Grupo Globo fica com todo o Valor

Comentários rápidos sobre a compra, pelo GG, dos 50% do Valor que pertenciam à Folhapar, com o que se sabe até o momento o momento, o que é quase nada:

1. A Folha vendeu para fazer caixa, já que, obviamente, aquela história de que a economia ia melhorar com a saída da Dilma e depois da aprovação das reformas é conversa para coxinha ficar de olho grelado. Não vai rolar publicidade oficial suficiente para o monte de goela larga que está abrindo a bocarra para o Eliseu Padilha. Existe o UOL, certo, mas este tem seus próprios interesses e problemas (João Alves Queiroz Filho, dono da Hypermarcas e de 30% da empresa, está no meio da Lava-Jato, por exemplo) e não vai ficar bancando um negócio que não tem perspectivas de melhorar.

2. O Grupo Globo também não vai bem das pernas, mas deve ter sido obrigado a fazer o negócio porque, muito provavelmente, há um acordo de acionistas dizendo que se um sócio quiser vender a parte dele, deve oferecer ao outro primeiro, mas se este não se interessar, pode vender para quem quiser. Diante da perspectiva de ter um sócio com interesses não tão afinados com os seus como os Frias, os Marinho meteram a mão no buraco do pano.

3. O negócio, porém, pode vir a ser bom para o Grupo Globo, pois vem ao encontro da ideia do homem forte da Infoglobo, Frederic Kachar, de praticar um plano de sinergia total com os ativos da empresa. Já havia a ideia de juntar as operações da Época com as do Globo e agregar o Valor pode ser bem legal, pois dá mais cacife naquela briga de foice no escuro por verba publicitária do governo golpista mencionada no item 1.

4. E você sabe como é: o que é bom para os Marinho tem uma alta probabilidade de ser ruim para seus empregados. Nesse caso não deve ser diferente. É grande a chance de haver um passaralhinho na área de economia do Globo nos próximos meses – afinal, para quê ter duas pessoas cobrindo o mesmo setor? Podem rolar algumas cabeças nas sucursais do Valor também, mas, pela lógica, a guilhotina deve funcionar mais na redação do Globo.

5. Dizer que o negócio depende de aprovação do Cade é não é só pro-forma como uma piada – o Cade vai lá contrariar interesses de quem comandou o golpe?

Três é demais: mais um passaralho no Globo

Mais um passaralho no Globo, o terceiro em um ano. Para quem leu a Coleguinhas desta semana, e também aquela em que falava da chegada de Frederic Kachar à presidência do Infoglobo, não deve ter se surpreendido. Os números mostram que o Globo vem tendo tremenda dificuldade para fazer a passagem para o digital – não é um processo fácil para nenhuma publicação, mas para o jornal dos Marinho é ainda mais complicado e está fracassando estrondosamente.

A empresa não tem dinheiro – já era curto, devido ao investimento num parque gráfico num momento em que as publicações impressas já estavam agonizando, e ficou ainda mais com a pra lá de estranha negociação envolvendo o novo prédio – e, claramente, não tem capacidade gerencial para dirigir a mudança de paradigma para outro que é, de per si, muito mais dinâmico do que aquele em que o jornal foi criado e se desenvolveu. Sem contar que, recentemente, os Irmãos Marinho decidiram usar seus veículos – não apenas o jornal – integralmente como parte de sua estratégia política, fazendo deles suas pontas-de-lança na busca que visa voltar a mamar nas tetas do governo federal, via verbas publicitárias.

Num quadro como esse faz sentido colocar Kachar como principal executivo do Infoglobo. Sempre pensando em encher o bolso no próximo ano fiscal e não, necessariamente, na sustentabilidade do negócio no longo prazo, os Marinho transferiram o sujeito da Agência Globo para fazer o que ele sabe: promover sinergia cortando custos, a começar de salários. Assim, ele fará com que a redação do Extra se encarregue de manter o dia a dia das editorias de Rio e Esporte, talvez com repórteres especiais do Globo realizando matérias especiais mais aprofundadas para fins de semana (e/ou digital), a fim de dar uma diferenciada no produto. Também vai anexar a sucursal de São Paulo com a sede da revista Época (e, provavelmente, o contrário no Rio).

No médio prazo, esse movimento poderá atingir o Valor, uma associação com os Frias. Estes gostariam da junção da economia da Folha (e os Marinhos, a do Globo, et pour cause) com o Valor, um projeto que emularia (e até aperfeiçoaria) o que faz o Estado de São Paulo há anos om a Agência Estado e o Broadcast, o serviço em tempo real para o mercado financeiro, cujo concorrente mais direto é Valor PRO, serviço que tem apenas uns três anos de existência. Não será fácil , mas também não impossível – é caso de negociar e arrumar um desenho que permita manter pelo menos uma aparência de independência editorial de cada veículo.

Enfim, de qualquer maneira, uma coisa parece certa – este não é o último passaralho a atingir O Globo. No máximo, o próximo demorará mais de um ano para acontecer.

A lista dos demitidos que consegui apurar até o momento do fechamento (21 horas): Paulo Roberto Araújo, Clarice Spitz, Matheus Carrera, Alessandro LoBiaco, Gustavo Stefan, Iuri Totti, Thais Mendes, Carlos Ivan, Chico de Goés (BSB) e Regina Alvarez (BSB).

Atualização (21h50): Liane Thedim, Fábio Seixo, André Machado, Cássio Bruno e Luiz Antônio “Mineiro” Novaes (pediu pra sair, mas conta).

Atualização (23h35): Cláudio Nogueira e Suzana (não sei o sobrenome, só que era do vídeo).

Atualização (9 de dezembro, 11h45): Waleska Borges e Solange Duart

Atualização (9 de dezembro, 14h): Carlos Albuquerque e Olívia (secretária do Bairros).

Atualização (9 de dezembro, 22h40): Silvio Essinger.

Há rumores de mais 8 ou 10 nomes nas redações de Globo e Extra e um total de 140 na empresa inteira.

Os números do Infoglobo

Minhas fontes também devem andar um tanto injuriadas com os passaralhos. Só encontro essa explicação para a rapidez com que responderam ao pedido de informações sobre como anda a circulação dos principais veículos do Infoglobo e da EdGlobo (para efeito de comparação), elas que são sempre tão reservadas e lentas. Aqui estão eles e, logo abaixo de cada, uma análise – rápida porque não precisa ser analista de cenário para ler os gráficos e tabelas, cujos números e curvas são quase autoexplicativos.

 

Circulação O Globo (agosto/2012 - julho/2015)

 

Circulação Extra (agosto/2012 - julho/2015)

 

1. Nos últimos 36 meses (agosto/2012 a julho/2015), a circulação somada dos dois principais jornais do Infoglobo caiu 25% (perda de 1 a cada 4 leitores em três anos), de 438.423 para 328.576, com viés de queda constante, especialmente no caso do Globo. Esse quadro explicaria a decisão de Frederic Kachar de fazer com Ascânio Seleme (O Globo) e Octávio Guedes (Extra) reportem-se diretamente a ele, o que, certamente, limitará a autonomia de ambos, se não de imediato, no médio prazo.

2. O caso mais grave é do Extra, com redução de 32% (menos 1 a cada 3 leitores), de 199.993 (agosto/2012) para 135.815 (julho/2015). Essa forte queda talvez explique a ordem para que Octávio Guedes dedique-se exclusivamente ao jornal, deixando sua função na CBN.

3. Embora melhor, a situação do Globo não se mostra nada confortável. Houve uma queda de 21,6% ( defecção de 1 a cada 5 leitores), de 248.430 para 194.761 (menos do que o Extra há três anos), no período enfocado. Outro fator a considerar: olhando a curva, observa-se que a queda do Globo é mais constante do que a do Extra, que ainda comporta alguns picos, embora não cheguem a alterar significativamente a trajetória de queda.

 

 

Circulação Época (julho/2012 - junho/2015)
4. Dentro deste quadro, a Época pode ser considerada um caso de sucesso – talvez por isso, Frederic Kachar tenha sido transferido da EdGlobo para a Infoglobo: a queda foi de apenas 2,5%, de 389.698 para 380.018 exemplares, tomando-se por base o período de 36 meses entre julho de 2012 e junho de 2015. No entanto, há que se observar dois pontos:

a. A resiliência dos leitores de revista é maior em comparação com os de jornal no momento de abandonar a publicação – traduzindo: quem compra revista demora mais a deixar de lê-la do que os de jornal, especialmente quando se trata de cancelar assinaturas.

b. Olhando-se a tabela e a curva mais de perto, observa-se que entre o pico de novembro de 2013 (412.265 exemplares) e o final do período (junho/2015) a queda de circulação acentuou-se, chegando a 7,8% .

Todo-poderoso da Infoglobo perde o emprego

Marcello Moraes, todo-poderoso da Infoglobo, depois de liderar os diversos “passaralhos” nas redações, perdeu ele mesmo o emprego. Em seu lugar, assume Frederic Kachar, diretor-geral da Editora Globo e presidente da ANER (Associação Nacional dos Editores de Revistas). Moraes teria sido ejetado por deixar melar a venda do prédio que os Marinho estão construindo ao lado daquele que fica na Marquês de Pombal, na Cidade Nova.

O negócio era no valor de R$ 100 milhões – uma grana de não se jogar fora, ainda mais na situação atual das empresas de comunicação – e estava certo. Desandou porque Moraes deu mole e não preparou os documentos necessários a fim de fechá-lo, dando oportunidade ao grupo pretendente (o nome não consegui apurar em fonte fidedigna), que já não estava muito interessado no negócio diante da queda generalizada dos preços os imóveis, de desfazê-lo (e ainda recebendo o sinal de volta, ó pá!). Vamos convir que uma lambança desse nível torna justa uma demissão. O prédio? Tem grande chance se tornar um elefante branco, parente próximo de algumas arenas erguidas para a Copa, tão criticadas pelo Globo.

Frederic Kachar… Ele é o tipo de executivo que “entrega resultados” – ou seja, faz o que for preciso para dar lucros aos acionistas, ou reduzir-lhe os prejuízos, o que, em determinadas situações, dá no mesmo. Dentro dessa perspectiva, há possibilidade de ele levar a Editora Globo para dentro do Globo. Sobre seus pensamentos a respeito da crise que assola os veículos, pode-se ter uma ideia lendo uma matéria de 2013 sobre o assunto. Para quem quiser se dar bem com o novo homem forte, uma dica.