O investimento em publicidade da Petrobras de 2011 a 2016 – I (Geral)

Já mencionei que a Lei de Acesso à Informação é mais uma daquelas leis que ameaçam “não pegar”? Acho que sim. Realmente, não é fácil obter dados do governo federal pelo menos no que se refere à distribuição da publicidade da Administração Indireta – além da Caixa e BB, que, como bancos estão além e ao lado de qualquer lei vigente no Sudão do Oeste, até o Correio (o Correio!) resiste a abrir esses dados completos aos cidadãos. Até o momento, porém, há uma importante e grata exceção: a Petrobras.

Talvez devido aos seus recentes problemas com a lei, a petrolífera não deixou a desejar em termos de atendimento à LAI. No prazo legal de 20 dias corridos, a empresa enviou todos os dados solicitados em formato PDF – foi pedido em XLS, mas dificuldade que um programinha de conversão resolveu sem problemas –, da maneira requerida. E são esses os dados que passaremos a analisar nas próximas semanas (essa é a deixa para você cair fora e só voltar daqui a uns dois meses).

Antes de iniciar, porém, aquelas notas metodológicas, tão cabulosas quanto essenciais para você entender o que vai ler:

1. A empresa enviou dados desde 2003 (não havia dados consolidados antes deste ano), mas só usei os de 2011 para cá por que esse foi o período coberto pelos dados da Administração Direta, destrinchados recentemente.

2. Como esses mesmos dados, há uma cisão temporal. Até 2013 (inclusive), eles se referem a valores autorizados – empenhados, em burocratês -, não necessariamente realizados. De 2014 para cá, porém, estão os valores foram efetivamente executados.

3. À primeira vista, manter os dois tipos de dados juntos não seria correto. No entanto, como se verá, a análise não sofre com essa junção, pois a tendência não é afetada (com exceção de um caso), já que o fato de os valores terem sido previstos  já mostram a orientação estratégica, a intenção, de se investir neste ou naquele meio, nesta ou naquela empresa.

4. Como não pedi a relação previsto/realizado no período, não há como se ter uma ideia do percentual médio de execução orçamentária. Ano que vem (sim, vai ter essa série de análises todos os anos, lamento informar, pelo menos enquanto viger a LAI), solicitarei essa relação, mesmo não tendo muita esperança de obtê-la.

5. As conclusões políticas – de existirem – ficam por sua conta e risco, certo?

 

Então, vamos lá:

 

POR ANO

 

Análise

1. Aqui se vê que a mudança de metodologia ocorrida de 2013 para 2014 não chegou a alterar as tendências gerais. Os investimentos efetivamente realizados em 2014 foram superiores aos previstos em 2013, embora em percentual diminuto: 2,72%.

2. Nos três anos (2011-2013) que se referem aos investimentos previstos, o de 2012 foi o de maior verba empenhada, superior a 2011 em 20,66% e a 2013, em 10,04%.

3. Nos três anos seguintes, aqueles com dados sobre o investimento efetivamente realizados, aquele de maior prodigalidade da Petrobras foi o de 2014, muito provavelmente por ter sido o ano da Copa.

4. A queda do investimento em publicidade da estatal de 2014 para 2015 foi de 13%, significando, em números absolutos e redondos, R$ 37.359.208,00.

5. Já a queda de 2015 para 2016 foi de espetaculares 44,92%, um tombo que significou, em termos absolutos, R$ 112.279.158,00 – menos R$ 74.919.950,00 de um ano para outro.

6. Assim, em apenas três anos, o investimento em publicidade da Petrobras caiu à metade – mais precisamente em 52,08%. Em reais, esse percentual traduziu-se em R$ 149.638.366,00. Não foi bolinho.

 

POR MEIO

Análise

1. A Administração Direta “descobriu” a publicidade na internet em 2012, mas a Petrobras só o fez dois anos depois, possivelmente devido à Copa do Mundo: de 2013 para 2014, o crescimento de investimento no meio cresceu de 93,3% (este percentual pode ter sido até maior porque, lembre-se, o dado de 2013 é de investimento previsto, enquanto o de 2014 é de efetivamente realizado). Para o ano seguinte, novo acréscimo significativo – 55,63%. Esses dois crescimentos seguidos tornaram ainda mais dramático o tombo ocorrido de 2015 para 2016, de 45,42%. No período, tomados os anos inicial e final, o crescimento de investimentos publicitários da estatal na internet foi de 80,32% – no mínimo, devido à diferença de dados recordada acima.

2. O meio jornal teve seu momento de glória em 2014, quando obteve o maior investimento de verbas no período, indo a R$ 41.578.408,07, uma extraordinária elevação de 179,07%, que, no entanto, seguiu-se a uma retração de (-73,43%), que levou o meio a faturar em publicidade no patamar anterior e cair abaixo dele (-7,61%) no ano seguinte. Na comparação ponta a ponta, a redução foi de 31,67%.

3. Em comparação aos meios dos itens anteriores, o rádio teve seu momento um ano antes, em 2013, quando houve autorização para um investimento de R$ 10.372.644,94, 46,99% maior que o ano anterior. A partir daí, foi ladeira abaixo, chegando a meros R$ 1.275.692,42 de investimento realizado em 2016, o menor de entre todos os meios em todo o período realizado – contando recursos autorizados e efetivamente pagos – e menor 74,36% do que a verba de 2014.

4. Dos cinco meios analisados, o Revista é o mais errático e o que mostra mais claramente diferença quando se passou da apuração de dados do empenho para o investimento efetivo. De 2011 a 2013, houve um crescente pequeno, mas contínuo, da ordem de 12,23% neste subperíodo, que subitamente transformou-se numa estranha gangorra no subperíodo seguinte – em 2014, foram efetivados apenas R$ 10.505.519,26, mas, no ano seguinte houve um crescimento de 107,99% (a R$ 22.474.397,16), para, em seguida, um tombo ainda mais profundo que levou o valor a R$ 7.989.622,83 (menos 64,45% do que o ano anterior).

5. O último dos meios analisados é o amplamente dominante, a TV, mas mesmo ele passou por uma desidratação violenta das verbas publicitárias da Petrobras. Tomando-se apenas o subperíodo 2014/2016, a redução de investimento da estatal no meio foi de 51,78%, o que significou, em termos absolutos, mais de R$ 100 milhões (de R$ 210.021.695,46 para R$ 101.216.817,80). Dado o predomínio do meio, essa queda afetou profundamente o desembolso total observado lá no item 6 da análise por ano.

 

Por fim, uma geral na distribuição total de verbas no período todo, incluindo os dados de empenho e de pagamento efetivo.

 

Para surpresa de ninguém, mais de três reais em cada quatro da verba publicitária da estatal de petróleo foram direcionados à TV. A internet ainda está atrás de jornais e revistas, mas não tão atrás assim – será interessante ver se haverá alteração de posições.

Vamos à segunda seletiva do King of the Kings-2017!

O meio do ano já chegou! O tempo voa mesmo, como dizia minha avó. Então, é hora da segunda seletiva para o King of the Kings-2017! Das dez concorrentes desta seletiva, quatro estão na repescagem da primeira e seis são novas. Antes de começar, vamos às regras, como sempre.

1. Você pode votar em até seis concorrentes.

2. Também dessa vez, as quatro não classificadas terão nova chance na próxima seletiva.

3. A votação vai até o próximo domingo, dia 16.

E vamos às concorrentes!

1. Estado de São Paulo acusa erradamente juiz do Amazonas de ligação com facção criminosa e ele passa a ser ameaçado por outra.

2. Site 247 recebe informação de leitor, não checa e publica que presidente do Bird criticou governo por acabar com programas sociais.

3. Elio Gaspari defende que Temer deve ficar porque “ruim com ele, pior sem ele”. (Folha e Globo).

4. Procuradores da PGR dão “coletiva em off” para vazar nomes da Lista da Odebrecht. (Vários).

5. Estadão afirma que 59 milhões de tuiteiros apoiaram Dória em polêmica com Amazon.

6. Jornalista da GloboNews festeja recessão e desemprego por devolver poder de compra aos brasileiros.

7. Estudante tem a cabeça quebrada por cassetete empunhado por policial e a Folha o descreve como “homem trajado de PM”

8. Veja acusa Lula de usar Dona Marisa para escapar de Moro.

9. Miriam Leitão afirma ter sido agredida por petistas durante voo, mas ninguém vê.

10. Folha usa perito Molina para desqualificar gravações de Joesley Batista que mostram Temer cometendo diversos

 

Investimentos em publicidade da Administração Direta do Governo Federal (2011-2016) – II (Jornal). Ou “é pentelhando que se recebe” .

O que não faz uma pressãozinha exercida por um chato de galochas, né? Você deve lembrar que tenho cortado um dobrado há dois meses para obter os dados sobre a publicidade do Governo Federal fornecidos pela Secom desde o ano 2000. Usando a Lei de Acesso à Informação (LAI), fiz o pedido dos dados e a secretaria disse que só era responsável pela programação da Administração Direta (Presidência e ministérios), me chutando para os demais órgãos se eu quisesse mais informações. Recorri até a CGU, que pediu uns 70 dias para obter as informações. Pois bem. Na terça-feira, tive uma sensação e fui olhar de novo o lugar em moravam as planilhas e…voilá! Lá estavam os dados que a Secom dissera que não era obrigação dela obter. Aliás, tem até mais: o investimento publicitário das empresas que não concorrerem no mercado (ou seja, fora BB, Caixa, Petrobras e Correios, basicamente) e a AD.

No entanto, não vou interromper a numeralha do investimento da Administração Direta do Governo Federal, que comecei semana passada. Os motivos são dois:

1. Gosto de terminar o que começo.
2. Os dados de investimento que estou usando remetem ao que foi concretizado, em termos de anúncios. Já os que agora, após a empentelhação, a Secom disponibilizou, referem-se ao que foi programado para ser gasto – o que, na Administração Pública, chama-se empenho -, mas que pode ou não ter sido realmente efetivado. Esses dados servem para análises mais estratégicas, para saber, por exemplo, se o governo está gastando menos em jornais do que em internet, como se poderia esperar dada a queda de audiência e alcance dos primeiros e o crescimento concomitante da segunda mídia.

Para obter o que equivalente dos números da AD que estou mostrando na Administração Indireta – principalmente empresas estatais -, aproveitei o mole da Secom de ter escrito que devia procurar as empresas, já comecei a pedir dados iguais a elas. Até o momento, BB, Caixa e Petrobras, a primeiras felizardas, não se dignaram a responder, mas eu, claro, continuarei pentelhando.

Dito tudo isso, vamos aos dados de investimento em publicidade da AD federal nos três principais jornais do país, entre 2011 e 2016.

20170604_tabela_jornais

20170604_gráfico_jornais

Análise
1. Salta aos olhos a queda ocorrida de R$ 1.804.228,30 para R$ 718.786,40 entre 2012 e 2013 – cerca de 60%.

2. Esse novo – e muito mais baixo – patamar foi mantido até 2015, apesar da recuperação parcial de R$ 400.092,46, em 2014, que reduziu a perda de publicidade da Folha, Estado de São Paulo e O Globo para 38% do valor de 2012.

3. A recuperação total veio apenas em 2016, quando o valor total até superou o ano-base (2012) – R$ 1.839.431,24 contra R$ 1.804.228,30.

4. O maior dado da série é o de 2011, quando o investimento em publicidade da AD federal nos três maiores jornais do país atingiu R$ 1.919.224,43. Esse montante deve ser superado em 2017, pois, como mostra a tabelinha abaixo – apenas nos primeiros três meses do ano em curso, o montante já atingiu R$ 1.241.470,52, ou seja 64,7% do total de 2011 (e 67,5% do total de 2016).

20170604_tabela_jornais_1tri_2017

5. Tomando-se o ano com o patamar mais alto da série (2011) e comparando-o com o mais baixo (2013), o jornal que mais perdeu, percentualmente, foi O Estado de São Paulo, com 67,1% de redução, seguido pelo Globo (- 65,3%) e Folha, com -54,3%.

6. Já na retomada 2015/2016, o jornal dos Frias foi o mais beneficiado, com uma elevação 227,77%, com o dos Mesquita ficando com 168,33%, enquanto o dos Marinho teve de contentar-se com um crescimento “apenas” na casa de dois dígitos (81,62%).

7. Apesar de ter severas dúvidas sobre uma ligação mecânica entre as verbas publicitárias e os fatos políticos, não há como que os dados sugerem essa ligação de uma maneira mais forte nos jornais do que nas TVs. No período 2013-2015, quando a verba publicitária destinada aos três grandes jornais do país caiu drasticamente, estes elevaram em muito sua agressividade contra o governo federal, ao passo que, na retomada de 2016, ano transcorrido em sua maior parte sob o governo #ForaTemer, Folha, Estado e O Globo foram bem mais suaves em relação ao Governo Federal.

Com saudade? Pois vamos à primeira seletiva do King of the Kings-2017!

Já estamos em abril! Rápido, né? Então, já é hora da primeira seletiva do King of the Kings de 2017! Selecionei dez matérias e sei que você vai reclamar (“mas teve muito mais”) e devo concordar. No entanto, como faço há alguns anos – desde que os coleguinhas de redação perderam de vez a noção e a vergonha e passaram a cascatear como se não houvesse amanhã -, tenho sido muito rígido na escolha das cascatas que chegam à seletiva: elas precisam ser bem escancaradas, cabeludas mesmo, para chegarem ao seu escrutínio.
Como sempre, comecemos pelas regras:

1. Você pode votar em até seis (6) concorrentes entre as dez da lista.
2. Você ainda terá uma nova chance de votar nas quatro não classificadas, pois elas voltarão na próxima seletiva.
3. A votação terminará no próximo domingo, 9 de abril.

Agora, às concorrentes:

1. Estado de São Paulo acusa erradamente juiz do Amazonas de ligação com facção criminosa e ele passa a ser ameaçado por outra.

2. Apresentadora da Record diz que índios deviam ficar sem remédios contra malária para morrerem.

3. Exame usa exemplo de Mick Jaegger para defender reforma da Previdência.

4. Delegado da PF diz que não de precisa de provas para prender Lula, apenas “timing” certo. (Veja)

5. Maluco conhecido diz ter levado mala de dinheiro para Lula e IstoÉ dá capa.

6. Site 247 recebe informação de leitor, não checa e publica que presidente do Bird criticou governo por acabar com programas sociais

7. Procuradores da PGR dão “coletiva em off” para vazar nomes da Lista da Odebrecht. (Vários)

8. PF afirma que carne é enxertada com papelão e vitamina C é cancerígena e veículos publicam sem checar (Vários).

9. Folha usa foto de manifestação de 2016 para mostrar que protesto do MBL de 2017 foi um sucesso.

10. Elio Gaspari defende que Temer deve ficar porque “ruim com ele, pior sem ele”. (Folha e Globo).

 

Empreiteiras e veículos de comunicação, uma longa relação

Hoje vai ser rápido aqui, mas muito mais longo fora. Não sei se mencionei aqui – no facebook tenho certeza de que sim -, estou lendo “Estranhas catedrais: as empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, 1964-1988”, tese de doutorado na UFF de Pedro Henrique Pedreira Campos, professor do Departamento de História e Relações Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, editada pela EdUFF.

A pesquisa trata dos primórdios da relação entre as empreiteiras que hoje estrelam a Lava-Jato e o Estado brasileiro no tempo da ditadura civil-militar de 1964 (aquele tempo em que não havia corrupção no país, segundo alguns). Não vou enganá-lo/a – é leitura difícil mesmo, até por ter havido pouco esforço por parte dos editores para apagar as origens acadêmicas da obra. Estou há dois ou três meses capinando sentado em cima dela e só cheguei a cerca de 60% das 444 páginas (é certo, porém, que fiz leituras paralelas que lhe paralisaram o avanço por uns tempos). No entanto, se você quiser não falar muita besteira sobre a relação de odebrechts, queiroz galvões, andrades gutierrez et caterva com as sucessivas administrações do Brasil, a obra é incontornável.

Para os jornalistas, o capítulo 3 é o mais interessante por enfocar as relações entre a imprensa e as empreiteiras. Nesta parte é que encontramos apanhado sobre como os empreiteiros corrompiam – não há outra palavra – os grandes veículos de comunicação. É este subcapítulo que copiei do livro e disponibilizo em pdf aqui. São umas sete páginas que valem a pena ler.

A volta e a volta do JB

Não sou lá muito esperto e não há muito o que eu possa fazer diante dessa predisposição genética, ainda mais agora que estou idoso. Assim, não cheguei a me surpreender por não ter entendido quando, há mais ou menos um mês, Osmar Resende Peres Filho adquiriu o título o Jornal do Brasil, que pertencia a Nelson Tanure desde 2000, e, no embalo, anunciou que ele voltaria às bancas, deixando de ser apenas digital, como ocorre desde 2010.

A minha incompreensão nem era tanto por Catito, como é conhecido, ir contra a corrente e voltar ao mundo impresso quando, dizem os sábios, o caminho rumo ao digital é inexorável. Afinal, se você organizar a coisa direito, o digital amplia o alcance do impresso, que nem precisa ter uma tiragem enorme para atingir um público grande. O problema era o porquê um cara do ramo de restaurantes (Fiorentina e Bar Lagoa, no Rio, Piantella, em BSB) iria voltar ao jornalismo com uma operação tão arriscada. Sim, voltar porque Resende Peres Filho já foi dono da TV Panorama, afiliada da Globo em Juiz de Fora, onde possuía a rádio do mesmo nome, e ainda tivera uma passagem-relâmpago pelo Jornal do Sports (mas não rápida o suficiente para evitar ser processado na Justiça do Trabalho).

Ainda bem, porém, que há gente realmente esperta nesse mundo. Sobraram até algumas no jornalismo, como é o caso de Consuelo Diegues, da Piauí. Um tempo para você ler a matéria assinada por ela, que nem é extensa, para os padrões da revista do João Moreira Salles. 1, 2, 3…..

Leu? Então sacou, como eu, é que o “revival” do ex-“jornal da Condessa” às bancas é, na verdade, uma volta do Tanure na Anatel, jogada para poder sentar à mesa de controle da Oi. Um lugar bem amplo, pois, diferente do que está na matéria da Consuelo, Tanure não seria mais dono de apenas 7% das ações de tele, mas de algo entre 22% e 25%, contando suas participações em outras fontes, também acionistas da companhia.

“Ok, mas por que raios o Tanure quer tanto ser influente numa empresa que deve R$ 65 bilhões a mais de 60 mil pessoas físicas e jurídicas?”, perguntará você, com toda a razão. A explicação para o aparente contrassenso está no PLC 79/2016, aquele que, dizem muitos, daria de presente R$ 100 bilhões em bens de telecomunicação da União às teles. Estes seriam bens que retornariam à União em 2025, para a realização de novo leilão. Há dúvidas bem razoáveis de que o valor desses bens seja mesmo de R$ 100 bi – as teles dizem que é de algo em torno de R$ 20 bilhões. O projeto de lei já tinha sido aprovado no Congresso e esperava apenas a sanção de #foraTemer quando foi paralisado por um liminar e retornou ao Senado, cujo então presidente, Renan Calheiros, bateu o pé e diz que agora só entraria em pauta quando o STF definir-se sobre o mérito da ação proposta pela oposição contra o PLC, o que não tem data para acontecer.

Enrolado, né? Mas nada que assuste Tanure (ou Catito), gente muito bem relacionada que conhece bem os bastidores da política (Resende Peres Filho foi secretário de Indústria e Comércio na gestão de Itamar Franco em Minas e candidato ao Senado pelo PDT, em 2006). Tanure aposta que, uma hora, a Oi vai dar um tremendo retorno, mesmo sem o PLC – a companhia é peça-chave nas telecomunicações do país, “grande demais para quebrar”, e, assim, mais dia, menos dia, o governo terá que ajudá-la a sair do buraco, o que a valorizaria. Aposta arriscada, claro, mas os ganhos compensam os riscos, na avaliação dos jogadores.

Como se vê, o JB velho de guerra é apenas uma peça, e não tão importante assim, num jogo muito, muito maior, que nada tem a ver com jornalismo.

Os deputados e os veículos de comunicação – VIII (Redes Sociais-3)

E assim, não mais que de repente, chegamos ao fim da análise da pesquisa da FSB o consumo de mídia dos deputados federais.

Mentira – demorou pacas e você não aguentava mais. Mas, enfim, essa é a última coluna sobre o tema, a terceira falando apenas da interação dos nobres parlamentares com as redes sociais – no caso, se compartilham e/ou postam ou não. Como sempre, comecemos recordando os pontos básicos da metodologia usada pela FSB:

1. O universo abrange apenas os deputados federais.

2. Foram ouvidos 230 parlamentares de 26 partidos, nos dias 8 e 9 de março.

3. A escolha foi aleatória, mas observou-se a proporcionalidade das bancadas.

4. Partidos com apenas um representante não fazem parte da amostra por permitirem a identificação dos respondentes.

5. Para 2016, as respostas alcançam apenas o primeiro trimestre.

6. Só duas redes sociais foram enfocadas – Facebook e Twitter.

Sigamos, então:

Gráfico 1

20161225_relatorio_midia_e_politica_fsb_2016_postagens_wp

 

Gráfico 2

20161225_relatorio_midia_e_politica_fsb_2016_compartilhamento_wp

 

Análise

1. No caso das postagens, repete-se, com mais vigor, uma observaação algo surpreendente – os deputados mais jovens (abaixo de 40 anos), escrevem menos vezes nas redes do que seus colegas mais velhos – 50% postam “sempre” (18%) ou “às vezes (32%), contra, por exemplo, 56% dos parlamentares com idades acima de 60 anos (32% “sempre”, 24% “às vezes”). O percentual é abaixo também da média geral de 55% (24% e 31%, respectivamente). Os mais jovens, que viveram a maior parte de suas vidas tendo a internet presente, parecem ser mais retraídos em relação ao meio do que seus colegas mais velhos, talvez por terem acompanhado mais de perto, como usuários, os seus problemas.

2. Note-se-se, porém, que o “nunca” em termos de postagem é bem mais consistente em relação as postagens. Das quatro faixas etárias, somente a penúltima (51-60 anos) fica abaixo da média geral, de 17% (13% para ser exato). Este fato parece indicar que, apesar e duvidarem das redes, os deputados não as desprezam mais do que os colegas mais velhos.

3. Já a resposta “sempre” mostra uma discrepância bem maior, com variações de 6 pontos percentuais abaixo da média de 24% (na faixa até 40 anos) a mais 8 p.p., entre os deputados com mais de 61 anos. Pode bem ser que esta diferença indique um esforço dos parlamentares mais antigos (ou de suas assessorias) de fazê-los parecer “mais modernos” aos olhos dos eleitores e também de estar mais perto deles, contornando os meios mais tradicionais.

4. O escrito sobre as postagens, vale para o tema compartilhamento. Também quando se trata dessa ação, os deputados mais jovens menos assíduos, compartilhando 49% no somatório de “sempre” (16%) com “às vezes” (33%), sendo superados por todas as outras faixas etárias, principalmente pela que lhe é imediatamente superior, na qual o percentual chega a 56% (29% mais 27%). Se neste último caso, o percentual é igual à média geral – apesar da composição diferente (24% e 32%, respectivamente) -, é amplamente inferior à faixa de 41 a 50 anos, 7 p.p.

Das três colunas sobre a relação entre os deputados e as redes sociais, percebe-se que, apesar de estarem atentos a elas, os parlamentares ainda lhes dão um peso menor em comparação aos meios tradicionais, até por confiar muito menos nelas do que neles. Dessa forma, a influência das redes, pelo menos no que diz respeito aos congressistas brasileiros, é pequena. Esses números, porém, mudar dentro em pouco, já que estão previstas novas eleições gerais em 2018 e, ainda, com a surpreendente eleição recente de Donald Trump para a presidência dos EUA, numa campanha que não só apoiou-se quase totalmente nas mídias sociais, como até em confronto direto com as mídias tradicionais.