Com vocês, o Prêmio Marcos de Castro de melhor reportagem na internet

Como quase todo brasileiro, sou muito de reclamar, mas pouco de apresentar soluções ou apontar exemplos positivos. Tentando mudar um pouco esse hábito, estou instituindo o Prêmio Marcos de Castro de melhor reportagem, com o objetivo de ser um contraponto ao tradicional King of the Kings, que há anos reconhece aqueles coleguinhas que se esforçam para avacalhar o jornalismo brasileiro por meio das cascatas mais descabeladas. O Marcos de Castro – homenagem a um dos jornalistas mais íntegros que conheci e meu mestre na arte, hoje quase perdida, de copidescar matérias jornalísticas-, porém, tem algumas regras diferentes do KofK. Vamos a elas:

1. Só concorrem matérias publicadas na internet, podendo ser em texto, vídeo ou outro tipo de narrativa. Veículos impressos, porém, estão fora. O motivo é tentar igualar os concorrentes, pois um veículo impresso denota maior capacidade econômica.

2. Pelo mesmo motivo, só entram na disputa veículos brasileiros que não tenham ligação com grupos jornalísticos, econômicos ou políticos daqui ou de fora. Poderão ter acordos de parceria para publicação de conteúdo, mas não remuneração direta. As matérias também não poderão fazer parte de projeto que tenha recebido apoio de instituições de quaisquer dos tipos citados.

3. Não há problema se os editores dos sites enviarem sugestões de matérias a serem incluídas para disputar o prêmio, dada a sua natureza positiva. Elas serão julgadas pelos leitores como as outras que vierem de outras fontes.

Espero que vocês colaborem com o Prêmio Marcos de Castro tanto quanto ajudam no King of the Kings (e, por meio deste, com Troféu Boimate, que premia a redação mais cascateira). Por fim, aviso que já estou recebendo inscrições.

“O argentino que ganhou a Copa”

Pedro Henrique Dias é o nome de batismo, mas ele se assina Díaz porque é fanático pela Argentina, em particular pelo futebol portenho. A paixão levou o carioca da Barra a correr atrás da seleção albiceleste durante a Copa de 2014 por boa parte do país com uma ideia fixa: tocar a taça quando Messi e seus companheiros estivessem dando a volta olímpica no Maracanã. Este fato pode ter acontecido em algum outro universo, não neste. Aqui, o título foi da Alemanha. Só que, ainda assim, Pedro conquistou o título e fez, sozinho, um documentário para prová-lo – incluindo como ludibriou, usando muita malandragem carioca misturada com milonga argentina, o tal “esquema de segurança padrão Fifa”. Abaixo, você pode assistir como Pedro Díaz ganhou sua Copa do Mundo.

Pintada para a guerra

Agora é que vai ficar animado. Na sexta-feira, Dilmão resolveu dar um bico na porta e oficializou algo que já dava para desconfiar ouvindo as palavras do Nove-Dedos: uma vez reeleita, ela vai meter a mão no vespeiro da distribuição de verbas publicitárias do governo federal. E ela disse isso para o outro grupo ao qual o assunto mais interessa, os blogueiros. (aqui a íntegra da entrevista) .

Obviamente, o assunto veio embrulhado pra presente, com a candidata à reeleição enfatizando que haverá uma “regulação econômica” da mídia – e não de conteúdo, deixou bem claro -, que procurará evitar a existência (ou manutenção) de monopólios e oligopólios. Dito assim, não é novidade nenhuma em termos mundiais – todos os países ditos civilizados, de uma forma ou de outra, com maior ou menor sucesso, combatem a concentração da mídia para que os seus donos não acabem mandando e modelando o Estado de acordo com seus interesses.

Aqui, no Bananão, porém, o assunto é tão tabu quanto aborto e união gay. Todo mundo foge dele como o diabo da cruz, pois temem os “barões da mídia”,no primeiro caso, tanto quanto as igrejas, no segundo. Mas, mesmo com embrulho bonitinho, o que Dilma disse, na real, foi que a distribuição da verba de publicidade vai mudar, para seguir o que o mercado tem apontado – um crescimento veloz da internet sobre os outros meios (falei disso aqui, enfocando o caso da Abril, e aqui, de maneira mais geral).

Essa mudança será trágica para os veículos. No momento, eles ainda conseguem manter-se com a cabeça fora d’água, mas a redução (não vai ser perda, será redução só) da verba publicitária do governo federal, contando aí a administração direta e a indireta, pode ser o que faltava para detonar a sobrevivência de um monte de veículos mais fracos país afora e mesmo abalar os mais fortes, a ponto de levá-los a viver num coma permanente. Pior. Ao mesmo tempo, os “barões” veriam os inimigos, especialmente os localizados na internet, fortalecerem-se. Afinal, estamos falando de nada menos de R$ 2,3 bilhões de grana investida pelo governo federal em publicidade em 2013. Não é bolinho.

Para entender bem do que estamos falando, veja aqui a distribuição das verbas, por meio, entre 2006 e 2013 – a tabela é da Secom, com dados passados pelo Instituto de Acompanhamento de Publicidade, mantido pelas agências (atenção: esses dados falam do que foi programado, mas não necessariamente realizado, ok? Ainda assim, dá uma boa ideia).  Pode ser que, lá na frente, eu volte a esses dados para analisá-los, mas, por enquanto, ficamos por aqui, porque o foco é outro, certo?

Bem….Voltando….Podemos, então, esperar uma reação furiosa dos veículos a partir deste fim de semana e que não vai parar após a eleição, se Dilmão a vencer. O pau, que já caia no lombo governamental “di cum força”, agora não apenas vai aumentar de intensidade como deixará a região lombar para ser mirado no crânio mesmo, de preferência na nuca. O objetivo não vai mais ser ferir, fazer sangrar para enfraquecer– agora, vai ser pra matar mesmo.

Mas fiquei a me perguntar: por que raios Dilma resolveu comprar a briga justo agora, a uma semana da eleição em primeiro turno? Não teria sido mais sensato ficar como até agora, olhando pro outro lado, deixando Nove-Dedos espanar, como ele tanto gosta? Cheguei a uma hipótese, que se divide em dois pontos:

1. Não sei se você sabia (eu não) que, por esse período do ano, tipo setembro, outubro, há uma pajelança em Brasília reunindo os órgãos do governo com mais verba para gastar em publicidade a fim de definir o volume da grana a ser investida no ano seguinte (com a importantíssima exceção das TVs abertas, cuja validade começa em novembro do mesmo ano). Nessa reunião, da qual participam representantes das empresas de comunicação, são apresentados os números sobre a variação da tabela da cada veículo desde a última negociação, a variação da audiência/circulação deles, e o IGPM acumulado no período. Os dados são postos na mesa e o pau come.
Minha hipótese é que Dilma resolveu avisar aos participantes deste encontro, incluindo o seu pessoal, que agora a banda vai tocar diferente e, mesmo que não se saiba qual será a música, é bom mudar o tom desde já. (Veja aqui mais informações sobre a pajelança e aqui as diretrizes gerais que devem ser alteradas, se Dilma cumprir o que prometeu ser for eleita).

2. Todo mundo sabe que, nesse momento da campanha, essas pesquisas divulgadas pelos veículos de comunicação com a frequência de um viciado em crack fumando seu cachimbo são apenas a ponta do emblemático iceberg. Pesquisas muito mais profundas, as qualitativas (“qualis” para os íntimos), são feitas com igual velocidade (fora o chamado “tracking” diário, com pesquisas por telefone). Essas “qualis” meio que escolhem o assunto sobre o qual a média das pessoas quer ouvir (e o que elas querem ouvir) e esse dado entra no cardápio do candidato.
Meu palpite, nesse caso, é que as “qualis” apontaram que o assunto regulação na mídia sensibiliza o público mais jovem, de mais alta renda e mais escolarizado, exatamente aquele que Dilma tem mais dificuldade de convencer em votar nela – as pesquisas devem ter mostrando também a maneira pelo qual ele devia ser abordado e a candidata resolveu seguir a indicação, apesar dos riscos.

Enfim, é caso para ser acompanhado com atenção, já que, mesmo com todo o poder que tem um presidente da República no Brasil, não será fácil essa guerra para Dilma (e Nove-Dedos), pois até entre seus teóricos aliados políticos deve ter gente contra, já que muitos são donos de jornais, rádios e TVs por este Brasilzão afora.

“O mercado de notícias”, Platão e o sindicato

Em cartaz nos cinemas da cidade – em dois, para ser exato, e não se sabe por quanto tempo, portanto é melhor correr – “O mercado de notícias – um documentário sobre jornalismo”, do gaúcho Jorge Furtado, premiado diretor de “Ilha das Flores”, “O homem que copiava” e outros. O filme une entrevistas com 13 nomes consagrados do jornalismo brasileiro a uma encenação, especialmente realizada para o filme, da peça com o mesmo nome, do inglês Ben Jonson, publicada em 1625 e atualíssima.

O doc é muito rico e nem vou tentar dar uma geral sobre ele – até porque você pode sacudir essa preguiça aí e ir no site da obra (http://www.omercadodenoticias.com.br) e ver por si mesmo/a -, mas o que mais me chamou a atenção, e me deu um tremendo alívio e um tanto de aflição, foi ver que mesmo luminares como Jânio de Freitas (único dentre os entrevistados com que tive o prazer e a honra de dividir uma redação), Raimundo Pereira, Mino Carta, Renata Lo Prete, Bob Fernandes, Paulo Moreira Leite, Luis Nassif e os outros, estão tão perplexos sobre o futuro da profissão quanto essa besta aqui.

As visões desses nossos coleguinhas mais proeminentes – e sua perplexidade, que fica ainda mais evidente nas entrevistas completas existentes no site – é que faz com que ver o documentário de Furtado seja fundamental para os que estão envolvidos, direta ou indiretamente, mas de maneira próxima, com este arranca-rabo sindical. Vendo o filme, firmou-se em mim a impressão, que já havia compartilhado com um conselheiro em conversa inbox, de que essa briga é um combate de sombras, uma analogia referente ao mito da caverna platônico – bolas, você sabe, viu na faculdade…Segundo Platão, vivemos num mundo que é apenas um reflexo do mundo das ideias, como se vivêssemos numa caverna e o que enxergássemos fossem apenas sombras nas paredes dela.

No caso do sindicato, acho, brigamos por uma sombra, já que o que deveria estar sendo discutido é o que é o jornalismo hoje no Brasil (e no mundo, se der tempo) e para onde ele se encaminha. Os coleguinhas que aparecem no filme estão tateando à procura da saída dessa caverna (bem, a maior parte, um ou outro parece estar bem confortável dentro do buraco) e isso é bom, mas seria melhor se todos nós fizéssemos o mesmo.

DCM e FT, só pra checar

Paulo Nogueira, do Diário do Centro do Mundo, normalmente exagera. Por isso, tenho que conferir com você: ele diz que este artigo , do Financial Times (um jornal insuspeito de apoio ao governo brasileiro), não foi reproduzido no Brasil pelos coleguinhas daqui, como sempre ocorre quando o FT baixa o cacete na política econômica. Procede?

De banda (larga) para a praia

Deixo as férias um pouco de lado para pedir que você leia isso. É cosmicamente importante estar a par. Obrigado. Vou voltar  pra praia.

Olha o Dalí!

Aproveitando a primeira tarde de férias, fui anteontem à exposição Dalí, no CCBB (é bom ir com tempo – levei uns 50 minutos só para entrar). Vale a pena. Além das obras surrealistas, há trabalhos de outras fases do artista – como aquelas do início da carreira, com influência do impressionismo, e daquelas em que se vê a de outros gigantes de seu tempo como Picasso, Cézanne e Miró – e também da fase final.

Como a ideia é mostrar como Dalí era múltiplo há também presenças dele no cinema – com direito à exibição de “Um cão andaluz” e “A idade do ouro”, colaborações com Buñuel , e da sequência do sonho de “Quando fala o coração” (“Spellbound”), de Hitchcock – e como ilustrador de obras como “Dom Quixote”, “Alice no País das Maravilhas” e “Fausto”, para mim o ponto mais surpreendente da exposição porque não só não conhecia essa faceta do artista, como pelos trabalhos em si, que são extraordinários.

Só que não há nada sem um senão, certo? Devo admitir que sou meio chato quando estou vendo obras de arte (já falei disso num post no FB) e por isso me deu nos nervos a mania do público de tirar fotos delas como se estivesse ao ar livre, num ponto turístico. É, diferente da maior parte dos museus, há permissão de fotografar, desde que seja sem flash. Sei que é um tanto (talvez muito) ranzinza, mas se o vivente fica 30 segundos diante do quadro, fotografa-o e segue em frente, como é que vai treinar o olhar e observar os detalhes da obra? E sem sacar os detalhes, como poderá fazer as inter-relações entre as diversas obras de um artista – e de artistas diversos – e mesmo fazer com que elas repercutam dentro de você, com suas vivências e conhecimentos, renovando-os? Como se pode reduzir uma obra de arte ao visor de uma câmera, por melhor que ela seja (e tinha gente no CCBB com máquinas amadoras legais)?

Com Dalí, creio, essa lacuna deve ficar ainda maior. O cara se dizia paranoico (devia ser mesmo…), mas também era obsessivo – algumas figuras e paisagens se repetem em diversos trabalhos, de várias formas. Ver como isso ocorre é mergulhar no universo de um sujeito genial e permitir com que ele mexa com o seu, fruindo uma dimensão fundamental da obra do cara. Dimensão essa sobre a qual fomos todos alertados antes de entrar na exposição: o negão cheio de estilo que recebe os visitantes para a mostra fez questão de enfatizar que Dalí tinha muito presente a ideia de que era um artista inserido numa sociedade de massas e, por isso, trabalhou sempre pensando no público. Ou seja, o coitado deve ficar possesso toda a vez que vê um mané tirar fotos um de seus de quadros sem nem olhá-los direito: “Para de fotografar, seu idiota, e presta atenção no que eu fiz! Eu é que sou o gênio por aqui! Você não é o Man Ray, animal!”, deve berrar o catalão, dando cabeçadas na lápide.

Não que nunca se deva tirar  foto de uma tela. Eu mesmo, apesar de toda a crítica, já fiz isso. Tirei, por exemplo, duas fotos das “As bodas de Caná”, de Veronese, mas só depois de admirar, por uns 10 minutos, aquele portento de 6mx9m que um monte de gente deixa de ver devido à concorrência na vizinhança – fica na parede oposta a que se encontra a “Mona Lisa”. O mesmo aconteceu com obras de Raphael, Fra Angelico, Ingres, Vermeer, Goya e vários outros: olhei o quadro com atenção por vários minutos para, só depois, tirar fotos, que, aliás, nunca revi – a contemplação faz com que a gente lembre sem precisar delas.

Enfim, toda essa peroração pentelha é para dizer o seguinte: se você for ver a exposição do Dalí, olhe os quadros. Mas olhe mesmo, com atenção, tentando desvendar o que vai diante de seus olhos, sem botar um visor na frente, por vários minutos, pelo menos. Garanto que você não vai se arrepender.