Agressões a jonalistas: os coleguinhas e a ‘guerra híbrida”

Já chegamos à fase das pedradas…

“Também havia bons sujeitos no exército alemão.”
(Nílson Lage, jornalista e professor aposentado, ex-UFSC, UFF e UFRJ)

As agressões a jornalistas por parte de cidadãos têm se multiplicado nos últimos tempos, sejam eles de grandes grupos de mídia ou de organizações alternativas. Tais ataques são sempre repudiados tomando por base a liberdade de imprensa e a defesa da democracia – embora tais repúdios normalmente ocorram apenas quando as agressões e intimidações atingem profissionais da mídia “mainstream” atacados por pessoas identificadas como de esquerda e raramente, quase nunca, quando os agressores são de direita e os alvos, jornalistas da mídia alternativa.

Esse tipo de agressão não é exatamente uma novidade na história da imprensa, especialmente no Brasil. No entanto, sua crescente disseminação tem sido atribuída à “polarização” da sociedade, que faz com que os jornalistas fiquem mais expostos. Não chega a ser uma explicação errada, mas parece incompleta por não levar em conta o papel da própria mídia nesta situação “polarizada”. Uma abordagem que se pretenda mais completa deveria levar, em minha visão, em consideração um quadro maior, não restrito às fronteiras do Brasil, observando a questão sob um ângulo mundial. Partindo dessa premissa, creio que uma explicação mais abrangente deveria abarcar o conceito de “guerra híbrida.

“O consenso internacional sobre ‘guerra híbrida’ é claro: ninguém a entende, mas todos, incluindo a OTAN e União Europeia, concordam que é um problema”. Assim começa o estudo, datado de janeiro de 2017 e assinado por Patrick J.Cullen e Erik Reichborn-Kjennerud, do Instituto Norueguês de Estudos Internacionais, elaborado com colaboração de especialistas de outros 11 países-membros da OTAN (incluindo os EUA) e da União Europeia, que compõem o Multinational Capability Development Campaing (MCDC), no âmbito do Projeto de Contenção da Guerra Híbrida.

O problema de definir o que é “guerra híbrida” é que ela se caracteriza por não ser apenas levada a cabo com armas – embora o recurso a elas esteja longe de ser descartado -, mas lançando mão de uma série de ações sincronizadas “de múltiplos instrumentos de poder” usando “elementos criativos, ambíguos, não-lineares e cognitivos da guerra”. Para piorar, por apelar fortemente para elementos não-bélicos, a “guerra híbrida” pode ser travada não apenas por estados, mas “por qualquer ator que seja capaz de utilizar instrumentos de poder para explorar vulnerabilidades específicas através de toda a estrutura de uma sociedade visando atingir efeitos sinérgicos” – esta é a definição do estudo do MCDC para “guerra híbrida”, em tradução livre.

Na “guerra híbrida”, cada espaço de batalha é único e, portanto, a estratégia pensada para cada caso, desenhada de forma a aproveitar – e intensificar – as vulnerabilidades da sociedade alvo. Estas vulnerabilidades podem ser encontradas em cinco instituições de uma dada sociedade: militar, econômica, política, cívica e informacional (MPECI, na sigla em inglês). Os estrategistas de uma “guerra híbrida” devem usar quaisquer meios para, explorando fraquezas nessas dimensões, atingir um determinado fim em detrimento do estado atacado.

O MCDC em seu estudo enfoca dois casos concretos: a ação do Estado Islâmico na Síria, ente 2012 e 2014, e o da Rússia na Ucrânia, no período 2013/2015. Obviamente, não menciona os casos em que seus associados usaram a guerra híbrida contra outros estados. Assim, não fala dos ataques a Honduras (2009), ao Paraguai (2012) e aos que estão ocorrendo na Venezuela e no Brasil, todos perpetrados pelos EUA, sem mencionar as chamadas “primaveras árabes”.

O que nos interessa aqui, claro, é o nosso caso, que começou, com tem se tornado cada vez mais evidente, com as chamadas “Jornadas de Junho”, em 2013. Quem tem memória melhor pouquinha coisa há de recordar que, num primeiro momento, comentaristas do Grupo Globo atacaram as manifestações, mudando rapidamente de opinião a partir do momento em que a organização empresarial da Família Marinho passou a pautar os protestos, num roteiro que seguiu pelos anos seguintes, atingindo seu auge em 2015 e 2016, culminando com o impeachement de Dilma Rousseff, em 17 de abril de 2016, e ainda não terminado.

Aqui abro parênteses. Há a percepção, entre os que perceberam a mão da inteligência dos EUA guiando os protestos, de que eles foram montados desde o início. Embora possa ter sido realmente assim, não creio, pois os protestos contra aumentos de passagens liderados por jovens têm tradição na história urbana do Brasil do Século XX (1930, 1947, 1959, 1987). Entre os predicados exigidos por estrategistas e operadores na “guerra híbrida” é a capacidade de avaliar bem as oportunidades que se apresentam para explorar as vulnerabilidades da sociedade inimiga, e a velocidade e flexibilidade para explorá-las. Assim, o mais provável é que os operadores tenham visto nos protestos do MPL uma boa oportunidade para desfechar um ataque. Essa hipótese explicaria a súbita virada de 180 graus nas opiniões dos jornalistas do Grupo Globo sobre os conflitos. Fecha parênteses.

Os estrategistas estadunidenses, então, por meio de seus acólitos nacionais, exploraram algumas das imensas vulnerabilidades da nossa sociedade:

Militar: Os militares brasileiros possuem notória má formação intelectual que os fazem ser facilmente manipuláveis quando se agitam bandeiras como “fim da corrupção” e “perigo comunista”, esta principalmente quando empunhada pelos norte-americanos, com quem as Forças, especialmente o Exército, possuem tradição de cooperação que remonta à Segunda Guerra Mundial.
Política: O sistema político brasileiro é largamente disfuncional há muito tempo, tendo construído uma classe política que se põe distante das reais necessidades daqueles que dizem representar.
Econômica: A dependência das commodities, sejam agrícolas, sejam minerais, são um calcanhar-de-aquiles histórico da economia brasileira.
Civil: A sociedade civil brasileira, construída em torno da escravidão que durou quase 400 anos, tem fraquíssima coesão interna, sendo manipulada com facilidade, especialmente os estratos médios, do qual fazem parte os militares, considerados por seus pares como reservas morais da sociedade, e o Judiciário.
Informacional: O Brasil tem a característica de apresentar concentração midiática em mãos de apenas um conglomerado privado, o Grupo Globo. Esse poder é avassalador, pois o Grupo tem a capacidade de estar em contato diário com praticamente toda a população do país, em especial por intermédio de sua rede de televisão, o meio mais abrangente do país.

Como esta não é uma análise ampla de caso sobre a “guerra híbrida” aberta contra o Brasil, mas apenas a consequência de uma de suas facetas, vamos ficar nesta, no caso a Informacional.

A população brasileira é historicamente pouco afeita a procurar informações, preferindo recebê-las já “embaladas” e, se possível “mastigadas”. Esta característica faz dos meios eletrônicos – sejam os tradicionais rádio e TV, seja a nova internet – a fonte privilegiada por onde recebe informação, a qual consome de forma passiva (tendo uma face ativa recente na internet por meio do compartilhamento acrítico, via redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas).

O poder avassalador do Grupo Globo apontado acima, como não poderia deixar de ser, é observado também na área de jornalismo, como se pode observar abaixo, em dados do período de 16 de abril a 20 de maio, obtidos do Kantar Ibope Media:

Assim, no caso específico da sociedade brasileira, não havia arma mais poderosa do que a Rede Globo para ser usada na “guerra híbrida” contra o Brasil. E era uma arma ao alcance das mãos estadunidenses há muito tempo – afinal, o acordo com a Time-Life, dos EUA, nos anos 60, que propiciou a estruturação da empresa não poderia ser esquecido. Assim, não foi complicado para os estrategistas da “guerra” conseguirem fazer funcionar sua arma de destruição em massa mais poderosa, uma espécie de “Estrela da Morte” informacional.

Por si só, o poder quase monopolístico da Globo já traria os outros veículos para o lado dos EUA, mas havia um outro motivo. Como qualquer companhia privada de algum peso econômico no Brasil, as empresas de comunicação (incluindo o Grupo Globo) têm a maior parte de seus ganhos advindos não de sua atividade-fim, mas de aplicações financeiras . Ora, o mercado financeiro é, juntamente com as empresas de petróleo, os maiores financiadores da “guerra híbrida” levada a cabo pelos governos do Ocidente (China e Rússia têm outros tipos de financiamento, estatal). Sob a dupla pressão do monopólio da Globo e dos seus próprios interesses financeiros, os outros veículos entraram de cabeça na defesa do impeachment de Dilma Roussef.

Com tomada ostensiva de posição em favor da derrubada de Dilma, a Rede Globo (e todos os veículos que a acompanharam) romperam com o sacrossanto acordo social de que o jornalismo é o meio entre a sociedade e o poder, agindo de modo “isento, imparcial e objetivo”. Por mais que esse modo de ação seja apenas uma ilusão ideológica, ainda assim é sobre ele que se apoia a credibilidade do veículo e o respeito do cidadão aos profissionais que o representam. Quando a Globo e os outros grandes veículos quebraram esse acordo, os dois pontos se perderam.

Só isso já seria muito ruim, mas houve mais. Dilma Roussef foi identificada como a causa de todos os males econômicos e sociais que o país atravessava. Não se passou muito tempo para que a trapaça dos veículos caísse por terra – a situação, que não era boa, tornou-se trágica. Para piorar, os veículos do Grupo Globo por meio de seus profissionais mais proeminentes, como Míriam Leitão, Carlos Alberto Sardemberg, Merval Pereira, William Bonner e mais alguns, insistiram por muito tempo em defender os atos do governo de Michel Temer, mesmo aqueles que claramente mais dificultavam a vida e destruíam os direitos da população, em especial a mais pobre, como a PEC dos Gastos, a Reforma Trabalhista e Reforma da Previdência (que não passou).

Dessa forma, a frustração e a raiva cada vez maior contra um governo ilegítimo e antipopular acabou sendo carreada para aqueles que, fora dele, mais o defendiam de público – os jornalistas, em especial, claro, os do Grupo Globo e, dentro deste, os de TV. Assim, não chega a ser nenhuma surpresa que as agressões a jornalistas, em especial de TV, com maior foco ainda nos profissionais da Rede Globo, tenham se multiplicado. Mesmo sem possuir uma visão abrangente da questão, os cidadãos brasileiros, principalmente os mais politicamente engajados, mas não apenas eles, sentem que os jornalistas fazem parte de um “exército inimigo” que estão atacando seus direitos mais elementares. Pode ser que a esmagadora maioria dos profissionais não mereça esse julgamento, mas, como diz o personagem de Clint Eastwood, no faroeste os “Os imperdoáveis”, antes de fuzilar o de Gene Hackman, “merecer não tem nada a ver com isso”.

Portanto, o mais provável é que, nos próximos tempos, as agressões e intimidações contra profissionais de jornalismo durante o exercício de seu trabalho se multipliquem. E não adiantará falar de respeito à liberdade de expressão e/ou de imprensa e lembrar que é apenas um trabalhador ou mesmo que defende pessoalmente as mesmas posições do agressor, pois não é nada pessoal – apenas guerra é guerra.

Chegou a hora! Escolha a maior cascata de 2015!

Após um ano inteiro e oito seletivas, das quais participaram 38 concorrentes de altíssimo (ou baixíssimo) nível, finalmente você terá a oportunidade de escolher a maior cascata de 2015. Ela conquistará o King of the Kings, único prêmio a reconhecer os coleguinhas que, arduamente, dia a dia, se esfalfam para esculhambar o jornalismo brasileiro.
Como sempre, antes da lista das finalistas, vamos às regras, que são bem simples:

1. Você poderá escolher até 15 (quinze) concorrentes.
2. A votação terminará domingo que vem, dia 17.

Antes da apresentação oficial, uma dica da organização: normalmente, as cascatas mais recentes levam certa vantagem por estarem mais fresquinhas na cabeça. Para equilibrar um pouco, tente lembrar do impacto (ou não) que a cascata teve quando você a leu e como ela repercutiu à época.

Então (rufar de tambores!), aqui estão as finalistas do King of the Kings-2015!

  1. Corrupção desviou R$ 88 bilhões da Petrobras (Folha)
  2. Lula está com metástase (UOL)
  3. Petrobras cria empresa de fachada para construir gasoduto (O Globo)
  4. Reuters pede aprovação de FHC para publicar que a corrupção na Petrobras começou no governo dele
  5. Repórter assedia adolescente sobrinho de Lula (Veja)
  6. Manchete do Globo de 16 de março (O Globo)
  7. Coleguinhas “esquecem” de ouvir advogada da Odebrecht que encontrou ministro (Todos)
  8. Tinta vermelha de ciclovia mancha carros em São Paulo (TV Globo)
  9. Lula forçou Petrobras a patrocinar escolas de samba do Rio (Valor)
  10. Sonegação da Operação Zelotes é maior que a corrupção na Petrobras, mas mídia não está nem aí (Todos)
  11. CBN tenta culpar Haddad por denúncia sobre irmão de secretário de Alckmin
  12. Irmãos Marinho tentam mostrar que Globo não ajudou a Ditadura de 64 (Valor)
  13. Lula confessa a Mujica que sabia do Mensalão( O Globo)
  14. Ciência sem Fronteiras não paga bolsa de estudantes (TV Globo)
  15. MP investiga Lula por fazer lobby no BNDES  (Época)
  16. Carlos Alberto Sardemberg culpa Lula e Dilma pela crise da Grécia (CBN)
  17. Lula pede “habeas corpus“ para não ser preso na Operação Lava-Jato (Folha)
  18. Venezuela veta entrada de senadores brasileiros (O Globo)
  19. Romário tem conta escondida em banco suíço (Veja) 
  20. Época diz que problemas políticos de Dilma se devem à falta de sexo
  21. Lula tem tríplex no Guarujá dado por empreiteira da Lava-Jato (O Globo)
  22. Escondendo Cunha (Folha)
  23. Barriga de Lauro Jardim provoca admissão de erro do Globo na primeira página
  24. Merval prevê “caminho livre para golpe” e STF, SQN  (O Globo)
  25. Bill Gates processa a Petrobras (Vários)

Um mês só de cascatas: a 5ª seletiva do King of the Kings-2015

A ideia era dar uma parada nas cascatas e voltar aos números da PBM-2015. Só que aí pensei: “já que estou com a mão na massa, por que não promover o ‘mês da cascata´?”. Achei que era mais uma boa forma de homenagear os coleguinhas que tanto têm labutado para transformar 2015 num ano tão pródigo em armações jornalísticas, no intuito claro de desmoralizar, de modo irremediável, o jornalismo brasileiro.

Assim, eis que vamos à quinta seletiva do King of the Kings-2015! Essas são as concorrentes:

17 PMs são presos por se recusarem a bater em professor no PR  (O Estado de São Paulo)

Vazamento em fogão é confundido com “atentado” a PF (Veja)

Estado de São Paulo “acusa” Camargo Corrêa de ter doado R$ 3 milhões ao Instituto Lula

Itamaraty propõe burlar a lei para proteger Lula (O Globo)

Venezuela veta entrada de senadores brasileiros (O Globo)

Lula pede “habeas corpus“ para não ser preso na Operação Lava-Jato (Folha)

Carlos Alberto Sardemberg culpa Lula e Dilma pela crise da Grécia (CBN)

 

Lembrando as regras.
1. Você pode votar em até três (3) concorrentes. Assim, não vale a desculpa de que “são tantas que não dá para escolher”.
2. Além disso, ainda contra essa desculpa tem o fato de que três das não classificadas voltarão para a repescagem na sexta seletiva.
3. A votação termina no domingo que vem.

Então vamos lá! Vamos votar!

 

Cascata natalina

Estou eu aqui, gozando de minhas merecidas férias em Natal, quando abro o clipping do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação e me deparo com a denúncia dessa big cascata, de nível mundial, contra o governo da Venezuela. Até o Natal, pessoal? Assim não dá.

Golpe pela culatra

Ao fim e ao cabo, os presidentes do Mercosul acabaram fazendo do limão – o golpe no Paraguai – uma limonada, botando a Venezuela para dentro, uma jogada que está, hilariamente, deixando muito irritados os editorialistas dos jornais.

Vamos convir, que, nessa danças das cadeiras, o Mercosul levou vantagem. Trocou-se um país quase sem recursos naturais (o único que tem, a água, precisa dividir com os vizinhos mais poderosos), sem saída para o mar e que esteve em guerra (ou estado de) com todos os seus vizinhos nos últimos 200 anos, por um que boia em petróleo, tem saída para um oceano (Atlântico)  e um mar ( Caribe), e ainda apresenta uma hidrologia exatamente oposta aos outros parceiros (o que facilitaria em muito a interconexão elétrica de toda a América do Sul, e mesmo a Latina inteira).

Ah..Certo…Tem o Chavez… Mas, a despeito de os veículos de comunicação não acreditarem nisso, ele terá um fim – sairá do poder nem que seja morto um dia, muito provavelmente mais cedo do que se pensa. E, como lembrou Dilma, tratados são assinados com países e não com governos – além disso, quem quer seja o governante pós-Chavez, ele/ela não vai abrir não de ter acesso privilegiado a um mercado como o brasileiro, isso é certo.

Assim, as oligarquias paraguaias ao mirarem seus próprios interesses, podem ter é dado um tiro no pé e, ainda, ajudaram os seus parceiros e a inimiga Venezuela. É, a geopolítica é uma arte muito sutil.