Investimentos em publicidade da Administração Direta do Governo Federal (2011-2016) – II (Jornal). Ou “é pentelhando que se recebe” .

O que não faz uma pressãozinha exercida por um chato de galochas, né? Você deve lembrar que tenho cortado um dobrado há dois meses para obter os dados sobre a publicidade do Governo Federal fornecidos pela Secom desde o ano 2000. Usando a Lei de Acesso à Informação (LAI), fiz o pedido dos dados e a secretaria disse que só era responsável pela programação da Administração Direta (Presidência e ministérios), me chutando para os demais órgãos se eu quisesse mais informações. Recorri até a CGU, que pediu uns 70 dias para obter as informações. Pois bem. Na terça-feira, tive uma sensação e fui olhar de novo o lugar em moravam as planilhas e…voilá! Lá estavam os dados que a Secom dissera que não era obrigação dela obter. Aliás, tem até mais: o investimento publicitário das empresas que não concorrerem no mercado (ou seja, fora BB, Caixa, Petrobras e Correios, basicamente) e a AD.

No entanto, não vou interromper a numeralha do investimento da Administração Direta do Governo Federal, que comecei semana passada. Os motivos são dois:

1. Gosto de terminar o que começo.
2. Os dados de investimento que estou usando remetem ao que foi concretizado, em termos de anúncios. Já os que agora, após a empentelhação, a Secom disponibilizou, referem-se ao que foi programado para ser gasto – o que, na Administração Pública, chama-se empenho -, mas que pode ou não ter sido realmente efetivado. Esses dados servem para análises mais estratégicas, para saber, por exemplo, se o governo está gastando menos em jornais do que em internet, como se poderia esperar dada a queda de audiência e alcance dos primeiros e o crescimento concomitante da segunda mídia.

Para obter o que equivalente dos números da AD que estou mostrando na Administração Indireta – principalmente empresas estatais -, aproveitei o mole da Secom de ter escrito que devia procurar as empresas, já comecei a pedir dados iguais a elas. Até o momento, BB, Caixa e Petrobras, a primeiras felizardas, não se dignaram a responder, mas eu, claro, continuarei pentelhando.

Dito tudo isso, vamos aos dados de investimento em publicidade da AD federal nos três principais jornais do país, entre 2011 e 2016.

20170604_tabela_jornais

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Análise
1. Salta aos olhos a queda ocorrida de R$ 1.804.228,30 para R$ 718.786,40 entre 2012 e 2013 – cerca de 60%.

2. Esse novo – e muito mais baixo – patamar foi mantido até 2015, apesar da recuperação parcial de R$ 400.092,46, em 2014, que reduziu a perda de publicidade da Folha, Estado de São Paulo e O Globo para 38% do valor de 2012.

3. A recuperação total veio apenas em 2016, quando o valor total até superou o ano-base (2012) – R$ 1.839.431,24 contra R$ 1.804.228,30.

4. O maior dado da série é o de 2011, quando o investimento em publicidade da AD federal nos três maiores jornais do país atingiu R$ 1.919.224,43. Esse montante deve ser superado em 2017, pois, como mostra a tabelinha abaixo – apenas nos primeiros três meses do ano em curso, o montante já atingiu R$ 1.241.470,52, ou seja 64,7% do total de 2011 (e 67,5% do total de 2016).

20170604_tabela_jornais_1tri_2017

5. Tomando-se o ano com o patamar mais alto da série (2011) e comparando-o com o mais baixo (2013), o jornal que mais perdeu, percentualmente, foi O Estado de São Paulo, com 67,1% de redução, seguido pelo Globo (- 65,3%) e Folha, com -54,3%.

6. Já na retomada 2015/2016, o jornal dos Frias foi o mais beneficiado, com uma elevação 227,77%, com o dos Mesquita ficando com 168,33%, enquanto o dos Marinho teve de contentar-se com um crescimento “apenas” na casa de dois dígitos (81,62%).

7. Apesar de ter severas dúvidas sobre uma ligação mecânica entre as verbas publicitárias e os fatos políticos, não há como que os dados sugerem essa ligação de uma maneira mais forte nos jornais do que nas TVs. No período 2013-2015, quando a verba publicitária destinada aos três grandes jornais do país caiu drasticamente, estes elevaram em muito sua agressividade contra o governo federal, ao passo que, na retomada de 2016, ano transcorrido em sua maior parte sob o governo #ForaTemer, Folha, Estado e O Globo foram bem mais suaves em relação ao Governo Federal.

Gastos com publicidade? Isso é LAI de sua conta, cidadão? (Horrível, hein?)

Há um mês, capino sentado para conseguir os dados sobre os dispêndios de publicidade do governo federal em 2016. Como você talvez lembre, fazia um acompanhamento bem pormenorizado desse tipo de uso do dinheiro público usando dados da Secom, que o tornava públicos desde o ano 2000. Para surpresa de ninguém, o governo golpista interrompeu essa divulgação, o que me obrigou a recorrer à Lei de Acesso à Informação (LAI).
O primeiro pedido aconteceu no dia 6 de abril e recebeu a seguinte resposta:

“Prezado senhor, em atenção ao pedido de acesso à informação cadastrado sob o número 00077.000427/2017-71, esclarecemos que a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República – SECOM não é responsável pela informação sobre os gastos de publicidade de cada órgão do Governo Federal (administração direta e indireta), mas tão somente das atividades de sua responsabilidade e que foram realizadas pelas agências de propaganda devidamente contratadas. Ressaltamos que as agências de propaganda foram contratadas pela SECOM, após processo licitatório, para a prestação de serviços de publicidade previstos na Lei nº 12.232/2010. Sendo responsáveis pela contratação de fornecedores de serviços de produção e da compra de espaços publicitários junto aos veículos de comunicação. As agências atuam por ordem e conta da SECOM, nos termos da Lei 4.680/1966. As informações sobre pagamentos efetuados pela SECOM aos veículos de comunicação e os fornecedores de serviços de produção, por intermédio das agências de propaganda estão disponíveis em http://sistema1.planalto.gov.br/secomweb2/demanda/execucaocontratual. Nesse ambiente, é possível gerar arquivos excel que permitem a aplicação de filtros para facilitar a ordenação e agrupamento de dados conforme seu interesse. Portanto, temos que entre as competências da SECOM, para a gestão da comunicação social do Poder Executivo Federal, estabelecidas pela Lei n° 10.683/2003 (art. 2°-B, incisos I e V) e pelo Decreto n° 6.555/2008 (art. 6°, incisos I a XVI), não estão previstas atribuições para produzir, controlar, custodiar ou centralizar dados referentes às ações de publicidade dos demais órgãos (administração direta e indireta). Essas informações podem ser obtidas mediante solicitação direta a cada um dos órgãos. Não obstante ao descrito acima, a SECOM disponibiliza dados em PDF de valores investidos em veiculação de todos os órgãos, no endereço http://www.secom.gov.br/atuacao/midia/acoes-programadas. Esses dados são fornecidos pelo Instituto para Acompanhamento da Publicidade (IAP), que considera os valores constantes nos Pedidos de Inserção (PI) fornecidos voluntariamente pelas agências de propaganda contratadas por integrantes da administração direta e indireta do Poder Executivo Federal. PI é o documento emitido pela agência de propaganda ao veículo de comunicação confirmando a compra do espaço publicitário. Tal metodologia de apuração pode suscitar inconsistências de informação ou falhas em dados dos veículos, todas de integral responsabilidade do Instituto responsável pela consolidação das informações. Diante do exposto, deve-se reiterar que a base de dados em questão não representa as ações efetivamente desenvolvidas pelos diversos órgãos do Governo Federal e, consequentemente, nem os gastos totais pagos aos veículos. As informações acima foram disponibilizadas pelo Diretor do Departamento de Mídia da Secretaria Especial de Comunicação Social da Secretaria-Geral da Presidência da República. Salientamos que, de acordo com o art. 15 da Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011) e com o art. 21 do Decreto nº 7.724/2012, há possibilidade de recurso no prazo de 10 (dez) dias, que deverá ser dirigido ao Secretário de Publicidade e Promoção da Secretaria Especial de Comunicação Social da Secretaria-Geral da Presidência da República. Destacamos ainda que dispomos de um canal de comunicação direto com o cidadão, o “”Fale com a Secom””, disponível no endereço http://www.secom.gov.br/fale-com-a-secom, em que também podem ser solicitadas informações sobre temas de competência da Secretaria. Atenciosamente, Serviço de Informações ao Cidadão Palácio do Planalto – http://www.planalto.gov.br/acessoainformacao”

É um belíssimo exemplo de caô burocrático:

1. A Secom realmente não é legalmente “responsável pela informação sobre os gastos de publicidade de cada órgão do Governo Federal (administração direta e indireta), mas tão somente das atividades de sua responsabilidade e que foram realizadas pelas agências de propaganda devidamente contratadas”. Só que sempre foi assim e, não obstante, a Secretaria fazia a divulgação do resultado consolidado desde 2000, como está no link lá de cima.
2. Até aquele desagradável barro vermelho de Brasília sabe que nenhum órgão da Administração Direta ou Indireta dispende um centavo em publicidade sem o “de acordo” da Secom.
3. “Não obstante ao descrito acima, a SECOM disponibiliza dados em PDF de valores investidos em veiculação de todos os órgãos, no endereço http://www.secom.gov.br/atuacao/midia/acoes-programadas. Esses dados são fornecidos pelo Instituto para Acompanhamento da Publicidade (IAP), que considera os valores constantes nos Pedidos de Inserção (PI) fornecidos voluntariamente pelas agências de propaganda contratadas por integrantes da administração direta e indireta do Poder Executivo Federal”.
Essa afirmação é falsa como uma nota de três reais, pois a Secom disponibiliza coisa alguma via IAP e quem diz isso é o próprio instituto em seu site: “Os dados processados pelo IAP só são disponíveis para consultas procedidas pela SECOM. Tais dados não podem ser publicados nem fornecidos a outras entidades. (…)”

Como sou chato pra caramba, recorri, mas também como sou burro que nem uma porta, o fiz diretamente ao ministro da Casa Civil, quando ainda tinha que passar pelo superior do cara que me negou o pedido, ainda na Secom (o que me foi gentilmente esclarecido por um rapaz, cujo nome esqueci, que me ligou de Brasília no dia da Greve Geral). Assim, refiz o segundo pedido e a resposta foi a seguinte:

“Prezado cidadão, em atendimento ao recurso de 1° Instância interposto ao pedido de informação registrado sob o NUP 00077.000427/2017-71, encaminhamos anexo arquivo em PDF, contendo resposta ao recurso interposto por Vossa Senhoria. As informações acima foram prestadas pelo Secretário de Publicidade e Promoção da Secretaria Especial de Comunicação Social da Secretaria-Geral da Presidência da República. Informamos que, de acordo com o art. 15 da Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/11) e com o art. 21 do Decreto nº 7.724/2012, há possibilidade de recurso no prazo de 10 (dez) dias, que será dirigido ao Ministro da SecretariaGeral da Presidência da República. Atenciosamente, Serviço de Informações ao Cidadão Palácio do Planalto – http://www.planalto.gov.br/acessoainformacao.”

Obviamente recorri e agora só me resta esperar a CGU dizer que é isso mesmo e o cidadão que vá se queixar ao Chico I. Caso queira saber como correu todo esse palpitante ping-pong burocrático, clique aqui.

Porém, como dizia Vó Sinhá, “quem não tem cão, caça com gato”. Por isso, a partir da semana que vem, vou seguir o conselho da Secom e passarei a publicar os dados referentes aos gastos em publicidade da Administração Direta. Eles são ínfimos, se comparados ao despendido pela Administração Indireta (empresas de economia mista e aquelas que concorrem no mercado), mas servirão como indicativo da forma com que está sendo gasto nosso dinheiro em publicidade.
Não, não pense que vou desistir mesmo que sejam negados todos os recursos, partirei para os principais órgãos, como foi sugerido pela própria Secom (“Essas informações podem ser obtidas mediante solicitação direta a cada um dos órgãos”). Aí veremos no que dará.

Precisamos falar sobre o IVC

“Poderia estar roubando, poderia estar matando, mas estou aqui pedindo…” (camelôs nos ônibus)
“All I need is my buddies” (“With a little help from my friends” –  Lennon e McCartney)

Tenho uma notícia boa e uma ruim. A boa é que começo nova rodada de numeralha do IVC semana que vem; a ruim é que pode ser a última se você não me der uma mãozinha.

Como os camelôs de ônibus, venho pedir uma ajudinha aos meus amigos para continuar com um serviço que há anos mantenho na Coleguinhas. Trata-se da divulgação dos números de circulação de jornais e revistas do IVC. Até hoje, tive a ajuda de uma fonte, mas ela não está mais disponível e, por isso, vou precisar assinar o serviço. Assim, estou abrindo uma “vaquinha virtual” – vulgo “crowdfunding” – para continuar com acesso aos dados. O serviço só está disponível para PJs, mas já acertei com um coleguinha ceder o CNPJ da empresa dele.
A categoria a que posso aderir é a Assinante. Na tabela abaixo, estão os valores desta categoria que podem ser encontrados no site do IVC.

 

Tabela para cálculo da Contribuição Mensal

Catarse_Tabela de Contribuições

O ideal seria assinar a terceira modalidade, mas o preço é bem salgado – R$ 23.461,20, que, somados aos 13% de comissão do Catarse, daria R$ 26.511,16 – e, por isso, meu objetivo é atingir o necessário para a segunda faixa, cujo valor total é de R$ 13.255,58, já contando a comissão catártica. Claro que se vocês forem generosos com as doações e elas atingirem o valor maior será a maravilha das maravilhas. Mas não se acanhe se não puder contribuir com o mínimo para levar uma recompensa – mesmo R$ 10,00 serão recebidos com gratidão de todo o coração.

Como se pode ver na tabela, a segunda faixa permite a escolha do recebimento de dados de Rio ou São Paulo e mais três estados. Escolhi São Paulo por lá estarem as sedes de dois dos três maiores jornais do país e das editoras das três semanais mais importantes, e do Rio Grande do Sul, Distrito Federal e Pernambuco, representando uma região cada (fora o Norte).
Recompensas…O pessoal do Catarse recomenda recompensas…Bem, só tenho para oferecer os próprios dados pelo tempo que durar a assinatura. Então, a distribuição das recompensas:

Catarse_recompensas
Se por acaso, a arrecadação atingir a cifra que permita ter acesso aos dados totais, as recompensas ganham o adendo de dados sobre as edições digitais (web) dos veículos escolhidos:

catarse_premios extras

O prazo para atingir o total da vaquinha é de 60 dias e as contribuições (que podem ser anônimas) devem ser realizadas por cartão de crédito ou boleto bancário no site do Catarse, no método comum das compras na internet: você faz um cadastro no site (se já não o tiver feito antes) e segue as instruções das telas. Bem fácil.
Caso não haja arrecadação suficiente, o Catarse devolve a contribuição (o processo é explicado aqui) e não se fala mais no assunto, certo?

Mas se, por acaso, a arrecadação superar o mínimo, mas não atingir o suficiente ter acesso aos números totais, usarei para pagar o que der de meses destes, a fim de termos uma visão mais completa. Quando a grana acabar, faço outra campanha. 🙂

Bem, o link para a campanha é  www.catarse.me/circulacao-de-jornais-e-revistas – nele, você pode assistir um vídeo no qual explico um pouco mais sobre o porquê desse projeto.  E se você nunca leu uma coluna em que divulgo e analiso os números do IVC,  clique aqui. Desde já, obrigado a todos e todas que se dispuserem a ajudar.

Os gastos em publicidade do governo federal (2000/2015) – II (Jornal)

Depois de capinar sentado na semana anterior fazendo aquela tabela gigante, base da série de colunas com os títulos acima, esta semana foi moleza, em comparação. Assim, vamos à variação dos investimentos do governo em publicidade em jornais, no período 2000/2015. Aliás, o número de colunas vai aumentar das três anteriormente planejadas para cinco, pois jornais, revistas e internet merecem análises separadas (rádio, mídia exterior e cinema ficarão juntos na última).

Antes de passarmos aos números dos jornais, porém, ainda uma palavrinha sobre a coluna da semana passada.

No item 10 dos destaques de TV (o último), pus um link para o pdf da distribuição de verbas no período estudado, por emissora. Deveria ter esmiuçado, é verdade, mas estava esgotado e sem tempo para recuperação antes da publicação da coluna, e, por isso, botei os dados brutos. Ainda assim, não custava nada seguir o atalho e olhar os números. Só que muita gente não o fez. Beleza, direito de cada um. O chato é quando isso acontece e o/a cara pergunta algo que estava no link, como ocorreu muito na fan page. Assim, meu caro, minha cara, por favor, além de ler o texto todo (são grandes, eu sei, e, ao que parece, qualquer texto maior do que três parágrafos na internet, especialmente no facebook, irrita os brasileiros, embora não os gringos), siga os links. Eles são numerosos, às vezes, mas estão ali para agregar informação importante ao texto que você está lendo, ou apenas ao seu conhecimento sobre o assunto em geral. Sobre o tal item 10, para que a preguicinha não ataque de novo, segue o pdf que botei no Slide Share.

Bem, depois do esporro, vamos aos números dos jornais (só há um link, ânimo!).

20160522_tabela_grafico_publicidade_governo_direta_indireta_jornal

DESTAQUES

1. Maior investimento: 311.792.958,50 (2000).

2. Menor investimento: 89.089.333,63 (2015).

3. Variação entre o maior  e menor investimento: – 71,4%.

4. Variação entre 2000/2015: – 71,4%.

5. Variação entre 2014/2015: -51,3%.

6. Maior variação positiva entre dois anos consecutivos: 2003/2004, 2,51 pontos percentuais em relação ao total geral (77,3% em termos absolutos).

7. Maior variação negativa entre dois anos consecutivos:

a. Em termos percentuais: 2000/2001: – 6,29% p.p.
b. Em termos absolutos: 2014/2015: -42,2%.

8. Anos dos cinco maiores investimentos: 2000, 2001, 2009, 2004 e 2005.

9. Anos dos cinco menores investimentos: 2015, 2003, 2014, 2012 e 2006.

10. Distribuição dos investimentos entre jornais de capitais e do interior.

ANÁLISE

A perda de prestígio dos veículos impressos em tempos de internet e mídias sociais refletiu-se, como não poderia deixar de ser, na distribuição de verbas publicitárias aos jornais. O meio perdeu cerca de 17 pontos percentuais em relação ao investimento total em publicidade do governo federal nos últimos 16 anos – sendo quatro deles desde 2011. Muito provavelmente por isso os veículos tenham sido tão virulentos em sua campanha contra os governos petistas, especialmente desde 2008, quando as verbas começaram a cair mais acentuadamente. Uma pesquisa acadêmica que pudesse desmentir ou confirmar a hipótese seria bem-vinda – números para embasá-la há, como se vê.

A questão é que não poderia ter sido de outra forma, pois, como apontou a pesquisa da Secom sobre o consumo de mídia pelos brasileiros,  há relativa falta de importância do jornal como veículo publicitário, dado que não conta com mais do que 7% de audiência, na média. Haveria motivo de queixa em 2015, quando o montante destinado chegou a apenas 4,8% do total, mas não antes. Reservar um percentual maior do que 7% das verbas de publicidade para jornais seria malversação dos dinheiros públicos e a imprensa é contra isso, pois não?

Aliás, a existência da pesquisa de hábitos de consumo da mídia da Secom, realizada pela primeira vez em fins de 2013 e repetida um ano depois, e que, de maneira inédita, deu ao governo federal um instrumento estatístico de análise que não viesse das mãos do próprio mercado publicitário, pode ter sido a gota que faltava para fazer transbordar o pote de mágoa das empresas de comunicação com o governo. Infelizmente, a pesquisa não foi repetida em 2015 e dificilmente o será agora no governo do Novo Brasil, o qual, entre seus primeiros atos, extinguiu a Secom.

#aGlobodeveserdestruida

Os gastos em publicidade do governo federal (2000-2015) – I

Desde 2000 (ou seja, ainda durante o tucanato), em algum momento de abril ou maio, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República divulga os gastos do governo federal com publicidade. Com a extinção da Secom, porém, é muito provável que este saudável hábito de transparência administrativa seja extinto junto, ressurgindo a caixa-preta do século passado.

Assim sendo, já que provavelmente assistimos o seu funeral, darei um tratamento especial, diferente do que fiz em 2014, ao levantamento deste ano, dividindo a análise dos dados em três colunas – a primeira, unindo o Total Geral e a TV; a segunda, Jornal e Revista; a terceira, Rádio, Internet, Mídia Exterior e Cinema. Esta divisão se explica, principalmente, pelo fato da enorme preponderância da participação da TV na distribuição das verbas de publicidade, com o meio abocanhando, em 13 dos 16 anos do levantamento, mais de 60% do total de verbas (tabela e gráfico 2).

Outro ponto da coluna desta semana é que, além do total geral, apresento também a divisão das verbas pelas administrações direta e indireta, como faz (ou fazia) a Secom, mas sem mais comentários, já que os meus neurônios derreteram durante o processamento dos dados antes de chegar neles (quem quiser acesso aos dados originais, eles podem ser encontrados no site da Secom, junto com muitos outros, pelo menos até hoje – aconselho a baixar tudo, como eu fiz).

As seguintes explicações estarão na primeira tabela, mas para não correr o risco de você não vê-las, vão aqui:

• Os valores correntes de investimentos em Mídia (veiculações) foram obtidos pelo processamento de cópias de pedidos de inserção (PIs) e indexados pelo índice IGPM-FGV: índice médio, ano a ano. Índice médio do ano base 2015: 586,426.

• A base de dados fornecida pelo IAP (Instituto para Acompanhamento da Publicidade), atualizada em 20/04/2016. (N. da C: Até 2011, os dados de programação eram abertos pelo IAP (exemplo), mas, infelizmente, a partir deste ano, os dados são acessados apenas pela Secom, via web. Como a secretaria foi extinta, seria interessante saber a cargo de quem ficará o acesso a estes dados);

• Os valores não incluem: publicidade legal, produção e patrocínios.

• Os valores de 2015 são correntes (nominais).

Tudo entendido? Então vamos lá, mas com calma, que dá uma certa canseira. Primeiro, o gráfico e a tabela do total geral.

20160515_tabela_grafico_publicidade_governo_direta_indireta_total geral

Agora, os destaques do total geral:

1. Maior investimento: R$ 2.616.069.081,00 (2013).

2. Menor investimento: R$ 1.148.613.046,00 (2003).

3. Diferença entre o menor e o maior investimento: R$ 1.467.456.035,00

4. Diferença entre o menor e o maior investimento em termos percentuais: 127,75%

5. Dos cinco anos com maiores investimentos, três (2013, 2012 e 2014) ocorreram nos cinco anos do período Dilma, e dois (2009 e 2010) nos oito anos do período Lula.

6. A maior redução de investimento de um ano para o outro aconteceu de 2014 para 2015 – R$ 591.470.711,00 (- 24%)

Agora, gráfico e tabela da TV:

20160515_tabela_grafico_publicidade_governo_direta_indireta_TV_total geral

Os destaques:

1. Em 13 dos 16 anos do levantamento, a parcela de TV superou os 60% dos investimentos totais em mídia.

2. A maior participação ocorreu em 2014 (66,7%) – muito provavelmente devido à Copa do Mundo; a menor, em 2000 (54,4%)

3. O maior investimento, em termos absolutos, foi realizado em 2013 (R$ 1.692.423.230,71).

4. O menor investimento, em termos absolutos, ocorreu em 2003 (R$ 700.005.221,46).

5. A diferença percentual entre o maior e menor investimento foi de 141,8%.

6. Dos cinco anos com maior participação da TV no total geral de investimentos em mídia, quatro ( 2014, 2015, 2013 e 2012) estiveram no período Dilma.

7. A maior redução de investimento de um ano para o outro aconteceu de 2014 para 2015 – R$ 408.920.027,00 (- 25%).

20160515_grafico_publicidade_governo_direta_indireta_TV_variacao investimento

8. A redução do investimento em TV de 2014 para 2015 (R$ 408.920.027,00) equivaleu a 69% do total da redução ocorrida em todas as mídias no mesmo período (R$ 591.470.711,00).

9. Como os governos, de 2003 a 2014, liberaram cerca de 45% das verbas investidas em TV para a TV Globo, pode-se calcular que a Estrela da Morte tenha perdido, de 2014 para 2015, cerca de R$ 185 milhões. Se partimos de 2013 – ano com o maior dispêndio com mídia de todo o período com o meio (R$ 1.692.423.230,71) -, a redução de receita atingiu mais de R$ 200 milhões.

10. Quadro dos investimentos por emissora disponibilizados pela Secom (dados disponíveis até 2012).

Análise

Em geral, neguinho reclamava da preponderância da TV nos planos de mídia dos governos do PT. É uma queixa justa se você parte de um ponto de vista – o de que era preciso desconstruir a hegemonia dos meios de comunicações tradicionais (aviso: eu parto desse ponto de vista). O problema é que os governos na Era PT não se coadunaram com esta proposta, mas pelos tais “critérios técnicos”, sempre defendidos pela mídia tradicional.

Pior (pelo menos do meu ponto de vista). Os governos petistas criaram um, para mim (sou paranoico, lembra?), estranho Comitê de Negociação, que, como o nome diz, negociava as verbas de publicidade com representantes de veículos. Democrático, certo? Mais ou menos. É que este comitê não era aberto ao público e nem suas atas (se é que existiam) publicadas e, assim, há grande a probabilidade de esse comitê ter se transformado num canal de lobby, institucionalizado, mas sem regulação. Tão esquisito quanto esse comitê foi a falta de interesse (talvez até mesmo de conhecimento) de associações, coletivos e veículos que sempre clamaram por mudanças na distribuição de verbas publicitárias governamentais em questionarem a existência dele ou, ao menos, seus métodos de trabalho.

Diante desse quadro, não há muito o que reclamar que a distribuição da grana da publicidade fosse, em sua maior parte, para o meio TV, que é mesmo o que atinge maior público. E, se você for olhar com cuidado, há até uma sub-representação do meio em relação às verbas. Estudos como este mostram que, somadas TV aberta e fechada, o meio tem 72% do “share” da publicidade, o mesmo que a PBM-2015 encontrou, em termos de audiência, na pesquisa referente a 2014 (deve ser outra pesquisa importante a morrer no governo do “Novo Brasil”).

Por fim, os links para as outras tabelas, segmentadas em órgãos da administração. Divirta-se você também com os números. Eles são gente boa.

Direta

20160515_tabela_total_geral_direta

Indireta

20160515_tabela_total_geral_indiretas_empresas de mercado

 

#aGlobodeveserdestruida

Circulação Estadão: queda controlada e esperança digital

Os números do Estado de São Paulo mostram uma realidade não muito diferente daquela dos outros dois jornais já analisados., na edição impressa, mas com uma importante diferença no que se refere às assinaturas digitais. A redução de circulação média total, de segunda a domingo, da edição impressa do jornal dos Mesquita no ano de 2015, negativa em 8,9%, coloca-se, porém, num meio termo entre a do Globo e a da Folha de São Paulo, sendo um maior do que o diário carioca (de – 5,55%), mas quase a metade da de seu concorrente paulista (-15,08%). Ao mesmo tempo, porém, o desempenho da edição digital “pura” dá um alento maior ao tradicional jornal paulistano do que aos concorrentes.

A seguir, a tabela e os gráficos com os dados de janeiro de 2014 a dezembro de 2015.

 

20160214_estadao_gráfico_circulacao_jan-14_dez-15

 

20160214_estadao_tabela_circulacao_jan-14_dez-15

 

Análise

1. A redução total de circulação de janeiro para dezembro de 2015, como já dito, foi de 8,9% (de 241.913 para 220.388).

2. No mesmo período de 2014, houvera aumento da circulação total de 1,72% (233.415/237.424).

3. Na edição impressa, a redução, em 2015, foi de 6,08% (158.807 para 149.242, menos 9.565 exemplares) .

4. No mesmo período do ano anterior, a queda foi semelhante em termos percentuais ( – 6,61%) e um pouco maior em termos absolutos: 11.555 exemplares menos. Assim, no total do período mais longo, queda da circulação de exemplares da edição impressa foi de 25.627 (- 14,65%)

5. A edição digital trouxe boas notícias para os Mesquita em 2015, apresentando um aumento de 13,03% – de 38.152 para 43.122, um acréscimo de 4.970 assinaturas.

6. Em 2014, então, fez sorrir ainda mais o clã, com um desempenho brilhante de 137,74% a mais (12.296/29.233). Assim, no período de janeiro de 2014 a dezembro de 2015, a edição digital do Estadão teve um desempenho extraordinário, com elevação de 250,7% ou 30.826 assinaturas a mais.

7. O bom desempenho das assinaturas digitais puras em 2015 não chegou a compensar a queda das assinaturas híbridas (digital+impressa) no ano – percentualmente, a redução foi de 37,59% (de 44.954 para 28.024),

8. No entanto, com a inclusão de 2014 na conta, há mais que compensação – as assinaturas híbridas caíram de 46.250, em janeiro de 2014, para 28.024, em dezembro de 2015 (menos 39,41%), um ganho líquido, incluindo as digitais puras, de 12.630 assinaturas.

9. O resultado positivo das assinaturas que envolvem o digital mostra que o Estado tem conseguido abrir caminho para o mundo digital com mais eficiência que seus dois concorrentes nacionais diretos. Essa passagem pode ser bem vista no gráfico, onde se observa o cruzamento das curvas, ocorrido de maio para junho de 2015, quando as assinaturas digitais puras superaram as híbridas.

10. O excelente avanço nas edições digitais é um dado muito aponta o caminho que deve ser seguido pelo Estado e lhe dá a perspectiva de um futuro melhor do que a seus concorrentes. Ao que parece, o público do Estado sanciona seu projeto de jornal e, embora menor do que os de Folha e Globo, é mais firme neste apoio.

Circulação O Globo: estagnação com tendência de queda

O IVC liberou os números de circulação média dos veículos por ele auditados referentes a 2015. Hora, portanto, de começarmos as numeralhas de 2016, que não deverão ser das mais extensas por motivo que, se confirmado, informo vocês lá pelo meio do ano. O período que usarei para as análises abrange dois anos, pois o maior número de dados permite uma melhor visão das tendências.

Vamos, então, começar com O Globo.

 

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Circulação jan-dez-2015 O Globo

 

 

Análise

1. A variação de circulação média das edições impressas  em 2015foi negativa em 7,65%, de 201.857 para 186.426. O patamar de menos de 200 mil exemplares foi ultrapassado em abril.

2. A mesma variação no período de janeiro /dezembro de 2014 registrara queda de 5,38%. Houve, portanto, uma aceleração de 42,19% na velocidade de perda de circulação entre um ano e outro.

3. A redução total no período janeiro/2014 a dezembro/2015 foi de 13,86% (216.431/186.426)

4. A variação da edição puramente digital, entre janeiro e dezembro de 2015 foi positiva em 1,73%, de 65.283 para 66.413.

5. Já a variação no período janeiro/dezembro de 2014 foi de 121,24% (30.694/67.906). Dessa forma, depois de um aumento excepcional em 2014 (ano de Copa e eleição presidencial), a circulação da edição digital apresentou um crescimento vegetativo, tendendo à estagnação.

6. A elevação total do período janeiro/2014 a dezembro de 2015 foi de 116,37%,(30.694/66.413), um resultado excelente.

7. As assinaturas híbridas (digital+impresso) apresentaram variação negativa em 2015 de 6,51%, caindo de 54.779 para 51.214.

8. O mesmo tipo de assinatura teve elevação na circulação de 52,89% no período janeiro/dezembro de 2014 (52.697/80.566).

9. No total, as assinaturas híbridas tiveram uma queda de 2,81% entre janeiro de 2014 e dezembro de 2015 (52.697/51.214).

10. Com esses números, a circulação geral do Globo no período mais longo (janeiro/2014-dezembro de 2015) apresentou um leve aumento de 1,41% (de 299.822 para 304.053). O resultado se deve ao expressivo aumento da circulação das assinaturas digitais puras e híbridas em 2014, no embalo da Copa e das eleições (pontos 5 e 8). No segundo subperíodo (ano de 2015), porém, a desaceleração do primeiro tipo de assinatura (ponto 4) e a inversão abrupta da tendência, para queda, do segundo tipo (ponto 7) levaram o quadro de mais longo prazo para a estagnação, com um viés de queda, como demonstra claramente o gráfico de linhas de tendência.

Circulação do Globo, janeiro/2014 – outubro/2015: queda constante

Os adeptos das palavras vão me perdoar, mas depois de duas semanas usufruindo das escritas pela minha irmã, é hora de voltar aos números. No caso, aos de circulação dos principais jornais do país, a começar pelos do Globo. A ideia é dar uma destrinchada maior nos dados e antecipar tendências, quando tiver uma base maior de dados (ano que vem, já vai dar), além de ampliar o leque de publicações para jornais de outros estados (vai depender de algumas negociações, mas creio que vai rolar também em 2016).

Bem, agora algumas observações técnicas – perdão, mas são meio que inevitáveis para as coisas ficarem explicadinhas (prometo, porém, tentar torná-las o mais indolor que conseguir):

1. Os dados começam em janeiro de 2014 porque este foi o primeiro mês em que o IVC pôs em prática as definições sobre edições digitais e analógicas (em papel), que eram bem confusas. Por isso, os dados para trás foram desprezados.

2. Os números se referem à circulação média mensal.

3. Os dados das edições foram divididos em três colunas: digital puro, papel puro e digital+papel, quando se trata de assinaturas que contemplam os dois tipos de edição anteriores.

4. A novidade real, em relação às tabelas e gráficos com os quais você estava acostumado, são as linhas de tendência (também chamadas de regressão porque podem voltar, o que não é nosso caso aqui). Assim, haverá explicações mais pormenorizadas sobre elas (e tristemente um tanto dolorosas):

a. Usei as linhas polinomiais, mais indicadas para casos em que há picos e vales mais acentuados nas curvas de dados, como circulação de publicações;

b. Como cada publicação apresenta curvas diferentes, com diferentes relações entre picos e vales, a potenciação foi definida não só para cada uma delas, como também para cada tipo de edição. Assim, o jornal A pode ter uma linha de tendência de polinômio 3 para a edição digital e 4 para edição analógica, enquanto o jornal B pode tê-las invertidas, ou mesmo diferentes (2 e 3, por exemplo).

c. No entanto, para possibilitar uma comparação entre os veículos, trabalhei sempre com linhas que tivessem um R² acima de 0,8. O que é R²?…Certo…R Quadrado é a indicação de quanto uma linha de tendência é aderente às linhas de determinado gráfico. Varia de 0 a 1 e quanto mais próxima a 1, melhor.

Acabou. Não foi tão ruim, foi? Então vamos a tabela e ao gráfico

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Gráfico de circulação de O Globo - jan-2014/out-2015

 

ANÁLISE

1. Não há a menor dúvida, os números e curvas falam por si: a circulação d’O Globo está em queda. O ritmo desta retração, porém, varia por tipo de edição e circulação.

2. A edição em papel é a que apresenta a redução mais veloz e constante. Usei a linha com polinômio 2, mas poderia ter usado a regressão linear que a curva seria praticamente igual – uma reta apontando para baixo. Não vejo razão alguma para que esta tendência mude.

3. As assinaturas digitais tiveram um crescimento espetacular de janeiro a dezembro do ano passado (de 30.964 para 67.906, mais 119,31%), mas, a partir de janeiro a curva inverteu-se: até outubro deste ano, houve queda de 10% (para 61.095). Vamos ter que aguardar um pouco – talvez uns seis meses – para ver como ela se comporta.

4. As assinaturas compostas mostram uma brusca quebra de dezembro de 2014 para janeiro deste ano, com uma queda de 32% entre estes dois meses (de 80.566 para 54.779). Houve retração também na circulação das edições “puras”, mas muito longe desse nível. Quando ocorre uma situação desta, normalmente é porque houve uma limpa de cadastro. Entre junho e julho, outra redução, mas menor (7%, de 54.124 para 50.338). Também neste caso, precisamos aguardar até o primeiro trimestre de 2016 para ver como se comportam os números.

5. No total, após um 2014 de crescimento atingindo dois dígitos, de 17,8% (de 299.822 para 353.251), capitaneado pelas assinaturas digitais, a circulação de O Globo foi 1,3% menor em outubro passado do que em janeiro de 2014 (295.687 contra 299.822).

6. A explicação provável para a disparidade apontada acima é a de que, em 2014, houve dois grandes eventos que despertaram muita atenção – Copa e eleições presidenciais, enquanto em 2015 nada houve que merecesse atenção suficiente para um acompanhamento mais constante. Se assim tiver sido, pode-se esperar uma ligeira recuperação em 2016, já que há Jogos Olímpicos no Rio e também eleição municipal.

Peneirando a PBM-2015 (VII) – Confiança (Geral)

Eu disse que esta seria a última coluna sobre os números da PBM-2015, certo? Bem, só que não. É que olhando os dados sobre a confiança depositada pelos usuários de cada meio – é disso que trata uma parte da PBM -, vi que não seria bom tratar tudo num único texto, porque ele ficaria enorme, o que, junto com os tradicionais tabelas e gráficos, o faria ilegível. Assim, haverá uma coluna geral (esta) e uma para cada meio.

Para começar, quatro notas metodológicas (tudo isso, meu Deus?):

1. A PBM utiliza um gradiente que vai do “confia” ao “não confia”. Aqui, resolvi juntar “confia” com “confia muitas vezes” e “não confia” com “confia poucas vezes”, pois, creio que facilita a visualização. Há, é claro, a questão de que, para um meio de comunicação, cujo produto se baseia totalmente na credibilidade, só poderia existir o “confia” ou “não confia”. No entanto, é preciso ver que é cada meio é julgado como um todo e não cada veículo específico, e isso deve ser sempre levado em conta na hora de olhar os números sobre confiança.

2. Da mesma forma, os números sobre confiança referem-se apenas aos usuários de cada meio. Assim, os dados devem ser cruzados com os índices de leitura de cada um deles para ver até que ponto eles são mais ou menos influentes.

3. Diferente das outras, esta coluna fará uma comparação com a PBM-2014 a fim de dar uma contextualização melhor, até porque há algumas mudanças notáveis de um ano para o outro.

4. Nesse campo é importante também dizer que a PBM é de 2015, ano em que foi lançada, mas os números se referem a 2014, assim como os números da versão 2014 foram obtidos em 2013. É meio óbvio isso, mas como, dessa vez, há uma comparação explícita entre as duas pesquisas, resolvi enfatizar isso.

Um último ponto antes de passarmos às tabelas e gráficos (sei que você mal pode se conter de tanta ansiedade, mas aguente ainda um pouco). Dependendo de como andar o ímpeto cascatal dos coleguinhas das redações pode ser que tenha que interromper a numeralha para realizar a sexta seletiva do King of the Kings-2015 – sei que você sentirá tanto quanto eu, mas não posso deixar as cascatas se acumularem, sob pena de termos mais um mês só de cascatas, ok?

Isto tudo posto, vamos aos nossos queridos números, finalmente.

CONFIANÇA NAS NOTÍCIAS ACESSADAS (POR MEIO, EM %)

01_tabela_confiança_geral_confia

02_gráfico_confiança_geral_confia

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04_gráfico_confiança_geral_nao confia

Alguns pontos de destaque (também pretensiosamente chamados de análise)

1. O percentual de confiança cresceu em todos os meios de 2013 (PBM-2014) para 2014 (PBM-2015). Suspeito que a cobertura da eleição tenha a ver com isso – como as pessoas procuram se informar mais, eles tendem a crer naquilo que leem/veem/ouvem (não teria sentido ir procurar informação para descrer muito ou totalmente dela). Precisa ver como esses números evoluem com o passar dos anos, o que, de resto, vale para toda a pesquisa PBM.

2. O destaque, em termos aumento de confiança, foi o meio revista, com acréscimo de 14 pontos percentuais em um ano. Um contingente migrou do “confia pouco” para o “confia muito”, que são as categorias contíguas (4 pp), mas não foi a maior parte. É um argumento mercadológico em favor da cobertura cascatal das revistas de informação, mas precisaria ver se foi esse tipo de revista que cresceu na confiança do público. Há ainda o ponto de que o meio, como já vimos, não é muito lido (2% do total da amostra da PBM, na média Brasil), o que faz o seu público ser mais fiel e, portanto, mais crente (como está nos pés da tabela e na nota metodológica 2 – você leu, né? – , o percentual foi tirado daqueles que acessam o meio e não do total geral da amostra). Mesmo com esse salto todo, porém, há mais gente desacreditando no que lê (52%) do que acreditando (44%).

3. Jornal e TV também não fizeram feio no que se refere ao aumento de confiança de 2013 para 2014, com crescimento de 5 pp cada um, contingente este vindo todo de “confia pouco” para “confia muito”. Ao contrário das revistas, porém, mais gente acreditava  no que lia nos jornais em 2014  (58%) e na TV (54%) do que desacreditando – 40% e 45%, respetivamente.

4. A internet, representada aqui por sites, redes sociais e blogs, apenas oscilaram dois ou 3 pontos percentuais de 2013 para 2014.

5. A internet, aliás, sofre de um problema de credibilidade. Na média dos três representantes, o meio teve 24,67% de confiança em 2013, subindo para 27% no ano seguinte, o que, convenhamos, ainda é muito ruim. E desse problema não escapam nem os sites, muitos deles de grandes companhias de mídia. Parece ser uma dificuldade do meio em si.

6. Uma questão a ser observada na comparação entre os níveis de confiança da chamada “mídia tradicional” com a “nova mídia” é que, com exceção dos sites, a internet não “vende” credibilidade propriamente. Ninguém espera que alguém que, a cada 10 posts, fala de seus gatos em cinco e do que comeu de manhã em três, tenha a mesma credibilidade ao analisar o momento político nacional e a questão de gênero nos outros dois. Ao contrário, quando você lê numa edição impressa da Veja ou assiste a um programa da Globonews espera-se exatamente isso – e o fato influencia favoravelmente, em termos de credibilidade, como a pessoa enxerga aquilo que é escrito, lido ou falado em cada um desses suportes. Por outro lado, quando essa expectativa é quebrada, dificilmente se recupera, creio. Enfim, essa questão ainda está à espera de pesquisas e estudos mais aprofundados (alô, pessoal da Academia! Vamos mexer esses traseiros, vamos?) e das próximas PBMs.

7. Por enquanto, o que dá para dizer é que, sim, o meio no qual uma notícia é veiculada importa.

8. Outro ponto são os cortes. Nas próximas colunas, vamos pegar esse viés da PBM-2015 mostrando como anda a credibilidade de cada meio por faixa etária, renda familiar, escolaridade e região. Ora, anime-se! Vai dar um trabalho danado pra ler, eu sei, mas pense no que vou ter organizando tudo. Viu? Podia ser pior.

Reuters Institute: TV ainda é a maior fonte de notícias, mas as mídias sociais avançam

Estava eu posto em sossego, já tendo escrito a coluna da semana (ensino como montar e desmontar uma cascata), quando me cai sob os olhos a edição 2015 do Reuters Institute Digital News Report, pesquisa da instituição do mesmo nome, que faz parte da Universidade de Oxford. O levantamento sobre o consumo de informação por meios digitais (e sua relação com os analógicos) abrange 12 países (inclusive o nosso) e existe há quatro anos.
Dei uma olhada nos números do Brasil e na análise geral e vi, entre outros dados interessantes, que:

• Quem pensa que a TV morreu para o jornalismo se engana. Na maior parte dos países, ela é não só a maior fonte de notícias, mas o meio que tem maior credibilidade. No Brasil, este último item não foi aferido pela pesquisa e, se contando, as mídias sociais, o meio perde de pouco para as notícias via rede. Só que o site líder de notícias on line é o G1, o site da Rede Globo.

• Mark Zuckerberg, porém, ganha cada vez mais poder na seara. Além de dono do Facebook, possui ainda o zap-zap (o relatório informa que nós o chamamos assim) e do Instagram. Estes três (e mais Google, You Tube e Twitter) são a porta de entrada das gentes quando se quer informar sobre o que vai pelo mundo.

• O brasileiro é o segundo mais crédulo entre os consumidores de notícias, só perdendo para os finlandeses (os mais incrédulos? Foi uma surpresa, pelo menos para mim e, talvez, para você – veja lá).

• Talvez por isso, seja o que mais passa adiante as notícias que vê na internet entre os 12 países pesquisados.

• O acesso digital às notícias é dominado pelos smartphones.

• A soma dos dois últimos itens faz com que sejamos os campeões mundiais no uso do zap-zap como fonte inicial para as novas.

• Se quer que sua mensagem tenha mais chance de aparecer na selva de conteúdo da internet , use e abuse do vídeo.

E tem muito mais (e olha que nem consegui ler as 112 páginas do relatório completo, que inclui alguns ensaios ).
Sobre nós, porém, uma nota metodológica importante: os dados considerados são apenas o que eles chamam de “urban Brazil”. Não definem bem o que seja – Barra do Garças (MT) e seus 60 mil habitantes são urbanos? – e alertam que, na leitura dos dados, esse fato deve estar sempre presente. Ainda assim, acho eu, a pesquisa não é inválida no que se refere ao Brasil, já que como a pesquisa é sobre consumo de notícias pela internet e, como sabemos (e lamentamos), esse acesso praticamente só existe mesmo no Brasil urbano, os números são de valia.

Para facilitar a leitura e a consulta, dividi o relatório completo em dois: num só a análise geral; noutro só os dados brasileiros. Espero que se divirtam com as tabelas, gráficos e percentagens tanto quanto eu.

Semana que vem, voltamos às nossas cascatas velhas de guerra, se nada de mais interessante acontecer pelo caminho.