Atenção ao silêncio

“O homem é senhor de seu silêncio e escravo de suas palavras”. Ouvi diversas vezes este ditado árabe da boca de executivos que não gostam de falar com a imprensa. É um dito sábio, mas que, hoje, já não tem tanta validade, pois as pessoas não são mais senhoras de seu silêncio – perderam boa parte de sua posse.

A teoria da “espiral do silêncio” não é nenhuma novidade.  Em 2017, faz 40 anos que a socióloga alemã Elisabeth Noelle-Neumann a propôs. No entanto, na era das redes sociais, onde qualquer grupo minoritário pode berrar aos quatro ventos suas ideias, os meios de comunicação perderam uma parte significativa de sua capacidade de silenciar as minorias e mesmo de determinar totalmente a agenda social (“agenda setting”) – no Brasil, devido ao monopólio do Grupo Globo, esse poder ainda se mantém, mas em escala cada vez menor. Com redução da capacidade de dirigir a agenda social por meio do silêncio causada pelas redes, os meios de comunicação tradicionais tratam de atualizar a estratégia e partiram para o que se poderia chamar de “espiral do silêncio seletivo”. Esse tipo de manipulação é apagar alguns aspectos da realidade de modo a ressaltar outros, evitar que sejam mencionados ou levá-los ao esquecimento.

Abaixo dois exemplos do que quero dizer:

“Vento que venta lá, não venta cá” – Criado em 2004, o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia (Proinfa) tinha o objetivo de “promover a diversificação da Matriz Energética Brasileira, buscando alternativas para aumentar a segurança no abastecimento de energia elétrica, além de permitir a valorização das características e potencialidades regionais e locais”. Ou seja, fazer com que o país, aos poucos, deixasse de depender em demasia da energia gerada pela fonte hídrica (após Belo Monte, não haveria mais locais para construir grandes hidrelétricas com custos ambientais e financeiros razoáveis) e diversificar o “mix” de geração, botando na receita também a biomassa e as pequenas centrais hidrelétricas.

Por anos, os jornalistas atacaram o Proinfa acusando-o de atrasos, mesmo diante das explicações que um programa daquela magnitude, que visava também criar do zero uma cadeia produtiva inteira, estava sujeito a atrasos, mas que, em meados dos anos 10, tudo estaria pronto e seria muito importante para o país. O programa daria certo e realmente deu.

Derrotados pela realidade, os jornalistas calaram até que a ex-presidente Dilma Rousseff falou que uma característica única existente no Brasil – a de que os períodos de chuva e seca são perfeitamente complementares com os de menor e maior ventosidade – permitiria “estocar vento”. Queria dizer ela que, no período seco no país (entre abril e novembro), o uso de energia eólica permitiria economizar água nos reservatórios, reduzindo, assim, o perigo de sofrermos racionamento como em 2001, sem precisar elevar tanto as tarifas, o que é inescapável quando se usa térmicas a gás e óleo, combustíveis mais caros que a água. Aproveitando a tirada da então mandatária, os coleguinhas caíram matando, dando vazão aos deboches das redes sociais e ignorando as explicações dadas a eles por técnicos do setor elétrico.

Atualmente, o país passa, novamente, por um período de escassez de chuvas e as usinas eólicas têm dado importante contribuição à manutenção do suprimento de energia. O fato tem sido noticiado, mas não é mencionada, pela grande imprensa, a importância estratégica do Proinfa para que ele existisse, embora o seja, de passagem, pela alternativa.

Um caso superinteressante – Todos (talvez com exceção de alguns norte-coreanos) concordam que Kim Jong-Un é doido, pelo menos o suficiente para desafiar outro maluco, que, por acaso, é presidente dos Estados Unidos. Ok, mas será que só doideira explica o ódio que ele e seus compatriotas nutrem pelos EUA? Esse é o discurso que é vendido pelos estadunidenses, claro, mas não é preciso que outros o comprem, muito menos uma revista que se diz aliada da ciência e que deveria ser, consequentemente, duplamente cética. Infelizmente, não foi o que fez a Superinteressante nesta matéria.

Como você deve ter lido, o texto inteiro procura vender o ditador da Coréia do Norte como um louco que vai levar o mundo à destruição. Em momento nenhum, o coleguinha se pergunta o que teria levado um país inteiro a odiar tanto outro. É uma pergunta justa, a meu ver, tanto que foi feita por veículos insuspeitos de simpatia por Jong Un, mas que primam por um bom jornalismo, no caso da BBC e o Washington Post.

Ambos mostram que o ódio norte-coreano é bem fundamentado e vem da Guerra da Coréia, nos anos 50, quando a capital do Norte, Pyongyang, foi simplesmente destruída – não restou um prédio de pé após ataques nos quais, segundo um oficial de alta patente à época (citado nas duas matérias), os EUA bombardearam “tudo o que se movia na Coréia do Norte, sem deixar um tijolo sobre outro”, matando cerca de 3 milhões de pessoas, 10% da população. Ao não mencionar o motivo de tanto ódio (e também que os norte-coreanos várias vezes, nestes 60 anos, tentaram um acordo), o lado norte-coreano foi silenciado pela Super.

É bem complicado achar que foi por acidente este silenciamento. Primeiro porque seria extremamente fácil checar o “outro lado” e, principalmente, porque a revista não informa o leitor de que o autor do texto é um coleguinha que apresenta uma ligação muito forte com os Estados Unidos, como se pode ver no seu currículo no Linkedin. Esse alerta, a meu ver, é fundamental já que, diferente da BBC e do WaPo por motivos óbvios, o leitor não é informado da possibilidade do autor ter um “parti pris”.

Esses são apenas dois casos com que topei nos últimos 15 dias e que me pegaram por estar ligados a eles (trabalho na Eletrobras e vivi diretamente o primeiro, e sou assinante da Superinteressante, e não deixarei de sê-lo, no segundo), mas teria outros, caso tivesse me dedicado a procurar. O importante é o seguinte: não preste atenção apenas no que foi dito/escrito/mostrado. Fique atento/a ao que não o foi. Se não, você vai ser enrolado/a.

Mapa do tesouro: onde encontrar jornalismo de qualidade na internet

A Infoglobo mandou mais 30 embora na outra semana e passou os jornalistas que sobraram para nova redação, no prédio erguido na Marques de Pombal, fruto de uma operação pra lá de estranha e que deu até em demissão de poderoso. A medida de economia – por que se tratou disso, certo? – foi disfarçada pela desculpa de transformar a cultura do jornal de impresso para o “digital first”, um santo graal que nem jornais mais ricos e com direção bem mais competente, como NYT, Washington Post, The Guardian ou El País, alcançaram.

Como o desenvolvimento previsível da ação é uma queda ainda maior da qualidade do produto, os cidadãos terão que se virar sozinhos para ter acesso a jornalismo de qualidade – não apenas “conteúdo” supostamente do mesmo quilate. Aí bate a perplexidade: onde um jornalismo assim pode ser encontrado? Bom lugar para você começar é este levantamento divulgado em meados do ano passado pela Agência Pública e que continua sendo incrementado com a ajuda dos internautas. Quem quiser ir além, pode consultar este estudo oriundo do México, também de 2016, com indicações de toda a América Latina.

Esses dois estudos já bastam, mas como sou gato-mestre (jornalista sempre é, não tem jeito), ponho aqui uma listinha própria, que comecei a publicar na página da Coleguinhas na plataforma do Zuck. Não é exaustiva e tive como outro critério de escolha, além do que considero qualidade jornalística (que pode ser muito diferente do que você considera), a ausência de militância política explícita. Assim, veículos que admiro, acompanho e com os quais até contribuo, como Conexão Jornalismo, Tijolaço, GGN, Outras Palavras, Diário do Centro do Mundo, Sul21 e outros, ficaram de fora. Ok? Vamos lá:

Agência Pública: É dos poucos que não tem problemas de grana (um de seus financiadores é a Open Society, de George Soros). Mantém gente boa no seu conselho consultivo, como Ricardo Kotscho e Leonardo Sakamoto, mas quase fica de fora da lista pela mania, típica da mídia corporativa, de ouvir só um lado em alguns temas – na série “Amazônia em Disputa” (financiada pela norte-americana Climate and Land Use Alliance, mantida pelas fundações Ford, Packard (HP), Moore (Intel) e Cargill) só foi enfocado quem era contra hidrelétrica, por exemplo. No entanto, do jeito que anda o jornalismo no Brasil, e como eles só vacilam mesmo no tema meio ambiente, botei na listinha.

Agência Sportlight: É a caçula da lista, tendo começado há dois meses, e também um prodígio – a segunda matéria publicada (sobre o estranho crescimento da rede de restaurante Riba) já virou destaque na Veja-Rio. É tocada por Lúcio de Castro, um repórter multipremiado, e filho (aqui vai a primeira de uma série de avisos ao leitores sobre minhas ligações pessoais) do imenso, magnífico, Marcos de Castro. Ele foi um dos mais brilhantes jornalistas com que convivi. Por uns 15 dias, no Globo, tentou me ensinar a ser um bom redator – não conseguiu, evidentemente, mas não por culpa dele – e, anos depois, em protesto contra uma demissão injusta minha pela qual se sentiu responsável (não era), pediu demissão do JB em solidariedade.

Aos Fatos: Tendo como diretora de jornalismo a vascaína fanática Tai Nalon, o AF assume o estilo zagueiro-zagueiro do Odvan: checa as afirmações dos políticos, confrontando-as com dados públicos e atribui-lhes um selo: verdadeira, imprecisa, exagerada, falsa ou insustentável. Sem firula. O AF faz parte do International Fact-Checking Network (IFCN), que, como o nome diz, é uma rede internacional de checadores, aquela que foi chamada pelo Facebook para combater as notícias falsas. Bruzundanga-Bananão é representado no consórcio também pela Agência Lupa e a já citada Agência Pública.

AZMina – Sabe a doçura feminina? Não passou nem no bairro aqui. É a revista eletrônica de um projeto educacional voltado para conscientização, empoderamento (ok, também não gosto da palavra, mas o conceito é meio novo, daqui a pouco a gente acostuma), defesa e auxílio das mulheres. É extremamente focado o que faz a publicação ser muito consistente, apesar da multiplicidade e diversidade das colaboradoras.

Gênero & Número: As questões de gênero e o jornalismo de dados se encontraram, deram aquela mirada, se aproximaram e, de repente, apareceu este bebê. O G&N ainda está engatinhando, mas já virou xodó do Vovô Iv, ao ser tão promissor e necessário por enfocar o universo feminino e de outros gêneros partindo de dados.

Marco Zero Conteúdo – Os conterrâneos não negam a raça – vão direto ao ponto: “Para manter a independência, não recebemos patrocínios de governos, empresas públicas ou privadas. Por isso, precisamos da doação das pessoas que acham importante para a sociedade e para a democracia a existência de um jornalismo que investigue as questões com profundidade, qualidade e independência”. Tem parceria com a Agência Pública no Truco, a checagem de dados de declarações de políticos, mas voltado só para Pernambuco.

Meus Sertões: Mais Nordeste, dessa vez no semiárido. A ideia é “descobrir e contar histórias relacionadas às 1.133 cidades do semiárido brasileiro”, pois a região “apesar de sua diversidade, costuma ser retratada de forma preconceituosa pelos meios de comunicação, com ênfase na seca e tragédia. Nossa proposta é mostrar todos os aspectos da vida sertaneja, debater questões cruciais e promover a cultura da região”. Novo aviso: sou suspeito – o criador do site, Paulo Oliveira, é amigo de mais de 30 anos e um dos jornalistas que mais admiro.

Mulheres 50+ : AzMina é bacana, mas, como elas mesmo apregoam, se dirige às moças até 40 anos (provavelmente porque todas as suas mantenedoras têm menos do que essa idade). Só que, obviamente, a vida das mulheres (e nossa também, embora ninguém tenha me perguntado a respeito) não acaba aos 40 – alguns dizem mesmo que começa exatamente nessa idade, mas aí é exagero. Mulheres 50+ cobre a lacuna com competência e sensibilidade. Outro aviso: sou muito suspeito com esse aqui também – das sete mantenedoras do site, tive a imensa honra de trabalhar com seis, sendo fã de todas.

Nexo: É um dos meninos grandes da vizinhança, junto com a Agência Pública, mas, diferente desta, não especifica de onde vem a grana (desculpe, mas não dá para manter aquela estrutura de pessoal, administração e tecnologia na base do pinga-pinga de assinatura). Apresenta um conteúdo bem acima da média não só dos independentes como até mesmo da maioria dos jornalões, mas me chateia em dois pontos, que são interligados: a arrogância típica dos paulistas da USP e da Poli, na linguagem e abordagem dos temas, e a mania de tacar gráficos cheios de bossa na cara dos leitores sem contextualização, de uma maneira que só gente com alguma base de estatística consegue ler (e com dificuldade, às vezes).

Projeto Colabora: Também sou meio suspeito pra falar desse aqui por ser amigo de metade da direção e conhecer a outra metade, sem falar de um monte de colaboradores (há um monte muito maior). O foco é em sustentabilidade e inclusão social, mas faz incursões por outras áreas bacanas, sempre “com um olhar + criativo, tolerante e generoso”.

Como avisei antes – e dá para notar pelo número de suspeições -, é uma lista bem pessoal. Dou força para que você faça a sua, partindo ou não desta lista ou das publicadas pela Agência Pública e pela mexicana Factual. Com um pouco de paciência, ao fim do processo, você terá acesso a um conteúdo jornalístico de qualidade e sob medida, pelo qual poderá pagar sem se arrepender (Ei! Jornalista tem supermercado e condomínio para pagar também, amigo/a!).

FÉRIAS!
Após quase 21 anos, resolvi dar férias da Coleguinhas para vocês. Ao longo destes anos, sempre arranjei uma maneira de publicar algo aos domingos, estivesse em Londres, Curitiba, Istambul, Recife, Santorini ou São Miguel do Gostoso. Dessa vez, porém, resolvi parar mesmo e só retornar em março, após o Carnaval. Então, fique na paz e até a volta!

O presidente Trump, o jornalismo e nós

Vou continuar devendo o restante da análise dos dados da pesquisa da FSB sobre o consumo de mídia dos deputados federais. Não resisto a dar meu pitaco sobre o cataclismo que foi a eleição de Donald Trump para o cargo de homem mais poderoso do mundo, fato amplamente considerado como o fim do mundo conforme o conhecemos. No caso, meu palpite se junta a um dos subtemas mais amplamente debatidos nestes dias – como a mídia fracassou ridiculamente ao prever a vitória de Hillary Clinton, num novo caso “Dewey derrota Truman”.

 

De novo...

De novo…

Sobrou pra todo mundo e pra todo lado. Margaret Sullivan, ex-“editora pública” (algo com mais peso do que um simples ombudsman) do NYT e hoje colunista do Washington Post, afirmou que os coleguinhas norte-americanos botaram na cabeça que o sujeito não podia ganhar e simplesmente decidiram olhar para o outro lado quando viam uma multidão ululante de seguidores de Trump na sua frente. Segundo ela, os bem-educados, urbanos e liberais (lá isso quer dizer de centro-esquerda), moradores de Nova York, Washington D.C. ou da Costa Leste, não quiseram ouvir o que lhes gritavam os habitantes pobres – e, na maioria, brancos – dos estados do Cinturão de Ferrugem (Rust Belt), aquele grupo de estados que acabou dando a vitória ao bilionário, apesar de ele ter tido menos votos do que a concorrente (vá entender por que eles mantêm um sistema eleitoral do Século XVIII…)

Jim Rutemberg, o analista de mídia (é, tem isso lá) do concorrente New York Times, vai pelo mesmo caminho e chega mais longe ao escrever que “se a mídia falhou em apresentar um cenário político baseado na realidade, então ela falhou na sua missão fundamental”. E aí Rutemberg toca no ponto em que eu queria tratar aqui (supernariz de cera, hein?) ao dizer que “política não são apenas números”. Esse é o problema básico. Nada que envolva seres humanos é.

Para entender meu ponto é realmente necessário que você siga este link, que leva a uma matéria do Nexo, uma jovem publicação da qual gosto tanto que sou assinante. Eu espero você ir lá, rolar a tela, dar uma boa olhada e voltar. Vai que é realmente importante.

“Mas que porra é essa?!”, foi o que perguntei ao meu zíper quando vi essa página pela primeira vez. Pois é. Eu, um cara que gosta de dados, fiquei chocado com uma série de oito chiquérrimos gráficos dos mais diversos tipos completamente desacompanhados de quaisquer tabelas ou explicações, a não ser as legendas que os apresentam. Se você não for um analista de dados do IBGE duvido muito que consiga ler este monte de gráficos e decodificá-los em algo inteligível em tempo menor do que os 10 minutos que levei para entender o que estava ali e notar que: a) se você ler os gráficos na ordem da tela, tem uma grande chance de chegar à conclusão oposta ao que eles realmente mostram – que a PEC do Teto atinge o lugar errado se a ideia é mesmo acabar com o déficit público; e b ) que ainda faltam dois grupos de dados (e respectivos gráficos) fundamentais para uma avaliação precisa da atual Emenda Constitucional 55 (ex-241) – o gasto do governo com o pagamento de juros e a relação desse dispêndio com o total de despesas.

E olha que estou falando do Nexo, uma publicação nova e que se baseia em dados, como Aos Fatos, Lupa, Gênero & Número etc. Não é da mídia corporativa, que essa não apenas ignora a população, como fez a americana na eleição de Trump, como, quando presta atenção nela, é para atacá-la, como tem acontecido, por exemplo, com as ocupações de escolas e universidade públicas pelos estudantes.

Partindo do pressuposto que esses veículos não querem fazer o mesmo da mídia corporativa – ou seja, viver mamando nas tetas do Estado por meio de publicidade e jogando no cassino do mercado financeiro, usando o jornalismo como fachada -, talvez o que tenha movido o editor do Nexo que simplesmente tacou um conjunto de dados na página para o leitor virar-se como pudesse tenha a ver com que Sullivan diagnosticou: os profissionais que trabalham nestes veículos têm quase nada a ver com o resto da população brasileira, pois há pouca diversidade social entre eles. Assim, por mais bem-intencionados que sejam, o jornalismo que produzem tem quase tão pouco a ver com a realidade como o praticado pela mídia corporativa e não vai ajudar a muda-la e/ou esclarecer o cidadão (se é isso que eles desejam, claro). Este é ponto bem exposto por Danah Boyd, da New York University.

Há ainda um outro ponto que joga contra o jornalismo que luta para emergir no Brasil e tem a ver com a mesma bolha em que vivem os jornalistas dos novos veículos: eles são pautados pelos que têm o poder. A falta daqueles dois dados (e gráficos) que citei acima mostra bem este fato – como o governo só fala de despesas primárias, parece não ter ocorrido ao pessoal do Nexo que juros também fazem parte das despesas. Outra demonstração é que os jornalistas que gostam de trabalhar com dados ficam procurando pegar os políticos na mentira. Como a eleição de Trump demonstrou, isso não tem quase nenhuma importância – ele mentia em mais de 90% dos casos e elevou a mentira a uma forma distorcida de arte.

Como resolver esses problemas? Não creio que haja uma resposta única e mágica, mas conversando com uma coleguinha, especialista em trabalhar com jornalistas que usam dados em suas matérias, chegamos a uma conclusão óbvia – os jornalistas precisam não apenas trabalhar com dados, mas fazer com que eles façam sentido com a realidade em volta – e uma outra não tão óbvia, a de que os setores mais organizados da sociedade civil devem eles mesmos aprender a lidar com dados a fim de produzir conteúdos que falem de suas realidades e/ou pautar os veículos da Nova Mídia.

Creio que sem essas duas vertentes trabalhando para convergir, dificilmente o jornalismo sobreviverá, aqui e alhures, como uma atividade relevante num mundo no qual ele já perdeu grande parte do poder de influenciar que possuía há apenas duas décadas para redes sociais as quais, vamos ser francos, não estão nem aí para saber se algo que é publicado em suas plataformas é verdade ou não.

Jornais tentam manter a cabeça fora d´água

A experiente, embora ainda jovem, repórter dá um suspiro, depois de passar vários minutos digitando no laptop, após a coletiva. “Entrou no impresso!”, diz, mais relaxada, o que deixa seu rosto, já atraente, mais bonito. Passados alguns momentos, porém, ele volta a demonstrar tensão. “E agora, o que vou escrever para o on line?”, pergunta-se em voz alta.

É uma dúvida comum essa, mas que, na visão de um grupo de oito jornalistas do New York Times, selecionados pessoalmente pelo dono, Arthur O. Sulzberger Jr, é também um modo de pensar que precisa ser aposentado imediatamente. O time, liderado pelo próprio filho de Sulzberger Jr e editor de Metro (Cidade), Arthur Gregg Sulzberger, chegou a essa conclusão após seis meses repensando completamente o centenário diário da Grande Maçã, com o objetivo de fazê-lo sobreviver ao tsunami digital em que estamos mergulhados e, ainda por cima, surfar sobre ele.

O resultado foi o The New York Times Innovation Report, um relatório de 96 páginas, datado de 24 de março passado e que era para ser lido apenas pelos altos executivos (com um resumo comunicado aos empregados), mas a demissão da editora-chefe Jill Abramson, no cargo desde 2011, e sua substituição por Dean Baquet (aqui ), deve ter deixado sequelas e o relatório vazou em meados de maio, pouco antes do pé-na-bunda de Jill.

Se é possível sintetizar as conclusões de um relatório tão profundo, produzido por tanto tempo e baseado em centenas de entrevistas com coleguinhas da redação do NYT e concorrentes tradicionais e novos, essa síntese estaria no s parágrafos abaixo, que fazem parte do terceiro capítulo (“Strenghtening our newsroom”):

In the coming years, The New York Times needs to accelerate its transition from a newspaper that also produces a rich and impressive digital report to a digital publication that also produces a rich and impressive newspaper. This is not a matter of semantics. It is a critical, difficult and, at times, painful transformation that will require us to rethink much of what we do every day.

Our leaders know this and we have taken steps in these directions. But it has become increasingly clear that we are not moving with enough urgency.

Depois de ler o documento – não é tão complicado, já que eu, com meu inglês “the-book-is-on-the-table”, o consegui sem grandes problemas -, você pode achá-lo o máximo (como o Niemam Journalism Lab, de Harvard) ou um desastre (como o Politico.com), mas não poderá negar que é um trabalho de fôlego e absolutamente necessário para um jornal que realmente se preocupa com o futuro de seu negócio.

Essa, porém, não parece ser a opinião da Associação Nacional dos Jornais (ANJ). Em congresso realizado semana passada, os patrões definiram quais são suas estratégias para encarar o vagalhão cujas primeiras ondas já chegam às praias de Pindorama: concentrar informações da audiência de cada jornal, perfil dos leitores, formatos básicos, tabela comercial e o contato direto para a publicação e facilitar a compra de mídia. E também fornecer uma rede de sites dos jornais para vender alguns espaços publicitários de forma unificada. É como se os caras tivessem lido uma tradução ruim do relatório do NYT…

Mas, otimista como sempre, ainda tenho esperança de que nem tudo esteja perdido. Nos dias 15 e 16 de novembro, em São Paulo, a revista de João Moreira Salles promoverá o Festival Piauí de Jornalismo, cuja pergunta básica é “Onde isso vai parar?” . Foi no blog do evento – assinado pela jovem e competente Luiza Miguez – que descobri a dica para a análise do Nieman Lab sobre o documento do NYT e, nele, o relatório completo, que segue aqui (atenção, não pode ser impresso– tem que ser lido em digital, mas dá para fazê-lo pelo tablet, baixando o app do Scribd, ou em pdf Alto Conselheiro fez a gentileza de baixar o pdf para facilitar a vida de todos).

Aliás, no mesmo blog, já se pode ler (aqui) uma primeira consequência do Innovation Report (e da queda de Jill Abramson), o qual defende, explicitamente,  a abertura de buracos no muro que afasta a redação do “business side”, sempre encarada como tão necessária quanto a da Igreja do Estado, seguindo os passos do seu mais notório concorrente tradicional, o Washinbgton Post (aqui), mas, por enquanto, só no on line.  Como se pode ver nessa matéria, a “publicidade nativa” é um passo adiante dos nossos conhecidos “publieditoriais”, por ser, em teoria, matérias verdadeiras, só que pautadas para buscar anunciantes.  O próximo passo, como teme John Oliver no vídeo que consta da matéria da Luiza, é tornar evanescente – para dizer o mínimo – o que é matéria real do  que é anúncio. E aí sim, será decretada, de vez, a morte do jornalismo como conhecemos há pouco mais de 100 anos.

O jornalismo se move, mas os coleguinhas…

Dois eventos na semana que passou demonstraram a dificuldade dos coleguinhas em relacionar fatos, mesmo quando eles são próximos pelo tempo e pelo assunto, que, inclusive, é seu ganha-pão. Os dois fatos foram a entrevista dos “ninjas” Bruno Torturra e Pablo Capilé no Roda-Vida, da TV Cultura, e a compra do Washington Post por Jeff Bezos, o criador da Amazon.

O ponto de conexão óbvio entre os dois fatos é que ambos foram protagonizados por gente do mundo digital e em rede que avançaram sobre a comunicação do mundo analógico e hierarquizado O problema parece ser a falta de uma visão mais larga por parte dos jornalistas da grande imprensa. Considere o que aconteceu no Roda-Vida. Durante todo o tempo do programa, a bancada, composta por seis jornalistas que, claramente, se consideram papas da profissão, procurou desqualificar a Mídia Ninja, pondo em questão o fato de o coletivo Fora do Eixo, sua nave-mãe, ter recebido verba de R$ 800 mil da Petrobras, obtida em edital público. Para os papas, isso fere de morte a integridade do MN. Eles, obviamente, esqueceram as verbas governamentais de publicidade recebidas pelos meios de comunicação que lhes pagam os salários.

O meu momento favorito, porém, foi quando a ombudsman da Folha, Suzana Singer, atacou o MN por ser parcial na cobertura das manifestações e atos dos movimentos sociais. Capilé mandou no ângulo ao lembrar –  sem citar nomes – do escândalo do propinoduto tucano escavado no Metrô de São Paulo, dizendo que, no código de imparcial da grande imprensa, um assalto aos cofres públicos como esse é qualificado por cartel ou por ação de quadrilha, dependendo do partido que o praticou. Aí, o apresentador Mário Sérgio Conti tomou as dores e defendeu a tal imparcialidade dos grandes veículos, talvez já pensando de onde virão os próximos salários, já que este Roda-Vida com o MN era o último que ele apresentava: fora demitido pela TV Cultura, sendo substituído na condução dos programas futuros pelo imparcialíssimo Augusto Nunes. Uma maravilha.

O que fez toda essa falta de entendimento mais significativa – e que mostrou o quanto os papas-coleguinhas estão fora da órbita do planeta Terra –, porém, aconteceu fora do estúdio. Numa daquelas ironias que me fazem amar a História de paixão, no mesmo dia em que o Roda-Viva foi ao ar, Jeff Bezos comprou a preço de banana em fim de feira (US$ 250 milhões) o Washington Post, um dos três mais importantes jornais dos EUA.

Obviamente Bezos não é ninja, mas não é esse o ponto. O essencial é que um ser proveniente completamente do mundo digital em rede adquiriu, na bacia das almas, um meio impresso ícone – o jornal que derrubou um presidente dos EUA, catzo! – e obrigou os donos do outro jornal ícone, o New York Times, a mandar um email geral para a redação admitindo estar “atordoados” com a invasão do ser digital, mas assegurando que o NYT não será vendido. Hipótese esta que tinha feito as ações do jornal subirem em Wall Street, et pour cause.

Como a maioria esmagadora dos coleguinhas brasileiros não conseguiram correlacionar os fatos, fica-se com a certeza de que eles não estão sentindo o chão mover-se rápido sob seus pés e muito menos sacar a direção que ele vai tomando. Se não ficarem espertos, serão jogados para o alto, indo fazer companhia àqueles desenhistas de iluminuras de Bíblia pré-Gutemberg.

Ah, entendi…

Ok, saquei o motivo pelo qual os veículos de comunicação brasileiros estão caladinhos a respeito do gigantesco “esforço de reportagem” do ICIJ que está revelando as entranhas dos paraísos fiscais. A luz se fez em minha mente ao ler o que vai abaixo:
” Clarice, Leo and Fabio Steinbruch

Businessmen

Details: Members of one of Brazil’s richest families, which owns large steel and textile companies and a bank.

Offshore business: Shareholders and directors of Peak Management Inc. (2007) in the British Virgin Islands.

Comment: Leo Steinbruch told ICIJ that “Peak Management exists, is active, it’s been declared on its owners’ tax forms and has been duly disclosed to the Brazilian Central Bank as a Brazilian investment abroad.”

 

Tirei o texto daqui. Você também pode ver uma animação bem divertida sobre como funcionam os esquemas dos paraísos fiscais, com a assinatura do Washington Post.