Empreiteiras e veículos de comunicação, uma longa relação

Hoje vai ser rápido aqui, mas muito mais longo fora. Não sei se mencionei aqui – no facebook tenho certeza de que sim -, estou lendo “Estranhas catedrais: as empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, 1964-1988”, tese de doutorado na UFF de Pedro Henrique Pedreira Campos, professor do Departamento de História e Relações Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, editada pela EdUFF.

A pesquisa trata dos primórdios da relação entre as empreiteiras que hoje estrelam a Lava-Jato e o Estado brasileiro no tempo da ditadura civil-militar de 1964 (aquele tempo em que não havia corrupção no país, segundo alguns). Não vou enganá-lo/a – é leitura difícil mesmo, até por ter havido pouco esforço por parte dos editores para apagar as origens acadêmicas da obra. Estou há dois ou três meses capinando sentado em cima dela e só cheguei a cerca de 60% das 444 páginas (é certo, porém, que fiz leituras paralelas que lhe paralisaram o avanço por uns tempos). No entanto, se você quiser não falar muita besteira sobre a relação de odebrechts, queiroz galvões, andrades gutierrez et caterva com as sucessivas administrações do Brasil, a obra é incontornável.

Para os jornalistas, o capítulo 3 é o mais interessante por enfocar as relações entre a imprensa e as empreiteiras. Nesta parte é que encontramos apanhado sobre como os empreiteiros corrompiam – não há outra palavra – os grandes veículos de comunicação. É este subcapítulo que copiei do livro e disponibilizo em pdf aqui. São umas sete páginas que valem a pena ler.

Os opostos (?) se encontram diante da lei

“Ninguém pode nos obrigar a simplesmente aplicar o que está escrito na lei”

A frase acima não foi dita pelo chefe do tráfico do morro do Morro do Cavalão ou qualquer outro criminoso, mas pelo reitor de Universidade Federal Fluminense, Roberto Salles, e publicada ontem (29), num “levanta-e- corta”, na página 15 de O Globo (“levanta-e-corta” é um termo que não sei se existe para um tipo de simulacro de entrevista em que o personagem diz coisas que a publicação não tem coragem de afirmar nem em editoriais). O magnífico reitor reclamava do pouco tempo que, supostamente, tem para cumprir a lei da cotas, aprovada pelo STF, inclusive com o voto a favor do super-herói das redes sociais, Joaquim Barbosa.

O que será que estão pensando o alunos de Direito da UFF – para não falar do próprio Joaquim – diante do conceito que a o magnífico Salles tem da lei?

“Rede da democracia”

Uma explicação para o comportamento estapafúrdio dos meios de comunicação relatado abaixo pode ser encontrado num livro sobre história da mídia. É o “A rede da democracia – O Globo, O Jornal e o Jornal do Brasil na queda do governo João Goulart”, escrito pelo historiador e cientista político Aloysio Castelo de Carvalho e editado pela EdiUFF/Nitpress.

Na obra, Carvalho analisa a ação dos três jornais, unidos formalmente numa rede que repercutia uma cadeia que unia rádios do grupo. O historiador e sociólogo demonstra como os três grupos de mídia trabalharam para solapar a legitimidade do governo legalmente eleito e do Congresso, abrindo caminho para o golpe de Estado de 64.

O processo é muito semelhante ao utilizado atualmente pelo mesmo Globo, Folha e Estadão, com uma  diferença essencial, contra os barões da mídia: naquela época, havia a Guerra Fria. Graças a ela, os meios de comunicação puderam articular facilmente um discurso contra seus alvos, em cima do criado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais (Ipes), contando com a enxurrada de dinheiro e a capacidade operacional do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), ambas instituições financiadas diretamente pelos Estados Unidos. Hoje, a grana anda curta e ninguém leva a sério a tentativa de transformar Irã e Hugo Chavez em vilões que ameaçam o “mundo livre” (?!!).

Recomendo fortemente o livro para quem se interessa em conhecer a história da mídia brasileira e a matriz ideológica que ainda hoje move os barões midiáticos tupiniquins e a esmagadora maioria dos coleguinhas colocados em postos chave na administração da redação e em colunas. Um aviso, porém: como é escrito por um acadêmico (que, no entanto, chegou a trabalhar na CBN), não espere encontrar a prosa simpática e escorreita de um Laurentino Gomes. Não que seja uma obra difícil de ler, mas é bem mais pesada.