O Troféu Elaine Rodrigues

O Prêmio Marcos de Castro para Boas Reportagens na Internet é o contraponto ao King of the Kings, que reconhece quem esculhamba o jornalismo brasileiro, cascateando em cima do leitor. Para o Troféu Boimate, que premia a redação mais cascateira, porém, ainda não havia um oposto. Por sanar esse problema, agora que o PMC chega a sua segunda seletiva, lanço o Troféu Elaine Rodrigues. O Prêmio Marcos de Castro para Boas Reportagens na Internet é o contraponto ao King of the Kings, que reconhece quem esculhamba o jornalismo brasileiro, cascateando em cima do leitor. Para o Troféu Boimate, que premia a redação mais cascateira, porém, ainda não havia um oposto. Por sanar esse problema, agora que o PMC chega a sua segunda seletiva, lanço o Troféu Elaine Rodrigues.

Conheci Elaine na Comunicação da UFF, onde chegara dois anos antes de mim, que lá aportara em 1980.  Apesar das discordâncias políticas significativas (ela era do MR-8, quem viveu aquela época sabe o que significava), fiquei encantado com a inteligência e clareza de raciocínio e exposição dela. Tivemos pouco contato na época, pois ela logo começou a trabalhar em jornalismo, acumulando com outros afazeres profissionais.

Alguns anos depois, calhou de sermos eleitos para a diretoria do Sindicato dos Jornalistas, onde, novamente, encantei-me com sua inteligência e tranquilidade (e também com a habilidade de datilografar velozmente sem olhar para o teclado). Já nessa época, nossas posições políticas estavam mais próximas (acontece muito, jovens), mas, infelizmente, bem distantes da maior parte da diretoria da entidade e acabamos expulsos dela. Mais um tempo de separação até que nos encontramos pela última vez no Globo, eu como pauteiro, ela como repórter da área de saúde (e, se não me falha a memória já idosa, de educação). Neste momento, a minha admiração cresceu de maneira exponencial. Pude testemunhar as várias madrugadas que ela passou lendo os Diários Oficiais do Estado e do Município para buscar pautas (“é aqui que saem as sacanagens”, costumava dizer), que, generosamente como sempre, me passava.

A última vez que a vi foi alguns meses antes de ela falecer de um câncer na mama de origem genética (a mãe e avó morreram do mesmo mal), num encontro casual na Rua do Ouvidor.  Estava com minha companheira na época, que testemunhou os pouco mais de cinco minutos de conversa (sobre um escândalo na área de saúde, não me lembro mais qual). Nos despedimos e não tínhamos andado nem dez passos quando minha companheira, mulher de grande Inteligência e perspicácia, comentou: “Ivson, que mulher inteligente!”.

Sim, era. Mas não só e nem principalmente. Para mim, ficou, mais até do que a inteligência pela qual aprendi a admirá-la, o exemplo de coragem e generosidade. Por essa admiração totalmente pessoal, faço essa modesta homenagem. Bem, vamos ao resultado da segunda seletiva do PMC e as primeira parcial do Troféu Elaine Rodrigues.

1. As estranhas condenações dos “terroristas” brasileiros (Agência Pública): 16 votos (14% do total de 113 votos).
2. Fuja dos impostos no Brasil: funde uma igreja (Nacionais.Net): 13 (12%).
3. Censo de 1872: o retrato do Brasil da escravidão (Nexo): 12 (11%).
4. PM assassina menor e revolta família (Ponte): 11 (10%).
5. Mato Grosso, a terra da chacina no campo (Nexo) : 10 (9%).
6. “Malta files”: 148 brasileiros têm contas no paraíso fiscal do Mediterrâneo (Agência Sportlight): 10 (9%).
7. Dívida ativa de empresas atinge bilhões (Volt): 8 (7%).
8. Banalizada, senzala vira nome de restaurantes e casas de show (Colabora): 8 (7%).

Apenas sete concorrentes deveriam ser classificadas, mas como houve empate na sétima colocação, entram as duas. As classificadas em 8º, 9º e 10º lugares voltam na próxima seletiva.

Agora, a classificação no Troféu Elaine Rodrigues, após as duas primeiras rodadas:

1. Ponte Jornalismo, Agência Pública, Agência Sportlight e Nexo: 2
2. Poder360, Jota, AosFatos, Nacionais.Net, Volt e Colabora.

Truques da imprensa à portuguesa

Já estava com a Coleguinhas praticamente escrita quando, ontem, Luis Carlos Mansur enviou-me o link para um post do “Truques da imprensa portuguesa”, uma página no Facebook que, conforme diz Mansur, presta relevante serviço público detonando a imprensa do “jardim à beira-mar plantado”. Decidi reproduzir o post aqui por dois motivos:

1. Mostrar que alguns dos males que acometem a imprensa brasileira não são privilégios nossos, embora possam ser mais agudos aqui, e têm origens semelhantes.

2. Como é um “textão”, dificilmente ele seria lido em toda a sua extensão no Facebbok, pois quem acessa esta plataaforma parece ter imensa preguiça (ou mesmo incapacidade)de ler qualquer coisa que ultrapasse três parágrafos e seria uma pena desperdiçar um texto tão bem escrito, um prazer para quem ama a língua portuguesa e toda a sua riqueza vocabular, tão esquecida por aqui.
Boa leitura.

“Cofina: um post longo, mas que é só um começo.

A Cofina é uma empresa portuguesa de comunicação social que conta, entre os seus títulos, com o Correio da Manhã – o jornal mais vendido em Portugal –, o Record – o jornal desportivo mais vendido em Portugal – e a CMTV – o canal por cabo mais visto em Portugal -, para além do Jornal de Negócios, do Destak e da Sábado.

Serve este introito para justificar o seguinte: ao contrário do que dizem muitos dos que nos leem, é muito importante perdermos tempo a falar do trabalho que se faz nestes títulos, uma vez que eles chegam a muita gente e abrangem todos os temas. Têm alcance e com o alcance vem poder.

Têm chegado à nossa caixa vários de mensagens alguns testemunhos desconcertantes de trabalhadores e ex-trabalhadores da Cofina (jornalistas e não só) que nós achamos que merecem a vossa maior atenção.

Os lucros da Cofina estão em queda, o que implica mudanças: o mês passado, o Expresso noticiava que o destino de mais de 50 trabalhadores do grupo era o desemprego.

A Cofina, como muitas outras empresas de comunicação social em Portugal, empregam sobretudo jornalistas mal pagos – mesmo quando têm experiência e reconhecimento público – e “estagiários” não remunerados ou “subsidiados”, i.e., dão-lhes uns trocos para os transportes. É desta mistura de jornalistas experientes insatisfeitos e sub-remunerados e de estagiários inexperientes a custo zero que se faz grande parte do jornalismo em Portugal e a Cofina será, porventura, o pináculo desta estratégia.

Os títulos e as equipas da Cofina não são todas iguais e é preciso distinguir, por exemplo, um Jornal de Negócios – que consideramos um bom jornal – de um Correio da Manhã, que se tornou, para muitos, o porta-estandarte do “jornaleirismo” em Portugal: mentiras, falta de rigor, sensacionalismo, desrespeito pelas pessoas, enfim, o Código Deontológico dos Jornalistas violado, à bruta, por trás, ponto por ponto.

Conta-nos uma pessoa que esteve relacionada com o Correio da Manhã que nesta redação existe uma clara divisão entre diretores e jornalistas. Citamos: “Existe um clima de medo, bastante ditatorial, onde não se levantam quaisquer ondas. Poucos falam, poucos reagem e ninguém tem capacidade para falar com os diretores, uma vez que corre o risco, por qualquer motivo, de ser despedido. O medo dos despedimentos paira na redação. A intimidação é evidente e é quase diária. No Correio da Manhã contrata-se barato e despedem-se os jornalistas mais velhos, que ganham pouco mais. Os diretores, esses, ganham e não é pouco. A Cofina tem lucro. Mas o dinheiro vai todo para o topo da cadeia alimentar.”

Ilustrativo. Mas não fica por aqui.

Citamos outra fonte próxima do Correio da Manhã: “No Correio da Manhã os jornalistas são obrigados a trabalhar mais do que as 8 horas. Chegam a fazer 15 e até 20 horas seguidas. Sempre a um ritmo frenético que conduz, logicamente, ao erro. Todos os trabalhadores devem estar a trabalhar sem parar. Todos estão infelizes, quase todos querem sair. Só não o fazem porque há pouca oferta em jornalismo. Colocam os jornalistas a fazer trabalhos perigosos no meio de adeptos ou no meio de incêndios. São obrigados e pressionados a fazer perguntas desconfortáveis em conferências de imprensa. As ameaças de despedimento são constantes.”

Serve esta página para denunciar truques da imprensa portuguesa. Pois bem, aqui vai um grande, um dos maiores truques da imprensa portuguesa: quando os jornalistas são postos a trabalhar nestas condições, o jornalismo que fazem será, com toda a probabilidade, uma grande merda.

É por isso que aqui visamos, quase sempre, a publicação e não o jornalista. Porque sabemos que eles, que deviam ser o coração do jornalismo, são muitas vezes colocados na posição de meros empregados, a correr para aqui e para ali a mando, a fazer perguntas encomendadas ao chefe, que lhas ordena ao ouvido, sem espaço para investigar, para pensar, para corrigir.

Não serve isto para desculpar sempre os jornalistas quando falham, pois achamos que cada um dele assumiu, individualmente, uma responsabilidade para com o leitor quando aceitou a carteira de jornalista – e que essa responsabilidade deve impor que tomem uma atitude perante ordens que os obrigam a violá-la. Mas serve para enquadrar muitas dessas falhas num sistema que não está montado para nos dar rigor, verdade, transparência e seriedade. Está montado para dar dinheiro aos donos dos jornais e para por os jornalistas em situações onde, muitas vezes, têm de escolher entre o rigor e o emprego.

Os jornais são detidos por empresas que, muito legitimamente, procuram o lucro. Com isso, foram-se tornando, a pouco e pouco, em anti-jornais, em anti-imprensa: são anúncios, são páginas e páginas de publicidade disfarçada de notícias, porque é isso que dá dinheiro. São palha para burros, são sensacionalismo para atrair visitas, são servicinhos aos anunciantes.

Resultou para a Cofina, durante muito tempo, mas os sinais são positivos para o jornalismo: a receita parece estar a esgotar-se. A Cofina entrou no jornalismo e começou a substituí-lo por “tralha”: intrigas, pessoas nuas, histórias de faca e alguidar. Coisas que muita gente gosta e lê com gosto, e quem somos nós para julgar?

Mas há sempre uma altura em que as pessoas pensam: “bom, o que me apetecia agora era mesmo ler um jornal”. Ou em que um anunciante pensa: “bom, eu gostava mesmo era que os meus anúncios não estivessem rodeados de notícias falsas, para terem alguma credibilidade”.

E, quando esse momento chega, quem é se lembra do Correio da Manhã?

Ninguém.

A queda dos lucros no primeiro trimestre deste ano cifrou-se nos 35,4% face ao período homólogo do ano transacto.

A malta está a acordar. Há esperança.
http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/media/detalhe/lucro-da-cofina-cai-354-para-648-mil-euros-ate-marco

http://expresso.sapo.pt/economia/2017-04-11-Despedimento-coletivo-de-mais-de-50-pessoas-na-Cofina

Vem aí o Wikitribune

Um fato muito importante a respeito do jornalismo aconteceu semana passada aconteceu, mas com a barafunda que tomou conta do país, pouca gente prestou atenção: Jimmy Wales, fundador da Wikipedia, lançou a proposta do Wikitribune, um portal de notícias que funcionará nos moldes da plataforma que mandou para rede, em 2001, a fim de “consertar o jornalismo”, como definiu, pouco modestamente. Explica aí, Jimmy:

Não sei se a proposta de Wales foi influenciada pelo estudo “The Plataform Press: how Silicon Valley reengineered journalism” assinado por Emily Bell e Taylor Owen, do Tow Center for Digital Journalism (creio que não, pois este veio à lume há pouco mais de um mês), mas ataca alguns dos principais problemas detectados por ele, principalmente o fato de que as plataformas fizeram o possível para negar que  eram empresas de mídia, mas quando os fatos as colocaram contra a parede, ainda assim tergiversaram e arrumaram uma forma meio doida de combater as notícias falsas , sempre com o intuito de fugir de uma responsabilidade que, para Bell e Owen, está no cerne da atividade jornalística: a missão cívica, política, de informar da melhor forma possível sua audiência.

A ideia de Jimmy Wales vai resolver o problema? Tenho lá minhas dúvidas. Afinal, um portal de notícias acende paixões bem mais intensas do que um de artes ou de filosofia  por envolver a luta pela dominância da visão de mundo (hoje se chama “narrativa”, pois não?). Há muito mais possibilidade de guerras de edições  e discussões intermináveis. A existência de jornalistas profissionais, em tese, ajudaria a, pelo menos, reduzir o problema, mas ainda assim…E há outra questão: o projeto é voltado para língua inglesa, certo? E nos outros países, como funcionaria? Só à base de voluntários? Quem seriam? Os “fact checkers” da “International Fact-Checking Network”?

Apesar de todas essas dúvidas, a proposta do fundados da Wikipedia tem o mérito de trazer o distinto público para dentro da discussão, lhe dando responsabilidade direta na resolução do problema, em vez de ficar olhando, bestificado. Vou realmente torcer para que funcione e até estou disposto a ajudar, dentro de minhas parcas luzes e disponibilidade de tempo.

Seguem o texto original dos pesquisadores do Tow, em mobi (para e-readers, tipo Kindle) e pdf, e uma compilação do resumo realizado pelo pesquisador brasileiro Moreno Osório, que o enviou, em quatro partes, por meio de sua newsletter semanal, o Farol de Jornalismo.

Matéria sobre menino assassinado na porta do Habib´s vence primeira seletiva do Prêmio Marcos de Castro

A reportagem de Kaike Dalapola, da Ponte Jornalismo, com o vídeo que mostra o menino João Victor de Souza Carvalho sendo arrastado por funcionários da Habib’s pouco antes de ser assassinado ganhou a primeira seletiva do Prêmio Marcos de Castro com 13 votos. A segunda colocação coube à matéria de Sérgio Sapgnuolo, de Aos Fatos, que demonstra que o governo reduziu em 20% o número de farmácias populares. Houve um total de 84 votos.

O Prêmio Marcos de Castro foi criado este ano visando reconhecer o bom trabalho jornalístico realizado por veículo independentes na internet e contrabalançar o King of the Kings, o prêmio que aponta a maior cascata do ano. Além das duas matérias citadas, mais quatro estão na finalíssima, marcada para janeiro de 2018. Veja as classificadas (os links estão na coluna ao lado):

  1. Vídeo mostra seguranças do Habib´s arrastando menino que apareceu morto logo depois (Kaike Dalapola, Ponte Jornalismo) – 13 votos (15% do total).
  2. Sem alarde, governo reduz em 20% rede de farmácias populares no Brasil (Sérgio Spagnuolo, Aos Fatos) – 11 (13%).
  3. Renan Calheiros explica como Eduardo Cunha manda no governo Temer (Tales Faria, Poder360) – 9 (11%).
  4. Agências de vigilância privada ajudaram Forças Armadas na repressão durante a ditadura militar (Ciro Barros e Iuri Barcelos, Agência Pública) – 9 (11%).
  5. O Rei dos Ônibus do Rio recebe benesses do comitê que organizou os Jogos Olímpicos do Rio (Lúcio de Castro, Agência Sportlight) – 8 (10%).
  6. Buscador abre dados de todos os processos da Lava-Jato (Laura Diniz, Márcio Falcão, Livia Scocuglia, Gustavo Gantois, Jota) – 8 (10%)

 

As outras quatro concorrentes que não foram classificadas, voltam na próxima seletiva para uma repescagem. São elas:

  1. Rede Riba abre restaurantes em pontos caros do Rio graças a ajuda de Sérgio Cabral e Eduardo Paes (Lúcio de Castro, Agência Sportlight).
  2. Hábito alemão: todos a sauna, todos nus (Renata Malkes, Projeto Colabora).
  3. O preconceito do mercado de trabalho com as pessoas de mais 50 anos (Cátia Moraes, Projeto Colabora).
  4. Política pública de mobilidade ignora diferenças de gênero e idade (Natália Mazotte, Gênero&Número).
  5. Sarney briga na Justiça por aposentadorias de R$ 73 mil depois de ter sido obrigado a devolver dinheiro (Joelma Pereira e Édson Sardinha, Congresso em Foco).

Não há só cascata: vamos à primeira seletiva do Prêmio Marcos de Castro de bom jornalismo na internet!

Após duas semanas de cascatas, é hora do lado A do jornalismo brasileiro – vamos à primeira seletiva para o Prêmio Marcos de Castro, criado este ano visando reconhecer o bom trabalho jornalístico realizado por veículo independentes na internet e contrabalançar o King of the Kings, que premia as cascatas. As regras gerais da premiação já foram informadas em outro post, mas há ainda as específicas para a votação, portanto, vamos a elas:

1. Você pode votar em seis (6) das onze indicadas.

2. As cinco que não forem classificadas voltarão para disputar todas as seletivas do ano.

3. A votação vai até 23 de abril.

Ainda antes de passar às concorrentes, mais três pontos:

a. “Full disclosure”: Lúcio de Castro, da Agência Sportlight, é filho de Marcos de Castro, que dá nome ao troféu;

b. Aconselho vivamente ler todas as matérias. Ao contrário das cascatas, que, em geral, são bem conhecidas, as boas matérias não circulam muito (há um estudo recente que indica este ponto, o qual enfocarei em breve). Dessa forma, é pouco provável que você tenha lido todas como eu – o mais certo é que tenha lido nenhuma.

c. Os editores dos sites, caso desejem, podem fazer campanha por suas matérias.

Agora sim, vamos aos exemplos do bom jornalismo brasileiro na internet.
1. Rede Riba abre restaurantes em pontos caros do Rio graças a ajuda de Sérgio Cabral e Eduardo Paes (Lúcio de Castro, Agência Sportlight)

2. Hábito alemão: todos na sauna, todos nus (Renata Malkes, Projeto Colabora)

3. Vídeo mostra seguranças do Habib´s arrastando menino que apareceu morto logo depois (Kaike Dalapola, Ponte Jornalismo)

4. Renan Calheiros explica como Eduardo Cunha manda no governo Temer (Tales Faria, Poder360)

5. Sem alarde, governo reduz em 20% rede de farmácias populares (Sérgio Spagnuolo, Aos Fatos)

6. O preconceito do mercado de trabalho com as pessoas de mais 50 anos (Cátia Moraes, Projeto Colabora)

7. Política pública de mobilidade ignora diferenças de gênero e idade (Natália Mazotte, Gênero&Número)

8. Agências de vigilância privada ajudaram Forças Armadas na repressão durante a ditadura militar (Ciro Barros e Iuri Barcelos, Agência Pública)

9. Rei dos Ônibus do Rio recebe benesses do comitê que organizou os Jogos Olímpicos do Rio (Lúcio de Castro, Agência Sportlight)

10. Sarney briga na Justiça por aposentadorias de R$ 73 mil depois de ter sido obrigado a devolver dinheiro (Joelma Pereira e Édson Sardinha, Congresso em Foco)

11. Buscador abre dados de todos os processos da Lava-Jato (Laura Diniz, Márcio Falcão, Livia Scocuglia, Gustavo Gantois, Jota)

 

Com saudade? Pois vamos à primeira seletiva do King of the Kings-2017!

Já estamos em abril! Rápido, né? Então, já é hora da primeira seletiva do King of the Kings de 2017! Selecionei dez matérias e sei que você vai reclamar (“mas teve muito mais”) e devo concordar. No entanto, como faço há alguns anos – desde que os coleguinhas de redação perderam de vez a noção e a vergonha e passaram a cascatear como se não houvesse amanhã -, tenho sido muito rígido na escolha das cascatas que chegam à seletiva: elas precisam ser bem escancaradas, cabeludas mesmo, para chegarem ao seu escrutínio.
Como sempre, comecemos pelas regras:

1. Você pode votar em até seis (6) concorrentes entre as dez da lista.
2. Você ainda terá uma nova chance de votar nas quatro não classificadas, pois elas voltarão na próxima seletiva.
3. A votação terminará no próximo domingo, 9 de abril.

Agora, às concorrentes:

1. Estado de São Paulo acusa erradamente juiz do Amazonas de ligação com facção criminosa e ele passa a ser ameaçado por outra.

2. Apresentadora da Record diz que índios deviam ficar sem remédios contra malária para morrerem.

3. Exame usa exemplo de Mick Jaegger para defender reforma da Previdência.

4. Delegado da PF diz que não de precisa de provas para prender Lula, apenas “timing” certo. (Veja)

5. Maluco conhecido diz ter levado mala de dinheiro para Lula e IstoÉ dá capa.

6. Site 247 recebe informação de leitor, não checa e publica que presidente do Bird criticou governo por acabar com programas sociais

7. Procuradores da PGR dão “coletiva em off” para vazar nomes da Lista da Odebrecht. (Vários)

8. PF afirma que carne é enxertada com papelão e vitamina C é cancerígena e veículos publicam sem checar (Vários).

9. Folha usa foto de manifestação de 2016 para mostrar que protesto do MBL de 2017 foi um sucesso.

10. Elio Gaspari defende que Temer deve ficar porque “ruim com ele, pior sem ele”. (Folha e Globo).

 

A volta e a volta do JB

Não sou lá muito esperto e não há muito o que eu possa fazer diante dessa predisposição genética, ainda mais agora que estou idoso. Assim, não cheguei a me surpreender por não ter entendido quando, há mais ou menos um mês, Osmar Resende Peres Filho adquiriu o título o Jornal do Brasil, que pertencia a Nelson Tanure desde 2000, e, no embalo, anunciou que ele voltaria às bancas, deixando de ser apenas digital, como ocorre desde 2010.

A minha incompreensão nem era tanto por Catito, como é conhecido, ir contra a corrente e voltar ao mundo impresso quando, dizem os sábios, o caminho rumo ao digital é inexorável. Afinal, se você organizar a coisa direito, o digital amplia o alcance do impresso, que nem precisa ter uma tiragem enorme para atingir um público grande. O problema era o porquê um cara do ramo de restaurantes (Fiorentina e Bar Lagoa, no Rio, Piantella, em BSB) iria voltar ao jornalismo com uma operação tão arriscada. Sim, voltar porque Resende Peres Filho já foi dono da TV Panorama, afiliada da Globo em Juiz de Fora, onde possuía a rádio do mesmo nome, e ainda tivera uma passagem-relâmpago pelo Jornal do Sports (mas não rápida o suficiente para evitar ser processado na Justiça do Trabalho).

Ainda bem, porém, que há gente realmente esperta nesse mundo. Sobraram até algumas no jornalismo, como é o caso de Consuelo Diegues, da Piauí. Um tempo para você ler a matéria assinada por ela, que nem é extensa, para os padrões da revista do João Moreira Salles. 1, 2, 3…..

Leu? Então sacou, como eu, é que o “revival” do ex-“jornal da Condessa” às bancas é, na verdade, uma volta do Tanure na Anatel, jogada para poder sentar à mesa de controle da Oi. Um lugar bem amplo, pois, diferente do que está na matéria da Consuelo, Tanure não seria mais dono de apenas 7% das ações de tele, mas de algo entre 22% e 25%, contando suas participações em outras fontes, também acionistas da companhia.

“Ok, mas por que raios o Tanure quer tanto ser influente numa empresa que deve R$ 65 bilhões a mais de 60 mil pessoas físicas e jurídicas?”, perguntará você, com toda a razão. A explicação para o aparente contrassenso está no PLC 79/2016, aquele que, dizem muitos, daria de presente R$ 100 bilhões em bens de telecomunicação da União às teles. Estes seriam bens que retornariam à União em 2025, para a realização de novo leilão. Há dúvidas bem razoáveis de que o valor desses bens seja mesmo de R$ 100 bi – as teles dizem que é de algo em torno de R$ 20 bilhões. O projeto de lei já tinha sido aprovado no Congresso e esperava apenas a sanção de #foraTemer quando foi paralisado por um liminar e retornou ao Senado, cujo então presidente, Renan Calheiros, bateu o pé e diz que agora só entraria em pauta quando o STF definir-se sobre o mérito da ação proposta pela oposição contra o PLC, o que não tem data para acontecer.

Enrolado, né? Mas nada que assuste Tanure (ou Catito), gente muito bem relacionada que conhece bem os bastidores da política (Resende Peres Filho foi secretário de Indústria e Comércio na gestão de Itamar Franco em Minas e candidato ao Senado pelo PDT, em 2006). Tanure aposta que, uma hora, a Oi vai dar um tremendo retorno, mesmo sem o PLC – a companhia é peça-chave nas telecomunicações do país, “grande demais para quebrar”, e, assim, mais dia, menos dia, o governo terá que ajudá-la a sair do buraco, o que a valorizaria. Aposta arriscada, claro, mas os ganhos compensam os riscos, na avaliação dos jogadores.

Como se vê, o JB velho de guerra é apenas uma peça, e não tão importante assim, num jogo muito, muito maior, que nada tem a ver com jornalismo.