Tiro longo

A defenestração de Eurípedes Alcântara da chefia de redação da Veja, compreensivelmente, chamou a atenção dos coleguinhas na semana que passou. No entanto, a mudança fundamental ocorreu no escalão mais alto do Grupo Abril, com a saída de Giancarlo Civita da presidência da empresa e a contratação do publicitário Walter Longo para o cargo.

Longo é respeitado na área de publicidade, onde se destaca como palestrante. Do público de fora da confraria, ficou um tanto mais conhecido após ser o braço-direito de Roberto Justus no reality “O Aprendiz”, onde suas frases de efeito faziam sucesso entre aspirantes coxinhas a grandes executivos. Não será a primeira vez que Longo trabalhará na Abril – nos anos 90, foi chamado para salvar a TVA (para quem não se lembra ou nem era nascido, a aventura da Abril na área de televisão paga) do naufrágio. Não conseguiu, talvez por ter se dedicado mais à prestidigitação com números a fim de elevar a confiança do mercado publicitário do que em realmente produzir algo.

Dessa vez, a missão de Longo é ainda mais ingrata. Ele tem em mãos um grupo cujo produto principal foi apanhado bem no meio da revolução digital sem muito tempo para se defender – e nem, demonstrou-se ao longo dos anos, capacidade para tal. A situação da Abril é muito ruim, para dizer o mínimo. Revista, como conhecemos hoje, é um produto mantido por aparelhos, virtualmente (com trocadilho) morto num tempo em que o fluxo de informações não se mede mais por dias, mas por horas e até mesmo minutos.

Assim, a missão do publicitário é tocar, em ritmo de marcha forçada, a migração das revistas que sobraram da Editora Abril para o digital. Mas não é só isso (o que já seria complicado, pois a rota para o digital é cheia de abrolhos e redemoinhos ainda não foram mapeados). O meio Revista (assim como o jornal) apresenta todo um caríssimo esquema de apoio nas áreas de impressão e distribuição. São imensos parques gráficos e um sistema de logística especializado em fazer os exemplares chegarem a tempo e a hora nas mãos dos assinantes. O que fazer com todo esse esquema agora que não é necessário mais imprimir nada e a distribuição é feita diretamente no aparelho móvel nas mãos do leitor? Vender? Para quem, se é o meio todo que está indo pelo ralo?

Ruim, né? Mas tem mais.

Walter Longo terá que cumprir sua missão sem dinheiro e sob dois fogos. De um lado, o governo federal, que impôs cerco publicitário depois daquela capa inacreditável da edição da Veja no fim de semana da eleição de 2014. O governo só mudará a estratégia se for completamente tapado. Até por sua deficiência em leituras teóricas, Nove-Dedos achou que os “barões da mídia” eram apenas inimigos políticos com os quais se podia negociar. Não são. Marinhos, Frias, Mesquitas, Sirotskys etc são inimigos de classe, eles realmente têm desprezo por quem está abaixo deles na escala social – o que inclui a parte da classe média que tanto os veem como exemplo -, o qual se transforma em ódio quando membros das “classes perigosas” exigem seus direitos como seres humanos. O atual governo, composto por gente que, pelo menos supostamente, leu ao menos os livros fundamentais, não terá desculpa se cometer o mesmo erro de N-D.

Só que o cerco publicitário nem é o maior problema de Longo. Pior é o “fogo amigo” que poderá vir da pesadíssima artilharia do Naspers.

O Naspers é um grupo sul-africano de mídia, a maior companhia da África (toda, de qualquer setor) e a sétima maior do mundo em internet, que ajudou a criar e, por décadas, apoiou (e cresceu sob) o regime do “apartheid”. Em 2006, o grupo comprou, por R$ 868 milhões (pouco mais de R$ 1,5 bilhão, corrigido pelo IPCA até janeiro deste ano) 30% do capital do Grupo Abril. Por anos, fiéis a sua história, os sul-africanos fingiram que não viram a política dos Civita de atacar os governos que promovem a inclusão social no país.

Só que tem uma coisa que o Naspers detesta mais do que não-brancos – é perder dinheiro. Até 2010, quando as empresas brasileiras foram obrigadas a adotar a International Financial Reporting Standards (IFRS), as normas de contabilidade internacionais, os Civita ainda conseguiram dar uma enrolada nos sul-africanos. No entanto, depois que as normas permitiram a comparação de resultados, viu-se a situação desastrosa e que a Abril se encontrava, o que foi devidamente registrado em 2014 pelos auditores independentes.

O susto dos sul-africanos foi grande e a pressão começou. No fim do ano passado, como previsto no relatório da auditoria, os Civita tiveram que se coçar e bancar 70% das dívidas, o que deu R$ 450 milhões. Ainda assim, sobrou para o Naspers, que, óbvio, não gostou nada e manteve a pressão sobre a família, que, por fim, teve que largar o osso. No caso, nas mãos de Longo, que, agora, terá que apresentar resultados reais. E bem rápido.

Circulação Globo, Estadão e Folha – Comparações

Essa numeralha vai ser grandinha, vou logo avisando, para dar tempo de você escapar ileso/a.

Ainda aí? Então não diga que não avisei.

A ideia é comparar os três mais importantes jornais do país, depois de ter analisado os dados de cada um separadamente. Creio que, nesse recorte, dará para ver a situação de cada um em relação ao geral e os caminhos que tomaram nos últimos dois anos. Para ter uma ideia mais clara – e para dessazonalizar os dados, muito influenciados por grandes eventos como Copa do Mundo e eleição presidencial em 2014 – há um recorte com a evolução dos três tipos de assinaturas (impressa, digital e híbrida – digital+impressa) comparando de 2014 com 2015 para cada veículo.

Vamos lá.

Tabela/gráfico 1

20160221_gráfico_variação_absoluta _geral_ jan-dez-14_jan-dez-15

Tabela/gráfico 2

20160221_gráfico_variação_percentual_geral_ jan-dez-14_jan-dez-15

 

Análise

1. O primeiro gráfico (com sua respectiva tabela) mostra que, em números absolutos, a queda na circulação média, de domingo a domingo, impressa na Folha, no período jan-14/ a dez/15, foi de pouco mais de 41 mil exemplares, o que representou menos 19% de assinantes para o jornal dos Frias (segundos gráfico e tabela) – assim, quase 1 em cada 5 leitores deixou de assinar o impresso do jornal no período. Esse resultado ficou bem acima dos seus concorrentes, que também caíram – seguindo uma tendência mundial -, mas em termos absolutos e percentuais bem inferiores: O Globo (menos 30 mil exemplares, menos 13,86%) e Estadão (menos 25.627, menos 14,65%).

2. A situação da Folha fica ainda mais desconfortável quando vamos para a tabela de assinaturas digitais puras. Embora tenha crescido cerca de 22 mil assinaturas (33,61%), no período entre janeiro de 2014 e dezembro de 2015, o diário da Barão de Limeira ficou bem atrás de seus dois maiores concorrentes, pois o Globo elevou a circulação de assinaturas digitais em 36.049 exemplares (116,37%) e o Estadão em estratosféricos 250, 70% (a 30.826), embora, em números absolutos, apenas 8 mil a mais que o seu maior concorrente na cidade.

3. Este espetacular desempenho do Estado de São Paulo não se repetiu nas assinaturas híbridas. Bem ao contrário. Em relação aos seus dois concorrentes, o jornal dos Mesquita foi muito mal ao perder 18.226 assinaturas (menos 39,41%), enquanto a Folha caía apenas 2.644 (redução de 5,43%) e O Globo ainda menos – 1.483 (- 2,81%).

4. Com os resultados acima, no fim das contas, O Globo mostrou-se o jornal mais firme. Não apenas não caiu, mas como aumentou a circulação no período janeiro de 2014 a dezembro de 2015, com mais 4.231 exemplares ( crescimento de 1,41%), enquanto os dois jornais paulistas amargavam queda percentual total de 5,58% (Estado, com menos 13.027 exemplares) e 6,63 (Folha, redução de 12.019 exemplares).

5. A razão para o crescimento, ainda que praticamente vegetativo do Globo (o crescimento da população fluminense, a base geográfica do jornal, tem sido por volta de 1% ao ano, segundo o IBGE) tem muito a ver com o fato de o jornal dos Marinho não ter concorrentes em sua faixa no estado, como ocorre com os paulistas, além de contar com o poderio do Grupo Globo, especialmente da TV, algo que nem a Folha e nem o Estado podem contar (embora os Frias tenham o UOL para ajudar também).

Os resultado acima, bem díspares, principalmente no caso da Folha de São Paulo, me levou a dessazonalizar os dados, dividindo-os entre em dois períodos – janeiro a dezembro de 2014 e janeiro a dezembro de 2015 – a fim de compará-los, jornal a jornal, e ter uma melhor visão da dinâmica da evolução das assinaturas. Ficou assim:

O Globo

20160221_gráfico_variação_percentual_o globo_jan-dez-14 vs jan-dez-15

Nesta visão, o crescimento do Globo no período janeiro/14 – dezembro/15 perde bastante de seu brilho, especialmente devido à enorme queda no incremento das assinaturas digitais, que caíram de 121,24%, em 2014, para apenas 1,73%, no ano passado, e também a reversão das assinaturas híbridas, que aumentaram respeitáveis 52,89%, em 2014, e caíram 6,51%, no ano seguinte. Como o impresso manteve a queda em aceleração ( menos 5,38%, em 2014, menos 7,64%, em 2015), O Globo tende a deixar para trás a posição relativamente confortável que se encontrou até o fim do ano passado.

Estado de São Paulo

20160221_gráfico_variação_percentual _folha_ jan-dez-14 vs jan-dez-15

O jornal dos Mesquita parece ser, dos três grandes do eixo Rio-SP, o que melhor vem se adaptando ao digital. Pelo menos foi o único a manter crescimento neste tipo de assinaturas nos dois períodos, apesar da enorme queda nas “puras” ( de 137,74% para 13,03%) e nas híbridas (menos 2,97% para menos 37,66%). Essa reversão fez com que o jornal não conseguisse manter a elevação do total que obtive em 2014 (1,72%), amargando queda de 8,9%, em 2015.

A diferença do desempenho da digital pura me chamou a atenção. Apurando descobri que o jornal realizou uma modificação muito grande em seu aplicativo móvel, tornando-o leiáute mais moderno e com uma atualização mais ágil, além de permitir a leitura off-line (ver uma tela de abertura abaixo). O redesenho foi tão bem-sucedido que está disputando o Pixel Awards – prêmio estadunidense com 10 anos de existência – na categoria Notícias, pelo voto popular, contra pesos-pesados como Reuters TV, Huff Post e TMZ. Pelo que apurei, o app foi muito bem recebido pelos leitores também e o acesso por ele tem crescido.

mobilie estadao

Folha de São Paulo

20160221_gráfico_variação_percentual _folha_ jan-dez-14 vs jan-dez-15

O jornal da Barão de Limeira me levou a fazer as contas desta seção por ter apresentando uma reversão completa no período 2014/janeiro 2015. Esse cavalo de pau fica patente na tabela e nos gráficos acima. Não encontrei uma explicação puramente estatística para o que aconteceu com as assinaturas digitais, tanto “puras” quanto híbridas. A única explicação que me restou foi a de que o leitor da Folha simplesmente brigou com o jornal, hipótese que se reforça com a aceleração brusca da queda das assinaturas impressas, que cresceu quase 7 vezes de um ano para o outro em termos percentuais (de menos 2,42% para 14,08% negativos).

Seja o que for que tenham feito, os Frias ofenderam profundamente seu público e vão ter que cortar um dobrado para recuperar a confiança deles.

Circulação Folha: Inversão e forte queda

Vamos então aos números da circulação média, de segunda a domingo, da Folha de São Paulo ao longo dos anos de 2014 e 2015. Não chega a ser surpreendente, mas é interessante observar que as curvas dos gráficos de tendência do jornal dos Frias são bastante semelhantes às do Globo, de propriedade da família Marinho, como você pode ver se comparar com o post abaixo.

Os dois gráficos mostram uma queda forte de circulação após o fim do ciclo de eventos importantes de 2014 (Copa e eleições), que se manteve em 2015. As curvas são parecidas, porém, o diário paulista sofreu quedas percentuais e absolutas maiores do que seu concorrente-corimão carioca (após os números do Estado de São Paulo, que devem ser analisados semana que vem, pretendo fazer uma análise comparativa entre os três jornais mais influentes do país).

Antes da análise, a tabela de circulação abrangendo os três tipos de circulação, de janeiro de 2014 a dezembro de 2015, e o gráfico de tendência correspondente.

20160207_tabela_circulação_jan-dez-2015_folha

 

20160207_gráfico_circulação_jan-dez-2015_folha

 

Análise

1. A redução na circulação total de janeiro para dezembro de 2015 foi de 15,08% (de 365.428 para 310.335), 55.093 exemplares em números absolutos.

2. A edição impressa apresentou queda de 14,08% (204.229/175.469, menos 28.760 exemplares). O patamar abaixo de 200 mil exemplares foi atingido em abril (como ocorreu com O Globo).

3. A queda da edição digital foi de 13,69% (102.894/88.809, menos 14.085 assinaturas). O patamar abaixo de 90 mil assinaturas foi deixado para trás em novembro.

4. A circulação híbrida (assinaturas da edição digital mais a impressa) reduziu 21,01% (de 58.305/46.057, menos 12.248 exemplares).

5. De janeiro para dezembro de 2014, a circulação geral tinha aumentado em 11,64% (de 332.354 para 371.051, mais 38.697), graças ao desempenho da circulação das assinaturas envolvendo edições digitais. Desta forma, houve uma brusca inversão na tendência, que fez com que, em dezembro de 2015, a Folha de São Paulo tivesse uma circulação de 22.218 exemplares (6,68% ) menor do que em janeiro de 2014.

6. No mesmo período de 2014, o aumento das assinaturas digitais chegou ao excelente percentual de 49,92% (66.467/99.647, mais 33.180). A inversão em 2015 foi muito violenta aqui – aumento de 33.180 de venda em um ano, queda de 14.085 no ano seguinte. Ainda assim, no total líquido, a Folha apresentava saldo de 22.342 (33,61%) de assinaturas em dezembro/2015 em relação a janeiro/2014.

7. As assinaturas híbridas (digital+papel) também tiveram um desempenho significativamente bom em 2014, com aumento de 22,11% (48.701/59.470). No entanto, no período mais longo (janeiro/14 a dezembro/15), houve redução no número deste tipo de assinatura (48.701/46.057), resultado da inversão ocorrida ano passado, quando houve queda de 21,01%.

8. Embora os gráficos de tendência sejam muito semelhantes, a Folha parece em situação pior do que a do Globo, no momento. O jornal dos Frias vinha num quadro de crescimento nos dois tipos de circulação que envolviam a edição digital (a “pura” e a “híbrida”) e de uma queda controlada na impressa. Em 2015, porém, o caldo desandou e não só a edição impressa acelerou em muito sua queda (de 2.76% em 2014 para 14,08%, no ano passado) como houve uma inversão brusca e violenta nas circulações digital e híbrida.

9. Esta violenta desaceleração nas vendas pode ter sido causada pela crise econômica do país – que existe, mas foi muito amplificada pelos meios de comunicação, incluindo a Folha -, mas dada a brusquidão (e profundidade) da virada nas edições digitais parece ter sido causada também por uma forte rejeição da linha editorial do jornal por parte de leitores tradicionais, sem o correspondente contrabalanço de novos leitores.

10. No momento, a pergunta que se faz é até onde irá essa redução. A tendência, pelo menos num prazo médio, é que ela se estabilize em algum patamar. A questão é saber qual patamar será. A resposta deverá vir nos próximos meses e, dependendo de qual for, os minipassaralhos como o ocorrido na semana passada – quando seis profissionais foram demitidos nas redações de São Paulo e Brasília (podem ter havido outras demissões que não chegaram ao meu conhecimento) – poderão repetir-se em 2016.

Circulação O Globo: estagnação com tendência de queda

O IVC liberou os números de circulação média dos veículos por ele auditados referentes a 2015. Hora, portanto, de começarmos as numeralhas de 2016, que não deverão ser das mais extensas por motivo que, se confirmado, informo vocês lá pelo meio do ano. O período que usarei para as análises abrange dois anos, pois o maior número de dados permite uma melhor visão das tendências.

Vamos, então, começar com O Globo.

 

20160131_tabela_circulação_jan-dez-2015_o globo

 

Circulação jan-dez-2015 O Globo

 

 

Análise

1. A variação de circulação média das edições impressas  em 2015foi negativa em 7,65%, de 201.857 para 186.426. O patamar de menos de 200 mil exemplares foi ultrapassado em abril.

2. A mesma variação no período de janeiro /dezembro de 2014 registrara queda de 5,38%. Houve, portanto, uma aceleração de 42,19% na velocidade de perda de circulação entre um ano e outro.

3. A redução total no período janeiro/2014 a dezembro/2015 foi de 13,86% (216.431/186.426)

4. A variação da edição puramente digital, entre janeiro e dezembro de 2015 foi positiva em 1,73%, de 65.283 para 66.413.

5. Já a variação no período janeiro/dezembro de 2014 foi de 121,24% (30.694/67.906). Dessa forma, depois de um aumento excepcional em 2014 (ano de Copa e eleição presidencial), a circulação da edição digital apresentou um crescimento vegetativo, tendendo à estagnação.

6. A elevação total do período janeiro/2014 a dezembro de 2015 foi de 116,37%,(30.694/66.413), um resultado excelente.

7. As assinaturas híbridas (digital+impresso) apresentaram variação negativa em 2015 de 6,51%, caindo de 54.779 para 51.214.

8. O mesmo tipo de assinatura teve elevação na circulação de 52,89% no período janeiro/dezembro de 2014 (52.697/80.566).

9. No total, as assinaturas híbridas tiveram uma queda de 2,81% entre janeiro de 2014 e dezembro de 2015 (52.697/51.214).

10. Com esses números, a circulação geral do Globo no período mais longo (janeiro/2014-dezembro de 2015) apresentou um leve aumento de 1,41% (de 299.822 para 304.053). O resultado se deve ao expressivo aumento da circulação das assinaturas digitais puras e híbridas em 2014, no embalo da Copa e das eleições (pontos 5 e 8). No segundo subperíodo (ano de 2015), porém, a desaceleração do primeiro tipo de assinatura (ponto 4) e a inversão abrupta da tendência, para queda, do segundo tipo (ponto 7) levaram o quadro de mais longo prazo para a estagnação, com um viés de queda, como demonstra claramente o gráfico de linhas de tendência.

Circulação do Globo, janeiro/2014 – outubro/2015: queda constante

Os adeptos das palavras vão me perdoar, mas depois de duas semanas usufruindo das escritas pela minha irmã, é hora de voltar aos números. No caso, aos de circulação dos principais jornais do país, a começar pelos do Globo. A ideia é dar uma destrinchada maior nos dados e antecipar tendências, quando tiver uma base maior de dados (ano que vem, já vai dar), além de ampliar o leque de publicações para jornais de outros estados (vai depender de algumas negociações, mas creio que vai rolar também em 2016).

Bem, agora algumas observações técnicas – perdão, mas são meio que inevitáveis para as coisas ficarem explicadinhas (prometo, porém, tentar torná-las o mais indolor que conseguir):

1. Os dados começam em janeiro de 2014 porque este foi o primeiro mês em que o IVC pôs em prática as definições sobre edições digitais e analógicas (em papel), que eram bem confusas. Por isso, os dados para trás foram desprezados.

2. Os números se referem à circulação média mensal.

3. Os dados das edições foram divididos em três colunas: digital puro, papel puro e digital+papel, quando se trata de assinaturas que contemplam os dois tipos de edição anteriores.

4. A novidade real, em relação às tabelas e gráficos com os quais você estava acostumado, são as linhas de tendência (também chamadas de regressão porque podem voltar, o que não é nosso caso aqui). Assim, haverá explicações mais pormenorizadas sobre elas (e tristemente um tanto dolorosas):

a. Usei as linhas polinomiais, mais indicadas para casos em que há picos e vales mais acentuados nas curvas de dados, como circulação de publicações;

b. Como cada publicação apresenta curvas diferentes, com diferentes relações entre picos e vales, a potenciação foi definida não só para cada uma delas, como também para cada tipo de edição. Assim, o jornal A pode ter uma linha de tendência de polinômio 3 para a edição digital e 4 para edição analógica, enquanto o jornal B pode tê-las invertidas, ou mesmo diferentes (2 e 3, por exemplo).

c. No entanto, para possibilitar uma comparação entre os veículos, trabalhei sempre com linhas que tivessem um R² acima de 0,8. O que é R²?…Certo…R Quadrado é a indicação de quanto uma linha de tendência é aderente às linhas de determinado gráfico. Varia de 0 a 1 e quanto mais próxima a 1, melhor.

Acabou. Não foi tão ruim, foi? Então vamos a tabela e ao gráfico

20151206_tabela_circulação-outubro_2015

 

Gráfico de circulação de O Globo - jan-2014/out-2015

 

ANÁLISE

1. Não há a menor dúvida, os números e curvas falam por si: a circulação d’O Globo está em queda. O ritmo desta retração, porém, varia por tipo de edição e circulação.

2. A edição em papel é a que apresenta a redução mais veloz e constante. Usei a linha com polinômio 2, mas poderia ter usado a regressão linear que a curva seria praticamente igual – uma reta apontando para baixo. Não vejo razão alguma para que esta tendência mude.

3. As assinaturas digitais tiveram um crescimento espetacular de janeiro a dezembro do ano passado (de 30.964 para 67.906, mais 119,31%), mas, a partir de janeiro a curva inverteu-se: até outubro deste ano, houve queda de 10% (para 61.095). Vamos ter que aguardar um pouco – talvez uns seis meses – para ver como ela se comporta.

4. As assinaturas compostas mostram uma brusca quebra de dezembro de 2014 para janeiro deste ano, com uma queda de 32% entre estes dois meses (de 80.566 para 54.779). Houve retração também na circulação das edições “puras”, mas muito longe desse nível. Quando ocorre uma situação desta, normalmente é porque houve uma limpa de cadastro. Entre junho e julho, outra redução, mas menor (7%, de 54.124 para 50.338). Também neste caso, precisamos aguardar até o primeiro trimestre de 2016 para ver como se comportam os números.

5. No total, após um 2014 de crescimento atingindo dois dígitos, de 17,8% (de 299.822 para 353.251), capitaneado pelas assinaturas digitais, a circulação de O Globo foi 1,3% menor em outubro passado do que em janeiro de 2014 (295.687 contra 299.822).

6. A explicação provável para a disparidade apontada acima é a de que, em 2014, houve dois grandes eventos que despertaram muita atenção – Copa e eleições presidenciais, enquanto em 2015 nada houve que merecesse atenção suficiente para um acompanhamento mais constante. Se assim tiver sido, pode-se esperar uma ligeira recuperação em 2016, já que há Jogos Olímpicos no Rio e também eleição municipal.

Vamos à segunda seletiva do King of the Kings-2015!

Estamos chegando a abril apenas e já vamos para a segunda seletiva do King of the Kings-2015, prêmio que reconhece os coleguinhas que, com suas cascatas, dão inestimável contribuição para o avacalhamento do jornalismo brasileiro.

Dessa vez são oito novas concorrentes, mas como organizador, presidente sumo-sacerdote, júri e boy do KofK, resolvi oferecer a chance de repescagem para as duas concorrentes que não se classificaram na primeira seletiva, ocorrida em fevereiro e que classificou as três candidatas à finalíssima que estão aí ao lado. Assim, são 10 as aspirantes, das quais as seis mais votadas qualificam-se para a final de janeiro de 2016. A cédula eleitoral segue abaixo da lista e você pode votar em até seis das concorrentes.

Uma dica: para os que estão chegando agora e quiserem saber o que é o King of the Kings, basta ir na aba “Hall da infâmia do KofK”, na qual está a explicação do nome do prêmio e a lista dos vencedores de 2008 para cá.

Agora, senhoras e senhores, às candidatas!

Coleguinhas esquecem de ouvir advogada da Odebrecht que encontrou ministro (Todos)

Repórter assedia adolescente sobrinho de Lula (Veja)

Mãe de Taylor Swift proíbe filha de fazer show no Brasil (O Globo)

Tinta vermelha de ciclovia mancha carros em São Paulo (TV Globo)

Manchete do Globo de 16 de março

Lei Rouanet aparece na lista do HSBC (O Globo e UOL): Essa merece uma explicação. Segundo Fernando Rodrigues (aqui), a divulgação dos nomes da lista do HSBC obedeceria aos melhores critérios jornalísticos. Se é assim, o que faz a menção à Lei Rouanet nesse texto? Há provas de que o dinheiro da Lei foi desviado pelos artistas para as contas numeradas? Não. Então por que publicar? A conclusão é inelutável: bom jornalismo é o que Fernando Rodrigues diz que é.

Reuters pede aprovação de FHC para publicar que a corrupção na Petrobras começou no governo dele

Lula desmente manchete do Estado de São Paulo (Estado de São Paulo)

Lula forçou Petrobras a patrocinar escolas de samba do Rio (Valor)

Sabesp já tem plano para aplicar racionar água em São Paulo (Folha)

King of the Kings -2014: as últimas cascatas concorrentes

A morte de meu pai me deixou sem cabeça para pensar em muita coisa nas últimas duas semanas, mas o fim do ano está chegando , e mesmo sentindo falta de meu velho – algo com que vou ter que me acostumar porque será assim para sempre -, está na hora de apresentar os últimos candidatos ao King of the Kings de 2014, o único prêmio do jornalismo brasileiro dedicado aos coleguinhas e veículos cascateiros.
As três últimas concorrentes são:

1. Dilma e Lula sabiam da corrupção na Petrobras (Veja): Em outras edições do KofK seria “hours concours”, mas acabei com essa categoria. Assim, essa “matéria” da Veja, na verdade uma tosca tentativa de evitar a vitória de Dilma na eleição presidencial, também passará pelo escrutínio dos eleitores, mesmo que seu favoritismo seja enorme.

2. Prêmio Mário Lago para o “Jornal Nacional” (Grupo Globo): O comentário de Graça Lago, filha de Mário, sobre um post publicado pelo Diário do Centro do Mundo (DCM), explica, de uma maneira que eu jamais poderia, a participação dessa premiação no KofK-2014. Leia aqui .

3. A denúncia da Venina (Valor): Essa cascata é interessante porque, como assessor de imprensa, tenho que aplaudi-la. É que Venina Velosa da Fonseca fez o que a eu aconselharia que fizesse na situação dela – sabedora (graças, provavelmente, a uma fonte interna da empresa) que a auditoria independente contratada pela Petrobras a apontaria como suspeita de alguns malfeitos, ela atacou primeiro. Essa é a estratégia a ser usada sempre que você sabe que algo ruim será dito contra você – revele primeiro, pois o enfoque inicial (o seu) sempre se manterá, mesmo que outros surjam depois. Você não ficará na defensiva, o que sempre é muito ruim em termos de guerra – e não sou eu que digo isso, mas Napoleão Bonaparte: “Quando estou cercado, ataco”, dizia o Corso, ecoando o que já afirmava Sun Tzu no clássico “A arte da guerra”, no qual o estrategista chinês aconselhava a nunca cercar um inimigo deixando-o saber que não tem saída, pois, nesse caso, ele não terá nada a perder e lutará até a morte, inflingindo perdas desnecessárias nas suas hostes.

Assim, chegamos ao fim da lista de concorrentes do KofK-2014. São apenas 15, pois, como nos últimos anos, fiz uma seleção tremendamente rigorosa. Se assim não fosse, o número de cascatas seria enorme e prejudicaria, talvez a ponto de inviabilizar, a votação. Esta, aliás, começará domingo que vem, dia 4, e terminará no dia 18.