Os gastos em publicidade do governo federal (2000/2015) – IV (Internet)

…E então chegamos ao quarto post da série sobre os investimentos em publicidade do governo federal de 2000 a 2015. Não faça essa cara – é uma boa notícia. Agora você só vai sofrer por mais uma semana, certo?

Só que vai sofrer um pouco mais desta vez. É que, além do tradicional combo tabela/gráfico, apresento um gráfico maneiro, que Secom foi muito boazinha de publicar, mostrando o investimento programado para o meio internet separando os grandes portais do resto. Na análise, você vai ver porque enxergar esta separação é importante.
Mas não nos precipitemos. Vamos à numeralha primeiro.

20160605_tabela_grafico_publicidade_governo_direta_indireta_internet

 

DESTAQUES

1. Maior investimento: R$ 233.965.988,68 (2015)

2. Menor investimento: R$ 16.507.469,75 (2003)

3. Variação entre o maior e menor investimento: 1317,33%

4. Variação entre 2000/2015: 1.090,22%

5. Variação entre 2014/2015: 11,64%

6. Maior variação positiva entre anos consecutivos:

a. Em termos percentuais: 4,02% pp (2014/2015)
b. Em termos absolutos: R$ 44.814.526,00 (2008/2009)

7. Maior variação negativa entre dois consecutivos:

a. Em termos percentuais: 0,15 pp (2003/2004)
b. Em termos absolutos: R$ 5.016.560,00 (2009/2010)

8.Anos dos cinco maiores investimentos: 2011, 2012, 2013, 2014 e 2015.

9.Anos dos cinco menores investimentos: 2003, 2000, 2002, 2004 e 2001.

10. Evolução dos valores programados para o meio internet (até 2012):

20160605_ Gráfico evolução dos valores programados - meio internet
ANÁLISE

Deseja ver com clareza o que levou os grandes veículos de comunicação a fazerem um pacto a fim de derrubar o projeto de país que se instalou em 2003, nem que fosse através de um golpe de estado, parlamentar ou armado? Pois é só estudar com atenção as tabelas e gráficos lá de cima em conjunto com o do item 10, e ter na cabeça a estrutura da mídia no Brasil.

O crescimento do meio internet na distribuição de verbas publicitárias federais cresceu mais de 1300% em 13 anos. Como jornais, revistas e TVs sempre consideraram as verbas de publicidade do governo federal um feudo, o avanço do novo meio, com sua capacidade de absorver tudo o que toca (atenção: vou voltar a este assunto assim que terminar esta numeralha, na semana que vem), era intolerável por atingir aquele dinheirinho certo do fim do mês.

O pior é que, como demonstra o segundo gráfico, houve mudanças importantes na distribuição de verbas no interior do próprio meio internet. Já em 2011, os grandes portais deixaram de ser a destinação principal das verbas, e, embora tenha havido uma reação em 2012, dificilmente a tendência teria mudado a ponto de a distribuição ter voltado ao que era início dos anos 2000, mesmo que, como se vê no combo tabela/gráfico 1, no período 2012/2015, tenha havido um crescimento de mais 7 pontos percentuais na distribuição das verbas para o meio.

Esta perda relativa de verbas dos grandes portais é importante porque entre eles contam gigantes pertencentes aos grupos de mídia tradicionais como UOL (Folha/Hypermarcas), Globo.com e Estadao.com concorrendo com outros pertencentes a companhias de fora do oligopólio – IG (Ongoing) e Terra (Telefônica) – e, claro os tratores Google e Facebook. Ou seja, menos dinheiro para dividir com gente muito grande, uma equação à qual as Seis Famílias que dominam a mídia no Brasil não estavam acostumadas e não gostaram nem um pouco de aprender.

É certo que a tendência de crescimento do investimento publicitário em internet deveria crescer nos próximos anos – afinal, como mostram os dados do levantamento da Secom sobre a frequência de acesso aos meios de 2015, os 12,5% destinados ao meio no ano passado estavam muito abaixo dos 37% de audiência que ele mantinha no mesmo período. E com um adendo: como mostra a tabela do link acima (você seguiu o link, né?), a maior parte dos acessos ao meio vem de gente com menos de 35 anos e que, na faixa 16-25 (ou seja, de gente que nasceu por volta do ano 2000), já está nos calcanhares da própria TV. Esta tendência, que parece irreversível, é desastrosa para o oligopólio que domina a atual estrutura de mando na mídia brasileira. Assim, não é de admirar o apoio que as Seis Famílias estão dando ao golpe parlamentar ora em curso no país.

#aGlobodeveserdestruida

Começa a nona edição do King of the Kings!

Há semanas estou para realizar a primeira seletiva do King of the Kings-2016, mas fiquei sempre esperando a próxima cascata e… bem, elas estão vindo em tal profusão que não consigo acompanhar. Solicitei ajuda a dois amigos, mas eles também estão na batalha contra o golpe (na qual dou minha colaboração na linha TL particular do FB) e não puderam vir em meu auxílio. Assim, vou pôr em votação o que eu mesmo consegui coletar. Se você quiser me dar uma mão, envie sua colaboração para coleguinhas@protonmail.com, um e-mail de alta segurança (www.protonmail.com), encriptado usuário-a-usuário (end-to-end), que só será lido por mim (de fato, eu recomendo fortemente que você assine o protonmail, que é grátis).

O King ogf the Kings existe para reconhecer os esforços dos coleguinhas que trabalham duro para esculhambar o jornalismo brasileiro. Desde o ano passado, ele é acompanhado pelo Troféu Boimate, que premia a publicação que mais trabalhou para desmoralizar o próprio negócio. Para quem quiser sabe a origem do King of the Kings, clique aqui. Já a história do “boimate” é muito conhecida, mas se você a desconhece, clique aqui .

Ainda antes da lista, vamos às regras:

1. Você pode votar em até sete (7) concorrentes entre as 14 da lista.

2. Você ainda terá uma nova chance de votar nas sete não classificadas, pois elas voltarão para as outras seletivas (esta é uma mudança importante em relação ao ano passado, quando as não classificadas voltavam apenas na seletiva seguinte. No entanto, como a quantidade de cascatas é imensa e todas da alto/baixo nível, achei melhor estarem todas visíveis para uma melhor comparação dos eleitores).

3. A votação terminará na terça-feira, dia 12, pois estarei em viagem de férias a partir desta terça e não terei como anunciar o resultado domingo, como de praxe.

Agora sim, vamos as concorrentes:

1. Época denuncia professor francês muçulmano como terrorista mesmo ele tendo sido inocentado na França.

2.  Folha diz que Lula mandou nomear diretor da Petrobras, mas esquece que dizer que esquema na petroleira movimentara R$ 100 milhões durante governo FHC.

3. Zero Hora troca FHC por Lula em charge sobre os R$ 100 milhões em propinas.

4. Veja acusa falsamente mulher de estar envolvida na Lava-Jato.

5. Estado de São Paulo acusa Lula mencionando relatório da PF que não fala do ex-presidente.

6. Colunista do Globo ataca Lula em twitter publicado pela manhã e só se retrata de madrugada.

7. Rede Globo e Agência Lupa acusam erro de dados sobre microcefalia do Ministério da Saúde e são desmentidas por ministro e blogueiro cientista.

8. Estado de São Paulo publica como afirmação de Lula o que era uma corrente no What´s up.

9. Valor Econômico depõe a presidenta.

10. Rede Globo divulga grampo realizado ilegalmente a mando de Sérgio Moro envolvendo a presidente da República.

11. Estado de São Paulo divulga lista de apoio a Sérgio Moro com nome de 500 juízes federais, mas assinaturas eram apenas 200, nem todas de juízes federais e algumas nem eram juízes.

12. Estado de São Paulo divulga dados falsos sobre bloqueio de dinheiro por autoridades suíças, é desmentido pelo Advogado Geral do país e manipula o desmentido.

13. Veja anuncia que Lula vai pedir asilo na Itália e é desmentida pela embaixada do país.

14. Istoé afirma que presidenta está a um passo da loucura.

Peneirando a PBM-2015 (X) – Confiança, por renda, veículos tradicionais

E vamos nós para mais uma parte do escovamento da PBM-2015. Nesta semana e na próxima, prossigo com os dados e gráficos de confiança por meio, agora com recorte por faixa de renda. Hoje, veremos os meios tradicionais e, semana que vem, os de internet. Então vamos lá.

 

12_tabelas e gráficos_TV_renda
Como acontece no recorte por faixa etária, a TV não apresenta muita variação quando é olhada pela ótica da faixa de rendimentos – a variação é de 4 pontos percentuais entre a mais baixa ( menos de 1 salário mínimo) e a mais alta (mais de 5 S.M.), variando +/- 2 pp da média Brasil, de 54, na confiança. Na desconfiança, a variação é ainda menor. O problema, porém, é aquele de sempre: o índice geral de confiança está perigosamente perto dos 50%, o que é muito baixo em se tratando de credibilidade.

 

13_tabelas e gráficos_jornal_renda

Diferente da TV, o meio jornal já apresenta uma clara diferença entre os extremos da amostra. O índice de confiança dos que têm renda menos de 2 S.M. é 8 pp mais baixo do que os que percebem mais de 5 S.M. A clivagem aí é bem clara e fica na faixa de 2 S.M. Esse fato mostra porque os escândalos que os jornais destacam tão repetidamente não têm uma repercussão tão grande quando só eles os divulgam, necessitando do alcance da TV para que reverberem, apesar de, no geral, o meio ser um pouco mais bem avaliado pela população em termos de confiança do que o outro meio.

 

14_tabelas e gráficos_revista_renda

A situação do meio revista é lamentável no que se refere à credibilidade na faixa abaixo de 1 S.M. Só não chega a ser um desastre porque, como foi visto em outros pontos da PBM, esse público praticamente não lê revistas. No entanto, mesmo nos estratos superiores de renda o meio não faz bonito, não atingindo 50% de credibilidade mesmo no seu público preferencial, aquele que percebe rendimentos acima de 5 S.M – crença nele nessa faixa chega a 49%, 21 pp acima da mais baixa.

 

15_tabelas e gráficos_rádio_renda

Em termos de credibilidade, o rádio parece-se com a TV. Não há grande variação entre as faixas de renda e ela se mantém acima de 50%, mas não muito.

Novidade no KofK: premiação por equipe

Por sugestão do Alto Conselheiro, um Lorde inglês, e aproveitando o momento clima esportivo de hoje e já entrando no clima da Rio-2016, instituo o King of the Kings por equipe. O time/redação vencedora será aquela que classificar o maior número de finalistas individuais (não entrarão na contagem aquelas cascatas para as quais não se conseguiu determinar o veículo gerador ou aquelas muito espalhadas).

No momento, até a quinta seletiva, a classificação é a seguinte:

1. Globo: 4
2. Folha, TV Globo, Valor e CBN: 2
3. UOL, Reuters, Veja e Época: 1

Época vai mal das pernas

Vamos para segunda das três partes da série que enfoca o desempenho das principais revistas semanais de informação em 2014. Semana passada foi a Veja (aqui) e nessa, a Época. Em frente.

 

1. Variação de circulação – Janeiro/Dezembro 2014 – Total (Edição impressa + Edição Digital, média mensal)

Tabela/Gráfico 1

20150315_epoca_tabela_jan-dez-2014

 

20150315_epoca_grafico_circulacao_total

 

2. Variação da circulação por tipo de edição

Tabela/Gráfico 2

20150315_epoca_tabela_jan-dez-2014-por tipo de edicao

20150305_epoca_grafico_jan-dez-2014-por tipo de edicao

 

3. Variação por tipo de venda (4º trimestre)

Tabela 3

20150315_epoca_tabela_ultimo trimestre-2014

Análise

De cara, um problema com os números da semanal dos Marinho. Diferente de sua congênere dos Civita, a Época afirma que não há sobreposição entre as assinaturas digitais e as impressas. Ou seja, que quem assina a edição impressa não assina a digital e vice-versa. Isso é muito pouco provável, mesmo num universo tão pequeno de assinaturas digitais em relação ao total da circulação (0,66%). Mas é exatamente essa diminuta relação que a possível falta de precisão não afeta a análise.

Também de maneira diferente da sua principal concorrente, a Época terminou 2014 com uma circulação menor do que aquela que possuía em janeiro do ano passado, sofrendo uma queda de 4,5%, como se pode ver na tabela (e no gráfico) 1 – a Veja, como você pode recordar (e ler no link lá da abertura), cresceu 3,1% em 2014. Como foi assinalado, as assinaturas digitais são insignificantes e, assim, o problema ocorreu mesmo na edição impressa, que caiu de 394.622 exemplares em janeiro para 376.515, em dezembro, os 4,5%, como se pode ver no par tabela/gráfico 2.

A boa notícia para a Época é que, como se pode ver na tabela 3, há uma reação nas vendas avulsas, que subiram 4,11% no último trimestre, juntamente com 0,96% nas assinaturas. A reação não foi mais significativa porque as assinaturas digitais caíram 7,78%, um percentual que afetou o desempenho, mesmo com o peso insignificante da edição digital na circulação da revista.

Curiosidade. Como se pode ver no par tabela/gráfico 1, no mês de agosto houve um salto na circulação da Época, que atingiu pouco mais de 405 mil exemplares, entre as edições impressa e digital, bem acima da média de 385 mil. O fenômeno se deveu à edição 844, de 1º de agosto, que atingiu 470.709 exemplares. O assunto da capa: “Gordura sem medo” – matéria sobre como a ciência tem descoberto que, afinal, a gordura não é assim tão nociva à saúde.

Dilma, os “barões da mídia” e o dever de casa

Pouco antes do primeiro turno, Dilmão chamou blogueiros e avisou que, uma vez eleita, promoveria uma “regulação econômica” dos meios de comunicação no Brasil (aqui ). Ela se elegeu e voltou a falar no assunto, mas, como da primeira vez, não explicou o que seria essa tal de regulação econômica. Como se vê no post da época, pensei tratar-se apenas da mudança nos critérios da distribuição da publicidade do governo federal. Mas alguns movimentos do Grupo Globo (ex-Organizações Globo) me alertaram que pode ser algo mais.

A posição assumida pelo jornal da Família Marinho, com editoriais que chegaram a emular o clima beligerante das redes sociais durante os dias que antecederam ao segundo turno, me fizeram pensar: por que essa agressividade toda, que ficou ainda mais evidente porque outros diários deram um refresco e desceram, pelo menos temporariamente, do palanque tucano em que tinham subido? Só encontrei uma explicação: alguém avisou aos Marinho que a tal “regulação econômica” será um ataque direto à propriedade cruzada de veículos de comunicação.

Como você deve estar tão careca quanto eu de saber, poucos são os países do mundo que permitem que um mesmo grupo econômico tenha o controle de mais de um veículo de comunicação. Assim, uma empresa que possui TV não pode ter jornal, emissora de rádio ou revista, por exemplo. Isso ocorre, obviamente, porque uma companhia com esse acúmulo de meios teria uma vantagem imensa na concorrência por anúncios e também seria uma tremenda ameaça ao sistema político, por deter um poder gigantesco ao ser capaz de orquestrar campanhas contra pessoas ou instituições que a desagradassem. Ou seja, exatamente o que acontece com o Grupo Globo no Brasil.

Dessa forma, é muito provável que Dilmão esteja pensando em propor uma limitação a todo esse poder, proibindo a propriedade cruzada. Só que é ainda mais provável – na verdade, certo – que ela enfrentará obstáculos imensos para levar a cabo essa ação depurativa. O lamentável Eduardo Cunha, líder do PMDB na Câmara, por exemplo, já avisou que vai obstar, de todas as formas que conhecer (e ele conhece formas que até Deus duvida), qualquer regulação a respeito da mídia (o que levará a uma situação hilária, pelo menos: Jorge Bastos Moreno combater ao lado de um cara ao qual cansou de chamar de ladrão e até foi processado por isso). Na minha opinião, é batalha perdida para Dilma e os que defendem o aprofundamento da democracia no Brasil, mas que, ainda assim, precisa ser travada para que, lá frente – talvez daqui a uns 20, 30 anos –, evoluamos o suficiente politicamente para chegarmos ao ponto em que países mais civilizados estão hoje

“Então não há nada que Dilmão possa fazer contra os ‘barões da mídia?’”, perguntará você. Calma! Há sim – fazer o dever de casa. Isso quer dizer mudar os critérios de distribuição de verbas publicitárias, como disse lá em cima (para sabermos do que estamos falando, essa verba chegou, em 2013, a R$ 2,3 bilhões, segundo dados da Secom – aqui). Essa mudança é bem fácil de fazer, já que precisa apenas da caneta dela para realizá-la, basta apenas vontade política. Assim sendo, aqui vão algumas sugestões:

 

1. Regionalizar para valer: Tem havido uma regionalização na distribuição da publicidade nos últimos anos, mas ela pode avançar mais. Por exemplo, destinando metade do orçamento a veículos que tenham, no máximo, 10% de sua circulação/audiência fora do estado em que tem sede. Quem apresentasse mais do que esse percentual seria classificado como veículo nacional e disputaria apenas os outros 50% da verba. A internet, por suas características, ficaria de fora dessa restrição, mas sofreria outra: só seria considerada, para efeito de distribuição da verba para o meio, sites ou portais que não tivessem qualquer vinculação com veículos de outros meios. Dentro de cada parte – regional e nacional –, os critérios de distribuição seriam, primeiro, audiência do meio, e, depois, de cada veículo dentro do meio.

2. Limitar percentual de recebimento da verba total: Um veículo ou grupo de veículos unidos sob qualquer forma – incluindo, mas não se limitando, à participação acionária de um mesmo grupo econômico (com ou sem maioria de ações) ou afiliação de qualquer tipo – poderia receber, no máximo, 10% do total da verba de publicidade do governo federal. Pelos números de 2013, a quantia chegaria, portanto, a R$ 230 milhões, no máximo.

3. Definir que agências de publicidade que trabalhassem com contas do governo não poderiam aceitar Bônus de Volume (BV) para essas contas. O BV é uma espécie de propina, via descontos, que os veículos (ou grupos econômicos) dão às agências para que estas carreiem mais clientes (e, portanto, mais verbas) para eles.

4. Incluir a publicidade legal no bolo da publicidade total. Assim, a publicação obrigatória de editais de concorrências, por exemplo, contaria para aquele limite do item 2.

 

O governo poderia também instar a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão independente, mas ligado ao Ministério da Fazenda, a equiparar a publicação de balanços nos sites de empresas de capital aberto à publicação em  jornais. Hoje, anacronicamente, é obrigatório que balanços e demonstrações financeiras sejam publicadas em “jornais de grande circulação” para terem validade. Essa mudança na norma, inclusive, traria uma grande economia às empresas de capital aberto, que gastam uma grana enorme apenas para publicar balanços em jornais, que, usando da obrigatoriedade, sempre cobram “tabela cheia”, sem descontos.

Essas providências – e, certamente, muitas outras que não pensei – poderiam, se não acabar com o oligopólio dos meios de comunicação hoje vigente no Brasil, pelo menos permitir que mais vozes possam ser ouvidas, avançando no caminho para uma democracia realmente plural. Fazendo isso, Dilmão estaria apenas cumprindo a Constituição, em seus artigos 220 e 221 (aqui).

 

P.S.: Você acha que estou sendo radical na questão da distribuição de verbas publicitárias do governo? Então veja o que o insuspeito Fernando Rodrigues, grande nome da Folha e que mora no coração de Otávio Frias Filho, falou em seu depoimento ao ótimo doc “O mercado de notícias”, de Jorge Furtado (aqui, a partir de 54min27). Ele é simplesmente contra a publicidade oficial, de qualquer governo, sob qualquer forma.

Ok, dá pra nota no depoimento, que ele é contra muito por esta verba ajudar a manter veículos regionais e blogs que, pelo menos em teoria, podem contrapor-se às narrativas dos grandes meios de comunicação pertencentes às famílias que dominam o setor de mídia no Brasil, os Frias entre elas. Também não explica o que faria o governo para divulgar campanhas de utilidade pública (vacinação, direitos do cidadão) ou estatais para concorrer em setores em que empresas privadas podem anunciar livremente (finanças e combustíveis, por exemplo). De qualquer maneira, as ideias dele valem uma reflexão, até mesmo para explicitar o que se esconde sob a roupagem da tal independência jornalística.

Gaza, as redes sociais e o futuro dos meios tradicionais

O enésimo massacre em Gaza apresenta algo diferente no front: as redes sociais. Por meio delas, os israelenses estão sendo pressionados como nunca antes, quando sempre contaram com um quase silêncio cúmplice dos meios de comunicação tradicionais. Essa mudança é analisada aqui por um coleguinha do Channel 4 e levanta questões sobre o futuro reservado a esses meios: estarão eles destinados a serem apenas checadores de informações veiculadas nas mídias sociais (como aqui) ou há esperança de que possam trazer para dentro de sua cadeia produtiva essa nova força, como especula o newsosaur Alan D. Mutter aqui?

Gracias ao amigo luso-brasileiro, professor Luiz Carlos Mansur, pelas dicas inglesas.