Vamos à última seletiva para o King of the Kings-2017!

 

Ano Novo, tradição mantida: a Coleguinhas começa 2018 com as colunas dedicadas à escolha das maiores cascatas do ano que passou. Nesta semana, serão escolhidas as últimas concorrentes ao King of the Kings-2017 e, no dia 21, começará a eleição da grande vencedora do único prêmio brasileiro que reconhece os coleguinhas que tanto batalham pela esculhambação do jornalismo do Brasil. Paralelamente, com a indicação das últimas concorrentes, saberemos qual a redação que venceu o Prêmio Boimate, que homenageia a equipe de coleguinhas que mais fez, em conjunto, pela detonação da própria profissão em 2017.

Antes de começarmos a votação da quarta seletiva, aqui vão as regras:
1. Você pode votar em até três cascatas.
2. O pleito termina no domingo que vem (14 de janeiro).

Vamos então as cinco concorrentes:

1. Veja já tem matéria pronta para condenação de Lula

2. Folha demite humorista depois de ele ser atacado em redes sociais

3. Jornal Nacional torna glamourosa a necessidade de pobres terem de usar lenha para cozinhar. (TV Globo)

4. Mídia esconde depoimento de advogado que expõe tráfico de influência na Lava-Jato. (Todos)

5. Mídia apoia reforma da Previdência em troca de anúncios (Todos)

 

Ninja 1 x 0 Folha e o fim do jornalismo. Ou não.

Vou dar uma paradinha nas análises dos dados do IVC sobre a circulação de jornais e revistas (falta só a IstoÉ) para falar rapidamente de dois eventos que, a meu ver estão relacionados: o enésimo passaralho na Folha e o engajamento da página da Mídia Ninja no facebook superando o do jornal dos Frias, do Estado, do Globo e da Veja somados. Como em geral ocorre nos pós-passaralhos, houve choro, ranger de dentes e vaticínios mais ou menos apocalípticos sobre o fim do jornalismo. Discordo. O jornalismo não vai acabar. O que está indo para o espaço não é ele, mas o modelo de negócios em que as empresas jornalísticas se baseavam.

Abaixo vai uma lista de links para os textos (e imagens) que baseiam a minha afirmação (desculpe, mas você vai ter um trabalhinho também…):

“Como o Facebook engoliu o jornalismo” – É parte da palestra ministrada pela fantástica Emily Bell, diretora do Tow Centre for Digital Journalism da Columbia Graduate School of Journalism, no Centre for Research in the Arts, Social Sciences and Humanities da Universidade de Cambridge, onde é professora convidada no período 2015-2016. O texto foi escrito antes de Mark ter mudado de ideia e meio que colocado de lado o projeto de ser o canal de distribuição dos veículos, muito provavelmente por ter visto que não precisa mais deles.

“O jornalismo nunca foi um produto comercial” – E por que Mark pode acreditar que não precisa mais dos veículos? A resposta está nesta entrevista de Robert G. Picard, do Reuters Institute, da Universidade de Oxford, que, como eu, crê que o jornalismo pode sobreviver às empresas que editam jornais, desde que os jornalistas façam o seu trabalho direito (o que, no Brasil, vamos convir, não acontece há anos).

“Todos querem seus dados! O WhatsApp não me deixa mentir” – Neste link vem o aprofundamento do que Picard menciona acima – que os anunciantes podem chegar melhor ao público sem precisar pagar às editoras por isso – e fará com que o valor do trabalho do jornalista caia cada vez mais se os profissionais insistirem em viver num mundo que entrou em colapso (aliás, o veículo em que esta matéria foi publicada é um exemplo de um caminho pelo qual o jornalismo e os jornalistas podem enveredar para sobreviver).

“Quem escolhe o que você lê?” – O mundo novo, porém, traz perigos ainda maiores do que o antigo, conforme explica este vídeo, parte de uma série sobre os riscos que corre a internet (em um veículo que aponta outra vertente para o futuro do par jornalismo/jornalistas).

“Dear Mark. I am writing this to inform you that I shall not comply with your requirement to remove this picture” – Quer um exemplo do perigo mencionado no vídeo? Pois tome este, recentíssimo, da semana passada, que aconteceu na Noruega e não acabou por aí – seguiu com uma recomendação de que, para evitar este tipo de problemas, o Facebook…contratasse jornalistas! Só que Mark não acha uma boa ideia – aliás, pensa exatamente o oposto.

 

Invasão da grande área

Uma movimentação muito importante aconteceu na semana passada. A Turner Broadcasting System (TBS) comprou a programadora Esporte Interativo, que, como o nome diz, é especializada em esporte. O negócio é importante porque, além de veicular sua programação esportiva pela TV paga, pela Banda C (parabólica) e por OTT (está na grade do Netflix), o EI também transmite na TV aberta, por meio de uma geradora pertencente à TV Eldorado, empresa do Grupo Estado de São Paulo, localizada em Santa Inês, Maranhão (é isso mesmo, os Mesquitas ganharam uma geradora na terra do Sarney no tempo do FHC), que transmite para 22 cidades, inclusive para São Paulo capital, o maior mercado publicitário do país.

Não foi preciso nem 24 horas para a Abert, presidida por Daniel Slavieiro, diretor-geral do SBT em Brasília, botar a boca no trombone afirmando que a compra é ilegal. A alegação é que o artigo 22 da Constituição não permite que estrangeiros detenham mais do que 30% das ações de empesas de empresas de comunicação que detenham concessões de TV aberta. A Turner responde que ela não é dona de uma empresa assim, mas de um canal de esportes, como é da Warner ou da CNN, por exemplo – a TV Eldorado, a geradora, continua dos Mesquita.

Agora a situação está nas mãos do Ministério das Comunicações, ou seja, do ministro Ricardo Berzoini, aquele que tem prometido quebrar o monopólio da mídia. Ele, por exemplo, pode argumentar com a Abert que esta é uma ótima oportunidade de regulamentar de vez o artigo 222 da Constituição, tão ciosamente defendida pela entidade, que, no entanto, há 25 anos consegue impedir que a parte referente ao combate ao monopólio e à regionalização da programação do mesmo artigo seja regulamentada.

Essa pendenga vai ser realmente divertida de acompanhar.

“Ó meu Deus, mais telecomunicações?!”

É, mais uma coluna falando desse assunto chato, mas fundamental. Recomeço de onde parei na semana passada (se não lembra, abaixe a tela ou clique aí do lado).

O governo está a fim de acelerar o processo de avanço das telecomunicações no país, o que, como vimos semana passada, tem o potencial de mudar o tipo de jornalismo que é (mal) praticado aqui no Bananão. O veículo para atingir esse objetivo é o Plano Nacional de Banda Larga 2.0, mais conhecido, desde a campanha presidencial, como Banda Larga Para Todos.

O nome é muito marqueteiro, mesmo para os padrões do governo. Diferentemente da energia elétrica, a qual realmente pode atingir 99% da população (100% se forem usados meios alternativos como energia solar), a Banda Larga baseada em fibra ótica (FFTx no jargão, para saber mais clique aqui e é bom que você o faça) não vai chegar a todo mundo. Para um país enorme como o nosso, se chegar a 80% é para ser premiado pela ONU. O próprio ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, já disse (depois da campanha, et pour cause) que a meta para os quatro anos de governo dilmal é chegar a 45% dos domicílios no país.

O custo? Uma cacetada. Pelos cálculos do Minicom, a conta para atingir esses 45% na chamada “última milha” é de R$ 40 bilhões. Obviamente, o governo não terá bala para tanto. Daí, a presença da iniciativa privada é fundamental. A ideia do governo é licitar o projeto por meio de leilões reversos – neles, ganha quem botar mais dinheiro no negócio, necessitando, pois, menos do dinheiro público. Muito bom, claro, mas vai ter que combinar bem com os “russos”, pois as empresas de telecom são meio cabreiras com o Executivo federal, que, para elas, sempre acaba cedendo muito para os radiodifusores nos arranca-rabos entre as duas indústria (sem contar a mania de mudar regra com o jogo começado).

A grana é monstra, sem dúvida, mas poderia ser maior. É que a fibra ótica não precisa chegar até a residência (FTTH) ou prédio (FTTB) (eu disse que era você para ter clicado no link do terceiro parágrafo… ) Ela pode chegar apenas na Estação Rádio-Base (ERB, a antena que a gente vê por aí) de 4G e esta distribuiria o sinal com velocidade de banda larga (em teoria, a 4G pode chegar de 100 Mbps no dowstream – para efeito de comparação, a 3G chega a meros 384 kbps). Segundo o previsto pelas normas das concessões de 4G, as telecoms devem levar essa tecnologia a todos os municípios com mais de 30 mil habitantes até o fim do ano que vem (usando a faixa de 2,5GHz), o que viabilizaria boa parte do objetivo governamental

Para que esse sistema de alta velocidade tenha suporte, haverá necessidade de, paralelamente, ser construída as estruturas de backhaul , que hoje só chegam a 47% dos municípios, percentual que, o Minicom acredita, pode chegar a 90% em quatro anos. A melhor imagem para entender o que é backhaul é o dos nervos que saem da espinha dorsal (backbone) levando e trazendo os impulsos ao resto do corpo. Assim, quando você liga o seu celular (os dedos na imagem do corpo), o sinal é captado pela ERB (os nervos periféricos), que o levam para backhaul (os nervos principais) e este para o backbone, que, por sua vez, encaminha o sinal para o outro ponto, onde o processo é invertido. Assim, quanto mais capilarizado (e capacitado em termos de velocidade) for o backhaul, melhor (ou seja, mais veloz e estável) será a comunicação. O custo para atingir 90% dos municípios, calcula do Minicom, é de R$ 10 bilhões, o que elevaria o custo de todo esse projeto a algo em torno de R$ 50 bi.

Bem, se esses planos do governo Dilma forem concretizados, além de abrirem oportunidades de ouro para a melhoria de educação (via EAD) e saúde (telemedicina), têm tudo para mudar a maneira como se faz comunicação no país, incluindo aí o jornalismo. Mas isso já expliquei semana passada.

Radiodifusores x Governo: a hora da volta

Alguns leitores vão odiar, mas avalio que não há jeito: tenho que voltar a falar de telecomunicações. É que, depois de uns dois anos de calmaria relativa, o assunto esquentou de novo e, pior, parece estar acelerando de modo a afetar o nosso mundinho da mídia tupiniquim. Nada como naqueles anos dourados dos fins do Século XX, início do XXI, mas, ainda assim, é uma boa agitação.

Para começar, falemos da ironia política que pode vir com mais uma fase do chamado “dividendo digital”. Antes, porém, vamos ver o que é isso. Você sabe que está havendo uma migração da TV e do rádio para sistemas digitais. A digitalização faz com que haja folga no espectro radioelétrico porque as ondas analógicas tomam “mais espaço” do que as digitais nas faixas. Por esse motivo é que houve possibilidade de a faixa de 700 MHz ser leiloada há pouco (depois de um tempão com idas e vindas, pressões e contrapressões, como de praxe) – essa faixa passou a ter “espaço de sobra” com o melhor aproveitamento da banda causada pela digitalização (uma explicação bacana do governo espanhol aqui , sobre a frequência de 800 MHz, a equivalente a nossa 700 MHz na Europa).

Depois que quase todos os países do mundo já distribuíram o “dividendo digital” da faixa de 700/800 MHz, começa uma nova onda, agora na faixa de 470 MHz a 698/790 MHz. No ano que vem, está marcada, na Suíça, mais uma Conferência Mundial de Radiocomunicação da União Internacional de Telecomunicação (UIT). Nessa reunião, começa a ser discutida a distribuição dessa faixa do espectro radioelétrico e há promessa de reinício da pancadaria grossa entre os radiodifusores e as empresas de telecomunicações, como aconteceu há alguns anos quando da discussão sobre os 700/800MHz (a telecomunicação venceu). As telecoms quem pegar a faixa para desenvolver ainda mais a capacidade da telefonia móvel, que, com a faixa de 700/800 MHz assegurada, poderia enviar para dispositivos móveis até mesmo vídeos de ultra-alta definição (4K), fazendo uma tremenda concorrência às TVs. E é aqui que começa a ironia política da situação, do nosso ponto de vista.

No momento, o Brasil lidera o grupo de países da América Latina que quer manter a faixa de 470MHz-698MHz sem mudança, ou seja, nas mãos dos radiodifusores. Só que essa tese contraria exatamente os dois mais poderosos países das Américas, os EUA e o Canadá, que, alinhados aos europeus e ao Japão, querem a liberação das faixas para a Internet Móvel. Já viram a ironia política, né? Os radiodifusores, um dos grupos mais ferozmente contra o atual governo brasileiro, agora depende deste mesmo governo para defender seus interesses diante do avanço de um grupo inovador, usuário de tecnologias disruptivas que poderiam varrê-los para fora do negócio.

Se você considerar que Dilmão tem como prioridade combater os oligopólios dos grupos midiáticos brasileiros e não vai conseguir fazer isso via Congresso (como já avisou o lamentável Eduardo Cunha), a situação fica ainda mais divertida – afinal, que melhor maneira há de quebrar oligopólios do que botar mais concorrentes num mercado? As decisões da Conferência da UIT não são vinculantes – os países não precisam obedecê-las -, mas, em geral, o mercado acaba por dobrar as resistências, mais cedo ou mais tarde, devido ao ganho de escala dos equipamentos e pressões políticas sobre governos mais fracos.

Não pense que acabou. Vem mais por aí, lá pra frente.

Dilma, os “barões da mídia” e o dever de casa

Pouco antes do primeiro turno, Dilmão chamou blogueiros e avisou que, uma vez eleita, promoveria uma “regulação econômica” dos meios de comunicação no Brasil (aqui ). Ela se elegeu e voltou a falar no assunto, mas, como da primeira vez, não explicou o que seria essa tal de regulação econômica. Como se vê no post da época, pensei tratar-se apenas da mudança nos critérios da distribuição da publicidade do governo federal. Mas alguns movimentos do Grupo Globo (ex-Organizações Globo) me alertaram que pode ser algo mais.

A posição assumida pelo jornal da Família Marinho, com editoriais que chegaram a emular o clima beligerante das redes sociais durante os dias que antecederam ao segundo turno, me fizeram pensar: por que essa agressividade toda, que ficou ainda mais evidente porque outros diários deram um refresco e desceram, pelo menos temporariamente, do palanque tucano em que tinham subido? Só encontrei uma explicação: alguém avisou aos Marinho que a tal “regulação econômica” será um ataque direto à propriedade cruzada de veículos de comunicação.

Como você deve estar tão careca quanto eu de saber, poucos são os países do mundo que permitem que um mesmo grupo econômico tenha o controle de mais de um veículo de comunicação. Assim, uma empresa que possui TV não pode ter jornal, emissora de rádio ou revista, por exemplo. Isso ocorre, obviamente, porque uma companhia com esse acúmulo de meios teria uma vantagem imensa na concorrência por anúncios e também seria uma tremenda ameaça ao sistema político, por deter um poder gigantesco ao ser capaz de orquestrar campanhas contra pessoas ou instituições que a desagradassem. Ou seja, exatamente o que acontece com o Grupo Globo no Brasil.

Dessa forma, é muito provável que Dilmão esteja pensando em propor uma limitação a todo esse poder, proibindo a propriedade cruzada. Só que é ainda mais provável – na verdade, certo – que ela enfrentará obstáculos imensos para levar a cabo essa ação depurativa. O lamentável Eduardo Cunha, líder do PMDB na Câmara, por exemplo, já avisou que vai obstar, de todas as formas que conhecer (e ele conhece formas que até Deus duvida), qualquer regulação a respeito da mídia (o que levará a uma situação hilária, pelo menos: Jorge Bastos Moreno combater ao lado de um cara ao qual cansou de chamar de ladrão e até foi processado por isso). Na minha opinião, é batalha perdida para Dilma e os que defendem o aprofundamento da democracia no Brasil, mas que, ainda assim, precisa ser travada para que, lá frente – talvez daqui a uns 20, 30 anos –, evoluamos o suficiente politicamente para chegarmos ao ponto em que países mais civilizados estão hoje

“Então não há nada que Dilmão possa fazer contra os ‘barões da mídia?’”, perguntará você. Calma! Há sim – fazer o dever de casa. Isso quer dizer mudar os critérios de distribuição de verbas publicitárias, como disse lá em cima (para sabermos do que estamos falando, essa verba chegou, em 2013, a R$ 2,3 bilhões, segundo dados da Secom – aqui). Essa mudança é bem fácil de fazer, já que precisa apenas da caneta dela para realizá-la, basta apenas vontade política. Assim sendo, aqui vão algumas sugestões:

 

1. Regionalizar para valer: Tem havido uma regionalização na distribuição da publicidade nos últimos anos, mas ela pode avançar mais. Por exemplo, destinando metade do orçamento a veículos que tenham, no máximo, 10% de sua circulação/audiência fora do estado em que tem sede. Quem apresentasse mais do que esse percentual seria classificado como veículo nacional e disputaria apenas os outros 50% da verba. A internet, por suas características, ficaria de fora dessa restrição, mas sofreria outra: só seria considerada, para efeito de distribuição da verba para o meio, sites ou portais que não tivessem qualquer vinculação com veículos de outros meios. Dentro de cada parte – regional e nacional –, os critérios de distribuição seriam, primeiro, audiência do meio, e, depois, de cada veículo dentro do meio.

2. Limitar percentual de recebimento da verba total: Um veículo ou grupo de veículos unidos sob qualquer forma – incluindo, mas não se limitando, à participação acionária de um mesmo grupo econômico (com ou sem maioria de ações) ou afiliação de qualquer tipo – poderia receber, no máximo, 10% do total da verba de publicidade do governo federal. Pelos números de 2013, a quantia chegaria, portanto, a R$ 230 milhões, no máximo.

3. Definir que agências de publicidade que trabalhassem com contas do governo não poderiam aceitar Bônus de Volume (BV) para essas contas. O BV é uma espécie de propina, via descontos, que os veículos (ou grupos econômicos) dão às agências para que estas carreiem mais clientes (e, portanto, mais verbas) para eles.

4. Incluir a publicidade legal no bolo da publicidade total. Assim, a publicação obrigatória de editais de concorrências, por exemplo, contaria para aquele limite do item 2.

 

O governo poderia também instar a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão independente, mas ligado ao Ministério da Fazenda, a equiparar a publicação de balanços nos sites de empresas de capital aberto à publicação em  jornais. Hoje, anacronicamente, é obrigatório que balanços e demonstrações financeiras sejam publicadas em “jornais de grande circulação” para terem validade. Essa mudança na norma, inclusive, traria uma grande economia às empresas de capital aberto, que gastam uma grana enorme apenas para publicar balanços em jornais, que, usando da obrigatoriedade, sempre cobram “tabela cheia”, sem descontos.

Essas providências – e, certamente, muitas outras que não pensei – poderiam, se não acabar com o oligopólio dos meios de comunicação hoje vigente no Brasil, pelo menos permitir que mais vozes possam ser ouvidas, avançando no caminho para uma democracia realmente plural. Fazendo isso, Dilmão estaria apenas cumprindo a Constituição, em seus artigos 220 e 221 (aqui).

 

P.S.: Você acha que estou sendo radical na questão da distribuição de verbas publicitárias do governo? Então veja o que o insuspeito Fernando Rodrigues, grande nome da Folha e que mora no coração de Otávio Frias Filho, falou em seu depoimento ao ótimo doc “O mercado de notícias”, de Jorge Furtado (aqui, a partir de 54min27). Ele é simplesmente contra a publicidade oficial, de qualquer governo, sob qualquer forma.

Ok, dá pra nota no depoimento, que ele é contra muito por esta verba ajudar a manter veículos regionais e blogs que, pelo menos em teoria, podem contrapor-se às narrativas dos grandes meios de comunicação pertencentes às famílias que dominam o setor de mídia no Brasil, os Frias entre elas. Também não explica o que faria o governo para divulgar campanhas de utilidade pública (vacinação, direitos do cidadão) ou estatais para concorrer em setores em que empresas privadas podem anunciar livremente (finanças e combustíveis, por exemplo). De qualquer maneira, as ideias dele valem uma reflexão, até mesmo para explicitar o que se esconde sob a roupagem da tal independência jornalística.

Pintada para a guerra

Agora é que vai ficar animado. Na sexta-feira, Dilmão resolveu dar um bico na porta e oficializou algo que já dava para desconfiar ouvindo as palavras do Nove-Dedos: uma vez reeleita, ela vai meter a mão no vespeiro da distribuição de verbas publicitárias do governo federal. E ela disse isso para o outro grupo ao qual o assunto mais interessa, os blogueiros. (aqui a íntegra da entrevista) .

Obviamente, o assunto veio embrulhado pra presente, com a candidata à reeleição enfatizando que haverá uma “regulação econômica” da mídia – e não de conteúdo, deixou bem claro -, que procurará evitar a existência (ou manutenção) de monopólios e oligopólios. Dito assim, não é novidade nenhuma em termos mundiais – todos os países ditos civilizados, de uma forma ou de outra, com maior ou menor sucesso, combatem a concentração da mídia para que os seus donos não acabem mandando e modelando o Estado de acordo com seus interesses.

Aqui, no Bananão, porém, o assunto é tão tabu quanto aborto e união gay. Todo mundo foge dele como o diabo da cruz, pois temem os “barões da mídia”,no primeiro caso, tanto quanto as igrejas, no segundo. Mas, mesmo com embrulho bonitinho, o que Dilma disse, na real, foi que a distribuição da verba de publicidade vai mudar, para seguir o que o mercado tem apontado – um crescimento veloz da internet sobre os outros meios (falei disso aqui, enfocando o caso da Abril, e aqui, de maneira mais geral).

Essa mudança será trágica para os veículos. No momento, eles ainda conseguem manter-se com a cabeça fora d’água, mas a redução (não vai ser perda, será redução só) da verba publicitária do governo federal, contando aí a administração direta e a indireta, pode ser o que faltava para detonar a sobrevivência de um monte de veículos mais fracos país afora e mesmo abalar os mais fortes, a ponto de levá-los a viver num coma permanente. Pior. Ao mesmo tempo, os “barões” veriam os inimigos, especialmente os localizados na internet, fortalecerem-se. Afinal, estamos falando de nada menos de R$ 2,3 bilhões de grana investida pelo governo federal em publicidade em 2013. Não é bolinho.

Para entender bem do que estamos falando, veja aqui a distribuição das verbas, por meio, entre 2006 e 2013 – a tabela é da Secom, com dados passados pelo Instituto de Acompanhamento de Publicidade, mantido pelas agências (atenção: esses dados falam do que foi programado, mas não necessariamente realizado, ok? Ainda assim, dá uma boa ideia).  Pode ser que, lá na frente, eu volte a esses dados para analisá-los, mas, por enquanto, ficamos por aqui, porque o foco é outro, certo?

Bem….Voltando….Podemos, então, esperar uma reação furiosa dos veículos a partir deste fim de semana e que não vai parar após a eleição, se Dilmão a vencer. O pau, que já caia no lombo governamental “di cum força”, agora não apenas vai aumentar de intensidade como deixará a região lombar para ser mirado no crânio mesmo, de preferência na nuca. O objetivo não vai mais ser ferir, fazer sangrar para enfraquecer– agora, vai ser pra matar mesmo.

Mas fiquei a me perguntar: por que raios Dilma resolveu comprar a briga justo agora, a uma semana da eleição em primeiro turno? Não teria sido mais sensato ficar como até agora, olhando pro outro lado, deixando Nove-Dedos espanar, como ele tanto gosta? Cheguei a uma hipótese, que se divide em dois pontos:

1. Não sei se você sabia (eu não) que, por esse período do ano, tipo setembro, outubro, há uma pajelança em Brasília reunindo os órgãos do governo com mais verba para gastar em publicidade a fim de definir o volume da grana a ser investida no ano seguinte (com a importantíssima exceção das TVs abertas, cuja validade começa em novembro do mesmo ano). Nessa reunião, da qual participam representantes das empresas de comunicação, são apresentados os números sobre a variação da tabela da cada veículo desde a última negociação, a variação da audiência/circulação deles, e o IGPM acumulado no período. Os dados são postos na mesa e o pau come.
Minha hipótese é que Dilma resolveu avisar aos participantes deste encontro, incluindo o seu pessoal, que agora a banda vai tocar diferente e, mesmo que não se saiba qual será a música, é bom mudar o tom desde já. (Veja aqui mais informações sobre a pajelança e aqui as diretrizes gerais que devem ser alteradas, se Dilma cumprir o que prometeu ser for eleita).

2. Todo mundo sabe que, nesse momento da campanha, essas pesquisas divulgadas pelos veículos de comunicação com a frequência de um viciado em crack fumando seu cachimbo são apenas a ponta do emblemático iceberg. Pesquisas muito mais profundas, as qualitativas (“qualis” para os íntimos), são feitas com igual velocidade (fora o chamado “tracking” diário, com pesquisas por telefone). Essas “qualis” meio que escolhem o assunto sobre o qual a média das pessoas quer ouvir (e o que elas querem ouvir) e esse dado entra no cardápio do candidato.
Meu palpite, nesse caso, é que as “qualis” apontaram que o assunto regulação na mídia sensibiliza o público mais jovem, de mais alta renda e mais escolarizado, exatamente aquele que Dilma tem mais dificuldade de convencer em votar nela – as pesquisas devem ter mostrando também a maneira pelo qual ele devia ser abordado e a candidata resolveu seguir a indicação, apesar dos riscos.

Enfim, é caso para ser acompanhado com atenção, já que, mesmo com todo o poder que tem um presidente da República no Brasil, não será fácil essa guerra para Dilma (e Nove-Dedos), pois até entre seus teóricos aliados políticos deve ter gente contra, já que muitos são donos de jornais, rádios e TVs por este Brasilzão afora.