“O mercado de notícias”, Platão e o sindicato

Em cartaz nos cinemas da cidade – em dois, para ser exato, e não se sabe por quanto tempo, portanto é melhor correr – “O mercado de notícias – um documentário sobre jornalismo”, do gaúcho Jorge Furtado, premiado diretor de “Ilha das Flores”, “O homem que copiava” e outros. O filme une entrevistas com 13 nomes consagrados do jornalismo brasileiro a uma encenação, especialmente realizada para o filme, da peça com o mesmo nome, do inglês Ben Jonson, publicada em 1625 e atualíssima.

O doc é muito rico e nem vou tentar dar uma geral sobre ele – até porque você pode sacudir essa preguiça aí e ir no site da obra (http://www.omercadodenoticias.com.br) e ver por si mesmo/a -, mas o que mais me chamou a atenção, e me deu um tremendo alívio e um tanto de aflição, foi ver que mesmo luminares como Jânio de Freitas (único dentre os entrevistados com que tive o prazer e a honra de dividir uma redação), Raimundo Pereira, Mino Carta, Renata Lo Prete, Bob Fernandes, Paulo Moreira Leite, Luis Nassif e os outros, estão tão perplexos sobre o futuro da profissão quanto essa besta aqui.

As visões desses nossos coleguinhas mais proeminentes – e sua perplexidade, que fica ainda mais evidente nas entrevistas completas existentes no site – é que faz com que ver o documentário de Furtado seja fundamental para os que estão envolvidos, direta ou indiretamente, mas de maneira próxima, com este arranca-rabo sindical. Vendo o filme, firmou-se em mim a impressão, que já havia compartilhado com um conselheiro em conversa inbox, de que essa briga é um combate de sombras, uma analogia referente ao mito da caverna platônico – bolas, você sabe, viu na faculdade…Segundo Platão, vivemos num mundo que é apenas um reflexo do mundo das ideias, como se vivêssemos numa caverna e o que enxergássemos fossem apenas sombras nas paredes dela.

No caso do sindicato, acho, brigamos por uma sombra, já que o que deveria estar sendo discutido é o que é o jornalismo hoje no Brasil (e no mundo, se der tempo) e para onde ele se encaminha. Os coleguinhas que aparecem no filme estão tateando à procura da saída dessa caverna (bem, a maior parte, um ou outro parece estar bem confortável dentro do buraco) e isso é bom, mas seria melhor se todos nós fizéssemos o mesmo.

Nó no Planalto

O coleguinha Thomas Traumann entrou numa bruta encrenca. Pelo que se lê nos jornais (o que nem sempre é confiável, bem sabemos), ele substitui a também coleguinha Helena Chagas na Secretaria de Comunicação da Presidência da República para melhorar a relação com os grandes veículos de comunicação e atender aos reclamos do PT, que defende mais verbas para a mídia alternativa e regional, além de mais decisão na defesa do governo, sempre atacado pela mídia grande. Ou seja, o ex-porta-voz da Presidência foi escalado para a fazer a coisa e seu contrário.

O nó na relação de qualquer governo com qualquer veículo de comunicação no Brasil é e sempre foi um só: a grana da publicidade. O governo federal é um dos maiores anunciantes do país – contando os anúncios institucionais e os de empresas e autarquias ligadas a ele, a verba chega, hoje, a cerca de R$ 2,6 bilhões. Só a Secom tem R$ 150 milhões para usar (a lista, com os respectivos “budgets”, divulgada pela própria Secretaria, está aqui e aqui a lista dos maiores anunciantes no primeiro semestre de 2013). Assim, a savana toda fica de olho para onde este leão vai se mexer a fim de saber para que lado correr.

Até 2002, reinava calma entre a bicharada. Todo mundo sabia para que lado o leão ia – para junto dos grandes veículos de comunicação do eixo São Paulo-Rio-BSB. A situação foi mantida ainda durante uns anos do governo Lula, mas aí houve duas constatações:

1.Os veículos recebiam a grana de sempre, mas não mantinham o freio de mão puxado nas redações, como era praxe, e as deixavam bater a valer no governo;
2.A internet emergiu com força como mídia, tornando-se relevante e, portanto, apta a receber mais dinheiro.

Diante deste quadro, os governistas, mais fortemente a partir do segundo governo Lula, passaram a tirar a grana do pessoal de mídia impressa do Eixo RJ-SP-BSB , passando-a para os veículos regionais e da internet. Adivinhe o que aconteceu? Pois é. Os leões começaram a urrar uma barbaridade – junto com alguns publicitários -, dizendo que o governo abandonara os “critérios técnicos” na distribuição da verba publicitária.

“Que critérios técnicos são esses?”, perguntará você Os veículos responderiam com um palavreado bacana, mas, basicamente, quer dizer que quem tem mais audiência leva mais verba publicitária do que quem tem menos. Parece um critério razoável, só que provoca distorções – levado do pé da letra, tal critério faria com que, entre os jornais, o mais aquinhoado seria o Supernotícias, de BH, o de maior circulação do país. Só que nenhum anunciante sério ou governo – fora, talvez, o varejão popular – o programaria numa campanha pelo mesmo motivo que não programavam o finado “Notícias Populares”, de São Paulo (mas “O Tempo”, o quality paper do mesmo grupo, é lembrado). Além disso, não dá para comparar o mercado do Sudeste com o do Nordeste, por exemplo.

Tem também uma questão conceitual: um governo democrático deve lutar para aumentar o número de vozes atuantes na sociedade a fim de que o maior número de interesses que nela existem sejam vocalizados. Como no Brasil não há empresas públicas de comunicação da qualidade, tradição e força de uma BBC ou mesmo de uma PBS (EUA) – a EBC bem que tem avançado nesse caminho nos últimos anos, mas ainda está longe demais desse padrão -, a opção mais efetiva é colocar mais dinheiro da publicidade em veículos regionais e internet, principalmente nesta, para dar uma equilibrada.

Bom, com a saída de Lula e a chegada de Dilma, Franklin Martins, homem forte do N-D na comunicação, deixou o Planalto, chegando Helena Chagas. Tendo feito toda sua carreira nas grandes redações, ela sabe da importância dos anúncios do governo federal para a boa saúde financeira delas, mesmo as maiores (as médias e pequenas, então, só sobrevivem graças a esse dinheiro) e, assim, lenta, mas seguramente, foi desconstruindo o que fora montado por Franklin. O PT não gostou, mas fazer o quê, se não tinha mais interlocução na área?

A situação começou a mudar em meados do ano passado. Depois de ter sido pega de surpresa e tomado uma coça nas redes sociais durante os protestos de junho (só apanhou menos que a grande mídia e os governadores de Rio e São Paulo), Dilma, aconselhada por N-D, trouxe Franklin de volta – aqui). A mudança fez o PT ganhar moral e a pressão ganhou corpo (um bom resumo da posição dos petistas está nesse texto do deputado conterrâneo Fernando Ferro). Aí, foi só esperar que a Helena pisasse em falso em meio ao serpentário que é Brasília – o mole acabou sendo a cascata da escala em Lisboa durante o voo presidencial Davos-Havana (post abaixo). Helena dançou.

Então, é essa a situação que o Traumann vai encarar. Vamos ver como ele desata esse nó, sem mexer com a distribuição de verbas publicitárias entre os meios. Afinal, tirar dinheiro do meio TV não só não é solução em ano nenhum, ainda mais em um eleitoral, como, ao contrário, seria mais um problema. Ou seja, vai ser dureza.

Jornalismo global de qualidade, segundo o The Guardian

Semana passada, pus na roda um texto de Allan “Newsosaur” D. Mutter sobre o financiamento do jornalismo num mundo cada vez mais digital (nem vou pôr link porque está logo abaixo). Só esqueci de informar que ele me foi passado pelo Alto Conselheiro luso-brasileiro Luiz Carlos Mansur, baseado em Portugal e responsável também pelo toque desta semana.

A matéria assinada por Ken Auletta para New Yorker é sobre o editor-chefe do The Guardian, Alan Rusbridger, mas vai bem além de um perfil, entrando pelos embates que o jornalismo de qualidade, por definição, deve ter com o poder político em nome do interesse público (e não os seus travestidos como acontece aqui), incluindo o Caso Snowden, e pelo futuro global deste tipo de jornalismo. O texto, como sói acontecer com os da New Yorker, é looongo e, apesar de superbem escrito (como também sempre acontece com o que é publicado pela revista norte-americana), por isso um tanto cansativo de ler numa tela de computador, mas vale muito, muito a pena a leitura.

Então, vamos lá, clique aqui. E valeu, Mansur.

Cinco pontos sobre pluralidade na mídia

Alguns rápidos comentários sobre pluralidade na mídia:

1. Nessa briga entre o governo argentino e o grupo Clarín todo mundo é bandido. Na Piauí desse mês, doído texto da coleguinha portenha Graciela Mochkofsky lembra que, até meados de 2008, o Clarín era aliado dos Kirchner, sendo beneficiado por verbas de publicidade milionárias e informações exclusivas. Mudou de lado quando achou que os K. estavam no fim da linha. Errou e agora está pagando.

2. O Clarín diz que, se os Kirchner detonarem o grupo, terão praticamente controlado a mídia argentina como um todo. Ora, pipocas, se um governo pode controlar a mídia de um país dominando apenas um grupo, segue-se que há uma concentração indecente no setor, correto? Então, onde está a pluralidade da imprensa exigida por um estado realmente democrático?

3. Por falar em pluralidade da mídia, Barbosão deu uma barretada à esquerda ao falar do assunto semana passada. O cara é cada vez mais candidato.

4. Aliás, desde que se manifestou dessa forma sobre o assunto, Barbosão deixou de frequentar a charge da primeira página do Globo, onde aparecia, quase diariamente, sempre vestido de “Super Joquim”.

5. Voltando ao assunto em pluralidade democrática da mídia, está rolando uma campanha em favor do Projeto de Lei da Mídia Democrática. Não, não é mais uma daquelas campanhas virtuais estilo Avaaz. É iniciativa de lei popular mesmo, para virar marco legal de verdade – ou seja, tem que arrumar 1,3 milhão de nomes, com assinatura e CPF (será que o Barbosão assina?). Mais sobre o assunto aqui e o projeto é esse.

Olhando para o lado errado

Enquanto a galera se distrai com Nina, Carminha e Joaquim Barbosa, a carruagem com o carregamento estratégico passa ao largo, despercebida. Aqui e, também, aqui e aqui.

Um julgamento realmente importante

Você acha que o chamado “mensalão” (aliás, já provaram que existiu?) é um julgamento complicado? Que é decisivo para o futuro político do país? Então dá uma olhada nesse que aguarda na fila do Supremo e pense de novo.

O Globo e o metrô de São Paulo

Alta Conselheira reflete sobre a pouca importância concedida pelo Globo para o acidente no metrô de São Paulo, que feriu 103 pessoas, ontem.

“Você viu o espaço ridículo que O Globo destinou hoje ao acidente no metrô de São Paulo? Não valeu nem primeira página. Imagine o carnaval que a Folha e o Estadão fariam se tivesse acontecido no Rio… Mas a verdade é que, para além da mania da imprensa paulista de supervalorizar as desgraças do Rio, esse acidente tem uma dimensão como notícia bem maior do que O Globo enxergou. Essa miopia pode ser mais um sintoma do excessivo regionalismo a que o jornal se confinou nos últimos anos, tão excessivo que a zona norte do Rio é quase São Paulo na atual visão editorial vigente na Irineu Marinho. No entanto, tema para você pensar na Coleguinhas: não teria também a ver com o fato de o metrô de SP ser estadual e estar, portanto, há 20 anos nas mãos dos tucanos?”

Minha resposta à Alta Conselheira:

“Olha, creio que são as duas coisas. O Globo, há alguns anos, decidiu focar sua cobertura no Rio, por contenção de despesas e também como espécie de rendição à internet.

Só que o Rio do Globo acaba na Glória – vai até o Centro, no máximo, para shows na Lapa e desabamentos, e a Niterói em caso de crimes. O resto é território do Extra (tem até matérias assinadas pelos repórteres de lá, quando algum crime mais excepcional acontece neste sertão carioca).

No caso de São Paulo, há, sim, enorme cuidado em noticiar qualquer coisa negativa – isso quando noticiam. Muitas vezes descubro algum descalabro administrativo ou desastre maior quando olho, por acaso, a Folha ou Estado”

A Conselheira ainda ficou em dúvida. “Mas sabe que me pergunto também se não foi mera incompetência…”

Eu de novo:

Não acredito. Acho que foi de caso pensado. Pelo que aprendemos na faculdade, a primeira colisão de trens no maior metrô do Brasil, com 103 feridos é mais importante do que uma tetraplégica que move, pela primeira vez, por meio de impulsos cerebrais, um braço mecânico, em Rhode Island (aliás, o local da Universidade de Brown não está na matéria. Tive que ver no Google).”