Abril, c’est fini!

Lá no início dos anos 1990, um velho (já na época) amigo, ex-repórter da Veja, reclamava. “Todo mundo fala do monopólio da Globo, mas tem outro, muito maior, e que ninguém fala. A Abril domina o mercado de revistas ainda mais”. Era verdade. Naquele tempo, a bem dizer, não havia outra editora que sequer se aproximasse do poderio da empresa dos Civita. O logo da árvore era visto em publicações de alto nível até de nicho de nicho – fazia uns frilas para uma pequena, porém respeitada, revista sobre mercado náutico, cujo maior fantasma era a concorrência da revista da Abril no setor.

Então o que aconteceu para que um monopólio tão poderoso fosse à breca em pouco mais de 15 anos? Creio que não há um motivo único. Luis Nassif aponta a malsucedida sociedade com o Grupo Folha em torno do UOL e do BOL como início da derrocada. De minha parte, localizo o começo do processo com a tentativa de entrar fortemente no meio TV, em fins dos 90. A empresa até tinha começado bem ao enxergar as grandes possibilidades da união entre vídeo e música proporcionada pela MTV, a qual trouxe para o país na época em que meu amigo vociferava contra o domínio no meio revista.

Deu tão certo que, crescendo o olho e abrindo a goela, Roberto Civita, sucessor do pai, morto em 1990, quis entrar de verdade no mercado. Era um negócio arriscadíssimo e os Marinho, com seu fracasso na Telemontecarlo, mostravam isso (e, bem antes, a associação com o Grupo Time-Life, que bancou anos de prejuízo da então nascente TV Globo, enquanto a estruturava segundo os moldes norte-americanos). Civita não levou isso em conta e tentou tornar a TV Abril (ou TVA) um negócio de verdade. Deu com os burros n’água e abalou um pouco a estrutura do Grupo.

Roberto Civita, porém, ainda viu que a tal internet seria “A” nova mídia e criou o BOL. No entanto, ao cometer o erro de associar-se aos Frias, tomou o segundo direto no queixo. Não sendo o pai, o golpe deve tê-lo abalado profundamente porque agiu como um “capo” e não como um homem de negócios moderno. Como bem conta Nassif, resolveu usar suas revistas, em especial a Veja, como um mafioso da Little Italy natal do pai usava seus capangas – para intimidar e achacar – e foi além ao maquiar as contas dos negócios, algo que “Lucky” Luciano, Joe Bonanno, Carlo Gambino ou qualquer dos grandes mafiosos jamais faria.

Podia até funcionar, como funcionou, por algum tempo, mas não daria certo como base de negócios e, assim, nos últimos anos, a Abril foi indo de mal a pior. Quando a situação se tornou crítica, aí por 2014/2015, falei sobre o tema, mas, já naquela época, era claro que a vaca estava com o úbere no brejo, não havia mais escapatória. Houve uma série de tentativas desesperadas para salvar a companhia – como a instalação de uma porta giratória de diretores (o recém-contratado Marcos Haaland é o quarto em um ano), detonação da sua operação mais lucrativa e acordos com gente de quem você não compraria mel na feira-, mas o fim estava anunciado.

O que esperar de Marcos Haaland? Nada a ver com jornalismo, pode-se ter certeza. Como se pode ver no seu perfil no Linkedin, antes de entrar na Alvarez & Marsal, em 2012, sua especialidade era o ramo de nutrição animal. Dessa forma, o mais provável é que ele leve a ex-poderosa editora para o matadouro, cortando na carne, a desossando e, no fim, aproveitando, se der, até o berro, no caso a marca. É acompanhar. Outra coisa certa: o Grupo Globo, agora, é dono de outro monopólio.

A economia dos passaralhos

Toda vez que há um passaralho, como o que pousou na sucursal da Folha no Rio (e a levou embora de vez), vem a questão: “o que esses caras estão fazendo? Vão acabar com o próprio negócio! ”. Também sempre me perguntei isso, inclusive desta vez, mas pode ser que, finalmente, tenha começado a encontrar uma resposta coerente nesta matéria publicada na Carta Capital sobre a tese de doutorado da economista Thereza Balliester Reis, apresentada na Universidade de Paris.

Se a gente olhar os movimentos das empresas editoras sob o prisma da financeirização da economia brasileira (desculpe, mas você vai ter que seguir o link e ler a matéria), eles têm lá sua lógica, assim como a defesa intransigente da “austeridade”. Esta deixa de fora o mercado financeiro, mas atinge em cheio gastos sociais, e não está dando certo em lugar nenhum há anos, só que, aqui, garante uma taxa de juros real enorme, muito acima da que é praticada por países de nosso tope econômico por todo o mundo.

Para entender o processo macro que está por trás da tese de Ballestier Reis precisa antes dar uma olhada na tese central de Thomas Piketty em seu famoso “O Capital no Século XXI. Nele, o economista francês (não deve ser coincidência) diz que num ambiente em que o crescimento “r” seja mais baixo que o retorno do capital “g” (r<g), o dinheiro cria dinheiro. Assim, numa economia como a nossa, na qual os juros reais ficam cerca de 10% acima da média mundial para países do mesmo naipe ao longo de décadas (como mostra a matéria do link – já leu, né?) e apresenta um crescimento mínimo, quando não negativo, o resultado apurado pela fórmula de Piketty vai parar no cocuruto do Cristo Redentor.

Então, o processo nas empresas de comunicação fica sendo mais ou menos este:

1. Elas cortam os custos, como a Folha fez com a sucursal do Rio;

2. O que sobra é passado ao mercado financeiro, onde rende horrores pela fórmula de Piketty;

3. Uma parte do lucro é investido na manutenção da aparelhagem de suporte à vida que mantém respirando o negócio supostamente principal, e outra, provavelmente bem maior, é usada em consumo e enviado para paraísos fiscais (né, Luizinho Frias? Né, Irmãos Marinho?)

Pode-se argumentar que é um esquema que não pode manter-se muito tempo, pois a qualidade do produto cai e, com esta queda, os leitores/telespectadores/ouvintes se mandam. É argumento válido, mas só até certo ponto, pois apresenta duas limitações principais:

1. Como você leu na matéria da Carta (pô, você leu, né?), há um grupo formado, em sua maior parte, por pessoas das classes dominantes do país, mas também da classe média mais afluente (ou nem tanto) que também tem o rentismo como fonte de renda muito importante, talvez principal. Suspeito seriamente que seja este pessoal o principal responsável por ter-se mantido praticamente estável a circulação de jornais e revistas nos últimos trimestres, como mostram os números do IVC que apresentei aqui nas semanas anteriores. São os fiéis que sustentam a igreja de pé para que os pastores preguem e que também pagam o dízimo para que fiquem no púlpito.

2. Como até as pedras e o Ricardo Gandour sabem, a circulação informacional mudou de tal forma com as redes sociais que a chamada “qualidade da informação” ficou em segundo plano (quando não em terceiro ou quarto). Não importa se é opinião ou fato, se é verdade ou não, o que importa é que circule muito, de várias formas, incessantemente – o golpe de estado no Bananão e Trump disputando as eleições na Corte demonstram o fato claramente. Assim, um grupo pequeno pode manter a máquina em funcionamento, não necessitando nem mesmo que seja particularmente bom na realização da tarefa que lhe compete – esta fraqueza técnica, claro, desvaloriza ainda mais seu trabalho, valor já bem reduzido pelo fato dele não ser mais tão essencial assim para manutenção do negócio.

Claro que a “financeirização” das empresas de comunicação tende a funcionar melhor com conglomerados de grande porte – tipo Globo e Folha (se somada ao UOL) – e nem tanto com empresas menores, mas mesmo estas podem jogar no cassino se conseguirem apertar os custos o suficiente para sobrar dinheiro a fim de entrar na brincadeira. É na busca de voltar a ter o antigo tamanho que a Abril, por exemplo, está negociando com a Editora Caras a retomada dos 18 títulos que vendeu há dois anos. Com eles de volta, Walter Longo, contratado pelos Civita no início do ano para salvar a empresa, espera poder entrar na ciranda e com um bom cacife, alimentado pelo tal GoBox.

Grupo Globo fica com todo o Valor

Comentários rápidos sobre a compra, pelo GG, dos 50% do Valor que pertenciam à Folhapar, com o que se sabe até o momento o momento, o que é quase nada:

1. A Folha vendeu para fazer caixa, já que, obviamente, aquela história de que a economia ia melhorar com a saída da Dilma e depois da aprovação das reformas é conversa para coxinha ficar de olho grelado. Não vai rolar publicidade oficial suficiente para o monte de goela larga que está abrindo a bocarra para o Eliseu Padilha. Existe o UOL, certo, mas este tem seus próprios interesses e problemas (João Alves Queiroz Filho, dono da Hypermarcas e de 30% da empresa, está no meio da Lava-Jato, por exemplo) e não vai ficar bancando um negócio que não tem perspectivas de melhorar.

2. O Grupo Globo também não vai bem das pernas, mas deve ter sido obrigado a fazer o negócio porque, muito provavelmente, há um acordo de acionistas dizendo que se um sócio quiser vender a parte dele, deve oferecer ao outro primeiro, mas se este não se interessar, pode vender para quem quiser. Diante da perspectiva de ter um sócio com interesses não tão afinados com os seus como os Frias, os Marinho meteram a mão no buraco do pano.

3. O negócio, porém, pode vir a ser bom para o Grupo Globo, pois vem ao encontro da ideia do homem forte da Infoglobo, Frederic Kachar, de praticar um plano de sinergia total com os ativos da empresa. Já havia a ideia de juntar as operações da Época com as do Globo e agregar o Valor pode ser bem legal, pois dá mais cacife naquela briga de foice no escuro por verba publicitária do governo golpista mencionada no item 1.

4. E você sabe como é: o que é bom para os Marinho tem uma alta probabilidade de ser ruim para seus empregados. Nesse caso não deve ser diferente. É grande a chance de haver um passaralhinho na área de economia do Globo nos próximos meses – afinal, para quê ter duas pessoas cobrindo o mesmo setor? Podem rolar algumas cabeças nas sucursais do Valor também, mas, pela lógica, a guilhotina deve funcionar mais na redação do Globo.

5. Dizer que o negócio depende de aprovação do Cade é não é só pro-forma como uma piada – o Cade vai lá contrariar interesses de quem comandou o golpe?

A fraude da Folha e o chute no balde

A fraude – desculpe aí, mas Glenn Greenwald e Erick Dau estão certos, não tem outra palavra – que a Folha cometeu ao divulgar pesquisa dizendo que 50% dos brasileiros querem que #foraTemer continue no governo, quando a verdade inteiramente diferente, quase oposta, para mim confirma que os donos dos veículos impressos de comunicação simplesmente chutaram o balde, desistiram do negócio – ou passaram a considerá-lo apenas um acessório de outros, em ramos diferentes. Confirma porque não foi o primeiro desatino editorial cometido nos últimos anos: centenas, talvez milhares, de matérias anteriores insuflaram o golpe de estado ora em andamento, os exemplos são numerosos e os mais significativos podem ser consultados por quem se interessar no Hall da Infâmia do King of the Kings (aí em cima).

Você pode argumentar que não foi o Otavinho que editou a lambança. Poderia ser assim se fosse uma cascata normal, dessas que a Folha edita três ou quatro vezes por semana. Essa não. Mentir deliberadamente para o leitor não está na alçada da direção de redação – arriscado demais, é decisão para dono, para quem manda, para quem toma as decisões estratégicas.

E sabe do que mais? Do ponto de vista de um dono de jornal, de cara que pensa apenas na última linha do balanço, aquela em que se vê se houve lucro ou prejú, a decisão de Otavinho é defensável.

Dê uma olhada nesta dupla tabela/gráfico. Ela foi montada a partir daquela pesquisa realizada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República publicada ano passado, com dados apurados no fim de 2014, que vimos exaustivamente por aqui, e antes, portanto, da “débâcle” da circulação ocorrida ao longo de 2015 e início deste ano e apontada pelos números de IVC, também vistos por aqui (aliás, falaremos sério sobre os dados do IVC semana que vem, ok?).

 

 

Frequência de leitura de jornais por idade
Não precisa nenhum estatístico para ver qual o problema. Três em cada quatro brasileiros simplesmente não leem jornal. Nunca. Muito ruim, mas há mídia em situação pior – as revistas. Veja (com trocadilho, por favor).

 

Frequência de leitura de revistas por idade
O problema dos veículos impressos não se restringe ao Brasil, obviamente, e os dados obtidos pelo Pew Research Center e divulgados há pouco demonstram isso nos Estados Unidos. Esta situação se estende a quase todos os países, nos quais os jornais há muito deixaram de ser fontes primárias de notícias, como se vê nos gráficos abaixo, retirados do Digital News Report, edição 2015, publicado pelo Reuters Institute de Oxford – o primeiro mostra a variação dos meios como fontes primárias de notícias na Alemanha e na Dinamarca; o segundo a distribuição desta mesma variável por 15 países, incluindo o Bananão.

 

Reuters Institute Digital News Report 2015_Variação de fontes de notícias_Alemanha e Dinamarca.png

 

Reuters Institute Digital News Report 2015_Fontes de notícias por país.png
A diferença entre lá fora e aqui é a atitude dos “publishers” no que diz respeito ao declínio inexorável dos veículos impressos. Enquanto potências como New York Times e o grupo Axel Spring, da Alemanha, se viram procurando tornar suas reputações, construídas durante décadas, fontes de receitas por meio de novas ferramentas e produtos, os donos de veículos brasileiros definiram que, já que suas reputações nunca valeram de muito mesmo, vão radicalizar o que sempre fizeram: usar as publicações como armas apontadas para os Executivos visando tomar deles o que puderem em termos de publicidade oficial.

É dentro deste conceito que pode ser vista a fraude perpetrada pela Folha e capturada (haha) pelo The Intercept. Como jamais desenvolveram capacidades gerenciais reais, dedicando-se apenas a aprender as melhores formas de mamar nas tetas governamentais, os “publishers” tupinambás resolveram raspar o tacho – armaram o golpe e, agora, com o governo de #foraTemer no poder, partem com tudo para cima das verbas publicitárias manejadas pelo notório Eliseu Padilha. Se, pela boa, conseguirem emplacar um tucano em 2018 (se não alcançarem a meta de melar as eleições presidenciais até lá, o que seria melhor), terão mais cinco anos (é o novo período de mandato presidencial, lembra?) para saquear o que restar – se sobrar algo.

Se der tudo errado e a esquerda voltar ao poder, então se verá o que fazer. Uma opção para todos seria a “solução Abril”: vender parte minoritária das ações (como os Civita fizeram para o Naspers, em 2006) e/ou ir fundo no “branded content” (matéria ou publicações inteiras que falam de um tema de forma jornalística, mas pagas por anunciante ou grupo de anunciantes – um passo além do publieditorial, pois não há aviso de que é matéria paga em lugar algum). A autorização, por parte de #foraTemer, permitindo que o Grupo Globo repasse indiretamente as suas concessões poderia ser um passo preliminar para a primeira ideia. O Grupo Folha da Manhã, nesse contexto, está numa posição muito boa, pois, hoje, o jornal, além de arma para assaltar os cofres públicos, é pouco mais do que um gerador de tráfego para o UOL, a “rede Globo” dos Frias.

Assim, quando mestre Bob Fernandes pergunta se os donos das empresas de comunicação não sabem que as pessoas estão vendo a hipocrisia deles no processo político pelo qual o país passa atualmente, a resposta é sim. Sabem. Só não se importam.

P.S.: Você seguiu os links, certo?

 

Tiro longo

A defenestração de Eurípedes Alcântara da chefia de redação da Veja, compreensivelmente, chamou a atenção dos coleguinhas na semana que passou. No entanto, a mudança fundamental ocorreu no escalão mais alto do Grupo Abril, com a saída de Giancarlo Civita da presidência da empresa e a contratação do publicitário Walter Longo para o cargo.

Longo é respeitado na área de publicidade, onde se destaca como palestrante. Do público de fora da confraria, ficou um tanto mais conhecido após ser o braço-direito de Roberto Justus no reality “O Aprendiz”, onde suas frases de efeito faziam sucesso entre aspirantes coxinhas a grandes executivos. Não será a primeira vez que Longo trabalhará na Abril – nos anos 90, foi chamado para salvar a TVA (para quem não se lembra ou nem era nascido, a aventura da Abril na área de televisão paga) do naufrágio. Não conseguiu, talvez por ter se dedicado mais à prestidigitação com números a fim de elevar a confiança do mercado publicitário do que em realmente produzir algo.

Dessa vez, a missão de Longo é ainda mais ingrata. Ele tem em mãos um grupo cujo produto principal foi apanhado bem no meio da revolução digital sem muito tempo para se defender – e nem, demonstrou-se ao longo dos anos, capacidade para tal. A situação da Abril é muito ruim, para dizer o mínimo. Revista, como conhecemos hoje, é um produto mantido por aparelhos, virtualmente (com trocadilho) morto num tempo em que o fluxo de informações não se mede mais por dias, mas por horas e até mesmo minutos.

Assim, a missão do publicitário é tocar, em ritmo de marcha forçada, a migração das revistas que sobraram da Editora Abril para o digital. Mas não é só isso (o que já seria complicado, pois a rota para o digital é cheia de abrolhos e redemoinhos ainda não foram mapeados). O meio Revista (assim como o jornal) apresenta todo um caríssimo esquema de apoio nas áreas de impressão e distribuição. São imensos parques gráficos e um sistema de logística especializado em fazer os exemplares chegarem a tempo e a hora nas mãos dos assinantes. O que fazer com todo esse esquema agora que não é necessário mais imprimir nada e a distribuição é feita diretamente no aparelho móvel nas mãos do leitor? Vender? Para quem, se é o meio todo que está indo pelo ralo?

Ruim, né? Mas tem mais.

Walter Longo terá que cumprir sua missão sem dinheiro e sob dois fogos. De um lado, o governo federal, que impôs cerco publicitário depois daquela capa inacreditável da edição da Veja no fim de semana da eleição de 2014. O governo só mudará a estratégia se for completamente tapado. Até por sua deficiência em leituras teóricas, Nove-Dedos achou que os “barões da mídia” eram apenas inimigos políticos com os quais se podia negociar. Não são. Marinhos, Frias, Mesquitas, Sirotskys etc são inimigos de classe, eles realmente têm desprezo por quem está abaixo deles na escala social – o que inclui a parte da classe média que tanto os veem como exemplo -, o qual se transforma em ódio quando membros das “classes perigosas” exigem seus direitos como seres humanos. O atual governo, composto por gente que, pelo menos supostamente, leu ao menos os livros fundamentais, não terá desculpa se cometer o mesmo erro de N-D.

Só que o cerco publicitário nem é o maior problema de Longo. Pior é o “fogo amigo” que poderá vir da pesadíssima artilharia do Naspers.

O Naspers é um grupo sul-africano de mídia, a maior companhia da África (toda, de qualquer setor) e a sétima maior do mundo em internet, que ajudou a criar e, por décadas, apoiou (e cresceu sob) o regime do “apartheid”. Em 2006, o grupo comprou, por R$ 868 milhões (pouco mais de R$ 1,5 bilhão, corrigido pelo IPCA até janeiro deste ano) 30% do capital do Grupo Abril. Por anos, fiéis a sua história, os sul-africanos fingiram que não viram a política dos Civita de atacar os governos que promovem a inclusão social no país.

Só que tem uma coisa que o Naspers detesta mais do que não-brancos – é perder dinheiro. Até 2010, quando as empresas brasileiras foram obrigadas a adotar a International Financial Reporting Standards (IFRS), as normas de contabilidade internacionais, os Civita ainda conseguiram dar uma enrolada nos sul-africanos. No entanto, depois que as normas permitiram a comparação de resultados, viu-se a situação desastrosa e que a Abril se encontrava, o que foi devidamente registrado em 2014 pelos auditores independentes.

O susto dos sul-africanos foi grande e a pressão começou. No fim do ano passado, como previsto no relatório da auditoria, os Civita tiveram que se coçar e bancar 70% das dívidas, o que deu R$ 450 milhões. Ainda assim, sobrou para o Naspers, que, óbvio, não gostou nada e manteve a pressão sobre a família, que, por fim, teve que largar o osso. No caso, nas mãos de Longo, que, agora, terá que apresentar resultados reais. E bem rápido.

Três é demais: mais um passaralho no Globo

Mais um passaralho no Globo, o terceiro em um ano. Para quem leu a Coleguinhas desta semana, e também aquela em que falava da chegada de Frederic Kachar à presidência do Infoglobo, não deve ter se surpreendido. Os números mostram que o Globo vem tendo tremenda dificuldade para fazer a passagem para o digital – não é um processo fácil para nenhuma publicação, mas para o jornal dos Marinho é ainda mais complicado e está fracassando estrondosamente.

A empresa não tem dinheiro – já era curto, devido ao investimento num parque gráfico num momento em que as publicações impressas já estavam agonizando, e ficou ainda mais com a pra lá de estranha negociação envolvendo o novo prédio – e, claramente, não tem capacidade gerencial para dirigir a mudança de paradigma para outro que é, de per si, muito mais dinâmico do que aquele em que o jornal foi criado e se desenvolveu. Sem contar que, recentemente, os Irmãos Marinho decidiram usar seus veículos – não apenas o jornal – integralmente como parte de sua estratégia política, fazendo deles suas pontas-de-lança na busca que visa voltar a mamar nas tetas do governo federal, via verbas publicitárias.

Num quadro como esse faz sentido colocar Kachar como principal executivo do Infoglobo. Sempre pensando em encher o bolso no próximo ano fiscal e não, necessariamente, na sustentabilidade do negócio no longo prazo, os Marinho transferiram o sujeito da Agência Globo para fazer o que ele sabe: promover sinergia cortando custos, a começar de salários. Assim, ele fará com que a redação do Extra se encarregue de manter o dia a dia das editorias de Rio e Esporte, talvez com repórteres especiais do Globo realizando matérias especiais mais aprofundadas para fins de semana (e/ou digital), a fim de dar uma diferenciada no produto. Também vai anexar a sucursal de São Paulo com a sede da revista Época (e, provavelmente, o contrário no Rio).

No médio prazo, esse movimento poderá atingir o Valor, uma associação com os Frias. Estes gostariam da junção da economia da Folha (e os Marinhos, a do Globo, et pour cause) com o Valor, um projeto que emularia (e até aperfeiçoaria) o que faz o Estado de São Paulo há anos om a Agência Estado e o Broadcast, o serviço em tempo real para o mercado financeiro, cujo concorrente mais direto é Valor PRO, serviço que tem apenas uns três anos de existência. Não será fácil , mas também não impossível – é caso de negociar e arrumar um desenho que permita manter pelo menos uma aparência de independência editorial de cada veículo.

Enfim, de qualquer maneira, uma coisa parece certa – este não é o último passaralho a atingir O Globo. No máximo, o próximo demorará mais de um ano para acontecer.

A lista dos demitidos que consegui apurar até o momento do fechamento (21 horas): Paulo Roberto Araújo, Clarice Spitz, Matheus Carrera, Alessandro LoBiaco, Gustavo Stefan, Iuri Totti, Thais Mendes, Carlos Ivan, Chico de Goés (BSB) e Regina Alvarez (BSB).

Atualização (21h50): Liane Thedim, Fábio Seixo, André Machado, Cássio Bruno e Luiz Antônio “Mineiro” Novaes (pediu pra sair, mas conta).

Atualização (23h35): Cláudio Nogueira e Suzana (não sei o sobrenome, só que era do vídeo).

Atualização (9 de dezembro, 11h45): Waleska Borges e Solange Duart

Atualização (9 de dezembro, 14h): Carlos Albuquerque e Olívia (secretária do Bairros).

Atualização (9 de dezembro, 22h40): Silvio Essinger.

Há rumores de mais 8 ou 10 nomes nas redações de Globo e Extra e um total de 140 na empresa inteira.

Dilma, os “barões da mídia” e o dever de casa

Pouco antes do primeiro turno, Dilmão chamou blogueiros e avisou que, uma vez eleita, promoveria uma “regulação econômica” dos meios de comunicação no Brasil (aqui ). Ela se elegeu e voltou a falar no assunto, mas, como da primeira vez, não explicou o que seria essa tal de regulação econômica. Como se vê no post da época, pensei tratar-se apenas da mudança nos critérios da distribuição da publicidade do governo federal. Mas alguns movimentos do Grupo Globo (ex-Organizações Globo) me alertaram que pode ser algo mais.

A posição assumida pelo jornal da Família Marinho, com editoriais que chegaram a emular o clima beligerante das redes sociais durante os dias que antecederam ao segundo turno, me fizeram pensar: por que essa agressividade toda, que ficou ainda mais evidente porque outros diários deram um refresco e desceram, pelo menos temporariamente, do palanque tucano em que tinham subido? Só encontrei uma explicação: alguém avisou aos Marinho que a tal “regulação econômica” será um ataque direto à propriedade cruzada de veículos de comunicação.

Como você deve estar tão careca quanto eu de saber, poucos são os países do mundo que permitem que um mesmo grupo econômico tenha o controle de mais de um veículo de comunicação. Assim, uma empresa que possui TV não pode ter jornal, emissora de rádio ou revista, por exemplo. Isso ocorre, obviamente, porque uma companhia com esse acúmulo de meios teria uma vantagem imensa na concorrência por anúncios e também seria uma tremenda ameaça ao sistema político, por deter um poder gigantesco ao ser capaz de orquestrar campanhas contra pessoas ou instituições que a desagradassem. Ou seja, exatamente o que acontece com o Grupo Globo no Brasil.

Dessa forma, é muito provável que Dilmão esteja pensando em propor uma limitação a todo esse poder, proibindo a propriedade cruzada. Só que é ainda mais provável – na verdade, certo – que ela enfrentará obstáculos imensos para levar a cabo essa ação depurativa. O lamentável Eduardo Cunha, líder do PMDB na Câmara, por exemplo, já avisou que vai obstar, de todas as formas que conhecer (e ele conhece formas que até Deus duvida), qualquer regulação a respeito da mídia (o que levará a uma situação hilária, pelo menos: Jorge Bastos Moreno combater ao lado de um cara ao qual cansou de chamar de ladrão e até foi processado por isso). Na minha opinião, é batalha perdida para Dilma e os que defendem o aprofundamento da democracia no Brasil, mas que, ainda assim, precisa ser travada para que, lá frente – talvez daqui a uns 20, 30 anos –, evoluamos o suficiente politicamente para chegarmos ao ponto em que países mais civilizados estão hoje

“Então não há nada que Dilmão possa fazer contra os ‘barões da mídia?’”, perguntará você. Calma! Há sim – fazer o dever de casa. Isso quer dizer mudar os critérios de distribuição de verbas publicitárias, como disse lá em cima (para sabermos do que estamos falando, essa verba chegou, em 2013, a R$ 2,3 bilhões, segundo dados da Secom – aqui). Essa mudança é bem fácil de fazer, já que precisa apenas da caneta dela para realizá-la, basta apenas vontade política. Assim sendo, aqui vão algumas sugestões:

 

1. Regionalizar para valer: Tem havido uma regionalização na distribuição da publicidade nos últimos anos, mas ela pode avançar mais. Por exemplo, destinando metade do orçamento a veículos que tenham, no máximo, 10% de sua circulação/audiência fora do estado em que tem sede. Quem apresentasse mais do que esse percentual seria classificado como veículo nacional e disputaria apenas os outros 50% da verba. A internet, por suas características, ficaria de fora dessa restrição, mas sofreria outra: só seria considerada, para efeito de distribuição da verba para o meio, sites ou portais que não tivessem qualquer vinculação com veículos de outros meios. Dentro de cada parte – regional e nacional –, os critérios de distribuição seriam, primeiro, audiência do meio, e, depois, de cada veículo dentro do meio.

2. Limitar percentual de recebimento da verba total: Um veículo ou grupo de veículos unidos sob qualquer forma – incluindo, mas não se limitando, à participação acionária de um mesmo grupo econômico (com ou sem maioria de ações) ou afiliação de qualquer tipo – poderia receber, no máximo, 10% do total da verba de publicidade do governo federal. Pelos números de 2013, a quantia chegaria, portanto, a R$ 230 milhões, no máximo.

3. Definir que agências de publicidade que trabalhassem com contas do governo não poderiam aceitar Bônus de Volume (BV) para essas contas. O BV é uma espécie de propina, via descontos, que os veículos (ou grupos econômicos) dão às agências para que estas carreiem mais clientes (e, portanto, mais verbas) para eles.

4. Incluir a publicidade legal no bolo da publicidade total. Assim, a publicação obrigatória de editais de concorrências, por exemplo, contaria para aquele limite do item 2.

 

O governo poderia também instar a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão independente, mas ligado ao Ministério da Fazenda, a equiparar a publicação de balanços nos sites de empresas de capital aberto à publicação em  jornais. Hoje, anacronicamente, é obrigatório que balanços e demonstrações financeiras sejam publicadas em “jornais de grande circulação” para terem validade. Essa mudança na norma, inclusive, traria uma grande economia às empresas de capital aberto, que gastam uma grana enorme apenas para publicar balanços em jornais, que, usando da obrigatoriedade, sempre cobram “tabela cheia”, sem descontos.

Essas providências – e, certamente, muitas outras que não pensei – poderiam, se não acabar com o oligopólio dos meios de comunicação hoje vigente no Brasil, pelo menos permitir que mais vozes possam ser ouvidas, avançando no caminho para uma democracia realmente plural. Fazendo isso, Dilmão estaria apenas cumprindo a Constituição, em seus artigos 220 e 221 (aqui).

 

P.S.: Você acha que estou sendo radical na questão da distribuição de verbas publicitárias do governo? Então veja o que o insuspeito Fernando Rodrigues, grande nome da Folha e que mora no coração de Otávio Frias Filho, falou em seu depoimento ao ótimo doc “O mercado de notícias”, de Jorge Furtado (aqui, a partir de 54min27). Ele é simplesmente contra a publicidade oficial, de qualquer governo, sob qualquer forma.

Ok, dá pra nota no depoimento, que ele é contra muito por esta verba ajudar a manter veículos regionais e blogs que, pelo menos em teoria, podem contrapor-se às narrativas dos grandes meios de comunicação pertencentes às famílias que dominam o setor de mídia no Brasil, os Frias entre elas. Também não explica o que faria o governo para divulgar campanhas de utilidade pública (vacinação, direitos do cidadão) ou estatais para concorrer em setores em que empresas privadas podem anunciar livremente (finanças e combustíveis, por exemplo). De qualquer maneira, as ideias dele valem uma reflexão, até mesmo para explicitar o que se esconde sob a roupagem da tal independência jornalística.