Os gastos em publicidade do governo federal (2000-2015) – I

Desde 2000 (ou seja, ainda durante o tucanato), em algum momento de abril ou maio, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República divulga os gastos do governo federal com publicidade. Com a extinção da Secom, porém, é muito provável que este saudável hábito de transparência administrativa seja extinto junto, ressurgindo a caixa-preta do século passado.

Assim sendo, já que provavelmente assistimos o seu funeral, darei um tratamento especial, diferente do que fiz em 2014, ao levantamento deste ano, dividindo a análise dos dados em três colunas – a primeira, unindo o Total Geral e a TV; a segunda, Jornal e Revista; a terceira, Rádio, Internet, Mídia Exterior e Cinema. Esta divisão se explica, principalmente, pelo fato da enorme preponderância da participação da TV na distribuição das verbas de publicidade, com o meio abocanhando, em 13 dos 16 anos do levantamento, mais de 60% do total de verbas (tabela e gráfico 2).

Outro ponto da coluna desta semana é que, além do total geral, apresento também a divisão das verbas pelas administrações direta e indireta, como faz (ou fazia) a Secom, mas sem mais comentários, já que os meus neurônios derreteram durante o processamento dos dados antes de chegar neles (quem quiser acesso aos dados originais, eles podem ser encontrados no site da Secom, junto com muitos outros, pelo menos até hoje – aconselho a baixar tudo, como eu fiz).

As seguintes explicações estarão na primeira tabela, mas para não correr o risco de você não vê-las, vão aqui:

• Os valores correntes de investimentos em Mídia (veiculações) foram obtidos pelo processamento de cópias de pedidos de inserção (PIs) e indexados pelo índice IGPM-FGV: índice médio, ano a ano. Índice médio do ano base 2015: 586,426.

• A base de dados fornecida pelo IAP (Instituto para Acompanhamento da Publicidade), atualizada em 20/04/2016. (N. da C: Até 2011, os dados de programação eram abertos pelo IAP (exemplo), mas, infelizmente, a partir deste ano, os dados são acessados apenas pela Secom, via web. Como a secretaria foi extinta, seria interessante saber a cargo de quem ficará o acesso a estes dados);

• Os valores não incluem: publicidade legal, produção e patrocínios.

• Os valores de 2015 são correntes (nominais).

Tudo entendido? Então vamos lá, mas com calma, que dá uma certa canseira. Primeiro, o gráfico e a tabela do total geral.

20160515_tabela_grafico_publicidade_governo_direta_indireta_total geral

Agora, os destaques do total geral:

1. Maior investimento: R$ 2.616.069.081,00 (2013).

2. Menor investimento: R$ 1.148.613.046,00 (2003).

3. Diferença entre o menor e o maior investimento: R$ 1.467.456.035,00

4. Diferença entre o menor e o maior investimento em termos percentuais: 127,75%

5. Dos cinco anos com maiores investimentos, três (2013, 2012 e 2014) ocorreram nos cinco anos do período Dilma, e dois (2009 e 2010) nos oito anos do período Lula.

6. A maior redução de investimento de um ano para o outro aconteceu de 2014 para 2015 – R$ 591.470.711,00 (- 24%)

Agora, gráfico e tabela da TV:

20160515_tabela_grafico_publicidade_governo_direta_indireta_TV_total geral

Os destaques:

1. Em 13 dos 16 anos do levantamento, a parcela de TV superou os 60% dos investimentos totais em mídia.

2. A maior participação ocorreu em 2014 (66,7%) – muito provavelmente devido à Copa do Mundo; a menor, em 2000 (54,4%)

3. O maior investimento, em termos absolutos, foi realizado em 2013 (R$ 1.692.423.230,71).

4. O menor investimento, em termos absolutos, ocorreu em 2003 (R$ 700.005.221,46).

5. A diferença percentual entre o maior e menor investimento foi de 141,8%.

6. Dos cinco anos com maior participação da TV no total geral de investimentos em mídia, quatro ( 2014, 2015, 2013 e 2012) estiveram no período Dilma.

7. A maior redução de investimento de um ano para o outro aconteceu de 2014 para 2015 – R$ 408.920.027,00 (- 25%).

20160515_grafico_publicidade_governo_direta_indireta_TV_variacao investimento

8. A redução do investimento em TV de 2014 para 2015 (R$ 408.920.027,00) equivaleu a 69% do total da redução ocorrida em todas as mídias no mesmo período (R$ 591.470.711,00).

9. Como os governos, de 2003 a 2014, liberaram cerca de 45% das verbas investidas em TV para a TV Globo, pode-se calcular que a Estrela da Morte tenha perdido, de 2014 para 2015, cerca de R$ 185 milhões. Se partimos de 2013 – ano com o maior dispêndio com mídia de todo o período com o meio (R$ 1.692.423.230,71) -, a redução de receita atingiu mais de R$ 200 milhões.

10. Quadro dos investimentos por emissora disponibilizados pela Secom (dados disponíveis até 2012).

Análise

Em geral, neguinho reclamava da preponderância da TV nos planos de mídia dos governos do PT. É uma queixa justa se você parte de um ponto de vista – o de que era preciso desconstruir a hegemonia dos meios de comunicações tradicionais (aviso: eu parto desse ponto de vista). O problema é que os governos na Era PT não se coadunaram com esta proposta, mas pelos tais “critérios técnicos”, sempre defendidos pela mídia tradicional.

Pior (pelo menos do meu ponto de vista). Os governos petistas criaram um, para mim (sou paranoico, lembra?), estranho Comitê de Negociação, que, como o nome diz, negociava as verbas de publicidade com representantes de veículos. Democrático, certo? Mais ou menos. É que este comitê não era aberto ao público e nem suas atas (se é que existiam) publicadas e, assim, há grande a probabilidade de esse comitê ter se transformado num canal de lobby, institucionalizado, mas sem regulação. Tão esquisito quanto esse comitê foi a falta de interesse (talvez até mesmo de conhecimento) de associações, coletivos e veículos que sempre clamaram por mudanças na distribuição de verbas publicitárias governamentais em questionarem a existência dele ou, ao menos, seus métodos de trabalho.

Diante desse quadro, não há muito o que reclamar que a distribuição da grana da publicidade fosse, em sua maior parte, para o meio TV, que é mesmo o que atinge maior público. E, se você for olhar com cuidado, há até uma sub-representação do meio em relação às verbas. Estudos como este mostram que, somadas TV aberta e fechada, o meio tem 72% do “share” da publicidade, o mesmo que a PBM-2015 encontrou, em termos de audiência, na pesquisa referente a 2014 (deve ser outra pesquisa importante a morrer no governo do “Novo Brasil”).

Por fim, os links para as outras tabelas, segmentadas em órgãos da administração. Divirta-se você também com os números. Eles são gente boa.

Direta

20160515_tabela_total_geral_direta

Indireta

20160515_tabela_total_geral_indiretas_empresas de mercado

 

#aGlobodeveserdestruida

Abril despedaçada

Mais uma semana em que não poderei voltar aos números da Pesquisa Brasileira de Mídia-2015 (PBM-2015), da Secom. Não comemore, porém – vai ter numeralha sim, mas sobre um dos assuntos top da semana no nosso setor (junto com o anúncio d’ O Boticário): a nova rodada de cortes da Abril, cuja crise tem se tornado uma habituée  daqui.

Primeiro, a boa notícia. Há uma possibilidade de os Civita terem terminado de passar a faca nos postos de trabalho, ao menos por enquanto. É que a Abril praticamente abriu mão de ter revistas semanais de entretenimento. Com a nova “reestruturação”, a editora ficou apenas com a “Veja” entre os 10 títulos semanais mais vendidas no país em março, o último dado que obtive (em amarelo, os da Editora Caras, incluindo os seis que obteve da Abril nesta última leva) :

01_crise na abril_10 revistas semanais mais vendidas em marco_2015

Não é bolinho. Se você juntar as revistas semanais detonadas pela Abril, verá que elas somavam, em março, a circulação total de 762.698 exemplares (incluindo edições digitais), 20,51% dos 3.719.028 (também incluindo o mundo digital) de semanais que circularam naquele mês. Os Civita passaram, nos últimos meses, para a Editora Caras – da qual também são acionistas (o que você queria?) -, as revistas colocadas entre a segunda e a sexta colocações no ranking das semanais de Entretenimento (“Ana Maria”, “Ttititi”, “Contigo”, “Viva Mais” e “Minha Novela”, respectivamente). Como a Caras já era dona da líder (a publicação com o mesmo nome da editora), tornou-se dominante no segmento.

A Abril, assim, concentrou-se nas revistas mensais, onde nada de braçada:

02_crise na abril_10 revistas mensais mais vendidas em fevereiro de 2015

Por que toda essa prestidigitação com os títulos? Bom, essa é a notícia ruim.

Na página 5 do balanço de 2014, os auditores da PWC fizeram questão de abrir o intertítulo “Ênfase”, no qual destacam que a companhia a Editoria Abril teve prejuízo de R$ 139,2 milhões (contra R$ 166,6 milhões em 2013), apresentando ainda um patrimônio líquido negativo de R$ 265 milhões (ou seja, as dívidas da empresa superam o seu patrimônio nesse valor) e também excesso de passivos sobre o ativo circulante no montante de R$ 386,7 milhões (isso quer dizer que se todos os credores da Abril resolverem cobrar seus créditos durante o ano de 2015, mesmo aqueles que vencem no futuro, haverá um buraco de quase R$ 400 milhões). E há ainda os impostos diferidos (reconhecidos, mas ainda não pagos, como permitido em lei), no valor de R$ 111,7 milhões.

Na mesma nota, os auditores da PWC garantem ter ouvido dos Civita que, caso necessário, eles aportarão capital para sanar 70%, o percentual que lhes pertence do capital da empresa, das dívidas. O resto? Bom, os credores teriam que correr atrás dos sul-africanos do Naspers que compraram 30% da Abril em 2006. Mas quem trabalha na companhia não precisa ficar nervoso – ninguém vai cobrar porque pior do que uma empresa com um buraco de R$ 400 milhões na contabilidade é uma empresa em concordata com um buraco de R$ 400 milhões na contabilidade

Para você ter uma ideia de como a Abril chegou a essa situação, segue um apanhado dos resultados da companhia desde 2011, ano em que foi adotado no Brasil o International Financial Reporting Standards (IFRS), as normas internacionais de contabilidade:

03_crise na abril_resultados 2011_2014

04_crise na Abril_gráfico resultados_2011-2014

Da maneira que vejo a coisa, a manobra dos Civita de passarem os títulos das semanais para a Caras e focarem a Abril nas revistas mensais tem dois alvos:

Estratégico: Vai que a situação piora (o motivo principal para a deterioração seria o que está no último parágrafo) e ter títulos valiosos fora do seu controle (em termos legais, embora não reais) é uma espécie de poupança num HSBC da Suíça, pois os títulos valem uma bela grana.

Operacional: Revistas semanais são, vamos dizer, de “alta intensidade” – precisam de uma produção mais veloz e, portanto, com maior número de profissionais envolvidos (jornalistas, gráficos, administrativos etc) e uma logística mais complicada do que as mensais, cujo prazo de produção menor permite a sua realização por equipes fixas menores. De outro lado, as mensais (pelo menos as que a Abril manteve) possuem um valor maior no mercado publicitário por serem fortemente segmentadas e terem uma vida útil bem maior.

Nesse caso último por que não passar a “Veja” nos cobres também? Por dois motivos básicos:

1. A revista é a joia da coroa e sua venda tenderia a ser considerada o fim da linha da Abril. Aí, aqueles credores lá de cima correriam o mais rápido possível para pegar um bom lugar no cartório de protestos, e os Civita para longe o mais rápido que seus jatinhos o permitissem;

2. A “Veja” é a única arma de grosso calibre que os Civita ainda têm para chegar aos cofres públicos, como já acontece em São Paulo e voltaria a ocorrer caso um tucano vença as eleições presidenciais em 2018, em nível federal.

Se o PSDB amargar a quinta derrota consecutiva para o PT? Bem, aí duvido muito que a Abril sobreviva à terceira década do Século XXI.

Ah, os liberais brasileiros…

O que aconteceu com Xico Graziano, um dos coordenadores da campanha de Aécio Neves e ex-chefe de gabinete de FHC, quase me faz ter pena dos liberais brasileiros. Xico foi xingado de “petralha”, “esquerdopata” “comunista” e outros epítetos tão em voga nas redes sociais ao publicar em sua página no FB que era contra a campanha de impeachment de Dilma (aqui)

Só que aí me lembro que, durante a campanha, os liberais nunca se mostraram indignados com os ataques e ameaças que esta ralé (no sentido que Hannah Arendt dá em “As origens dos totalitarismo“) fez aos petistas apenas por discordarem deles,  nem mesmo quando esse tipo de gente pregou o racismo contra os negros, a violência contra os gays  e até o extermínio dos nordestinos – aliás, bem ao contrário: deram seu aval de várias formas, desde encerrar posts com a expressão protofascista “estamos de olho” até o estímulo direto de FHC, o maior dos caciques da tribo tucana, dizendo que quem votava no PT era pobre e desinformado.

Esse oportunismo político advém de um fato: os liberais brasileiros, ao mesmo tempo em que se sentem mal com a presença dos pobres – por “enfeiarem” a paisagem, em especial de bairros como Leblon, Ipanema, Jardins, Higienópolis e seus congêneres de todas as capitais do país – não admitem que estes tenham a chance de deixarem de ser pobres graças a programas de inclusão social como Bolsa-Família, Prouni, Pronatec, cotas, Mais Médicos etc. Menos pobres, para os liberais brasileiros, quer dizer mais guetos ou mais execuções, desde que ambOs bem longe de suas vistas. Como não têm coragem nem de pôr o 45 nos vidros de seus elegantes carros de linhas aerodinâmicas, durante a campanha apelam para a ralé, que, além de botar os adesivos naqueles “tanques civis” que são as SUVs, não tem vergonha de defender nas ruas tudo o que é antidemocrático e até criminoso, como se viu no sábado, dia 1º de novembro, na Avenida Paulista.

Para livrarem-se deste dilema – não gostam de ser confundidos com a ralé, mas sem ela não têm chance de vencer eleição -, os liberais brasileiros teriam que fazer o que Nove-Dedos fez em 2002, com o sinal trocado. O candidato deles deveria assinar uma “carta aos brasileiros” não só prometendo não acabar com os programas de inclusão social, como a ampliá-los em extensão, profundidade e fundos. Mas cadê a coragem política para isso? Assim, para ganhar a eleição em 2018, os liberais de Pindorama irão de novo aliar-se ao que de pior e mais monstruoso existe no Brasil. Sem hesitações.

O jogo de domingo

O nome é bacana – “conflito distributivo” -, mas o popular povo resume um monte de teoria a respeito do fenômeno a uma frase: “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Esse é o verdadeiro embate que está sendo travado na disputa pelo Palácio do Planalto e que definirá o que vai ser do Brasil nos próximos anos – e não apenas quatro não, mas por uma década, pelo menos.

Como você deve recordar, há pouco mais de uma década o Brasil estava na pindaíba. Recém-saído de duas quebras financeiras (97 e 98), quase sem dinheiro em caixa e de tendo passado por um racionamento de energia real, causado pela obsessão dos tucanos em privatizar tudo, até as obrigações inerentes aos governos, o futuro do país não parecia lá muito brilhante. Jogamos esse abacaxi no colo do Nove-Dedos e, para surpresa de um monte de gente (inclusive da boa parte de seus eleitores), ele saiu-se melhor do que a encomenda: não só tirou o país do atoleiro que FHC nos tinha enfiado, como ainda consertou o carro, botou-o numa pista limpa e pisou no acelerador.

A maior parte do mérito é dele, sem dúvida, mas a conjuntura internacional ajudou (também ajudava o FHC, mas esse não tinha a competência do torneiro mecânico). O mundo crescia bem e, parecia, de maneira consistente, especialmente a China. Como sempre acontece no capitalismo, porém, essa boa fase desapareceu de repente (ou nem tanto, pois alguns estudiosos, nenhum deles daquelas suspeitíssimas agências de avaliação de risco, já previam que ela estava acabando), em 2008. N-D e seu pessoal ainda deu um jeito de manter o carro em boa velocidade, mesmo com a estrada mais parecendo a superfície lunar de tanto buraco.

Assim, nessa época, e até 2011, estava todo mundo feliz – os ricos ficando mais ricos e o pobres, menos pobres. De três anos para cá, porém, o carro começou a engasgar. O mundo, ao contrário do que juravam o FMI, os dirigentes políticos do Primeiro Mundo e a The Economist, não melhorou devido à austeridade imposta aos europeus (aos norte-americanos não). Ao contrário, a crise parece ter fincado raízes tão profundas que, além de atingir a China, praticamente garantiu que essa década de 10 do Século XXI será completamente perdida.

O Brasil, obviamente, como não é a “ilha de tranquilidade” que apregoavam os militares na época das crises do petróleo dos anos 70, também sentiu o baque. Só que aqui, ao contrário da Europa, nunca houve “estado do bem-estar” para, mesmo em decadência, garantir uma rede social minimamente decente (saúde, educação, transporte público). O resultado foram as tais Jornadas de Junho, que juntaram os insatisfeitos de todos os matizes e pontos cardeais. As manifestações deram em nada, até porque eram politicamente amorfas, mas deixaram claro que uma parte dos brasileiros sentia os efeitos do sumiço da grana fácil, que vinha por meio do nível de emprego em alta, da elevação dos salários e do incentivo ao consumo. A vida ficava, se não tão difícil quanto era nos anos 80 e 90, menos fácil do fora após 2003, e a galera não gostou disso.

O problema é que, como escrevi mais acima, esse quadro não vai mudar muito nos próximos anos. O dinheiro encurtou e uns bons sete ou oito anos, pelo menos, se passarão até que a situação melhore. Assim, quem ficará com a maior parte desse dinheiro curto? Que grupos sociais vão, como dizem os cientistas políticos e economistas, apropriar-se da riqueza que ainda resta?

Esse é o ponto que está sendo discutido por Dilma e Aécio, por detrás dos xingamentos. A primeira defende que a maior parte da grana seja distribuída entre os mais pobres, por meio dos programas sociais e de investimentos em educação técnica e superior. O segundo deseja que o dimdim fique com o mercado financeiro (daí a defesa do Banco Central independente – do governo, obviamente, não do mercado), as oligarquias (como as que dominam os meios de comunicação) e os estratos da elite brasileira que são capazes de investir alto no mercado financeiro e em imóveis, aqui e lá fora. É o tal “conflito distributivo”.

A definição de quem vai levar a grana acontecerá no dia 26 de outubro. O resto é circo.

“Gansos mancos”

Seja quem for que elejamos em 26 de outubro, tem uma grande probabilidade de ser um “ganso manco”. “Lame duck” (pato manco) é uma expressão dos norte-americanos e descreve o presidente que está no final de seu último período de mandato e, portanto, sem força política para realmente governar – no máximo, toca o dia a dia como pode. No Brasil, os políticos dizem que, nesse período, até o cafezinho é servido frio para a pessoa. Só que, daqui duas semanas, elegeremos um/a presidente/a, que, por motivos diferentes, ficarão numa posição de poder limitado só que por quatro anos. Assim, resolvi chamá-los de “gansos mancos”, já que poderão grasnar alto como os gansos, mas não poderão ser tão agressivos como essas aves – ótimos guardas, como já sabiam os romanos, que os usavam pare defender suas propriedades.

Primeiro, o caso de Dilma. Se ela vencer, terá sido apesar dela própria e graças à militância de esquerda – principalmente no PT, mas não só. No caso do PT, isso quer dizer que foi eleita, mais uma vez, pelo Nove-Dedos. Da primeira vez, tudo bem, era um poste inventado por ele, que teria a obrigação de carregá-la nas costas mesmo. Após quatro anos de poder, porém, era para Dilma ter mostrado um mínimo de competência política para caminhar sozinha. Como não foi o que aconteceu, o PT se viu obrigado a usar o prestígio de N-D e a militância para mantê-la governando, ela ficará devedora do partido, o que quer dizer do N-D. Assim, como diz a Piauí desse mês, caso Dilma seja eleita, o poder sairá do Planalto e tomará assento na Rua Ipiranga, em São Paulo, via onde se localiza o Instituto Lula.

A situação de Aécio é mais complexa. Os partidos aliados dele na eleição conseguiram levar para a Câmara cerca de 190 deputados, ou seja, por volta de 70 a menos do que o mínimo para aprovar leis ordinárias (257) – para mudanças constitucionais, então, ele obteve apenas pouco mais da metade do necessário (342). Assim, para governar, terá que arrumar votos em partidos que não o apoiam agora, especialmente o PMDB e seus 66 votos. Imagine o que vai cu$tar em termos de cargos? Só nisso, o tal papo do “choque de gestão” irá por água abaixo.

E irá rápido, pois, para mal dos pecados aecistas, o partido que tem a maior bancada da Câmara é o PT (70 deputados). Assim, pela tradição, terá direito à presidência da Casa, cuja eleição vai ocorrer em fevereiro, na instalação da nova legislatura. Agora, pense o que é ter um oposicionista com o poder de conceder privilégios aos deputados (salas maiores, designação de viagens internacionais…) e brecar iniciativas do governo, usando o regimento e a ordem na pauta? Para evitar esse pesadelo, Aécio poderá tentar atropelar a Câmara argumentando que blocos parlamentares podem ser considerados partidos e, por isso, teriam direito à presidência da Câmara – aí ele teria maioria, pois PSDB, DEM, PPS, SD e PSB, somados, possuem 95 (sem contar o sempre adesista PSD, que conta 37). Mas, mais uma vez, a conta será enorme para uma tratorada desse nível, ainda mais com cara de crise institucional.

Mas o drama não termina na Câmara. Ele segue no Senado, onde os partidos que apoiam Aécio têm apenas 22 dos 41 votos necessários para aprovar qualquer coisa. A situação parece até pior entre os senadores porque, mesmo negociando com partidos mais adesistas, como PSD, PR e PTB, só vai chegar a 33 senadores – nem negociando o apoio do PP (citado por Paulo Roberto da Costa) , esse número ultrapassaria os 37 votos. Restaria ao mineiro ir pedir, pelo amor a Deus (e aos cargos) ajuda ao PMDB, que, além dessa posição de força, tem outra – como é o maior partido, com 18 senadores, possui o direito de eleger o presidente da Casa, que é também o do Congresso.

A oitava vítima

Ao baixar o túmulo hoje, no Cemitério de Santo Amaro, no Recife, Eduardo Campos levará junto, em seu caixão , o PSB, pelo menos esse a que existe hoje (a reencarnação pode ser teoria na religião, mas na política é fato há milênios). É muito difícil que o partido se reerga do baque que sofreu, pelo menos nas próximas décadas, isso se não for para o beleléu de vez já em 2015.

Com a escolha de Marina para suceder Eduardo na corrida ao Planalto decidida, o PSB engoliu uma pílula de veneno. A nova candidata titular, como se sabe e ela mesma já disse publicamente várias vezes, entrara no partido apenas para usar a candidatura de Eduardo Campos como “barriga de aluguel” com o objetivo de criar do seu partido, o Rede, o mais rápido possível. Nunca teve compromissos com o projeto político do PSB e não é agora que terá, diga o que disser e assine quantos documentos assinar. Quando Eduardo vivia, o partido tinha nele um líder com estatura para segurar a avidez de Marina em fazer crescer o seu Rede o mais possível. Com a morte do meu conterrâneo, nada mais a deterá.

Assim, no curso do processo eleitoral, os candidatos pessebistas verão suas campanhas perderem todas das divididas para as dos redistas. Não é preciso ser um grande conhecedor de como se passam as coisas nas ruas durante as eleições no Brasil para ver que os candidatos da Rede explorarão ao máximo a sua ligação com a candidata à Presidência que estiver na TV. O pessoal do PSB vai tentar fazer o mesmo, claro, mas, na hora do vamos ver, quem vai conseguir aquela fotinho para botar no santinho ou a imagem para passar no programa eleitoral? E não adianta dizer que o candidato a vice vai ser do PSB – vice no Brasil é nada já em condições normais e, nesse caso, é menos do que isso, já que o postulante à Vice-Presidência da República pela chapa marinista será um zé-ninguém em termos nacionais pertencente aos quadros pessebista.

Nesse cenário, Marina certamente vai jogar a Rede para fazer a maior base possível na Câmara e no Senado, de modo a depender o menos que puder do próprio PSB, do PSDB e do indefectível PMDB visando ter a base necessária para poder governar (“nova política” é conversa mole eleitoral, não é para valer, todos sabem). Quanto mais deputados e senadores eleger, mais à vontade ela ficará para dirigir o país no seu estilo personalista e messiânico, este certamente aguçado pela trágica morte do companheiro de chapa.

Marina está, pois, com a faca e o queijo nas mãos e a tábua de cortar frios em cima da mesa, mas também corre um perigo. Pelo menos em São Paulo e em Minas, estados em que a coligação PSB-Rede já ostenta uma fratura exposta, a morte de Eduardo e o desenrolar da eleição poderá fazer a situação degenerar em gangrena e ela ser “cristianizada” em prol do PSDB, que têm longas e profundas ligações com os diretórios locais do PSB. Se a coisa seguir por este caminho, até o PT poderá tirar uma casquinha do partido moribundo, já que, especialmente na cúpula, há mais sintonia com o projeto político petista, mais à esquerda, do que com o dos tucanos, à direita.

“Mas e se Marina não ganhar?”, perguntará você. Não muda muito. Ela sairá com o seu Rede formado e PT ou PSDB, quem estiver no Planalto, atrairá o que houver no PSB, graças a atração que exerce o poder. No partido, sobrará os que tiverem apoiado o derrotado, já que se é para ir para um partido que perdeu, melhor ficar no que se está. O PSB se tornará, assim, mais um resto de sigla, como é o PPS e ameaça ser – se já não o é – o DEM.

Assim, de qualquer ponto que se olhe, ao cair sobre Santos não levou apenas Eduardo Campos, mas todo o PSB para aquele grande Palácio do Planalto lá do Céu.

P.S.: Por falar na morte de Eduardo Campos, notável  a rapidez com que a grande mídia partiu para entronizar rapidamente Marina como sucessora do pernambucano na corrida presidencial. As vozes dissidentes do PSB foram caladas rapidamente e só uma possibilidade passou a ser aventada como “natural”. Uma pequena joia de fabricação de consenso, montada em grande velocidade, mostrando toda a valia da internet para operações desse tipo.

Nove-Dedos sacode o coreto via rede

A entrevista do Nove-Dedos para blogueiros de esquerda causou uma certa comoção semana passada, mas não pelo motivo que foi apontado pelos coleguinhas. Um bom exemplo dessa confusão foi a coluna de Cláudia Safatle, na edição de sexta-feira do Valor. Ela disse que a entrevista fora um retrocesso por falar da regulação da mídia e que a defesa dessa bandeira pelo N-D havia deixado de boca aberta alguns empresários graúdos da Fiesp, que acreditavam ser ela desfraldada por um ou dois assessores de Dilmão. “Mas ela é do Lula!”, teriam exclamado os poderosos senhores, espantados.

“Ma como?”, diria aquele arquetípico italiano do Bixiga. Afinal, em 2004 – ou seja, no início de sua escalada rumo ao olimpo dos mitos nacionais -, N-D tentara emplacar o Conselho Nacional de Jornalismo, a nossa versão dos conselhos que existem em todas as categorias profissionais que se dão ao respeito. A ideia foi destruída por um fogo de barragem dos barões de mídia, que, a partir daí, lhe votaram ódio imorredouro (a resposta foi o tal do mensalão, que começou em 2005 e se estende até hoje). Mais para o fim do governo, Franklin Martins, o capa-preta da Comunicação do Planalto, deixou pronta e divulgada uma proposta para a regulação, baseada nas que existem em países profundamente autoritários como sabemos que são a Inglaterra, os Estados Unidos e a França (posteriormente o trabalho foi engavetado por Dilmão, em mais um deu seus inúmeros erros políticos) – alguém aí acredita que Franklin teria montado e dado a conhecer a proposta sem o bênção de N-D?

Assim, o problema com a entrevista não foi o seu conteúdo, até porque o que ele disse – basicamente, que a mídia tradicional manipula informações para atacar petistas e proteger o PSDB e, agora, Dudu Campos – não é novidade para ninguém de tão óbvio. A questão foi, mcluhanianamente, o meio usado para divulgá-lo. Ao falar para blogueiros, Nove-Dedos indicou que a internet será o campo de batalha preferencial do PT na guerra eleitoral total que se avizinha, de modo a contornar os ataques da mídia tradicional e desmoralizá-la ainda mais (se bem que, nesse caso, será difícil fazer um trabalho melhor do que o já efetuado pelos coleguinhas que trabalham nela). Isso é o que incomodou os barões e, claro, seus coleguinhas amestrados.

Outro problema é que, ao dar a entrevista e escolher o campo em que pretende mandar a partida eleitoral, Nove-Dedos deve atrair os outros candidatos para a mesma arena. Afinal, o cara é o maior líder politico do país dos últimos 50 anos e Aécio e Dudu Campos não podem simplesmente ignorar a presença dele num espaço tão importante. Assim, mesmo entre aqueles que lhe são caros, os veículos de comunicação tendem a perder força política – e eles não estão em condições de ceder mais nenhum centigrama de seu peso político, tão mirrados já estão.

A reação dos barões não se fez esperar. Já existem pesquisas, feitas por grandes agências de comunicação e RP, que têm por objetivo claro opor a credibilidade dos meios tradicionais versus a falta dela na internet. Essa abordagem tem dois problemas. O primeiro é que usada há anos e, até o momento, não surtiu grande efeito pelo simples fato de que qualquer internauta de 10 anos sabe que não se deve acreditar em tudo o que se lê na Rede (teve até campanha sobre isso no desenho Phineas&Ferb há uns anos).

O segundo é que não ataca o centro da questão – a crescente falta de credibilidade dos meios de comunicação tradicionais. Com a prática de separar o joio do trigo informacional na internet, as pessoas passaram a usar o que aprenderam também na sua relação com os MCTs e começaram a ver que eles não são assim tão diferentes da Rede – mais sutis e habilidosos, até por contarem com profissionais muitas vezes experientes e talentosos, mas, no fundo, iguais na manipulação da informação.