Mapa do Tesouro 2 – Onde encontrar mais jornalismo de qualidade na internet

Cento de dezessete compartilhamentos, 259 reações, 14.991 pessoas alcançadas. Caramba, sabia que a galera estava sedenta de jornalismo de qualidade, mas só tive ideia de quanto ao publicar, antes de sair de férias, post com uma lista personalíssima de sites que considero fazer um bom trabalho em Bruzundanga-Bananão e ter o retorno citado. Diante da resposta, e também por ter lembrado de um monte de outros sites legais, publico o Mapa do Tesouro 2. Como o primeiro, é muito pessoal, de sites que curto e/ou acho importantes, e por isso não vai ser completo nunca e não agradará a todos. Espero mesmo que você faça a sua lista – e se quiser compartilhar comigo, ficarei feliz e honrado.

Então, vamos lá.
Geledés: Ser negro no Brasil é terrível, mas tem coisa pior: ser mulher negra. Daí a importância do Geledés Instituto da Mulher Negra, entidade que existe fará 29 anos em abril próximo e tem como foco principal (mas não único) as questões que tocam esta parcela da sociedade daqui.

Ponte Jornalismo: É tiro, porrada e bomba. Não podia ser diferente num veículo especializado em cobrir segurança pública, direitos humanos e justiça em Bruzundanga-Bananão. Seu enorme time de jornalistas e colaboradores de diversas áreas produz matérias a respeito de assuntos que a grande imprensa hegemônica (ou grande, ou corporativa, nunca sei como tratar…Mas você entendeu) prefere ignorar – e, quando não o faz, prefere o viés criminalizante. A Ponte tem uma parceria forte com o site da Carta Capital, revista que lhe publica o conteúdo, num modelo que devia ser explicado no site de ambos.

Consultor Jurídico: Em 2010, segundo a OAB, Bruzundanga-Bananão tinha 1.240 cursos de direito contra 1.100 de todos os outros países do mundo somados e embolados. Assim, não é de admirar que haja um monte de sites (sem falar de blogs) sobre Direito. O mais antigo é o veteraníssimo Consultor Jurídico, que a Dublê Editorial mantém na rede desde 1997 (só um ano mais novo que a Coleguinhas, portanto), tendo construído grande credibilidade durante esses 20 anos e também desenvolvido os Anuários de Justiça cujo foco são tribunais superiores (STF, STJ, TST, TSE e STM), na Justiça Federal, Tribunais Regionais do Trabalho e na Justiça Estadual (TJ-SP, TJ-RJ, TJ-MG e TJ-RS).

Jota: Criado por seis jornalistas e um engenheiro de telecomunicações, é o mais diversificado nos serviços que oferece, indo da simples assinatura até cobertura de fusões e análise de riscos.

Justificando: O slogan é “mentes inquietas pensam Direito” e por isso é o único que não usa terno e gravata todo o tempo, apresentando vídeos bem-humorados no “Explica aí” e no “Coisas que você precisa saber”. Tem parceria com a Carta Capital, como a Ponte, com quem forma uma boa dupla para aqueles que pretendem ter uma visão ampla da Justiça em Bruzundanga-Bananão.

Congresso em Foco: Escrevi (no primeiro Mapa do Tesouro) que sites políticos não entravam na lista. Isso queria dizer sites com viés para um lado do espectro político. Não é o caso do Congresso em Foco. Na rede desde fevereiro de 2004, é o mais antigo dos sites que focalizam o dia a dia da política de Bruzundanga-Bananão. É tão conceituado que o prêmio que distribui anualmente como reconhecimento aos parlamentares que honram os votos que receberam é colocado no currículo dos vencedores. Vive de anúncios e de assinaturas, as quais dão direito à revista, em versões impressa e digital, que começou a circular em 2011.

Poder360: Reivindica o título de “operação jornalística nativa digital sobre política e assuntos do poder mais antiga em atividade contínua na internet brasileira”, por ter entrado em rede em 18 de abril de 2000. É uma afirmação discutível, já que era apenas uma página de política escrita pelo megapremiado (e, às vezes, polêmico) Fernando Rodrigues, hoje diretor de redação. Como Poder360 mesmo, não tem nem um ano (passou a ter este nome em novembro passado). A par disso, é um site que procura enfocar mais a análise da política, embora também cubra o dia a dia do Congresso, uma linha que parece ser mais forte ainda no serviço Drive Premium, voltado para empresas. (Aviso: o editor, Tales Faria, é amigo de quase 30 anos).

Os Divergentes: Tales também faz parte deste interessante…hããã…”blog coletivo”?… Bem, seja o que for reúne outros quatro jornalistas com larga quilometragem na cobertura de política – Andrei Meireles, Helena Chagas, Ivanir José Bortot e Orlando Brito. A análise é a força quase exclusiva deste site, cuja apresentação é hilária.

Farol Reportagem: Como a Agência Sportlight, do Lúcio de Castro (citado no Mapa do Tesouro 1), é veículo de um homem só, no caso Lúcio Lambranho, catarinense que trabalhou em Brasília (inclusive no Congresso em Foco), e resolveu voltar pra terrinha. O foco é Santa Catarina, mas, às vezes, espraia para o âmbito nacional. O site foi indicado pela leitora Andréa Lenora, de Floripa. Muito legal isso e dou força para você fazer o mesmo – mande uma sugestão que eu dou uma olhada e se achar que vale, boto numa futura lista. Não tem garantia de aparecer numa, mas que vou lá, vou.

Farol Jornalismo: Seguindo fachos de farol, damos com este aqui. Só que não é site, é uma newsletter semanal editada pelo casal Marcela Donini e Moreno Osório, cujo foco total é especular e analisar os caminhos do jornalismo – até porque Marcela e Moreno são jornalistas intelectuais mesmo, professores e tudo o mais. Sou assinante antigo e cocei o bolso para ajudá-los a manter o bom (e praticamente único por aqui) trabalho.

Objethos: Já que entrei na seara dos jornalistas intelectuais falo deste site, formado exclusivamente por pesquisadores das federais de Santa Catarina (onde surgiu, no departamento de Jornalismo, claro), Paraná e Fluminense (Niterói). O foco absoluto é a ética jornalística e faz parte da Rede Nacional de Observatórios (Renoi), que, para falar a verdade, não tinha a menor ideia que existia e parece mortinha, já que as últimas postagens são de 2013. Aviso: uma das pesquisadoras associadas é Sylvia Moretzohn, amiga de 30 anos.

Observatório da Imprensa: Falar de observatório e jornalismo tem que falar do dinossáurico OI – surgiu em abril de 96, mês e pouco antes da Coleguinhas, tendo ainda uma versão impressa na época. Dirigido pela lenda do jornalismo brasileiro Alberto Dines, tem o apoio do Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo e projeto original do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mas andou malzinho das pernas, tendo que fazer um crowdfunding para se manter (colaborei e até ganhei camiseta). Ao que parece, porém, já está em forma de novo, apesar de, devido à mudança nos ventos políticos, tenha sido banido da EBC, tanto na TV quanto no rádio. Aviso: a chefe de redação do programa de TV era Emília Ferraz, amiga de…Ah! Você já sabe de quanto tempo.

Vamos falar de financiamento ao bom jornalismo?

Me dá uma mão?

Me dá uma mãozinha?

 

Vou dar uma paradinha na análise dos dados da pesquisa da FSB sobre o consumo de mídia dos deputados federais para falar sobre um assunto que tem me incomodado nas últimas semanas: como financiar o bom jornalismo.

Não creio que haja mais dúvidas sérias de que a chamada mídia corporativa no Brasil chegou a um estado tal que só resta botar os gatos para jogar terra em cima e esquecer. Simplesmente não quer acompanhar o que se passa no país no momento em que ele caminha, decidido, para o brejo. E não quer por ter vendido seu negócio por um punhado de reais a mais do governo golpista, como fez a Folha (mas não só ela). Acabou como fonte confiável para o cidadão. Foi.

Há muita gente boa que acredita que esse fato não é problema delas – “Posso viver sem jornalismo. Não muda nada na minha vida”, pensam. No entanto, a não ser que se resida num atol do Oceano Pacífico, numa escarpa entre o Butão e o Nepal, numa brenha da Amazônia ou em algum ermo semelhante, infelizmente essa independência é impossível (ao menos, indesejável). Habitando em qualquer lugar influenciado diretamente pelo que hoje entendemos por civilização é fundamental – só para ficar em dois exemplos -, ter acesso a matérias como essa para ter uma ideia do que pode acontecer com seu emprego e o que fazer com suas economias para a aposentadoria, ou essa, para estar atento ao que pensa a geração de seus filhos.

Só que é aquela coisa – não há almoço grátis, como dizia o zura do tio Milton. E nem bom jornalismo, acrescento eu. Dessa forma, temos de meter a mão no buraco do pano se quisermos ter alguém apurando matérias que nos façam pensar, ter uma visão multifacetada da realidade e nos ajude a descobrir o sentido possível num mundo cuja normalidade é o caos. Ok, está ruim para todo mundo, estou sabendo. Mas há maneiras de ajudar ainda assim, creio. Sem pretensão de apresentar uma resposta (o que, no meu caso, marrento que sou, é algo incrivelmente raro), dou meu exemplo de como lido com a situação.

Como não sou exatamente um cara que nada em dinheiro, estabeleci um teto anual, para 2016, de R$ 120,00 para minhas contribuições para cada veículo. É pouquinho, 10 “real” por mês para cada um, por que resolvi pulverizar a contribuições (você pode concentrá-las), contando que, além das assinaturas, os veículos arranjem outras formas de se manter (campanhas de crowdfunding especiais, patrocínios, investimentos de agências internacionais e até mesmo publicidade selecionada). Acredito que as contribuições podem dar um suporte mínimo, pagar uns 50% das contas (incluindo salários razoáveis), e não resolver o problema de sustentabilidade por si sós.

Na prática? Bem, a lista dos veículos dos quais sou assinante atualmente: AzMina, #Colabora, GGN, Nexo e Outras Palavras. Participei ainda de projetos de crowdfunding (aí com contribuições bem variáveis) de: Agência Pública, DCM, Farol do Jornalismo (newsletter semanal) e Observatório da Imprensa. Como dá pra ver, não sou o Pierre Omidyar e não vou construir nenhuma First Look Media, tento fazendo um favor a mim mesmo ao procurar manter o que resta de bom jornalismo aqui no Bananão. Humildemente, sugiro que você pense a respeito de fazer o mesmo.

P.S.: Segue os links, tá?

 

Muito, muito além dos impressos

Essa vai ser uma coluna extensa. talvez não pelo que está escrito –  só vou saber se por isso também quando acabar de escrevê-la -, mas pelo vídeo abaixo – no qual faço uma aparição-relâmpago – que, espero, você verá (a partir dos 5:40 segundos), pois é a partir dele que o texto de estrutura. Então, vamos lá assistir ao Observatório da Imprensa levado ao ar no 15 de setembro.

 


Viu? Bom. Apesar do altíssimo nível dos debatedores, ficou-me a sensação de que toda a discussão está mal endereçada (muito devido ao mediador Alberto Dines). Os quatro, em maior ou menor grau, falam do jornalismo como se os veículos impressos tivessem um futuro viável. Infelizmente (para quem gosta da “sensação tátil” de jornais e revistas) isso não é verdade. O jornalismo impresso não vai acabar de vez, mas vai se tornar, pouco a pouco (ou, mais provável, muito a muito) um nicho – da mesma forma que a invenção da imprensa não acabou imediatamente com a produção de iluminuras, que só desapareceram (será? De repente, tem gente ainda fazendo por aí) um ou dois séculos depois de Gutemberg ter dado a luz a sua Bíblia.

Esse fato já está acontecendo em centros um pouco mais avançados na adoção da internet e seu filhote caçula e mais dileto, o dispositivo móvel. Em artigo de fins de 2013, o “newssosaur” Alan D.Mutter mostrava como estava a situação dos impressos nos Estados Unidos há dois anos, quando a circulação dos jornais baixou ao nível dos anos 40. Uma situação que tem se tornado realidade aqui, como demonstra a queda de circulação dos jornais da Infoglobo, que publiquei há duas semanas.

Essa decadência dos impressos será acelerada com o avanço das megaempresas de internet sobre seu mercado antes cativo. Semana passada, já tinha tocado no Mentions, o app do Facebook que permite aos jornalistas enviarem vídeos em tempo real para a plataforma, como o Periscope, do Twitter (com sua versão nova, com visão horizontal). Pois na semana passada, Mr. Zuckerberg lançou o Signal, app que ajuda os coleguinhas (e outros trabalhadores em mídia digital) a descobrir o que está rolando de quente na plataforma e usar as informações não só como pauta, como também como fonte de dados. Essa é a diferença entre o Signal e os “trending topics” twitterianos, que não podem ser gravados para uso posterior (até mesmo em veículos impressos, ora veja). Como no caso do Mentions, só quem for reconhecido como jornalista pelo FB (é uma espécie de diploma concedido sem estudo ou registro, né?) poderá acessar o Signal.

Diante da agitação do FB, a Apple houve por bem meter a sua colher neste pirão e lançou o News, um agregador de conteúdo, como o bom e velho Flipboard. É uma força a mais para que os “publishers” passem a usar a mídia digital em vez da impressa. Maquiavelicamente, a Apple também passou a permitir bloqueadores de anúncios no Safari, o browser nativo do iOS, o que detona a maior forma de descolar grana dos veículos, o quais, no entanto, entram nessa como ‘dano colateral” – o alvo mesmo é o Google e seus anúncios. “Sorry, baby”, mas para conseguir algum dinheiro dos usuários de iphone/ipad de volta você, “publisher”, terá que trabalhar dentro do News, onde poderá apresentar seus anúncios sem serem bloqqueados pela módica de porcentagem de 30%. Salgado? Então tente o Instant Article do FB, que nada cobra de anúncios (ainda).

Enfim…Você entendeu, certo? A discussão sobre o jornalismo inclui até o impresso, sem dúvida, mas vai muito, muito além. E já está mais do que na hora de nós, jornalistas que trabalham no Bananão, entrar nela sob uma perspectiva mais abrangente.