O honesto reacionário

O Estadão é reacionário desde sempre – por exemplo, defendeu a escravatura até o fim e também foi contra a República. Isso é um fato. Outro é que, muito por não esconder seu perfil político, é o melhor jornal do país (menos ruim, se você quiser). Só no site dele (espero também no impresso) um artigo como esse, assinado pelo cientista político Carlos Melo, pode ser lido.

PS.: Alto Conselheiro corrige a informação que está cortada em vermelho. Desculpe a vergonha que passei…

Notas eleitorais – É o maior, mas…

“1. Vence Haddad: N-D é entronizado como o maior político brasileiro desde o Bacharel de Cananéia.”

Quando escrevi isso, em junho, em meio àquela doideira que foi a negociação do apoio do Maluf (recorde aqui) juro que não acreditava no que aconteceu hoje: Fernando Haddad vencer a eleição em São Paulo. Sim, considero N-D o mais importante político brasileiro da segunda metade do Século XX (Vargas o foi da primeira), mas, assim mesmo, homem de de pouca fé que sou, não cria. Só que não considerei bem três fatos:

1. A profundidade da liderança do sujeito.
2. O tamanho da falta de confiança que os paulistanos têm em José Serra.
3. A rejeição deles a Gilberto Kassab.

Assim, ao subir no salto 10 que inevitavelmente – e com muito direito – calçará após essa magnífica vitória política, N-D deveria, com seus botões, considerar que, sim, ele detectou com perfeição o desejo de mudança e renovação de lideranças que a maior parte da população de São Paulo está vivenciando – de resto, uma necessidade do quadro político como um todo -, mas vencer ficou mais fácil porque os adversários, especialmente no segundo turno, eram ruins à beça.

Que coisa!… Magnoli defende o PT!

A Liberdade e Luta, a radicalíssima Libelu, nasceu e viveu no Movimento Estudantil dos anos 70 até meados dos anos 80 (isso mesmo, Cezar Faccioli e Wilson Tosta, ou minha memória está assim tão avariada?), e, da última vez que olhei, sobrevivia como a corrente O Trabalho, do PT. Demétrio Magnoli foi um quadro da Libelu e, como se sabe desde Carlos Lacerda, quem faz o caminho da esquerda para a direita contribui muito para a segunda corrente de pensamento combater a primeira, como vem fazendo o sociólogo ao escrever nos Três Grandes jornais brasileiros.

Hoje, por exemplo, ele vai contra a corrente, muito em voga nas redes sociais e nos próprios jornais em que escreve (é só ler os títulos das editorias de política e outros colunistas), que tenta transformar o PT numa facção criminosa, estilo PCC ou Comando Vermelho. Magnoli lembra o óbvio: o partido tem uma história de 30 anos e foi (e, na maior parte do tempo, ainda é) um dos pilares da por enquanto incipiente democracia brasileira – sem contar, lembro eu, que elegeu os dois últimos presidentes da República e foi o mais votado no primeiro turno dessas eleições municipais, com 17 milhões de sufrágios.

O articulista ataca a condução da campanha de José Serra à prefeitura de São Paulo, que usou e abusou de tentar vender a ideia de que o PT é um valhacouto. Magnoli observa, com toda a razão, que o candidato tucano poderia ter escolhido, à senda policial,  a crítica à esdrúxula política das alianças petistas, das quais a com Paulo Maluf é o exemplo mais claro. O problema de ir por esse caminho, isso Magnoli não consegue ver (ou consegue e deixa pra lá), é que politizar campanhas eleitorais raramente é bom para a direita. No processo, a população pode começar a pensar politicamente, a ver o que há por trás de palavras e atos, a comparar uns com os outros, a recordar outros momentos, e aí decidir racionalmente (ou próximo disso) qual o melhor caminho. Como, em geral, para a maioria da população, o caminho da esquerda é o melhor (ou menos ruim), politizar dificilmente é uma boa estratégia de longo prazo para a direita.

Bom, claro que se você for muito cínico, poderá dizer também que a crítica magnoliana tem a ver é com o fato de Serra estar próximo a tomar uma tunda no domingo e que o articulista pretende mesmo é distanciar-se (e, por tabela, distanciar os veículos que publicam seus textos) de mais uma derrota, essa com um nível de ridículo maior do que o normal, devido ao inexpressivo adversário. Eu, que sou um sujeito que dá crédito às pessoas, porém, prefiro pensar que Magnoli está realmente, do fundo de seu coração, preocupado com a democracia brasileira.

O Globo lança a Operação Netos

Depois de uma rápida visita às raízes potiguares, do lado materno (Natal e Currais Novos), eis que retorno e encontro o poste Haddad com 17 pontos percentuais acima de José Serra e O Globo já partindo para outra – patrocinar a junção dos atuais grandes representantes das oligarquias nordestina e mineira, no caso Eduardo Campos e Aécio Neves, respectivamente – em sua ingente luta para apear o PT, e mais especificamente Lula, do poder (o fato de Lula não ter mais poder nenhum, a não ser aquele que a própria mídia lhe concede, é um detalhe que jamais impediria os Marinho de continuar sua cruzada).

Não se pode negar que juntar rebentos oligarcas do Nordeste e de Minas é um bom caminho, até por ser bem mais fácil do que unir as forças conservadoras mineira e paulista, pelo menos desde 1932. Ser mais fácil, porém, não quer dizer que seja fácil. Haverá bons problemas pela frente, que exigirão uma alta capacidade de renúncia política para que se atinja o objetivo estratégico, que é fazer regredir (na pior das hipóteses, estacionar) a evolução econômica, social e cultural da maior parte da população do Brasil.

Para começar, há as questões pessoais, de ego, que resvalam para as políticas. Eduardo Campos já avisou que não nasceu para vice – nem precisava dizer, pernambucano que é, mas foi bom avisar assim mesmo. Aecinho, com seu temperamento mais ameno, até possui jeitão para ser segundo, mas os mineiros jamais aceitariam isso, ainda para mais ficar atrás de um nordestino, tendo ele olho claro ou não. E essa recusa não será apenas dos tucanos mineiros e seus aliados, mas de toda Minas, que se vê como a matriz e o suprassumo da política nacional desde a Inconfidência.

Outro problema, na mesma linha, é a reação dos tucanos paulistas. Se ficar para trás em relação a um mineiro já seria duro de engolir para os fundadores e autodeclarados donos vitalícios do PSDB, ter de ceder a cabeça de chapa para um nordestino seria demais. “Além de ter que aturar aquele peão desgraçado do lado de lá, ainda teremos que aguentar outro baiano do nosso?!”, pensarão os tucanos de São Paulo (aliás, se chamarem o Eduardo de baiano, aí é que ferrou tudo de vez…).

Outro ponto importante e meio politicamente incorreto de se falar, mas que tem um peso e, por isso, não pode ser desconsiderado – o preconceito contra os nordestinos que existe no Centro-Sul do país. Ok, Lula é nordestino, mas, politicamente, é quase um quatrocentão (cinquencentão?) paulista. Eduardo não. É um governador nordestino mesmo. Isso pode ser um forte ponto contra, pois o último governador do Nordeste eleito presidente fez o que fez. Certo, um mundo separa as vidas políticas de Alagoas e de Pernambuco, mas desde quando o preconceito precisa de base na realidade?

E enfrentar tudo isso só para poder encarar uma mais do que árdua campanha em 2014. Afinal, Eduardo Campos é rei lá na minha terra, mas passou a fronteira estadual, seja em que direção for, sua imagem empalidece até quase sumir. No Rio Grande do Norte, por exemplo, ele é conhecido como governador de Pernambuco – o que não chega a ser exatamente uma recomendação, sob o ponto de vista potiguar – e nada além. Quando ele se lançar candidato, esse ponto tende a ser superado, claro, mas se, durante a campanha, for lançada a pecha de traidor de Lula, e ela colar, Eduardo poderá ter problemas até em Pernambuco.

Assim, diante de tantas dificuldades, vou acompanhar com atenção até que ponto os grandes jornais de São Paulo vão embarcar nessa empreitada que o Globo lançou hoje. Desconfio muito que eles adiram assim, de primeira. Se a Operação Netos mostrar-se viável, pode ser que Estadão e Folha até pressionem os tucanos de São Paulo para abrirem mão de uma vasta parcela de poder em nome do objetivo estratégico que mencionei no segundo parágrafo. A viabilidade, porém, deverá ser muito bem demonstrada, até pelo que aconteceu com a Operação Mensalão, que parecia bem mais fácil de ser levada a cabo, inclusive pelo apoio do Poder Judiciário, e está redundando num tremendo fracasso.

Bem, como costumava dizer o Mais Laureado Locutor Esportivo, o pranteado Orlando Batista, “quem viver verá!”.

(Últimas) notas eleitorais

Encerrando a série sobre o primeiro turno das eleições municipais, seguem mais quatro pitacos:

1. Tragicômica a luta dos coleguinhas para tapar o sol com a peneira e não admitir que o Nove-Dedos já é um dos vencedores do pleito só pelo fato de ter levado o poste Haddad ao segundo turno em São Paulo. Esse desafio à realidade, porém, está para cair por terra com a iniciativa, que já cheira a desespero, do Estadão de especular que N-D poderia ser réu de um julgamento pós-Mensalão. Se essa ideia prosperar, aí é que o prato da balança vai pender de vez pro Haddad, pois ficará provado que o problema é de luta de classes, não tendo nada a ver com o bom combate pela moralidade pública;

2. E agora, Marta? O Haddad foi pro segundo turno e nem precisou de você. No segundo turno, vai ter que fazer mais em troca da colher de chá ministerial.

3. Quanto tempo ainda vai durar o DEM? Aposto que não chega à Copa das Confederações, em junho do ano que vem. Mesmo se ganhar em Salvador. Afinal, que deputado vai ficar num partido que não tem a menor perspectiva de poder? O máximo que os atuais próceres demos podem fazer é realizar uma retirada organizada, impedindo o estouro da boiada. Aí vem outro problema: ir para onde? Pro PSD, do renegado Kassab? Pro PMDB, sócio do arqui-inimigo PT no governo? Pro PSDB para ser tratado como primo pobre que se acolhe em casa por não ter onde cair morto?

4. Alguém viu a Marina Silva por aí? Se a encontrarem, avisem que o PRB e o Russomano já estão chegando pelo Expresso da Neutralidade.

Notas eleitorais – I

Primeiros comentários sobre as eleições municipais:

1. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, desejou que o mensalão influísse nos resultados do pleito de hoje. O desejo, no entanto, não se cumpriu, exceto em um município e não do jeito que o procurador imaginava.

2. A exceção foi Osasco. Lá, como você deve lembrar-se, o candidato do PT, João Paulo Cunha, teve de renunciar à candidatura no meio da campanha por ter sido condenado pelo STF. Foi substituído, às pressas, por Jorge Lapas. Resultado: o substituto foi eleito com 60% dos votos.

3. Na maior parte do país, porém, o julgamento do mensalão foi solenemente ignorado. Até mesmo em São Paulo, onde Nove-Dedos tanto fez que levou seu pupilo para o segundo turno contra o interminável Serra.

4. São Paulo promete emoções paralelas para o segundo turno, além do novo embate PSDB x PT. Um deles: o que fará o bispo Macedo? Vamos convir que quem tirou seu candidato, Russomano, do segundo turno foi Haddad. O bispo vai à forra, apoiando Serra? Nesse caso, ficará ao lado das Organizações Globo, que jogarão toda sua força e fúria para não sofrer a suprema humilhação de ver N-D derrotá-la de novo elegendo um poste (esse poste mesmo, muito pior de carregar que o Dilmão) no seu maior mercado.

5. Outra coisa gozada de se acompanhar. Se o Serra vencer, os institutos de pesquisa sofrerão sua maior desmoralização. Afinal, desde o início da corrida eleitoral, o tucano foi apontado como recordista de rejeição – chegou a mais de 45%;. Ora, como reza a cartilha, ninguém vence eleição com índice de rejeição superior a 30%, como ficarão os institutos se der o filho do Nosfertu nas urnas? Vão dizer que ele foi desresjeitado?

6. Mas mesmo se essa possível desmoralização acontecer, nada abalará a fé dos coleguinhas e dos veículos nas pesquisas eleitorais, conforme o livro recomendado no post abaixo.

7.  A cara do Merval Pereira comentando os resultados na Globonews estava impagável – um misto de frustração, raiva, tristeza e vergonha. Hilário.

Furo renegado

Então, no fim, o Felipe Patury estava certo: o Haddad realmente está tecnicamente empatado com o Serra (até com uma microvantagem). E a Época  se recusou a dar um furo.