A volta das numeralhas: Pesquisa Brasileira de Mídia-2016 – I

TV vai bem, obrigado. Já os impressos…

 

 

Pode confessar, não é feio: estava com saudade das tabelas e gráficos, né? Pois sua ansiedade acabou, as numeralhas de 2018 começam nesta semana com a primeira da série de análises sobre a versão 2016 da Pesquisa Brasileira de Mídia (PBM-2016). Esse tradicional levantamento, realizado pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom), sofreu modificações metodológicas importantes, levadas a cabo pelo Ibope Inteligência, a empresa responsável por ela este ano. Assim, não é possível fazer comparações com a de 2015 na maior parte das vezes. Sempre que for possível, porém, eu farei, ok?
Falando em metodologia, aqui vão as principais variáveis da amostra da pesquisa:

1. O desenho da amostra tomou por base os dados do Censo de 2010 e a PNAD de 2014.
2. Foram ouvidas 15.050 pessoas de 16 anos ou mais das cinco regiões, com a seguinte distribuição:

 

3. A divisão percentual por gênero, faixa etária, instrução e ramo de atividade foi:

Beleza. Agora, vamos à tabela e ao gráfico relativos à pesquisa em si, iniciando pela audiência geral, comparação entre os diversos meios.

 

ANÁLISE

A tabela mostra a razão numérica para algo que já estamos meio cansados de saber – algo só acontece de verdade se a televisão mostrar que aconteceu: quase dois terços da população têm no meio sua primeira opção de informação – e 90% informa-se por ela, mesmo que apresente outro meio como principal fonte de informação.

A internet se firmou de vez como segunda opção de meio de informação, sendo o primeiro para 1 em cada 4 brasileiros, e metade deles informa-se por ele, percentual importante quando observa-se que 61% da população do país acessa a rede – assim, 80% de quem acessa a internet no Brasil informa-se por ela (na TV, esse percentual chega a 93%, já que 97% dos lares brasileiros possuem aparelhos).

Os números mostram claramente que os meios impressos caminham para ser um produto de nicho no Brasil – na melhor das hipóteses – como prevê Mark Thompson, CEO do NYT, para ao mercado norte-americano. Apenas 3 em cada 100 pessoas têm nos jornais seu principal meio de informação, passando para 12 em cada 100 aqueles que se informam por eles. A situação é ainda pior para o meio revista: ninguém, termos percentuais, informa-se primariamente por ele e apenas 1% o faz.

O sempre esquecido rádio é que tem uma boa performance. Mesmo que apenas 7% tenha no meio o caminho primário de obtenção de informações, 30% o têm como meio complementar.

Os deputados e os veículos de comunicação – II (Jornal)

Vamos então à segunda parte da análise da pesquisa da FSB a respeito de como os políticos se informam e qual a influência os meios de comunicação têm sobre eles. A primeira parte da análise entrou na rede semana passada e as próximas se estenderão por mais algumas semanas (ainda não sei quantas). Esta semana veremos os dados sobre a frequência de leitura dos principais jornais pelos parlamentares e por quais canais eles os acessam com maior assiduidade.

Antes de começar, os lembretes metodológicos:

1. O universo abrange apenas os deputados federais.
2. Foram ouvidos 230 parlamentares de 26 partidos, nos dias 8 e 9 de março.
3. A escolha foi aleatória, mas observou-se a proporcionalidade das bancadas.
4. Partidos com apenas um representante não fazem parte da amostra por permitirem a identificação dos respondentes.
5. Por internet, o levantamento abrange mídias sociais, blogs e sites.
6. A pergunta sobre a leitura de jornais locais foi realizada pela primeira vez nos nove anos da pesquisa.

Vamos então ao primeiro par de gráficos e suas correspondentes análise.

relatorio_midia_e_politica_fsb_2016_10_24_II
1. A Folha é, disparado, o jornal mais consultado pelos deputados, com 15 pontos percentuais a mais que o concorrente direto mais próximo. Ponto para o marketing do jornal, que sempre insiste que não dá para não lê-lo, o que, convenhamos, não é verdade há algum tempo, pois não se tem diferenciado pela cobertura de política e economia (os dois assuntos mais importantes para os parlamentares, como veremos) da concorrência.

2. O ponto mais interessante, embora não surpreendente, deste item da pesquisa é a boa colocação dos jornais regionais. Não é possível comparar, pois foi a primeira vez que tais veículos foram inseridos no levantamento, mas, ainda assim, estar n o mesmo nível de jornais ditos nacionais como Globo e Estadão é bem significativo.

3. O Globo tem um resultado algo decepcionante, apesar de 7 em 10 deputados afirmarem que o leem regularmente. Para um jornal que se arvora como nacional não é um resultado entusiasmante, estando 19 p.p. atrás da Folha e 5 p.p. do Estadão. Explicações, que não se anulam: a) o zig-zag do jornal que, nos últimos anos, têm alternado momentos mais regionais e momentos mais nacionais; b) o fato de, nos momentos principais, tem sido apenas caixa de ressonância da TV Globo e mesmo da Época e do portal G1, perdendo, assim, um tanto da personalidade própria.

4. O Valor apresenta um desempenho razoável, com mais da metade dos deputados, lendo um jornal muito setorizado. Creio que haja espaço para crescer ainda um pouco nos próximos anos.

5. O Correio Braziliense é, dos listados, o único que aparece com menos de 50% de leitura. O desempenho é ruim, pois é o jornal de Brasília e parece indicar que, com o passar dos anos, tenda a desaparecer ou tornar-se completamente regional.

6. Essa tendência no que concerne ao Correio fica mais forte quando se observa o segundo gráfico, no qual observa-se ter havido uma queda muito grande no índice de leitura de 2015 para 2016 – na menos do que 10 pontos percentuais.

7. Folha e Globo também variaram para baixo um pouco de 2015 para 2016, mas não de maneira tão forte – Folha, de 91% para 89%; O Globo, de 73% para 70% – e o Estadão chegando a subir de 71% para 74%. O Valor manteve-se praticamente estável (54% para 55%).

 

O segundo par de gráficos é, ao meu ver, um dos mais interessantes de toda a pesquisa da FSB por trazer duas informações algo surpreendentes: queda do papel como suporte de leitura dos jornais e a ascensão dos veículos móveis, especialmente os celulares.

 

relatorio_midia_e_politica_fsb_2016_10_24_III

 

1. Os títulos dos gráficos os explicam bem, mas o que impressiona foi a queda brutal, de 29 p.p., quase um terço, da leitura em papel. Essa alteração brusca, porém, pode ter uma explicação mais prosaica que a mudança tecnológica – a presidência da Câmara, em medida de austeridade, suspendeu a entrega gratuita de assinaturas nos gabinetes das excelências.

2. De qualquer forma, o jornal impresso ainda é a forma favorita dos deputados lerem diários, com 42% da preferência, 10 p.p. acima do celular, que está em segundo com um salto de 14 p.p. de 2015 para 2016.

3. Se contarmos todos os acessos digitais, a leitura via algum dispositivo fica em 57%.

4. O segundo gráfico do par é também tremendamente interessante – e talvez mais significativo – por mostrar que o tipo de acesso muda conforme a idade, com 64% dos parlamentares abaixo de 40 anos acessando jornais por meio de celulares (nada menos que 50%) e tablets (14%), uma maioria que não ocorre em nenhuma outra faixa etária superior.

5. No entanto, se ampliarmos o acesso digital para além dos dispositivos móveis e incluirmos os computadores, apenas na faixa que vai 41 a 50 anos, os veículos impressos são lidos pela maioria dos parlamentares (53%).
Quem quiser baixar a pesquisa, pode fazê-lo clicando aqui.

Os gastos em publicidade do governo federal (2000/2015) – IV (Internet)

…E então chegamos ao quarto post da série sobre os investimentos em publicidade do governo federal de 2000 a 2015. Não faça essa cara – é uma boa notícia. Agora você só vai sofrer por mais uma semana, certo?

Só que vai sofrer um pouco mais desta vez. É que, além do tradicional combo tabela/gráfico, apresento um gráfico maneiro, que Secom foi muito boazinha de publicar, mostrando o investimento programado para o meio internet separando os grandes portais do resto. Na análise, você vai ver porque enxergar esta separação é importante.
Mas não nos precipitemos. Vamos à numeralha primeiro.

20160605_tabela_grafico_publicidade_governo_direta_indireta_internet

 

DESTAQUES

1. Maior investimento: R$ 233.965.988,68 (2015)

2. Menor investimento: R$ 16.507.469,75 (2003)

3. Variação entre o maior e menor investimento: 1317,33%

4. Variação entre 2000/2015: 1.090,22%

5. Variação entre 2014/2015: 11,64%

6. Maior variação positiva entre anos consecutivos:

a. Em termos percentuais: 4,02% pp (2014/2015)
b. Em termos absolutos: R$ 44.814.526,00 (2008/2009)

7. Maior variação negativa entre dois consecutivos:

a. Em termos percentuais: 0,15 pp (2003/2004)
b. Em termos absolutos: R$ 5.016.560,00 (2009/2010)

8.Anos dos cinco maiores investimentos: 2011, 2012, 2013, 2014 e 2015.

9.Anos dos cinco menores investimentos: 2003, 2000, 2002, 2004 e 2001.

10. Evolução dos valores programados para o meio internet (até 2012):

20160605_ Gráfico evolução dos valores programados - meio internet
ANÁLISE

Deseja ver com clareza o que levou os grandes veículos de comunicação a fazerem um pacto a fim de derrubar o projeto de país que se instalou em 2003, nem que fosse através de um golpe de estado, parlamentar ou armado? Pois é só estudar com atenção as tabelas e gráficos lá de cima em conjunto com o do item 10, e ter na cabeça a estrutura da mídia no Brasil.

O crescimento do meio internet na distribuição de verbas publicitárias federais cresceu mais de 1300% em 13 anos. Como jornais, revistas e TVs sempre consideraram as verbas de publicidade do governo federal um feudo, o avanço do novo meio, com sua capacidade de absorver tudo o que toca (atenção: vou voltar a este assunto assim que terminar esta numeralha, na semana que vem), era intolerável por atingir aquele dinheirinho certo do fim do mês.

O pior é que, como demonstra o segundo gráfico, houve mudanças importantes na distribuição de verbas no interior do próprio meio internet. Já em 2011, os grandes portais deixaram de ser a destinação principal das verbas, e, embora tenha havido uma reação em 2012, dificilmente a tendência teria mudado a ponto de a distribuição ter voltado ao que era início dos anos 2000, mesmo que, como se vê no combo tabela/gráfico 1, no período 2012/2015, tenha havido um crescimento de mais 7 pontos percentuais na distribuição das verbas para o meio.

Esta perda relativa de verbas dos grandes portais é importante porque entre eles contam gigantes pertencentes aos grupos de mídia tradicionais como UOL (Folha/Hypermarcas), Globo.com e Estadao.com concorrendo com outros pertencentes a companhias de fora do oligopólio – IG (Ongoing) e Terra (Telefônica) – e, claro os tratores Google e Facebook. Ou seja, menos dinheiro para dividir com gente muito grande, uma equação à qual as Seis Famílias que dominam a mídia no Brasil não estavam acostumadas e não gostaram nem um pouco de aprender.

É certo que a tendência de crescimento do investimento publicitário em internet deveria crescer nos próximos anos – afinal, como mostram os dados do levantamento da Secom sobre a frequência de acesso aos meios de 2015, os 12,5% destinados ao meio no ano passado estavam muito abaixo dos 37% de audiência que ele mantinha no mesmo período. E com um adendo: como mostra a tabela do link acima (você seguiu o link, né?), a maior parte dos acessos ao meio vem de gente com menos de 35 anos e que, na faixa 16-25 (ou seja, de gente que nasceu por volta do ano 2000), já está nos calcanhares da própria TV. Esta tendência, que parece irreversível, é desastrosa para o oligopólio que domina a atual estrutura de mando na mídia brasileira. Assim, não é de admirar o apoio que as Seis Famílias estão dando ao golpe parlamentar ora em curso no país.

#aGlobodeveserdestruida

Banda de patos

Não sou um grande especialista em telecomunicações como os coleguinhas Samuel Possebon, Miriam Aquino, Lia Ribeiro Dias, Luís Osvaldo Grossmann, Fernando Lauterjung ou Lúcia Berbert, mas acompanho a área, com mais ou menos afinco dependendo da época, desde fins dos anos 90 quando vi que o mestre Nilson Lage estava certo (para variar) e a comunicação (jornalismo dentro) ia ser muito influenciada – em alguns casos, guiada – pela área técnica. Por isso, depois de ler os craques acima citados e pesquisar em outras fontes, vou dar pitaco nesta questão do limite de banda internet fixa para tentar esclarecer outros pobres mortais que, como eu, não entendem tanto assim da questão.

Como se sabe, as empresas de telecomunicações que dominam 95% do mercado decidiram estabelecer a limitação de uso da banda larga nas linhas fixas – a Vivo foi a última, no dia 10, enquanto a Oi e a NET já previam esta limitação em contrato há tempos, mas juram que jamais a puseram em prática. Houve uma revolta geral, todo mundo se meteu – até a um tanto desmoralizada OAB – especialmente depois que o presidente da Anatel, João Rezende, disse que a época da internet ilimitada acabou .

A questão que está por trás desse movimento é a explosão do consumo de vídeo por meio da internet. Segundo estudo da Cisco divulgado ano passado,  80% do tráfego da internet em 2019 será de vídeo. Desse total, 66% do consumo será endereçado a dispositivos móveis (cuja banda já é limitada desde os primórdios). Este crescimento exponencial do vídeo vem dos “millenials”, que praticamente abandonaram a TV e passaram a divertir-se e informar-se por meio do You Tube  e de OTTs como Netflix, Hulu e HBO GO (sem contar que ouvem música também em streaming com Sportify, Deezer, Rdio etc, e trocam mensagens e mandam mensagens de texto, voz e vídeo por zapzap, Messenger, Telegram…).

Este é um movimento mundial, mas aqui no Brasil apresenta duas particularidades, que, juntas, deixam o consumidor brasileiro em palpos de aranha (antiga essa, hein?). A primeira, já apontei acima: há um oligopólio no fornecimento de banda larga fixa. A Anatel, como agência reguladora, em teoria, deveria ter impedido isso – SQN, pelo motivo óbvio de que os seus dirigentes foram ou serão empregados quando deixarem a autarquia, no mínimo como consultores, pelas empresas que devem controlar. Dessa forma, o que Oi, NET e Vivo disserem que é em termos de banda larga fixa é o que provavelmente vai ser.

A segunda é que os três grupos que dominam a infraestrutura de banda larga fixa são também dominantes na prestação de serviço de TV por assinatura, com 68,4% do mercado , no total. Assim, elas são concorrentes de You Tube e Netflix (e também serão da HBO GO, que está para chegar aqui) e, obviamente, têm todo o interesse em prejudicar seus concorrentes, que usam banda, ganham uma fortuna e, segundo as operadoras, não têm as mesmas obrigações tributárias que elas  – incluindo o Condecine, que a Ancine (a agência que regula a área audiovisual) está demorando éons para regular em relação às OTTs de vídeo (leia-se Netflix).

Diante desse quadro, as operadoras resolveram partir para a ignorância em cima de nós, a fim de pressionar o governo a tributar as OTTs (as que podem fazer chamadas de voz, tipo zapzap, estão dentro disso) e pressionar estas a pagar um pedágio maior do que nós, seres humanos, a fim trafegar seus pacotes de dados em seus cabos sob o argumento de que usam mais “espaço” (banda) do que nós.

E, no caso do governo, deu certo parcialmente. O governo diz que vai defender o distinto público ao exigir um “compromisso público” das teles de manterem a banda larga fixa ilimitada. Bacana, né? SQN de novo. Se você não entendeu o que Luís Osvaldo Grossmann explica, vou tentar esclarecer.

Digamos que hoje você paga R$ 200 por seu plano. Com a ideia do governo, as teles podem criar planos inferiores, com franquia, custando menos. Aí, vai acontecer uma dessas três coisas:

1. Aos poucos, que nem sapo sendo cozido em água aquecida devagarzinho, você, ao longo do tempo, pagará mais e mais para manter o seu padrão de consumo de internet e ficar vendo conteúdos pelos serviços de streaming (Netflix, HBO GO, You Tube) e mandando mensagens por zapzap, Messenger etc. Resultado: as teles ganham e você perde.

2. Você deixa de assistir conteúdos de vídeo via streaming e volta para TV por assinatura (a queda de consumidores destas é fato notório e constante há meses). Resultado: as teles ganham e você perde.

3. Serão oferecidos planos com “uso gratuito” de aplicativos, como já se faz na telefonia móvel, pois as OTT integrantes do plano pagarão por você. Resultado: a teles ganham e você perde por ter suas poder de escolha limitado.

De todas as formas, de uma maneira ou de outra, o Marco Civil da Internet, um dos melhores marcos legais de internet do mundo e que levou anos para ser construído por toda a sociedade, iria para as cucuias, especialmente seus artigos 2 (incisos III e V) e 7 .

Abre parênteses. Há uma quarta possibilidade, que pode vir em paralelo às de acima: as OTTs passam a recolher os mesmos tributos das TVs por assinatura e são obrigadas a pagar um pedágio maior para trafegar nos cabos. As OTTs precisarão repassar esse custo, claro. Resultado…Ah, você sabe. Fecha parênteses.

Agora, diante do exposto, você já viu quem vai “pagar o pato”, como diz aquela federação patronal golpista, dessa situação toda, certo?

#aGlobodeveserdestruida

Em breve, numa telinha (bem) perto de você

“O futuro não é mais o que era antigamente”. O verso de Renato Russo em “Índios” me veio à cabeça enquanto lia o relatório “TV and Media 2015” do ConsumerLab, o braço de pesquisa da Ericsson, existente há 20 anos e que, nos últimos seis, tem divulgado o estudo, no qual analisa as tendências de curto e médio prazos para a televisão. O estudo é uma sequência de notícias ruins sobre o porvir da chamada “linear TV”, ou seja, essa que gente com minha idade – e até uns 10 mais jovem – cresceu assistindo, e também a TV por assinatura.

Para não assustar muito, vou começar com as notícias boas. De acordo com o relatório do ConsumerLab, a TV linear continua sendo fundamental em boa parte dos lares dos 40 países e 15 megacidades abrangidos pelo estudo. Esse fato ocorre pela capacidade do meio de prover acesso barato a conteúdos “premium” e ao vivo, especialmente esportes, e pelo valor social, por unir as pessoas numa experiência comum (tipo comentar a novela, discutir se houve ou não roubo no gol com a mão validado por aquele ladrão etc).

Hããã…Bem, as notícias boas acabaram. Agora, vamos às más, que, de tantas, vou dividir em tópicos (e serão resumidas porque tenho mais coisas a tratar no tema – há um link para quem quiser aprofundar-se no estudo lá embaixo):

• TV linear é coisa de idoso. Oitenta e dois por cento de quem tem acima de 60 anos vê seus programas diariamente, contra 60% dos chamados “millennials”, como o estudo chama quem nasceu de 1981 até 2000 (ou seja, tem entre 16 e 34 anos).

• Dessa galera, a maioria (53%) prefere ver vídeos em telas de aparelhos móveis (notebooks, tablets e smartphones).

• Mas não só eles – de 2012 para cá, houve um incremento de 71% naqueles que veem vídeos em smartphones, quando se engloba todas as idades. Por isso, a média de horas que dispendidas assistindo vídeos em aparelhos móveis (não apenas smarts) subiu 3 horas de três anos para cá.

• Mais de 50% dos entrevistados (cerca de 100 mil, representando 1,1 bilhão de pessoas) afirmaram que assistem video on-demand pelo menos uma vez ao dia, contra 30% em 2010.

• O motivo básico (e essa é um chute no saco, desculpe o termo, na TV) é que 50% dos que assistem TV linear não encontram nada que lhes agrade para ver pelo menos uma vez ao dia – percentual que sobre 62% entre aqueles com idade entre 25 e 34 anos.

•Assim, as pessoas estimam que gastam cerca de 6 horas por semana vendo séries, filmes e programas sob demanda, contra 2,9 horas em 2011.

•Um hábito que vem crescendo incrementa essa tendência – é o “binge view”, ou seja, assistir vários capítulos de um conteúdo (quando não ele todo) direto. É um hábito dominante entre quem assina serviços de vídeo sob demanda (S-VOD), tipo Netflix (87% o fazem ao menos uma vez por semana), mas também tremendamente significativo entre quem não assina, tipo quem acessa vídeos via You Tube, Vimeo ou pirateia mesmo (74%).

• Por falar no You Tube, ele é o principal incentivador de outra linha de ataque à TV linear. Quarenta e um por cento dos consumidores de vídeo veem UGCs por meio dele ao menos uma vez ao dia, 75% ao menos uma vez por semana (27% e 59%, respectivamente, em 2011). O que é UGC? É “User Generated Content” (Conteúdo Gerado por Usuário). Ainda não ligou o nome à pessoa? São aqueles vídeos que ensinam de um tudo (de dar nó em gravata a consertar motos) e também conteúdos como este ou este outro (cuja autora é uma ex-estagiária hipertímida que, há mais ou menos um ano, tive que chamar às falas para ela cumprir a obrigação de ser repórter em pelo menos dois vídeos para a TV interna da empresa).

• E um consumidor em cada três (crescimento de 9% em um ano) acha que é importante ter acesso aos UGCs direto naquela tela grande que está na sala.

• Aliás, essa tela está cada vez mais conectada à internet – sejam smart TVs puras ou TVs comuns ligadas por meio de aparelhos como Apple TV ou Chromecast . Segundo o relatório do ConsumeLab , 64% dos que não assinam S-VODs (ou seja, na prática vê apenas You Tube, Dailymotion, Vimeo e outros) já tem uma em casa; entre os assinantes, o percentual chega a 86%.

Chega, né? Não, não chega. Tem mais nesse mês de setembro de notícias miseráveis para a TV linear. Vou dividir de novo:

1. Mentions: O Facebook liberou para jornalistas, experts e outros influencers o seu app Mentions, que permite a emissão de vídeo em tempo real (“streaming”) para dentro da plataforma. O app já estava ao alcance de algumas celebridades selecionadas, assim como serão selecionados (não se sabe sob quais critérios) os novos usuários. Essa seleção vip não deve durar muito tempo até porque, no mesmo dia (se você acredita que foi coincidência, você acredita em tudo), o Twitter lançou mais uma versão do seu Periscope, que faz exatamente mesma coisa, só que por lá e é aberto para todo mundo.

Assim, agora os coleguinhas poderão carregar sua própria emissora no bolso – ok, não é “broadcast”, mas já vai dar para alcançar uma audiência global de 1,5 bilhão – cerca de 70 milhões no Brasil (Facebook) – ou 300 milhões (twitter mundo, no Brasil, a rede não diz quantos usuários tem). Vamos combinar que não é nada mau.

2. Apple TV: Como tudo que é ruim sempre pode piorar, como dizia Vó Sinhá, piorou para a TV linear. No evento anual da empresa de Cupertino, como sempre todas as atenções estavam voltadas para as novidades dos iphones e, dessa forma, as mudanças na Apple TV não foram muito comentadas. Uma delas, no entanto, pode detonar de vez a TV linear se for seguida: a “appização” da nossa relação com o conteúdo de vídeo (é a terceira da lista) – e, na boa, por que esse modelo não se tornaria dominante? Como lembra o texto, está funcionando com a música (há dois meses, me disseram que seria legal pagar R$ 15,00/mês para ter acesso à versão premium de um app de “streaming” de música. Achei absurdo – porque eu iria querer um negócio desses se já tinha 5 mil (mesmo) músicas ao alcance das mãos? Pois este texto está sendo escrito ao som de música provida pelo Spotify ).

“E os caras da TV linear estão olhando tudo isso parados, sem reação, que nem jacaré na frente da lanterna?”, perguntará você. Bem, mais ou menos. Lá fora, o debate sobre o fim dos intermediários na relação consumidor-produtor de conteúdo (é disso de que estamos falando agora) começou (e aqui, um comentário sobre o ponto 2 acima). Já aqui, no Bananão, não tenho certeza. Pela experiência que temos com a mídia impressa, é muito provável que não. Mas essa dúvida, nós vamos tirar em breve, muito breve.

Ah, sim! O link para a apresentação do estudo do ConsumerLab que prometi.

Peneirando os meios – III

Vamos peneirar novamente os números da Pesquisa Brasileira de Mídia-2015, da Secom, dessa vez enfocando a frequência de acesso aos meios por escolaridade.

tabela frequência escolaridade 7 dias

 

gráfico frequência escolaridade 7 dias

 

 

tabela frequência escolaridade 0 dias

gráfico frequência escolaridade 0 dias

Análise

1. Não há surpresas no recorte por escolaridade. A TV mantém-se como o veículo de maior penetração em todas as faixas, embora com uma queda forte, de 11 pontos percentuais, do estrato de maior penetração (localizado entre os que estão entre a quarta e a oitava séries) e a de menor (com curso superior), indicando, assim, que os tais formadores de opinião estão se afastando do meio – ainda assim, porém, quase dois terços deles veem TV todos os dias da semana. A questão, como expus ao comentar os outros pontos do levantamento, é que não se sabe é se a definição de TV inclui os OTTs (Netflix) ou não (mas inclui a TV por assinatura, como veremos lá na frente, se tudo der certo).

2. Como acontece em outros recortes, a internet é quase o oposto da TV, mas com tintas mais fortes. A diferença de acesso entre os que chegaram apenas à quarta série é 19 pp menor do que estão na faixa imediatamente acima e astronômicos 67 pp menor do que estão no estrato com curso superior. A diferença dos que nunca acessam a Grande Rede no estrato mais baixo da amostra é 79 pp maior do que no estrato mais alto – sendo que aqueles com menor escolaridade e não acessam à internet são 40 pp acima da média Brasil. Esses números apontam para a importância do Plano Nacional de Banda Larga e da migração para TV Digital, uma importante janela para a inclusão digital no país, dada a penetração do meio TV. No entanto, governo já fraquejou diante do lobby das teles no caso da migração, podendo ter desperdiçado uma oportunidade de ouro.

3. Os jornais, como seria de esperar, são lidos com mais frequência pelos mais estudados (quatro vezes mais do que pelos menos). No entanto, sua penetração, mesmo no seu estrato mais forte, é muito baixa – apenas 15% – e, mesmo naqueles que alcançaram um nível educacional superior, 56% simplesmente não leem jornal. Esses dados podem explicar porque a capacidade de mobilização política do meio é tão reduzida, como têm demonstrado, seguidamente, as campanhas eleitorais.

4. A situação dos jornais é ruim, mas a das revistas é bem pior. Como já mostraram outros recortes, o meio revista agoniza. O percentual dos que não leem publicações do gênero chega a dois terços dos que têm nível superior – e esse é o seu melhor resultado na amostra. O percentual dos que não leem revista nunca chega a 95% entre os que chegaram apenas à quarta série – o maior percentual do levantamento computando-se todos os parâmetros. Assim, a influência das revistas na sociedade tende a ser ínfima.

5. O rádio tem uma posição sólida, segundo a PBM-2015. Pelo menos um quarto dos entrevistados com curso superior ouve rádio todos os dias, resultado que atinge pouco mais de um terço (35%) entre chegaram apenas à quarta série. No outro extremo, vai a 48% aqueles com curso superior que não escutam rádio, o que demonstra que pelo menos 52% o fazem pelo menos uma vez por semana.

Organizando as coisas

Como o Facebook não lançou ainda o Paper no Brasil – e o Flipboard, vamos encarar os fatos, ninguém leva muito a sério, infelizmente -, vou tentar dar uma organizada na bagunça que se tornaram as encarnações da Coleguinhas aqui no WP e as duas no FB (incluindo meu perfil), de modo que quem me dá a honra de acompanhar as bobagens que escrevo tenha uma visão consolidada dos assuntos que mais têm sido abordados aqui e lá:

1. Série sobre Regulação da mídia

‘Regulamentar mídia pode ser bom para liberdade de expressão’, diz enviado da ONU 

Como funciona a regulação de mídia em outros países?

Como a mídia é regulada na Suécia

2. Série “O melhor do jornalismo brasileiro é feito na Europa”

Entrevista com Jose “Pepe” Mujica

‘Maior desafio é combater preconceito contra o pobre’, diz ministra do Bolsa Família

Por que o ‘New York Times’ quer fim do embargo a Cuba?

“É incrível o que Cuba pode fazer”, diz OMS sobre ajuda contra ebola

Fortuna de super-ricos é ‘incontrolável’, diz pesquisador

Série da BBC sobre o Brasil é reconhecida em premiação internacional

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/11/141106_soccer_cities_aib_rp

‘Brasil precisa taxar ricos para investir no ensino público’, diz Piketty

3. Série “Matérias que você não vê nos veículos de comunicação brasileiros”

Número de negros em universidades brasileiras cresceu 230% na última década; veja outros dados

Brasil aumenta em 29% o número de pessoas tratadas pelo SUS com medicamentos para aids

Brasil e mais 12 países são reconhecidos pela FAO por combate à fome

“Porque eu sou negro”

4. Série do Diário do Centro do Mundo sobre a sonegação da Rede Globo (crowdfunding de que participo):

Como o processo de sonegação da Globo sumiu da Receita e sobreviveu no submundo do crime

EXCLUSIVO: a história da funcionária da Receita que sumiu com o processo de sonegação da Globo

5. Série sobre Jornalismo e Telecomunicações

Radiodifusores x Governo: a hora da volta

Telecomunicações e o jornalismo que bate à porta

 “Ó meu Deus, mais telecomunicações?!”

6. Série “De volta a 64”

Nova direita surgiu após junho, diz filósofo

Brasil vive ressaca eleitoral e não polarização política, avaliam especialistas

7. Série “A vida cruel das redações”

Folha demite Eliane Cantanhêde

Carta enviada por jornalistas do UOL à direção do portal UOL