A volta das numeralhas: Pesquisa Brasileira de Mídia-2016 – I

TV vai bem, obrigado. Já os impressos…

 

 

Pode confessar, não é feio: estava com saudade das tabelas e gráficos, né? Pois sua ansiedade acabou, as numeralhas de 2018 começam nesta semana com a primeira da série de análises sobre a versão 2016 da Pesquisa Brasileira de Mídia (PBM-2016). Esse tradicional levantamento, realizado pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom), sofreu modificações metodológicas importantes, levadas a cabo pelo Ibope Inteligência, a empresa responsável por ela este ano. Assim, não é possível fazer comparações com a de 2015 na maior parte das vezes. Sempre que for possível, porém, eu farei, ok?
Falando em metodologia, aqui vão as principais variáveis da amostra da pesquisa:

1. O desenho da amostra tomou por base os dados do Censo de 2010 e a PNAD de 2014.
2. Foram ouvidas 15.050 pessoas de 16 anos ou mais das cinco regiões, com a seguinte distribuição:

 

3. A divisão percentual por gênero, faixa etária, instrução e ramo de atividade foi:

Beleza. Agora, vamos à tabela e ao gráfico relativos à pesquisa em si, iniciando pela audiência geral, comparação entre os diversos meios.

 

ANÁLISE

A tabela mostra a razão numérica para algo que já estamos meio cansados de saber – algo só acontece de verdade se a televisão mostrar que aconteceu: quase dois terços da população têm no meio sua primeira opção de informação – e 90% informa-se por ela, mesmo que apresente outro meio como principal fonte de informação.

A internet se firmou de vez como segunda opção de meio de informação, sendo o primeiro para 1 em cada 4 brasileiros, e metade deles informa-se por ele, percentual importante quando observa-se que 61% da população do país acessa a rede – assim, 80% de quem acessa a internet no Brasil informa-se por ela (na TV, esse percentual chega a 93%, já que 97% dos lares brasileiros possuem aparelhos).

Os números mostram claramente que os meios impressos caminham para ser um produto de nicho no Brasil – na melhor das hipóteses – como prevê Mark Thompson, CEO do NYT, para ao mercado norte-americano. Apenas 3 em cada 100 pessoas têm nos jornais seu principal meio de informação, passando para 12 em cada 100 aqueles que se informam por eles. A situação é ainda pior para o meio revista: ninguém, termos percentuais, informa-se primariamente por ele e apenas 1% o faz.

O sempre esquecido rádio é que tem uma boa performance. Mesmo que apenas 7% tenha no meio o caminho primário de obtenção de informações, 30% o têm como meio complementar.

Mesmo com atraso, vamos ao Digital News Report-2017 – I

Para começar, peço desculpas pelo atraso nos comentários sobre o Digital News Report-2017, publicado pelo Reuters Institute, da Universidade de Oxford em junho. Estava entretido com os dados sobre os investimentos em publicidade da Petrobras e deixei passar. Foi mal, mas tentarei dar uma recuperada, ok? No entanto, é bom frisar que nem de perto consigo fazer um resumo do relatório inteiro – afinal, são 136 páginas, pelas quais estão distribuídos levantamentos realizados em 36 países, ouvindo 70 mil pessoas, em pesquisas quantitativas e qualitativas.

Vou começar com os itens mais gerais que me chamaram a atenção, o que deve rolar por mais uma ou duas semanas. A fim de facilitar para nós dois, usarei itens. Vamos lá então:

• O que me impactou mais foi a descoberta de que os apps de mensagem – zap à frente no Brasil – passaram ter proeminência no acesso às notícias, com 23% das pessoas em todo o mundo. Ou seja, estamos recebendo mais informações, por meio de compartilhamento de amigos, pessoalmente ou por grupos, que passam a fazer as vezes de “gatekeepers”, função que, em passado nem tão distante assim, estava concentrada nas mãos de editores de veículos de comunicação.

A situação mundial é essa:

• Dá para observar também que o crescimento do uso dos mensageiros para consumo de notícias deu uma brecada no avanço das redes sociais para o mesmo fim. Notáveis exceções foram os EUA e o Reino Unido, muito provavelmente devido à eleição presidencial no primeiro caso, e o plebiscito sobre o Brexit, no segundo.

• O Brasil foi na onda geral do crescimento dos mensageiros em cima das redes sociais. Menos 6 pontos percentuais, ficando ainda assim em 66%.

• No Brasil, o app mensageiro mais utilizado para consumo de informações é o zap, com 46% das pessoas os usando para saber das novidades (para uso geral, chega a 78%). No geral, ele fica em segundo para a rede social irmã (as duas pertencem ao Zuck, lembre), mas cresceu 7 p.p., enquanto o Face caiu 12 p.p. A situação é essa:

• Em termos de mundo, o Brasil é o segundo mercado que mais usa o zap para consumo de notícias, perdendo apenas para a Malásia (51%).

• Mas nem só de redes sociais e mensageiros vive o consumo de notícias no mundo. Como ficar pulando de um site e rede social para outro não é lá muito eficiente, os agregadores de notícias, apps como o Flipboard e o Google News, vêm crescendo, especialmente este último, como se pode ver.

• No entanto, não se engane: as mídias tradicionais têm ainda um lugar importante no consumo de notícias, especialmente entre os mais velhos, com destaque para a TV. Olha aí:

 

Conclusão:

É óbvia e já um tanto antiga: está havendo uma mudança na forma com o consumimos notícia, passando das mídias tradicionais para as mais novas, uma derivação que deve acelerar-se à medida que aqueles que hoje têm ente 18 e 34 anos forem ficando mais velhos e os mais idosos (como este que vos digita) passarem dessa para melhor.

No entanto, mesmo dentro das novas mídias, há mudanças, com os mensageiros tipo zap crescendo em cima das redes sociais (aqui, uma homenagem à visão de Mr. Zuckerberg, que comprou o zap em 2014 para se prevenir sobre isso e ajudar no processo, se fosse necessário). Isso se deve, segundo o DNR-2017, ao fato de as pessoas se sentirem mais confortáveis e seguras de compartilhar conteúdos em grupos mais homogêneos, sem tanto risco de serem alvo dos “haters” que vagam pelas redes sociais. É a formação da bolha dentro a bolha e escapando dos radares dos que pesquisam a formação de opinião.

Ainda assim, as mídias tradicionais são as fontes principais de informação, especialmente entre os mais velhos, mas que vem sendo muito atingidas pelo fenômeno das “notícias falas” (“fake news”), um dos assuntos da próxima coluna.

O investimento em publicidade da Petrobras de 2011 a 2016 – I (Geral)

Já mencionei que a Lei de Acesso à Informação é mais uma daquelas leis que ameaçam “não pegar”? Acho que sim. Realmente, não é fácil obter dados do governo federal pelo menos no que se refere à distribuição da publicidade da Administração Indireta – além da Caixa e BB, que, como bancos estão além e ao lado de qualquer lei vigente no Sudão do Oeste, até o Correio (o Correio!) resiste a abrir esses dados completos aos cidadãos. Até o momento, porém, há uma importante e grata exceção: a Petrobras.

Talvez devido aos seus recentes problemas com a lei, a petrolífera não deixou a desejar em termos de atendimento à LAI. No prazo legal de 20 dias corridos, a empresa enviou todos os dados solicitados em formato PDF – foi pedido em XLS, mas dificuldade que um programinha de conversão resolveu sem problemas –, da maneira requerida. E são esses os dados que passaremos a analisar nas próximas semanas (essa é a deixa para você cair fora e só voltar daqui a uns dois meses).

Antes de iniciar, porém, aquelas notas metodológicas, tão cabulosas quanto essenciais para você entender o que vai ler:

1. A empresa enviou dados desde 2003 (não havia dados consolidados antes deste ano), mas só usei os de 2011 para cá por que esse foi o período coberto pelos dados da Administração Direta, destrinchados recentemente.

2. Como esses mesmos dados, há uma cisão temporal. Até 2013 (inclusive), eles se referem a valores autorizados – empenhados, em burocratês -, não necessariamente realizados. De 2014 para cá, porém, estão os valores foram efetivamente executados.

3. À primeira vista, manter os dois tipos de dados juntos não seria correto. No entanto, como se verá, a análise não sofre com essa junção, pois a tendência não é afetada (com exceção de um caso), já que o fato de os valores terem sido previstos  já mostram a orientação estratégica, a intenção, de se investir neste ou naquele meio, nesta ou naquela empresa.

4. Como não pedi a relação previsto/realizado no período, não há como se ter uma ideia do percentual médio de execução orçamentária. Ano que vem (sim, vai ter essa série de análises todos os anos, lamento informar, pelo menos enquanto viger a LAI), solicitarei essa relação, mesmo não tendo muita esperança de obtê-la.

5. As conclusões políticas – de existirem – ficam por sua conta e risco, certo?

 

Então, vamos lá:

 

POR ANO

 

Análise

1. Aqui se vê que a mudança de metodologia ocorrida de 2013 para 2014 não chegou a alterar as tendências gerais. Os investimentos efetivamente realizados em 2014 foram superiores aos previstos em 2013, embora em percentual diminuto: 2,72%.

2. Nos três anos (2011-2013) que se referem aos investimentos previstos, o de 2012 foi o de maior verba empenhada, superior a 2011 em 20,66% e a 2013, em 10,04%.

3. Nos três anos seguintes, aqueles com dados sobre o investimento efetivamente realizados, aquele de maior prodigalidade da Petrobras foi o de 2014, muito provavelmente por ter sido o ano da Copa.

4. A queda do investimento em publicidade da estatal de 2014 para 2015 foi de 13%, significando, em números absolutos e redondos, R$ 37.359.208,00.

5. Já a queda de 2015 para 2016 foi de espetaculares 44,92%, um tombo que significou, em termos absolutos, R$ 112.279.158,00 – menos R$ 74.919.950,00 de um ano para outro.

6. Assim, em apenas três anos, o investimento em publicidade da Petrobras caiu à metade – mais precisamente em 52,08%. Em reais, esse percentual traduziu-se em R$ 149.638.366,00. Não foi bolinho.

 

POR MEIO

Análise

1. A Administração Direta “descobriu” a publicidade na internet em 2012, mas a Petrobras só o fez dois anos depois, possivelmente devido à Copa do Mundo: de 2013 para 2014, o crescimento de investimento no meio cresceu de 93,3% (este percentual pode ter sido até maior porque, lembre-se, o dado de 2013 é de investimento previsto, enquanto o de 2014 é de efetivamente realizado). Para o ano seguinte, novo acréscimo significativo – 55,63%. Esses dois crescimentos seguidos tornaram ainda mais dramático o tombo ocorrido de 2015 para 2016, de 45,42%. No período, tomados os anos inicial e final, o crescimento de investimentos publicitários da estatal na internet foi de 80,32% – no mínimo, devido à diferença de dados recordada acima.

2. O meio jornal teve seu momento de glória em 2014, quando obteve o maior investimento de verbas no período, indo a R$ 41.578.408,07, uma extraordinária elevação de 179,07%, que, no entanto, seguiu-se a uma retração de (-73,43%), que levou o meio a faturar em publicidade no patamar anterior e cair abaixo dele (-7,61%) no ano seguinte. Na comparação ponta a ponta, a redução foi de 31,67%.

3. Em comparação aos meios dos itens anteriores, o rádio teve seu momento um ano antes, em 2013, quando houve autorização para um investimento de R$ 10.372.644,94, 46,99% maior que o ano anterior. A partir daí, foi ladeira abaixo, chegando a meros R$ 1.275.692,42 de investimento realizado em 2016, o menor de entre todos os meios em todo o período realizado – contando recursos autorizados e efetivamente pagos – e menor 74,36% do que a verba de 2014.

4. Dos cinco meios analisados, o Revista é o mais errático e o que mostra mais claramente diferença quando se passou da apuração de dados do empenho para o investimento efetivo. De 2011 a 2013, houve um crescente pequeno, mas contínuo, da ordem de 12,23% neste subperíodo, que subitamente transformou-se numa estranha gangorra no subperíodo seguinte – em 2014, foram efetivados apenas R$ 10.505.519,26, mas, no ano seguinte houve um crescimento de 107,99% (a R$ 22.474.397,16), para, em seguida, um tombo ainda mais profundo que levou o valor a R$ 7.989.622,83 (menos 64,45% do que o ano anterior).

5. O último dos meios analisados é o amplamente dominante, a TV, mas mesmo ele passou por uma desidratação violenta das verbas publicitárias da Petrobras. Tomando-se apenas o subperíodo 2014/2016, a redução de investimento da estatal no meio foi de 51,78%, o que significou, em termos absolutos, mais de R$ 100 milhões (de R$ 210.021.695,46 para R$ 101.216.817,80). Dado o predomínio do meio, essa queda afetou profundamente o desembolso total observado lá no item 6 da análise por ano.

 

Por fim, uma geral na distribuição total de verbas no período todo, incluindo os dados de empenho e de pagamento efetivo.

 

Para surpresa de ninguém, mais de três reais em cada quatro da verba publicitária da estatal de petróleo foram direcionados à TV. A internet ainda está atrás de jornais e revistas, mas não tão atrás assim – será interessante ver se haverá alteração de posições.

Investimentos em publicidade da Administração Direta do Governo Federal (2011-2016) – VI (por meio)

Agora sim, acaba a série sobre os investimentos em publicidade da Administração Direta do Governo Federal. Neste último post, vamos ver o recorte por meio, que dá uma amarrada nos cinco anteriores. Por falar nisso, um toque: os números abaixo englobam todos os veículos e não apenas alguns como os posts anteriores (na TV, por exemplo, não conta só a Globo, Record, SBT e Band).

Bom, então vamos aos gráfico e tabela principais:

 

ANÁLISE

1. Para começar, no que diz respeito à AD do Governo Federal, o mercado publicitário pode queixar-se amargamente. Apesar do total dos investimentos ter crescido 29,98%, a inflação medida pelo IPCA foi de 51,55% – ou seja uma perda de mais de 20 pontos percentuais.

2. No entanto, dos cinco grandes meios (na contagem não entram cinema, mídia exterior e mídia alternativa, seja lá o que for essa última), três tiveram desempenho superior à inflação, sendo que a internet deu um salto triplo carpado para frente, como você pode constatar no gráfico abaixo:

3. Dá pra ver que quem realmente se deu mal no período, em termos relativos, foi o meio TV, com queda real de 2%. Os jornais também não têm do que se orgulhar, com seus 14% de crescimento.

4. Ainda assim, a TV levou mais de metade do investimento da AD do GF em publicidade em 2016 (54,99%). No entanto, não se engane, esse não foi um bom resultado, pois o meio, em 2011, tinha abocanhado 73,06% na mesma rubrica – ou seja, queda de pouco mais de 18 p.p. de participação em cinco anos.

5. O que me surpreendeu nem foi o crescimento exponencial da internet, muito condizente com a migração da publicidade para o meio, mas o das revistas, meio comprovadamente em decadência, que, ainda assim, subiu quase 40 p.p. acima da inflação no período.  A tabelinha abaixo mostra a participação de cada meio no bolo total em 2011 e em 2016:

6. Em 2017 (até maio, último dado disponível), a situação se apresentava assim:

7. Se a situação se mantiver até o fim do ano, a TV voltará ao patamar de 2011, tirando verba de todos os outros meios, como se vê na tabela abaixo, que se refere ao gráfico acima:

 

Assim, termina essa série de posts, mas não se anime muito – ela deve voltar no início do ano que vem, com os números totais de 2017. Até lá, cuidaremos de outros dados, com muitos gráficos e tabelas. Até a próxima, se Deus assim o permitir.

Os gastos em publicidade do governo federal (2000/2015) – II (Jornal)

Depois de capinar sentado na semana anterior fazendo aquela tabela gigante, base da série de colunas com os títulos acima, esta semana foi moleza, em comparação. Assim, vamos à variação dos investimentos do governo em publicidade em jornais, no período 2000/2015. Aliás, o número de colunas vai aumentar das três anteriormente planejadas para cinco, pois jornais, revistas e internet merecem análises separadas (rádio, mídia exterior e cinema ficarão juntos na última).

Antes de passarmos aos números dos jornais, porém, ainda uma palavrinha sobre a coluna da semana passada.

No item 10 dos destaques de TV (o último), pus um link para o pdf da distribuição de verbas no período estudado, por emissora. Deveria ter esmiuçado, é verdade, mas estava esgotado e sem tempo para recuperação antes da publicação da coluna, e, por isso, botei os dados brutos. Ainda assim, não custava nada seguir o atalho e olhar os números. Só que muita gente não o fez. Beleza, direito de cada um. O chato é quando isso acontece e o/a cara pergunta algo que estava no link, como ocorreu muito na fan page. Assim, meu caro, minha cara, por favor, além de ler o texto todo (são grandes, eu sei, e, ao que parece, qualquer texto maior do que três parágrafos na internet, especialmente no facebook, irrita os brasileiros, embora não os gringos), siga os links. Eles são numerosos, às vezes, mas estão ali para agregar informação importante ao texto que você está lendo, ou apenas ao seu conhecimento sobre o assunto em geral. Sobre o tal item 10, para que a preguicinha não ataque de novo, segue o pdf que botei no Slide Share.

Bem, depois do esporro, vamos aos números dos jornais (só há um link, ânimo!).

20160522_tabela_grafico_publicidade_governo_direta_indireta_jornal

DESTAQUES

1. Maior investimento: 311.792.958,50 (2000).

2. Menor investimento: 89.089.333,63 (2015).

3. Variação entre o maior  e menor investimento: – 71,4%.

4. Variação entre 2000/2015: – 71,4%.

5. Variação entre 2014/2015: -51,3%.

6. Maior variação positiva entre dois anos consecutivos: 2003/2004, 2,51 pontos percentuais em relação ao total geral (77,3% em termos absolutos).

7. Maior variação negativa entre dois anos consecutivos:

a. Em termos percentuais: 2000/2001: – 6,29% p.p.
b. Em termos absolutos: 2014/2015: -42,2%.

8. Anos dos cinco maiores investimentos: 2000, 2001, 2009, 2004 e 2005.

9. Anos dos cinco menores investimentos: 2015, 2003, 2014, 2012 e 2006.

10. Distribuição dos investimentos entre jornais de capitais e do interior.

ANÁLISE

A perda de prestígio dos veículos impressos em tempos de internet e mídias sociais refletiu-se, como não poderia deixar de ser, na distribuição de verbas publicitárias aos jornais. O meio perdeu cerca de 17 pontos percentuais em relação ao investimento total em publicidade do governo federal nos últimos 16 anos – sendo quatro deles desde 2011. Muito provavelmente por isso os veículos tenham sido tão virulentos em sua campanha contra os governos petistas, especialmente desde 2008, quando as verbas começaram a cair mais acentuadamente. Uma pesquisa acadêmica que pudesse desmentir ou confirmar a hipótese seria bem-vinda – números para embasá-la há, como se vê.

A questão é que não poderia ter sido de outra forma, pois, como apontou a pesquisa da Secom sobre o consumo de mídia pelos brasileiros,  há relativa falta de importância do jornal como veículo publicitário, dado que não conta com mais do que 7% de audiência, na média. Haveria motivo de queixa em 2015, quando o montante destinado chegou a apenas 4,8% do total, mas não antes. Reservar um percentual maior do que 7% das verbas de publicidade para jornais seria malversação dos dinheiros públicos e a imprensa é contra isso, pois não?

Aliás, a existência da pesquisa de hábitos de consumo da mídia da Secom, realizada pela primeira vez em fins de 2013 e repetida um ano depois, e que, de maneira inédita, deu ao governo federal um instrumento estatístico de análise que não viesse das mãos do próprio mercado publicitário, pode ter sido a gota que faltava para fazer transbordar o pote de mágoa das empresas de comunicação com o governo. Infelizmente, a pesquisa não foi repetida em 2015 e dificilmente o será agora no governo do Novo Brasil, o qual, entre seus primeiros atos, extinguiu a Secom.

#aGlobodeveserdestruida

Devagar, devagarinho

Como se tivessem nascido nas Alterosas, os portugueses do Ongoing vão fazendo seu prato de veículos de comunicação no Brasil. Depois de quatro jornais, cobrindo o principal do espectro jornalístico daqui (economia, classes B, C e D e esporte), os gajos compraram o iG da Oi. Faltam agora uma rádio e uma TV (que pode ser fechada mesmo). É mais complicado por necessitarem de concessão estatal, mas longe de ser impossível.

Noel, Lamartine e o jornalismo surreal

Ler os jornais brasileiros é um exercício cada vez mais surreal que anda me fazendo lembrar o grande Noel Rosa. O Gênio da Vila compôs, em 1930, em parceria com outro gigante, Lamartine Babo, “A.B.Surdo – Marcha maluca”, cujo estribilho era:

“É futurismo, menina,
É futurismo, menina,
Pois não é marcha
Nem aqui nem lá na China”

(Letra completa aqui)

Veja se não estou certo em lembrar os mestres da MPB:


Na boa, o que tem a ver trecho assinalado em vermelho com o assinalado em verde? Quer dizer se ontem fosse tudo normal na cidade, mas estourasse um transformador na esquina aqui da rua, esse fato se ligaria, por nexo de causalidade, com a questão energética nacional?

Vou tomar liberdade com Noel e Lamartine e parodiá-los:

“É primarismo, menina,
É primarismo, menina,
Pois não é jornalismo
Nem aqui nem lá na China”