Nó no Planalto

O coleguinha Thomas Traumann entrou numa bruta encrenca. Pelo que se lê nos jornais (o que nem sempre é confiável, bem sabemos), ele substitui a também coleguinha Helena Chagas na Secretaria de Comunicação da Presidência da República para melhorar a relação com os grandes veículos de comunicação e atender aos reclamos do PT, que defende mais verbas para a mídia alternativa e regional, além de mais decisão na defesa do governo, sempre atacado pela mídia grande. Ou seja, o ex-porta-voz da Presidência foi escalado para a fazer a coisa e seu contrário.

O nó na relação de qualquer governo com qualquer veículo de comunicação no Brasil é e sempre foi um só: a grana da publicidade. O governo federal é um dos maiores anunciantes do país – contando os anúncios institucionais e os de empresas e autarquias ligadas a ele, a verba chega, hoje, a cerca de R$ 2,6 bilhões. Só a Secom tem R$ 150 milhões para usar (a lista, com os respectivos “budgets”, divulgada pela própria Secretaria, está aqui e aqui a lista dos maiores anunciantes no primeiro semestre de 2013). Assim, a savana toda fica de olho para onde este leão vai se mexer a fim de saber para que lado correr.

Até 2002, reinava calma entre a bicharada. Todo mundo sabia para que lado o leão ia – para junto dos grandes veículos de comunicação do eixo São Paulo-Rio-BSB. A situação foi mantida ainda durante uns anos do governo Lula, mas aí houve duas constatações:

1.Os veículos recebiam a grana de sempre, mas não mantinham o freio de mão puxado nas redações, como era praxe, e as deixavam bater a valer no governo;
2.A internet emergiu com força como mídia, tornando-se relevante e, portanto, apta a receber mais dinheiro.

Diante deste quadro, os governistas, mais fortemente a partir do segundo governo Lula, passaram a tirar a grana do pessoal de mídia impressa do Eixo RJ-SP-BSB , passando-a para os veículos regionais e da internet. Adivinhe o que aconteceu? Pois é. Os leões começaram a urrar uma barbaridade – junto com alguns publicitários -, dizendo que o governo abandonara os “critérios técnicos” na distribuição da verba publicitária.

“Que critérios técnicos são esses?”, perguntará você Os veículos responderiam com um palavreado bacana, mas, basicamente, quer dizer que quem tem mais audiência leva mais verba publicitária do que quem tem menos. Parece um critério razoável, só que provoca distorções – levado do pé da letra, tal critério faria com que, entre os jornais, o mais aquinhoado seria o Supernotícias, de BH, o de maior circulação do país. Só que nenhum anunciante sério ou governo – fora, talvez, o varejão popular – o programaria numa campanha pelo mesmo motivo que não programavam o finado “Notícias Populares”, de São Paulo (mas “O Tempo”, o quality paper do mesmo grupo, é lembrado). Além disso, não dá para comparar o mercado do Sudeste com o do Nordeste, por exemplo.

Tem também uma questão conceitual: um governo democrático deve lutar para aumentar o número de vozes atuantes na sociedade a fim de que o maior número de interesses que nela existem sejam vocalizados. Como no Brasil não há empresas públicas de comunicação da qualidade, tradição e força de uma BBC ou mesmo de uma PBS (EUA) – a EBC bem que tem avançado nesse caminho nos últimos anos, mas ainda está longe demais desse padrão -, a opção mais efetiva é colocar mais dinheiro da publicidade em veículos regionais e internet, principalmente nesta, para dar uma equilibrada.

Bom, com a saída de Lula e a chegada de Dilma, Franklin Martins, homem forte do N-D na comunicação, deixou o Planalto, chegando Helena Chagas. Tendo feito toda sua carreira nas grandes redações, ela sabe da importância dos anúncios do governo federal para a boa saúde financeira delas, mesmo as maiores (as médias e pequenas, então, só sobrevivem graças a esse dinheiro) e, assim, lenta, mas seguramente, foi desconstruindo o que fora montado por Franklin. O PT não gostou, mas fazer o quê, se não tinha mais interlocução na área?

A situação começou a mudar em meados do ano passado. Depois de ter sido pega de surpresa e tomado uma coça nas redes sociais durante os protestos de junho (só apanhou menos que a grande mídia e os governadores de Rio e São Paulo), Dilma, aconselhada por N-D, trouxe Franklin de volta – aqui). A mudança fez o PT ganhar moral e a pressão ganhou corpo (um bom resumo da posição dos petistas está nesse texto do deputado conterrâneo Fernando Ferro). Aí, foi só esperar que a Helena pisasse em falso em meio ao serpentário que é Brasília – o mole acabou sendo a cascata da escala em Lisboa durante o voo presidencial Davos-Havana (post abaixo). Helena dançou.

Então, é essa a situação que o Traumann vai encarar. Vamos ver como ele desata esse nó, sem mexer com a distribuição de verbas publicitárias entre os meios. Afinal, tirar dinheiro do meio TV não só não é solução em ano nenhum, ainda mais em um eleitoral, como, ao contrário, seria mais um problema. Ou seja, vai ser dureza.

Exagero regionalista

A mídia regional é essencial para um país enorme como o nosso, não se discute. Como também, creio, não há discussão que, dos três pilares da notícia – ineditismo, intensidade e proximidade -, o último tem precedência. Por isso, é aceitável, e até mesmo correto, que os veículos de uma região procurem ângulos que aproximem seu leitor/telespectador/ouvinte de notícias importantes, mas distantes.

Deve ter sido seguindo esse raciocínio que os editores do Zero hora On Line, do Rio Grande do Sul, publicaram matéria com um gaúcho que assistiu à estreia de “Batman, o Cavaleiro das Trevas ressurge” nos Estados Unidos, na noite do massacre de Aurora. Só que os coleguinhas exageraram. Leia o lide da matéria e veja o porquê:

“Sempre tem um sujeito com distúrbio mental e acesso a armas”, diz gaúcho que assistia à estreia Batman em uma sala americana.

Estudante de doutorado em Linguística viu o filme em sala lotada em Michigan
O doutorando de Linguística Gabriel Roisenberg Rodrigues, 33 anos, de Porto Alegre, estava em uma sala de Michigan assistindo à sessão inaugural do novo filme de Batman. Só não era o mesmo horário em que ocorreu a tragédia do Colorado porque há uma diferença de duas horas no fuso horário. Mesmo estando nos EUA, Rodrigues ficou sabendo do episódio quando retornou para casa, foi comer alguma coisa e ligou a Rádio Gaúcha no seu Iphone. Confira trechos da entrevista para Zero Hora: (…)”

Ou seja, Gabriel não só não estava no cinema Century 16, como não assistiu o filme na mesma hora em que ocorria o massacre e sequer estava no estado em que ele aconteceu (Colorado).

No fim, uma alma um pouco menos regionalista retirou a notícia do site e, por isso, não pude obter o “print screen” da tela (ficou só a pista no endereço html da página). Pena.

ATUALIZAÇÃO: Graças à habilidade googleana do amigo JP, eis o “print” da brilhante matéria (e quem quiser ler a íntegra da preciosidade, clique aqui) :

Exagero à gaúcha

Neologismo

Jogo no time que defende que a língua não está cristalizada nas gramáticas e nos dicionários. Ela é viva, modifica-se no dia dia, com o uso que as pessoas fazem dela. Mas tudo tem limite e os coleguinhas do jornal Página 20, do Acre, foram longe demais.

Exagero no Acre

Censura de verdade

Toda vez que o governo fala em discutir algum tipo de regulamentação da mídia, os barões pulam nas tamancas. Com a ANJ à frente, acusam os defensores da medida de atentar contra a liberdade de imprensa e o sagrado direito do povo ser informado com isenção, objetividade e imparcialidade.

Pois muito bem. Então fico esperando a ANJ posicionar-se contra a atitude da direção de A Tarde, de Salvador, jornal afiliado à briosa entidade, que demitiu o colega Aguirre Peixoto pelo crime de ter feito uma matéria que contrariou empresas do mercado imobiliário, a quais, em reação, pararam de anunciar no diário soteropolitano.

Em protesto, a redação de A Tarde escreveu essa carta aberta.

Sucesso e tanto

Essa saiu hoje, na coluna Giro, do Popular, de Goiás:

“Coluna Giro, de O Popular, de Goiás.

Telecom
Diretores da Celg Telecom trataram com Wilder Morais (Seinfra) sobre a orientação da Eletrobrás de separar as companhias de energia da de telecomunicações.
Mas…
Segundo os diretores da estatal goiana há êxito de sucesso no País: Cemig Telecom (MG), Copel Telecom (PR) e AES Telecom (SP).”

Uau!