendo arrastado por empregados do Habib’s antes de ser assassinado (Ponte Jornalismo). (11/6%)

3. Os sorteios do Supremo (Jornal GGN) (10/6%)

4. O martírio do reitor Luis Carlos Cancellier (Sérgio Giron/Edike Carneiro) (10/6%)

5. Documentário mostra ligação entre religião e territorialidade no Complexo do Alemão (Agência de Notícias das Favelas) (10/6%)

6. O Caso Rafael Braga (Justificando/Ponte Jornalismo) (9/5%)

7. É fácil fugir dos impostos no Brasil: basta fundar uma igreja (Nacionais.net) (8/5%)

8. Empresas alemãs colaboraram com a Ditadura Militar (Opera Mundi) (8/5%)

9. Como Eduardo Cunha manda no governo Temer (Poder 360) (7/4%)

10. Segurança privada ajudou Forças Armadas durante a ditadura (Agência Pública) (7/4%)
Auditoria mostra que são mesmo os empresários de ônibus que mandam no transporte do Rio (Agência Pública) (7/4%)
Domésticas filipinas são escravizadas em São Paulo (Repórter Brasil) (7/4%)

É hora dos bons! Escolha as melhores reportagens da internet brasileira em 2017!

Vai votar em quem?

 

Depois premiarmos a melhor da cascata do ano, no Prêmio King of the Kings, é a hora de reconhecermos as reportagens de alto nível publicadas na internet brasileira por sites independentes. A lista de concorrentes ao Prêmio Marcos de Castro-2018 é grande – 30 matérias – e, creio, que você não se dará ao trabalho de ler todos, embora se o fizer terá uma visão da brasileira que jamais verá na Rede Globo, na Folha ou na Veja. Assim, proponho que você leia aquelas matérias cujos títulos lhe chamarem mais a atenção e/ou aquelas cujos temas mais o/a atraiam.

Mas antes vamos às regras, como sempre:

  1. Você pode votar em até 15 (quinze) concorrentes.
  2. A votação termina domingo, 10 de março, para dar tempo bastante você ler o maior número de matérias.

Então, vamos às concorrentes:

  1. Vídeo mostra menino sendo arrastado por empregados do Habib’s antes de ser assassinado (Ponte Jornalismo).
  2. Governo reduz em 20% número de farmácias populares (Aos Fatos).
  3. Como Eduardo Cunha manda no governo Temer (Poder 360).
  4. Segurança privada ajudou Forças Armadas durante a ditadura (Agência Pública).
  5. Rei dos Ônibus ganha recebe benesses durante Jogos Olímpicos do Rio (Agência Sportlight).
  6. Site dá acesso aos processos da Lava-Jato (Jota).
  7. As estranhas condenações dos “terroristas” brasileiros (Agência Pública).
  8. É fácil fugir dos impostos no Brasil: basta fundar uma igreja igreja. (Nacionais.net).
  9. Censo de 1872: o retrato do Brasil da escravidão (Nexo).
  10. PM de SP assassina menor e revolta família (Ponte).
  11. Mato Grosso, a terra da chacina no campo (Nexo).
  12. “Malta files”: 148 brasileiros têm contas no paraíso fiscal do Mediterrâneo (Agência Sportlight).
  13. Dívida ativa de empresas atinge bilhões (Volt).
  14. Banalizada, senzala vira nome de restaurantes e casas de show (Colabora)
  15. Auditoria mostra que são mesmo os empresários de ônibus que mandam no transporte do Rio (Agência Pública)
  16. A origem da mentalidade autoritária da Lava-Jato (Brasil de Fato)
  17. Os sorteios do Supremo (Jornal GGN)
  18. As relações de Gilmar Mendes com o site Consultor Jurídico (Agência Pública)
  19. Domésticas filipinas são escravizadas em São Paulo (Repórter Brasil)
  20. A confraria do vinho que une Aécio a Cabral (Agência Sportlight)
  21. O Caso Rafael Braga (Justificando/Ponte Jornalismo)
  22. Os guarani-kaiowá estão morrendo de fome (Colabora).
  23. A corrupção na Ditadura Militar (Agência Pública)
  24. O martírio do reitor Luis Carlos Cancellier ((Sérgio Giron/Edike Carneiro))
  25. Empresas alemãs colaboraram com a Ditadura Militar (Opera Mundi)
  26. Crimes de ódio religioso são 90% das denúncias no Disque-Denúncia do Rio (Agência Pública)
  27. Prefeito lidera garimpeiros em ataque contra posto do Ibama no Amazonas (Altino Machado) 
  28. PM persegue negros na periferia de São Paulo (Agência Pública)
  29. A situação do consumo de maconha no Uruguai quatro anos após a liberação (Colabora)
  30. Documentário mostra ligação entre religião e territorialidade no Complexo do Alemão (Agência de Notícias das Favelas)

 

Vamos à última seletiva para o King of the Kings-2017!

 

Ano Novo, tradição mantida: a Coleguinhas começa 2018 com as colunas dedicadas à escolha das maiores cascatas do ano que passou. Nesta semana, serão escolhidas as últimas concorrentes ao King of the Kings-2017 e, no dia 21, começará a eleição da grande vencedora do único prêmio brasileiro que reconhece os coleguinhas que tanto batalham pela esculhambação do jornalismo do Brasil. Paralelamente, com a indicação das últimas concorrentes, saberemos qual a redação que venceu o Prêmio Boimate, que homenageia a equipe de coleguinhas que mais fez, em conjunto, pela detonação da própria profissão em 2017.

Antes de começarmos a votação da quarta seletiva, aqui vão as regras:
1. Você pode votar em até três cascatas.
2. O pleito termina no domingo que vem (14 de janeiro).

Vamos então as cinco concorrentes:

1. Veja já tem matéria pronta para condenação de Lula

2. Folha demite humorista depois de ele ser atacado em redes sociais

3. Jornal Nacional torna glamourosa a necessidade de pobres terem de usar lenha para cozinhar. (TV Globo)

4. Mídia esconde depoimento de advogado que expõe tráfico de influência na Lava-Jato. (Todos)

5. Mídia apoia reforma da Previdência em troca de anúncios (Todos)

 

Digital News Report – 2017 (III): Brasil

A última coluna da série sobre o Digital News Report-2017 enfoca a análise do Brasil, de autoria do jornalista Rodrigo Carro. Ela mostra que as redes sociais perderam participação no que se refere ao seu uso como canal de consumo de notícias, mas, ainda assim, o consumo on line de notícias supera a TV. Constatação: dessa disputa para saber qual o meio pelo qual os brasileiros mais acessam notícias, jornais e revistas estão definitivamente alijados.

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O motivo para que, mesmo com a redução da participação das redes sociais no acesso às notícias (já mencionada em outra coluna que abordou o DNR-2017), os brasileiros continuem a saber delas mais pela internet do que por meio da TV – que está em 97% dos domicílios do país, contra 63% da internet – é que o número de casas com pelo menos uma pessoa com celular chegou a 92,1% e este aparelho passou a ser o mais usado para saber do que vai pelo mundo.

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Paralelamente, o what’s up tornou-se muito importante na vida das pessoas, incluindo aí no ato de consumir notícias, principalmente depois que as operadoras – atropelando o Marco Civil da Internet – passaram a usar o “zero rating”, ou seja a franquia total de dados, para o mensageiro. Dessa forma, o consumo de notícias por meio do zap cresceu 7 pontos percentuais em um ano, contra queda de 12 p.p. do Facebook.

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Agora a boa notícia para os meios tradicionais: os brasileiros ainda confiam neles. Nada menos do que 60% acreditam nas notícias que leem, ouvem ou veem, percentual igual ao dos que acreditam nos veículos pelos quais acessam as novas.

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Por fim, o DNR-2017 confirmou a característica maior do ecossistema midiático no Brasil: a concentração nas mãos do Grupo Globo. O gráfico mostra que o grupo dos Marinho lidera com folga entre os meios tradicionais, com a TV (aberta mais paga) e fica com o segundo e o terceiro lugares nos on line.

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CONCLUSÕES
A maior novidade do DNR-2017 em relação ao 2016 a liderança do celular como meio on line de acesso às notícias, superando o desktop/notebook. Estre fato manteve o modo on line na liderança sobre a TV,  mesmo com a queda do acesso via redes sociais. De resto, nenhuma novidade n o que se refere à credulidade dos brasileiros em se tratando de mídia e no domínio acachapante do Grupo Globo no setor. E também uma constatação que explica a fonte imensa do poder dos Marinho: as pessoas acreditam nas notícias que leem, veem ou ouvem dos veículos que acessam normalmente.

Digital News Report – 2017 (II): “Fake news” e confiança no consumo de notícias

Na segunda coluna sobre o Digital News Report-2017, o papo reto é sobre “notícias falsas”, as tristemente famosas fake news. Uma fama que vem embrulhada numa série de entendimentos pouco claros – afinal, o que são fake news? A esta pergunta direta, o DNR-2017 encontrou três respostas bem diferentes:

1. Matérias que não são reais, simplesmente inventadas com o objetivo de dar boa exposição a alguém ou alguma ideia, bem como, de outro lado, prejudicar uns e outras, em geral em troca de dinheiro;

2. Matérias que são reais, mas que são “editadas” de modo a apoiar pessoas ou ideias, podendo também ser ou não ser em troca de dinheiro;

3. Matérias que simplesmente discordam do que o leitor/telespectador/ouvinte discordam.

A pesquisa do Reuters Institute mostra que poucas pessoas são capazes de discernir com facilidade uma notícia falsa de uma verdadeira (com exceção dos EUA), mas demonstrando grande sensibilidade no que apontam como um viés da cobertura dos meios tradicionais. Assim, a pesquisa mostra que as pessoas procuram as notícias nesses meios e, portanto, o problema das fake news tem mais a ver com a desconfiança sobre a neutralidade dos meios do que as falsas notícias espalhadas pelas redes sociais.]

Numa visão por país, vemos que o brasileiro é o segundo povo que mais acredita na mídia tradicional, com 60% de confiança, atrás apenas da Finlândia (62%), superando por larga margem países como Alemanha (50%), Reino Unido (43%) e França (30%).

Isso pode ser explicado pela concentração da mídia em poucas mãos (do que falaremos na terceira coluna da série). Há que se observar também que este nível de confiança tem caído com o passar o tempo – há 12 anos, numa pesquisa nacional (certamente com metodologia diferente), a confiança era de 66%.

Boa parte da confiança que o público ainda destina aos meios tradicionais vem da percepção de que estes, apesar de suas possíveis falhas no quesito neutralidade, ainda são bem superiores às mídias sociais no que se refere ao trabalho de separar o que é fato do que é ficção.

A má notícia aí é que pouco mais de dois terços das 3 mil pessoas entrevistadas para outro estudo do Reuters Institute lembram por meio do que rede social ou máquina de busca encontraram determinada notícia, mas não de qual jornal, rádio ou TV que veiculou a matéria.

CONCLUSÕES

Os meios tradicionais estão perdendo credibilidade com o fenômeno das  fake news muito mais por seu suposto (ou não) viés político nas coberturas do que pelas falhas das redes sociais, das quais os leitores desconfiam quando se trata de se informar. A crença de que os meios tradicionais ainda são mais confiáveis, no entanto, não tem revertido para as suas marcas individuais. A reversão destes dois problemas – a percepção de que há vieses políticos nas coberturas e do aproveitamento, por meio das redes sociais, da confiança remanescente do público na qualidade de seu trabalho – são fundamentais para que os meios tradicionais consigam sobreviver ao terremoto provocado pela mudança nas formas de consumo da informação.