Atenção ao silêncio

“O homem é senhor de seu silêncio e escravo de suas palavras”. Ouvi diversas vezes este ditado árabe da boca de executivos que não gostam de falar com a imprensa. É um dito sábio, mas que, hoje, já não tem tanta validade, pois as pessoas não são mais senhoras de seu silêncio – perderam boa parte de sua posse.

A teoria da “espiral do silêncio” não é nenhuma novidade.  Em 2017, faz 40 anos que a socióloga alemã Elisabeth Noelle-Neumann a propôs. No entanto, na era das redes sociais, onde qualquer grupo minoritário pode berrar aos quatro ventos suas ideias, os meios de comunicação perderam uma parte significativa de sua capacidade de silenciar as minorias e mesmo de determinar totalmente a agenda social (“agenda setting”) – no Brasil, devido ao monopólio do Grupo Globo, esse poder ainda se mantém, mas em escala cada vez menor. Com redução da capacidade de dirigir a agenda social por meio do silêncio causada pelas redes, os meios de comunicação tradicionais tratam de atualizar a estratégia e partiram para o que se poderia chamar de “espiral do silêncio seletivo”. Esse tipo de manipulação é apagar alguns aspectos da realidade de modo a ressaltar outros, evitar que sejam mencionados ou levá-los ao esquecimento.

Abaixo dois exemplos do que quero dizer:

“Vento que venta lá, não venta cá” – Criado em 2004, o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia (Proinfa) tinha o objetivo de “promover a diversificação da Matriz Energética Brasileira, buscando alternativas para aumentar a segurança no abastecimento de energia elétrica, além de permitir a valorização das características e potencialidades regionais e locais”. Ou seja, fazer com que o país, aos poucos, deixasse de depender em demasia da energia gerada pela fonte hídrica (após Belo Monte, não haveria mais locais para construir grandes hidrelétricas com custos ambientais e financeiros razoáveis) e diversificar o “mix” de geração, botando na receita também a biomassa e as pequenas centrais hidrelétricas.

Por anos, os jornalistas atacaram o Proinfa acusando-o de atrasos, mesmo diante das explicações que um programa daquela magnitude, que visava também criar do zero uma cadeia produtiva inteira, estava sujeito a atrasos, mas que, em meados dos anos 10, tudo estaria pronto e seria muito importante para o país. O programa daria certo e realmente deu.

Derrotados pela realidade, os jornalistas calaram até que a ex-presidente Dilma Rousseff falou que uma característica única existente no Brasil – a de que os períodos de chuva e seca são perfeitamente complementares com os de menor e maior ventosidade – permitiria “estocar vento”. Queria dizer ela que, no período seco no país (entre abril e novembro), o uso de energia eólica permitiria economizar água nos reservatórios, reduzindo, assim, o perigo de sofrermos racionamento como em 2001, sem precisar elevar tanto as tarifas, o que é inescapável quando se usa térmicas a gás e óleo, combustíveis mais caros que a água. Aproveitando a tirada da então mandatária, os coleguinhas caíram matando, dando vazão aos deboches das redes sociais e ignorando as explicações dadas a eles por técnicos do setor elétrico.

Atualmente, o país passa, novamente, por um período de escassez de chuvas e as usinas eólicas têm dado importante contribuição à manutenção do suprimento de energia. O fato tem sido noticiado, mas não é mencionada, pela grande imprensa, a importância estratégica do Proinfa para que ele existisse, embora o seja, de passagem, pela alternativa.

Um caso superinteressante – Todos (talvez com exceção de alguns norte-coreanos) concordam que Kim Jong-Un é doido, pelo menos o suficiente para desafiar outro maluco, que, por acaso, é presidente dos Estados Unidos. Ok, mas será que só doideira explica o ódio que ele e seus compatriotas nutrem pelos EUA? Esse é o discurso que é vendido pelos estadunidenses, claro, mas não é preciso que outros o comprem, muito menos uma revista que se diz aliada da ciência e que deveria ser, consequentemente, duplamente cética. Infelizmente, não foi o que fez a Superinteressante nesta matéria.

Como você deve ter lido, o texto inteiro procura vender o ditador da Coréia do Norte como um louco que vai levar o mundo à destruição. Em momento nenhum, o coleguinha se pergunta o que teria levado um país inteiro a odiar tanto outro. É uma pergunta justa, a meu ver, tanto que foi feita por veículos insuspeitos de simpatia por Jong Un, mas que primam por um bom jornalismo, no caso da BBC e o Washington Post.

Ambos mostram que o ódio norte-coreano é bem fundamentado e vem da Guerra da Coréia, nos anos 50, quando a capital do Norte, Pyongyang, foi simplesmente destruída – não restou um prédio de pé após ataques nos quais, segundo um oficial de alta patente à época (citado nas duas matérias), os EUA bombardearam “tudo o que se movia na Coréia do Norte, sem deixar um tijolo sobre outro”, matando cerca de 3 milhões de pessoas, 10% da população. Ao não mencionar o motivo de tanto ódio (e também que os norte-coreanos várias vezes, nestes 60 anos, tentaram um acordo), o lado norte-coreano foi silenciado pela Super.

É bem complicado achar que foi por acidente este silenciamento. Primeiro porque seria extremamente fácil checar o “outro lado” e, principalmente, porque a revista não informa o leitor de que o autor do texto é um coleguinha que apresenta uma ligação muito forte com os Estados Unidos, como se pode ver no seu currículo no Linkedin. Esse alerta, a meu ver, é fundamental já que, diferente da BBC e do WaPo por motivos óbvios, o leitor não é informado da possibilidade do autor ter um “parti pris”.

Esses são apenas dois casos com que topei nos últimos 15 dias e que me pegaram por estar ligados a eles (trabalho na Eletrobras e vivi diretamente o primeiro, e sou assinante da Superinteressante, e não deixarei de sê-lo, no segundo), mas teria outros, caso tivesse me dedicado a procurar. O importante é o seguinte: não preste atenção apenas no que foi dito/escrito/mostrado. Fique atento/a ao que não o foi. Se não, você vai ser enrolado/a.

A pesquisa do Pew Research Center e o mercado de mídia nos EUA

Esta semana vamos dar uma olhada no levantamento do Pew Research Center, mas não em todo ele, pois é enorme e, além disso, completamente focado no mercado dos EUA, diferentemente do realizado pelo Instituto Reuters, que expus semana passada e abrange 26 países. Assim, vou aprofundar apenas o meio jornal, cujo mercado guarda mais semelhança com o nosso – o de TV aberta daqui é distorcido pelo quase monopólio da Rede Globo, enquanto o de TV paga não tem o peso que tem lá. De qualquer forma, você pode baixar o estudo completo e ainda dar uma olhada na base de dados. A geral e a análise serão baseadas na tradução (muito) livre das realizadas pelos autores do relatório, que você pode conferir no original.

Então, vamos lá.

AUDIÊNCIA (IMPRESSO)

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Desde 2008, quando o mundo caiu da última vez, os jornais estadunidenses, sob pressão incessante, tiveram que se virar para manter-se à tona e mudar a maneira de fazer negócios de uma maneira que afetaram os seus leitores, mesmo aqueles que não têm ideia de como se dirige um veículo impresso.

E a coisa não parece estar melhorando: em 2015, os jornais tiveram seu pior ano desde o período imediatamente posterior ao “crash”. A circulação dos veículos diários sofreu um tombo de 7% em relação a 2014, nos dias de semana, o maior declínio desde 2010. A edição impressa caiu 9%, mas a elevação de 2% no acesso às edições digitais deu uma melhorada nesse aspecto. As edições dominicais caíram menos (4%), mas já vinham de outra redução (de 3%), em 2014 – e, como no caso dos dias de semana, o problema concentrou-se na edição impressa (menos 5%), pois as edições digitais até cresceram 4%. Estas reduções cortaram as esperanças dos editores, que, depois de uma redução nas perdas pós-2009, chegaram a ver um crescimento geral em 2013.

A edição impressa é mesmo um problema, pois, apesar do seu declínio, 76% do total da circulação ainda é oriunda do jornal de papel, nos dias de semana, e 86% aos domingos. Estes números demonstram a resiliência do veículo impresso (51% ainda leem jornais somente dessa maneira, conforme gráfico abaixo), mas não contam a história toda – ao contrário de uma década atrás, o jornal impresso não é mais o meio de acesso primário às notícias, perdendo até para o rádio: primariamente, os estadunidenses acessam notícias mais por rádio (20% contra 25%) e fontes digitais (sites e apps) – 28% -, sem contar TV.

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AUDIÊNCIA (DIGITAL)

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No mundo online, a audiência dos jornais continua caminhando em direção aos aparelhos móveis. Conforme mostra o gráfico acima, os visitantes únicos cresceram em mais da metade dos 50 maiores jornais dos EUA, mas em níveis diferentes para desktops e mobiles. Para 39 dos 50 sites estudados, houve queda entre os desktops – com 28 caindo 10% ou mais -, enquanto os visitantes únicos por meio de smartphones e tablets cresceram em 43 nos mesmos 50, sendo 10% ou mais em 35 deles.

Essa é a notícia boa. A ruim é que o tempo despendido pelos visitantes deste s sites – medida fundamental para os anunciantes – caiu entre os mobiles. No geral, até houve uma elevação do tempo em que os leitores ficaram nos sites em mais da metade dos pesquisados (em 32 houve acréscimo de 10% nas visitas por meio de desktops), no entanto, em 34 foi observada queda entre os aparelhos móveis.

Como dito acima, os acessos aos jornais por meio de aparelhos móveis superam em muito os oriundos pela versão impressa, apesar das pessoas dizerem que preferem ler os veículos impressos. Esta contradição fica muito clara aqui – dos 49 jornais que têm edição dominical (o Wall Street Journal não circula aos domingos), o número de visitantes únicos supera o de assinantes em até 78 vezes, segundo relatórios referentes ao terceiro trimestre de 2015. Esta discrepância mostra claramente o maior desafio dos jornais: transformar aquele internauta que dá com os costados no site por acaso – e por isso não despende muito tempo nele – em assinante, um cara que, em geral, fica mais tempo no sítio, lendo mais do que uma simples matéria.

 

RECEITAS

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Como a Associação Nacional dos Jornais dos EUA decidiu parar de divulgar as estatísticas de receita dos seus associados em 2013 (me pergunto o motivo…), os pesquisadores do PRC tiveram que usar outros dados para descobrir o faturamento dos jornais. Apelaram então as demonstrações das empresas com ações negociadas em bolsa (que, aliás, caíram de nove para sete nos últimos 10 anos). Estas companhias representam um quarto dos veículos em circulação por lá – não dá para calcular o total de receita, mas pode-se usar como parâmetro para o estudo de tendência.

Com base nestes dados, descobre-se que, em 2015, a indústria de jornais teve a sua maior queda em termos de receita desde o biênio 2008/2009, um tombo de 8% em anúncios (contra 15%, em 2008, e 27%, no exercício seguinte), com um minúsculo aumento de 1% no faturamento vindo da circulação. A situação poderia ter sido pior não fosse o crescimento das receitas de anúncios vindos das edições digitais. Segundo as cinco empresas que desagregam os dados entre estas e as não-digitais nos relatórios para a SEC (a CVM de lá), houve uma queda de 9,9% no faturamento nos anúncios “analógicos” contra redução de 1,7% nos digitais, em 2015. Dessa maneira, a publicidade digital passou a ser responsável por 25% do que entrou nos cofres das companhias nesta rubrica, crescimento de 8 pontos percentuais em cinco anos (gráfico abaixo).

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EMPREGO E NÚMERO DE VEÍCULOS

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Diante deste quadro, não é de espantar que o nível de emprego nas redações estadunidenses tenha caído. Os números com que a Pew trabalha são do censo realizado pela Sociedade Americana de Editores, cujo último levantamento foi realizado em 2014. Neste ano, a redução da força de trabalho foi de 10% em relação a 2013, quando já houvera um decréscimo de 3% em relação ao ano anterior. O número total de postos de trabalho nas redações dos EUA há dois anos atingia 32.900, uma perda de 20 mil postos de trabalho entre 1994 e 2004, representando 39% a menos jornalistas nas redações. O gênero, neste  caso, não fez diferença – as mulheres perderam tanto o emprego quanto os homens (mas continuam como minoria nas redações de lá – cerca de 35% são coleguinhas do sexo feminino. No quesito diversidade, os não-brancos perderam um pouco menos emprego, enquanto a percentagem deles continua em 13% nas redações.

Também era esperado o fechamento de jornais por dificuldades econômicas. Segundo os últimos números disponíveis, de 2014, havia 1.331 jornais com edições em dias de semana nos EUA, contra 1.457, em 2004 (-8,6%), redução que se estendeu àqueles que têm edições de domingo separadas, conforme o gráfico abaixo.

201606_State-of-the-News-Media-Report-2016 - número de jornais

 

 

Basicamente é isso. Como falei, porém, tem muito mais números de onde vieram estes. Dou a maior força para que você baixe o estudo pelo link lá de cima para dar uma estudada, pois, apesar das diferenças marcantes entre o mercado dos EUA e o do Bananão, alguns indicativos e desafios são os mesmos.

 

Luz!…Câmera!…Geopolítica!

“Se os fatos não se encaixam na teoria, modifique os fatos”. A blague de Albert Einstein sempre foi levada a sério no Departamento de Estado dos EUA, com uma pequena modificação: “se os fatos não se encaixam na teoria, faça-se um filme”. Assim, depois de “Avatar” – no qual “bons americanos” se uniam a “bons selvagens” para salvar um planeta-selva-amazônica da ganância de uns sujeitos maus feito picapaus -, Hollywood, que anda sem grana, prepara-se para dar mais uma mãozinha à política externa dos EUA (como nos velhos tempos da Guerra Fria).

Kathryn Bigelow, devidamente oscarizada por “Guerra ao terror”, começou a pré-produção de “Triple Frontier”, filme no qual ela pretende demonstrar que a comunidade árabe que vive entre Brasil Argentina e Paraguai financia o terrorismo internacional. Há anos, os americanos afirmam que essa conexão existe. O problema é que, mesmo usando todo o aparato da espionagem do século XXI – incluindo monitoramento eletrônico remoto, inclusive o Echelon – e do século passado (grampos, infiltração etc), nunca conseguiram provar nada.

“Então, por quê insistir?”, perguntará você.  Bem, do que a gente se lembra quando se fala em Foz do Iguaçu? Pois é, das cataratas, certo? Pois elas são a manifestação espetacular do Aquífero Guarani, a segunda reserva mundial de água (onde fica a primeira? Caramba! Como você é inteligente! Isso mesmo, na Amazônia).  A preocupação dos EUA em ter o controle desta imensa reserva de água doce (1,2 milhões de km²) é bem anterior a sua preocupação com o terrorismo internacional, mas, aproveitando o tema terror, firmou, em 2005, um acordo militar com o Paraguai, no qual, dentre outras, está uma cláusula em que os 500 militares americanos localizados na base de Mariscal Estigarríbia têm total imunidade. O governo de Fernando Lugo denunciou-o (no sentido diplomático, de rejeitar), em setembro de 2009, e o mundo lhe caiu sobre a cabeça.

Como  também não tem encontrado apoio no Brasil e na Argentina, o Departamento de Estado, então, resolveu apelar para a sua segunda arma mais potente (perde apenas para as bombas de hidrogênio): Hollywood.

Não perca os emocionantes novos capítulos de mais este  seriado!