Investimentos em publicidade da Administração Direta do Governo Federal (2011-2016) – IV (Internet)

Já cansou? Vamos! Está quase chegando ao fim! Nessa semana, o foco vai para o investimento publicitário da Administração Direta do Governo Federal em internet – na próxima, será a vez do rádio, depois do apanhado geral e c‘est fini! Quer dizer…A parte da Administração Direta…Depois haverá os dados da Secom que apareceram miraculosamente após a pentelhação; a Administração Indireta (se os órgãos responderem, o que está longe de ser certo)…Mas não ponhamos a carroça a adiante dos bois, como dizia Vó Sinhá.

Primeiro, os dados sobre a internet, então.

 

Antes da análise, um toque importante: os números englobam as operações na internet atreladas às outras mídias. Por exemplo, no que se refere ao Grupo Globo são dos sites dos Infoglobo e, da Rede Globo (G1 dentro); da Folha, o site do jornal (mas não o UOL) etc.  É meio óbvio, eu sei, mas não custava nada deixar ainda mais claro, né?Então, vamos à análise.

Análise

1. O ano em que a Administração Direta federal “descobriu “ a internet foi 2012. Do ano anterior para este, houve um acréscimo de 99,86%.

2. Nesse duplo carpado, todo mundo se deu bem, mas ninguém como o UOL, que deu suas piruetas para frente e obteve um aumento de 340% (de R$ 316.642,52 para R$ 1.076.403,30 o que pode ser explicado pelo fato de ser o maior portal de língua portuguesa do mundo. Bem também se deram o Terra (+ 108%) e a Folha, que teve um salto percentual de inacreditáveis 545,13%, mas, em termos absolutos, recebeu pouco menos de R$ 64 mil.

3. Na série, o ano de maior investimento foi 2014, ano da Copa do Mundo, com  R$ 9.114.043,62 – 477,18% acima do investido em 2011 e 242,5% mais do que no ano anterior (R$  3.758. 322,15).

4. Neste ano, em termos absolutos, o Grupo Globo foi o maior beneficiado com R$  3.701.147,11 (40,61%), mas, se observarmos que o investimento no GG engloba as operações internet de todos os veículos do grupo, então, proporcionalmente, o mais bem aquinhoado foi o UOL, que, sozinho, abocanhou R$  2.077.539,87 (22,79%) do total.

5. Com o fim da Copa, houve uma queda em 2015 de era de 49,61%, com uma recuperação de 32,56% em 2016, ano de Jogos Olímpicos.

6. No total do período, o Grupo Globo foi o que mais recebeu investimentos em internet do Governo Federal, com um total de R$  10.186.324,07. No entanto, levando-se em consideração o exposto no item 4, o UOL, com 25%, foi o mais beneficiado. O gráfico abaixo mostra a situação geral.

Investimentos em publicidade da Administração Direta do Governo Federal (2011-2016) – I (TV)

Muito bem. Conforme prometido, vamos à numeralha da verba de publicidade do governo federal, no que tange à Administração Direta, ou seja, Presidência e ministérios. Antes, alguns comentários:

1. Normalmente, começo do geral para o específico. Dessa vez, porém, para mudar um pouco, farei o contrário, indo do específico – ou seja, de cada meio – para o geral. Assim, só no fim veremos os números por empresa (nem comecei a calcular ainda).

2. É sempre bom lembrar que o grosso da publicidade federal vem da Administração Indireta, especialmente das empresas de economia mista. Assim, só quando tiver os dados, que estou há meses pedindo à Secom por meio da LAI, saberemos se a participação por meio e empresa são correspondentes nos dois tipos.

3. Reuni os números de 2011 a 2016 (os que estão na base de dados da Secom aberta ao público), deixando 2107 separado porque só há números disponíveis até março.

4. Sugiro cautela se alguém quiser tirar conclusões políticas dos dados. É importante ter em mente o item 2 e também que as atitudes e ações políticas são determinadas por outros fatores tão poderosos quanto o dinheiro sonante – às vezes até mais.

Bem, então vamos lá. Começarei com o meio TV e as grandes redes nacionais. Primeiro, os totais anuais investidos no meio.

20170528_tabela_secom_tv

Análise

1. O ano de maior investimento foi 2013, com R$ 76,3 milhões.
2. O menor foi 2016, com R$ 49,7 milhões.
3. Confrontados os anos de 2013 e 2016, houve queda de 34,82% no investimento.
4. No período 2013-2016, a maior redução ocorreu entre 2014 e 2015, com uma queda de 28,06%. O fato deveu-se, muito provavelmente, ao drástico corte de gastos patrocinado pelo então ministro da Fazenda, Joaquim Levy.
5. Até 2016, o investimento em publicidade da AD ainda não havia recuperado o nível de antes de 2013. Pelo contrário – em relação a 2015, o ano passado apresentou redução de 7,44%.
6. Em relação ao início da série (2011), a redução em 2016 foi de 20,80%.

 

Agora, vamos ver a participação no bolo publicitário da AD por rede de TV, entre 2011 e 2016.

20170528_graficos_secom_tv

Análise
1. Como seria de se esperar, a Rede Globo, por ser a mais assistida, detém a maior participação, com 50% ou mais do bolo em cinco dos seis anos. A exceção foi 2014, quando ficou com 49%, fato surpreendente, já que, em ano de Copa do Mundo, seria mais provável que o percentual se mantivesse acima dos 50% por ser a Globo a rede dominante na transmissão no esporte nacional, influindo mesmo, diretamente, sem seu gerenciamento.
2. O percentual da Globo só voltou a superar os 50% em 2016, retornando ao patamar de 55% de 2013, mas ainda inferior ao pico de 58% atingido em 2012.
3. Nota-se claramente que à queda 6 pontos percentuais (55% para 49%) de participação da Globo, em 2013, correspondeu avanço quase idêntico da Record, de 21% para 26%.
4. A diferença, em termos percentuais, para a Globo, entre o pico de 2013 e o vale de 2015, foi de 37,11%, muito superior às perdas das outras redes, conforme se pode observar na tabela abaixo:

20170528_tabela_secom_AD_variacao_globo

 

Por fim, o gráfico comparativo da participação das emissoras na verba publicitária nos primeiros trimestres de 2016 e 2017.

20170528_secom_AD_comparacao_globo-2017_1tri_2016_1tri

Observa-se a queda de 4 p.p. da participação da Globo, com o crescimento de 8 p.p. do SBT e 3% da Bandeirantes.

Estudo do Reuters Institute dá uma geral de como anda a mídia no mundo

Eu juro. Juro que ia publicar um textinho leviano (como dizia aquele jogador de futebol) sobre uma coisa bem engraçada que acontece na fan page da Coleguinhas, após cinco semanas de numeralha hard. Só que aí, na mesma semana, o Reuters Institute e o Pew Research Center lançaram, respectivamente, o Digital News Report e o State of the News Media, os dois mais importantes estudos anuais sobre mídia do mundo. Então, o que eu, um fraco, poderia fazer?

É muito número, vou dizer a vocês. Por isso, vou começar me concentrando no estudo da Reuters por ele ser muito mais abrangente – apresenta dados de 26 países, inclusive o Brasil -, enquanto o da Pew é restrito ao mercado dos EUA, e por isso vai ficar pra semana que vem. Bom, então começo com os toques:

1. No Brasil, o DNR abrange apenas as áreas urbanas, ou seja, os números não dizem respeito ao total da população, mas a cerca de 85% dos 203 milhões (segundo a PNAD/2015 do IBGE) – os 172 milhões que vive em áreas urbanas.

2. Outro ponto é que, como o nome indica, o estudo é sobre consumo de notícias com foco na mídia digital, ou seja, só conta quem tem acesso à internet, o que, no Bananão, quer dizer 58% dos tais 172 milhões, o que é igual a 99 milhões.

3. Assim, no que tange ao Brasil, o estudo não é tão abrangente como parece ser no que se refere a países com maior penetração da internet. De qualquer forma, merece atenção e reflexão.

4. Como é uma numeralha do caramba, vou me restringir a dissecar o Brasil, mas passando, lá embaixo, o link para quem quiser se aprofundar no estudo em nível mundial.

5. Os links dão acesso também à parte do Brasil, à base de dados (para quem quiser se divertir fazendo cruzamentos novos) e para o hot site do estudo.

. E para facilitar a minha vida para escrever (também sou filho de Deus, qual é?) e a sua para ler, vou fazer como aí em cima e mandar ver os principais pontos em tópicos.

Então vamos lá.

Brasil

• Os cinco veículos tradicionais (TV, rádio e jornal) mais acessados como fonte de informação durante a semana e como fonte principal (em %):

20160619_tabela_gráfico_veícculos tradicionais

 

• Os cinco veículos on line mais acessados como fonte de informação durante a semana e como fonte principal.

20160619_tabela_gráfico_veículos online

• Como dá para notar, a TV é, individualmente, a maior fonte de notícias (79%), com as redes sociais chegando perto com 72%, mas, se contarmos todas as fontes on line, incluindo as RS, estes passam à frente, com 91%. A má notícia é para os jornais: são consultados como fonte primária de informação por apenas 40% das pessoas.
20160619_fontes de notícias por mídia

 

• O Facebook é a rede social em que maior parte das pessoas busca notícias (69%), com o zapzap, que também pertence ao Mark, ficando em segundo (39%) e o You Tube logo atrás, com 37%.

• O nível de confiança dos respondentes com as recebem atinge 58% (o terceiro maior nível entre os 26% países pesquisados, atrás apenas de Finlândia (65%) e Portugal (60%)).

• Já o nível de confiança da população é um pouco menor no que se refere às organizações de mídia em si (56%), percentagem que se reduz quando se refere aos profissionais (54%)

• Também no que se refere à confiança, 36% dos pesquisados acreditam que os jornalistas não recebem pressões políticas (ou seja, 64% acham que recebem) e 35% creem que eles estão livres de pressões por parte de interesses econômicos (65% acham que sim).

ANÁLISE
Bom, de cara dá para perceber que embora seja verdade que a internet e as redes sociais abriram um campo de disputa contra o oligopólio das empresas de comunicação, especialmente, contra a Globo, esta ainda mantém amplo domínio do consumo de mídia já que nada menos do que 32% dos respondentes da amostra (que, aliás, é de 2001 pessoas) afirma que a TV Globo ou o jornal O Globo são suas fontes principais de informação, sendo que a primeira é consultada como fonte por 53% ao menos uma vez por semana, e o segundo, por 32%.

No campo da internet propriamente dita, o equilíbrio é maior, mas, ainda aqui, o Grupo Globo – por meio dos sites da TV/G1 e do jornal – são fonte de consulta principal por 24% (quase 1 em cada 4 pessoas), embora, individualmente, o UOL lidere com 16%, ficando ainda com o segundo lugar em termos de consulta semanal, com 49%, perdendo por pouquinho para a dupla TV Globo/G1.

As redes sociais avançam avassaladoramente como fonte de informação, tendo subido 25 pontos percentuais em apenas quatro anos, já mordendo os calcanhares da TV. Do outro lado, os jornais perderam 10 p.p. no mesmo período. Neste quadro, vantagem para Mark, que é dono das duas mais consultadas fontes de informação entre as redes sociais.

Por fim, no que se refere à confiança com as notícias recebidas, organizações de mídia e jornalistas, os percentuaisdo levantamento da Reuters são consistentes com os realizados nos últimos por outras instituições nos últimos anos, rodando em torno de 60%. No entanto, interessante é que os jornalistas, como profissionais estão cotados bem abaixo no índice de confiança, pois quase dois terços dos entrevistas acreditam que eles são influenciados por interesses políticos e /ou econômicos. Definitivamente não é uma boa notícia para os profissionais, mas que pode ser atribuída ao momento de polarização política pela qual passamos.

Por fim, vamos aos links:

Relatório sobre o Brasil (assinado pelo coleguinha e analista financeiro Rodrigo Carro)
Relatório internacional
Base de dados

Invasão da grande área

Uma movimentação muito importante aconteceu na semana passada. A Turner Broadcasting System (TBS) comprou a programadora Esporte Interativo, que, como o nome diz, é especializada em esporte. O negócio é importante porque, além de veicular sua programação esportiva pela TV paga, pela Banda C (parabólica) e por OTT (está na grade do Netflix), o EI também transmite na TV aberta, por meio de uma geradora pertencente à TV Eldorado, empresa do Grupo Estado de São Paulo, localizada em Santa Inês, Maranhão (é isso mesmo, os Mesquitas ganharam uma geradora na terra do Sarney no tempo do FHC), que transmite para 22 cidades, inclusive para São Paulo capital, o maior mercado publicitário do país.

Não foi preciso nem 24 horas para a Abert, presidida por Daniel Slavieiro, diretor-geral do SBT em Brasília, botar a boca no trombone afirmando que a compra é ilegal. A alegação é que o artigo 22 da Constituição não permite que estrangeiros detenham mais do que 30% das ações de empesas de empresas de comunicação que detenham concessões de TV aberta. A Turner responde que ela não é dona de uma empresa assim, mas de um canal de esportes, como é da Warner ou da CNN, por exemplo – a TV Eldorado, a geradora, continua dos Mesquita.

Agora a situação está nas mãos do Ministério das Comunicações, ou seja, do ministro Ricardo Berzoini, aquele que tem prometido quebrar o monopólio da mídia. Ele, por exemplo, pode argumentar com a Abert que esta é uma ótima oportunidade de regulamentar de vez o artigo 222 da Constituição, tão ciosamente defendida pela entidade, que, no entanto, há 25 anos consegue impedir que a parte referente ao combate ao monopólio e à regionalização da programação do mesmo artigo seja regulamentada.

Essa pendenga vai ser realmente divertida de acompanhar.

Eleição definida

Não, não está decidida, mas está definida. Em 2006, a imagem que ficou da campanha foi o Alckmin todo adesivado de logos de empresas estatais, parecendo um piloto de Fórmula 1. Acredito que o futuro defina o pleito de 2010 por estas imagens.