Digital News Report – 2017 (III): Brasil

A última coluna da série sobre o Digital News Report-2017 enfoca a análise do Brasil, de autoria do jornalista Rodrigo Carro. Ela mostra que as redes sociais perderam participação no que se refere ao seu uso como canal de consumo de notícias, mas, ainda assim, o consumo on line de notícias supera a TV. Constatação: dessa disputa para saber qual o meio pelo qual os brasileiros mais acessam notícias, jornais e revistas estão definitivamente alijados.

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O motivo para que, mesmo com a redução da participação das redes sociais no acesso às notícias (já mencionada em outra coluna que abordou o DNR-2017), os brasileiros continuem a saber delas mais pela internet do que por meio da TV – que está em 97% dos domicílios do país, contra 63% da internet – é que o número de casas com pelo menos uma pessoa com celular chegou a 92,1% e este aparelho passou a ser o mais usado para saber do que vai pelo mundo.

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Paralelamente, o what’s up tornou-se muito importante na vida das pessoas, incluindo aí no ato de consumir notícias, principalmente depois que as operadoras – atropelando o Marco Civil da Internet – passaram a usar o “zero rating”, ou seja a franquia total de dados, para o mensageiro. Dessa forma, o consumo de notícias por meio do zap cresceu 7 pontos percentuais em um ano, contra queda de 12 p.p. do Facebook.

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Agora a boa notícia para os meios tradicionais: os brasileiros ainda confiam neles. Nada menos do que 60% acreditam nas notícias que leem, ouvem ou veem, percentual igual ao dos que acreditam nos veículos pelos quais acessam as novas.

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Por fim, o DNR-2017 confirmou a característica maior do ecossistema midiático no Brasil: a concentração nas mãos do Grupo Globo. O gráfico mostra que o grupo dos Marinho lidera com folga entre os meios tradicionais, com a TV (aberta mais paga) e fica com o segundo e o terceiro lugares nos on line.

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CONCLUSÕES
A maior novidade do DNR-2017 em relação ao 2016 a liderança do celular como meio on line de acesso às notícias, superando o desktop/notebook. Estre fato manteve o modo on line na liderança sobre a TV,  mesmo com a queda do acesso via redes sociais. De resto, nenhuma novidade n o que se refere à credulidade dos brasileiros em se tratando de mídia e no domínio acachapante do Grupo Globo no setor. E também uma constatação que explica a fonte imensa do poder dos Marinho: as pessoas acreditam nas notícias que leem, veem ou ouvem dos veículos que acessam normalmente.

A volta e a volta do JB

Não sou lá muito esperto e não há muito o que eu possa fazer diante dessa predisposição genética, ainda mais agora que estou idoso. Assim, não cheguei a me surpreender por não ter entendido quando, há mais ou menos um mês, Osmar Resende Peres Filho adquiriu o título o Jornal do Brasil, que pertencia a Nelson Tanure desde 2000, e, no embalo, anunciou que ele voltaria às bancas, deixando de ser apenas digital, como ocorre desde 2010.

A minha incompreensão nem era tanto por Catito, como é conhecido, ir contra a corrente e voltar ao mundo impresso quando, dizem os sábios, o caminho rumo ao digital é inexorável. Afinal, se você organizar a coisa direito, o digital amplia o alcance do impresso, que nem precisa ter uma tiragem enorme para atingir um público grande. O problema era o porquê um cara do ramo de restaurantes (Fiorentina e Bar Lagoa, no Rio, Piantella, em BSB) iria voltar ao jornalismo com uma operação tão arriscada. Sim, voltar porque Resende Peres Filho já foi dono da TV Panorama, afiliada da Globo em Juiz de Fora, onde possuía a rádio do mesmo nome, e ainda tivera uma passagem-relâmpago pelo Jornal do Sports (mas não rápida o suficiente para evitar ser processado na Justiça do Trabalho).

Ainda bem, porém, que há gente realmente esperta nesse mundo. Sobraram até algumas no jornalismo, como é o caso de Consuelo Diegues, da Piauí. Um tempo para você ler a matéria assinada por ela, que nem é extensa, para os padrões da revista do João Moreira Salles. 1, 2, 3…..

Leu? Então sacou, como eu, é que o “revival” do ex-“jornal da Condessa” às bancas é, na verdade, uma volta do Tanure na Anatel, jogada para poder sentar à mesa de controle da Oi. Um lugar bem amplo, pois, diferente do que está na matéria da Consuelo, Tanure não seria mais dono de apenas 7% das ações de tele, mas de algo entre 22% e 25%, contando suas participações em outras fontes, também acionistas da companhia.

“Ok, mas por que raios o Tanure quer tanto ser influente numa empresa que deve R$ 65 bilhões a mais de 60 mil pessoas físicas e jurídicas?”, perguntará você, com toda a razão. A explicação para o aparente contrassenso está no PLC 79/2016, aquele que, dizem muitos, daria de presente R$ 100 bilhões em bens de telecomunicação da União às teles. Estes seriam bens que retornariam à União em 2025, para a realização de novo leilão. Há dúvidas bem razoáveis de que o valor desses bens seja mesmo de R$ 100 bi – as teles dizem que é de algo em torno de R$ 20 bilhões. O projeto de lei já tinha sido aprovado no Congresso e esperava apenas a sanção de #foraTemer quando foi paralisado por um liminar e retornou ao Senado, cujo então presidente, Renan Calheiros, bateu o pé e diz que agora só entraria em pauta quando o STF definir-se sobre o mérito da ação proposta pela oposição contra o PLC, o que não tem data para acontecer.

Enrolado, né? Mas nada que assuste Tanure (ou Catito), gente muito bem relacionada que conhece bem os bastidores da política (Resende Peres Filho foi secretário de Indústria e Comércio na gestão de Itamar Franco em Minas e candidato ao Senado pelo PDT, em 2006). Tanure aposta que, uma hora, a Oi vai dar um tremendo retorno, mesmo sem o PLC – a companhia é peça-chave nas telecomunicações do país, “grande demais para quebrar”, e, assim, mais dia, menos dia, o governo terá que ajudá-la a sair do buraco, o que a valorizaria. Aposta arriscada, claro, mas os ganhos compensam os riscos, na avaliação dos jogadores.

Como se vê, o JB velho de guerra é apenas uma peça, e não tão importante assim, num jogo muito, muito maior, que nada tem a ver com jornalismo.

Banda de patos

Não sou um grande especialista em telecomunicações como os coleguinhas Samuel Possebon, Miriam Aquino, Lia Ribeiro Dias, Luís Osvaldo Grossmann, Fernando Lauterjung ou Lúcia Berbert, mas acompanho a área, com mais ou menos afinco dependendo da época, desde fins dos anos 90 quando vi que o mestre Nilson Lage estava certo (para variar) e a comunicação (jornalismo dentro) ia ser muito influenciada – em alguns casos, guiada – pela área técnica. Por isso, depois de ler os craques acima citados e pesquisar em outras fontes, vou dar pitaco nesta questão do limite de banda internet fixa para tentar esclarecer outros pobres mortais que, como eu, não entendem tanto assim da questão.

Como se sabe, as empresas de telecomunicações que dominam 95% do mercado decidiram estabelecer a limitação de uso da banda larga nas linhas fixas – a Vivo foi a última, no dia 10, enquanto a Oi e a NET já previam esta limitação em contrato há tempos, mas juram que jamais a puseram em prática. Houve uma revolta geral, todo mundo se meteu – até a um tanto desmoralizada OAB – especialmente depois que o presidente da Anatel, João Rezende, disse que a época da internet ilimitada acabou .

A questão que está por trás desse movimento é a explosão do consumo de vídeo por meio da internet. Segundo estudo da Cisco divulgado ano passado,  80% do tráfego da internet em 2019 será de vídeo. Desse total, 66% do consumo será endereçado a dispositivos móveis (cuja banda já é limitada desde os primórdios). Este crescimento exponencial do vídeo vem dos “millenials”, que praticamente abandonaram a TV e passaram a divertir-se e informar-se por meio do You Tube  e de OTTs como Netflix, Hulu e HBO GO (sem contar que ouvem música também em streaming com Sportify, Deezer, Rdio etc, e trocam mensagens e mandam mensagens de texto, voz e vídeo por zapzap, Messenger, Telegram…).

Este é um movimento mundial, mas aqui no Brasil apresenta duas particularidades, que, juntas, deixam o consumidor brasileiro em palpos de aranha (antiga essa, hein?). A primeira, já apontei acima: há um oligopólio no fornecimento de banda larga fixa. A Anatel, como agência reguladora, em teoria, deveria ter impedido isso – SQN, pelo motivo óbvio de que os seus dirigentes foram ou serão empregados quando deixarem a autarquia, no mínimo como consultores, pelas empresas que devem controlar. Dessa forma, o que Oi, NET e Vivo disserem que é em termos de banda larga fixa é o que provavelmente vai ser.

A segunda é que os três grupos que dominam a infraestrutura de banda larga fixa são também dominantes na prestação de serviço de TV por assinatura, com 68,4% do mercado , no total. Assim, elas são concorrentes de You Tube e Netflix (e também serão da HBO GO, que está para chegar aqui) e, obviamente, têm todo o interesse em prejudicar seus concorrentes, que usam banda, ganham uma fortuna e, segundo as operadoras, não têm as mesmas obrigações tributárias que elas  – incluindo o Condecine, que a Ancine (a agência que regula a área audiovisual) está demorando éons para regular em relação às OTTs de vídeo (leia-se Netflix).

Diante desse quadro, as operadoras resolveram partir para a ignorância em cima de nós, a fim de pressionar o governo a tributar as OTTs (as que podem fazer chamadas de voz, tipo zapzap, estão dentro disso) e pressionar estas a pagar um pedágio maior do que nós, seres humanos, a fim trafegar seus pacotes de dados em seus cabos sob o argumento de que usam mais “espaço” (banda) do que nós.

E, no caso do governo, deu certo parcialmente. O governo diz que vai defender o distinto público ao exigir um “compromisso público” das teles de manterem a banda larga fixa ilimitada. Bacana, né? SQN de novo. Se você não entendeu o que Luís Osvaldo Grossmann explica, vou tentar esclarecer.

Digamos que hoje você paga R$ 200 por seu plano. Com a ideia do governo, as teles podem criar planos inferiores, com franquia, custando menos. Aí, vai acontecer uma dessas três coisas:

1. Aos poucos, que nem sapo sendo cozido em água aquecida devagarzinho, você, ao longo do tempo, pagará mais e mais para manter o seu padrão de consumo de internet e ficar vendo conteúdos pelos serviços de streaming (Netflix, HBO GO, You Tube) e mandando mensagens por zapzap, Messenger etc. Resultado: as teles ganham e você perde.

2. Você deixa de assistir conteúdos de vídeo via streaming e volta para TV por assinatura (a queda de consumidores destas é fato notório e constante há meses). Resultado: as teles ganham e você perde.

3. Serão oferecidos planos com “uso gratuito” de aplicativos, como já se faz na telefonia móvel, pois as OTT integrantes do plano pagarão por você. Resultado: a teles ganham e você perde por ter suas poder de escolha limitado.

De todas as formas, de uma maneira ou de outra, o Marco Civil da Internet, um dos melhores marcos legais de internet do mundo e que levou anos para ser construído por toda a sociedade, iria para as cucuias, especialmente seus artigos 2 (incisos III e V) e 7 .

Abre parênteses. Há uma quarta possibilidade, que pode vir em paralelo às de acima: as OTTs passam a recolher os mesmos tributos das TVs por assinatura e são obrigadas a pagar um pedágio maior para trafegar nos cabos. As OTTs precisarão repassar esse custo, claro. Resultado…Ah, você sabe. Fecha parênteses.

Agora, diante do exposto, você já viu quem vai “pagar o pato”, como diz aquela federação patronal golpista, dessa situação toda, certo?

#aGlobodeveserdestruida

Peneirando os meios – III

Vamos peneirar novamente os números da Pesquisa Brasileira de Mídia-2015, da Secom, dessa vez enfocando a frequência de acesso aos meios por escolaridade.

tabela frequência escolaridade 7 dias

 

gráfico frequência escolaridade 7 dias

 

 

tabela frequência escolaridade 0 dias

gráfico frequência escolaridade 0 dias

Análise

1. Não há surpresas no recorte por escolaridade. A TV mantém-se como o veículo de maior penetração em todas as faixas, embora com uma queda forte, de 11 pontos percentuais, do estrato de maior penetração (localizado entre os que estão entre a quarta e a oitava séries) e a de menor (com curso superior), indicando, assim, que os tais formadores de opinião estão se afastando do meio – ainda assim, porém, quase dois terços deles veem TV todos os dias da semana. A questão, como expus ao comentar os outros pontos do levantamento, é que não se sabe é se a definição de TV inclui os OTTs (Netflix) ou não (mas inclui a TV por assinatura, como veremos lá na frente, se tudo der certo).

2. Como acontece em outros recortes, a internet é quase o oposto da TV, mas com tintas mais fortes. A diferença de acesso entre os que chegaram apenas à quarta série é 19 pp menor do que estão na faixa imediatamente acima e astronômicos 67 pp menor do que estão no estrato com curso superior. A diferença dos que nunca acessam a Grande Rede no estrato mais baixo da amostra é 79 pp maior do que no estrato mais alto – sendo que aqueles com menor escolaridade e não acessam à internet são 40 pp acima da média Brasil. Esses números apontam para a importância do Plano Nacional de Banda Larga e da migração para TV Digital, uma importante janela para a inclusão digital no país, dada a penetração do meio TV. No entanto, governo já fraquejou diante do lobby das teles no caso da migração, podendo ter desperdiçado uma oportunidade de ouro.

3. Os jornais, como seria de esperar, são lidos com mais frequência pelos mais estudados (quatro vezes mais do que pelos menos). No entanto, sua penetração, mesmo no seu estrato mais forte, é muito baixa – apenas 15% – e, mesmo naqueles que alcançaram um nível educacional superior, 56% simplesmente não leem jornal. Esses dados podem explicar porque a capacidade de mobilização política do meio é tão reduzida, como têm demonstrado, seguidamente, as campanhas eleitorais.

4. A situação dos jornais é ruim, mas a das revistas é bem pior. Como já mostraram outros recortes, o meio revista agoniza. O percentual dos que não leem publicações do gênero chega a dois terços dos que têm nível superior – e esse é o seu melhor resultado na amostra. O percentual dos que não leem revista nunca chega a 95% entre os que chegaram apenas à quarta série – o maior percentual do levantamento computando-se todos os parâmetros. Assim, a influência das revistas na sociedade tende a ser ínfima.

5. O rádio tem uma posição sólida, segundo a PBM-2015. Pelo menos um quarto dos entrevistados com curso superior ouve rádio todos os dias, resultado que atinge pouco mais de um terço (35%) entre chegaram apenas à quarta série. No outro extremo, vai a 48% aqueles com curso superior que não escutam rádio, o que demonstra que pelo menos 52% o fazem pelo menos uma vez por semana.

Organizando as coisas

Como o Facebook não lançou ainda o Paper no Brasil – e o Flipboard, vamos encarar os fatos, ninguém leva muito a sério, infelizmente -, vou tentar dar uma organizada na bagunça que se tornaram as encarnações da Coleguinhas aqui no WP e as duas no FB (incluindo meu perfil), de modo que quem me dá a honra de acompanhar as bobagens que escrevo tenha uma visão consolidada dos assuntos que mais têm sido abordados aqui e lá:

1. Série sobre Regulação da mídia

‘Regulamentar mídia pode ser bom para liberdade de expressão’, diz enviado da ONU 

Como funciona a regulação de mídia em outros países?

Como a mídia é regulada na Suécia

2. Série “O melhor do jornalismo brasileiro é feito na Europa”

Entrevista com Jose “Pepe” Mujica

‘Maior desafio é combater preconceito contra o pobre’, diz ministra do Bolsa Família

Por que o ‘New York Times’ quer fim do embargo a Cuba?

“É incrível o que Cuba pode fazer”, diz OMS sobre ajuda contra ebola

Fortuna de super-ricos é ‘incontrolável’, diz pesquisador

Série da BBC sobre o Brasil é reconhecida em premiação internacional

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/11/141106_soccer_cities_aib_rp

‘Brasil precisa taxar ricos para investir no ensino público’, diz Piketty

3. Série “Matérias que você não vê nos veículos de comunicação brasileiros”

Número de negros em universidades brasileiras cresceu 230% na última década; veja outros dados

Brasil aumenta em 29% o número de pessoas tratadas pelo SUS com medicamentos para aids

Brasil e mais 12 países são reconhecidos pela FAO por combate à fome

“Porque eu sou negro”

4. Série do Diário do Centro do Mundo sobre a sonegação da Rede Globo (crowdfunding de que participo):

Como o processo de sonegação da Globo sumiu da Receita e sobreviveu no submundo do crime

EXCLUSIVO: a história da funcionária da Receita que sumiu com o processo de sonegação da Globo

5. Série sobre Jornalismo e Telecomunicações

Radiodifusores x Governo: a hora da volta

Telecomunicações e o jornalismo que bate à porta

 “Ó meu Deus, mais telecomunicações?!”

6. Série “De volta a 64”

Nova direita surgiu após junho, diz filósofo

Brasil vive ressaca eleitoral e não polarização política, avaliam especialistas

7. Série “A vida cruel das redações”

Folha demite Eliane Cantanhêde

Carta enviada por jornalistas do UOL à direção do portal UOL

 

“Ó meu Deus, mais telecomunicações?!”

É, mais uma coluna falando desse assunto chato, mas fundamental. Recomeço de onde parei na semana passada (se não lembra, abaixe a tela ou clique aí do lado).

O governo está a fim de acelerar o processo de avanço das telecomunicações no país, o que, como vimos semana passada, tem o potencial de mudar o tipo de jornalismo que é (mal) praticado aqui no Bananão. O veículo para atingir esse objetivo é o Plano Nacional de Banda Larga 2.0, mais conhecido, desde a campanha presidencial, como Banda Larga Para Todos.

O nome é muito marqueteiro, mesmo para os padrões do governo. Diferentemente da energia elétrica, a qual realmente pode atingir 99% da população (100% se forem usados meios alternativos como energia solar), a Banda Larga baseada em fibra ótica (FFTx no jargão, para saber mais clique aqui e é bom que você o faça) não vai chegar a todo mundo. Para um país enorme como o nosso, se chegar a 80% é para ser premiado pela ONU. O próprio ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, já disse (depois da campanha, et pour cause) que a meta para os quatro anos de governo dilmal é chegar a 45% dos domicílios no país.

O custo? Uma cacetada. Pelos cálculos do Minicom, a conta para atingir esses 45% na chamada “última milha” é de R$ 40 bilhões. Obviamente, o governo não terá bala para tanto. Daí, a presença da iniciativa privada é fundamental. A ideia do governo é licitar o projeto por meio de leilões reversos – neles, ganha quem botar mais dinheiro no negócio, necessitando, pois, menos do dinheiro público. Muito bom, claro, mas vai ter que combinar bem com os “russos”, pois as empresas de telecom são meio cabreiras com o Executivo federal, que, para elas, sempre acaba cedendo muito para os radiodifusores nos arranca-rabos entre as duas indústria (sem contar a mania de mudar regra com o jogo começado).

A grana é monstra, sem dúvida, mas poderia ser maior. É que a fibra ótica não precisa chegar até a residência (FTTH) ou prédio (FTTB) (eu disse que era você para ter clicado no link do terceiro parágrafo… ) Ela pode chegar apenas na Estação Rádio-Base (ERB, a antena que a gente vê por aí) de 4G e esta distribuiria o sinal com velocidade de banda larga (em teoria, a 4G pode chegar de 100 Mbps no dowstream – para efeito de comparação, a 3G chega a meros 384 kbps). Segundo o previsto pelas normas das concessões de 4G, as telecoms devem levar essa tecnologia a todos os municípios com mais de 30 mil habitantes até o fim do ano que vem (usando a faixa de 2,5GHz), o que viabilizaria boa parte do objetivo governamental

Para que esse sistema de alta velocidade tenha suporte, haverá necessidade de, paralelamente, ser construída as estruturas de backhaul , que hoje só chegam a 47% dos municípios, percentual que, o Minicom acredita, pode chegar a 90% em quatro anos. A melhor imagem para entender o que é backhaul é o dos nervos que saem da espinha dorsal (backbone) levando e trazendo os impulsos ao resto do corpo. Assim, quando você liga o seu celular (os dedos na imagem do corpo), o sinal é captado pela ERB (os nervos periféricos), que o levam para backhaul (os nervos principais) e este para o backbone, que, por sua vez, encaminha o sinal para o outro ponto, onde o processo é invertido. Assim, quanto mais capilarizado (e capacitado em termos de velocidade) for o backhaul, melhor (ou seja, mais veloz e estável) será a comunicação. O custo para atingir 90% dos municípios, calcula do Minicom, é de R$ 10 bilhões, o que elevaria o custo de todo esse projeto a algo em torno de R$ 50 bi.

Bem, se esses planos do governo Dilma forem concretizados, além de abrirem oportunidades de ouro para a melhoria de educação (via EAD) e saúde (telemedicina), têm tudo para mudar a maneira como se faz comunicação no país, incluindo aí o jornalismo. Mas isso já expliquei semana passada.

Telecomunicações e o jornalismo que bate à porta

A Ericsson publica, a cada quatro meses, um relatório sobre o estado em que se encontram as telecomunicações móveis em todo o mundo. Acho-o muito legal, mas admito que a maioria das pessoas não concorde comigo, pois, da maior parte dos ângulos que se olha, é um tanto chato com aquele monte de números, tabelas e gráficos (coloridos, mas ainda assim…). Por isso, não pediria para ninguém ler se não achasse importante (pelo menos para quem se preocupa com coisas de somenos como o futuro do jornalismo).

O motivo de achar importante que você dê uma olhada no relatório da empresa sueca é a análise do bravo Alan D. Mutter. No artigo, o “newsosaur” avisa que, nos EUA, cerca de metade dos acessos às notícias já acontece por meio de aparelhos móveis (smartphones e tablets) e que o jornalismo feito para este tipo de dispositivo é, necessariamente, diferente do que é realizado hoje até mesmo para sites.

O primeiro argumento do pessoal mais antigo quando se depara com dados e análises desse tipo é que essa situação levará muito tempo para chegar aqui, no Bananão e, portanto, não há motivos para preocupações por enquanto. É aqui que entra o relatório da Ericsson. Ele mostra que a América Latina terá cerca de 600 milhões de smartphones em 2020, ou 65% do total – um crescimento de 30 pontos percentuais (hoje, os “telefones espertos” são 35% do total), sendo que Brasil e México responderão por 50% desses aparelhos. Em termos de assinaturas, a tecnologia dominante será a WCDMA/HSPA+ (em linguagem de gente e de marketing, 3G e 3G+), com 65% (40% hoje) ficando a LTE (4G) com 30%. Já a cobertura chegará a 90% para 3G e 65% para 4G.

Por que isso é importante? Porque a maior parte do tráfego será composta por imagens, principalmente vídeo, como mostra o relatório da Ericsson. E isso influencia o modo de fazer jornalismo, como diz Alan, porque os usuários de dispositivos móveis não têm disposição para ler longos textos escritos, exigindo gráficos, fixos e com movimento, e vídeos para facilitar o entendimento do contexto, de maneira, ao mesmo tempo, mais profunda e rápida. O “newsosaur” acredita que jornais e revistas estão reagindo lentamente a essa nova ecologia informacional – e se ele acha isso lá, imagine a opinião dele se conhecesse o panorama daqui.
No momento, paro por aqui, mas quando voltar ao assunto, falarei sobre as iniciativas do governo para acelerar esse processo. Por enquanto, fica a lista de leitura:
1. Relatório da Ericsson (e um sumário da parte referente à América Latina dos coleguinhas das publicações especializadas da editora Glasberg).
2. Artigo de Alan D. Mutter.