O jornalismo brasileiro não é mais o que era (e não voltará a ser) – II

Seu Jair da casa 58 e o jornal que ele ama odiar

Quando Jair Bolsonaro afirmou que mandara cancelar as assinaturas da Folha de São Paulo pelos órgãos da Administração federal (voltou atrás logo), houve duas reações básicas por parte dos jornalistas: um grupo indignou-se com a ameaça à liberdade de imprensa, outro disse “bem-feito” lembrando que a Folha faz questão de igualar Bolsonaro a Lula, chegando mesmo a não reconhecer que o presidente do país é de extrema-direita, fato evidente e reconhecido em todo o mundo, exceto aqui.

Ambas as reações são fruto do mesmo erro cometido pelos que se escandalizaram com a comemoração uniformizada do editor de Esportes do Globo, Márvio dos Anjos, após o gol que deu o título da Libertadores da América ao Flamengo, que analisei semana passada : os coleguinhas não veem – por não conseguirem ou não quererem – que o jornalismo praticado nas chamadas grandes redações não é mais um serviço de interesse público, como se praticava – ao menos se tentava – em outro tempo no país.

O caso da Folha é bem mais complexo do que o do Grupo Globo. Este, bem ou mal, ainda é um conglomerado de mídia puro, algo que o Grupo Folha não é desde 2006 quando criou o PagSeguro. O fato de ter entrado no mercado financeiro por meio de um sistema de pagamentos fez com que as relações entre o jornal que conhecemos e a sua fonte de financiamento mais importante se tornassem bem mais distantes do que as tradicionais publicidade e assinaturas. Hoje, a Folha precisa ser mantida pelo braço financeiro dos Frias e esse fato deixou o veículo ainda mais frágil do que seus concorrentes em muitos aspectos.

Essa fragilidade tornou-se pública no início deste ano, não por coincidência logo no início do governo Bolsonaro, com a disputa pelo controle do jornal que pôs de um lado Maria Cristina Frias e de outro seu irmão Luiz e a cunhada Fernanda Diamant, viúva de Otávio, o irmão mais velho, falecido em 2018. O pano de fundo da briga foi a exigência de Maria Cristina de que Luiz repassasse os dividendos a que o jornal teria direito por deter 33,23% das ações da Folhapar, empresa que controla o PagSeguro e o UOL. Os dividendos viriam das duas ofertas de ações realizadas pelo UOL, que renderam, no total algo em torno de US$ 1,7 bilhão (cerca de R$ 7 bilhões em cotação de hoje). Luiz se recusou e pôde fazer isso por ser o dono de 66,27% do capital da Folhapar.

Por que ele teria feito isso? O mercado especula que Luiz estaria determinado a tornar-se um banqueiro e a compra da carta-patente de um “tamborete” ( banco pequeno, no jargão do mercado), o BBN, seria mostra desse objetivo. No entanto, especula-se que ele quer mais, um banco maior, já com carteira de cliente. Para isso, teria que obter uma nova carta-patente, transação que precisaria ser aprovada pelo Banco Central.

Vejo o alvorecer do entendimento assomar aos seus olhos…

Pois é. Se há algo que Luiz Frias não quer neste momento é provocar a ira do patrão do cara que pode lhe permitir dar a grande tacada de sua vida. Daí ter tirado Maria Cristina do comando da redação da Folha – a história de ela ter caído por não querer cortes não faz sentido, já que um acordo poderia ser facilmente obtido, pois a briga pública não ajudaria ninguém – e ter permitido apenas uma campanha de marketing canhestra, falando em nome da democracia, e a um ou dois editoriais indignados, mesmo com o jornal sob ataque direto de Bolsonaro.

A Folha pode sair dessa? Pode, como diz essa matéria, que complementa a lincada dois parágrafos acima. Há rumores de que Maria Cristina estaria tentando reunir investidores dispostos a financiá-la na compra da parte de Luiz na Folha Participações (não confundir com a Folhapar), a controladora do jornal. Seria muito bom para ele, pois livraria de vez do encargo de monitorar de perto a redação para que, ao mesmo tempo que não provoque a ira do governo – deste e dos outros, pois o BC tem poderes para tornar a vida de um banco um inferno, no mínimo -, não perca de vez a credibilidade, o que levaria a mais prejuízos e à desvalorização do ativo. Resta saber quem estaria disposto a investir num veículo que teria o expresso ódio de um autoritário sempre candidato a ditador.

Um comentário sobre “O jornalismo brasileiro não é mais o que era (e não voltará a ser) – II

  1. Para os jornalistas cínicos que adoram citar a frase de Millôr Fernandes (“jornalismo é de oposição, o resto é armazém de secos e molhados”) sem contextualizá-la ou refletir a respeito (prometo desenvolver o tema em um artigo a ser publicado brevemente), reproduzo trechos da avaliação do próprio sobre a mídia brasileira. Constam de um entrevista posteriormente publicada em livro:

    “A imprensa brasileira sempre foi canalha. Eu acredito que se a imprensa brasileira fosse um pouco melhor poderia ter uma influência realmente maravilhosa sobre o País. Acho que uma das grandes culpadas das condições do País, mais do que as forças que o dominam politicamente, é nossa imprensa. Repito, apesar de toda a evolução, nossa imprensa é lamentavelmente ruim. E não quero falar da televisão, que já nasceu pusilânime”.

Os comentários estão desativados.