Organizações Golias venceram

A Voz da Serra, tradicional jornal de Nova Friburgo (60 anos de idade), está com um pé na cova. O motivo é um novo movimento das Organizações Globo em sua busca pelo monopólio jornalístico no Estado do Rio. No dia 16 passado, as OG conquistaram o direito de publicar os atos oficiais da prefeitura da cidade serrana, cujas administrações são sempre alvo de ataques dos jornais dos Marinho pela incapacidade de prevenir tragédias no período das chuvas de verão.

Pelo que se diz na cidade, as OG usarão seu jornal de mais baixo custo de produção, o Expresso, para publicar os tais atos e cumprir o subitem do item 14 do Anexo 1 do Edital 001/2013, que reza:

“A empresa vencedora deverá veicular edições no mínimo quatro vezes por semana, em nível municipal.”

Há certas dúvidas do que se quis dizer com isso, mas, sob as minhas poucas luzes de Direito Administrativo, foi que, em quatro dias da semana, o Expresso terá que circular em Nova Friburgo com um encarte trazendo, exclusivamente, notícias do município. Algo como aquelas edições regionais que O Dia tentou implementar em fins do século passado e que fracassaram devido à incompetência normal dos administradores do jornal naquele tempo.

As OG venceram o certame oferecendo o preço unitário de R$ 2,80 por centímetro/coluna, o que deu um preço global de R$ 165.200,00, 43% menor do que o preço estimado de R$ 383.500,00 (R$ 6,50 por cm/col). A Voz da Serra ainda esperneou, mas seu recurso foi indeferido pela secretária municipal de Governo, Grace Rose da Costa Arruda Driendl, em despacho curto e grosso, publicado quinta passada.

Não creio que esse seja um ataque isolado. Usando Nova Friburgo como base, as OG podem avançar sobre as administrações de Teresópolis e Petrópolis, abocanhando as publicações oficiais dos maiores municípios serranos e condenando à morte os jornais de lá.

Não vai ser muito complicado detoná-los – além do poder de fogo econômico dos Marinho, os jornais do interior do Estado deram um mole imenso ao ficarem deitados em berço esplêndido, tendo como principal fonte de renda as publicações dos atos oficiais dos municípios. Um erro cometido não apenas pelos jornais da Serra fluminense, mas pelo de outras regiões do Estado também. Esqueceram (ou nunca atentaram para o detalhe) de que o capitalismo tende sempre para o monopólio – essa, aliás, é uma de suas belezas: defende a iniciativa individual com a boca, enquanto a estrangula com as mãos.

Outro problema é ético. Tendo um jornal responsável por publicar atos oficiais de um governo municipal e sendo obrigado a levar aos cidadãos notícias sobre o município num veículo exclusivo, as OG acabam criando um vínculo monetário que, em tese, compromete a isenção jornalística não só daquela publicação, mas de todos os outros veículos pertencentes à organização. Ok, R$ 165 mil é mixaria para os Marinho, mas esse não é ponto, não é mesmo?

Quem quiser ver o edital, pode clicar aqui; se desejar checar o despacho da secretária de Governo, clique aqui e desça a página – é o quinto retângulo (no dia de hoje).

Meu muito obrigado ao Alto Conselheiro serrado que me passou a dica.

Na “terrinha” como cá

Não sei se é motivo para felicidade, mas não é só no Brasil que os jornalistas econômicos são, em sua grande maioria, simples garotos de recado dos interesses corporativos privados. Em Portugal é igual, segundo o colunista Daniel Oliveira, do Expresso, em artigo que recomendo fortemente que você leia (aqui), com especial atenção aos quatro últimos parágrafos.

Antes de você começar, porém, uma explicação para contextualizar a leitura, passada pelo amigo Luiz Carlos Mansur, que mora em Portugal e me enviou o artigo:

“A Jerónimo Martins é um dos maiores retalhistas em Portugal, com uma grande cadeia de supermercados aqui e operações em outros países (Polónia, e vai expandir-se para a Colômbia). O ‘caso’ foi que eles acabaram de anunciar a transferência da sua holding para a Holanda. Houve uma gritaria por causa de uma suposta fuga aos impostos, mas a justificação oficial é que tendo a sede na Holanda conseguem empréstimos internacionais (coisa que na situação actual em Portugal seria muito difícil). Anyway, o problema é que o Soares dos Santos, patrão da JM, passou meses nas televisões a discorrer sobre os problemas do país diante de jornalistas embevecidos, e a bater no peito em nome do ‘patriotismo’, ‘ética’, etc., ao mesmo tempo em que criticava violentamente os políticos.”