Mapa do tesouro: onde encontrar jornalismo de qualidade na internet

A Infoglobo mandou mais 30 embora na outra semana e passou os jornalistas que sobraram para nova redação, no prédio erguido na Marques de Pombal, fruto de uma operação pra lá de estranha e que deu até em demissão de poderoso. A medida de economia – por que se tratou disso, certo? – foi disfarçada pela desculpa de transformar a cultura do jornal de impresso para o “digital first”, um santo graal que nem jornais mais ricos e com direção bem mais competente, como NYT, Washington Post, The Guardian ou El País, alcançaram.

Como o desenvolvimento previsível da ação é uma queda ainda maior da qualidade do produto, os cidadãos terão que se virar sozinhos para ter acesso a jornalismo de qualidade – não apenas “conteúdo” supostamente do mesmo quilate. Aí bate a perplexidade: onde um jornalismo assim pode ser encontrado? Bom lugar para você começar é este levantamento divulgado em meados do ano passado pela Agência Pública e que continua sendo incrementado com a ajuda dos internautas. Quem quiser ir além, pode consultar este estudo oriundo do México, também de 2016, com indicações de toda a América Latina.

Esses dois estudos já bastam, mas como sou gato-mestre (jornalista sempre é, não tem jeito), ponho aqui uma listinha própria, que comecei a publicar na página da Coleguinhas na plataforma do Zuck. Não é exaustiva e tive como outro critério de escolha, além do que considero qualidade jornalística (que pode ser muito diferente do que você considera), a ausência de militância política explícita. Assim, veículos que admiro, acompanho e com os quais até contribuo, como Conexão Jornalismo, Tijolaço, GGN, Outras Palavras, Diário do Centro do Mundo, Sul21 e outros, ficaram de fora. Ok? Vamos lá:

Agência Pública: É dos poucos que não tem problemas de grana (um de seus financiadores é a Open Society, de George Soros). Mantém gente boa no seu conselho consultivo, como Ricardo Kotscho e Leonardo Sakamoto, mas quase fica de fora da lista pela mania, típica da mídia corporativa, de ouvir só um lado em alguns temas – na série “Amazônia em Disputa” (financiada pela norte-americana Climate and Land Use Alliance, mantida pelas fundações Ford, Packard (HP), Moore (Intel) e Cargill) só foi enfocado quem era contra hidrelétrica, por exemplo. No entanto, do jeito que anda o jornalismo no Brasil, e como eles só vacilam mesmo no tema meio ambiente, botei na listinha.

Agência Sportlight: É a caçula da lista, tendo começado há dois meses, e também um prodígio – a segunda matéria publicada (sobre o estranho crescimento da rede de restaurante Riba) já virou destaque na Veja-Rio. É tocada por Lúcio de Castro, um repórter multipremiado, e filho (aqui vai a primeira de uma série de avisos ao leitores sobre minhas ligações pessoais) do imenso, magnífico, Marcos de Castro. Ele foi um dos mais brilhantes jornalistas com que convivi. Por uns 15 dias, no Globo, tentou me ensinar a ser um bom redator – não conseguiu, evidentemente, mas não por culpa dele – e, anos depois, em protesto contra uma demissão injusta minha pela qual se sentiu responsável (não era), pediu demissão do JB em solidariedade.

Aos Fatos: Tendo como diretora de jornalismo a vascaína fanática Tai Nalon, o AF assume o estilo zagueiro-zagueiro do Odvan: checa as afirmações dos políticos, confrontando-as com dados públicos e atribui-lhes um selo: verdadeira, imprecisa, exagerada, falsa ou insustentável. Sem firula. O AF faz parte do International Fact-Checking Network (IFCN), que, como o nome diz, é uma rede internacional de checadores, aquela que foi chamada pelo Facebook para combater as notícias falsas. Bruzundanga-Bananão é representado no consórcio também pela Agência Lupa e a já citada Agência Pública.

AZMina – Sabe a doçura feminina? Não passou nem no bairro aqui. É a revista eletrônica de um projeto educacional voltado para conscientização, empoderamento (ok, também não gosto da palavra, mas o conceito é meio novo, daqui a pouco a gente acostuma), defesa e auxílio das mulheres. É extremamente focado o que faz a publicação ser muito consistente, apesar da multiplicidade e diversidade das colaboradoras.

Gênero & Número: As questões de gênero e o jornalismo de dados se encontraram, deram aquela mirada, se aproximaram e, de repente, apareceu este bebê. O G&N ainda está engatinhando, mas já virou xodó do Vovô Iv, ao ser tão promissor e necessário por enfocar o universo feminino e de outros gêneros partindo de dados.

Marco Zero Conteúdo – Os conterrâneos não negam a raça – vão direto ao ponto: “Para manter a independência, não recebemos patrocínios de governos, empresas públicas ou privadas. Por isso, precisamos da doação das pessoas que acham importante para a sociedade e para a democracia a existência de um jornalismo que investigue as questões com profundidade, qualidade e independência”. Tem parceria com a Agência Pública no Truco, a checagem de dados de declarações de políticos, mas voltado só para Pernambuco.

Meus Sertões: Mais Nordeste, dessa vez no semiárido. A ideia é “descobrir e contar histórias relacionadas às 1.133 cidades do semiárido brasileiro”, pois a região “apesar de sua diversidade, costuma ser retratada de forma preconceituosa pelos meios de comunicação, com ênfase na seca e tragédia. Nossa proposta é mostrar todos os aspectos da vida sertaneja, debater questões cruciais e promover a cultura da região”. Novo aviso: sou suspeito – o criador do site, Paulo Oliveira, é amigo de mais de 30 anos e um dos jornalistas que mais admiro.

Mulheres 50+ : AzMina é bacana, mas, como elas mesmo apregoam, se dirige às moças até 40 anos (provavelmente porque todas as suas mantenedoras têm menos do que essa idade). Só que, obviamente, a vida das mulheres (e nossa também, embora ninguém tenha me perguntado a respeito) não acaba aos 40 – alguns dizem mesmo que começa exatamente nessa idade, mas aí é exagero. Mulheres 50+ cobre a lacuna com competência e sensibilidade. Outro aviso: sou muito suspeito com esse aqui também – das sete mantenedoras do site, tive a imensa honra de trabalhar com seis, sendo fã de todas.

Nexo: É um dos meninos grandes da vizinhança, junto com a Agência Pública, mas, diferente desta, não especifica de onde vem a grana (desculpe, mas não dá para manter aquela estrutura de pessoal, administração e tecnologia na base do pinga-pinga de assinatura). Apresenta um conteúdo bem acima da média não só dos independentes como até mesmo da maioria dos jornalões, mas me chateia em dois pontos, que são interligados: a arrogância típica dos paulistas da USP e da Poli, na linguagem e abordagem dos temas, e a mania de tacar gráficos cheios de bossa na cara dos leitores sem contextualização, de uma maneira que só gente com alguma base de estatística consegue ler (e com dificuldade, às vezes).

Projeto Colabora: Também sou meio suspeito pra falar desse aqui por ser amigo de metade da direção e conhecer a outra metade, sem falar de um monte de colaboradores (há um monte muito maior). O foco é em sustentabilidade e inclusão social, mas faz incursões por outras áreas bacanas, sempre “com um olhar + criativo, tolerante e generoso”.

Como avisei antes – e dá para notar pelo número de suspeições -, é uma lista bem pessoal. Dou força para que você faça a sua, partindo ou não desta lista ou das publicadas pela Agência Pública e pela mexicana Factual. Com um pouco de paciência, ao fim do processo, você terá acesso a um conteúdo jornalístico de qualidade e sob medida, pelo qual poderá pagar sem se arrepender (Ei! Jornalista tem supermercado e condomínio para pagar também, amigo/a!).

FÉRIAS!
Após quase 21 anos, resolvi dar férias da Coleguinhas para vocês. Ao longo destes anos, sempre arranjei uma maneira de publicar algo aos domingos, estivesse em Londres, Curitiba, Istambul, Recife, Santorini ou São Miguel do Gostoso. Dessa vez, porém, resolvi parar mesmo e só retornar em março, após o Carnaval. Então, fique na paz e até a volta!

O presidente Trump, o jornalismo e nós

Vou continuar devendo o restante da análise dos dados da pesquisa da FSB sobre o consumo de mídia dos deputados federais. Não resisto a dar meu pitaco sobre o cataclismo que foi a eleição de Donald Trump para o cargo de homem mais poderoso do mundo, fato amplamente considerado como o fim do mundo conforme o conhecemos. No caso, meu palpite se junta a um dos subtemas mais amplamente debatidos nestes dias – como a mídia fracassou ridiculamente ao prever a vitória de Hillary Clinton, num novo caso “Dewey derrota Truman”.

 

De novo...

De novo…

Sobrou pra todo mundo e pra todo lado. Margaret Sullivan, ex-“editora pública” (algo com mais peso do que um simples ombudsman) do NYT e hoje colunista do Washington Post, afirmou que os coleguinhas norte-americanos botaram na cabeça que o sujeito não podia ganhar e simplesmente decidiram olhar para o outro lado quando viam uma multidão ululante de seguidores de Trump na sua frente. Segundo ela, os bem-educados, urbanos e liberais (lá isso quer dizer de centro-esquerda), moradores de Nova York, Washington D.C. ou da Costa Leste, não quiseram ouvir o que lhes gritavam os habitantes pobres – e, na maioria, brancos – dos estados do Cinturão de Ferrugem (Rust Belt), aquele grupo de estados que acabou dando a vitória ao bilionário, apesar de ele ter tido menos votos do que a concorrente (vá entender por que eles mantêm um sistema eleitoral do Século XVIII…)

Jim Rutemberg, o analista de mídia (é, tem isso lá) do concorrente New York Times, vai pelo mesmo caminho e chega mais longe ao escrever que “se a mídia falhou em apresentar um cenário político baseado na realidade, então ela falhou na sua missão fundamental”. E aí Rutemberg toca no ponto em que eu queria tratar aqui (supernariz de cera, hein?) ao dizer que “política não são apenas números”. Esse é o problema básico. Nada que envolva seres humanos é.

Para entender meu ponto é realmente necessário que você siga este link, que leva a uma matéria do Nexo, uma jovem publicação da qual gosto tanto que sou assinante. Eu espero você ir lá, rolar a tela, dar uma boa olhada e voltar. Vai que é realmente importante.

“Mas que porra é essa?!”, foi o que perguntei ao meu zíper quando vi essa página pela primeira vez. Pois é. Eu, um cara que gosta de dados, fiquei chocado com uma série de oito chiquérrimos gráficos dos mais diversos tipos completamente desacompanhados de quaisquer tabelas ou explicações, a não ser as legendas que os apresentam. Se você não for um analista de dados do IBGE duvido muito que consiga ler este monte de gráficos e decodificá-los em algo inteligível em tempo menor do que os 10 minutos que levei para entender o que estava ali e notar que: a) se você ler os gráficos na ordem da tela, tem uma grande chance de chegar à conclusão oposta ao que eles realmente mostram – que a PEC do Teto atinge o lugar errado se a ideia é mesmo acabar com o déficit público; e b ) que ainda faltam dois grupos de dados (e respectivos gráficos) fundamentais para uma avaliação precisa da atual Emenda Constitucional 55 (ex-241) – o gasto do governo com o pagamento de juros e a relação desse dispêndio com o total de despesas.

E olha que estou falando do Nexo, uma publicação nova e que se baseia em dados, como Aos Fatos, Lupa, Gênero & Número etc. Não é da mídia corporativa, que essa não apenas ignora a população, como fez a americana na eleição de Trump, como, quando presta atenção nela, é para atacá-la, como tem acontecido, por exemplo, com as ocupações de escolas e universidade públicas pelos estudantes.

Partindo do pressuposto que esses veículos não querem fazer o mesmo da mídia corporativa – ou seja, viver mamando nas tetas do Estado por meio de publicidade e jogando no cassino do mercado financeiro, usando o jornalismo como fachada -, talvez o que tenha movido o editor do Nexo que simplesmente tacou um conjunto de dados na página para o leitor virar-se como pudesse tenha a ver com que Sullivan diagnosticou: os profissionais que trabalham nestes veículos têm quase nada a ver com o resto da população brasileira, pois há pouca diversidade social entre eles. Assim, por mais bem-intencionados que sejam, o jornalismo que produzem tem quase tão pouco a ver com a realidade como o praticado pela mídia corporativa e não vai ajudar a muda-la e/ou esclarecer o cidadão (se é isso que eles desejam, claro). Este é ponto bem exposto por Danah Boyd, da New York University.

Há ainda um outro ponto que joga contra o jornalismo que luta para emergir no Brasil e tem a ver com a mesma bolha em que vivem os jornalistas dos novos veículos: eles são pautados pelos que têm o poder. A falta daqueles dois dados (e gráficos) que citei acima mostra bem este fato – como o governo só fala de despesas primárias, parece não ter ocorrido ao pessoal do Nexo que juros também fazem parte das despesas. Outra demonstração é que os jornalistas que gostam de trabalhar com dados ficam procurando pegar os políticos na mentira. Como a eleição de Trump demonstrou, isso não tem quase nenhuma importância – ele mentia em mais de 90% dos casos e elevou a mentira a uma forma distorcida de arte.

Como resolver esses problemas? Não creio que haja uma resposta única e mágica, mas conversando com uma coleguinha, especialista em trabalhar com jornalistas que usam dados em suas matérias, chegamos a uma conclusão óbvia – os jornalistas precisam não apenas trabalhar com dados, mas fazer com que eles façam sentido com a realidade em volta – e uma outra não tão óbvia, a de que os setores mais organizados da sociedade civil devem eles mesmos aprender a lidar com dados a fim de produzir conteúdos que falem de suas realidades e/ou pautar os veículos da Nova Mídia.

Creio que sem essas duas vertentes trabalhando para convergir, dificilmente o jornalismo sobreviverá, aqui e alhures, como uma atividade relevante num mundo no qual ele já perdeu grande parte do poder de influenciar que possuía há apenas duas décadas para redes sociais as quais, vamos ser francos, não estão nem aí para saber se algo que é publicado em suas plataformas é verdade ou não.

A fraude da Folha e o chute no balde

A fraude – desculpe aí, mas Glenn Greenwald e Erick Dau estão certos, não tem outra palavra – que a Folha cometeu ao divulgar pesquisa dizendo que 50% dos brasileiros querem que #foraTemer continue no governo, quando a verdade inteiramente diferente, quase oposta, para mim confirma que os donos dos veículos impressos de comunicação simplesmente chutaram o balde, desistiram do negócio – ou passaram a considerá-lo apenas um acessório de outros, em ramos diferentes. Confirma porque não foi o primeiro desatino editorial cometido nos últimos anos: centenas, talvez milhares, de matérias anteriores insuflaram o golpe de estado ora em andamento, os exemplos são numerosos e os mais significativos podem ser consultados por quem se interessar no Hall da Infâmia do King of the Kings (aí em cima).

Você pode argumentar que não foi o Otavinho que editou a lambança. Poderia ser assim se fosse uma cascata normal, dessas que a Folha edita três ou quatro vezes por semana. Essa não. Mentir deliberadamente para o leitor não está na alçada da direção de redação – arriscado demais, é decisão para dono, para quem manda, para quem toma as decisões estratégicas.

E sabe do que mais? Do ponto de vista de um dono de jornal, de cara que pensa apenas na última linha do balanço, aquela em que se vê se houve lucro ou prejú, a decisão de Otavinho é defensável.

Dê uma olhada nesta dupla tabela/gráfico. Ela foi montada a partir daquela pesquisa realizada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República publicada ano passado, com dados apurados no fim de 2014, que vimos exaustivamente por aqui, e antes, portanto, da “débâcle” da circulação ocorrida ao longo de 2015 e início deste ano e apontada pelos números de IVC, também vistos por aqui (aliás, falaremos sério sobre os dados do IVC semana que vem, ok?).

 

 

Frequência de leitura de jornais por idade
Não precisa nenhum estatístico para ver qual o problema. Três em cada quatro brasileiros simplesmente não leem jornal. Nunca. Muito ruim, mas há mídia em situação pior – as revistas. Veja (com trocadilho, por favor).

 

Frequência de leitura de revistas por idade
O problema dos veículos impressos não se restringe ao Brasil, obviamente, e os dados obtidos pelo Pew Research Center e divulgados há pouco demonstram isso nos Estados Unidos. Esta situação se estende a quase todos os países, nos quais os jornais há muito deixaram de ser fontes primárias de notícias, como se vê nos gráficos abaixo, retirados do Digital News Report, edição 2015, publicado pelo Reuters Institute de Oxford – o primeiro mostra a variação dos meios como fontes primárias de notícias na Alemanha e na Dinamarca; o segundo a distribuição desta mesma variável por 15 países, incluindo o Bananão.

 

Reuters Institute Digital News Report 2015_Variação de fontes de notícias_Alemanha e Dinamarca.png

 

Reuters Institute Digital News Report 2015_Fontes de notícias por país.png
A diferença entre lá fora e aqui é a atitude dos “publishers” no que diz respeito ao declínio inexorável dos veículos impressos. Enquanto potências como New York Times e o grupo Axel Spring, da Alemanha, se viram procurando tornar suas reputações, construídas durante décadas, fontes de receitas por meio de novas ferramentas e produtos, os donos de veículos brasileiros definiram que, já que suas reputações nunca valeram de muito mesmo, vão radicalizar o que sempre fizeram: usar as publicações como armas apontadas para os Executivos visando tomar deles o que puderem em termos de publicidade oficial.

É dentro deste conceito que pode ser vista a fraude perpetrada pela Folha e capturada (haha) pelo The Intercept. Como jamais desenvolveram capacidades gerenciais reais, dedicando-se apenas a aprender as melhores formas de mamar nas tetas governamentais, os “publishers” tupinambás resolveram raspar o tacho – armaram o golpe e, agora, com o governo de #foraTemer no poder, partem com tudo para cima das verbas publicitárias manejadas pelo notório Eliseu Padilha. Se, pela boa, conseguirem emplacar um tucano em 2018 (se não alcançarem a meta de melar as eleições presidenciais até lá, o que seria melhor), terão mais cinco anos (é o novo período de mandato presidencial, lembra?) para saquear o que restar – se sobrar algo.

Se der tudo errado e a esquerda voltar ao poder, então se verá o que fazer. Uma opção para todos seria a “solução Abril”: vender parte minoritária das ações (como os Civita fizeram para o Naspers, em 2006) e/ou ir fundo no “branded content” (matéria ou publicações inteiras que falam de um tema de forma jornalística, mas pagas por anunciante ou grupo de anunciantes – um passo além do publieditorial, pois não há aviso de que é matéria paga em lugar algum). A autorização, por parte de #foraTemer, permitindo que o Grupo Globo repasse indiretamente as suas concessões poderia ser um passo preliminar para a primeira ideia. O Grupo Folha da Manhã, nesse contexto, está numa posição muito boa, pois, hoje, o jornal, além de arma para assaltar os cofres públicos, é pouco mais do que um gerador de tráfego para o UOL, a “rede Globo” dos Frias.

Assim, quando mestre Bob Fernandes pergunta se os donos das empresas de comunicação não sabem que as pessoas estão vendo a hipocrisia deles no processo político pelo qual o país passa atualmente, a resposta é sim. Sabem. Só não se importam.

P.S.: Você seguiu os links, certo?

 

Época vence segunda seletiva do King of the Kings-2016. Estadão dispara no Troféu Boimate.

A insinuação de um colunista de que o New York Times recebe dinheiro do PT para afirmar que o golpe no Brasil foi golpe levou a Época à vitória na segunda seletiva do Troféu King of the Kings, edição 2016. O KofK é o único prêmio aos indômitos coleguinhas que trabalham com determinação visando a total esculhambação do jornalismo no Brasil. O Troféu Boimate, que premia o veículo com o maior número de cascatas escolhidas para disputar o KofK, está sendo liderada com folga pela redação do Estado de São Paulo, com seis escolhas, bem à frente das segundas colocadas, a própria Época e a Rede Globo (é sempre bom lembrar que, nesta disputa, a Veja é “hours concours”).

Conheçam as cascatas classificadas para a final, que será disputada em janeiro de 2017 (as concorrentes não classificadas voltarão na terceira seletiva).

  1.  Colunista da Época insinua que New York Times recebe dinheiro do PT  (32 votos, 15%).
  2.  Estado de São Paulo acusa jornalistas estrangeiros de serem petistas (25/12%).
  3.  Veja glorifica primeira-dama golpista como “bela, recatada e do lar” (22/11%).
  4.  Estado de São Paulo denuncia banquete de Lula no restaurante da Tia Zélia (21/10%).
  5.  Estado de São Paulo faz denúncia contra Lula, mas o inocenta (18/9%).
  6.  Rede Globo e Agência Lupa acusam erro de dados sobre microcefalia do Ministério da Saúde e são desmentidas por ministro e blogueiro cientista (17/8%).
  7.  Época denuncia professor francês muçulmano como terrorista mesmo ele tendo sido inocentado na França (12/6%).

Total de votos: 207

Já a colocação no Troféu Boimate ficou assim:

  1. Estado de São Paulo – 6
  2. Rede Globo e Época – 2
  3. Istoé, Zero Hora e Agência Lupa – 1

 

Vamos à segunda seletiva do King of the Kings-2016!

Pensou que tinha acabado? Ainda não. Chegamos à segunda seletiva do King of the Kings, que incluirá mais sete concorrentes a maior cascata de 2016. O KofK é o único prêmio a reconhecer os esforços dos coleguinhas que labutam diariamente para esculhambar o jornalismo brasileiro e manter seus leitores, ouvintes e telespectadores desinformados.

Vamos às regras:

1. Você pode votar em até sete (7) concorrentes entre as 14 da lista.

2. Você ainda terá uma nova chance de votar nas sete não classificadas, pois voltarão para as outras seletivas.

3. A votação terminará na domingo, dia 10 de julho.

 

Agora, as concorrentes.

1. Época denuncia professor francês muçulmano como terrorista mesmo ele tendo sido inocentado na França.

2. Folha diz que Lula mandou nomear diretor da Petrobras, mas esquece que dizer que esquema na petroleira movimentara R$ 100 milhões durante governo FHC.

3. Veja acusa falsamente mulher de estar envolvida na Lava-Jato.

4. Colunista do Globo ataca Lula em twitter publicado pela manhã e só se retrata de madrugada.

5. Rede Globo e Agência Lupa acusam erro de dados sobre microcefalia do Ministério da Saúde e são desmentidas por ministro e blogueiro cientista.

6. Estado de São Paulo divulga dados falsos sobre bloqueio de dinheiro por autoridades suíças, é desmentido pelo Advogado Geral do país e manipula o desmentido.

7 . Colunista do Valor Econômico depõe a presidenta.

8 . Veja glorifica primeira-dama golpista por ser bela, recatada e do lar”

9. Estado de São Paulo informa que Lava-Jato vai denunciar Lula por causa do sítio de Atibaia.

10. Estado de São Paulo denuncia “banquete” de Lula em restaurante popular de Brasília.

11. Veja manipula dados sobre salários na EBC.

12. Estado de São Paulo acusa jornalistas estrangeiros de serem petistas.

13. Colunista da Época insinua que New York Times recebe dinheiro do PT.

14. Estado de São Paulo faz denúncia contra Lula, mas o inocenta

 

Jornais tentam manter a cabeça fora d´água

A experiente, embora ainda jovem, repórter dá um suspiro, depois de passar vários minutos digitando no laptop, após a coletiva. “Entrou no impresso!”, diz, mais relaxada, o que deixa seu rosto, já atraente, mais bonito. Passados alguns momentos, porém, ele volta a demonstrar tensão. “E agora, o que vou escrever para o on line?”, pergunta-se em voz alta.

É uma dúvida comum essa, mas que, na visão de um grupo de oito jornalistas do New York Times, selecionados pessoalmente pelo dono, Arthur O. Sulzberger Jr, é também um modo de pensar que precisa ser aposentado imediatamente. O time, liderado pelo próprio filho de Sulzberger Jr e editor de Metro (Cidade), Arthur Gregg Sulzberger, chegou a essa conclusão após seis meses repensando completamente o centenário diário da Grande Maçã, com o objetivo de fazê-lo sobreviver ao tsunami digital em que estamos mergulhados e, ainda por cima, surfar sobre ele.

O resultado foi o The New York Times Innovation Report, um relatório de 96 páginas, datado de 24 de março passado e que era para ser lido apenas pelos altos executivos (com um resumo comunicado aos empregados), mas a demissão da editora-chefe Jill Abramson, no cargo desde 2011, e sua substituição por Dean Baquet (aqui ), deve ter deixado sequelas e o relatório vazou em meados de maio, pouco antes do pé-na-bunda de Jill.

Se é possível sintetizar as conclusões de um relatório tão profundo, produzido por tanto tempo e baseado em centenas de entrevistas com coleguinhas da redação do NYT e concorrentes tradicionais e novos, essa síntese estaria no s parágrafos abaixo, que fazem parte do terceiro capítulo (“Strenghtening our newsroom”):

In the coming years, The New York Times needs to accelerate its transition from a newspaper that also produces a rich and impressive digital report to a digital publication that also produces a rich and impressive newspaper. This is not a matter of semantics. It is a critical, difficult and, at times, painful transformation that will require us to rethink much of what we do every day.

Our leaders know this and we have taken steps in these directions. But it has become increasingly clear that we are not moving with enough urgency.

Depois de ler o documento – não é tão complicado, já que eu, com meu inglês “the-book-is-on-the-table”, o consegui sem grandes problemas -, você pode achá-lo o máximo (como o Niemam Journalism Lab, de Harvard) ou um desastre (como o Politico.com), mas não poderá negar que é um trabalho de fôlego e absolutamente necessário para um jornal que realmente se preocupa com o futuro de seu negócio.

Essa, porém, não parece ser a opinião da Associação Nacional dos Jornais (ANJ). Em congresso realizado semana passada, os patrões definiram quais são suas estratégias para encarar o vagalhão cujas primeiras ondas já chegam às praias de Pindorama: concentrar informações da audiência de cada jornal, perfil dos leitores, formatos básicos, tabela comercial e o contato direto para a publicação e facilitar a compra de mídia. E também fornecer uma rede de sites dos jornais para vender alguns espaços publicitários de forma unificada. É como se os caras tivessem lido uma tradução ruim do relatório do NYT…

Mas, otimista como sempre, ainda tenho esperança de que nem tudo esteja perdido. Nos dias 15 e 16 de novembro, em São Paulo, a revista de João Moreira Salles promoverá o Festival Piauí de Jornalismo, cuja pergunta básica é “Onde isso vai parar?” . Foi no blog do evento – assinado pela jovem e competente Luiza Miguez – que descobri a dica para a análise do Nieman Lab sobre o documento do NYT e, nele, o relatório completo, que segue aqui (atenção, não pode ser impresso– tem que ser lido em digital, mas dá para fazê-lo pelo tablet, baixando o app do Scribd, ou em pdf Alto Conselheiro fez a gentileza de baixar o pdf para facilitar a vida de todos).

Aliás, no mesmo blog, já se pode ler (aqui) uma primeira consequência do Innovation Report (e da queda de Jill Abramson), o qual defende, explicitamente,  a abertura de buracos no muro que afasta a redação do “business side”, sempre encarada como tão necessária quanto a da Igreja do Estado, seguindo os passos do seu mais notório concorrente tradicional, o Washinbgton Post (aqui), mas, por enquanto, só no on line.  Como se pode ver nessa matéria, a “publicidade nativa” é um passo adiante dos nossos conhecidos “publieditoriais”, por ser, em teoria, matérias verdadeiras, só que pautadas para buscar anunciantes.  O próximo passo, como teme John Oliver no vídeo que consta da matéria da Luiza, é tornar evanescente – para dizer o mínimo – o que é matéria real do  que é anúncio. E aí sim, será decretada, de vez, a morte do jornalismo como conhecemos há pouco mais de 100 anos.

Belo Monte, o “snow falls” da Folha

Talvez na tentativa de qualificar a audiência internet e poder cobrar mais dos anunciantes, a Folha mandou pra Rede a sua versão do sucesso “Snow falls”, do NYT, um tipo de jornalismo internet do qual falei aqui.

A matéria inicial é um dossiê (parece que esse vai ser o estilo) sobre Belo Monte. É realmente impactante e muito bem cuidada – tirando a parte quatro (sobre os índios), que cai no esquema “novela”, que divide o mundo em mocinhos e bandidos, e na cronologia final, onde as matérias escolhidas pós-2002 são claramente com viés negativo, o saldo é altamente positivo, pelo menos em termos jornalísticos. A questão, já levantada em relação à “Snow falls”, é se o custo-benefício, em termos de retorno publicitário, vai valer a pena. Francamente, espero que sim.