Bolsonaro, a vacina e o seu celular

A gente tem que admitir: Jair Messias Bolsonaro sabe com que país está lidando. Juntou no seu balaio milicianos, neopentecostais, banqueiros, militares, agronegócio, Centrão, “mídia profissional”, odiadores de mulheres e gays, racistas e tudo o que de ruim o Brasil produz em quantidades industriais há 500 anos. Para manter essa monstruosidade em pé, usa como argamassa as ideias mais estúpidas que os americanos conseguem bolar e as passa por meios dos filhos, com o objetivo disfarçar o assalto ao país e a destruição de qualquer possibilidade de que possa se reerguer no futuro. É sob esse prisma que se deve enxergar a tal “guerra da vacina”.

O objetivo real de Bolsonaro ao declarar essa guerrinha de fancaria nada tem a ver se vacina funciona ou não, se é chinesa, russa, inglesa ou tanzaniana, ou mesmo se deve ser obrigatória. O que está por trás não tem a ver com a saúde dos brasileiros, mas com a tecnologia que promete revolucionar a maneira como nos relacionamos com a internet e o que vem depois dela, daqui a uma dúzia de anos – a 5G .

Para facilitar a minha escrita e a sua leitura, dividirei o texto nos três grandes jogadores deste game que une economia, tecnologia, ideologia e geopolítica. Haverá uma catadupa de links que aconselho você ler, a fim de ter maior entendimento do contexto, seja clicando no momento em que aparecerem, seja depois de chegar ao fim do texto.

Mas antes, vamos ver o que é a tal tecnologia 5G. Uma abordagem mais simples, você pode acessar aqui e uma mais técnica – mas que evita, malandramente, quase todas as menções à China – está aqui. É importante ler nem que seja a primeira para entender o que está na mesa.

Agora, ao jogo.

EUA
Estão numa sinuca. Por um erro estratégico quase absurdo – e que diz muito da decadência do país -, os EUA simplesmente ficaram a comer poeira no desenvolvimento da 5G. Por isso, nenhuma das seis maiores fabricantes de equipamentos para a tecnologia é estadunidense – são elas: Ericsson (Suécia), Nokia (Finlândia), Samsung (Coréia do Sul), Huawei e ZTE (China) e Viettel (Vietnã). O desespero é tão grande que o governo Trump chegou a pensar em dar dinheiro do contribuinte americano para que Nokia e Ericsson conseguissem fazer frente aos chineses. Porém, como seria de se esperar, o Congresso não aceitou fazer as coisas assim, na cara dura, e então foi necessário um contorcionismo.

O Brasil (e a América do Sul no geral) são o primeiro teste desta torção. Na visita do conselheiro de segurança nacional, Robert O´Brien, ao Brasil, os EUA, além de jogar no ar as acusações de praxe contra a China, prometeram mundos e fundos em termos de acordos comerciais, incluindo promessas de ajuda na compra de equipamentos para a substituição dos equipamentos de infraestrutura de telecomunicações chineses por “parceiros confiáveis” . Como esses parceiros não são norte-americanos, só sobram as empresas nórdicas citadas acima. Assim, seria feita uma operação triangular: os americanos emprestam para o Brasil, o Brasil compra os equipamentos de suecos e finlandeses e estes mudam suas fábricas da China para o Vietnã, que, por essas maravilhosas ironias da História, agora é confiável para os americanos.

Mas não apenas nós, cucarachas, que somos pressionados pelo Império. Até os europeus sentem a ponta da baioneta dos EUA nas costelas – no caso, a metáfora tem muito a ver. Chutar os traseiros do Reino Unido, virtual colônia americana na Europa (sim, outra ironia da História), não foi muito problema, mas a pressão parece que funcionou até sobre a poderosa Alemanha e sua dura primeira-ministra, Angela Merkel.

China
Está pondo a barbicha confuciana de molho. O noticiário faz entender que os chineses apenas agora, na 5G, se tornaram líderes em telefonia celular. Nada mais longe da verdade. Algo entre 40% e 50% de todo o equipamento que forma a infra do setor (postes, antenas, decodificadores, conectores, o escambau) é de origem chinesa desde os tempos do 2G, há uns 25 anos. A diferença é que, agora, o jogo se tornou mais pesado, com cacife altíssimo – o motivo você deve ter lido lá em cima (leu, certo?).

Graças a esse domínio – e ao sono pesado dos estrategistas dos EUA –, a China tomou uma vantagem imensa no desenvolvimento da 5G, mas estar à frente é apenas uma das pedras neste jogo, a outra é ter mercado. Nesse caso, a China também conta com vantagem, pois só seu mercado interno é capaz de alavancar uma tecnologia – afinal, são mais de 1 bilhão de seres humanos com capacidade de comprar.

Mas se dá pra golear por que se contentar com 1 a 0? Por isso, a China quer expandir o uso dos equipamentos de 5G para o maior número de mercados possível, garantindo que eles fiquem dependentes e prontos para a 6G no fim da década. E aí a porca torceu o rabo. Despertados de seu sono estratégico, os EUA, vendo o incêndio perto, decidiram impedir o avanço.

Não podendo mais recuperar o tempo perdido a ponto de concorrer de igual para igual, trataram de atrapalhar os inimigos lançando suspeitas de que os equipamentos chineses seriam usados para espionagem. Provas? Nenhuma até agora. Há estudos – quase todos de origem ou financiados por agências militares ou de segurança americanas ou europeias -, mas prova mesmo, mostrando onde estão, ou como seriam construídos, os tais “backdoors” a serem usados para espionagem, nada. A não ser, é claro, que os americanos considerem prova o fato de eles mesmos fazerem isso, como revelou Edward Snowden.

De qualquer maneira, as acusações já fizeram aliados tradicionais da Europa, que dependem econômica e militarmente dos EUA, pularem ou estarem prestes a pular fora. Até a Índia, que nada tinha contra os chineses, mudou de ideia depois de escaramuças de fronteira e resolveu desenvolver seu próprio sistema.

Brasil
Como sempre acontece, aqui as coisas são mais complicadas, pois há dois interesses em jogo: o da quadrilha familiar comandada por Jair Bolsonaro e do país. Vamos começar pelo primeiro.

Bolsonaro: A derrota de seu crush Donald Trump para Joe Biden fará com que o miliciano presidente se veja ainda mais pressionado do que antes, pois agora, fora os tiranetes da Hungria e do Cazaquistão, não tem mais aliados internacionais. Assim, ficaria barato para Biden dar uma barretada à esquerda do Partido Democrata e pressionar duramente Bolsonaro sobre a devastação patrocinada por seu governo na Amazônia e no Pantanal, o que, claro, seria sinal para os europeus redobrarem seus próprios ataques.

Nessa situação, a única arma real que o chefe da quadrilha do Planalto possui é a 5G. Biden não tem condições de trocar a 5G pela Amazônia pelos motivos que você já leu nos links (leu, né?). Arma que se torna ainda mais crucial dado os problemas de seus filhos com a Polícia. Bolsonaro sabe que, uma vez fora da Presidência, nada no mundo impedirá que pelo menos um dos seus meninos vá parar atrás das grades, embora essa ameaça seja bem pequena no que lhe diz respeito pessoalmente. Dessa forma, na mesa de negociação com os americanos estará certamente ajuda – ou pelo menos neutralidade – em 2022 e, caso tudo dê errado, que a família miliciana obtenha o que foi negado aos bolivianos golpistas – um tranquilo exílio na Flórida.

País: Nessa barganha, nós temos uma probabilidade altíssima de nos ferrarmos. É que, no momento, as duas possibilidades maiores são ruins para nós. A primeira é que os americanos aceitem o negócio de imediato, o que fará com que as telefônicas brasileiras tenham que trocar todos os seus equipamentos de fabricação chinesa por suecos ou finlandeses, o que demandará tempo enorme , custará uma grana imensa (que nós pagaremos, via conta) e, muito provavelmente, serviço pior.

A segunda possibilidade é que os EUA hesitem na negociação das salvaguardas à família miliciana e Bolsonaro, para forçar, atrase ainda mais a decisão, marcada para 2021, mas que devia ter sido tomada no início desse ano de banir ou não a tecnologia chinesa das licitações da Aneel. Nos dois casos, ficaremos muito atrás na corrida para adotar uma tecnologia fundamental para a competitividade da economia, o que só aconteceria na segunda metade dos anos 20.

Aqui, como você já deve ter adivinhado, é que entra a tal “guerra da vacina”. Bolsonaro usa a vacina para jogar a ideia de que qualquer coisa que venha da China não é confiável e, assim, preparar o distinto público para escolher uma tecnologia pior e mais cara, que prejudicará o país por muitas décadas, mas, dependendo das negociações, lhe garantirá e aos filhos agradáveis passeios de fim de tarde em Palm Beach. E, pelo que parece, a estratégia tem tudo para dar certo.

Globoplay+Canais Ao Vivo: a Globo joga seu escaler ao mar

Há um mito tão antigo quanto o linotipo na imprensa brasileira: o de que jornalista não é notícia. Os grandes propagadores desse mito, é claro, são os patrões, a quem não interessa que o distinto público saiba o quanto os jornalistas são mal pagos para se submeterem a uma rotina estressante, que faz com que, aos 35, 40 anos, já sejam considerados velhos. Há, porém, um assunto ainda mais tabu – as movimentações do mercado de mídia e isso explica o quase silêncio que cercou o lançamento do Globoplay+Canais Ao Vivo pelo Grupo Globo.

O Globoplay foi lançado em 2015 como o pilar televisivo consolidação geral das empresas do Grupo Globo, que começou pelo Infoglobo, naquele mesmo ano (não foi coincidência) com a chegada de Fred Karchar ao comando da empresa após uma mal explicada saída de Marcello Moraes. A grande inflexão do pilar televisivo aconteceu há exatos três anos, com a criação da unidade de negócios encarregada de estruturar o que agora se tornou o Globoplay+Canais Ao Vivo, sob o comando de João Mesquita, que lá ficou até se mandar para a concorrente Prime Vídeo.

O movimento de 2017 ganhou certa urgência no fim de abril deste ano, quando Bolsonaro ameaçou não renovar a concessão da Globo, a vencer em 2022. Por mais alguns anos, ter uma concessão de TV aberta ainda será importante, mas, já daqui a uns cinco ou seis anos, essa importância terá decaído muito. É que, lá por 2023, a tecnologia 5G já deverá estar funcionando no país. O 5G é a evolução do 4G, mas com um aumento de velocidade que a faz mais do que isso. Essa elevação de velocidade permitirá que até pessoas em cidades do interior possam acessar a internet com a qualidade que hoje só quem tem acesso à fibra ótica nas grandes cidades possui – e por um preço bem em conta.

A essa altura você já entendeu o básico dos planos da Globo. Mas tem mais. A Globo é muito grande e poderosa no Brasil (já foi bem mais, mas ainda detém poder considerável), mas em termos mundiais faz parte da Série C. Assim, sabe que, com o avanço da 5G, o processo que já está em curso de tornar as plataformas de streaming o filé do entretenimento se acelerará e nesse campo ela terá muitas dificuldades de enfrentar Netflix – cujo faturamento já se aproxima da Globo no Brasil -, Amazon e, agora, Disney. Portanto, embora não seja o Plano A dos Marinho, algum tipo de associação a esses gigantes poderá ser necessária. Nesse momento, então, ter uma plataforma de streaming com enorme conteúdo local e um conhecimento do mercado que ninguém possui poderá a ser diferença entre a sobrevivência e a extinção.

Um primeiro passo já pode ter sido dado e foi um tanto surpreendente: duras rivais desde que a líder mundial de streaming desembarcou do Brasil, Globo e Netflix esqueceram as escaramuças para distribuição de “Jugar com fuego”, produção da brasileira com a norte-americana Telemundo. Ainda assim, meu palpite é que se os Marinho vão bater pestana para algum concorrente, este será a Amazon, que até já conta com um produto voltado para este tipo de associação – o Amazon Prime Channels – e João Mesquita no comando.

Digital News Report (IV): Na Internet, ler, ver ou escutar não é crer.

Como vimos no primeiro texto da série, os on-lines e as redes sociais, especialmente essas últimas, carecem de credibilidade. Esse fato, porém, não faz com que o seu alcance diminua – de 2016 até 2020 (no caso das redes, de 2017 para cá), os números do Digital News Report não sofreram abalo maior. Vamos dividir a análise em on-lines e redes, para ficar mais claro.
Comecemos pelos on-lines e o gráfico abaixo.

Gráfico 1
  1. Há uma disputa acirrada em entre os sites do Grupo Globo (exceto o jornal) e o UOL (exceto a Folha), do Grupo Folha. Se, no entanto, juntarmos os jornais à conta, as empresas da Família Marinho vencem claramente as da Família Frias.
  2. Como aconteceu nas TVs , o fator Bolsonaro pode ser a explicação para o crescimento acelerado do portal da Record, cujo alcance cresceu de 160% (15% para 39%) entre 2018 e 2020, após uma queda de 45% (de 31% para 17%) entre 2016 e 2017.
  3. Algo surpreendente o bom desempenho de Yahoo e MSN, que tiveram percentuais próximos à Folha – inclusive com índices levemente superiores, no caso do Yahoo. Possível explicação é que ambos apresentam portais de notícias que podem ser acessados diretamente na abertura dos navegadores, principalmente o Explorer.

Independentes da Notícia

Nos dois últimos anos, o DNR mapeou sites de notícias independentes dos grandes portais e os meios tradicionais. O resultado:

Tabela 1

Não sei quanto a você, mas fiquei bem surpreendido. Em 2020, o alcance de O Antagonista estáno mesmo nível do site da Folha de São Paulo – que, não custa lembrar, além da marca do jornal ainda é hospedado no UOL, o segundo colocado entre os sites – e, somados, os sites de esquerda chegaram, neste ano, a um alcance de 37%, superior ao do Globo, no mesmo período.

As Redes Sociais são do Seu Mark

O gráfico não deixa a menor dúvida: as redes sociais no Brasil são dominadas pelo Facebook, ou seja, por Mark Zuckberg.

Gráfico 2

Mark é dono do líder Facebook, do vice, Whatsup, e do quarto colocado (e o único a crescer excepcionalmente no período) Instagram – sem contar com o Messenger que, apesar da última colocação, não faz feio.

O crescimento do Instagram, como disse, é excepcional: 150% entre 2017 e 2020, o que explica a crescente atenção que tem recebido pelos marqueteiros digitais. Ainda assim, o YouTube, com 45% de penetração, ameaça abrir um furo ainda maior na bolha de Mark, ao crescer 32% (de 34% para 45%) em três anos, chegando perto do zap. Assim não é de estranhar a influência da cria do Google no debate político brasileiro, via, principalmente, canais de extrema-direita. Por falar em influência, é notável a do Twitter que, embora tenha penetração três vezes menor do que o Facebook, pauta os veículos tradicionais graças ao instituto das “trade topics”.

Digital News Report (III). Jornal: mais próximo, mais confiável.

“O acidente de carro na esquina é mais importante do que a queda do avião no Sri Lanka” – é assim que aprendemos na faculdade que a proximidade é um fator poderoso de interesse para o leitor/telespectador/ouvinte, uma observação que pode ser estendida à confiança, segundo DNR-2020. Em se tratando de Brasil, os jornais locais possuem uma credibilidade maior que os jornais de pegada mais nacional, como ser pode visto no gráfico abaixo.

Gráfico 1

Traduzindo para o Índice de Confiança, fica assim:

Gráfico 2

Observações:

  1. Em termos gerais, os jornais são menos críveis para seus consumidores do que as TVs para os delas – mesmo os jornais locais, que inspiram maior confiança, estão bem abaixo das três redes de televisão de maior credibilidade. Muito provavelmente este fato ocorre porque a TV tem o poderoso recurso da imagem em movimento para corroborar seu discurso.
  2. A Veja tem um seriíssimo problema de credibilidade. Nada menos do que 22% dos seus leitores não acreditam no que estão lendo, o que derruba seu IC para 0,18, o mesmo do jornal popular Extra, que, teoricamente, atinge um público-alvo oposto ao da revista da Abril.
  3. Ser honesto sobre seus pontos de vista parece funcionar, pelo menos para o Estado de São Paulo. O IC do conservador jornal dos Mesquita que não esconde suas predileções antipopulares é o maior entre os chamados “quality papers”, 23% superior aos de seus dois maiores rivais, O Globo e a Folha de São Paulo, que optam por uma suposta neutralidade.
  4. O jornal dos Marinho, aliás, tem um problema de descrença idêntico ao da Veja, com 22% de seus leitores não acreditando no que leem. O IC do Globo, porém, é 44% superior à Veja devido aos 4 pontos percentuais a mais de leitores que creem em suas matérias.
  5. Singular é a situação do Valor. Por ser o único da lista do DNR-2020 a ser dedicado a uma área, no caso da Economia, deveria ter uma credibilidade entre seu público leitor maior do que os de seus concorrentes generalistas. No entanto, não é o que ocorre, por conta do elevado percentual (26%) dos que “confiam desconfiando”. Esse resultado talvez seja devido ao fato de o Valor ser um jornal de “segunda leitura”, tendo, dessa forma, suas matérias sempre cotejadas com os concorrentes.

Digital News Report (II): Globo, Record e o “Fator Bolsonaro”

Vamos à nomeação dos bois, o que não é bom para a Rede Globo. Para começar, dê uma olhada no gráfico acima. Dele já podemos extrair as primeiras más notícias para a emissora dos Marinho. De cara, vemos que, após um pico de alcance de 68% em 2018, ele cai praticamente para o nível em que estava em 2016, numa redução de 12 pontos percentuais. Deve-se que observar que 2018 foi daqueles anos que juntam, a cada quatro anos, as eleições gerais e a Copa do Mundo, dois eventos em que a Rede Globo possui papel relevantíssimo.

O panorama piora quando se coloca no quadro a Record e o SBT. No mesmo período em que a Globo perdia 12 p.p. em alcance, a emissora de Edir Macedo crescia o mesmo tanto e a de Sílvio Santos, 9 p.p. (após um pico de 11 em 2019). Não deve ser coincidência que as duas redes foram as eleitas, precisamente nessa ordem, como porta-vozes semioficiais do bolsonarismo, com o chefão dando seguidas entrevistas exclusivas em suas programações e chegando a nomear o genro de SS, Fábio Faria, ministro das Comunicações.

Notável também foi a queda da Bandeirantes entre 2019 e 2020, com uma perda de 12 p.p. O evento mais provável a provocar redução de tamanha magnitude – perda de quase um terço do alcance em apenas um ano – foi a morte do apresentador Ricardo Boechat, ocorrida em fevereiro de 2019, em desastre aéreo. Com seu estilo agressivo e histriônico, Boechat tinha ainda para dar tração a sua audiência na TV o fato de trabalhar pela manhã na Band News, pela qual era líder absoluto no horário da manhã, especialmente entre os motoristas de táxi de Rio e São Paulo.

Credibilidade baixa
A cota de más notícias que o DNR-2020 traz para a Vênus Platinada ainda não acabou. Há outra ainda pior: a falta de credibilidade do jornalismo da emissora, que pode ser flagrada no gráfico 2.

Gráfico 2

Assim, no olho, já dá para ver que a emissora dos Marinho tem um problema de credibilidade, correto? O tamanho dele, porém, fica bem mais claro quando olhamos o Índice de Confiança, o indicador que bolei para facilitar a comparação (expliquei o IC no primeiro texto da série).

Gráfico 3

Embora nenhuma rede de TV chegue a ser um sucesso em termos de credibilidade (a melhor, a Band, tem pouco mais de 0,5 em um índice cujo máximo é 1), o caso da Globo é bem alarmante: como se vê no gráfico 2, pouco mais de um terço das pessoas que assistem seus programas informativos (36%) não confia plenamente no que está vendo, o que leva seu IC para 0,28. Como, por princípio, o jornalismo vive de credibilidade, a constatação é bem desconfortável.

Mas fica pior. A grande rival, nem tanto em termos da alcance (como se vê no Gráfico 1), mas políticos, a Record, está muito à frente em termos de confiança dos telespectadores – 74% creem no que os telejornais e outros programas ditos jornalísticos (tipo Cidade Alerta e Balanço Geral) noticiam, o que faz o IC ser de 0,48, 71% acima do da Rede Globo. Aliás, em termos de descrença, a Globo só está acima Rede TV, cujo IC é de 0,24. Com 0,52 no IC, a Band é a mais confiável, provavelmente contando com o “recall” do ótimo jornalismo que fez até fins dos anos 90 e, também, do estilo de Ricardo Boechat.

Digital News Report -2020 (I): Quem acredita em tanta notícia?

Como já é tradicional, chegou a hora das análises sobre o Digital News Report, que, em 2020, abrangeu 40 mercados dos seis continentes, entrevistando cerca de 80 mil pessoas por meio de questionários on-line, entre fim de janeiro e início de fevereiro – ou seja, antes da eclosão da pandemia de Covid-19. Este último fato faz com que o levantamento se insira no desenrolar histórico da pesquisa, que começou em 2012, mas, para avaliar se o consumo de notícias foi modificado pela pandemia, o Reuters Institute For The Study of Journalism da Universidade de Oxford, responsável por ela, realizou outra, especial, em abril, em seis mercados (EUA, Reino Unido, Alemanha, Espanha, Coréia do Sul e Argentina), que foram apresentados em separado no relatório (o link para o DNR-2020 está no fim deste post).

De minha parte, aproveitei que este ano faz cinco anos que publico os resultados do DNR para realizar um apanhado deste período, no que se refere ao Brasil. Como sou metido a gato-mestre ( vai dizer que não tinha notado?), fiz um adendo na parte que se refere à pesquisa sobre credibilidade dos veículos, que começa logo abaixo e segue nas outras três edições da série, criando um Índice de Confiança. Apesar do nome algo pomposo, é bem simples: dividi o percentual de quem “Confia Sempre” nas notícias veiculadas por determinado jornal ou TV pelo daqueles que confiam às vezes e pelos que não confiam nunca, dividindo o resultado por 100. O argumento em que me baseei para a construção do IC desta forma é o de que confiança é que nem gravidez – como uma mulher só pode estar ou não estar grávida, alguém confia ou não confia em algo ou alguém. O índice se refere apenas a 2020, pois foi o primeiro ano em que o DNR apresentou essa abordagem. O IC poderá ser visto em todo o seu esplendor e glória a partir da segunda parte da série.

Antes de começar mesmo, um lembrete do próprio DNR: os resultados devem ser vistos com cautela, pois são obtidos por questionários on-line, ou seja, só os respondem quem possui acesso à internet. Assim, se em muitos países (Noruega, Coréia, Canadá) esse fato não afeta tanto, em outros, como o Brasil, eles ficam enviesados, pois os respondentes tendem a ser os mais ricos que moram em áreas urbanas e têm grau de instrução maior.

Então, vamos à credibilidade geral. Nos três anos em que a questão foi formulada, os brasileiros só se mostraram mais descrentes das notícias em 2019, quando ainda passavam pela ressaca da eleição de 2018, fortemente marcada pela manipulação delas – ainda assim ficamos em 9º entre os 38 mercados analisados ano passado, contra terceiro de 37 em 2018. No entanto, já voltamos ao quinto lugar entre os 40 países pesquisados este ano, mostrando que continuamos a acreditar razoavelmente no que vemos e lemos em jornais, rádios, TVs e veículos on-line, mas menos em blogs e redes sociais.

Gráfico 1

Mais observações:

  1. Apesar da recuperação geral, em termos percentuais, os brasileiros ainda estão menos crentes nas notícias que lhes chegam em 2020 do que eram há dois anos (51% acreditam no geral, contra 59%, em 2018).
  2. Jornais e TVs ainda apresentam vantagem quando comparados com sites de buscas (quando o vivente vai “pesquisar no Google” ou abre o navegador e vê notícias do Yahoo ou MSN) e, principalmente, com as redes sociais.
  3. A maior credibilidade, porém, não chega a ser uma boa notícia, pois, como veremos em outros textos, a credibilidade dos meios TV e jornal, na melhor das hipóteses, não chega animar, e, na pior, é francamente alarmante.
  4. As redes sociais são fontes confiáveis para apenas cerca de um terço das pessoas, mas apresentaram um significativo aumento de 7 pontos percentuais de 2019 para 2020.
  5. A majoritária descrença, porém, não impediu que as redes sociais ultrapassassem as TVs e se tornassem a fonte primária de notícia dos brasileiros, mesmo que por margem mínima, como se pode ver no gráfico abaixo.
Gráfico 2
  1. O gráfico mostra, porém, que a ultrapassagem das redes sociais como fonte primária de informação se fez menos por sua ascensão do que pela queda do meio TV, que, de 2016 a 2020, perdeu 16% de seu alcance.
  2. O resultado das TVs é ruim, mas há resultado pior: o meio Jornal apresentou queda de enormes 42,5% no período de cinco anos.
  3. Diante desses números, parece que o avanço das redes sociais como fonte de informação principal dos brasileiros – de resto, com queda percentual de 5 pontos percentuais, equivalente a 7% – tem mais a ver com o aumento da desconfiança destes com os meios tradicionais do que com o aumento da confiança das redes.

Vou ficando por aqui, no momento. Se quiser explorar a edição completa do Digital News Report de 2020, clique aqui.

O Estadão e suas escolhas

Fernão Lara Mesquita já não tinha dúvida alguma em 22 de outubro de 2014

Vamos lá: quando se fala no Estadão e Ditadura Militar de 1964, o que lhe vem à mente? Aposto que são as receitas de bolo e as poesias de Camões no lugar das matérias censuradas, certo? E isso aconteceu mesmo. No entanto, outro fato não é lá muito mencionado: o de que o Estadão apoiou incondicionalmente, de maneira aberta e entusiástica, o golpe militar. De tal entusiasmado que um fato bem menos conhecido ainda ocorreu logo depois do golpe. Segundo o insuspeito Elio Gaspari, o inspirador do Ato Institucional Nº 1, e que era para ser o único, foi, nada mais, nada menos, do que o dono do Estadão, Júlio de Mesquita Filho. Em sua sugestão, acolhida pelos milicos, o Congresso e as assembleias legislativas seriam fechados, os governadores, cassados, e o habeas corpus, suspenso.

Pouco depois, porém, os Mesquita romperam com os militares. O motivo é que os donos do Estadão tolamente acreditaram que os milicos iriam apenas fazer o trabalho sujo de eliminar os esquerdistas do cenário político, fosse de que forma fosse, e, em dois anos, convocariam eleições gerais nas quais apenas concorreriam representantes das classes dominantes. Só que os fardados jamais tiveram intenção de largar o osso, como bem o sabia Roberto Marinho e outros mais sagazes do que o Dr. Julinho, cuja intenção era eleger Lacerda – foi inclusive a cassação deste que provocou o rompimento definitivo com os novos donos do poder, num processo que levou à explosão da bomba em 20 de abril de 1968 e às receitas e poemas.

O mais interessante é que esta não foi a primeira vez em que os Mesquita apoiavam a ascensão de grupos que pariram ditadores, o que levou ao rompimento deste apoio. Acontecera o mesmo com Vargas. Claro, você vai lembrar que os Mesquita apoiaram a chamada Revolução Constitucionalista em 32, mas o que não é contado é que, pouco depois de 1930, o Estadão passou a dar força ao Governo Provisório, por este ter aceitado intervir na economia e ajudar os cafeicultores paulistas queimando café (sim, o liberalismo dos Mesquita é muito flexível também em termos econômicos). E já em 1935, menos de três anos após Revolução de 32, o Estadão estava de volta aos braços de Vargas, defendendo a Lei de Segurança Nacional. “Doutor Julinho” a achou branda demais e, por isso, apoiou o golpe do Estado Novo, em 37, para, três anos depois, romper com Vargas e perder o jornal, o qual recuperaria em 1945.

Você já deve ter notado que o editorial que colocava no mesmo patamar Fernando Haddad e um defensor explícito da ditadura, não foi um erro de avaliação -afinal, ela foi a mesma realizada por duas vezes, em 1937 e 1964. Apoiar ditaduras e depois romper com ela em nome de um suposto liberalismo não foi um acidente que ocorreu em 2018. É um padrão para os Mesquita. É por isso que a solidariedade aos profissionais do Estadão agredidos pelos bandidos bolsonaristas não pode se estender ao jornal, aos seus donos e aos jornalistas, como Vera Magalhães, que são seus porta-vozes. Para eles, a escolha nunca será realmente difícil.

P.S.: Para aprofundar-se no tema da relações dos jornais paulistas com a ditadura de 1964 – e, no caso do Estadão, das anteriores – um bom início é por aqui.

Valeu, Argeu!

Muito tricolor

Lutero Soares, editor de Nacional e Política do Globo, resolveu dar cargo de redator ao rapaz de 26 anos, em substituição ao mais respeitado redator da imprensa do Rio, Marcos de Castro. Sabia que estava fazendo besteira, mas não aguentava mais a pressão que Luiz Mário Gazzaneo, João Rath e Cristina Konder faziam para contratar o simpático e esforçado, conquanto pouco talentoso, jovem morador da Ilha do Governador.

Para disfarçar e não perder a fama de durão, o gaúcho resolveu interrogar o cara.

– Em que escolas vocês estudou?

– UFF, ENCE, do IBGE, Pedro II…

– Quais foram seus professores de Português no Pedro II?

– Ah, Osmar Pereira Leite, Magacho, Serafim…

– Serafim Silva?

– É

Virando-se em direção ao aquário que ficava atrás da editoria, o Cabeça de Lata (tinha uma placa de alumínio na tempora esquerda) gritou:

– Argeu! Ele estudou com o Serafim!

Argeu Afonso, que fazia a coluna “Há 50 anos no Globo”, coordenava o Estandarte de Ouro e habitava o aquário, botou a cabeça do lado de fora:

– Deve ter aprendido nem que tenha sido por osmose, respondeu e voltou para o aquário.

Não acabou.

Após 15 dias, durante os quais Marcos de Castro tentou inutilmente me ensinar a escrever pelo menos direito, comecei oficialmente no cargo. Nem meia hora depois de instalado, Argeu encostou na mesa de Maria Helena Pereira, que ficava na minha frente.

– Não quero te pressionar, não, mas você é o mais redator mais novo da história do Globo.

Dito isto, passou por mim e se dirigiu à cantina. Até hoje juro que estava sorrindo.

Vai em paz, nobre tricolor!

A CNN e o Brasil

Guerra de videogame

O pessoal que lamenta a saída da Gabriela Prioli da CNN Brasil por algo além da diversão que ela proporcionava ao demolir bolsonarista ao vivo está negligenciado um fato relativamente conhecido há mais ou menos uma década: a CNN, em suas versões internacionais, são um braço do Departamento de Estado. Para entender essa verdade, há que se voltar 30 anos, para a I Guerra do Golfo.

Quem viveu e lembra daquela guerra, há de recordar da atuação de Peter Arnett nas primeiras horas de combate em Bagdad. Entrincheirado num hotel, ele – junto com Bernard Shaw e John Holliman – transmitiu ao vivo a invasão, ao som de bombas e sirenes, fazendo um contraponto surreal com o “videogame” dos ataques noturnos. O impacto dessa cobertura na opinião pública (e o passado de Arnett na cobertura da Guerra do Vietnã, que lhe deu um Pulitzer) fez com que o “establishment” militar tomasse a decisão de só permitir jornalistas na linha de frente da II Guerra do Golfo se fosse acompanhando as tropas (o que fez com que os jornalistas mais cínicos chamassem a cobertura de “Operação Focinheira no Deserto”, trocadilho com “Operação Tempestade no Deserto”, da I Guerra do Golfo).

Esse momento mudou de vez a CNN, que, de uma empresa jornalística mais ou menos no padrão norte-americano (tinha acordos com o “establishment”, mas, em geral, ditava as regras em cada caso), tornou-se um braço do Departamento de Estado, no que se refere à cobertura no exterior. Pelo acordo, a CNN continua operando normalmente (como acima) em território dos EUA e de aliados confiáveis da Europa, da Oceania e no Japão, mas se compromete a atuar em conjunto com o DoS em lugares como o Oriente Médio, o Sudeste da Ásia e América Latina. Esse acordo – obviamente informal – pôde ser visto claramente nas recentes coberturas do golpe na Bolívia e nos conflitos no Chile, quando ela foi totalmente parcial em favor dos interesses norte-americanos (na cobertura da Venezuela, então, nem precisa falar). O acordo acabou, em reação, ensejando a criação de redes regionais para combatê-la, como a Al-Jazeera, no Dubai, e a Telesur, por aqui, mas isso é outra história.

É dentro deste quadro que se insere a criação e operação da CNN Brasil. Para Atlanta (sede da CNN), pouco interessa que os sócios do empreendimento sejam Douglas Tavolaro, sobrinho e biógrafo de Edir Macedo, e Rubens Menin, dono da MRV Engenharia, patrocinador do filme-exaltação de Edir, baseado no livro de Tavolaro. O importante é que eles atuarão conforme os interesses do DoS, não atrapalhando o acordo. Afinal, o pequenino mercado de TV fechada all-news do Brasil é uma gota no oceano do total global. Queimar a marca aqui não tem a menor importância.

Esses fatos e análises são relativamente conhecidos de quem atua e estuda jornalismo no Brasil e duvido muito de que fossem desconhecidos de Gabriela Prioli, quando ela aceitou o convite da CNN. O motivo de tê-lo feito só ela pode responder.

O jornalismo brasileiro não é mais o que era (e não voltará a ser) – III

O presidente desta triste República disse que os jornalistas são uma raça em extinção. Que ele diga isso, expressando sua conhecida alma tirânica, não chega a surpreender. Também não me causou comoção os comentários a respeito dos dois posts anteriores (aqui e aqui), a maior parte de leigos em jornalismo, que não compreendem suas especificidades, objetivos e limites. Para estes, o jornalismo – e, por conseguinte, os jornalistas – já acabaram no país, se é que um dia existiram. Desagradável mesmo foi ver jornalistas profissionais, até acadêmicos, achando a mesma coisa, tomando por base apenas as posições das empresas jornalísticas – cujas motivações foram o objeto dos posts citados – e as ações do próprio indigitado presidente, que se diverte em xingar os profissionais que o abordam na porta do Palácio do Planalto.

Todos esses – presidente protofascista, leigos que acham que entendem de jornalismo e colegas e acadêmicos que entendem, mas estão tendo ataques de amnésia – confundem, por querer ou não, jornalismo com aquilo que é praticado desde sempre por aqui por empresas jornalísticas. Só que uma coisa não tem necessariamente a ver com a outra no sentido positivo, de reforço. Pelo contrário, se formos olhar a história dos veículos de comunicação no país, a relação, quando há, é mais no sentido negativo – de impedimento – do que positivo, do ponto de vista da sociedade.

Pois esse é o ponto. Jornalismo é bom quando é feito em benefício da sociedade, na defesa dos que são mais fracos e vulneráveis, e, necessariamente, contra o poder Lembra da frase do Millôr? “Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. Pois é. E, partindo desse ponto de vista, o jornalismo no Brasil está vivo e chutando.

Duvida? Então, por clique aqui e veja uma lista de 58 veículos feitos por jornalistas brasileiros independentes que praticam a profissão segundo a premissa acima – há ainda a versão em português de oito veículos internacionais de diversas vertentes (e aqui tem outra lista, mais antiga). Há de quase tudo – dos que abordam infraestrutura até promoção da cultura da paz, passando por jornalismo de dados, política e justiça. Pode-se até não gostar da linha de um ou outro, mas é bem difícil arranjar argumentos sólidos para discordar de que eles não trabalham visando uma sociedade brasileira mais justa.

“O jornalismo pátrio, então, está forte e pujante?”, perguntará você. Bem, eu não disse isso.
Não disse isso por que, para ser forte e pujante, o jornalismo, como qualquer atividade no capitalismo, precisa ser seguro financeiramente, o que está longe de ser verdade para aqueles 58 veículos independentes acima e, por consequência, para os profissionais que nele trabalham. Chegar ao fim do mês, pagar as contas da empresa e ainda sobrar para os produtores das matérias pagarem as despesas com supermercado, aluguel, escola das crianças e demais boletos é um desafio permanente. Vulneráveis estão também, mesmo em escala menor, é bom que se diga, os jornalistas de veículos grandes, como mostram os dados da Conta dos Passaralhos, do VoltData, mesmo que os dados estejam defasados desde agosto de 2018 (e houve centenas de demissões de lá para cá).

Como o jornalismo independente pode tornar-se autossustentável financeiramente? Pois essa é a pergunta de 1 milhão de dólares. Não tenho respostas (se tivesse teria o milhão de verdinhas, ora!), mas há algumas ideias básicas que podem ser seguidas, ao mesmo tempo, pois não são mutuamente excludentes:

  1. Financiamento coletivo: O famoso “crowdfunding” é muito usado para apoio de projetos específicos ou para manutenção mesmo. Há possibilidade de aportes anuais ou mensais, via assinatura por meio de plataformas como Apoia.se, Benfeitoria, Catarse, Kickante, Vaquinha ou sistemas próprios…O problema é que há projetos muito bons e nós, ao apoiadores, ficamos perdidos na hora de dar aquela força (eu, por exemplo, estou há tempos para fazer uma planilha a fim de saber certinho quem estou apoiando, com quanto e em que periodicidade). Esse fracionamento faz com que a arrecadação regular não seja a desejável, mesmo na forma de assinatura, que tem sido a preferida dos sites.
  2. Dividir as contas: Outro caminho para a sustentabilidade é dividir espaços e contas para que esses custos fixos se diluam e fiquem mais leves para todos. Um espaço de coworking para veículos e jornalistas independentes me parece uma boa ideia, até para melhorar o trabalho em parceria em pautas que unam habilidades de vários jornalistas, viabilizando mais e melhores pautas.
  3. Agregar de notícias (e valor): Se seria bom dividir espaço físico por que não um agregador de notícias, aqueles apps que funcionam como revistas ou jornais personalizados, como Flipboard, Anews, Feedly (o meu), Google News e outros? Estar em alguns deles também é uma boa opção, mas seria ainda melhor se fosse criado uma apenas para mídia alternativa, não?
  4. Administração: Levar sério a administração devia até ser o item 1. Ter um bom profissional de finanças e planejamento é fundamental para que o veículo seja autossustentável. No caso de haver o tal coworking, esse seria gerido por uma pessoa à parte ou por um conselho formado pelos administradores dos veículos participantes.

Como escrevi acima, essas são as ideias básicas, apenas pontos de partida para a estruturação de um jornalismo independente mais estruturado no país. Essa diretriz é fundamental se ainda quisermos que o jornalismo, e seus profissionais, contribuam para a manutenção da democracia no Brasil, transformando-o num país mais justo.