Investimentos em publicidade da Administração Direta do Governo Federal (2011-2016) – IV (Internet)

Já cansou? Vamos! Está quase chegando ao fim! Nessa semana, o foco vai para o investimento publicitário da Administração Direta do Governo Federal em internet – na próxima, será a vez do rádio, depois do apanhado geral e c‘est fini! Quer dizer…A parte da Administração Direta…Depois haverá os dados da Secom que apareceram miraculosamente após a pentelhação; a Administração Indireta (se os órgãos responderem, o que está longe de ser certo)…Mas não ponhamos a carroça a adiante dos bois, como dizia Vó Sinhá.

Primeiro, os dados sobre a internet, então.

 

Antes da análise, um toque importante: os números englobam as operações na internet atreladas às outras mídias. Por exemplo, no que se refere ao Grupo Globo são dos sites dos Infoglobo e, da Rede Globo (G1 dentro); da Folha, o site do jornal (mas não o UOL) etc.  É meio óbvio, eu sei, mas não custava nada deixar ainda mais claro, né?Então, vamos à análise.

Análise

1. O ano em que a Administração Direta federal “descobriu “ a internet foi 2012. Do ano anterior para este, houve um acréscimo de 99,86%.

2. Nesse duplo carpado, todo mundo se deu bem, mas ninguém como o UOL, que deu suas piruetas para frente e obteve um aumento de 340% (de R$ 316.642,52 para R$ 1.076.403,30 o que pode ser explicado pelo fato de ser o maior portal de língua portuguesa do mundo. Bem também se deram o Terra (+ 108%) e a Folha, que teve um salto percentual de inacreditáveis 545,13%, mas, em termos absolutos, recebeu pouco menos de R$ 64 mil.

3. Na série, o ano de maior investimento foi 2014, ano da Copa do Mundo, com  R$ 9.114.043,62 – 477,18% acima do investido em 2011 e 242,5% mais do que no ano anterior (R$  3.758. 322,15).

4. Neste ano, em termos absolutos, o Grupo Globo foi o maior beneficiado com R$  3.701.147,11 (40,61%), mas, se observarmos que o investimento no GG engloba as operações internet de todos os veículos do grupo, então, proporcionalmente, o mais bem aquinhoado foi o UOL, que, sozinho, abocanhou R$  2.077.539,87 (22,79%) do total.

5. Com o fim da Copa, houve uma queda em 2015 de era de 49,61%, com uma recuperação de 32,56% em 2016, ano de Jogos Olímpicos.

6. No total do período, o Grupo Globo foi o que mais recebeu investimentos em internet do Governo Federal, com um total de R$  10.186.324,07. No entanto, levando-se em consideração o exposto no item 4, o UOL, com 25%, foi o mais beneficiado. O gráfico abaixo mostra a situação geral.

Investimentos em publicidade da Administração Direta do Governo Federal (2011-2016) – III (Revista)

Estou objetivo hoje. Sem mais delongas, vamos aos dados sobre o investimento em publicidade da Administração Direta do Governo Federal entre 2011 e 2016, nas editoras das três principais editoras de revistas do país.

Antes da análise, faço um alerta: o investimento acima não é num título específico, mas nos diversos títulos de cada editora. Assim, a grana que foi para a Abril não quer dizer que tenha ido para a Veja, mas para todo o imenso portfólio da empresa.

ANÁLISE

1. O que salta aos olhos é a diferença entre os investimentos de 2015 e 2016. Percentualmente, o salto foi de 849.14%, tornando o ano o mais profícuo da série para as editoras em sua relação com as AD do Governo Federal, superando o de 2011.

2. Olhando os dados de 2016 mais de perto e separando-se os investimentos do ano em primeiro e segundo semestres, chega-se a esta tabela:

3. Fica bastante claro que o salto aludido no item 1 aconteceu no segundo semestre, cuja variação em relação ao primeiro semestre foi de 1.018,87%.

4. Não é preciso ter uma memória privilegiada para lembrar que a grande mudança no Governo Federal ocorrida entre o primeiro e o segundo semestres de 2016 foi a troca de presidentes. É muito difícil não correlacionar os dois fatos.

5. No período observado, a Abril foi a editora mais bem aquinhoada com as verbas da AD do GF, superando a soma das outras duas grandes do setor no país em 155,10%, conforme a tabela abaixo:

6. Até março deste ano, a distribuição de verbas publicitárias era a seguinte:


7. Sim, nos primeiros três meses do ano o segmento revista da Três Editorial, responsável pela IstoÉ, não recebeu um centavo da AD do GF em investimento publicitário.

Investimentos em publicidade da Administração Direta do Governo Federal (2011-2016) – II (Jornal). Ou “é pentelhando que se recebe” .

O que não faz uma pressãozinha exercida por um chato de galochas, né? Você deve lembrar que tenho cortado um dobrado há dois meses para obter os dados sobre a publicidade do Governo Federal fornecidos pela Secom desde o ano 2000. Usando a Lei de Acesso à Informação (LAI), fiz o pedido dos dados e a secretaria disse que só era responsável pela programação da Administração Direta (Presidência e ministérios), me chutando para os demais órgãos se eu quisesse mais informações. Recorri até a CGU, que pediu uns 70 dias para obter as informações. Pois bem. Na terça-feira, tive uma sensação e fui olhar de novo o lugar em moravam as planilhas e…voilá! Lá estavam os dados que a Secom dissera que não era obrigação dela obter. Aliás, tem até mais: o investimento publicitário das empresas que não concorrerem no mercado (ou seja, fora BB, Caixa, Petrobras e Correios, basicamente) e a AD.

No entanto, não vou interromper a numeralha do investimento da Administração Direta do Governo Federal, que comecei semana passada. Os motivos são dois:

1. Gosto de terminar o que começo.
2. Os dados de investimento que estou usando remetem ao que foi concretizado, em termos de anúncios. Já os que agora, após a empentelhação, a Secom disponibilizou, referem-se ao que foi programado para ser gasto – o que, na Administração Pública, chama-se empenho -, mas que pode ou não ter sido realmente efetivado. Esses dados servem para análises mais estratégicas, para saber, por exemplo, se o governo está gastando menos em jornais do que em internet, como se poderia esperar dada a queda de audiência e alcance dos primeiros e o crescimento concomitante da segunda mídia.

Para obter o que equivalente dos números da AD que estou mostrando na Administração Indireta – principalmente empresas estatais -, aproveitei o mole da Secom de ter escrito que devia procurar as empresas, já comecei a pedir dados iguais a elas. Até o momento, BB, Caixa e Petrobras, a primeiras felizardas, não se dignaram a responder, mas eu, claro, continuarei pentelhando.

Dito tudo isso, vamos aos dados de investimento em publicidade da AD federal nos três principais jornais do país, entre 2011 e 2016.

20170604_tabela_jornais

20170604_gráfico_jornais

Análise
1. Salta aos olhos a queda ocorrida de R$ 1.804.228,30 para R$ 718.786,40 entre 2012 e 2013 – cerca de 60%.

2. Esse novo – e muito mais baixo – patamar foi mantido até 2015, apesar da recuperação parcial de R$ 400.092,46, em 2014, que reduziu a perda de publicidade da Folha, Estado de São Paulo e O Globo para 38% do valor de 2012.

3. A recuperação total veio apenas em 2016, quando o valor total até superou o ano-base (2012) – R$ 1.839.431,24 contra R$ 1.804.228,30.

4. O maior dado da série é o de 2011, quando o investimento em publicidade da AD federal nos três maiores jornais do país atingiu R$ 1.919.224,43. Esse montante deve ser superado em 2017, pois, como mostra a tabelinha abaixo – apenas nos primeiros três meses do ano em curso, o montante já atingiu R$ 1.241.470,52, ou seja 64,7% do total de 2011 (e 67,5% do total de 2016).

20170604_tabela_jornais_1tri_2017

5. Tomando-se o ano com o patamar mais alto da série (2011) e comparando-o com o mais baixo (2013), o jornal que mais perdeu, percentualmente, foi O Estado de São Paulo, com 67,1% de redução, seguido pelo Globo (- 65,3%) e Folha, com -54,3%.

6. Já na retomada 2015/2016, o jornal dos Frias foi o mais beneficiado, com uma elevação 227,77%, com o dos Mesquita ficando com 168,33%, enquanto o dos Marinho teve de contentar-se com um crescimento “apenas” na casa de dois dígitos (81,62%).

7. Apesar de ter severas dúvidas sobre uma ligação mecânica entre as verbas publicitárias e os fatos políticos, não há como que os dados sugerem essa ligação de uma maneira mais forte nos jornais do que nas TVs. No período 2013-2015, quando a verba publicitária destinada aos três grandes jornais do país caiu drasticamente, estes elevaram em muito sua agressividade contra o governo federal, ao passo que, na retomada de 2016, ano transcorrido em sua maior parte sob o governo #ForaTemer, Folha, Estado e O Globo foram bem mais suaves em relação ao Governo Federal.

Investimentos em publicidade da Administração Direta do Governo Federal (2011-2016) – I (TV)

Muito bem. Conforme prometido, vamos à numeralha da verba de publicidade do governo federal, no que tange à Administração Direta, ou seja, Presidência e ministérios. Antes, alguns comentários:

1. Normalmente, começo do geral para o específico. Dessa vez, porém, para mudar um pouco, farei o contrário, indo do específico – ou seja, de cada meio – para o geral. Assim, só no fim veremos os números por empresa (nem comecei a calcular ainda).

2. É sempre bom lembrar que o grosso da publicidade federal vem da Administração Indireta, especialmente das empresas de economia mista. Assim, só quando tiver os dados, que estou há meses pedindo à Secom por meio da LAI, saberemos se a participação por meio e empresa são correspondentes nos dois tipos.

3. Reuni os números de 2011 a 2016 (os que estão na base de dados da Secom aberta ao público), deixando 2107 separado porque só há números disponíveis até março.

4. Sugiro cautela se alguém quiser tirar conclusões políticas dos dados. É importante ter em mente o item 2 e também que as atitudes e ações políticas são determinadas por outros fatores tão poderosos quanto o dinheiro sonante – às vezes até mais.

Bem, então vamos lá. Começarei com o meio TV e as grandes redes nacionais. Primeiro, os totais anuais investidos no meio.

20170528_tabela_secom_tv

Análise

1. O ano de maior investimento foi 2013, com R$ 76,3 milhões.
2. O menor foi 2016, com R$ 49,7 milhões.
3. Confrontados os anos de 2013 e 2016, houve queda de 34,82% no investimento.
4. No período 2013-2016, a maior redução ocorreu entre 2014 e 2015, com uma queda de 28,06%. O fato deveu-se, muito provavelmente, ao drástico corte de gastos patrocinado pelo então ministro da Fazenda, Joaquim Levy.
5. Até 2016, o investimento em publicidade da AD ainda não havia recuperado o nível de antes de 2013. Pelo contrário – em relação a 2015, o ano passado apresentou redução de 7,44%.
6. Em relação ao início da série (2011), a redução em 2016 foi de 20,80%.

 

Agora, vamos ver a participação no bolo publicitário da AD por rede de TV, entre 2011 e 2016.

20170528_graficos_secom_tv

Análise
1. Como seria de se esperar, a Rede Globo, por ser a mais assistida, detém a maior participação, com 50% ou mais do bolo em cinco dos seis anos. A exceção foi 2014, quando ficou com 49%, fato surpreendente, já que, em ano de Copa do Mundo, seria mais provável que o percentual se mantivesse acima dos 50% por ser a Globo a rede dominante na transmissão no esporte nacional, influindo mesmo, diretamente, sem seu gerenciamento.
2. O percentual da Globo só voltou a superar os 50% em 2016, retornando ao patamar de 55% de 2013, mas ainda inferior ao pico de 58% atingido em 2012.
3. Nota-se claramente que à queda 6 pontos percentuais (55% para 49%) de participação da Globo, em 2013, correspondeu avanço quase idêntico da Record, de 21% para 26%.
4. A diferença, em termos percentuais, para a Globo, entre o pico de 2013 e o vale de 2015, foi de 37,11%, muito superior às perdas das outras redes, conforme se pode observar na tabela abaixo:

20170528_tabela_secom_AD_variacao_globo

 

Por fim, o gráfico comparativo da participação das emissoras na verba publicitária nos primeiros trimestres de 2016 e 2017.

20170528_secom_AD_comparacao_globo-2017_1tri_2016_1tri

Observa-se a queda de 4 p.p. da participação da Globo, com o crescimento de 8 p.p. do SBT e 3% da Bandeirantes.

Coleguinhas, 21 anos e um comunicado

Antes de começar a destrinchar a distribuição de verbas de publicidade da Administração Direta do governo federal (a da indireta teve mais um capítulo semana passada, com a CGU me avisando que só terá uma resposta lá para julho ou agosto), gostaria de fazer um comunicado: a Coleguinhas vai mudar. Um pouco, mas vai.

O motivo é que a página completará 21 anos de existência em 27 de maio, dois dias depois deste escriba ter completado 57, 35 deles dedicados ao jornalismo. São períodos bem razoáveis de tempo, você há de admitir. Confesso que ando um tanto cansado. Nunca tive obrigação de publicar uma coluna dominical, mas, como jornalista, só sei trabalhar direito com prazos definidos, o que acaba enchendo o saco, em algum momento.

Assim, a partir de agora, não é garantido que haja coluna nova todo o domingo. A ideia é que escreva quando realmente tiver algo que considere importante comunicar, mais ou menos como faço no Medium, se bem que mais frequente, já que lá é bissexto mesmo. Nas próximas semanas, é bem capaz de não haver diferença, pois há essa numeralha da publicidade oficial, mas, depois, haverá uma diferença maior entre as publicações.

E já que estamos no assunto, abri uma aba lá em cima para contar como a Coleguinhas surgiu, algo que, por algum motivo, numa cheguei a escrever, embora tivesse contado a história um sem-número de vezes.

Gastos com publicidade? Isso é LAI de sua conta, cidadão? (Horrível, hein?)

Há um mês, capino sentado para conseguir os dados sobre os dispêndios de publicidade do governo federal em 2016. Como você talvez lembre, fazia um acompanhamento bem pormenorizado desse tipo de uso do dinheiro público usando dados da Secom, que o tornava públicos desde o ano 2000. Para surpresa de ninguém, o governo golpista interrompeu essa divulgação, o que me obrigou a recorrer à Lei de Acesso à Informação (LAI).
O primeiro pedido aconteceu no dia 6 de abril e recebeu a seguinte resposta:

“Prezado senhor, em atenção ao pedido de acesso à informação cadastrado sob o número 00077.000427/2017-71, esclarecemos que a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República – SECOM não é responsável pela informação sobre os gastos de publicidade de cada órgão do Governo Federal (administração direta e indireta), mas tão somente das atividades de sua responsabilidade e que foram realizadas pelas agências de propaganda devidamente contratadas. Ressaltamos que as agências de propaganda foram contratadas pela SECOM, após processo licitatório, para a prestação de serviços de publicidade previstos na Lei nº 12.232/2010. Sendo responsáveis pela contratação de fornecedores de serviços de produção e da compra de espaços publicitários junto aos veículos de comunicação. As agências atuam por ordem e conta da SECOM, nos termos da Lei 4.680/1966. As informações sobre pagamentos efetuados pela SECOM aos veículos de comunicação e os fornecedores de serviços de produção, por intermédio das agências de propaganda estão disponíveis em http://sistema1.planalto.gov.br/secomweb2/demanda/execucaocontratual. Nesse ambiente, é possível gerar arquivos excel que permitem a aplicação de filtros para facilitar a ordenação e agrupamento de dados conforme seu interesse. Portanto, temos que entre as competências da SECOM, para a gestão da comunicação social do Poder Executivo Federal, estabelecidas pela Lei n° 10.683/2003 (art. 2°-B, incisos I e V) e pelo Decreto n° 6.555/2008 (art. 6°, incisos I a XVI), não estão previstas atribuições para produzir, controlar, custodiar ou centralizar dados referentes às ações de publicidade dos demais órgãos (administração direta e indireta). Essas informações podem ser obtidas mediante solicitação direta a cada um dos órgãos. Não obstante ao descrito acima, a SECOM disponibiliza dados em PDF de valores investidos em veiculação de todos os órgãos, no endereço http://www.secom.gov.br/atuacao/midia/acoes-programadas. Esses dados são fornecidos pelo Instituto para Acompanhamento da Publicidade (IAP), que considera os valores constantes nos Pedidos de Inserção (PI) fornecidos voluntariamente pelas agências de propaganda contratadas por integrantes da administração direta e indireta do Poder Executivo Federal. PI é o documento emitido pela agência de propaganda ao veículo de comunicação confirmando a compra do espaço publicitário. Tal metodologia de apuração pode suscitar inconsistências de informação ou falhas em dados dos veículos, todas de integral responsabilidade do Instituto responsável pela consolidação das informações. Diante do exposto, deve-se reiterar que a base de dados em questão não representa as ações efetivamente desenvolvidas pelos diversos órgãos do Governo Federal e, consequentemente, nem os gastos totais pagos aos veículos. As informações acima foram disponibilizadas pelo Diretor do Departamento de Mídia da Secretaria Especial de Comunicação Social da Secretaria-Geral da Presidência da República. Salientamos que, de acordo com o art. 15 da Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011) e com o art. 21 do Decreto nº 7.724/2012, há possibilidade de recurso no prazo de 10 (dez) dias, que deverá ser dirigido ao Secretário de Publicidade e Promoção da Secretaria Especial de Comunicação Social da Secretaria-Geral da Presidência da República. Destacamos ainda que dispomos de um canal de comunicação direto com o cidadão, o “”Fale com a Secom””, disponível no endereço http://www.secom.gov.br/fale-com-a-secom, em que também podem ser solicitadas informações sobre temas de competência da Secretaria. Atenciosamente, Serviço de Informações ao Cidadão Palácio do Planalto – http://www.planalto.gov.br/acessoainformacao”

É um belíssimo exemplo de caô burocrático:

1. A Secom realmente não é legalmente “responsável pela informação sobre os gastos de publicidade de cada órgão do Governo Federal (administração direta e indireta), mas tão somente das atividades de sua responsabilidade e que foram realizadas pelas agências de propaganda devidamente contratadas”. Só que sempre foi assim e, não obstante, a Secretaria fazia a divulgação do resultado consolidado desde 2000, como está no link lá de cima.
2. Até aquele desagradável barro vermelho de Brasília sabe que nenhum órgão da Administração Direta ou Indireta dispende um centavo em publicidade sem o “de acordo” da Secom.
3. “Não obstante ao descrito acima, a SECOM disponibiliza dados em PDF de valores investidos em veiculação de todos os órgãos, no endereço http://www.secom.gov.br/atuacao/midia/acoes-programadas. Esses dados são fornecidos pelo Instituto para Acompanhamento da Publicidade (IAP), que considera os valores constantes nos Pedidos de Inserção (PI) fornecidos voluntariamente pelas agências de propaganda contratadas por integrantes da administração direta e indireta do Poder Executivo Federal”.
Essa afirmação é falsa como uma nota de três reais, pois a Secom disponibiliza coisa alguma via IAP e quem diz isso é o próprio instituto em seu site: “Os dados processados pelo IAP só são disponíveis para consultas procedidas pela SECOM. Tais dados não podem ser publicados nem fornecidos a outras entidades. (…)”

Como sou chato pra caramba, recorri, mas também como sou burro que nem uma porta, o fiz diretamente ao ministro da Casa Civil, quando ainda tinha que passar pelo superior do cara que me negou o pedido, ainda na Secom (o que me foi gentilmente esclarecido por um rapaz, cujo nome esqueci, que me ligou de Brasília no dia da Greve Geral). Assim, refiz o segundo pedido e a resposta foi a seguinte:

“Prezado cidadão, em atendimento ao recurso de 1° Instância interposto ao pedido de informação registrado sob o NUP 00077.000427/2017-71, encaminhamos anexo arquivo em PDF, contendo resposta ao recurso interposto por Vossa Senhoria. As informações acima foram prestadas pelo Secretário de Publicidade e Promoção da Secretaria Especial de Comunicação Social da Secretaria-Geral da Presidência da República. Informamos que, de acordo com o art. 15 da Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/11) e com o art. 21 do Decreto nº 7.724/2012, há possibilidade de recurso no prazo de 10 (dez) dias, que será dirigido ao Ministro da SecretariaGeral da Presidência da República. Atenciosamente, Serviço de Informações ao Cidadão Palácio do Planalto – http://www.planalto.gov.br/acessoainformacao.”

Obviamente recorri e agora só me resta esperar a CGU dizer que é isso mesmo e o cidadão que vá se queixar ao Chico I. Caso queira saber como correu todo esse palpitante ping-pong burocrático, clique aqui.

Porém, como dizia Vó Sinhá, “quem não tem cão, caça com gato”. Por isso, a partir da semana que vem, vou seguir o conselho da Secom e passarei a publicar os dados referentes aos gastos em publicidade da Administração Direta. Eles são ínfimos, se comparados ao despendido pela Administração Indireta (empresas de economia mista e aquelas que concorrem no mercado), mas servirão como indicativo da forma com que está sendo gasto nosso dinheiro em publicidade.
Não, não pense que vou desistir mesmo que sejam negados todos os recursos, partirei para os principais órgãos, como foi sugerido pela própria Secom (“Essas informações podem ser obtidas mediante solicitação direta a cada um dos órgãos”). Aí veremos no que dará.

Truques da imprensa à portuguesa

Já estava com a Coleguinhas praticamente escrita quando, ontem, Luis Carlos Mansur enviou-me o link para um post do “Truques da imprensa portuguesa”, uma página no Facebook que, conforme diz Mansur, presta relevante serviço público detonando a imprensa do “jardim à beira-mar plantado”. Decidi reproduzir o post aqui por dois motivos:

1. Mostrar que alguns dos males que acometem a imprensa brasileira não são privilégios nossos, embora possam ser mais agudos aqui, e têm origens semelhantes.

2. Como é um “textão”, dificilmente ele seria lido em toda a sua extensão no Facebbok, pois quem acessa esta plataaforma parece ter imensa preguiça (ou mesmo incapacidade)de ler qualquer coisa que ultrapasse três parágrafos e seria uma pena desperdiçar um texto tão bem escrito, um prazer para quem ama a língua portuguesa e toda a sua riqueza vocabular, tão esquecida por aqui.
Boa leitura.

“Cofina: um post longo, mas que é só um começo.

A Cofina é uma empresa portuguesa de comunicação social que conta, entre os seus títulos, com o Correio da Manhã – o jornal mais vendido em Portugal –, o Record – o jornal desportivo mais vendido em Portugal – e a CMTV – o canal por cabo mais visto em Portugal -, para além do Jornal de Negócios, do Destak e da Sábado.

Serve este introito para justificar o seguinte: ao contrário do que dizem muitos dos que nos leem, é muito importante perdermos tempo a falar do trabalho que se faz nestes títulos, uma vez que eles chegam a muita gente e abrangem todos os temas. Têm alcance e com o alcance vem poder.

Têm chegado à nossa caixa vários de mensagens alguns testemunhos desconcertantes de trabalhadores e ex-trabalhadores da Cofina (jornalistas e não só) que nós achamos que merecem a vossa maior atenção.

Os lucros da Cofina estão em queda, o que implica mudanças: o mês passado, o Expresso noticiava que o destino de mais de 50 trabalhadores do grupo era o desemprego.

A Cofina, como muitas outras empresas de comunicação social em Portugal, empregam sobretudo jornalistas mal pagos – mesmo quando têm experiência e reconhecimento público – e “estagiários” não remunerados ou “subsidiados”, i.e., dão-lhes uns trocos para os transportes. É desta mistura de jornalistas experientes insatisfeitos e sub-remunerados e de estagiários inexperientes a custo zero que se faz grande parte do jornalismo em Portugal e a Cofina será, porventura, o pináculo desta estratégia.

Os títulos e as equipas da Cofina não são todas iguais e é preciso distinguir, por exemplo, um Jornal de Negócios – que consideramos um bom jornal – de um Correio da Manhã, que se tornou, para muitos, o porta-estandarte do “jornaleirismo” em Portugal: mentiras, falta de rigor, sensacionalismo, desrespeito pelas pessoas, enfim, o Código Deontológico dos Jornalistas violado, à bruta, por trás, ponto por ponto.

Conta-nos uma pessoa que esteve relacionada com o Correio da Manhã que nesta redação existe uma clara divisão entre diretores e jornalistas. Citamos: “Existe um clima de medo, bastante ditatorial, onde não se levantam quaisquer ondas. Poucos falam, poucos reagem e ninguém tem capacidade para falar com os diretores, uma vez que corre o risco, por qualquer motivo, de ser despedido. O medo dos despedimentos paira na redação. A intimidação é evidente e é quase diária. No Correio da Manhã contrata-se barato e despedem-se os jornalistas mais velhos, que ganham pouco mais. Os diretores, esses, ganham e não é pouco. A Cofina tem lucro. Mas o dinheiro vai todo para o topo da cadeia alimentar.”

Ilustrativo. Mas não fica por aqui.

Citamos outra fonte próxima do Correio da Manhã: “No Correio da Manhã os jornalistas são obrigados a trabalhar mais do que as 8 horas. Chegam a fazer 15 e até 20 horas seguidas. Sempre a um ritmo frenético que conduz, logicamente, ao erro. Todos os trabalhadores devem estar a trabalhar sem parar. Todos estão infelizes, quase todos querem sair. Só não o fazem porque há pouca oferta em jornalismo. Colocam os jornalistas a fazer trabalhos perigosos no meio de adeptos ou no meio de incêndios. São obrigados e pressionados a fazer perguntas desconfortáveis em conferências de imprensa. As ameaças de despedimento são constantes.”

Serve esta página para denunciar truques da imprensa portuguesa. Pois bem, aqui vai um grande, um dos maiores truques da imprensa portuguesa: quando os jornalistas são postos a trabalhar nestas condições, o jornalismo que fazem será, com toda a probabilidade, uma grande merda.

É por isso que aqui visamos, quase sempre, a publicação e não o jornalista. Porque sabemos que eles, que deviam ser o coração do jornalismo, são muitas vezes colocados na posição de meros empregados, a correr para aqui e para ali a mando, a fazer perguntas encomendadas ao chefe, que lhas ordena ao ouvido, sem espaço para investigar, para pensar, para corrigir.

Não serve isto para desculpar sempre os jornalistas quando falham, pois achamos que cada um dele assumiu, individualmente, uma responsabilidade para com o leitor quando aceitou a carteira de jornalista – e que essa responsabilidade deve impor que tomem uma atitude perante ordens que os obrigam a violá-la. Mas serve para enquadrar muitas dessas falhas num sistema que não está montado para nos dar rigor, verdade, transparência e seriedade. Está montado para dar dinheiro aos donos dos jornais e para por os jornalistas em situações onde, muitas vezes, têm de escolher entre o rigor e o emprego.

Os jornais são detidos por empresas que, muito legitimamente, procuram o lucro. Com isso, foram-se tornando, a pouco e pouco, em anti-jornais, em anti-imprensa: são anúncios, são páginas e páginas de publicidade disfarçada de notícias, porque é isso que dá dinheiro. São palha para burros, são sensacionalismo para atrair visitas, são servicinhos aos anunciantes.

Resultou para a Cofina, durante muito tempo, mas os sinais são positivos para o jornalismo: a receita parece estar a esgotar-se. A Cofina entrou no jornalismo e começou a substituí-lo por “tralha”: intrigas, pessoas nuas, histórias de faca e alguidar. Coisas que muita gente gosta e lê com gosto, e quem somos nós para julgar?

Mas há sempre uma altura em que as pessoas pensam: “bom, o que me apetecia agora era mesmo ler um jornal”. Ou em que um anunciante pensa: “bom, eu gostava mesmo era que os meus anúncios não estivessem rodeados de notícias falsas, para terem alguma credibilidade”.

E, quando esse momento chega, quem é se lembra do Correio da Manhã?

Ninguém.

A queda dos lucros no primeiro trimestre deste ano cifrou-se nos 35,4% face ao período homólogo do ano transacto.

A malta está a acordar. Há esperança.
http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/media/detalhe/lucro-da-cofina-cai-354-para-648-mil-euros-ate-marco

http://expresso.sapo.pt/economia/2017-04-11-Despedimento-coletivo-de-mais-de-50-pessoas-na-Cofina