Digital News Report (III). Jornal: mais próximo, mais confiável.

“O acidente de carro na esquina é mais importante do que a queda do avião no Sri Lanka” – é assim que aprendemos na faculdade que a proximidade é um fator poderoso de interesse para o leitor/telespectador/ouvinte, uma observação que pode ser estendida à confiança, segundo DNR-2020. Em se tratando de Brasil, os jornais locais possuem uma credibilidade maior que os jornais de pegada mais nacional, como ser pode visto no gráfico abaixo.

Gráfico 1

Traduzindo para o Índice de Confiança, fica assim:

Gráfico 2

Observações:

  1. Em termos gerais, os jornais são menos críveis para seus consumidores do que as TVs para os delas – mesmo os jornais locais, que inspiram maior confiança, estão bem abaixo das três redes de televisão de maior credibilidade. Muito provavelmente este fato ocorre porque a TV tem o poderoso recurso da imagem em movimento para corroborar seu discurso.
  2. A Veja tem um seriíssimo problema de credibilidade. Nada menos do que 22% dos seus leitores não acreditam no que estão lendo, o que derruba seu IC para 0,18, o mesmo do jornal popular Extra, que, teoricamente, atinge um público-alvo oposto ao da revista da Abril.
  3. Ser honesto sobre seus pontos de vista parece funcionar, pelo menos para o Estado de São Paulo. O IC do conservador jornal dos Mesquita que não esconde suas predileções antipopulares é o maior entre os chamados “quality papers”, 23% superior aos de seus dois maiores rivais, O Globo e a Folha de São Paulo, que optam por uma suposta neutralidade.
  4. O jornal dos Marinho, aliás, tem um problema de descrença idêntico ao da Veja, com 22% de seus leitores não acreditando no que leem. O IC do Globo, porém, é 44% superior à Veja devido aos 4 pontos percentuais a mais de leitores que creem em suas matérias.
  5. Singular é a situação do Valor. Por ser o único da lista do DNR-2020 a ser dedicado a uma área, no caso da Economia, deveria ter uma credibilidade entre seu público leitor maior do que os de seus concorrentes generalistas. No entanto, não é o que ocorre, por conta do elevado percentual (26%) dos que “confiam desconfiando”. Esse resultado talvez seja devido ao fato de o Valor ser um jornal de “segunda leitura”, tendo, dessa forma, suas matérias sempre cotejadas com os concorrentes.

Digital News Report (II): Globo, Record e o “Fator Bolsonaro”

Vamos à nomeação dos bois, o que não é bom para a Rede Globo. Para começar, dê uma olhada no gráfico acima. Dele já podemos extrair as primeiras más notícias para a emissora dos Marinho. De cara, vemos que, após um pico de alcance de 68% em 2018, ele cai praticamente para o nível em que estava em 2016, numa redução de 12 pontos percentuais. Deve-se que observar que 2018 foi daqueles anos que juntam, a cada quatro anos, as eleições gerais e a Copa do Mundo, dois eventos em que a Rede Globo possui papel relevantíssimo.

O panorama piora quando se coloca no quadro a Record e o SBT. No mesmo período em que a Globo perdia 12 p.p. em alcance, a emissora de Edir Macedo crescia o mesmo tanto e a de Sílvio Santos, 9 p.p. (após um pico de 11 em 2019). Não deve ser coincidência que as duas redes foram as eleitas, precisamente nessa ordem, como porta-vozes semioficiais do bolsonarismo, com o chefão dando seguidas entrevistas exclusivas em suas programações e chegando a nomear o genro de SS, Fábio Faria, ministro das Comunicações.

Notável também foi a queda da Bandeirantes entre 2019 e 2020, com uma perda de 12 p.p. O evento mais provável a provocar redução de tamanha magnitude – perda de quase um terço do alcance em apenas um ano – foi a morte do apresentador Ricardo Boechat, ocorrida em fevereiro de 2019, em desastre aéreo. Com seu estilo agressivo e histriônico, Boechat tinha ainda para dar tração a sua audiência na TV o fato de trabalhar pela manhã na Band News, pela qual era líder absoluto no horário da manhã, especialmente entre os motoristas de táxi de Rio e São Paulo.

Credibilidade baixa
A cota de más notícias que o DNR-2020 traz para a Vênus Platinada ainda não acabou. Há outra ainda pior: a falta de credibilidade do jornalismo da emissora, que pode ser flagrada no gráfico 2.

Gráfico 2

Assim, no olho, já dá para ver que a emissora dos Marinho tem um problema de credibilidade, correto? O tamanho dele, porém, fica bem mais claro quando olhamos o Índice de Confiança, o indicador que bolei para facilitar a comparação (expliquei o IC no primeiro texto da série).

Gráfico 3

Embora nenhuma rede de TV chegue a ser um sucesso em termos de credibilidade (a melhor, a Band, tem pouco mais de 0,5 em um índice cujo máximo é 1), o caso da Globo é bem alarmante: como se vê no gráfico 2, pouco mais de um terço das pessoas que assistem seus programas informativos (36%) não confia plenamente no que está vendo, o que leva seu IC para 0,28. Como, por princípio, o jornalismo vive de credibilidade, a constatação é bem desconfortável.

Mas fica pior. A grande rival, nem tanto em termos da alcance (como se vê no Gráfico 1), mas políticos, a Record, está muito à frente em termos de confiança dos telespectadores – 74% creem no que os telejornais e outros programas ditos jornalísticos (tipo Cidade Alerta e Balanço Geral) noticiam, o que faz o IC ser de 0,48, 71% acima do da Rede Globo. Aliás, em termos de descrença, a Globo só está acima Rede TV, cujo IC é de 0,24. Com 0,52 no IC, a Band é a mais confiável, provavelmente contando com o “recall” do ótimo jornalismo que fez até fins dos anos 90 e, também, do estilo de Ricardo Boechat.

Digital News Report -2020 (I): Quem acredita em tanta notícia?

Como já é tradicional, chegou a hora das análises sobre o Digital News Report, que, em 2020, abrangeu 40 mercados dos seis continentes, entrevistando cerca de 80 mil pessoas por meio de questionários on-line, entre fim de janeiro e início de fevereiro – ou seja, antes da eclosão da pandemia de Covid-19. Este último fato faz com que o levantamento se insira no desenrolar histórico da pesquisa, que começou em 2012, mas, para avaliar se o consumo de notícias foi modificado pela pandemia, o Reuters Institute For The Study of Journalism da Universidade de Oxford, responsável por ela, realizou outra, especial, em abril, em seis mercados (EUA, Reino Unido, Alemanha, Espanha, Coréia do Sul e Argentina), que foram apresentados em separado no relatório (o link para o DNR-2020 está no fim deste post).

De minha parte, aproveitei que este ano faz cinco anos que publico os resultados do DNR para realizar um apanhado deste período, no que se refere ao Brasil. Como sou metido a gato-mestre ( vai dizer que não tinha notado?), fiz um adendo na parte que se refere à pesquisa sobre credibilidade dos veículos, que começa logo abaixo e segue nas outras três edições da série, criando um Índice de Confiança. Apesar do nome algo pomposo, é bem simples: dividi o percentual de quem “Confia Sempre” nas notícias veiculadas por determinado jornal ou TV pelo daqueles que confiam às vezes e pelos que não confiam nunca, dividindo o resultado por 100. O argumento em que me baseei para a construção do IC desta forma é o de que confiança é que nem gravidez – como uma mulher só pode estar ou não estar grávida, alguém confia ou não confia em algo ou alguém. O índice se refere apenas a 2020, pois foi o primeiro ano em que o DNR apresentou essa abordagem. O IC poderá ser visto em todo o seu esplendor e glória a partir da segunda parte da série.

Antes de começar mesmo, um lembrete do próprio DNR: os resultados devem ser vistos com cautela, pois são obtidos por questionários on-line, ou seja, só os respondem quem possui acesso à internet. Assim, se em muitos países (Noruega, Coréia, Canadá) esse fato não afeta tanto, em outros, como o Brasil, eles ficam enviesados, pois os respondentes tendem a ser os mais ricos que moram em áreas urbanas e têm grau de instrução maior.

Então, vamos à credibilidade geral. Nos três anos em que a questão foi formulada, os brasileiros só se mostraram mais descrentes das notícias em 2019, quando ainda passavam pela ressaca da eleição de 2018, fortemente marcada pela manipulação delas – ainda assim ficamos em 9º entre os 38 mercados analisados ano passado, contra terceiro de 37 em 2018. No entanto, já voltamos ao quinto lugar entre os 40 países pesquisados este ano, mostrando que continuamos a acreditar razoavelmente no que vemos e lemos em jornais, rádios, TVs e veículos on-line, mas menos em blogs e redes sociais.

Gráfico 1

Mais observações:

  1. Apesar da recuperação geral, em termos percentuais, os brasileiros ainda estão menos crentes nas notícias que lhes chegam em 2020 do que eram há dois anos (51% acreditam no geral, contra 59%, em 2018).
  2. Jornais e TVs ainda apresentam vantagem quando comparados com sites de buscas (quando o vivente vai “pesquisar no Google” ou abre o navegador e vê notícias do Yahoo ou MSN) e, principalmente, com as redes sociais.
  3. A maior credibilidade, porém, não chega a ser uma boa notícia, pois, como veremos em outros textos, a credibilidade dos meios TV e jornal, na melhor das hipóteses, não chega animar, e, na pior, é francamente alarmante.
  4. As redes sociais são fontes confiáveis para apenas cerca de um terço das pessoas, mas apresentaram um significativo aumento de 7 pontos percentuais de 2019 para 2020.
  5. A majoritária descrença, porém, não impediu que as redes sociais ultrapassassem as TVs e se tornassem a fonte primária de notícia dos brasileiros, mesmo que por margem mínima, como se pode ver no gráfico abaixo.
Gráfico 2
  1. O gráfico mostra, porém, que a ultrapassagem das redes sociais como fonte primária de informação se fez menos por sua ascensão do que pela queda do meio TV, que, de 2016 a 2020, perdeu 16% de seu alcance.
  2. O resultado das TVs é ruim, mas há resultado pior: o meio Jornal apresentou queda de enormes 42,5% no período de cinco anos.
  3. Diante desses números, parece que o avanço das redes sociais como fonte de informação principal dos brasileiros – de resto, com queda percentual de 5 pontos percentuais, equivalente a 7% – tem mais a ver com o aumento da desconfiança destes com os meios tradicionais do que com o aumento da confiança das redes.

Vou ficando por aqui, no momento. Se quiser explorar a edição completa do Digital News Report de 2020, clique aqui.

O Estadão e suas escolhas

Fernão Lara Mesquita já não tinha dúvida alguma em 22 de outubro de 2014

Vamos lá: quando se fala no Estadão e Ditadura Militar de 1964, o que lhe vem à mente? Aposto que são as receitas de bolo e as poesias de Camões no lugar das matérias censuradas, certo? E isso aconteceu mesmo. No entanto, outro fato não é lá muito mencionado: o de que o Estadão apoiou incondicionalmente, de maneira aberta e entusiástica, o golpe militar. De tal entusiasmado que um fato bem menos conhecido ainda ocorreu logo depois do golpe. Segundo o insuspeito Elio Gaspari, o inspirador do Ato Institucional Nº 1, e que era para ser o único, foi, nada mais, nada menos, do que o dono do Estadão, Júlio de Mesquita Filho. Em sua sugestão, acolhida pelos milicos, o Congresso e as assembleias legislativas seriam fechados, os governadores, cassados, e o habeas corpus, suspenso.

Pouco depois, porém, os Mesquita romperam com os militares. O motivo é que os donos do Estadão tolamente acreditaram que os milicos iriam apenas fazer o trabalho sujo de eliminar os esquerdistas do cenário político, fosse de que forma fosse, e, em dois anos, convocariam eleições gerais nas quais apenas concorreriam representantes das classes dominantes. Só que os fardados jamais tiveram intenção de largar o osso, como bem o sabia Roberto Marinho e outros mais sagazes do que o Dr. Julinho, cuja intenção era eleger Lacerda – foi inclusive a cassação deste que provocou o rompimento definitivo com os novos donos do poder, num processo que levou à explosão da bomba em 20 de abril de 1968 e às receitas e poemas.

O mais interessante é que esta não foi a primeira vez em que os Mesquita apoiavam a ascensão de grupos que pariram ditadores, o que levou ao rompimento deste apoio. Acontecera o mesmo com Vargas. Claro, você vai lembrar que os Mesquita apoiaram a chamada Revolução Constitucionalista em 32, mas o que não é contado é que, pouco depois de 1930, o Estadão passou a dar força ao Governo Provisório, por este ter aceitado intervir na economia e ajudar os cafeicultores paulistas queimando café (sim, o liberalismo dos Mesquita é muito flexível também em termos econômicos). E já em 1935, menos de três anos após Revolução de 32, o Estadão estava de volta aos braços de Vargas, defendendo a Lei de Segurança Nacional. “Doutor Julinho” a achou branda demais e, por isso, apoiou o golpe do Estado Novo, em 37, para, três anos depois, romper com Vargas e perder o jornal, o qual recuperaria em 1945.

Você já deve ter notado que o editorial que colocava no mesmo patamar Fernando Haddad e um defensor explícito da ditadura, não foi um erro de avaliação -afinal, ela foi a mesma realizada por duas vezes, em 1937 e 1964. Apoiar ditaduras e depois romper com ela em nome de um suposto liberalismo não foi um acidente que ocorreu em 2018. É um padrão para os Mesquita. É por isso que a solidariedade aos profissionais do Estadão agredidos pelos bandidos bolsonaristas não pode se estender ao jornal, aos seus donos e aos jornalistas, como Vera Magalhães, que são seus porta-vozes. Para eles, a escolha nunca será realmente difícil.

P.S.: Para aprofundar-se no tema da relações dos jornais paulistas com a ditadura de 1964 – e, no caso do Estadão, das anteriores – um bom início é por aqui.

Valeu, Argeu!

Muito tricolor

Lutero Soares, editor de Nacional e Política do Globo, resolveu dar cargo de redator ao rapaz de 26 anos, em substituição ao mais respeitado redator da imprensa do Rio, Marcos de Castro. Sabia que estava fazendo besteira, mas não aguentava mais a pressão que Luiz Mário Gazzaneo, João Rath e Cristina Konder faziam para contratar o simpático e esforçado, conquanto pouco talentoso, jovem morador da Ilha do Governador.

Para disfarçar e não perder a fama de durão, o gaúcho resolveu interrogar o cara.

– Em que escolas vocês estudou?

– UFF, ENCE, do IBGE, Pedro II…

– Quais foram seus professores de Português no Pedro II?

– Ah, Osmar Pereira Leite, Magacho, Serafim…

– Serafim Silva?

– É

Virando-se em direção ao aquário que ficava atrás da editoria, o Cabeça de Lata (tinha uma placa de alumínio na tempora esquerda) gritou:

– Argeu! Ele estudou com o Serafim!

Argeu Afonso, que fazia a coluna “Há 50 anos no Globo”, coordenava o Estandarte de Ouro e habitava o aquário, botou a cabeça do lado de fora:

– Deve ter aprendido nem que tenha sido por osmose, respondeu e voltou para o aquário.

Não acabou.

Após 15 dias, durante os quais Marcos de Castro tentou inutilmente me ensinar a escrever pelo menos direito, comecei oficialmente no cargo. Nem meia hora depois de instalado, Argeu encostou na mesa de Maria Helena Pereira, que ficava na minha frente.

– Não quero te pressionar, não, mas você é o mais redator mais novo da história do Globo.

Dito isto, passou por mim e se dirigiu à cantina. Até hoje juro que estava sorrindo.

Vai em paz, nobre tricolor!

A CNN e o Brasil

Guerra de videogame

O pessoal que lamenta a saída da Gabriela Prioli da CNN Brasil por algo além da diversão que ela proporcionava ao demolir bolsonarista ao vivo está negligenciado um fato relativamente conhecido há mais ou menos uma década: a CNN, em suas versões internacionais, são um braço do Departamento de Estado. Para entender essa verdade, há que se voltar 30 anos, para a I Guerra do Golfo.

Quem viveu e lembra daquela guerra, há de recordar da atuação de Peter Arnett nas primeiras horas de combate em Bagdad. Entrincheirado num hotel, ele – junto com Bernard Shaw e John Holliman – transmitiu ao vivo a invasão, ao som de bombas e sirenes, fazendo um contraponto surreal com o “videogame” dos ataques noturnos. O impacto dessa cobertura na opinião pública (e o passado de Arnett na cobertura da Guerra do Vietnã, que lhe deu um Pulitzer) fez com que o “establishment” militar tomasse a decisão de só permitir jornalistas na linha de frente da II Guerra do Golfo se fosse acompanhando as tropas (o que fez com que os jornalistas mais cínicos chamassem a cobertura de “Operação Focinheira no Deserto”, trocadilho com “Operação Tempestade no Deserto”, da I Guerra do Golfo).

Esse momento mudou de vez a CNN, que, de uma empresa jornalística mais ou menos no padrão norte-americano (tinha acordos com o “establishment”, mas, em geral, ditava as regras em cada caso), tornou-se um braço do Departamento de Estado, no que se refere à cobertura no exterior. Pelo acordo, a CNN continua operando normalmente (como acima) em território dos EUA e de aliados confiáveis da Europa, da Oceania e no Japão, mas se compromete a atuar em conjunto com o DoS em lugares como o Oriente Médio, o Sudeste da Ásia e América Latina. Esse acordo – obviamente informal – pôde ser visto claramente nas recentes coberturas do golpe na Bolívia e nos conflitos no Chile, quando ela foi totalmente parcial em favor dos interesses norte-americanos (na cobertura da Venezuela, então, nem precisa falar). O acordo acabou, em reação, ensejando a criação de redes regionais para combatê-la, como a Al-Jazeera, no Dubai, e a Telesur, por aqui, mas isso é outra história.

É dentro deste quadro que se insere a criação e operação da CNN Brasil. Para Atlanta (sede da CNN), pouco interessa que os sócios do empreendimento sejam Douglas Tavolaro, sobrinho e biógrafo de Edir Macedo, e Rubens Menin, dono da MRV Engenharia, patrocinador do filme-exaltação de Edir, baseado no livro de Tavolaro. O importante é que eles atuarão conforme os interesses do DoS, não atrapalhando o acordo. Afinal, o pequenino mercado de TV fechada all-news do Brasil é uma gota no oceano do total global. Queimar a marca aqui não tem a menor importância.

Esses fatos e análises são relativamente conhecidos de quem atua e estuda jornalismo no Brasil e duvido muito de que fossem desconhecidos de Gabriela Prioli, quando ela aceitou o convite da CNN. O motivo de tê-lo feito só ela pode responder.

O jornalismo brasileiro não é mais o que era (e não voltará a ser) – III

O presidente desta triste República disse que os jornalistas são uma raça em extinção. Que ele diga isso, expressando sua conhecida alma tirânica, não chega a surpreender. Também não me causou comoção os comentários a respeito dos dois posts anteriores (aqui e aqui), a maior parte de leigos em jornalismo, que não compreendem suas especificidades, objetivos e limites. Para estes, o jornalismo – e, por conseguinte, os jornalistas – já acabaram no país, se é que um dia existiram. Desagradável mesmo foi ver jornalistas profissionais, até acadêmicos, achando a mesma coisa, tomando por base apenas as posições das empresas jornalísticas – cujas motivações foram o objeto dos posts citados – e as ações do próprio indigitado presidente, que se diverte em xingar os profissionais que o abordam na porta do Palácio do Planalto.

Todos esses – presidente protofascista, leigos que acham que entendem de jornalismo e colegas e acadêmicos que entendem, mas estão tendo ataques de amnésia – confundem, por querer ou não, jornalismo com aquilo que é praticado desde sempre por aqui por empresas jornalísticas. Só que uma coisa não tem necessariamente a ver com a outra no sentido positivo, de reforço. Pelo contrário, se formos olhar a história dos veículos de comunicação no país, a relação, quando há, é mais no sentido negativo – de impedimento – do que positivo, do ponto de vista da sociedade.

Pois esse é o ponto. Jornalismo é bom quando é feito em benefício da sociedade, na defesa dos que são mais fracos e vulneráveis, e, necessariamente, contra o poder Lembra da frase do Millôr? “Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. Pois é. E, partindo desse ponto de vista, o jornalismo no Brasil está vivo e chutando.

Duvida? Então, por clique aqui e veja uma lista de 58 veículos feitos por jornalistas brasileiros independentes que praticam a profissão segundo a premissa acima – há ainda a versão em português de oito veículos internacionais de diversas vertentes (e aqui tem outra lista, mais antiga). Há de quase tudo – dos que abordam infraestrutura até promoção da cultura da paz, passando por jornalismo de dados, política e justiça. Pode-se até não gostar da linha de um ou outro, mas é bem difícil arranjar argumentos sólidos para discordar de que eles não trabalham visando uma sociedade brasileira mais justa.

“O jornalismo pátrio, então, está forte e pujante?”, perguntará você. Bem, eu não disse isso.
Não disse isso por que, para ser forte e pujante, o jornalismo, como qualquer atividade no capitalismo, precisa ser seguro financeiramente, o que está longe de ser verdade para aqueles 58 veículos independentes acima e, por consequência, para os profissionais que nele trabalham. Chegar ao fim do mês, pagar as contas da empresa e ainda sobrar para os produtores das matérias pagarem as despesas com supermercado, aluguel, escola das crianças e demais boletos é um desafio permanente. Vulneráveis estão também, mesmo em escala menor, é bom que se diga, os jornalistas de veículos grandes, como mostram os dados da Conta dos Passaralhos, do VoltData, mesmo que os dados estejam defasados desde agosto de 2018 (e houve centenas de demissões de lá para cá).

Como o jornalismo independente pode tornar-se autossustentável financeiramente? Pois essa é a pergunta de 1 milhão de dólares. Não tenho respostas (se tivesse teria o milhão de verdinhas, ora!), mas há algumas ideias básicas que podem ser seguidas, ao mesmo tempo, pois não são mutuamente excludentes:

  1. Financiamento coletivo: O famoso “crowdfunding” é muito usado para apoio de projetos específicos ou para manutenção mesmo. Há possibilidade de aportes anuais ou mensais, via assinatura por meio de plataformas como Apoia.se, Benfeitoria, Catarse, Kickante, Vaquinha ou sistemas próprios…O problema é que há projetos muito bons e nós, ao apoiadores, ficamos perdidos na hora de dar aquela força (eu, por exemplo, estou há tempos para fazer uma planilha a fim de saber certinho quem estou apoiando, com quanto e em que periodicidade). Esse fracionamento faz com que a arrecadação regular não seja a desejável, mesmo na forma de assinatura, que tem sido a preferida dos sites.
  2. Dividir as contas: Outro caminho para a sustentabilidade é dividir espaços e contas para que esses custos fixos se diluam e fiquem mais leves para todos. Um espaço de coworking para veículos e jornalistas independentes me parece uma boa ideia, até para melhorar o trabalho em parceria em pautas que unam habilidades de vários jornalistas, viabilizando mais e melhores pautas.
  3. Agregar de notícias (e valor): Se seria bom dividir espaço físico por que não um agregador de notícias, aqueles apps que funcionam como revistas ou jornais personalizados, como Flipboard, Anews, Feedly (o meu), Google News e outros? Estar em alguns deles também é uma boa opção, mas seria ainda melhor se fosse criado uma apenas para mídia alternativa, não?
  4. Administração: Levar sério a administração devia até ser o item 1. Ter um bom profissional de finanças e planejamento é fundamental para que o veículo seja autossustentável. No caso de haver o tal coworking, esse seria gerido por uma pessoa à parte ou por um conselho formado pelos administradores dos veículos participantes.

Como escrevi acima, essas são as ideias básicas, apenas pontos de partida para a estruturação de um jornalismo independente mais estruturado no país. Essa diretriz é fundamental se ainda quisermos que o jornalismo, e seus profissionais, contribuam para a manutenção da democracia no Brasil, transformando-o num país mais justo.

Sobe e desce: mídia no Brasil, 2007-2017

Este é um pequeno estudo sobre a variação do número de empresas ligadas à informação, com 20 ou mais pessoas ocupadas, nos últimos 11 anos e é fruto de minha primeira exploração do manancial de dados do Sistema IBGE de Recuperação Automática (Sidra). Engloba rádios, TVs (aberta e fechada), agências de notícias, editoras de livros, jornais e revistas – neste último caso, a lista estatística do IBGE não faz uma desagregação, apesar da lista da Classificação Nacional de Análises Econômicas (CNAE) do próprio IBGE fazer essa diferenciação no Grupo 58.1, da Divisão 58, da Seção J (Informação e Comunicação).

Os gráficos e a tabela, montados com base nas tabelas da Pesquisa Anual de Serviços, são estes e as observações vão embaixo.

  1. Os “anos incríveis” para a mídia brasileira foram de 2012 a 2014, com o pico em 2013, quando o número de empresas que empregavam 20 ou mais pessoas chegou a 1.100, um aumento de 31,9% em relação a 2007.
  2. Neste subperíodo, o maior salto percentual aconteceu entre agências de notícias/outros – o que engloba os sites: 74 para 124, um salto de 67,6% desde 2011, subperíodo em que a participação do setor subiu de 7% para 12% do total.
  3. Em termos absolutos, o rádio teve o maior crescimento, com 35 empresas abertas até 2013, mas sua participação oscilou 1 ponto percentual para baixo no subperíodo.
  4. A queda do número de empresas de rádio, porém, foi abrupto. Se em 2013, contavam-se 507, um ano depois não passavam de 461, menos 9,1%, o que fez a participação do setor no total cair 3 p.p. No final do período inteiro, a queda foi de 11 p.p. (50%, em 2007, para 39%, onze anos depois).
  5. Em termos de participação no total, o desempenho das editoras, no subperíodo 2007-2014, foi significativo, saindo 15%, em 2007, para 21%, em 2014, permanecendo no patamar até 2017.
  6. Também observando-se o período inteiro (2007-2017), houve um crescimento geral de 11,7%, (834 para 932), com destaque para agências de notícias e outros, que mais do que dobraram seu número – 53 para 126, 137,7% a mais, o que aumentou a participação do setor no total em 8 p.p. (de 6% para 14%).
  7. O número de editoras – que, como vimos, engloba livros, jornais e revistas – também teve crescimento significativo no período (54,8%), com a elevação na participação total de 6 p.p.
  8. O meio TV apresentou comportamentos diferentes. Enquanto a TV por Assinatura mantinha participação constante de 2%, com o aumento de apenas 5 empresas no período todo, a TV Aberta caiu 6 p.p. no subperíodo 2007-2013 – de 27% para 21% -, recuperando-se gradativamente até atingir 24%, em 2017, retornando ao patamar de 2008.
  9. A provável causa para o crescimento do total de empresas no subperíodo 2007-2014 foi a Copa do Mundo. O indicativo mais forte da correção dessa hipótese é que o processo se inicia em 2008, um ano após o país ter sido escolhido pela Fifa (30/10/2007).
  10. O primeiro setor a reagir foi o de publicações impressas, cuja participação subiu 4 p.p. (15% para 19%) entre 2007 e 2009, tendo elevação incremental a partir daí, até atingir 21%, em 2016 e 2017.
  11. Agências de notícias/outros demoraram mais para avançar no mesmo ritmo, só o fazendo de 2011/2015, passando de 7% de participação para 12%. Este crescimento deveu-se, fundamentalmente à ampliação do acesso à internet, ocorrido no período, como mostra esta tabela.
  12. A redução de 28,8% no número de rádios no país, acabou por ser a maior responsável pela queda de 15,3% no total de empresas de mídia, do pico de 2013 até 2017, mas não foi a única. Todos os setores apresentaram redução, causada, muito provavelmente, pela crise econômica.

O jornalismo brasileiro não é mais o que era (e não voltará a ser) – II

Seu Jair da casa 58 e o jornal que ele ama odiar

Quando Jair Bolsonaro afirmou que mandara cancelar as assinaturas da Folha de São Paulo pelos órgãos da Administração federal (voltou atrás logo), houve duas reações básicas por parte dos jornalistas: um grupo indignou-se com a ameaça à liberdade de imprensa, outro disse “bem-feito” lembrando que a Folha faz questão de igualar Bolsonaro a Lula, chegando mesmo a não reconhecer que o presidente do país é de extrema-direita, fato evidente e reconhecido em todo o mundo, exceto aqui.

Ambas as reações são fruto do mesmo erro cometido pelos que se escandalizaram com a comemoração uniformizada do editor de Esportes do Globo, Márvio dos Anjos, após o gol que deu o título da Libertadores da América ao Flamengo, que analisei semana passada : os coleguinhas não veem – por não conseguirem ou não quererem – que o jornalismo praticado nas chamadas grandes redações não é mais um serviço de interesse público, como se praticava – ao menos se tentava – em outro tempo no país.

O caso da Folha é bem mais complexo do que o do Grupo Globo. Este, bem ou mal, ainda é um conglomerado de mídia puro, algo que o Grupo Folha não é desde 2006 quando criou o PagSeguro. O fato de ter entrado no mercado financeiro por meio de um sistema de pagamentos fez com que as relações entre o jornal que conhecemos e a sua fonte de financiamento mais importante se tornassem bem mais distantes do que as tradicionais publicidade e assinaturas. Hoje, a Folha precisa ser mantida pelo braço financeiro dos Frias e esse fato deixou o veículo ainda mais frágil do que seus concorrentes em muitos aspectos.

Essa fragilidade tornou-se pública no início deste ano, não por coincidência logo no início do governo Bolsonaro, com a disputa pelo controle do jornal que pôs de um lado Maria Cristina Frias e de outro seu irmão Luiz e a cunhada Fernanda Diamant, viúva de Otávio, o irmão mais velho, falecido em 2018. O pano de fundo da briga foi a exigência de Maria Cristina de que Luiz repassasse os dividendos a que o jornal teria direito por deter 33,23% das ações da Folhapar, empresa que controla o PagSeguro e o UOL. Os dividendos viriam das duas ofertas de ações realizadas pelo UOL, que renderam, no total algo em torno de US$ 1,7 bilhão (cerca de R$ 7 bilhões em cotação de hoje). Luiz se recusou e pôde fazer isso por ser o dono de 66,27% do capital da Folhapar.

Por que ele teria feito isso? O mercado especula que Luiz estaria determinado a tornar-se um banqueiro e a compra da carta-patente de um “tamborete” ( banco pequeno, no jargão do mercado), o BBN, seria mostra desse objetivo. No entanto, especula-se que ele quer mais, um banco maior, já com carteira de cliente. Para isso, teria que obter uma nova carta-patente, transação que precisaria ser aprovada pelo Banco Central.

Vejo o alvorecer do entendimento assomar aos seus olhos…

Pois é. Se há algo que Luiz Frias não quer neste momento é provocar a ira do patrão do cara que pode lhe permitir dar a grande tacada de sua vida. Daí ter tirado Maria Cristina do comando da redação da Folha – a história de ela ter caído por não querer cortes não faz sentido, já que um acordo poderia ser facilmente obtido, pois a briga pública não ajudaria ninguém – e ter permitido apenas uma campanha de marketing canhestra, falando em nome da democracia, e a um ou dois editoriais indignados, mesmo com o jornal sob ataque direto de Bolsonaro.

A Folha pode sair dessa? Pode, como diz essa matéria, que complementa a lincada dois parágrafos acima. Há rumores de que Maria Cristina estaria tentando reunir investidores dispostos a financiá-la na compra da parte de Luiz na Folha Participações (não confundir com a Folhapar), a controladora do jornal. Seria muito bom para ele, pois livraria de vez do encargo de monitorar de perto a redação para que, ao mesmo tempo que não provoque a ira do governo – deste e dos outros, pois o BC tem poderes para tornar a vida de um banco um inferno, no mínimo -, não perca de vez a credibilidade, o que levaria a mais prejuízos e à desvalorização do ativo. Resta saber quem estaria disposto a investir num veículo que teria o expresso ódio de um autoritário sempre candidato a ditador.

O jornalismo brasileiro não é mais o que era (e não voltará a ser) – I

Mengoooo!!!!

A demissão de Adalberto Neto, do Jornal de Bairros do Globo, por ter divulgado um vídeo que fez do editor de esportes do jornal, Márvio dos Anjos, correndo pela redação com a camisa do Flamengo, que depois tirou, comemorando o gol que deu o título da Libertadores da América ao rubro-negro, e a resposta tíbia da Folha ao ataque de Jair Bolsonaro, que mandou cancelar as assinaturas da Folha no âmbito do Executivo federal – no que voltou atrás rapidamente – e ameaçou os anunciantes do jornal, deixaram muitos jornalistas, principalmente da velha guarda, perplexos e zangados.

As reações dos colegas são explicáveis na medida em que partem de premissa não exatamente errada, mas, vamos dizer, fora do tempo, démodé (assim como a palavra démodé). Esses jornalistas ainda creem que a atividade profissional que hoje se exerce na chamada mídia corporativa (ou “mídia hegemônica”, ou “grande mídia”, ou “mídia mainstream”, ou algum outro termo que lhe agrade mais) é jornalismo como eles entendiam – e ainda é compreendida em outros lugares do mundo, que, no entanto, vem se reduzido drasticamente nos últimos anos. Esse entendimento é o de que o jornalismo é uma atividade de interesse público, no sentido de que tem por objetivo servir à sociedade em que os veículos e os profissionais estão inseridos.

Infelizmente não é mais assim (se é que um dia foi aqui no Brasil, mas isso é outra discussão). Os veículos de comunicação, hoje, fazem parte de imensos conglomerados de mídia, cujos interesses, em muitos casos, extrapolam esse setor, avançando por outros, até distantes do setor de origem. Vou usar os exemplos do primeiro parágrafo para tentar explicar essa questão e, temo, será uma explicação bem extensa e, por isso, dividirei em duas para que o texto não fique quilométrico

Vou começar com o “affair Márvio dos Anjos”.

Não seria justo O Globo desqualificar, e demitir, o seu editor de Esportes porque ele foi escolhido para o cargo exatamente por portar-se daquele jeito. A devoção de Márvio ao Flamengo é inversamente proporcional ao seu discernimento e acuidade intelectual, e essas características faziam parte do job description informal para o cargo.

Márvio está perfeitamente alinhado – como se diz no jargão corporativo – ao objetivo do Grupo Globo de transformar o Flamengo numa marca internacional, senão em nível mundial – embora esse seja o sonho dourado – pelo menos em nível de Américas. Essa intenção tem a ver com dois movimentos independentes, um corporativo, outro demográfico. O primeiro é a cada vez maior presença de plataformas de streaming que disputam a nossa atenção, um dos ativos mais valiosos do mundo digital, uma tendência que o Grupo Globo vem procurando seguir e que está na base também do projeto “Uma só Globo”, que está rodando há um ano. No momento, ele não abrange o Infoglobo, mas, dada a convergência digital, fatalmente o atingirá.

Um dos ativos mais significativos, ao lado da teledramaturgia e da produção cinematográfica, do Grupo Globo é exatamente o futebol. Ter um clube brasileiro entre os maiores do mundo é fundamental para o conglomerado, numa emulação do que foi, ironicamente, a política dos “campeões nacionais” do PT para o setor industrial. Não que a Globo acredite que o Flamengo, ou qualquer outro clube de um país da periferia do mundo (e cada mais afundado nela) possa competir, em termos financeiros ou de inserção na cadeia da indústria cultural global com Real, Barcelona, os grandes da Premier League, Bayern ou outro de países centrais, mas há espaço para conseguir um lugarzinho ao sol aproveitando o segundo movimento que mencionei no parágrafo anterior: a diáspora brasileira.

Aos poucos, mas seguramente, o Brasil tornou-se uma nação da qual se quer ir embora rapidamente se for possível e para a qual não se deseja voltar se der para evitar. As razões são mais do que evidentes, não precisam ser explicadas aqui. Essa diáspora, que só tende a aumentar nos próximos anos quanto mais o país se afundar na lama em que jogou em 2016, criou um mercado para o Grupo Globo. São os brasileiros que, com banzo da terrinha, se apegarão às boas recordações do que deixaram para trás e uma delas, claro, é o futebol.

Ter um clube brasileiro entre os mais conhecidos do mundo é a ponta de lança para que o produto futebol seja vendido a essa crescente comunidade de expatriados – e, em sua esteira, outros. Claro que seria melhor não haver apenas um clube e por isso, no plano original, a outra perna do projeto era o Corinthians. Infelizmente (para o Grupo Globo), o clube paulista apostou no cavalo errado no páreo político (o PT), enquanto o Flamengo comprou pules da extrema-direita e levou o prêmio. É da vida, jogo jogado. Além disso, o Timão bem pode ser substituído pelo Palmeiras, que também mantém excelentes relações com a extrema-direita desde os tempos do Integralismo (o verde do uniforme – usado depois que o azul, identificado com a Itália, durante os anos 20 e 30 passou a sê-lo com o Fascismo – está longe de ser acaso).

Esta é a maneira como o Grupo Globo pensa em se inserir nas cadeias de valor do capitalismo internacional e reflete a maneira como os Marinho vêm a própria inserção do país – não mais que um fornecedor de matéria-prima, que, se tudo der certo, se torna uma potência regional caudatária dos EUA e, em alguns casos, da União Europeia. Para levar esse projeto adiante, pessoas como Márvio dos Anjos, que pensam na mesma linha – ou não pensam de forma alguma – são necessárias. Tê-lo, um rubro-negro fanático, na editoria do principal jornal do Grupo, faz sentido, mesmo que exagere na sua adesão ao programa, correndo o risco de levantar a ponta dessa cortina, que deve ser mantida bem cerrada.

No próximo texto, veremos como o Grupo Folha vai pelo mesmo caminho, mas partindo de outro ponto, que leva a uma inserção ainda mais profunda nas correntes do capitalismo internacional.