Atenção ao silêncio

“O homem é senhor de seu silêncio e escravo de suas palavras”. Ouvi diversas vezes este ditado árabe da boca de executivos que não gostam de falar com a imprensa. É um dito sábio, mas que, hoje, já não tem tanta validade, pois as pessoas não são mais senhoras de seu silêncio – perderam boa parte de sua posse.

A teoria da “espiral do silêncio” não é nenhuma novidade.  Em 2017, faz 40 anos que a socióloga alemã Elisabeth Noelle-Neumann a propôs. No entanto, na era das redes sociais, onde qualquer grupo minoritário pode berrar aos quatro ventos suas ideias, os meios de comunicação perderam uma parte significativa de sua capacidade de silenciar as minorias e mesmo de determinar totalmente a agenda social (“agenda setting”) – no Brasil, devido ao monopólio do Grupo Globo, esse poder ainda se mantém, mas em escala cada vez menor. Com redução da capacidade de dirigir a agenda social por meio do silêncio causada pelas redes, os meios de comunicação tradicionais tratam de atualizar a estratégia e partiram para o que se poderia chamar de “espiral do silêncio seletivo”. Esse tipo de manipulação é apagar alguns aspectos da realidade de modo a ressaltar outros, evitar que sejam mencionados ou levá-los ao esquecimento.

Abaixo dois exemplos do que quero dizer:

“Vento que venta lá, não venta cá” – Criado em 2004, o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia (Proinfa) tinha o objetivo de “promover a diversificação da Matriz Energética Brasileira, buscando alternativas para aumentar a segurança no abastecimento de energia elétrica, além de permitir a valorização das características e potencialidades regionais e locais”. Ou seja, fazer com que o país, aos poucos, deixasse de depender em demasia da energia gerada pela fonte hídrica (após Belo Monte, não haveria mais locais para construir grandes hidrelétricas com custos ambientais e financeiros razoáveis) e diversificar o “mix” de geração, botando na receita também a biomassa e as pequenas centrais hidrelétricas.

Por anos, os jornalistas atacaram o Proinfa acusando-o de atrasos, mesmo diante das explicações que um programa daquela magnitude, que visava também criar do zero uma cadeia produtiva inteira, estava sujeito a atrasos, mas que, em meados dos anos 10, tudo estaria pronto e seria muito importante para o país. O programa daria certo e realmente deu.

Derrotados pela realidade, os jornalistas calaram até que a ex-presidente Dilma Rousseff falou que uma característica única existente no Brasil – a de que os períodos de chuva e seca são perfeitamente complementares com os de menor e maior ventosidade – permitiria “estocar vento”. Queria dizer ela que, no período seco no país (entre abril e novembro), o uso de energia eólica permitiria economizar água nos reservatórios, reduzindo, assim, o perigo de sofrermos racionamento como em 2001, sem precisar elevar tanto as tarifas, o que é inescapável quando se usa térmicas a gás e óleo, combustíveis mais caros que a água. Aproveitando a tirada da então mandatária, os coleguinhas caíram matando, dando vazão aos deboches das redes sociais e ignorando as explicações dadas a eles por técnicos do setor elétrico.

Atualmente, o país passa, novamente, por um período de escassez de chuvas e as usinas eólicas têm dado importante contribuição à manutenção do suprimento de energia. O fato tem sido noticiado, mas não é mencionada, pela grande imprensa, a importância estratégica do Proinfa para que ele existisse, embora o seja, de passagem, pela alternativa.

Um caso superinteressante – Todos (talvez com exceção de alguns norte-coreanos) concordam que Kim Jong-Un é doido, pelo menos o suficiente para desafiar outro maluco, que, por acaso, é presidente dos Estados Unidos. Ok, mas será que só doideira explica o ódio que ele e seus compatriotas nutrem pelos EUA? Esse é o discurso que é vendido pelos estadunidenses, claro, mas não é preciso que outros o comprem, muito menos uma revista que se diz aliada da ciência e que deveria ser, consequentemente, duplamente cética. Infelizmente, não foi o que fez a Superinteressante nesta matéria.

Como você deve ter lido, o texto inteiro procura vender o ditador da Coréia do Norte como um louco que vai levar o mundo à destruição. Em momento nenhum, o coleguinha se pergunta o que teria levado um país inteiro a odiar tanto outro. É uma pergunta justa, a meu ver, tanto que foi feita por veículos insuspeitos de simpatia por Jong Un, mas que primam por um bom jornalismo, no caso da BBC e o Washington Post.

Ambos mostram que o ódio norte-coreano é bem fundamentado e vem da Guerra da Coréia, nos anos 50, quando a capital do Norte, Pyongyang, foi simplesmente destruída – não restou um prédio de pé após ataques nos quais, segundo um oficial de alta patente à época (citado nas duas matérias), os EUA bombardearam “tudo o que se movia na Coréia do Norte, sem deixar um tijolo sobre outro”, matando cerca de 3 milhões de pessoas, 10% da população. Ao não mencionar o motivo de tanto ódio (e também que os norte-coreanos várias vezes, nestes 60 anos, tentaram um acordo), o lado norte-coreano foi silenciado pela Super.

É bem complicado achar que foi por acidente este silenciamento. Primeiro porque seria extremamente fácil checar o “outro lado” e, principalmente, porque a revista não informa o leitor de que o autor do texto é um coleguinha que apresenta uma ligação muito forte com os Estados Unidos, como se pode ver no seu currículo no Linkedin. Esse alerta, a meu ver, é fundamental já que, diferente da BBC e do WaPo por motivos óbvios, o leitor não é informado da possibilidade do autor ter um “parti pris”.

Esses são apenas dois casos com que topei nos últimos 15 dias e que me pegaram por estar ligados a eles (trabalho na Eletrobras e vivi diretamente o primeiro, e sou assinante da Superinteressante, e não deixarei de sê-lo, no segundo), mas teria outros, caso tivesse me dedicado a procurar. O importante é o seguinte: não preste atenção apenas no que foi dito/escrito/mostrado. Fique atento/a ao que não o foi. Se não, você vai ser enrolado/a.

A pesquisa do Pew Research Center e o mercado de mídia nos EUA

Esta semana vamos dar uma olhada no levantamento do Pew Research Center, mas não em todo ele, pois é enorme e, além disso, completamente focado no mercado dos EUA, diferentemente do realizado pelo Instituto Reuters, que expus semana passada e abrange 26 países. Assim, vou aprofundar apenas o meio jornal, cujo mercado guarda mais semelhança com o nosso – o de TV aberta daqui é distorcido pelo quase monopólio da Rede Globo, enquanto o de TV paga não tem o peso que tem lá. De qualquer forma, você pode baixar o estudo completo e ainda dar uma olhada na base de dados. A geral e a análise serão baseadas na tradução (muito) livre das realizadas pelos autores do relatório, que você pode conferir no original.

Então, vamos lá.

AUDIÊNCIA (IMPRESSO)

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Desde 2008, quando o mundo caiu da última vez, os jornais estadunidenses, sob pressão incessante, tiveram que se virar para manter-se à tona e mudar a maneira de fazer negócios de uma maneira que afetaram os seus leitores, mesmo aqueles que não têm ideia de como se dirige um veículo impresso.

E a coisa não parece estar melhorando: em 2015, os jornais tiveram seu pior ano desde o período imediatamente posterior ao “crash”. A circulação dos veículos diários sofreu um tombo de 7% em relação a 2014, nos dias de semana, o maior declínio desde 2010. A edição impressa caiu 9%, mas a elevação de 2% no acesso às edições digitais deu uma melhorada nesse aspecto. As edições dominicais caíram menos (4%), mas já vinham de outra redução (de 3%), em 2014 – e, como no caso dos dias de semana, o problema concentrou-se na edição impressa (menos 5%), pois as edições digitais até cresceram 4%. Estas reduções cortaram as esperanças dos editores, que, depois de uma redução nas perdas pós-2009, chegaram a ver um crescimento geral em 2013.

A edição impressa é mesmo um problema, pois, apesar do seu declínio, 76% do total da circulação ainda é oriunda do jornal de papel, nos dias de semana, e 86% aos domingos. Estes números demonstram a resiliência do veículo impresso (51% ainda leem jornais somente dessa maneira, conforme gráfico abaixo), mas não contam a história toda – ao contrário de uma década atrás, o jornal impresso não é mais o meio de acesso primário às notícias, perdendo até para o rádio: primariamente, os estadunidenses acessam notícias mais por rádio (20% contra 25%) e fontes digitais (sites e apps) – 28% -, sem contar TV.

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AUDIÊNCIA (DIGITAL)

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No mundo online, a audiência dos jornais continua caminhando em direção aos aparelhos móveis. Conforme mostra o gráfico acima, os visitantes únicos cresceram em mais da metade dos 50 maiores jornais dos EUA, mas em níveis diferentes para desktops e mobiles. Para 39 dos 50 sites estudados, houve queda entre os desktops – com 28 caindo 10% ou mais -, enquanto os visitantes únicos por meio de smartphones e tablets cresceram em 43 nos mesmos 50, sendo 10% ou mais em 35 deles.

Essa é a notícia boa. A ruim é que o tempo despendido pelos visitantes deste s sites – medida fundamental para os anunciantes – caiu entre os mobiles. No geral, até houve uma elevação do tempo em que os leitores ficaram nos sites em mais da metade dos pesquisados (em 32 houve acréscimo de 10% nas visitas por meio de desktops), no entanto, em 34 foi observada queda entre os aparelhos móveis.

Como dito acima, os acessos aos jornais por meio de aparelhos móveis superam em muito os oriundos pela versão impressa, apesar das pessoas dizerem que preferem ler os veículos impressos. Esta contradição fica muito clara aqui – dos 49 jornais que têm edição dominical (o Wall Street Journal não circula aos domingos), o número de visitantes únicos supera o de assinantes em até 78 vezes, segundo relatórios referentes ao terceiro trimestre de 2015. Esta discrepância mostra claramente o maior desafio dos jornais: transformar aquele internauta que dá com os costados no site por acaso – e por isso não despende muito tempo nele – em assinante, um cara que, em geral, fica mais tempo no sítio, lendo mais do que uma simples matéria.

 

RECEITAS

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Como a Associação Nacional dos Jornais dos EUA decidiu parar de divulgar as estatísticas de receita dos seus associados em 2013 (me pergunto o motivo…), os pesquisadores do PRC tiveram que usar outros dados para descobrir o faturamento dos jornais. Apelaram então as demonstrações das empresas com ações negociadas em bolsa (que, aliás, caíram de nove para sete nos últimos 10 anos). Estas companhias representam um quarto dos veículos em circulação por lá – não dá para calcular o total de receita, mas pode-se usar como parâmetro para o estudo de tendência.

Com base nestes dados, descobre-se que, em 2015, a indústria de jornais teve a sua maior queda em termos de receita desde o biênio 2008/2009, um tombo de 8% em anúncios (contra 15%, em 2008, e 27%, no exercício seguinte), com um minúsculo aumento de 1% no faturamento vindo da circulação. A situação poderia ter sido pior não fosse o crescimento das receitas de anúncios vindos das edições digitais. Segundo as cinco empresas que desagregam os dados entre estas e as não-digitais nos relatórios para a SEC (a CVM de lá), houve uma queda de 9,9% no faturamento nos anúncios “analógicos” contra redução de 1,7% nos digitais, em 2015. Dessa maneira, a publicidade digital passou a ser responsável por 25% do que entrou nos cofres das companhias nesta rubrica, crescimento de 8 pontos percentuais em cinco anos (gráfico abaixo).

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EMPREGO E NÚMERO DE VEÍCULOS

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Diante deste quadro, não é de espantar que o nível de emprego nas redações estadunidenses tenha caído. Os números com que a Pew trabalha são do censo realizado pela Sociedade Americana de Editores, cujo último levantamento foi realizado em 2014. Neste ano, a redução da força de trabalho foi de 10% em relação a 2013, quando já houvera um decréscimo de 3% em relação ao ano anterior. O número total de postos de trabalho nas redações dos EUA há dois anos atingia 32.900, uma perda de 20 mil postos de trabalho entre 1994 e 2004, representando 39% a menos jornalistas nas redações. O gênero, neste  caso, não fez diferença – as mulheres perderam tanto o emprego quanto os homens (mas continuam como minoria nas redações de lá – cerca de 35% são coleguinhas do sexo feminino. No quesito diversidade, os não-brancos perderam um pouco menos emprego, enquanto a percentagem deles continua em 13% nas redações.

Também era esperado o fechamento de jornais por dificuldades econômicas. Segundo os últimos números disponíveis, de 2014, havia 1.331 jornais com edições em dias de semana nos EUA, contra 1.457, em 2004 (-8,6%), redução que se estendeu àqueles que têm edições de domingo separadas, conforme o gráfico abaixo.

201606_State-of-the-News-Media-Report-2016 - número de jornais

 

 

Basicamente é isso. Como falei, porém, tem muito mais números de onde vieram estes. Dou a maior força para que você baixe o estudo pelo link lá de cima para dar uma estudada, pois, apesar das diferenças marcantes entre o mercado dos EUA e o do Bananão, alguns indicativos e desafios são os mesmos.

 

A abstenção vem aí

Mais uma prova da preguiça dos coleguinhas? Pois não. Semana passada houve a divulgação de mais uma das pesquisas da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), uma tradição na política brasileira há mais de uma década. Como vem acontecendo há tempos, o levantamento mostrou Dilmão à frente, ganhando no primeiro turno de todos – fácil contra Aécio e Dudu Campos, mais duramente quando Marina substitui Dudu -, o mesmo acontecendo no segundo.

No Datafolha, também tradicional instituto de pesquisa da Folha, que divulgou hoje (domingo, 23) um levantamento, Dilmão dispara com 47% das intenções de voto, quando enfrenta Aécio (18%) e Dudu (12%), e fica com 43%, contra Marina (23%) e Aécio (15%). Não vou botar o Lula e nem o Joaquinzão na roda, como fez o Datafolha, porque se desconfio que estatística desse tipo é ficção (aqui), botar quem nem está no páreo vira, para mim, ficção científica, tipo universo paralelo.

Os levantamentos da Folha e da CNT trazem um dado que foi tratado com ligeireza por todos – um pouco menos pelo jornal dos Frias -, mas que me parece essencial: a rejeição aos candidatos. Só que há discrepância significativa entre os números.

No Datafolha, os três principais candidatos – Dilmão, Aécio e Dudu – estão com índice de 30%, com Marina em 20%. Na pesquisa da CNT, porém, Dilmão, aparece com 37%, Aécio apenas com 1% a menos de rejeição, Marina apresenta 35,5%, e Dudu, 34%. Ou seja, estão tecnicamente empatados, como no Datafolha, mas com rejeição fora das margens de erro entre as duas pesquisas (a pesquisa CNT tem índice de erro de +/- 2,2%, enquanto a da Folha é +/2%, informação que você só encontra com lupa ao lado dos gráficos).

Problemas de metodologia à parte, mesmo com todos os candidatos da oposição fora da função de vidraça – no Executivo – há um tempão (Marina nunca o foi, na verdade), seus índices de rejeição são praticamente os mesmos de Dilma, que sofre bombardeio 24×7 de todos os grandes meios de comunicação do país.

O que isso indica? Na minha modesta opinião é um aviso de que a abstenção na próxima eleição geral vai bater todos os recordes e de longe. Já no segundo turno de 2010, ela chegou a 21% (dado do TSE), patamar jamais atingido antes. Aliás, uma definição: abstenção é o cara que não vai à seção eleitoral, não comparece mesmo, não o que vota nulo ou em branco. Assim, 1 em cada 5 eleitores simplesmente não se deu ao trabalho de sair de casa para ir “exercer seu dever cívico”, como de dizia lá nos antigamente, há quatro anos.

Uma parada aqui:

Há algum risco em não votar (veja aqui), mas nada que uma justificativa esfarrapada  e o pagamento de uma multinha não resolva (ano passado, essa multa foi de R$ 3,50, mas se o juiz eleitoral não for com sua cara, pode aumentá-la até…R$ 35,00!)

Voltando…

Como mostram os percentuais de rejeição obtidos pelas pesquisas CNT (principalmente) e Folha, a próxima eleição tem tudo para deixar aqueles 21% de 2010 comendo poeira. Afinal, se cerca de um terço do eleitorado rejeita um dos candidatos, a possibilidade de o total de abstenção avançar em direção a esse número – embora sem atingi-lo – é bem grande. Tão grande que valeria a pena, CNT e Folha botarem a possibilidade clara de abstenção nas futuras pesquisas e analisá-las em separado, detalhadamente (mas acho que não vão).

Seria um horror? Bem, sim e não. Sim, porque se, digamos, 1 em cada 4 brasileiros achar que não tem nada a fazer numa seção eleitoral, o/a presidente eleito em outubro/novembro próximos começa com um problema sério de representatividade – não será ilegítimo/a (nunca será, mesmo com um único eleitor comparecendo para votar, por ter concorrido a um pleito aberto), mas já começaria com a desconfiança absoluta de 25% dos cidadãos em idade de voto – ou seja, mais de 30 milhões de pessoas.

Não, porque o problema não será só dele/dela – é do mundo inteiro. No Chile, a abstenção na eleição geral, realizada ano passado, chegou a 60% (foi a primeira sem a obrigatoriedade do voto). Na França, em 2012, chegou a 20,5% (e tinha um monte gente querendo chutar o Sarkozy para fora do Eliseu). Nos EUA, no mesmo ano, o Obama só foi eleito por 25% dos americanos com direito a voto (lá, só vota quem quer mesmo, quem se registra para isso, e, entre esses, só 50% apareceram). Já na terra de Elizabeth 2ª, a abstenção, em 2010, atingiu 35%. Tirei esses números desse interessante artigo aqui, que aponta para o tamanho do buraco que está aberto bem no meio da representatividade política.

Importante, né? Valeria um intenso debate, certo? Várias matérias sobre o assunto, positivo? Pois é melhor pegar uma cadeira confortável para esperar – há uma grande possibilidade de matérias com essa abordagem simplesmente não rolarem. Pelo menos não no que depender da vontade de trabalhar dos coleguinhas.

Falando em (e de) guerra e terrorismo…

Estava eu comendo meus caquis (a Flor dos Ponte Preta comia goiabinhas, mas, além de não ser o tempo destas, prefiro caquis e peras) quando um rapaz chamado Rogério Floripa postou uma mensagem num artigo que escrevi sobre o documentário “Central Al Jazeera”, exibido no Festival do Rio (onde mais?), em 2004, o qual esquecera havia anos.

No post, ele indicava de onde baixar o filme. Foi o que fiz. Estou revendo “Control room” (o nome no original”), de Jehane Noujaim, e, em tempos de novo atentado nos EUA, com suas consequentes paranoias, está sendo bem interessante. Se você quiser ver – ou rever, embora eu duvide que tenha visto, já que o doc só foi exibido uma vez, no recém-inaugurado (na época) Centro Cultural da Justiça Federal, na Cinelândia – aqui vão algumas dicas:

1. O endereço: http://mcaf.ee/uli3v;

2. Há várias escorregadas nas legendas, mas nada que atrapalhe;

3. A minha crítica está aqui (no falecido, ou agonizante pelo menos, Mulitply) e dá para ver um erro meu (ou uma alteração nas legendas) – os nomes dos principais personagens aparecem da primeira vez em que são entrevistados, ao contrário do que eu notara na época.

Antipauta olímpica: o quadro de medalhas

O quadro de medalhas dos Jogos Olímpicos é uma cascata. Mais: é um filho da Guerra Fria. Ele nasceu em 1956, nos Jogos de Melbourne, fruto da primeira presença da União Soviética no evento, em Helsinque, em 1952. Os soviéticos mostraram que não estavam para brincadeiras, ganhando um monte de medalhas, em esportes de ponta, como futebol, vôlei, ginástica e nas provas de atletismo.

Diante de estreia tão ameaçadora em plena era macartista, os americanos resolveram fazer algo a respeito e os seus jornais inventaram o quadro de medalhas, aproveitando as informações tradicionalmente divulgadas pelo COI. Era uma maneira de dar uma abaixada na bola nos “vermelhos”, pois os sobrinhos do Tio Sam e seus aliados estavam presentes em mais esportes do que os soviéticos e o pessoal da chamada “Cortina de Ferro” – portanto, ganhavam mais medalhas.

O problema com a contagem do COI é que ela contém um erro metodológico – nas provas individuais, o Comitê atribui uma medalha por atleta – e, portanto, por país -, mas não faz o mesmo com os esportes coletivos, que contam apenas uma medalha, embora todos os atletas recebam a sua, como nos esportes individuais. Para os jornais americanos (e de todo o “mundo livre” – por favor, não ria, era assim durante a “Guerra Fria” – como o Brasil), esse erro veio bem a calhar, pois os russos, desde o início, mostraram-se fortíssimos no futebol (onde competiam com suas equipes principais, disfarçadas de times militares) e no vôlei (este, a partir de 64). Os americanos dominavam o basquete, é certo, mas os russos, já a partir de 52, começaram a competir seriamente, sempre faturando suas medalhinhas.

Assim, minha proposta de antipauta é a seguinte: os jornais brasileiros passarem a contar tantas medalhas quanto for o número regulamentar de atletas que disputam as competições nos esportes coletivos. Assim, seriam contadas 11 medalhas no futebol, seis no vôlei de quadra, duas no vôlei de praia e cinco no basquete – só para falar dos principais, mas valeria também para badminton, hóquei sobre a grama, pólo aquático e outros. Tenho a impressão que o quadro não chegaria a mudar demais, mas, creio, ficaria bem mais justo.

Barbas em molho agridoce

Golpe no Paraguai – com apoio do Merval, o imortal, e Folha, por enquanto -, greve de caminhoneiros na Argentina, rebelião de policiais na Bolívia…Apesar do perigo para a indústria, em termos de sobrevivência (geo)política é uma boa ideia essa dos atuais próceres do Mercosul se aproximarem dos chineses. Ao que tudo indica, os americanos perderam a paciência com a bagunça no quintal.

As voltas que o mundo dá

O Merval conta hoje, incrédulo, que os chineses admiram mais o capitalismo que os norte-americanos. Mas isso é “efeito novidade”, oras! Sabecumé: início de namoro é aquela paixão, mas três anos depois…Os chinas namoram o capitalismo há uns 30 anos, enquanto os filhos do Tio Sam estão casados com ele há 200 e já viram os resultados de longo prazo.

O pior é que o exemplo da descrença com o capitalismo no “grande irmão do Norte” vem do alto. Veja a matéria que saiu hoje na Agência Estado.

HOENIG: BANCOS “GRANDES DEMAIS PARA FALIR” PODEM CAUSAR NOVA CRISE

Charlotte, 12 – O presidente do Federal Reserve Bank de Kansas City, Thomas Hoenig, afirmou que se algumas instituições financeiras são tão grandes que não se pode permitir que vão à falência, então elas deveriam ser chamadas pelo que são: empresas patrocinadas pelo governo. Discursando durante a conferência anual da Associação Nacional dos Procuradores Gerais dos EUA, Hoenig disse que os maiores bancos precisam ser divididos em entidades menores, ou trarão o risco de uma nova crise financeira global.

“Quando os bancos se tornaram fundos de hedge, isso começou a criar essa enorme complexidade que trouxe o sistema abaixo”, disse Hoenig. Ele não falou em política monetária, nem sobre as condições da economia, limitando-se a dizer que o Fed deveria aprender com seu “erro” de manter as taxas de juro baixas demais na primeira metade da década de 2000, o que teria contribuído para uma expansão exagerada do crédito.

Recentemente, Hoenig, que se aposenta em outubro, tem feito várias advertências sobre o risco de aceleração da inflação, caso o Fed não passe a elevar as taxas de juro.

Durante a conferência em Charlotte, ele afirmou que a reação do governo à crise financeira não chegou a lidar com questões sistêmicas, o que deixou a economia vulnerável. Para Hoenig, a lei de regulamentação do setor financeiro Dodd-Frank, adotada em reação à crise, não vai cumprir seus objetivos, porque as maiores instituições financeiras se tornaram ainda maiores, mais poderosas politicamente e mais críticas em relação ao funcionamento e à regulamentação do sistema. Isso torna mais provável que elas acabem sendo novamente socorridas às custas dos contribuintes, acrescentou. Segundo ele, nem mesmo as exigências do acordo Basiléia III serão  suficientes para disciplinar os grandes bancos e evitar uma nova crise.

Hoenig disse ainda que como essas empresas estão operando sob uma garantia implícita do governo, elas deveriam ser consideradas apêndices do governo, ou empresas patrocinadas pelo Estado. Hoenig também defendeu o modelo “tradicional” de bancos pequenos ou médios – que, segundo ele, concorrem em uma “terrível desvantagem” com as instituições ” grandes demais para falir”.

“Eu não posso aceitar isso. Podemos mudar isso. Nós o fizemos depois da Grande Depressão, quando dividimos os grandes bancos”, acrescentou.